Fábio Figueiredo de Medeiros (UNIMAR) e Dra. Lucilene dos
Santos Gonzáles (UNIMAR/UNESP)
INTRODUÇÃO
Sem medo de errar, podemos afirmar que nossa vida é hoje,
mediada pela publicidade, parte integrante do complexo
universo da comunicação de massa. Os vestígios da
publicidade podem ser encontrados em nossos hábitos, em
rituais como presentear, receber, vestir, alimentar-se e em
formas de lazer e cultura física que ela fundamentalmente se
faz sentir.
Assim, torna-se importante conhecer a história da
publicidade no Brasil. A partir de leituras, bem como da
participação em discussões, seminários e congressos,
percebeu-se, no entanto, que os estudos sobre esse assunto
são escassos; quase não há registro escrito e material que
descreva e sistematize principalmente a história da
publicidade nas cidades afastadas das capitais.
Diante disso, o propósito dessa pesquisa é, por meio do
método histórico-descritivo, registrar a história da
publicidade na cidade de Presidente Prudente, um município
com 200 mil habitantes, localizado na região oeste do Estado
de São Paulo.
Esse trabalho perfazerá as seguintes etapas:
- Breve história política, econômica e social da cidade
que sedia a/s agência/s,
- História das agências de publicidade da cidade
2.1 Fundadores,perfis,
formação (fotos, quando houver).
2.2 Localização,
instalações.
2.3 Principais clientes.
2.4 Principais ações
desenvolvidas.
2.5 Contribuições ao
desenvolvimento das comunicações na
cidade/região.
2.6 Prêmios.
2.7 Endereço comercial,
fone, endereço eletrônico.
2.8 Marca da agência e
slogan, quando houver.
- Identificação de estudos publicados sobre essas
agências (revistas comemorativas, jornais locais e
regionais, trabalhos científicos em universidades, e
outros).
- Entrevistas, quando possível, com fundadores das
agências.
- Coleta de documentos históricos (fotos antigas/recentes,
contratos, anúncios antigos/recentes veiculados na mídia).
- Interfaces com o jornalismo, procurando a opinião de
donos de jornais, emissoras de rádio ou televisão, para
identificar que tipo de contribuição as agências deram
para a valorização do campo comunicacional na cidade e
região.
Como esta pesquisa está em fase inicial, estão sendo
utilizados recursos materiais fornecidos pelas agências
locais, depoimentos de pessoas que iniciaram essa atividade na
cidade, jornais, sites locais e outras fontes que surgirão no
decorrer da pesquisa.
Será tomado o cuidado de nos depoimentos se comparar as
informações recolhidas nestes com as disponíveis nas fontes
escritas, evitando a subjetividade e parcialidade pertinentes
à memória dos protagonistas dessa história.
O presente estudo tem, em essência, um caráter
quantitativo, porém, em alguns momentos será necessária a
intervenção qualitativa. No final da descrição, será
feita uma reflexão sobre a atuação dessa atividade no
interior em relação aos conceitos e agências das grandes
capitais.
A seguir será exposta a primeira fase desse trabalho,
relacionando a história da cidade com a história da
publicidade.
2. Breve histórico da cidade de Presidente Prudente, do
aparecimento dos meios de comunicação e da Publicidade.
Tornada um só município em setembro de 1917, as vilas
Marcondes e Goulart não eram em tudo típicas vilas do
interior. Distritos rivais, a cidade uniu duas concepções e
uma disputa que a partir de seus primórdios ajudou Presidente
Prudente a crescer, pois as duas vilas e seus "coronéis"
queriam ser a parte central e mais importante da cidade.
Neste panorama, a cidade, com menos de 1000 habitantes,
não possuía meios de comunicação de massa próprios, vindo
esses com os jornais da capital, como o "O Estado de S.
Paulo", "Correio Paulistano" e "Jornal do
Comércio", mesmo assim, apenas após 1920.
Sem meios de comunicação, a Publicidade praticamente não
existia. Havia sim a propaganda! Propaganda ideológica e
política dos líderes locais, os "coronéis", e a
religiosa e milenar propaganda evangelizadora dos católicos,
sempre proselitista. Mas a propaganda comercial (ou
publicidade) nessa época se resumia a tímidos bate-bocas de
um comerciante mais atencioso e de um ou outro letreiro mais
vistoso, entre as ruas poeirentas de um pequeníssimo centro
comercial.
Por volta de 1920, começaram a chegar os panfletos, em sua
maioria de caráter político e governamental. Eram geralmente
comunicados, voltados à população, impressos nos grandes
centros e chegavam, como os jornais, de trem, como afirma
Deodato da Silva:
"(...) as
pessoas que necessitavam, após a fundação de Presidente
Prudente, (...) recorriam aos jornais hoje centenários, no
caso o Estado de São Paulo, que era a única mídia impressa
disponível, na época, para atender todo São Paulo."
[1]
Diferente da técnica publicitária, a propaganda é
basicamente fruto de idéias e da vontade de contá-las, e
assim existe na sociedade há milhares de anos. E a fundação
das vilas não nasceu por mero acaso, foi fruto de
planejamento, de ideais, propaganda e até certo grau,
publicidade.
Em 1919, Companhia de Colonização de José Soares
Marcondes divulgou em jornais no país e mesmo no exterior a
venda de terrenos no loteamento das altas terras da linha
Sorocabana, que mais tarde viria a ser a Vila Marcondes. O
texto era claramente persuasivo e veio a atrair muitos
moradores para aquela região.
Na segunda década de emancipação, Presidente Prudente
começava a ter certa importância regional, suas terras se
valorizavam e atraíam cada vez mais pessoas. O centro
comercial se expandia e a cidade crescia em volta da estação
ferroviária, graças principalmente ao café.
Nesse período, começava a existir comunicação em
Presidente Prudente, vinda de trem em sua maior parte, por
meio de cartazes de refrigerantes para pontos-de-venda,
panfletos e os jornais da capital começavam a conviver com
novas formas de comunicação local, como a faixa de rua e os
muros pintados. Era o início da comunicação na cidade.
Apesar disso, vale lembrar que foi um período bastante
difícil na história da cidade; a crise de 1929, além da
instabilidade política, levou o Estado de São Paulo a uma
revolução armada em 1932 para a qual Presidente Prudente
mandou tropas e apoiou com entusiasmo o que acabou tendo
conseqüências sérias na economia local. De um lado, a crise
de 1929 fez crescer o interesse na notícia, no jornalismo
econômico e de guerra, e por outro lado, acabou trazendo
dificuldades aos grandes investimentos locais no setor de
comunicação da cidade.
Com a guerra e a política, surgia também uma nova elite,
não a tradicional oligarquia cafeeira, que apesar de falida,
mantinha privilégios na tradição. Emergia uma pequena
burguesia do comércio, expandiu-se a quantidade de imigrantes
com nível razoável de instrução e escolaridade e tornou-se
cada vez mais comum o número de forasteiros, muitos deles
migrantes do nordeste do Brasil e do sul de Minas Gerais,
dispostos a empreender e ficar ricos.
Pessoas mais críticas e mais politizadas, uma minoria que,
com os proprietários de terra, deixava fértil o terreno para
futuros meios de comunicação na cidade.
Com um bom ritmo de crescimento, em 1940, Presidente
Prudente possuía aproximadamente 12.637 habitantes na área
urbana, que se somavam aos 57.879 habitantes residentes no
restante do município. Neste contexto, começavam a dar
frutos pequenos empreendimentos: hotéis, anos mais tarde,
cinema e, claro, um comércio mais diversificado.
Profissionais liberais aportavam na cidade e o progresso a
enchia de otimismo.
Segundo o comunicador Altino Correia, entre os meios que
já existiam, foi instalado um sistema de alto-falantes, no
mercado rodoviário, um local bastante movimentado, próximo
à ferrovia, onde havia diversos restaurantes, lojas e um
grande fluxo de pessoas, entre moradores e recém-chegados.
"Aqui existiu, por exemplo,
alto-falantes no mercado rodoviário, que era um conjunto no
terminal rodoviário, seria uma espécie de um shopping, com
restaurantes, lojas e atendimento de profissionais (...) isso
na década de 30, por aí...então se transformou num núcleo
comercial que tinha de tudo e como o pessoal usava o
transporte rodoviário, o ônibus...a jardineira, então ele
saltava no terminal onde ele podia encontrar de tudo naquele
reduto, formando uma espécie de um conglomerado (...) de um
"shopping" e ouvia os alto-falantes dali." [2]
Foi também neste período, que Heitor Graça, vindo de
Guarucaia (Presidente Bernardes, cidade vizinha de Presidente
Prudente) fundou, com seu amigo, Manoel Honofre de Andrade, um
pequeno jornal, um contraponto aos panfletos parciais
impressos por políticos. Assim nasceu, em fevereiro de 1939,
"O Imparcial".
"Um jornal que tem sobrevivido
por 63 anos a todas as crises políticas e econômicas do
País, dependendo exclusivamente de suas receitas em anúncios
e de sua circulação paga, conquistou sua independência,
não estando, pois, atrelado a grupos políticos e econômicos.
Como resultado dessa postura, é hoje credor de grande
credibilidade regional." [3]
Outro pioneiro da comunicação foi Manoel Bolssacos.
Impulsionado pelo otimismo e pelo progresso, fundou a primeira
rádio da cidade de Presidente Prudente, a Rádio Difusora,
PR-5, a "Voz do Sertão", como era chamada.
Bolssacos teve nessa implantação inúmeros apoios, pessoas
que ansiosas, viam com alegria a chegada de uma estação de
rádio na cidade, pois, até então, esse meio estava em seu
auge como mídia e possuía grande prestígio. O técnico em
eletrônica e dono da Major Equipamento em Eletrônica,
Mathias Ben Hart, ajudou na implantação técnica e compra
dos aparelhos.
A implantação da rádio e do jornal fez Presidente
Prudente evoluir bastante na área comunicacional. Muitos
profissionais de comunicação gráfica e eletrônica chegaram
à cidade, e outros, moradores do município e da região,
ingressaram no setor. A música, as notícias locais, tudo era
novo e fascinava a todos.
Vale lembrar que, com o aparecimento da Rádio Difusora,
dos alto-falantes e do jornal chega a Presidente Prudente
também a função de vendedor de espaço publicitário. Até
o termo publicidade era pouco usual, e os reclames, anúncios
e patrocínios tinham de ser bem trabalhados na mente de um
cliente nada acostumado com o hábito de fazer propaganda.
A esta altura Presidente Prudente já se consolidara como
uma grande cidade na região; seu comércio diversificara-se,
pequenas indústrias se instalaram na cidade e já havia,
além do rádio, os jornais semanais e bissemanais, e também
uma dezena de pintores de faixas e muros.
Apesar disso, os anunciantes continuavam sendo em sua
maioria firmas de pólos maiores, com filial na cidade, como
concessionárias, bancos e algumas poucas indústrias. O
profissional de comunicação era quem muitas vezes saía às
ruas para vender a publicidade, trabalho árduo que consistia
em convencer o empresário a investir em uma promessa de
retorno. Sem informações sobre público e audiência, a
resposta dependia da confiança do anunciante no vendedor e/ou
na sua chamada "força persuasiva". Dessa forma, os
vendedores, que muitas vezes eram os próprios locutores, ou
repórteres do jornalismo impresso, ganhavam uma porcentagem
sobre a venda, além do salário fixo empregatício no final
do mês. Eram assim chamados corretores ou agenciadores de
Publicidade, como afirma Correia:
"Antes o vendedor de
publicidade teria de vender seu próprio programa,
principalmente em rádio. Ele fazia o programa, se comunicava
e conseqüentemente tinha acesso aos anunciantes, dos quais
ele angariava a publicidade necessária para manter o programa
e ganhar, além do trabalho dele de profissional, também uma
participação na renda da publicidade vendida". [2]
Em 1954, a Rádio Difusora ganha sua concorrente na cidade,
a Rádio Presidente Prudente e esquenta ainda mais o mercado
de comunicação. Apesar da briga entre as duas, seus preços,
devido ao alto custo de manutenção e pessoal, eram elevados
para a maior parte das empresas, que fugiam para outras
soluções de mídia. Uma delas, que chegou em Presidente
Prudente na segunda metade da década de 50, era o
carro-de-som, ou "voante" como era mais conhecido.
Um episódio também desse período foi a segunda venda do
jornal "O Imparcial", desta vez de Edgard Ângelo
Zilocchi para Roberto Santos5.
Faz-se necessário esclarecer que a Publicidade até então
existia como função, extensão do trabalho do comunicador,
na maioria das vezes, ou para corretores do próprio veículo
e era a conseqüência menor da existência de meios de
comunicação local.
Já no final da década de 50, muitos desses profissionais,
vendo a necessidade de se trabalhar uma publicidade menos
restrita a um só veículo, resolvem abrir firmas próprias
para agenciar a empresa anunciante em diversos meios, abrindo
assim o leque para um mix de comunicação. Essas firmas, de
forma alguma, eram "agências de publicidade", no
sentido moderno do termo, mas firmas de papel, com sede, em
sua maioria, na residência do vendedor e que servia apenas
para que sua venda fosse desvinculada de um só veículo.
A principal característica da década de 60 foi a
consolidação do setor comunicacional de massa em Presidente
Prudente.
Pode-se dizer que os meios tradicionais de comunicação de
massa já existiam na cidade, entre os principais encontravam-se
as rádios que, com a chegada da rádio Piratininga, já eram
três e, até mesmo, os inúmeros impressos, que surgiram e
desapareciam, na maioria das vezes, antes da segunda edição.
Além desses meios, podem-se citar mídias menores, que são
retratos daquela época, como por exemplo, o folhetinho
jornalístico do cinema, feito por João Flores, que circulou
num curto período entre 1965/ 66 nos cinemas da cidade.
Segundo Flores:
(...) o cinema era o ponto de
encontro dos jovens então (...) eu criei um "jornalzinho",
quando tinha uns 14 anos, que era uma forma de inter-relacionamento,
uma forma de ter assunto, durante o "flerte" no
cinema (...) até como eu não acredito em horóscopo e
copiava-os dos grandes jornais do país, às vezes colocava
coisas positivas no meu horóscopo e no da minha namorada
também" [4]
Locutores como o santista Nenê Rodrigues, Helio Athia,
Sérgio Antônio, Galileu Silva, Mauro Morais e Altino Correia
faziam sucessos com seus programas entre os ouvintes e
anunciantes (já que a maior parte deles também vendia
publicidade).
No meio jornal, "O Imparcial" disputava espaço
com seu concorrente mais forte, o "Correio da Sorocabana"
e já eram dois ou três carros volantes disputando de forma
acirrada a publicidade dos poucos anunciantes.
Deve-se deixar claro que, apesar de a comunicação de
massa alcançar aqui o início de uma maturidade, a
Publicidade como setor ainda não existia, pois era ainda, uma
função, dentre as muitas dos funcionários e proprietários
dos veículos, muitas vezes travestidos de corretores de
publicidade. A criação, por exemplo, ficava a cargo dos
veículos, como os arte-finalistas dos jornais e seus past-ups
e os próprios locutores das rádios, pintores de faixas e
letreiros e donos de carros de som.
Foi só no final da década de 60 que alguns agenciadores
de Publicidade e Propaganda com apoio d’ "O Imparcial"
resolveram formar uma equipe, espelhada no que já acontecia
na capital paulista, e assim nasceu, o que pode se chamar da
primeira agência de Presidente Prudente, a NIP, Nova Imagem
Propaganda, formada por Antônio Sérgio Rodrigues, Rubens
Shirazo e Altino Correa,. Segundo Deodato:
"A idéia de agência de
Publicidade e Propaganda chegava apenas nos grandes centros,
como São Paulo e Rio de Janeiro, nas quais nós tínhamos
programações remetidas e agenciadas por estas instituições.
Não havia em Presidente Prudente, quando eu cheguei no jornal,
qualquer idéia de Publicidade. Aliás, ali nasceu a idéia de
desenvolvermos uma agência, pensando egoisticamente no jornal
"O Imparcial", para darmos maior transparência à
negociação com os clientes, porque o jornal não tinha
vocação para isso, nós tínhamos que cuidar mesmo das
condições redatoriais do jornal e impressão gráfica do
jornal e nós não tínhamos gente especializada para este
atendimento. Então alguns profissionais que trabalhavam no
meio jornal, nas áreas de redação, até na área comercial,
se juntaram, na época, isso por volta de 68 a 74, para montar
esta empresa." [1]
No início da década de 70, o Brasil passava por uma fase
de forte crescimento econômico e Presidente Prudente não
ficou alheia a este crescimento. Sua população cresceu e o
desenvolvimento da cidade também. Indústrias surgiram, o
comércio se expandiu e a publicidade, como conseqüência do
amadurecimento econômico tomava perfil de uma área própria,
dentro da Comunicação Social.
Foi nessa época que surgiu a Guld, segunda agência de
Publicidade de Presidente Prudente e para muitos a primeira (já
que a NIP era bastante atrelada ao jornal "O Imparcial",
funcionando inclusive, dentro de sua sede, na rua Siqueira
Campos).
Segundo João Flores, a Guld Artes Publicitárias foi
fundada em 1973 por ele e José Luiz e funcionou inicialmente
na rua Nicolau Maffei, no centro de Presidente Prudente. Vale
ressaltar que as duas agências, NIP e a Guld, disputavam os
principais anunciantes locais da época, como a Goydo -
indústria do segmento de implementos rodoviários -, o
Sindicato Rural, a Liane - indústria de alimentos - e a
própria Prefeitura. Mas enquanto a Guld tinha um perfil mais
voltado para a publicidade gráfica (panfleto, cartazes), a
NIP trabalhava principalmente com o jornal "O Imparcial"
e as rádios da cidade.
Assim mesmo, essa concorrência teve vida curta, pois já
na primeira metade da década a NIP fechou suas portas e a
Guld reinou sozinha em Presidente Prudente, competindo apenas
com agenciadores e afins. Na metade posterior da década de
70, novas agências surgem na cidade, mas todas de vida
efêmera.
Todas essas agências tinham estrutura pequena, mas
copiavam e tentavam adequar em tudo o esquema de agências de
propaganda dos grandes centros.
Outra faceta importante a desabrochar nesse período foi as
primeiras "houses agencies", ou seja, departamentos
de publicidade internos das grandes empresas. Elas próprias (empresas)
formavam equipes de publicitários para cuidar de sua imagem e
comunicação, dispensando qualquer auxílio terceirizado,
como traduz bem Deodato Silva:
"Surgira então uma idéia
(...) das houses, as empresas montaram suas próprias
agências para suprir suas necessidades mais urgentes e talvez
para buscar economia no processo de produção de peças tanto
para rádio, quanto para TV e jornal (...)" [1]
No início da década de 80, Presidente Prudente já
possuía 129.646 habitantes (dados do IBGE), era uma das
grandes cidades, não só da região, mas de todo o interior
do estado de São Paulo. Capital da Alta-Sorocabana, como era
conhecida, a cidade já possuía uma infra-estrutura
considerável em veículos de comunicação e algumas
agências de publicidade e propaganda. Foi também nesta
ocasião, mais especificamente em fevereiro de 1982, que o
jovem Mario Henrique Neger, funcionário da house organ
do grupo Pontalt, resolveu abrir sua própria agência, a
Dispert Propaganda, que tomaria o lugar da Guld, fechada no
mesmo ano, como a melhor agência da cidade.
Além da Dispert, nessa década, surgiram novas agências
como a Dez Propaganda, MD2 e a Ascensão, além de outras que
duravam entre um a dois anos. Essas agências tinham estrutura
bastante diferenciada das da capital, possuíam apenas
departamentos de criação, past up, atendimento,
tráfego e marcadores de layout. O atendimento fazia a
mídia, muitas vezes com o veículo e havia muita "mão-de-obra
braçal" dentro da agência. Sem a informatização, era
preciso fazer as peças em tamanho natural. A única exceção
eram os outdoors, considerados, na época, uma mídia de luxo
[5]. O serviço de publicidade se especializava, mas isso não
quer dizer que deixaram de haver agenciadores e contatos de
veículos; muito pelo contrário, seu número aumentava a cada
dia.
Uma característica do início dos anos 80 é o costume de
chamar esses agenciadores de "Agências" e que foi
definitivamente adotado (principalmente por eles próprios),
pois apesar de não terem uma equipe, ou mesmo um escritório
para tratar com clientes, eles tinham firmas abertas e
representavam uma pessoa jurídica, ou seja, no caso uma
agência de publicidade (pelo menos no papel) e ainda podiam
pegar "carona" na credibilidade que as verdadeiras
agências vinham ganhando com os anunciantes. Em agosto de
1987, outra agência surgiu em Presidente Prudente, a Promarke,
do publicitário Mario Peretti que, juntamente com a Dispert,
viria a disputar as maiores contas da área.
Tinha-se então a seguinte realidade:
- a figura do funcionário, vendedor de publicidade e
propaganda dos próprios veículos, os chamados contatos
comerciais, que muitas vezes tinham outra função dentro dos
veículos, como era o caso dos locutores;
- os agenciadores ou corretores, donos de agências de
papel e mais tarde ironizados com o apelido de "eugência",
mas que obtinham comissão com a venda para os veículos;
- as agências pequenas e médias e, além disso, os
intermediários, os agenciadores que estavam se tornando
agências pequenas. Agências pequenas que se tornaram "eugências"
e os contatos de veículos que abriam firmas ou iam trabalhar
em agências médias.
Definitivamente estava formado o setor da Publicidade e
Propaganda em Presidente Prudente.
Entre os meios de comunicação, dois empreendimentos que
merecem destaque foram, primeiramente, a chegada da primeira
emissora de TV com geração local, a TV Bandeirantes de São
Paulo, que montou, em 1986 na cidade, seu estúdio e
departamento comercial para a região do oeste paulista,
abrangendo mais de 280 municípios do interior. E
posteriormente, outra TV a transmitir na cidade foi a TV Cabo,
em 1987, primeira emissora de TV a cabo a funcionar no Brasil.
Foi também na década de oitenta que se iniciou um
período que viria a revolucionar toda a Publicidade: a era da
Informática. Inicialmente restrita às áreas financeiras e
administrativas das empresas, foi a partir de 1985 que essas
máquinas se aproximaram dos meios de comunicação da cidade
e das agências de publicidade e propaganda, principalmente
com o CP500, CP400 color até outros modelos, cada vez mais
avançados. Era o encerramento dos arte-finalistas sujos de
tintas e dos tradicionais "past-ups", que faziam o
romantismo e até o glamour artístico da profissão.
"A época das incômodas
pranchetas de desenho, os guaches, o aerógrafo e o past up,
que exigiam grande espaço físico e elevado consumo de tempo
para criar, ficaram para trás e foram esquecidos com o
advento do computador e de modernas ferramentas de marketing.
A informatização, que tanta evolução levou ao mercado
publicitário, também fez com que o glamour da propaganda se
perdesse no tempo. Para os profissionais que acompanharam toda
esta transformação, o romantismo do processo de criação
cedeu lugar para os famosos bancos de imagens e programas de
computador". [5]
Se os anos 80 foram de consolidação da publicidade, os
anos 90 foram marcados pelo amadurecimento do mercado
publicitário em Presidente Prudente, deixando de ser
amplamente amador e passando assim a ter um planejamento, um
marketing mais aprimorado e profissional. Produtores de vídeo
surgem na cidade para preparar os comerciais de TV. Os
computadores, cada vez mais modernos, facilitavam anúncios
visualmente mais bem elaborados e muitas empresas começavam a
se conscientizar da importância da publicidade profissional
em seu dia-dia.
Foi nos anos 90 que chegou em Presidente Prudente uma
afiliada da Rede Manchete, a TV Pontal Paulista, pertencente
ao grupo Paulo Lima, sendo a segunda emissora de TV a se
instalar na cidade. Infelizmente, a TV Manchete, enfrentando
sérias dificuldades em todo o Brasil teve de fechar suas
portas, o que não foi diferente em Presidente Prudente.
Diante da concessão que recebera, o deputado Federal Paulo
Lima logo conseguiu outra rede, que se instalou no mesmo local
que a anterior em junho de 1994, a TV Fronteira Paulista,
afiliada da Rede Globo e primeira emissora totalmente digital
do país. É importante observar que a vinda da Globo para a
cidade significou um profundo impacto nos procedimentos das
agências locais, principalmente no que se refere ao
planejamento de mídia e à produção comercial, já que a
emissora carioca exigia uma seriedade e compromisso com o
cliente por parte dessas empresas, o que muitas não tinham
até então.
Nesse mesmo ano, também chegou o jornal "Oeste
Notícias", do mesmo grupo, e que viria a ser, desde seu
nascimento, o maior concorrente da história d’ "O
Imparcial".
"Antes do lançamento foram
produzidas algumas edições voltadas apenas à apreciação
dos próprios jornalistas e dos técnicos em diagramação,
paginação, pré-impressão e impressão feita num parque
gráfico com equipamentos de última geração.
A idéia prosperou. Em pouco tempo o "Oeste Notícias"
assumiu posição de vanguarda no mercado regional. Também se
fez como referência para o Brasil, alimentando com
informações e imagens a chamada grande imprensa a cada
acontecimento regional de repercussão nacional, a exemplo dos
conflitos fundiários no Pontal do Paranapanema." [6]
Nos anos 90, novas agências com diferentes perfis
profissionais entraram no mercado, como a Talismã e a Cok.
Muitas outras, em um outro extremo, sem alicerce e enfrentando
forte concorrência, deixam de existir. Mas sem dúvida, o
fato mais importante da década de 90, nesta área, foi a
criação, em 1995, da Faculdade de Comunicação Social de
Presidente Prudente, fornecendo ao campo um nível técnico e
acadêmico superior e valorizando ainda mais a profissão de
publicitário. Formando sua primeira turma no final de 1998, a
faculdade elevou o nível da publicidade e propaganda na
cidade e deu maior credibilidade aos negócios do setor, como
afirma Correia:
"O que a gente percebe é que
a abertura das faculdades de Comunicação também tornou
possível revelar novos talentos, novos valores. São novas
mentalidades, são jovens que alcançam esta arte com fé e
coragem e que com sua vocação acabam se transformando em
grandes publicitários, eles criam, trazem novas imagens,
novas idéias, novos textos e novas fórmulas de comunicação
que acabam provocando venda e produzindo resultados positivos.
Então eu acho que as faculdades de Comunicação estão
abrindo um novo horizonte, não só para o setor de
comunicação, através dos seus veículos (...) mas dando
condições de trabalhos a inúmeros profissionais (...)
jovens que (...) certamente demonstrando vocação e
conhecimento têm condições de produzir trabalhos de
qualidade excepcional, logicamente superiores a tudo o que se
fez nos dias passados". [2]
Se por um lado houve um incremento na esfera comunicacional,
por outro lado criou-se uma grande rivalidade entre os
profissionais com e sem diploma, que lutariam agora pelos
mesmos anunciantes de sempre. É importante lembrar que a
maioria desses clientes não estava realmente pronta para o
nível de preparo teórico dos acadêmicos e nem disposta a
pagar mais alto por um investimento a longo prazo com
planejamento e mais compromisso.
Outro aspecto importante nos anos 90 foi o fortalecimento
da informática no dia-a-dia dos publicitários, tanto como os
diretores de arte, profissionais de mídia e afins. A
Informática chegava forte em todo setor de comunicação.
Em 1996, chegou a Presidente Pudente a Prudente a primeira
provedora de acesso a Internet, disponibilizando para diversas
empresas e pessoas, especialmente para o setor comunicacional,
a rede mundial de informação.
Na virada do milênio, Presidente Prudente, com 83 anos,
já tinha um mercado comunicacional e mais especificamente um
mercado publicitário consolidado. A Dispert e a Promarke
tornaram-se as agências mais tradicionais da cidade, como
elas a Talismã, nascida de ex-funcionários da Promarke, a
Ciclo Comunicação, agência de uma ex-aluna da Facopp e a
Genial Propaganda, formada por profissionais de TV que
migraram para o mercado de agências. Além dessas, durante
esse período, aproximadamente 120 agências eram cadastradas
na Junta Comercial da cidade
No setor de veículos de comunicação de massa, Presidente
Prudente é hoje a grande geradora de informações da região.
Transmite com qualidade som e imagem a mais de 300 municípios
com grande tecnologia e alta velocidade, além de possuir um
sofisticado sistema de telefonia e rede de internet via
satélite. Entre esses veículos, podem-se citar:
- quatro emissoras de televisão (a TV Fronteira Paulista,
afiliada a Rede Globo de televisão, a TV Bandeirantes de
Presidente Prudente, ou Band, a TV Educativa e a TV Cabo,
além de outras emissoras que não tem estúdios e sede local
na cidade, mas possuí escritórios comerciais, como a TVI de
Araçatuba e a TV Cultura de São Paulo);
- dois jornais diários ("O Imparcial" e "Oeste
Notícias");
- nove emissoras de rádio, sendo três delas FM e as
demais AM (entre elas podemos citar a 101 FM, 98 FM e 91 FM,
além da Comercial AM, Rádio Prudente AM entre outras);
- duas revistas (Destaque e Opção);
- três produtoras comerciais de VTs com estúdio;
- além de inúmeras gráficas e profissionais que direta
ou indiretamente também produzem comunicação como
carros-de-som, muros pintados, faixas, panfletos, ploters
entre outros.
O setor empresarial também mudou. Se nas últimas três
décadas, o mercado era limitado e 90% dos clientes negociavam
diretamente com os veículos, hoje, devido principalmente a
maior conscientização e credibilidade das agências para um
trabalho profissional na área, pode-se dizer que a situação
se inverteu e a grande maioria dos clientes procura, ou é
procurada por agências de publicidade. E são elas que dão
molde às campanhas e escolhem, a partir de um planejamento de
mídia, os veículos mais adequados para os objetivos
propostos.
3. Conclusão
Nesta etapa inicial do trabalho, pôde-se verificar que a
evolução da Publicidade na cidade de Presidente Prudente
acompanhou desde o surgimento do desenvolvimento econômico da
cidade. A cidade de Presidente Prudente é hoje uma das
maiores cidades do estado de São Paulo e em seus poucos mais
de 80 anos conseguiu destaque nacional, principalmente na
área agropecuária e industrial. Nesse contexto, a
Publicidade foi fruto dessa maturidade econômica e
conseqüência tardia de uma setorização da Comunicação
Social. Setorização que vem alcançando, a cada dia que
passa, um refinamento maior em relação ao atendimento e
prestação de serviços as empresas (um exemplo disso é,
entre algumas agências, a segmentação em apenas um setor de
negócios: Marketing rural, publicidade em turismo ou
elaboração de vitrines), mostrando que o processo evolutivo
da Publicidade no município continua.
Assim, espera-se que este trabalho possa contribuir para
esclarecer, num contexto temporal, um pouco do processo de
desenvolvimento sócio-econômico do município e que a
história da Publicidade de Presidente Prudente fique
registrada dentre os estudos de comunicação no Brasil.
REFERÊNCIAS
[1] Entrevista com Deodato da Silva (diretor administrativo
do jornal O Imparcial) realizada por Fábio F. de Medeiros em
Presidente Prudente/ Dez.de 2004.
[2] Entrevista com Altino Correia (antigo comunicador de
Presidente Prudente e diretor da ACMF Comunicação) realizada
por Fábio F. de Medeiros em Presidente Prudente/ Dez.de 2004.
[3]