Pioneiro da pesquisa científica sobre os fenômenos comunicacionais nas universidades brasileiras, Luiz Beltrão foi fundador do Instituto de Ciências da Informação - ICINFORM,  primeiro centro acadêmico nacional de estudos midiáticos, e de Comunicações & Problemas, primeira revista de ciências da comunicação (Universidade Católica de Pernambuco, 1963).  Tornou-se também o primeiro Doutor em Comunicação do Brasil (Universidade de Brasília - UnB -, 1967).

Sua obra ganhou reconhecimento nacional e prestígio internacional, nos âmbitos do jornalismo e comunicação de massa.

Foi ao mesmo tempo pesquisador, educador e divulgador científico. Produziu conhecimento midiático ancorado na vivência profissional.

Formou toda uma geração de professores e pesquisadores da comunicação. E converteu os resultados das suas pesquisas em material didático, difundido na sala de aula ou estocado em livros direcionados a jovens estudantes e profissionais.  
Tem uma vasta bibliografia comunicológica, sub-dividida em três segmentos:

a) Teoria e Pesquisa da Folkcomunicação

b) Fundamentos teóricos da Comunicação de Massa;

c) Teoria e pesquisa do Jornalismo. Além disso publicou livros de reportagem, contos e novelas, dedicando-se ao memorialismo na sua última fase de produção intelectual. Nascido em Olinda, Pernambuco, em 8 de agosto de 1918, faleceu em Brasília em 1986.

Teoria da Folkcomunicação[1]

 Luiz Beltrão[2]

Material retirado do livro: Folkcomunicação: teoria e metodologia.
São Bernardo do Campo: Umesp, 2004.

           Comunicação é o problema fundamental da sociedade contemporânea - sociedade composta de uma imensa variedade de grupos, que vivem separados uns dos outros pela heterogeneidade de cultura, diferença de origens étnicas e pela própria distância social e espacial.

            Os grupos constitutivos da sociedade ora estão organizados com uma missão específica a cumprir e interesses definidos a salvaguardar, como é o caso do Estado, da Igreja, do sindicato ou da empresa; ora são informais, ligados apenas espiritualmente por certas idéias filosóficas, interesses gerais e experiências comuns à espécie humana - como a Nação, os crentes, os trabalhadores, os consumidores. 

Há, entretanto, na sociedade contemporânea, não obstante as características próprias e os conflitos de interesses imediatos de cada grupo, uma unidade mental, decorrente da própria natureza humana dos seus componentes e de um universal consenso.  Os grupos acham-se, assim, vinculados a uma ordem semelhante de idéias e a um propósito comum: - adquirir sabedoria e experiência para sobreviver e aperfeiçoar a espécie e a sociedade.  Sabedoria e experiência, sobrevivência e aperfeiçoamento que só se conseguem mediante a comunicação, - o processo mínimo, verbal e gráfico pelo qual os seres humanos intercambiam sentimentos, informação e idéias.

            Os grupos que compõem a sociedade atual são, entretanto, grandes, heterogêneos e dispersos.  Não mais podem ser reunidos, como os atenienses na Ágora ou os romanos no Fórum, para que ouçam as mensagens e tomem decisões.  Em conseqüência, a comunicação direta, pessoal, cara a cara, permitindo o diálogo com as suas reações imediatamente constatadas, tornou-se limitada, de efeitos pouco rendosos e apuração lenta.  Para a sociedade de massa, exige-se a comunicação maciça, coletiva, que, utilizando diferentes instrumentos e técnicas, fornece mensagens de acordo com a identidade de valores dos grupos e, dando curso a diferentes pontos de vista, fomenta os interesses comuns, ora desintegrando ora criando solidariedade social.

            A comunicação coletiva não se faz entre um indivíduo e outro como tal, mas em forma colegiada: o comunicador é uma instituição ou uma pessoa institucionalizada, que transmite a sua mensagem, não para alguém em particular, mas para quantos lhe desejam prestar atenção. 

Embora estabelecida através de uma distância de tempo, espaço ou espaço-tempo, entre as partes e, aparentemente, unilateral, desde que, em regra, é feita através de um meio técnico construído de tal forma que somente o comunicador “fala”, constitui um diálogo, tanto como a comunicação pessoal. 

Nesta, o comunicador envia mensagem ao receptor que reage, tornando-se comunicador para enviar mensagem de retorno ao primeiro comunicador, tornado receptor, visando outra reação.  E o processo se reinicia ou se interrompe, pondo termo ao fenômeno comunicativo.  Na comunicação pessoal, privada, há interrupções periódicas e mesmo definitivas da atividade comunicativa entre o comunicador e o receptor - que são indivíduos entregues a diversas outras atividades, algumas das quais dispensam a comunicação.  Mesmo porque o comunicador pessoal é movido por interesse particular, a sua mensagem tem um caráter predominantemente interesseiro.  Devo falar com o meu chefe no escritório todos os dias, mas quando me transfiro de ocupação, posso até mesmo deixar inteiramente de estabelecer contato com ele.

            Na comunicação coletiva, porém, o órgão comunicador só exerce uma espécie de atividade - a comunicativa.  Não há, portanto, interrupções do circuito ou perda de contato entre os dois elementos - o agente e o paciente do processo.  Assim, embora a comunicação coletiva seja, tecnicamente, unilateral, os receptores na verdade alimentam o diálogo, utilizando outros meios mecânicos para manifestar a sua reação, que não se reclama seja necessariamente em palavras.  Porque a resposta à mensagem, na comunicação coletiva, não é discussão, mas ação. 

Daí que a investigação dos meios utilizados para a reação dos receptores e a avaliação do seu conteúdo, através de inquéritos e pesquisas que se traduzem em cálculos e estimativas, em classes e médias, tem de ser objeto contínuo da atividade do comunicador coletivo, a fim de orientar a sua própria conduta, em favor dos desejos e necessidades do órgão receptor, também coletivo. 

            Simultaneamente com a caracterização da sociedade de massa e o estabelecimento do império dos símbolos, que marcam o auge da competição individual e coletiva, mas reclamam como nunca um certo tipo de consenso na ação social, verificou-se a revolução tecnológica na comunicação.  Iniciada com a publicação de impressos e a instituição dos correios, foi acelerada neste século com o cinema, o rádio e a televisão. 

A nova situação ampliou o campo do comunicador coletivo e, conseqüentemente, exigiu o estudo e a investigação.  Mais mesmo dos efeitos, uma vez que a escolha dos meios, canais, métodos e técnicas para tornar eficientes e produtivas as comunicações depende de um balanço sistemático das reações às mensagens expedidas.

            Nos tipos de comunicação direta, a avaliação da reação é automática, facilitada pela singeleza do processo.  Mas na comunicação coletiva a reação tem de ser inferida: há que captá-la, analisá-la e submetê-la a confronto com outros fatos e circunstâncias sociais, sob diferentes ângulos e adotando diferentes critérios e métodos.  A avaliação, aqui, deixa de ser automática para ser ponderada.

            Tomemos, por exemplo, um jornal que distribua diariamente 50 mil exemplares e receba 500 mensagens (cartas, telefonemas, visitas, etc) a propósito de centenas de informações e pontos de vista inseridos em suas colunas.  Ora, cada edição desse jornal é lida pelo menos por 100 mil pessoas.  Assim, apenas meio por cento dos leitores fornece ao editor a sua reação direta, através da comunicação de retorno, o que, convenhamos, é muito pouco para que a empresa possa orientar-se, a fim de estar em consonância com os anseios da comunidade a que serve. 

A tendência do receptor da comunicação coletiva é deixar ao encargo do comunicador a avaliação da sua reação; por outro lado, o órgão comunicador não pode deixar de apurá-la, sob pena de cessar a sua atividade única e essencial.  E é o que faz, mediante investigações levadas a cabo periodicamente, verificação das percentagens de encalho, incidência de anúncios e outros meios indiretos de medir a aceitação de veículo por parte de público.

            Entretanto, a simples aquisição de dados estatísticos (classes e médias) é insuficiente para apurar os efeitos das suas mensagens e reaproveitar a reação dos receptores para novas e atualizadas comunicações - se o órgão comunicador não os confronta e estima com outros fenômenos e situações de ordem geral, que comandam, no momento analisado, o comportamento coletivo, a saber:

1.   a personalidade dos grupos organizados  aos quais se dirige e de que presume conhecer a maneira de ser e agir como unidade de liderança da comunidade;

2.   a situação sócio-econômica e cultural da comunidade como um todo, tendo em conta fatores étnicos, condições ecológicas, índice de desenvolvimento, nível educacional, princípios filosóficos motrizes;

3.   as diretrizes políticas e a influência das elites dirigentes sobre o todo, considerando o papel relevante das lideranças políticas e os reflexos do seu pensamento e da sua atividade na consciência e na ação coletiva;

4.   o quadro psicológico da atualidade universal, pois a nossa comunidade não vive isolada mas é parte do mundo físico e da humanidade inteira, nela repercutindo e alterando as reações tudo quanto afeta o globo terrestre (a natureza) e a sociedade internacional (a espécie humana).

            O balanço dos efeitos da comunicação assim realizado permite ao órgão comunicador coletivo escolher o conteúdo e até mesmo alterar a forma das suas novas mensagens.  Esse trabalho de interação é o único realmente vital na comunicação coletiva.  Sem ele, a mensagem estará irremediavelmente condenada: o órgão comunicador perde a sua energia e dinamismo, aliena-se, silencia.  Como na comunicação coletiva não se permite interrupção do circuito ou perda de contacto com a comunidade, o comunicador alienado está extinto, chegou ao fim.

             Em situação semelhante de inoperância, de isolacionismo, de divórcio - estarão os grupos organizados da sociedade, quando não procuram realizar o mesmo trabalho de investigação científica em torno dos elementos, instrumentos, processo, técnicas e efeitos da comunicação coletiva que, no dizer de Writh, se está tornando rapidamente, se já não o é, a principal trama da vida social.  Notadamente quando tais grupos atuam numa área territorial de larga extensão e diferentes estágios de desenvolvimento econômico e cultural.  Quando para cada parcela da comunidade se faz preciso usar uma linguagem especial, adotar um meio adequado, empregar uma técnica distinta, sem o que o diálogo é difícil, senão impossível. Os grupos organizados não entrarão em comunhão com as diversas outras camadas da sociedade, ficando assim privadas da plena obtenção dos seus fins, do cumprimento satisfatório da sua missão, e, por conseguinte, com os seus interesses definidos ameaçados.

            Os observadores estudiosos da realidade e atualidade brasileira têm assinalado, com sinal marcante da situação nacional, a oposição entre Estado e Nação, entre elites dirigentes e a massa urbana e rural, entre os receptores freqüentes das mensagens jornalísticas pelos veículos convencionais e os públicos cegos e surdos a tais veículos e aparentemente mudos e inoperantes.  Simonsen, já em 1936, ao abrir o seu curso de História Econômica, na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo, chamava a atenção para o fato de que “os povos que hoje se contam na vanguarda do progresso e da civilização libertaram-se, nos tempos modernos, de uma desorganização que os estiolava; e a primeira manifestação da sua força foi a fixação de uma consciência nacional de sua próprias aspirações e necessidades, permitindo-lhes rotas políticas que lhes facilitaram uma mais rápida evolução econômica.  No Brasil, apesar dos esforços dos nossos maiores  e de quanto já realizamos, ainda não chegamos, no entanto, à inteira formação dessa consciência”[3].

            Entretanto, nem sempre foi assim.  “Na sociedade colonial incrementam-se as relações dos grupos entre si; o criador de gado, o bandeirante, o senhor de engenho operam em áreas sociais diversas, mas entendem-se. Essas três áreas sociais, ocupadas pelo branco, mantêm contínuo contato com a sociedade aborígine”, conforme registra e documenta Cassiano Ricardo[4].  Paradoxalmente, foi com a implantação dos prelos e o surgimento e popularização dos jornais - primeiros veículos de comunicação maciça, que se verificou a quebra dessa unidade de pensamento e ação, que Pedro Calmon situa nas lutas da Regência: “A união destroçava-se nos atropelos da vasta desordem. A província era uma caixa de ressonância de todas as idéias (...). Em camadas inferiores, fomentava a subversão social: os africanos poderiam rebelar-se; receava-se que a Bahia se transformasse noutro Haiti. A experiência do Império, sem imperante, descambava na guerra civil. Fragmentava-se a nação[5]”.

            Os movimentos cívicos, as grandes fases da alteração política e social, desde então, passam a ser iniciativa e realização das elites.  O povo, cada dia mais distanciado, mais alheio, com que indiferente e apático.  Pelo menos, assim o consideram os grupos dirigentes que atuam em seu nome.  Sufocando os movimentos republicanos de 1817 e 24, a Praieira, a Farroupilha. 

Empenhando-se em guerras periódicas e imperialistas com os vizinhos do Prata.  Sustentando, durante anos a fio, uma transplantada e decadente monarquia.  E, afinal, fazendo a abolição e a república com um atraso de quase um século sobre as manifestações autênticas do sentimento nacional.  Em todos esses episódios, havia naturalmente, um resíduo das idéias populares, pois, como escreve Edison Carneiro, “os ideais da classe dominante foram algum dia, os ideais de todo o povo, embora permaneçam apenas no seio dos setores politicamente mais atrasados[6]”.

            A cisão ética e política, Nertam Macedo[7] a diagnostica ao analisar o quadro do 2° Reinado: “O Brasil era aquilo: uma realeza em que o monarca não desejava representar a instituição; uma religião oficial perseguida pelo Estado; um país real, confinado nos sertões, fiel aos hábitos morais e religiosos dos seus antepassados; esse mundo encouraçado, desabrido e selvagem com um vaqueiro, não se reconhecia no ‘país legal’ dos doutores de Olinda.  O espaço geográfico era o divorcium aquarum entre as duas comunidades.  O drama brasileiro, que ainda perdura, vem desse tempo”.   E quando, na década dos anos 20, se intentou o início da Revolução Brasileira - em nossa opinião ainda em curso, observou-se mais uma vez o status bipartido. 

Djacir Menezes nos oferece um impressionante depoimento desse estado de espírito, dessa alienação ao registrar como as multidões interioranas reagiam à pregação dos arautos da Aliança Liberal: “Tinha-se quase a impressão de falar outra língua. Outra nação nos olhava admirada, sem atinar com os objetivos. Estranhos e atônitos. Ouvindo os oradores como se ouvissem algo incompreensível (...). Que, do significado do voto, sabiam o ato material de meter uma cédula na urna, rascunhando o nome quase ilegível. Esse povo cria nos seus catimbós[8]”. 

Nada obstante essa advertência, não se procurou sistematicamente investigar, descobrir esses catimbós.  Continuaram as elites do poder, as classes bem pensantes, a assumir posições e a tomar decisões sem ter em conta o processo mental do homem do povo, menosprezando-o, a despeito do registro científico de Boas, que confessa:

Alguns teóricos supõem a existência de uma equipe mental do homem primitivo diferente do homem civilizado. Eu jamais vi uma pessoa de vida primitiva a qual se possa aplicar esta teoria (...). A conduta de cada um, qualquer que seja a cultura a que pertence, se determina pelo material tradicional do que faz uso, e o homem, em todas as partes do mundo, maneja o material que lhe foi transmitido, de acordo com os mesmos métodos. (...). Nossa vantagem sobre o homem primitivo consiste em um conhecimento muito maior do mundo objetivo, alcançando penosamente mediante o trabalho de muitas gerações, conhecimentos que aplicamos bastante mal e que nós, ou a maior parte de nós, deixamos de lado tão logo um forte impulso emotivo nos conduza a isso, o que substituímos por formas de todo análogas às do pensamento primitivo[9].

Não se procurou pesquisar a maneira pela qual o povo reage às sugestões que lhe são feitas.  Nem situar os meios de que se pode dispor para fazer com que a população menos culta aceite princípios e normas de mudança social, adote novas maneiras de trabalhar, de agir, de divertir-se, um outro modo de crer e decidir.  A nossa elite, inclusive a elite intelectual, tem o folk-way das classes trabalhadoras das cidades e do campo apenas como objeto de curiosidade, de análise mais ou menos romântica e literária. 

A literatura, a arte, as crenças, os ritos, a medicina, os costumes dessas camadas sociais, os seus meios de informação e de expressão - continuam ignorados em toda a sua força e verdade, o que impossibilita a comunicação e a comunhão entre Governo e povo, elite e massa.

No entanto, “teimosa, obstinadamente, o povo conserva-se a sua inteligência e, através dela, passam os episódios e fatos gerais que julgamos comuns e irresistíveis”.  Teimosa e obstinadamente, resiste ao imperialismo cultural, defende “as características julgadas nacionais contra o nivelamento pela cultura internacional, dirigida e comum”. Facilmente vitorioso nas classes altas e médias”.  

Valendo-se de formas tradicionais e rudimentares de expressão, ao seu alcance - já que privados dos meios e veículos de maior extensão, mas de manejo reservado às camadas privilegiadas - oferecem uma resistência épica à arrancada cultural alienígena, como os anglo-saxões o fizeram ante o domínio francês dos normandos, “fazendo ouvir e cantar as proezas do Rei Artur e da Távola Redonda, as valentias do arqueiro das florestas de Sherwood, Robin Hood, o fiel Little John,  Adam Bell, Clysme of the Clough, William de Cloudeslee.  Assim, os germânicos recorreram ao ciclo de Nebelungo-not, resistindo à influência da cultura francesa, de Luiz XIV a Napoleão. 

Assim os gregos reviveram as lendas heróicas sob a pressão turca e os italianos sob os austríacos na Lombardia.  Assim a Finlândia ressuscitou Kalavala.  Esse espírito popular mantém a arte tradicional típica, própria, inconfundível, com os padrões baixos de vida ou mesmo com o ambiente econômico elevado, como na Suíça, norte de Portugal, Alemanha, toda a Escandinávia.  São heranças indeléveis do artesanato”[10].  O tremendo perigo que esse desconhecimento dos meios de comunicação do povo representa para uma civilização, seja desenvolvida ou em vias de desenvolvimento, foi bem fixado por Lancelot Hogben, em seu estudo sobre a evolução da pintura[11] ao indagar “se algumas das civilizações do passado não sucumbiram à pressão exterior até que perderam a sua capacidade de ulterior crescimento porque seus meios de comunicação eram inadequados para obter o esforço da comunidade para o desenvolvimento cultural”. 

Mostra que “as fases de rápido crescimento da ciência ocorrem quando é possível utilizar pessoal abundante e diversos na solução dos problemas novos e dos que têm resistido durante muito tempo ao espírito inventivo de outros” e em que “novas necessidades, novos materiais e novos instrumentos contribuem para formar uma situação em que é possível uma mobilização do talento humano em larga escala”.

Hogben ajunta que tal situação não basta para lograr resultados espetaculares, se os meios de comunicação científica são defeituosos e impedem a livre circulação das informações, relacionadas com estas atividades e a coordenação dos novos conhecimentos, mediante sínteses teóricas globais”.  E melancolicamente conclui que isto ocorre no mundo ocidental, o que é uma grave ameaça, pois “quando os meios de comunicação de que a ciência dispõe limitam a participação recíproca do teórico e dos que fazem o trabalho cotidiano, nesta contínua interfertilização de teoria e prática, uma cultura se aproxima de seu ocaso.

Se tais constatações apocalípticas são feitas quanto aos países líderes do desenvolvimento, afigura-se-nos de muito maior importância que no Brasil e, geralmente, nos países latino-americanos, como nas novas nações africanas e orientais, se intente a investigação das formas de expressão e dos meios de comunicação de que se vale o povo para impor, às vezes de um modo inesperado, palpável, e seu pensamento e a sua vontade.  Como o fez, por exemplo, naqueles dramáticos dias de agosto-setembro de 1961, em que se registrou o impressionante e inédito episódio da reação unânime contra o expresso voto dos comandantes supremos das forças armadas à posse legítima do vice-presidente da República, com a renúncia do titular.

             Fomos todos testemunhas dessa manifestação espontânea, global, esmagadora, contra decisão personalista, que pretendia sobrepujar-se à letra e ao espírito da lei e da justiça.  Sobre os meios convencionais de comunicação, exerceu-se estrita censura.  As classes populares valeram-se, então, de seus próprios veículos - folhetos, volantes, atos de presença - opondo à força militar a sua vontade soberana.

Esses veículos, e muitos outros meios informais de comunicação popular continuam, hoje, a conter o pensamento da massa, embora aquela explosão opinativa não tenha conseguido sensibilizar ao ponto ideal de atenção as elites dirigentes e culturais.  Nem mesmo a oposição efetiva aos programas de desenvolvimento nacional - oposição que é antes de desconhecimento, de incapacidade receptiva, de que de caráter político - desperta as nossas lideranças para o problema da comunicação, como ponto de partida da nossa caminhada para o progresso.

A situação, aliás, parece não ser limitada apenas ao nosso país, nem às nações subdesenvolvidas.  J.E. Gerald, no seu ensaio sobre A responsabilidade social da imprensa[12], afirma categoricamente: “Numa época em que a sociedade se está transformando de alto a baixo, a imprensa não tem auxiliado o público na compreensão do que está ocorrendo (...). Ajudar o povo a descobrir centros de poder e torná-lo cônscio em questões de política não mais parece dever jornalístico”.  O povo norte-americano, pois, guardadas as devidas proporções e dentro de certas paralelas, encontra-se, provavelmente, mal informado e não tem, nos seus veículos ortodoxos de comunicação, autênticos porta-vozes de sua opinião e dos seus ideais.

As pesquisas de Lazarsfeld, Berelson, Gaudet, Katz, Merton e Kurt Lewin, entre outras, nos Estados Unidos e países subdesenvolvidos, concluíram por contrariar a crença dominante de que os meios de comunicação coletiva eram todo poderosos e exerciam decisiva influência direta na aceitação de novas idéias[13].  Todas as investigações levaram à evidência de que o efeito dos meios - jornais, rádio, televisão e cinema - postos a serviço de grandes campanhas políticas ou sociais, visando mudar opiniões e atitudes em curto prazo, não era tão eficaz com se imaginava. 

Para que a mudança se verificasse, uma outra influência se colocava entre os meios e o grupo afetado - a influência do “líder de opinião” - personagem quase sempre do mesmo nível social e de franco convívio com os que se deixavam influenciar, tendo sobre eles uma vantagem: estavam mais sujeitos nos meios de comunicação do que os seus liderados.  Conheciam o mundo - isto é, haviam recebido e decodificado as mensagens dos meios, transmitindo-as em segunda mão ao grupo com o qual se identificavam.

O processo denominado “fluxo da comunicação em dois estágios” dos meios aos líderes e destes aos seus amigos mais próximos - foi pacientemente pesquisado em diferentes ocasiões e diversos ambientes e teve os seus dados avaliados pelo Departamento de Pesquisa Social Aplicada da Universidade de Columbia.  De uma maneira geral, foi verificado:

1. que a influência de outras pessoas em decisões específicas tende a ser mais freqüente - e certamente mais efetiva - que a dos meios de comunicação coletiva;

2. que influenciadores e influenciados mantêm relações estreitas e, conseqüentemente, tendem a compartilhar das mesmas características de situações sociais;

3. que indivíduos intimamente relacionados tendem a ter opiniões e atitudes comuns e relutam em abandonar o consenso do grupo, mesmo que os argumentos dos meios de comunicação coletiva lhes pareçam atraentes;

4. que, embora a influência passe dos mais para os menos interessados, estes últimos devem ter suficiente interesses para serem suscetíveis à mudança.

            Lazarsfeld, relatando as conclusões das pesquisas de que participou, confirma que era preciso melhor caracterizar os líderes de opinião:

1. personificavam interesses específicos - por exemplo, jovens solteiros tornavam-se líderes de moda pela importância que seu grupo atribuía ao modo de vestir-se;

2. ocupavam posições tidas como propiciatórias de alta autoridade no campo definido - assim, senhoras de idade com grandes famílias eram conselheiras de compras, por sua maior experiência;

3. eram acessíveis e extrovertidos, com muitas relações;

4. tinham acesso a informação relevantes provenientes de fora do seu círculo imediato.  Esta foi decerto a característica mais importante, pois a deviam a conhecimentos de fora, a visitas freqüentes a outras localidades ou, ainda a uma incomum atenção aos meios de comunicação coletiva como jornais, revistas e rádio. (...) Os líderes tinham particular propensão a se submeterem aos meios de comunicação coletiva adequados às suas esferas de influência.(...) líderes de modas liam mais revistas de moda, líderes de opinião liam sobre cinema, etc[14].

            Pesquisas mais recentes substituíram a hipótese do “fluxo tem dois estágios: os líderes de opinião, que por sua vez, buscavam conselho e informação com outras pessoas - num processo que Lazarsfeld denomina - fluxo em múltiplos estágios - dos meios de comunicação coletiva, através de vários líderes que se comunicam entre si, para os grupos liderados”. 

            Essa consulta a fontes mais autorizadas - ou assim consideradas pelos líderes de opinião - resulta da sua mobilidade.  Como registrou investigação realizada em um contexto subdesenvolvido, no Oriente Médio, os líderes de opinião nunca estão completamente incorporados à sua comunidade. Viajam freqüentemente para os contatos com os seus informantes e conselheiros. Nos regressos, chegam a recolher para si o prestígio até então conferido aos mais velhos - os tradicionais anciãos (entre nós, “coronéis”) - pois se tornaram elementos de ligação da comunidade com o mundo de fora.

            Essa conquista de liderança está intimamente ligada à credibilidade que merece no seu ambiente e à habilidade do agente comunicador de codificar a mensagem ao nível de entendimento dos seus receptores.  Em função da estrutura social discriminatória mantida em nações como a nossa, a massa camponesa, as populações marginais urbanas e até mesmo extensas áreas proletárias se comunicam através de um vocabulário escasso e organizado dentro de grupos de significados funcionais próprios.  Quando se pretende transmitir uma mensagem a essas porções de indivíduos - e, especialmente, quando a mensagem insere um novo sistema de valores e conceitos, como no caso de campanhas mudancistas  - é preciso “traduzir-lhes” a idéia, adequando-a aos seus esquemas habituais de valoração. 

            O líder de opinião tem essa capacidade: é um tradutor, que não somente sabe encontrar palavras como argumentos que sensibilizam as formas pré-lógicas que, segundo Levy Bruhl, Bastide, Malinowsky e outros sociólogos, antropólogos e psicologistas, caracterizam o pensamento e ditam a conduta desses grupos sociais[15]. 

            Métodos e técnicas, modalidades e veículos utilizados pelo líder de opinião para o desencadeamento e seqüência da atividade comunicativa também têm importância fundamental para quem deseje investigar como se informam e participam do processo social as camadas marginalizadas e menos cultas da população.  E, especialmente, quando se pretende indicar caminhos ao êxito de campanhas para a difusão de novas idéias e práticas, como na atual fase da evolução brasileira, considerada de transição com vistas ao desenvolvimento sócio-cultural e econômico.

            Já que os grandes meios convencionais de comunicação coletiva não funcionam para a obtenção de efeitos positivos para as pretensões das elites culturais e políticas - as metas desenvolvimentistas - porque as suas mensagens não são assimiladas, por interação social, nos grupos estudados, é tarefa de investigador pesquisar quais os veículos que, tradicionalmente, servem à condução de mensagens entendidas e aceitas em tais segmentos da sociedade.

            Em seguida, impõe-se o trabalho de análise de conteúdo da mensagem pelo pesquisador, a fim de classificá-la e compará-la com aquelas omitidas pelos meios convencionais de comunicação coletiva.  Se interessa (como no nosso caso) limitar o campo de observação o estudo à comunicação jornalística - isto é, dos fatos correntes, devida e objetivamente interpretados e periodicamente transmitidos aos grupos e receptores - a análise permitirá selecioná-la entre a grande variedade de comunicações (especificamente diversionais, promocionais, educativas, morais, etc.) disseminadas pelos meios populares de difusão.  Desde que as mensagens tenham aqueles atributos essenciais a qualquer manifestação jornalística[16], então, sem dúvida, impõe-se a inserção do veículo com hábil para a emissão de notícias e expressão da opinião coletiva.

            Tarefa que reclama um aparelho avaliador bem montado e capacitado é a de medir a eficácia da comunicação, de modo especial quando se procura alcançar objetivos determinados, planificados para ditar mudança de opinião e atitudes.  Nesta hipótese, como o ensina Eisenstadt[17], à base de suas pesquisas sobre problemas de comunicação em Israel, a eficácia é comprovada quando:

1. tiver um efeito positivo no sentido das aspirações e das identificações concebidas pelos destinatários em matéria de hierarquia social (em outras palavras, deve ser compatível com a imagem que os interessados formam desta classe social e com as suas aspirações;

2. for omitida ou transmitida por minerais que gozem de um grande prestígio;

3. for compatível com as tendências culturais e os interesses sociais das elites;

4. for transmitida pelas elites por via de relações pessoais primárias, combinadas com as relações que existem já entre as elites e a massa;

5. for assimilada por interação pessoal no quadro de grupos e relações primárias.

            De exposto, infere-se que nenhum grupo social de elite pode subestimar o processo da intercomunicação, as suas condições e o emprego adequado de instrumentos para promovê-lo eficazmente. No cumprimento da sua missão na sociedade - e até mesmo no seu próprio interesse de sobrevivência e manutenção da posição de liderança - esses grupos dirigentes precisam valer-se não somente dos grandes meios de comunicação de seu patrimônio e dos comunicadores de seu próprio ambiente como, ainda, dos líderes de opinião populares, armados, por seu turno, de recursos e veículos que apenas eles possuem e sabem manejar.

            Nos tópicos precedentes, procurei fixar os fundamentos teóricos que me levaram à elaboração deste ensaio, de cujos propósitos e métodos - que consumiram sete anos de atividade - irei ocupar-me a seguir.

            Em 1959, logo que relatei os meus estudos sobre a comunicação jornalística, efetuados à base das suas  manifestações convencionais dos seus veículos consagrados - os periódicos, o rádio, a televisão, o cinema - buscando isolar os seus atributos essenciais, caracterizar os seus agentes e apreciar as suas condições filosóficas, senti-me atraído por outros aspectos da difusão de informações e expressão da opinião pública, que pareciam ter escapado ao meu labor de indagação científica.

            Os dados estatísticos sobre a circulação de jornais e revistas, número de receptores de rádio e TV, de salas de espetáculos e os índices de freqüência de espectadores do cinema, em relação à população brasileira; ao seu nível cultural, à sua capacidade aquisitiva e à sua distribuição demográfica pelo território nacional, levavam-me a procurar esclarecer problemas que pareciam desafiar as conclusões a que chegaram naquele primeiro ensaio.

            Como se informavam as populações rudes e tardes do interior de nosso país continental?  Por que meios, por quais veículos manifestavam o seu pensamento, a sua opinião? Que espécie de jornalismo, que forma - ou formas - atenderia à sua necessidade vital de comunicação?  Teria essa espécie de intercâmbio de informações e idéias algo em comum com o jornalismo, que passei a classificar de “ortodoxo”?  E não seria uma ameaça à unidade nacional, aos programas desenvolvimentistas, aos nossos ideais políticos e à mesma sobrevivência de homem brasileiro, como tipo social definido, o alheamento em que nós, jornalistas enigmática, que é a comunicação sub-reptícia de alguns milhões de cidadãos alienados do pensamento das elites dirigentes?

            A realidade brasileira era constatada por sociólogos, psicólogos sociais, antropologistas, políticos e economistas: dois brasis se defrontavam.  Um em franco desenvolvimento cultural e econômico; outro, marginalizado, entravando os planos de progresso.  Um respondendo com maior ou menor desenvoltura aos apelos dos meios de comunicação coletiva; outro não suscetível dessa influência e, por conseguinte, alienado dos objetivos pretendidos pela elite.  Um acreditando nas metas desenvolvimentistas e mudando os seus padrões de comportamento ao influxo das idéias e das técnicas novas, difundidas sobretudo pelos veículos jornalísticos; outro crendo apenas nos seus “catimbós”  e rejeitando até mesmo uma argumentação lógica, fundamentada em causas e efeitos para aferrar-se aos seus preconceitos, hábitos e costumes tradicionais, e permanecendo surdo às mensagens jornalísticas convencionais.

            Descobrir os “catimbós” em que cria o homem do “hinterland” e surpreender o processo mediante o qual as camadas menos cultas e econômicas mais frágeis da sociedade urbana e rural se informavam e cristalizavam as suas opiniões para uma ação mais próxima ou remota ia-se tornando uma obsessão para o pesquisado.  Poderia ser uma meta inatingível mas sem dúvida, constituía um poderoso atrativo para quem sempre se considerou antes de tudo um repórter.

            Havia, naturalmente, um propósito nesta cobertura quem dispunha a empreender: queria confirmar os frutos da pesquisa anterior nos domínios do jornalismo convencional.  Se a comunicação jornalística era essencial à formação das crenças e das decisões que impulsionam o indivíduo e as sociedades à ação, evidentemente aqueles “catimbós” tinham de ser veículos jornalísticos.  E o processo de atualização, reinterpretação e readaptação dos modos de pensar e agir dessa massa surda às mensagens da imprensa, do rádio, da TV e do cinema, haveria, igualmente, de identificar-se com o processo jornalístico, produzindo efeito mediante métodos técnicos semelhantes.

            Ou estaria eu inteiramente errado em tudo quanto verificara e concluíra antes ou iria encontrar conteúdo jornalístico em atividades alheias, e até fundamentalmente dessemelhantes, à atividade jornalística.  Iria flagrar agentes-comunicadores de fatos em indivíduos que se surpreenderiam se lhes fosse dito que eram jornalistas.  Encontraria a explosão da opinião pública em palavras e atos aparentemente vazios ou inócuos de sentido reivindicatório.  Editorialistas vibrantes em iletrados e analfabetos.  Editores sagazes em pobres diabos sem tostão e sem empresa.

            De saída, foi-me preciso recorrer às páginas da história.  Reler os cronistas coloniais.  Retornar à época em que, no Brasil, não havia estradas, nem meios de transporte e, muito menos, folhas impressas.  Saber como se comunicavam os indígenas, senhores da terra, mesmo antes que aqui chegassem as velas lusitanas.  E acompanhar, através dos séculos de povoamento, a evolução dos meios primitivos de contato social.  Para ver, afinal, os que tinham subsistido, resistindo às mudanças, inovações e circunstâncias, envolvendo-se embora noutras roupagens, disfarçando-se, travestindo-se de tal modo que nós os cronistas modernos, não os identificamos e classificamos como tais, perdendo em argúcia para os Thevet, Lery, Anchieta e Gabriel de Sousa nos idos do I e II séculos.

            Valeram-se, nessa atividade sherloquiana, historiadores, sociólogos, geógrafos, ilustradores, memorialistas.  Coleções de jornais e revistas, de avulsos e volantes, de livros empoeirados esquecidos nas estantes de bibliotecas e de “sebos” ou guardados em arquivos públicos e privados.  As atenções de estudiosos que trabalham e pesquisam campos afins, muitas vezes sem esperança de ver divulgados os resultados da sua beneditina tenacidade.  As conversas que mantive com os mais velhos e experientes senhores-de-engenho e fazendeiros dos “bons tempos”  da cultura canavieira nordestina e daquela “civilização” do couro e do gibão, a que se refere o poeta.  Com chefes políticos do interior, os “coronéis” de tanto prestígio, senhores de baraço e cutelo dos sertões setentrionais brasileiros.  Com venerandas senhoras de quase um século de existência, testemunhas eloqüentes das grandes transformações sociais operadas no nosso país nesta centúria. 

Com filhos e netos de escravos, com país-de-santos, com gentes das nações africanas e das tribos indígenas, que se mantém vivas e atuantes nos “maracatus” e nos caboclinhos do riquíssimo carnaval recifense.  Com os antigos “caixeiros-viajantes” e os novos representantes comerciais, com motoristas dos transportes rodoviários, cantadores repentistas, humildes “passadores-de-bicho”, que enchem “poules” da manhã à tardinha de sítio em sítio, com frades missionários, com andarilhos e retirantes, cabos de destacamentos perdidos nos longes das caatingas, reformados tenentes e capitães das volantes policiais que deram fim, matando ou prendendo, a bandoleiros famigerados. 

E com estes também, especialmente como tranqüilo e bonachão Antonio Silvino, indultado assim por volta de 1937, que passeava solitário pelas praias olindenses entoando a meia-voz hinos evangélicos como fiel “crente” converso.  Todos esses tipos, botas-de-sete-léguas com vivência entre as populações “estrangeiras” de complexo nacional, falando a mesma língua, entendendo-se no mesmo patuá, sentindo-se parte integrante da massa rural e urbana, cujos meios de informação e expressão ou aspirava surpreender.

            Poderá a alguns menos avisados parecer que ouvir o depoimento de certos desses indivíduos teria sido perda de tempo.  E que não esquecera ou a lição de LAZARSFELD de que os líderes de opinião não se encontram particularmente nas classes mais cultas ou entre as pessoas de maior prestígio da comunidade “mas distribuem-se de forma bastante equilibrada por todas as classes e profissões” .  A questão residia em, depois da pesquisa, selecionar entre eles os agentes da comunicação popular os “catimbozeiros”; estudar-lhes a linguagem, situar em sua  mensagem, aparentemente distante do propósito informativo-opinativo porque na maior parte das vezes destinada especificamente a preencher ócios, proporcionar mero entretenimento ou fazer negócio - situar-lhe o conteúdo rico em significados, que produziria no ouvinte, no leitor ou no assistente o mesmo efeito da retórica jornalística entre os receptores do outro Brasil.    

            Uma característica predominante surgia nos agentes-comunicadores selecionados e nas modalidades que adotavam para a transmissão das suas mensagens - a característica folclórica.  Com muita precisão Pedro Calmon havia apontado, na fase agitada da Regência, o início do divórcio entre as classes sociais da pátria nascente: “fragmentava-se a Nação”.  E fragmentava-se exatamente quando entravam na liça os primeiros periódicos, tornando-se, logo, porta-vozes, das elites dirigentes e cultas.  Essa fragmentação prosseguiria por todo o IV século e teria o seu ciclo completado com a abolição da escravatura, que retiraria à influência da casa-grande a significativa população da senzala.  Os negros forros iriam engrossar a camada social dos alienados do pensamento e da cultura da elite.  E incorporariam vigorosamente ao patrimônio sócio-cultural da favela, do mocambo e da tapera as suas tradicionais formas de expressão.  Que o sobrado, o palacete e a casa-de-fazenda não compreenderiam, agravando-se a cada passo o abismo hoje constatado.

            Naturalmente, essas formas de expressão se firmavam em costumes e práticas vindas dos antepassados longínquos no tempo e no espaço.  Conservadas pela tradição oral e pelo admirável instinto de preservação das raças oprimidas ou desprezadas.  Encobertas pelos disfarces necessários à sua sobrevivência, pelo sincretismo a que os seus portadores se submetiam inapelavelmente ao contato com outra cultura.  Pertenciam, agora, ao folclore, que os senhores menosprezavam, atribuindo-lhe valore de circo romano.  E que os próprios mais sagazes observadores do passado, como Lopes Gama, acreditavam se apenas “um agregado de disparatos”.  No que, de certo modo, ainda o acompanham certos românticos estudiosos dos fatos sociais dos nossos dias, para os quais as manifestações folclóricas são meros “desenfados populares”, estratificações de ocorrências e sentimentos idos e vividos.  Quando, na verdade, tais desenfados são desabafos.  Explosões e não estratificações.  Revestem-se de atualidades e não de memória.

            Achava-se de acordo com a tese de Edson Carneiro, segundo a  qual “sob a pressão da vida social, o povo atualiza, reinterpreta e readapta constantemente os seus modos de sentir, pensar e agir em relação aos  fatos da sociedade e aos dados culturais do tempo” , fazendo-se através do folclore que é dinâmico porque “não obstante partilhar, em boa percentagem, da tradição e caracterizar-se pela resistência à moda (...) é sempre, ao mesmo, tempo que uma acomodação, um comentário e uma reivindicação[18]”.

            Registrava, na pesquisa, que meios de comunicação, que tinham servido em épocas imemoriais e que haviam sido abandonados ou tinham evoluído, para uma forma e utilização sofisticada pelos que detinham a posse oficial dos instrumentos de informação pública - continuavam, como então, a prestar-se à veiculação das mensagens populares: a poesia dos jograis medievais, a poranduba dos silvícolas, a parlenda interesseira dos mascates vendendo quinquilharias e fornecendo intrigas de quebra, acham-se presentes nos improvisos dos cantadores e nas novidades trazidas e levadas pelos caixeiros-viajantes e choferes de caminhão, o encantamento das estórias e lendas, que transmitiam no seu simbolismo as normas de conduta aos clãs primitivos, aplicáveis ou de mistura com fatos correntes, e a sabedoria acumulada na experiência dos pajés, dos feiticeiros, dos magos tupis e africanos, mesclada com os ensinamentos dos evangelizadores de Loyola - relativas à salvação das almas como à conservação dos corpos e à afirmação da liberdade humana - também é proporcionada nos nossos dias pelo folheto impresso em prelos manuais e difundido através da literatura do cordel, pelos almanaques editados por laboratórios farmacêuticos, pelas revistas de época largamente adquiridas no São João, no Natal, no Carnaval, nos novenários e celebrações de santos padroeiros.

            Veículos de informação e opinião da massa popular permaneceram folguedos e autos trazidos no bojo das caravelas e dos navios negreiros, como “a queima do Judas”, a “serra dos velhos”, as canções, danças e fantasias do Entrudo, o teatro de bancos mais pobres e mais simples do mundo - o mamulengo - e a representação nos amplos palcos das ruas e dos torreiros do “bumba-meu-boi”, o mais nacional dos autos populares do país.  Muito do jornalístico se poderia registrar nos produtos da habilidade artesanal de pintores, escultores, ceramistas, rendeiras, gravadores e até de cozinheiras do forno e fogão que desenvolveram e  praticam, conforme Gilberto Freire, “a  mais doméstica e tradicional das artes brasileiras - a confeitaria” .

            Olhadas com os olhos que não vêem cinema, soletradas pelos lábios de quem jamais chegou à quarta-série primária, ouvidas pelos ouvidos moucos às clarinadas saídas dos alto-falantes, sentidas pelos insensíveis às linhas e nuances da arte dos salões e galerias - as  mensagens transmitidas através desses processos comunicativos singulares produzem efeitos os mais decisivos no ânimo e no comportamento da massa apática às solicitações do jornalismo ortodoxo.

            Quem testemunha, anualmente repetido na semana que precede ao dia de Finados, o espetáculo de multidões de romeiros cortando as estradas nordestinas a pé, em carros de bois, montando jumentos ou lotado “paus-de-arara” e automóveis, rumo ao Juazeiro cearense para homenagear a memória do Padre Cícero Romão Batista, vindos desde o Pará e a Bahia, não pode deixar de convencer-se da força persuasiva dessas mensagens.  Que tem assim também comprovado o sentido de permanência pois não são mais do que uma reprodução do atendimento aos apelos feitos pelo taumaturgo em vida, combatido por todos os veículos de informação bem pensante da época.

            A vinculação estreita entre folclore e comunicação popular, registrada na colheita dos dados para este estudo, inspirou o A. na nomenclatura desse tipo “cismático” de transmissão de notícias e expressão do pensamento e das reivindicações coletivas.  Folkcomunicação é, assim, o processo de intercâmbio de informações e manifestação de opiniões, idéias e atitudes da massa, através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore.

            Identificado nos seus caracteres formais e batizado o fenômeno, dediquei-me a analisá-lo em sua natureza, isolando-lhe os atributos e comparando-os com aqueles do jornalismo convencional e erudito.  Como ocorre com a comunicação coletiva em geral, a folkcomunicação também se especializa, torna-se caracterizada de acordo com os seus objetivos e efeitos combinados.  Assim, nem toda manifestação folclórica é jornalística.  E por isso, da massa de fenômenos folclóricos (ou indiretamente ligados ao folclore) que recolhi, foram selecionados os que me pareceram que atendiam àqueles atributos, confirmando-se, nas suas manifestações e na personalidade dos seus agentes, os caracteres e condições do jornalismo dentro da linha traçada no meu ensaio anterior, até hoje não contestada e que, por conseqüência, permanece válida.

            É o resultado dessa análise que lerá a seguir, através de um esboço histórico comentado da Comunicação no Brasil pré-cabralino e no Brasil Colonial e do registro, algumas vezes mais e de outras menos detalhado, dos agentes, métodos e técnicas da folkcomunicação jornalística.  Na parte final, as conclusões formulam uma teoria da folkcomunicação e expõem a necessidade imprescindível de estarmos atentes a essa forma esquisita do intercâmbio de informações e idéias entre os dois brasis, no interesse da afirmação e do desenvolvimento nacional.


[1] Luiz Beltrão. Folkcomunicação, um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias (Tese de Doutoramento), Brasília, UnB, 1967. Material originalmente publicado no livro Mídia e Folclore. O estudo da Folkcomunicação segundo Luiz Beltrão, organizado por José Marques de Melo. Maringá: Faculdades Maringá, 2001. Título original: Teoria da folkcomunicação: os agentes folclóricos como líderes de opinião, págs. 127-146.

[2] Pioneiro da pesquisa científica sobre os fenômenos comunicacionais na universidade brasileira, Luiz Beltrão foi fundador do Instituto de Ciências da Informação,  primeiro centro acadêmico nacional de estudos midiáticos, e de Comunicações & Problemas, nossa primeira revista de ciências da comunicação (Universidade Católica de Pernambuco, 1963).  Tornou-se também o primeiro Doutor em Comunicação do Brasil (Universidade de Brasília, 1967). Sua obra ganhou reconhecimento nacional e prestígio internacional, nos âmbitos do jornalismo e comunicação de massa. Nascido em Olinda, Pernambuco, em 8 de agosto de 1918, Luiz Beltrão faleceu em Brasília em 1986.

[3] Roberto Simonsen. História econômica do Brasil. São Paulo: Nacional, 1957, p. 34.

[4] Cassiano Ricardo. Marcha para oeste, II vol. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1942, p. 151.

[5] Pedro Calmon. História da Casa da Torre, p. 205.

[6] Edison Carneiro. Dinâmica do folclore, ed. Civilização Brasileira, 1965, p. 11.

[7] Nertam Macedo. Memorial de Vilanova. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1964, p. 84.

[8] Djacir Menezes. O outro nordeste.  Rio de Janeiro: José Olimpio, p. 227-228.

[9] El arte primitivo. México/Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica, 1947, p. 7-10.

[10] Conf.  Luiz da Câmara Cascudo, no prefácio para os Cantos populares do Brasil de Silvio Romero. Rio de Janeiro: José Olimpio, 1954, p. 26-27.

[11] Lancelot Hogben. De la pintura rupestre a la historieta grafica. Barcelona Omega, 1953, p. 262-263.

[12] J. E. Gerald. A responsabilidade social da imprensa. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1966, p. 126.

[13] Paul Lazarsfeld e outros. The people’s choice. New York: Columbia University, 1948; Elihu Katz e Paulo Lazarsfeld, Personal influence. Illinois: The Free Press, Glencoe, 1956; Robert K. Merton, Patterns of influence: a study of interpersonal influence and communications behavior in a local community. Communications Research - 1948-49, New York: Harper and Bros., 1949.

[14] Paul Lazarsfeld. Mass  media  and  personal  influence. Washington: Voice  of  America, , s/d, p. 2-3.

[15] L. Levy Bruhl,. Les fonctions mentales dans les societés inferieures. Paris: Alcan, 1910.

[16] Luiz Beltrão. Iniciação à  filosofia  do  jornalismo. Rio de Janeiro: Agir, 1960, p. 65-113.

[17] Art na Revue Internacional dos Sciences Sociales, Vol. XIV, n. 22., dedicada a Communication et Information. Paris: Unesco, 1962.

[18] Edison Carneiro.  Dinâmica do Folclore.  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, p. 2.

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