A trajetória de mais de 60 anos do rádio em Florianópolis
saiu das lembranças de ouvintes, ou de quem viveu no meio
radiofônico na cidade, para se eternizar nas páginas de um
livro. A obra "Caros Ouvintes", de autoria de Antunes
Severo e Ricardo Medeiros, foi lançado no dia 4 de agosto de
2005. O livro é uma co-edição da Editora insular e da
Associação Catarinense de Imprensa (ACI).
A idéia inicial dos escritores era que o livro abordasse apenas
os 60 anos do rádio na capital catarinense e arredores,
abrangendo o período de 1943, quando surgiu a pioneira Rádio
Guarujá, até 2003. No entanto, com o intuito de incluir as
novas emissoras que apareceram no cenário da Grande
Florianópolis e contemplar a mudança de programação de
algumas delas, a pesquisa foi ampliada até julho de 2004. Caros
Ouvintes concentra-se sobre as estações de rádio ditas
comerciais, que são a maioria, e cita ainda a única
representante das rádios educativas na região: a Rádio UDESC.
Os autores deixam de fora do estudo apenas as emissoras
comunitárias ou emissoras piratas.
A obra conta com uma introdução do professor, pesquisador e
escritor Celestino Sachet, que fala sobre "As Rondas do
Poder nas Ondas do Rádio". Através do texto, o leitor tem
um panorama sobre o cotidiano de Florianópolis nas
décadas de 1940, 1950 e 1960, época de guerra, do getulismo,
golpe militar e do controle das emissoras da capital por grupos
políticos.
Caros Ouvintes é dividido em duas partes, cada uma contemplando
três capítulos. O primeiro capítulo, "Os Pioneiros e a
Rádio Guarujá", faz inicialmente um breve relato sobre as
primeiras emissoras surgidas em Santa Catarina: Rádio Clube de
Blumenau (1936), Rádio Difusora de Joinville (1941) e Rádio
Difusora de Itajaí (1942). Em seguida, registra uma
tentativa frustrada de instalação de uma emissora de rádio em
Florianópolis, sob o comando da "Radiodifusão Brasileira
S.A". Na seqüência, o capítulo se dedica integralmente
à ZYJ-7, surgida em 1943, graças ao empreendedor Ivo Serrão
Vieira, que três anos mais tarde vende à estação para o
pessedista Aderbal Ramos da Silva, futuro governador do Estado.
Será pelas mãos deste político que a Guarujá vai reinar
soberanamente nas ondas do rádio da capital até os
primeiros anos da década de 1950.
O segundo capítulo, "Fim do Monopólio: surgem a Anita
Garibaldi e a RDM", dedica-se ao relato da trajetória das
emissoras que vão dividir as atenções do público com a
Guarujá. No ano de 1954 aparece a Rádio Anita Garibaldi, do
médico J. J. Barreto e no ano posterior é a vez de entrar no
ar a Rádio Diário da Manhã (RDM), da família
Konder-Bornhausen, ligada à União Democrática Nacional (UDN).
A partir do momento que a RDM passa a fazer parte da vida dos
Florianópolis, a Guarujá perde o seu posto de "mais
ouvida" para a emissora da ala udenista. É por este canal
que a população acompanha o programa de auditório Sequências
A Modelar, as radionovelas e o jornalístico Vanguarda.
No terceiro capítulo, "Novidades no Ar: Jurerê, A
Verdade e RSC" , são abordadas as demais estações que
aparecem no dial ainda em 1950 e uma outra que abre os seus
microfones na década de 1960. O capítulo se detém, primeiro
à história da Rádio Jurerê, do deputado Federal Elias Adaime,
do Partido Social Progressista (PSP). Surgida em 1957, a
emissora tem vida breve desaparecendo em 1959. Na seqüência,
são abordadas a Rádio Jornal A Verdade, do jornalista e
Deputado Estadual (PSP) Manoel de Menezes, que traça o seu
caminho a partir de 1958. No ano de 1962 é a vez da Rádio
Santa Catarina (RSC) povoar as ondas sonoras da capital,
ocupando a freqüência da Rádio Jurerê.
A segunda parte do livro traz o quarto capítulo, "Anos
Difíceis para as AMs e o Aparecimento das FMs". Neste
segmento, o leitor toma conhecimento de um período, nos anos
1970, em que as emissoras com amplitude modulada passam a
conviver com a chegada da televisão em Florianópolis.
Nessa época é instalada a TV Cultura. Posteriormente, as AMs
são obrigadas a dividir seu espaço também com as estações
em frequência modulada, que apresentam uma boa qualidade sonora,
ao contrário dos chiaços das outras emissoras.
O quinto e sexto capítulos foram escritos com o intuito de
traçar um perfil das emissoras AMs e FMs existentes na Grande
Florianópolis até o ano de 2004. Desta forma, o capítulo
cinco, "As AMs dos Anos 2000", engloba
oito estações de amplitude modulada, sendo seis delas
localizadas na capital catarinense e duas em São José.
Pertencem ao município de Florianópolis as rádios Santa
Catarina (que passou em 2005 a se chamar Rádio Bandeirantes),
Guarujá, CBN Diário, Difusora Gomes (que transmite a
programação da Rádio Gazeta), Cultura e Marumby. Na cidade
vizinha à capital estão situadas a Rádio Mais e a Rádio
Guararema.
Após uma análise da programação de cada emissora AM, os
autores distribuíram as rádios em quatro categorias:
popular, eclética, informativa e religiosa. Dentro da categoria
"popular" estão inseridas a Rádio Mais, Guararema e
Difusora Gomes, emissoras que colocam em prática uma grade de
programação quase que exclusivamente musical, com um
repertório direcionado sobretudo para o sertanejo, música
nativista, pagode e samba. Na categoria "eclética"
estão alinhadas as emissoras que mesclam principalmente
jornalismo, esporte e música. É o caso da Rádio Santa
Catarina (jornalismo e música) e Guarujá (esporte e música).
A única emissora considerada informativa é a CBN Diário, que
se dedica ao jornalismo e esporte, sem abrir espaço para o
setor musical. As estações Cultura - da Igreja católica
- e a Marumby - da igreja evangélica - estão ligadas à
categoria de rádio religiosas.
O sexto e último capítulo, "As FMs dos anos
2000", discorre sobre as estações em freqüência
modulada. Pertencente a esta modalidade, a região
contempla oito emissoras, número idêntico às estações AMs.
Destes canais em FM, sete deles são comerciais:
Itapema, Antena 1, Jovem Pan, Band FM, Novo Tempo, Rádio
99.3 FM e Atlântida. A única exceção fica por conta da
Rádio UDESC, que é uma emissora educativa e não
visa fins lucrativos. Entre o total de estações, duas
são vinculadas à igreja evangélica: a Novo Tempo e a Rádio
99.3 FM. Esta última emissora é a única que se localiza fora
da cidade de Florianópolis, tendo como sede o município de
São José.
Uma Provocação
Para Ricardo Medeiros, "a obra é uma das tantas possíveis
interpretações sobre a história do rádio em
Florianópolis, tão rica e cheia de nuances" .
Segundo o escritor, o trabalho contempla momentos da trajetória
das emissoras da região, tendo como ingredientes os
relatos e detalhes da programação "através das pessoas
que fizeram o rádio nesta terra de caso e ocaso, bem como via
ouvintes, periódicos e livros". Além disso, a obra reúne
fatos e personagens que moldaram o imaginário de várias
gerações.
Desta forma, o livro tem o caráter de servir como
instrumento de recuperação da memória deste veículo de massa.
O material é destinado a profissionais, pesquisadores e
estudantes da área de comunicação, bem como
a amantes do rádio e interessados em compreender o
entrelaçamento entre o meio radiofônico e a vida cotidiana em
Florianópolis.
O livro é também uma provocação, segundo o autor,
àquelas pessoas que construíram o rádio em Florianópolis e
que continuam - na opinião dele - de braços cruzados "eximindo-se
de dividir as suas experiências com o leitor da capital e de
outras partes do Estado".
O autor complementa o seu raciocínio. "O livro
é uma provocação a esses que dizem que não têm tempo para
escrever, fazer um rascunho sobre os anos dourados do rádio da
Grande Florianópolis, as mudanças sofridas pelo meio com o
advento da televisão ou sobre a situação atual do
veículo". Para Medeiros, "quanto mais calados essas
pessoas ficam, mais a história do rádio em Florianópolis se
perde no ar".
Perfil de Antunes Severo
Mestre em Administração pela Universidade do Estado de Santa
Catarina (UDESC), Antunes Severo dedica-se às atividades de
professor e pesquisador em cursos de pós-graduação de várias
universidades. É sócio-fundador do Instituto Caros Ouvintes de
Estudo e Pesquisa de Mídia.
Severo chegou em Florianópolis em 1956 como radialista. Fez
carreira na Rádio Diário da Manhã (atual CBN Diário) como
locutor, radioator, produtor e apresentador de programas de
auditório, repórter e noticiarista. Ele fundou na década de
1960, a Agência de Publicidade Propague. Mais tarde foi gerente
executivo em Florianópolis e Blumenau da RBS TV e RBS Rádios.
No jornal O Estado atuou como diretor Comercial e na TV
Barriga Verde foi gerente de Marketing.
Na área do serviço público foi chefe de gabinete da
Secretaria de Imprensa do Governo Antônio Carlos Konder Reis e
secretário de Comunicação Social do Governo de Pedro Ivo
Campos.
Perfil de Ricardo Medeiros
Ricardo Leandro de Medeiros é Bacharel em Comunicação Social
- Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina -
Florianópolis. Ele é também Especialista em Jornalismo pela
Universidade do Sul de Santa Catarina - Unisul -, campus de
Tubarão, e Mestre em História pela Université du Maine,
da cidade de Le Mans, França. Pela mesma instituição tornou-se
Doutor em Rádio no ano de 2004. É professor de radiojornalismo
da Faculdade Estácio de Sá de Santa Catarina e repórter da
Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura Municipal
de Florianópolis.
No campo da literatura escreveu três livros voltados para
o rádio. O primeiro deles foi "Dramas no Rádio: a
radionovela em Florianópolis durante as décadas de 50 e 60
(1998). A segunda obra assinada pelo escritor foi "História
do Rádio em Santa Catarina", em parceria com Lúcia Helena
Evangelista (1999). O outro livro de Ricardo Medeiros é "Zininho-
uma canção para Florianópolis", escrito com Dieve
Oehme e Cláudia Barbosa.
Fonte: www.carosouvintes.com.br