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O mau jornalismo de Hearst e
Pulitzer
Argemiro Ferreira
Tribuna da Imprensa
(13/12/2007)
A primeira coisa difícil de
entender em relação aos primeiros tempos do que se
batizou nos EUA de 'yellow journalism' (jornalismo
amarelo) é por que, se nasceu nos dois lados da briga
entre os jornais de William Randolph Hearst, o cidadão
Kane, e os concorrentes de seu rival Joseph Pulitzer, um
dos magnatas acabaria condenado à execração pública e o
outro celebrizado como prêmio de excelência no ofício.
Dificilmente alguém ousaria
contestar que, se praticado hoje, o jornalismo de
Pulitzer (1847-1911) dificilmente ganharia um prêmio
Pulitzer, cuja concessão é de responsabilidade da Escola
de Jornalismo da Universidade de Columbia, criada por
ele. O jornalismo do 'New York World' de Pulitzer, de
fato, não era diferente do praticado pelo rival 'New
York Journal', de William Randolph Hearst (1863-1951).
Os excessos de Hearst são
conhecidos em especial graças ao talento do cineasta
Orson Welles, ainda que seu filme - 'Cidadão Kane', de
1942, um marco na história do cinema - não tenha sido
declarado explicitamente uma biografia dele. Na guerra
da circulação entre Hearst e Pulitzer, os dois lados não
hesitavam sequer em contratar quadrilhas de gangsters
para explodir os caminhões de distribuição do rival.
Quadrinhos entram na
disputa
Na questão específica da cor
amarela, a iniciativa ironicamente foi de Pulitzer,
ainda no século 19, e não de Hearst. Inventadas as
máquinas de quatro cores na década de 1890, desenhos e
cartuns de humor tornaram-se muito populares - 'The
funny pages', ou simplesmente 'The funnies'. Hearst
passou a superar o rival nesse campo, com presença forte
da sátira política.
O desenhista Richard Felton
Outcault (1863-1928), inicialmente um artista técnico,
atraíra a atenção de Thomas Edison, que em 1889 o
contratara para integrar o grupo dedicado a exposição
itinerante sobre a luz elétrica. Quando a viagem de
Edison se estendeu a Paris, Outcault passou alguns meses
no Quartier Latin, alimentando o sonho de tornar-se
pintor profissional e somar-se à explosão criativa do
período.
De volta aos EUA, no
entanto, contentou-se inicialmente com um emprego na
revista 'Electrical World'. Atento aos 'Funnies',
começou a enviar desenhos aos jornais. O 'World' de
Pulitzer publicou sua primeira colaboração em 1894. No
ano seguinte, o jornal o contratou para desenhar tira
regular, para a qual a inspiração dele eram os
imigrantes estrangeiros que transformavam o panorama da
cidade.
Dos personagens criados
então, o que conquistou o público foi um garoto que
'falava' não na forma de balões como os quadrinhos de
hoje, mas em textos (linguagem popular, deliberados
erros de ortografia) colocados em sua camisola larga e
comprida. Antes, era em preto e branco. Depois, a
camisola mudava de cor - do marrom claro ao azul, tons
desbotados, pouco definidos.
Nasce um herói
diferente...
Quem controlava as cores na
impressora do 'World' era um certo Charles Saalberg.
Descontente com o que estava sendo feito, ele resolveu
tentar uma cor amarela bem viva na camisola do menino.
Foi um sucesso. O personagem - que, apesar de quase bebê
tinha nome, Mickey Dugan - virou então o 'yellow kid'
(garoto amarelo), tornando-se a atração maior do jornal
de Pulitzer.
Passou ainda a simbolizar os
extremos a que chegavam Pulitzer e Hearst na guerra de
circulação. E a cor usada na tira tornou-se emblemática
do jornalismo que os dois praticavam na obsessão de
vender jornal e fazer dinheiro, inclusive pelaferocidade
com que brigaram pelo personagem.
O garoto seria até
personagem de um espetáculo da Broadway. Restou a Hearst
roubar Outcault do rival, com proposta irrecusável.
'Porque o suplemento colorido do `Journal' de domingo é
a melhor coisa que existe na terra?', dizia uma legenda
depois da troca. O desenhista só pediria registro do
copyright em 1896. Até lá, ia de um lado para o outro. E
afinal Pulitzer decidiu publicar o garoto sem Outcault,
a pretexto de que era o dono, pois o publicara primeiro.
A história do 'yellow kid'
não pára aí. Na esteira deOutcault vieram os 'Katzenjammer
Kids' de Rudolph Dirks - rebatizados de 'The Captain and
the Kids' (no Brasil, 'Sobrinhos do Capitão'). Os
personagens chegaram aos nossos dias - e a revolução dos
quadrinhos foi exportada dos EUA para o mundo. A cor
amarela continuou a ser a cor que definia o jornalismo
de escândalo, na linha de Hearst e Pulitzer.
... e a mídia fabrica uma
guerra
Nada impede que alguém, como
eu, tenha simpatia tanto pela trajetória de Outcault
como pelo amarelo. Ambos me fascinam. Mas os abusos de
Hearst e Pulitzer foram longe demais. O feito maior
deles seria fabricar em 1898 a guerra com a Espanha, que
a ficção de Orson Welles, pouco interessada nos
detalhes, só atribui a Charles Foster Kane - ou seja,
Hearst.
A verdade histórica, no
caso, está menos com Hollywood do que com um desenhista
menos conhecido que à época perpetuou para gerações
futuras um cartum eloquente. Esse artista anônimo
desenhou dois garotos com camisolas amarelas idênticas -
um com a cara de Pulitzer, o outro com a de Hearst. Os
dois, a brincar com cubos de letras, formam juntos a
palavra W-A-R (guerra).
Esse cartum retratou a
realidade daqueles dias. A guerra dos EUA contra a
Espanha foi fabricada pelos dois magnatas de mídia. Eles
se somaram na obsessão de motivar os americanos a apoiar
aquela guerra. Transformaram o coronel Ted Roosevelt em
herói nacional - e, mais tarde, um presidente obcecado
em criar um império a partir da tomada de Cuba, Porto
Rico e Filipinas.
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