Ano 6, N. 66 - 01 de junho de 2006

                                                                                                                          

Bicentenário da imprensa: fontes maranhenses

Sebastião Jorge (*)

O desmedido amor aos livros tem enriquecido a história da literatura, ora com desfechos trágicos, ora cômicos, e em alguns momentos, repassados de curiosidades. Miguel de Cervantes nos deu um Alfonso Quejana, que depois se incorporou na figura de dom Quixote, o qual perdeu o juízo de tanto ler. Por investir em livros de cavalaria ficou também sem a fortuna. Privado da leitura "que lhe havia enfeitiçado" morreu logo depois. Shakespeare criou o personagem Próspero, rei de um lugar qualquer do Reino Unido, digamos, da Cornuallha, e, que, por desprezar os negócios do Estado, pela leitura, foi punido com o exílio, para uma ilha no meio do oceano.

Luis Borges sonhou com uma "Biblioteca de Babel" transformada num só volume, com um número de páginas infinitas, para acesso de todos. Pelo visto, divisualizou os poderes da Internet, que propicia navegarmos pela Biblioteca do Congresso, em Washington, na qual se acha a história do mundo, a disposição de qualquer um.

Vem de ser lançado um livro de título esquisito – "Philoblibon", do reverendo Richard de Bury (1344), que não passa de um tratado de amor ao livro, quando a tipografia de Gutenberg (1450), não era nem um sonho. Bury deixou esta frase antológica sobre esse tipo de paixão: "Quanto tenho um pouco de dinheiro, compro livros e, se me sobrar algum, compro comida e roupas".

Com o historiador pernambucano Alfredo de Carvalho (1870 – 1916) que tem o nome ligado a uma Rede nacional de informações sobre a mídia, com vistas à comemoração dos 200 anos da imprensa no Brasil, data esperada com expectativa, em 2008, deu-se o contrário. Tinha muito dinheiro e investiu em livros e cultura e se esqueceu do pão nosso de cada dia. Foi a sua tragédia. Adiante explicaremos por que.

A homenagem é merecida, pelo trabalho realizado, nesse universo de estudos. A deferência adquiriu contornos de motivação no meio acadêmico de todo o país que trabalha para debater e levantar dados, para o resgate da memória da imprensa e a construção da história da mídia no Brasil que ofereçam uma visão ampla sobre os meios de comunicação em dois séculos, em particular, a partir do primeiro jornal, Correio Braziliense, de 1º de junho, editado por Hipólito da Costa.

O movimento da Rede Alfredo de Carvalho foi deflagrado desde o início do terceiro milênio. Envolve diversas instituições ligadas ao ensino, pesquisa ou outras entidades profissionais interessadas em cultura. São Luís sediará no corrente mês o IV Encontro Nacional da História da Mídia, com foco em A luta pela Liberdade de Imprensa no Brasil – Revisão crítica dos 300 anos de Censura, promovido pela Rede Alfredo de Carvalho com o apoio da Associação Maranhense de Imprensa – AMI. Na oportunidade serão apresentados trabalhos que tenham relação com as atividades midiáticas.

No século passado, por ocasião do centenário da imprensa (1808-1908), quem representou o Maranhão ao levantar informações sobre as publicações locais, com início em 1821, com O Conciliador, sob orientação daquele humanista, que coordenou os trabalhos em nível nacional foi o maranhense Augusto Olympio Viveiros de Castro, jurista, ministro do Supremo Tribunal Federal, autor de vários livros, e que resultou no Catálogo dos jornais, revistas e outras publicações periódicas do Maranhão.

Depois desse trabalho só apareceu outro, em 1981, no governo de João Castelo, tendo como secretário de Educação e Cultura, Antônio Carlos Beckman; presidente da Fundação Cultural do Maranhão, Arlete Nogueira da Cruz; diretora da Biblioteca Benedito Leite, Simone Lucília Andrade Macieira; e responsável pela seção de jornais, Celeste Amância Aranha e Silva, que contou com a colaboração de Maria de Jesus Martins Braga. O grupo bem que poderia ser ouvido sobre tão importante tarefa, que demandou tempo e muita paciência, cujo produto foi o catálogo: Jornais maranhenses / 1821-1987. Qualquer dado ou informação que se queira sobre periódicos locais só há um caminho: recorrer a essa publicação. Representa uma espécie de farol a indicar a direção para estudos dos nossos jornais. Ele é o nosso ABC para vôos maiores.

                                                                                                                          

 

 

O Jornal da Rede Alcar é uma publicação mensal da Cátedra Unesco/Metodista de
Comunicação para o Desenvolvimento Regional

www.metodista.br/unesco