Ano 5, N. 56 - 01 de setembro de 2005

                                                                                                                          

A História da Publicidade em Presidente Prudente – SP

 

Fábio Figueiredo de Medeiros (UNIMAR) e Dra. Lucilene dos Santos Gonzáles (UNIMAR/UNESP)

INTRODUÇÃO

Sem medo de errar, podemos afirmar que nossa vida é hoje, mediada pela publicidade, parte integrante do complexo universo da comunicação de massa. Os vestígios da publicidade podem ser encontrados em nossos hábitos, em rituais como presentear, receber, vestir, alimentar-se e em formas de lazer e cultura física que ela fundamentalmente se faz sentir.

Assim, torna-se importante conhecer a história da publicidade no Brasil. A partir de leituras, bem como da participação em discussões, seminários e congressos, percebeu-se, no entanto, que os estudos sobre esse assunto são escassos; quase não há registro escrito e material que descreva e sistematize principalmente a história da publicidade nas cidades afastadas das capitais.

Diante disso, o propósito dessa pesquisa é, por meio do método histórico-descritivo, registrar a história da publicidade na cidade de Presidente Prudente, um município com 200 mil habitantes, localizado na região oeste do Estado de São Paulo.

Esse trabalho perfazerá as seguintes etapas:

  1. Breve história política, econômica e social da cidade que sedia a/s agência/s,
  2. História das agências de publicidade da cidade

          2.1 Fundadores,perfis, formação (fotos, quando houver).

          2.2 Localização, instalações.

          2.3 Principais clientes.

          2.4 Principais ações desenvolvidas.

          2.5 Contribuições ao desenvolvimento das comunicações na                  cidade/região.

          2.6 Prêmios.

          2.7 Endereço comercial, fone, endereço eletrônico.

          2.8 Marca da agência e slogan, quando houver.

  3. Identificação de estudos publicados sobre essas agências (revistas comemorativas, jornais locais e regionais, trabalhos científicos em universidades, e outros).
  4. Entrevistas, quando possível, com fundadores das agências.
  5. Coleta de documentos históricos (fotos antigas/recentes, contratos, anúncios antigos/recentes veiculados na mídia).
  6. Interfaces com o jornalismo, procurando a opinião de donos de jornais, emissoras de rádio ou televisão, para identificar que tipo de contribuição as agências deram para a valorização do campo comunicacional na cidade e região.

Como esta pesquisa está em fase inicial, estão sendo utilizados recursos materiais fornecidos pelas agências locais, depoimentos de pessoas que iniciaram essa atividade na cidade, jornais, sites locais e outras fontes que surgirão no decorrer da pesquisa.

Será tomado o cuidado de nos depoimentos se comparar as informações recolhidas nestes com as disponíveis nas fontes escritas, evitando a subjetividade e parcialidade pertinentes à memória dos protagonistas dessa história.

O presente estudo tem, em essência, um caráter quantitativo, porém, em alguns momentos será necessária a intervenção qualitativa. No final da descrição, será feita uma reflexão sobre a atuação dessa atividade no interior em relação aos conceitos e agências das grandes capitais.

A seguir será exposta a primeira fase desse trabalho, relacionando a história da cidade com a história da publicidade.

 

2. Breve histórico da cidade de Presidente Prudente, do aparecimento dos meios de comunicação e da Publicidade.

Tornada um só município em setembro de 1917, as vilas Marcondes e Goulart não eram em tudo típicas vilas do interior. Distritos rivais, a cidade uniu duas concepções e uma disputa que a partir de seus primórdios ajudou Presidente Prudente a crescer, pois as duas vilas e seus "coronéis" queriam ser a parte central e mais importante da cidade.

Neste panorama, a cidade, com menos de 1000 habitantes, não possuía meios de comunicação de massa próprios, vindo esses com os jornais da capital, como o "O Estado de S. Paulo", "Correio Paulistano" e "Jornal do Comércio", mesmo assim, apenas após 1920.

Sem meios de comunicação, a Publicidade praticamente não existia. Havia sim a propaganda! Propaganda ideológica e política dos líderes locais, os "coronéis", e a religiosa e milenar propaganda evangelizadora dos católicos, sempre proselitista. Mas a propaganda comercial (ou publicidade) nessa época se resumia a tímidos bate-bocas de um comerciante mais atencioso e de um ou outro letreiro mais vistoso, entre as ruas poeirentas de um pequeníssimo centro comercial.

Por volta de 1920, começaram a chegar os panfletos, em sua maioria de caráter político e governamental. Eram geralmente comunicados, voltados à população, impressos nos grandes centros e chegavam, como os jornais, de trem, como afirma Deodato da Silva:

"(...) as pessoas que necessitavam, após a fundação de Presidente Prudente, (...) recorriam aos jornais hoje centenários, no caso o Estado de São Paulo, que era a única mídia impressa disponível, na época, para atender todo São Paulo." [1]

Diferente da técnica publicitária, a propaganda é basicamente fruto de idéias e da vontade de contá-las, e assim existe na sociedade há milhares de anos. E a fundação das vilas não nasceu por mero acaso, foi fruto de planejamento, de ideais, propaganda e até certo grau, publicidade.

Em 1919, Companhia de Colonização de José Soares Marcondes divulgou em jornais no país e mesmo no exterior a venda de terrenos no loteamento das altas terras da linha Sorocabana, que mais tarde viria a ser a Vila Marcondes. O texto era claramente persuasivo e veio a atrair muitos moradores para aquela região.

Na segunda década de emancipação, Presidente Prudente começava a ter certa importância regional, suas terras se valorizavam e atraíam cada vez mais pessoas. O centro comercial se expandia e a cidade crescia em volta da estação ferroviária, graças principalmente ao café.

Nesse período, começava a existir comunicação em Presidente Prudente, vinda de trem em sua maior parte, por meio de cartazes de refrigerantes para pontos-de-venda, panfletos e os jornais da capital começavam a conviver com novas formas de comunicação local, como a faixa de rua e os muros pintados. Era o início da comunicação na cidade.

Apesar disso, vale lembrar que foi um período bastante difícil na história da cidade; a crise de 1929, além da instabilidade política, levou o Estado de São Paulo a uma revolução armada em 1932 para a qual Presidente Prudente mandou tropas e apoiou com entusiasmo o que acabou tendo conseqüências sérias na economia local. De um lado, a crise de 1929 fez crescer o interesse na notícia, no jornalismo econômico e de guerra, e por outro lado, acabou trazendo dificuldades aos grandes investimentos locais no setor de comunicação da cidade.

Com a guerra e a política, surgia também uma nova elite, não a tradicional oligarquia cafeeira, que apesar de falida, mantinha privilégios na tradição. Emergia uma pequena burguesia do comércio, expandiu-se a quantidade de imigrantes com nível razoável de instrução e escolaridade e tornou-se cada vez mais comum o número de forasteiros, muitos deles migrantes do nordeste do Brasil e do sul de Minas Gerais, dispostos a empreender e ficar ricos.

Pessoas mais críticas e mais politizadas, uma minoria que, com os proprietários de terra, deixava fértil o terreno para futuros meios de comunicação na cidade.

Com um bom ritmo de crescimento, em 1940, Presidente Prudente possuía aproximadamente 12.637 habitantes na área urbana, que se somavam aos 57.879 habitantes residentes no restante do município. Neste contexto, começavam a dar frutos pequenos empreendimentos: hotéis, anos mais tarde, cinema e, claro, um comércio mais diversificado. Profissionais liberais aportavam na cidade e o progresso a enchia de otimismo.

Segundo o comunicador Altino Correia, entre os meios que já existiam, foi instalado um sistema de alto-falantes, no mercado rodoviário, um local bastante movimentado, próximo à ferrovia, onde havia diversos restaurantes, lojas e um grande fluxo de pessoas, entre moradores e recém-chegados.

"Aqui existiu, por exemplo, alto-falantes no mercado rodoviário, que era um conjunto no terminal rodoviário, seria uma espécie de um shopping, com restaurantes, lojas e atendimento de profissionais (...) isso na década de 30, por aí...então se transformou num núcleo comercial que tinha de tudo e como o pessoal usava o transporte rodoviário, o ônibus...a jardineira, então ele saltava no terminal onde ele podia encontrar de tudo naquele reduto, formando uma espécie de um conglomerado (...) de um "shopping" e ouvia os alto-falantes dali." [2]

 

Foi também neste período, que Heitor Graça, vindo de Guarucaia (Presidente Bernardes, cidade vizinha de Presidente Prudente) fundou, com seu amigo, Manoel Honofre de Andrade, um pequeno jornal, um contraponto aos panfletos parciais impressos por políticos. Assim nasceu, em fevereiro de 1939, "O Imparcial".

"Um jornal que tem sobrevivido por 63 anos a todas as crises políticas e econômicas do País, dependendo exclusivamente de suas receitas em anúncios e de sua circulação paga, conquistou sua independência, não estando, pois, atrelado a grupos políticos e econômicos. Como resultado dessa postura, é hoje credor de grande credibilidade regional." [3]

Outro pioneiro da comunicação foi Manoel Bolssacos. Impulsionado pelo otimismo e pelo progresso, fundou a primeira rádio da cidade de Presidente Prudente, a Rádio Difusora, PR-5, a "Voz do Sertão", como era chamada. Bolssacos teve nessa implantação inúmeros apoios, pessoas que ansiosas, viam com alegria a chegada de uma estação de rádio na cidade, pois, até então, esse meio estava em seu auge como mídia e possuía grande prestígio. O técnico em eletrônica e dono da Major Equipamento em Eletrônica, Mathias Ben Hart, ajudou na implantação técnica e compra dos aparelhos.

A implantação da rádio e do jornal fez Presidente Prudente evoluir bastante na área comunicacional. Muitos profissionais de comunicação gráfica e eletrônica chegaram à cidade, e outros, moradores do município e da região, ingressaram no setor. A música, as notícias locais, tudo era novo e fascinava a todos.

Vale lembrar que, com o aparecimento da Rádio Difusora, dos alto-falantes e do jornal chega a Presidente Prudente também a função de vendedor de espaço publicitário. Até o termo publicidade era pouco usual, e os reclames, anúncios e patrocínios tinham de ser bem trabalhados na mente de um cliente nada acostumado com o hábito de fazer propaganda.

A esta altura Presidente Prudente já se consolidara como uma grande cidade na região; seu comércio diversificara-se, pequenas indústrias se instalaram na cidade e já havia, além do rádio, os jornais semanais e bissemanais, e também uma dezena de pintores de faixas e muros.

Apesar disso, os anunciantes continuavam sendo em sua maioria firmas de pólos maiores, com filial na cidade, como concessionárias, bancos e algumas poucas indústrias. O profissional de comunicação era quem muitas vezes saía às ruas para vender a publicidade, trabalho árduo que consistia em convencer o empresário a investir em uma promessa de retorno. Sem informações sobre público e audiência, a resposta dependia da confiança do anunciante no vendedor e/ou na sua chamada "força persuasiva". Dessa forma, os vendedores, que muitas vezes eram os próprios locutores, ou repórteres do jornalismo impresso, ganhavam uma porcentagem sobre a venda, além do salário fixo empregatício no final do mês. Eram assim chamados corretores ou agenciadores de Publicidade, como afirma Correia:

"Antes o vendedor de publicidade teria de vender seu próprio programa, principalmente em rádio. Ele fazia o programa, se comunicava e conseqüentemente tinha acesso aos anunciantes, dos quais ele angariava a publicidade necessária para manter o programa e ganhar, além do trabalho dele de profissional, também uma participação na renda da publicidade vendida". [2]

Em 1954, a Rádio Difusora ganha sua concorrente na cidade, a Rádio Presidente Prudente e esquenta ainda mais o mercado de comunicação. Apesar da briga entre as duas, seus preços, devido ao alto custo de manutenção e pessoal, eram elevados para a maior parte das empresas, que fugiam para outras soluções de mídia. Uma delas, que chegou em Presidente Prudente na segunda metade da década de 50, era o carro-de-som, ou "voante" como era mais conhecido.

Um episódio também desse período foi a segunda venda do jornal "O Imparcial", desta vez de Edgard Ângelo Zilocchi para Roberto Santos5.

Faz-se necessário esclarecer que a Publicidade até então existia como função, extensão do trabalho do comunicador, na maioria das vezes, ou para corretores do próprio veículo e era a conseqüência menor da existência de meios de comunicação local.

Já no final da década de 50, muitos desses profissionais, vendo a necessidade de se trabalhar uma publicidade menos restrita a um só veículo, resolvem abrir firmas próprias para agenciar a empresa anunciante em diversos meios, abrindo assim o leque para um mix de comunicação. Essas firmas, de forma alguma, eram "agências de publicidade", no sentido moderno do termo, mas firmas de papel, com sede, em sua maioria, na residência do vendedor e que servia apenas para que sua venda fosse desvinculada de um só veículo.

 

 

A principal característica da década de 60 foi a consolidação do setor comunicacional de massa em Presidente Prudente.

Pode-se dizer que os meios tradicionais de comunicação de massa já existiam na cidade, entre os principais encontravam-se as rádios que, com a chegada da rádio Piratininga, já eram três e, até mesmo, os inúmeros impressos, que surgiram e desapareciam, na maioria das vezes, antes da segunda edição. Além desses meios, podem-se citar mídias menores, que são retratos daquela época, como por exemplo, o folhetinho jornalístico do cinema, feito por João Flores, que circulou num curto período entre 1965/ 66 nos cinemas da cidade. Segundo Flores:

(...) o cinema era o ponto de encontro dos jovens então (...) eu criei um "jornalzinho", quando tinha uns 14 anos, que era uma forma de inter-relacionamento, uma forma de ter assunto, durante o "flerte" no cinema (...) até como eu não acredito em horóscopo e copiava-os dos grandes jornais do país, às vezes colocava coisas positivas no meu horóscopo e no da minha namorada também" [4]

 

Locutores como o santista Nenê Rodrigues, Helio Athia, Sérgio Antônio, Galileu Silva, Mauro Morais e Altino Correia faziam sucessos com seus programas entre os ouvintes e anunciantes (já que a maior parte deles também vendia publicidade).

No meio jornal, "O Imparcial" disputava espaço com seu concorrente mais forte, o "Correio da Sorocabana" e já eram dois ou três carros volantes disputando de forma acirrada a publicidade dos poucos anunciantes.

Deve-se deixar claro que, apesar de a comunicação de massa alcançar aqui o início de uma maturidade, a Publicidade como setor ainda não existia, pois era ainda, uma função, dentre as muitas dos funcionários e proprietários dos veículos, muitas vezes travestidos de corretores de publicidade. A criação, por exemplo, ficava a cargo dos veículos, como os arte-finalistas dos jornais e seus past-ups e os próprios locutores das rádios, pintores de faixas e letreiros e donos de carros de som.

Foi só no final da década de 60 que alguns agenciadores de Publicidade e Propaganda com apoio d’ "O Imparcial" resolveram formar uma equipe, espelhada no que já acontecia na capital paulista, e assim nasceu, o que pode se chamar da primeira agência de Presidente Prudente, a NIP, Nova Imagem Propaganda, formada por Antônio Sérgio Rodrigues, Rubens Shirazo e Altino Correa,. Segundo Deodato:

"A idéia de agência de Publicidade e Propaganda chegava apenas nos grandes centros, como São Paulo e Rio de Janeiro, nas quais nós tínhamos programações remetidas e agenciadas por estas instituições. Não havia em Presidente Prudente, quando eu cheguei no jornal, qualquer idéia de Publicidade. Aliás, ali nasceu a idéia de desenvolvermos uma agência, pensando egoisticamente no jornal "O Imparcial", para darmos maior transparência à negociação com os clientes, porque o jornal não tinha vocação para isso, nós tínhamos que cuidar mesmo das condições redatoriais do jornal e impressão gráfica do jornal e nós não tínhamos gente especializada para este atendimento. Então alguns profissionais que trabalhavam no meio jornal, nas áreas de redação, até na área comercial, se juntaram, na época, isso por volta de 68 a 74, para montar esta empresa." [1]

No início da década de 70, o Brasil passava por uma fase de forte crescimento econômico e Presidente Prudente não ficou alheia a este crescimento. Sua população cresceu e o desenvolvimento da cidade também. Indústrias surgiram, o comércio se expandiu e a publicidade, como conseqüência do amadurecimento econômico tomava perfil de uma área própria, dentro da Comunicação Social.

Foi nessa época que surgiu a Guld, segunda agência de Publicidade de Presidente Prudente e para muitos a primeira (já que a NIP era bastante atrelada ao jornal "O Imparcial", funcionando inclusive, dentro de sua sede, na rua Siqueira Campos).

Segundo João Flores, a Guld Artes Publicitárias foi fundada em 1973 por ele e José Luiz e funcionou inicialmente na rua Nicolau Maffei, no centro de Presidente Prudente. Vale ressaltar que as duas agências, NIP e a Guld, disputavam os principais anunciantes locais da época, como a Goydo - indústria do segmento de implementos rodoviários -, o Sindicato Rural, a Liane - indústria de alimentos - e a própria Prefeitura. Mas enquanto a Guld tinha um perfil mais voltado para a publicidade gráfica (panfleto, cartazes), a NIP trabalhava principalmente com o jornal "O Imparcial" e as rádios da cidade.

Assim mesmo, essa concorrência teve vida curta, pois já na primeira metade da década a NIP fechou suas portas e a Guld reinou sozinha em Presidente Prudente, competindo apenas com agenciadores e afins. Na metade posterior da década de 70, novas agências surgem na cidade, mas todas de vida efêmera.

Todas essas agências tinham estrutura pequena, mas copiavam e tentavam adequar em tudo o esquema de agências de propaganda dos grandes centros.

Outra faceta importante a desabrochar nesse período foi as primeiras "houses agencies", ou seja, departamentos de publicidade internos das grandes empresas. Elas próprias (empresas) formavam equipes de publicitários para cuidar de sua imagem e comunicação, dispensando qualquer auxílio terceirizado, como traduz bem Deodato Silva:

"Surgira então uma idéia (...) das houses, as empresas montaram suas próprias agências para suprir suas necessidades mais urgentes e talvez para buscar economia no processo de produção de peças tanto para rádio, quanto para TV e jornal (...)" [1]

No início da década de 80, Presidente Prudente já possuía 129.646 habitantes (dados do IBGE), era uma das grandes cidades, não só da região, mas de todo o interior do estado de São Paulo. Capital da Alta-Sorocabana, como era conhecida, a cidade já possuía uma infra-estrutura considerável em veículos de comunicação e algumas agências de publicidade e propaganda. Foi também nesta ocasião, mais especificamente em fevereiro de 1982, que o jovem Mario Henrique Neger, funcionário da house organ do grupo Pontalt, resolveu abrir sua própria agência, a Dispert Propaganda, que tomaria o lugar da Guld, fechada no mesmo ano, como a melhor agência da cidade.

Além da Dispert, nessa década, surgiram novas agências como a Dez Propaganda, MD2 e a Ascensão, além de outras que duravam entre um a dois anos. Essas agências tinham estrutura bastante diferenciada das da capital, possuíam apenas departamentos de criação, past up, atendimento, tráfego e marcadores de layout. O atendimento fazia a mídia, muitas vezes com o veículo e havia muita "mão-de-obra braçal" dentro da agência. Sem a informatização, era preciso fazer as peças em tamanho natural. A única exceção eram os outdoors, considerados, na época, uma mídia de luxo [5]. O serviço de publicidade se especializava, mas isso não quer dizer que deixaram de haver agenciadores e contatos de veículos; muito pelo contrário, seu número aumentava a cada dia.

Uma característica do início dos anos 80 é o costume de chamar esses agenciadores de "Agências" e que foi definitivamente adotado (principalmente por eles próprios), pois apesar de não terem uma equipe, ou mesmo um escritório para tratar com clientes, eles tinham firmas abertas e representavam uma pessoa jurídica, ou seja, no caso uma agência de publicidade (pelo menos no papel) e ainda podiam pegar "carona" na credibilidade que as verdadeiras agências vinham ganhando com os anunciantes. Em agosto de 1987, outra agência surgiu em Presidente Prudente, a Promarke, do publicitário Mario Peretti que, juntamente com a Dispert, viria a disputar as maiores contas da área.

Tinha-se então a seguinte realidade:

- a figura do funcionário, vendedor de publicidade e propaganda dos próprios veículos, os chamados contatos comerciais, que muitas vezes tinham outra função dentro dos veículos, como era o caso dos locutores;

- os agenciadores ou corretores, donos de agências de papel e mais tarde ironizados com o apelido de "eugência", mas que obtinham comissão com a venda para os veículos;

- as agências pequenas e médias e, além disso, os intermediários, os agenciadores que estavam se tornando agências pequenas. Agências pequenas que se tornaram "eugências" e os contatos de veículos que abriam firmas ou iam trabalhar em agências médias.

Definitivamente estava formado o setor da Publicidade e Propaganda em Presidente Prudente.

Entre os meios de comunicação, dois empreendimentos que merecem destaque foram, primeiramente, a chegada da primeira emissora de TV com geração local, a TV Bandeirantes de São Paulo, que montou, em 1986 na cidade, seu estúdio e departamento comercial para a região do oeste paulista, abrangendo mais de 280 municípios do interior. E posteriormente, outra TV a transmitir na cidade foi a TV Cabo, em 1987, primeira emissora de TV a cabo a funcionar no Brasil.

Foi também na década de oitenta que se iniciou um período que viria a revolucionar toda a Publicidade: a era da Informática. Inicialmente restrita às áreas financeiras e administrativas das empresas, foi a partir de 1985 que essas máquinas se aproximaram dos meios de comunicação da cidade e das agências de publicidade e propaganda, principalmente com o CP500, CP400 color até outros modelos, cada vez mais avançados. Era o encerramento dos arte-finalistas sujos de tintas e dos tradicionais "past-ups", que faziam o romantismo e até o glamour artístico da profissão.

"A época das incômodas pranchetas de desenho, os guaches, o aerógrafo e o past up, que exigiam grande espaço físico e elevado consumo de tempo para criar, ficaram para trás e foram esquecidos com o advento do computador e de modernas ferramentas de marketing. A informatização, que tanta evolução levou ao mercado publicitário, também fez com que o glamour da propaganda se perdesse no tempo. Para os profissionais que acompanharam toda esta transformação, o romantismo do processo de criação cedeu lugar para os famosos bancos de imagens e programas de computador". [5]

Se os anos 80 foram de consolidação da publicidade, os anos 90 foram marcados pelo amadurecimento do mercado publicitário em Presidente Prudente, deixando de ser amplamente amador e passando assim a ter um planejamento, um marketing mais aprimorado e profissional. Produtores de vídeo surgem na cidade para preparar os comerciais de TV. Os computadores, cada vez mais modernos, facilitavam anúncios visualmente mais bem elaborados e muitas empresas começavam a se conscientizar da importância da publicidade profissional em seu dia-dia.

Foi nos anos 90 que chegou em Presidente Prudente uma afiliada da Rede Manchete, a TV Pontal Paulista, pertencente ao grupo Paulo Lima, sendo a segunda emissora de TV a se instalar na cidade. Infelizmente, a TV Manchete, enfrentando sérias dificuldades em todo o Brasil teve de fechar suas portas, o que não foi diferente em Presidente Prudente. Diante da concessão que recebera, o deputado Federal Paulo Lima logo conseguiu outra rede, que se instalou no mesmo local que a anterior em junho de 1994, a TV Fronteira Paulista, afiliada da Rede Globo e primeira emissora totalmente digital do país. É importante observar que a vinda da Globo para a cidade significou um profundo impacto nos procedimentos das agências locais, principalmente no que se refere ao planejamento de mídia e à produção comercial, já que a emissora carioca exigia uma seriedade e compromisso com o cliente por parte dessas empresas, o que muitas não tinham até então.

Nesse mesmo ano, também chegou o jornal "Oeste Notícias", do mesmo grupo, e que viria a ser, desde seu nascimento, o maior concorrente da história d’ "O Imparcial".

"Antes do lançamento foram produzidas algumas edições voltadas apenas à apreciação dos próprios jornalistas e dos técnicos em diagramação, paginação, pré-impressão e impressão feita num parque gráfico com equipamentos de última geração.
A idéia prosperou. Em pouco tempo o "Oeste Notícias" assumiu posição de vanguarda no mercado regional. Também se fez como referência para o Brasil, alimentando com informações e imagens a chamada grande imprensa a cada acontecimento regional de repercussão nacional, a exemplo dos conflitos fundiários no Pontal do Paranapanema." [6]

Nos anos 90, novas agências com diferentes perfis profissionais entraram no mercado, como a Talismã e a Cok. Muitas outras, em um outro extremo, sem alicerce e enfrentando forte concorrência, deixam de existir. Mas sem dúvida, o fato mais importante da década de 90, nesta área, foi a criação, em 1995, da Faculdade de Comunicação Social de Presidente Prudente, fornecendo ao campo um nível técnico e acadêmico superior e valorizando ainda mais a profissão de publicitário. Formando sua primeira turma no final de 1998, a faculdade elevou o nível da publicidade e propaganda na cidade e deu maior credibilidade aos negócios do setor, como afirma Correia:

 

"O que a gente percebe é que a abertura das faculdades de Comunicação também tornou possível revelar novos talentos, novos valores. São novas mentalidades, são jovens que alcançam esta arte com fé e coragem e que com sua vocação acabam se transformando em grandes publicitários, eles criam, trazem novas imagens, novas idéias, novos textos e novas fórmulas de comunicação que acabam provocando venda e produzindo resultados positivos. Então eu acho que as faculdades de Comunicação estão abrindo um novo horizonte, não só para o setor de comunicação, através dos seus veículos (...) mas dando condições de trabalhos a inúmeros profissionais (...) jovens que (...) certamente demonstrando vocação e conhecimento têm condições de produzir trabalhos de qualidade excepcional, logicamente superiores a tudo o que se fez nos dias passados". [2]

Se por um lado houve um incremento na esfera comunicacional, por outro lado criou-se uma grande rivalidade entre os profissionais com e sem diploma, que lutariam agora pelos mesmos anunciantes de sempre. É importante lembrar que a maioria desses clientes não estava realmente pronta para o nível de preparo teórico dos acadêmicos e nem disposta a pagar mais alto por um investimento a longo prazo com planejamento e mais compromisso.

Outro aspecto importante nos anos 90 foi o fortalecimento da informática no dia-a-dia dos publicitários, tanto como os diretores de arte, profissionais de mídia e afins. A Informática chegava forte em todo setor de comunicação.

Em 1996, chegou a Presidente Pudente a Prudente a primeira provedora de acesso a Internet, disponibilizando para diversas empresas e pessoas, especialmente para o setor comunicacional, a rede mundial de informação.

Na virada do milênio, Presidente Prudente, com 83 anos, já tinha um mercado comunicacional e mais especificamente um mercado publicitário consolidado. A Dispert e a Promarke tornaram-se as agências mais tradicionais da cidade, como elas a Talismã, nascida de ex-funcionários da Promarke, a Ciclo Comunicação, agência de uma ex-aluna da Facopp e a Genial Propaganda, formada por profissionais de TV que migraram para o mercado de agências. Além dessas, durante esse período, aproximadamente 120 agências eram cadastradas na Junta Comercial da cidade

No setor de veículos de comunicação de massa, Presidente Prudente é hoje a grande geradora de informações da região. Transmite com qualidade som e imagem a mais de 300 municípios com grande tecnologia e alta velocidade, além de possuir um sofisticado sistema de telefonia e rede de internet via satélite. Entre esses veículos, podem-se citar:

- quatro emissoras de televisão (a TV Fronteira Paulista, afiliada a Rede Globo de televisão, a TV Bandeirantes de Presidente Prudente, ou Band, a TV Educativa e a TV Cabo, além de outras emissoras que não tem estúdios e sede local na cidade, mas possuí escritórios comerciais, como a TVI de Araçatuba e a TV Cultura de São Paulo);

- dois jornais diários ("O Imparcial" e "Oeste Notícias");

- nove emissoras de rádio, sendo três delas FM e as demais AM (entre elas podemos citar a 101 FM, 98 FM e 91 FM, além da Comercial AM, Rádio Prudente AM entre outras);

- duas revistas (Destaque e Opção);

- três produtoras comerciais de VTs com estúdio;

- além de inúmeras gráficas e profissionais que direta ou indiretamente também produzem comunicação como carros-de-som, muros pintados, faixas, panfletos, ploters entre outros.

O setor empresarial também mudou. Se nas últimas três décadas, o mercado era limitado e 90% dos clientes negociavam diretamente com os veículos, hoje, devido principalmente a maior conscientização e credibilidade das agências para um trabalho profissional na área, pode-se dizer que a situação se inverteu e a grande maioria dos clientes procura, ou é procurada por agências de publicidade. E são elas que dão molde às campanhas e escolhem, a partir de um planejamento de mídia, os veículos mais adequados para os objetivos propostos.

3. Conclusão

Nesta etapa inicial do trabalho, pôde-se verificar que a evolução da Publicidade na cidade de Presidente Prudente acompanhou desde o surgimento do desenvolvimento econômico da cidade. A cidade de Presidente Prudente é hoje uma das maiores cidades do estado de São Paulo e em seus poucos mais de 80 anos conseguiu destaque nacional, principalmente na área agropecuária e industrial. Nesse contexto, a Publicidade foi fruto dessa maturidade econômica e conseqüência tardia de uma setorização da Comunicação Social. Setorização que vem alcançando, a cada dia que passa, um refinamento maior em relação ao atendimento e prestação de serviços as empresas (um exemplo disso é, entre algumas agências, a segmentação em apenas um setor de negócios: Marketing rural, publicidade em turismo ou elaboração de vitrines), mostrando que o processo evolutivo da Publicidade no município continua.

Assim, espera-se que este trabalho possa contribuir para esclarecer, num contexto temporal, um pouco do processo de desenvolvimento sócio-econômico do município e que a história da Publicidade de Presidente Prudente fique registrada dentre os estudos de comunicação no Brasil.

 

 

 

REFERÊNCIAS

[1] Entrevista com Deodato da Silva (diretor administrativo do jornal O Imparcial) realizada por Fábio F. de Medeiros em Presidente Prudente/ Dez.de 2004.

[2] Entrevista com Altino Correia (antigo comunicador de Presidente Prudente e diretor da ACMF Comunicação) realizada por Fábio F. de Medeiros em Presidente Prudente/ Dez.de 2004.

[3] http://www2.uol.com.br/oimparcial/hi03.htm

[4] Entrevista com João Toledo Flores (Publicitário e fundador da Guld Publicidade na década de 70) realizada por Fábio F. de Medeiros em Presidente Prudente/ Dez.de 2004.

[5] Revista Recall, Caderno – ESPECIAL: O saudosismo de uma época gloriosa – Edição 52.

[6] http://www.oestenoticias.com.br/.

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

PINHO, J. B. Propaganda Institucional: usos e funções da Propaganda e Relações Públicas. São Paulo: Ática, 1990.

SAMPAIO, R. Propaganda de A a Z: como usar a propaganda para construir marcas e empresas de sucesso. 2.ed. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

SANT’ANNA, A. Propaganda: teoria e técnica. Pioneira, 1999.

VESTERGAARD, T. & SCHRODER, K. A linguagem da propaganda. Trad. J. A. dos Santos. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

                                                                                                                          

 

 

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