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| Pioneiro
da pesquisa científica sobre os fenômenos
comunicacionais nas universidades brasileiras,
Luiz Beltrão foi fundador do Instituto de Ciências
da Informação - ICINFORM,
primeiro centro acadêmico nacional de
estudos midiáticos, e de Comunicações
& Problemas, primeira revista de ciências
da comunicação (Universidade Católica de
Pernambuco, 1963).
Tornou-se também o primeiro Doutor em
Comunicação do Brasil (Universidade de Brasília
- UnB -, 1967).
Sua
obra ganhou reconhecimento nacional e prestígio
internacional, nos âmbitos do jornalismo e
comunicação de massa. |

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Foi
ao mesmo tempo pesquisador, educador e
divulgador científico. Produziu conhecimento
midiático ancorado na vivência profissional.
Formou
toda uma geração de professores e
pesquisadores da comunicação. E converteu os
resultados das suas pesquisas em material didático,
difundido na sala de aula ou estocado em livros
direcionados a jovens estudantes e
profissionais.
Tem uma vasta bibliografia comunicológica,
sub-dividida em três segmentos:
a)
Teoria e Pesquisa da Folkcomunicação;
b)
Fundamentos teóricos da Comunicação de Massa;
c)
Teoria e pesquisa do Jornalismo. Além disso
publicou livros de reportagem, contos e novelas,
dedicando-se ao memorialismo na sua última fase
de produção intelectual. Nascido
em Olinda, Pernambuco, em 8 de agosto de 1918,
faleceu em Brasília em 1986.
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Teoria
da Folkcomunicação[1]
Luiz
Beltrão[2]
Material
retirado do livro: Folkcomunicação: teoria e
metodologia.
São Bernardo do Campo: Umesp, 2004.
Comunicação é o
problema fundamental da sociedade contemporânea -
sociedade composta de uma imensa variedade de grupos,
que vivem separados uns dos outros pela heterogeneidade
de cultura, diferença de origens étnicas e pela própria
distância social e espacial.
Os grupos constitutivos da sociedade ora estão
organizados com uma missão específica a cumprir e
interesses definidos a salvaguardar, como é o caso do
Estado, da Igreja, do sindicato ou da empresa; ora são
informais, ligados apenas espiritualmente por certas idéias
filosóficas, interesses gerais e experiências comuns
à espécie humana - como a Nação, os crentes, os
trabalhadores, os consumidores.
Há,
entretanto, na sociedade contemporânea, não obstante
as características próprias e os conflitos de
interesses imediatos de cada grupo, uma unidade mental,
decorrente da própria natureza humana dos seus
componentes e de um universal consenso.
Os grupos acham-se, assim, vinculados a uma ordem
semelhante de idéias e a um propósito comum: -
adquirir sabedoria e experiência para sobreviver e
aperfeiçoar a espécie e a sociedade.
Sabedoria e experiência, sobrevivência e
aperfeiçoamento que só se conseguem mediante a
comunicação, - o processo mínimo, verbal e gráfico
pelo qual os seres humanos intercambiam sentimentos,
informação e idéias.
Os grupos que compõem a sociedade atual são,
entretanto, grandes, heterogêneos e dispersos.
Não mais podem ser reunidos, como os atenienses
na Ágora ou os romanos no Fórum, para que ouçam
as mensagens e tomem decisões.
Em conseqüência, a comunicação direta,
pessoal, cara a cara, permitindo o diálogo com as suas
reações imediatamente constatadas, tornou-se limitada,
de efeitos pouco rendosos e apuração lenta.
Para a sociedade de massa, exige-se a comunicação
maciça, coletiva, que, utilizando diferentes
instrumentos e técnicas, fornece mensagens de acordo
com a identidade de valores dos grupos e, dando curso a
diferentes pontos de vista, fomenta os interesses
comuns, ora desintegrando ora criando solidariedade
social.
A comunicação coletiva não se faz entre um
indivíduo e outro como tal, mas em forma colegiada: o
comunicador é uma instituição ou uma pessoa
institucionalizada, que transmite a sua mensagem, não
para alguém em particular, mas para quantos lhe desejam
prestar atenção.
Embora
estabelecida através de uma distância de tempo, espaço
ou espaço-tempo, entre as partes e, aparentemente,
unilateral, desde que, em regra, é feita através de um
meio técnico construído de tal forma que somente o
comunicador “fala”, constitui um diálogo, tanto
como a comunicação pessoal.
Nesta,
o comunicador envia mensagem ao receptor que reage,
tornando-se comunicador para enviar mensagem de retorno
ao primeiro comunicador, tornado receptor, visando outra
reação. E
o processo se reinicia ou se interrompe, pondo termo ao
fenômeno comunicativo.
Na comunicação pessoal, privada, há interrupções
periódicas e mesmo definitivas da atividade
comunicativa entre o comunicador e o receptor - que são
indivíduos entregues a diversas outras atividades,
algumas das quais dispensam a comunicação.
Mesmo porque o comunicador pessoal é movido por
interesse particular, a sua mensagem tem um caráter
predominantemente interesseiro.
Devo falar com o meu chefe no escritório todos
os dias, mas quando me transfiro de ocupação, posso até
mesmo deixar inteiramente de estabelecer contato com
ele.
Na comunicação
coletiva, porém, o órgão comunicador só exerce uma
espécie de atividade - a comunicativa.
Não há, portanto, interrupções do circuito ou
perda de contato entre os dois elementos - o agente e o
paciente do processo.
Assim, embora a comunicação coletiva seja,
tecnicamente, unilateral, os receptores na verdade
alimentam o diálogo, utilizando outros meios mecânicos
para manifestar a sua reação, que não se reclama seja
necessariamente em palavras.
Porque a resposta à mensagem, na comunicação
coletiva, não é discussão, mas ação.
Daí
que a investigação dos meios utilizados para a reação
dos receptores e a avaliação do seu conteúdo, através
de inquéritos e pesquisas que se traduzem em cálculos
e estimativas, em classes e médias, tem de ser objeto
contínuo da atividade do comunicador coletivo, a fim de
orientar a sua própria conduta, em favor dos desejos e
necessidades do órgão receptor, também coletivo.
Simultaneamente com a caracterização da
sociedade de massa e o estabelecimento do império dos símbolos,
que marcam o auge da competição individual e coletiva,
mas reclamam como nunca um certo tipo de consenso na ação
social, verificou-se a revolução tecnológica na
comunicação. Iniciada
com a publicação de impressos e a instituição dos
correios, foi acelerada neste século com o cinema, o rádio
e a televisão.
A
nova situação ampliou o campo do comunicador coletivo
e, conseqüentemente, exigiu o estudo e a investigação.
Mais mesmo dos efeitos, uma vez que a escolha dos
meios, canais, métodos e técnicas para tornar
eficientes e produtivas as comunicações depende de um
balanço sistemático das reações às mensagens
expedidas.
Nos tipos de
comunicação direta, a avaliação da reação é automática,
facilitada pela singeleza do processo.
Mas na comunicação coletiva a reação tem de
ser inferida: há que captá-la, analisá-la e submetê-la
a confronto com outros fatos e circunstâncias sociais,
sob diferentes ângulos e adotando diferentes critérios
e métodos. A
avaliação, aqui, deixa de ser automática para ser
ponderada.
Tomemos, por
exemplo, um jornal que distribua diariamente 50 mil
exemplares e receba 500 mensagens (cartas, telefonemas,
visitas, etc) a propósito de centenas de informações
e pontos de vista inseridos em suas colunas.
Ora, cada edição desse jornal é lida pelo
menos por 100 mil pessoas.
Assim, apenas meio por cento dos leitores fornece
ao editor a sua reação direta, através da comunicação
de retorno, o que, convenhamos, é muito pouco para que
a empresa possa orientar-se, a fim de estar em consonância
com os anseios da comunidade a que serve.
A
tendência do receptor da comunicação coletiva é
deixar ao encargo do comunicador a avaliação da sua
reação; por outro lado, o órgão comunicador não
pode deixar de apurá-la, sob pena de cessar a sua
atividade única e essencial. E é o que faz, mediante investigações levadas a cabo
periodicamente, verificação das percentagens de
encalho, incidência de anúncios e outros meios
indiretos de medir a aceitação de veículo por parte
de público.
Entretanto,
a simples aquisição de dados estatísticos (classes e
médias) é insuficiente para apurar os efeitos das suas
mensagens e reaproveitar a reação dos receptores para
novas e atualizadas comunicações - se o órgão
comunicador não os confronta e estima com outros fenômenos
e situações de ordem geral, que comandam, no momento
analisado, o comportamento coletivo, a saber:
1.
a personalidade dos grupos organizados
aos quais se dirige e de que presume conhecer a
maneira de ser e agir como unidade de liderança da
comunidade;
2.
a situação sócio-econômica e cultural
da comunidade como um todo, tendo em conta fatores
étnicos, condições ecológicas, índice de
desenvolvimento, nível educacional, princípios filosóficos
motrizes;
3.
as diretrizes políticas e a influência
das elites dirigentes sobre o todo, considerando o
papel relevante das lideranças políticas e os reflexos
do seu pensamento e da sua atividade na consciência e
na ação coletiva;
4.
o quadro psicológico da atualidade
universal, pois a nossa comunidade não vive isolada
mas é parte do mundo físico e da humanidade inteira,
nela repercutindo e alterando as reações tudo quanto
afeta o globo terrestre (a natureza) e a sociedade
internacional (a espécie humana).
O balanço dos efeitos da comunicação assim
realizado permite ao órgão comunicador coletivo
escolher o conteúdo e até mesmo alterar a forma das
suas novas mensagens.
Esse trabalho de interação é o único
realmente vital na comunicação coletiva. Sem ele, a mensagem estará irremediavelmente condenada: o órgão
comunicador perde a sua energia e dinamismo, aliena-se,
silencia. Como
na comunicação coletiva não se permite interrupção
do circuito ou perda de contacto com a comunidade, o
comunicador alienado está extinto, chegou ao fim.
Em
situação semelhante de inoperância, de isolacionismo,
de divórcio - estarão os grupos organizados da
sociedade, quando não procuram realizar o mesmo
trabalho de investigação científica em torno dos
elementos, instrumentos, processo, técnicas e efeitos
da comunicação coletiva que, no dizer de Writh, se está
tornando rapidamente, se já não o é, a principal
trama da vida social.
Notadamente quando tais grupos atuam numa área
territorial de larga extensão e diferentes estágios de
desenvolvimento econômico e cultural. Quando para cada parcela da comunidade se faz preciso usar
uma linguagem especial, adotar um meio adequado,
empregar uma técnica distinta, sem o que o diálogo é
difícil, senão impossível. Os grupos organizados não
entrarão em comunhão com as diversas outras camadas da
sociedade, ficando assim privadas da plena obtenção
dos seus fins, do cumprimento satisfatório da sua missão,
e, por conseguinte, com os seus interesses definidos
ameaçados.
Os
observadores estudiosos da realidade e atualidade
brasileira têm assinalado, com sinal marcante da situação
nacional, a oposição entre Estado e Nação, entre
elites dirigentes e a massa urbana e rural, entre os
receptores freqüentes das mensagens jornalísticas
pelos veículos convencionais e os públicos cegos e
surdos a tais veículos e aparentemente mudos e
inoperantes. Simonsen,
já em 1936, ao abrir o seu curso de História Econômica,
na Escola Livre de Sociologia e Política de São Paulo,
chamava a atenção para o fato de que “os povos que
hoje se contam na vanguarda do progresso e da civilização
libertaram-se, nos tempos modernos, de uma desorganização
que os estiolava; e a primeira manifestação da sua força
foi a fixação de uma consciência nacional de sua próprias
aspirações e necessidades, permitindo-lhes rotas políticas
que lhes facilitaram uma mais rápida evolução econômica.
No Brasil, apesar dos esforços dos nossos
maiores e
de quanto já realizamos, ainda não chegamos, no
entanto, à inteira formação dessa consciência”.
Entretanto,
nem sempre foi assim.
“Na sociedade colonial incrementam-se as relações
dos grupos entre si; o criador de gado, o bandeirante, o
senhor de engenho operam em áreas sociais diversas, mas
entendem-se. Essas três áreas sociais, ocupadas pelo
branco, mantêm contínuo contato com a sociedade aborígine”,
conforme registra e documenta Cassiano Ricardo.
Paradoxalmente, foi com a implantação dos
prelos e o surgimento e popularização dos jornais -
primeiros veículos de comunicação maciça, que se
verificou a quebra dessa unidade de pensamento e ação,
que Pedro Calmon situa nas lutas da Regência: “A união
destroçava-se nos atropelos da vasta desordem. A província
era uma caixa de ressonância de todas as idéias (...).
Em camadas inferiores, fomentava a subversão social: os
africanos poderiam rebelar-se; receava-se que a Bahia se
transformasse noutro Haiti. A experiência do Império,
sem imperante, descambava na guerra civil.
Fragmentava-se a nação”.
Os
movimentos cívicos, as grandes fases da alteração política
e social, desde então, passam a ser iniciativa e
realização das elites.
O povo, cada dia mais distanciado, mais alheio,
com que indiferente e apático.
Pelo menos, assim o consideram os grupos
dirigentes que atuam em seu nome.
Sufocando os movimentos republicanos de 1817 e
24, a Praieira, a Farroupilha.
Empenhando-se
em guerras periódicas e imperialistas com os vizinhos
do Prata. Sustentando,
durante anos a fio, uma transplantada e decadente
monarquia. E,
afinal, fazendo a abolição e a república com um
atraso de quase um século sobre as manifestações autênticas
do sentimento nacional. Em todos esses episódios, havia naturalmente, um resíduo
das idéias populares, pois, como escreve Edison
Carneiro, “os ideais da classe dominante foram algum
dia, os ideais de todo o povo, embora permaneçam apenas
no seio dos setores politicamente mais atrasados”.
A cisão ética
e política, Nertam Macedo
a diagnostica ao analisar o quadro do 2° Reinado: “O
Brasil era aquilo: uma realeza em que o monarca não
desejava representar a instituição; uma religião
oficial perseguida pelo Estado; um país real, confinado
nos sertões, fiel aos hábitos morais e religiosos dos
seus antepassados; esse mundo encouraçado, desabrido e
selvagem com um vaqueiro, não se reconhecia no ‘país
legal’ dos doutores de Olinda.
O espaço geográfico era o divorcium aquarum
entre as duas comunidades.
O drama brasileiro, que ainda perdura, vem desse
tempo”. E
quando, na década dos anos 20, se intentou o início da
Revolução Brasileira - em nossa opinião ainda em
curso, observou-se mais uma vez o status
bipartido.
Djacir
Menezes nos oferece um impressionante depoimento desse
estado de espírito, dessa alienação ao registrar como
as multidões interioranas reagiam à pregação dos
arautos da Aliança Liberal: “Tinha-se quase a impressão
de falar outra língua. Outra nação nos olhava
admirada, sem atinar com os objetivos. Estranhos e atônitos.
Ouvindo os oradores como se ouvissem algo incompreensível
(...). Que, do significado do voto, sabiam o ato
material de meter uma cédula na urna, rascunhando o
nome quase ilegível. Esse povo cria nos seus catimbós”.
Nada
obstante essa advertência, não se procurou
sistematicamente investigar, descobrir esses catimbós.
Continuaram as elites do poder, as classes bem
pensantes, a assumir posições e a tomar decisões sem
ter em conta o processo mental do homem do povo,
menosprezando-o, a despeito do registro científico de
Boas, que confessa:
Alguns
teóricos supõem a existência de uma equipe mental do
homem primitivo diferente do homem civilizado. Eu jamais
vi uma pessoa de vida primitiva a qual se possa aplicar
esta teoria (...). A conduta de cada um, qualquer que
seja a cultura a que pertence, se determina pelo
material tradicional do que faz uso, e o homem, em todas
as partes do mundo, maneja o material que lhe foi
transmitido, de acordo com os mesmos métodos. (...).
Nossa vantagem sobre o homem primitivo consiste em um
conhecimento muito maior do mundo objetivo, alcançando
penosamente mediante o trabalho de muitas gerações,
conhecimentos que aplicamos bastante mal e que nós, ou
a maior parte de nós, deixamos de lado tão logo um
forte impulso emotivo nos conduza a isso, o que substituímos
por formas de todo análogas às do pensamento primitivo.
Não
se procurou pesquisar a maneira pela qual o povo reage
às sugestões que lhe são feitas.
Nem situar os meios de que se pode dispor para
fazer com que a população menos culta aceite princípios
e normas de mudança social, adote novas maneiras de
trabalhar, de agir, de divertir-se, um outro modo de
crer e decidir. A
nossa elite, inclusive a elite intelectual, tem o folk-way
das classes trabalhadoras das cidades e do campo apenas
como objeto de curiosidade, de análise mais ou menos
romântica e literária.
A
literatura, a arte, as crenças, os ritos, a medicina,
os costumes dessas camadas sociais, os seus meios de
informação e de expressão - continuam ignorados em
toda a sua força e verdade, o que impossibilita a
comunicação e a comunhão entre Governo e povo, elite
e massa.
No
entanto, “teimosa, obstinadamente, o povo conserva-se
a sua inteligência e, através dela, passam os episódios
e fatos gerais que julgamos comuns e irresistíveis”.
Teimosa e obstinadamente, resiste ao imperialismo
cultural, defende “as características julgadas
nacionais contra o nivelamento pela cultura
internacional, dirigida e comum”. Facilmente vitorioso
nas classes altas e médias”.
Valendo-se
de formas tradicionais e rudimentares de expressão, ao
seu alcance - já que privados dos meios e veículos de
maior extensão, mas de manejo reservado às camadas
privilegiadas - oferecem uma resistência épica à
arrancada cultural alienígena, como os anglo-saxões o
fizeram ante o domínio francês dos normandos,
“fazendo ouvir e cantar as proezas do Rei Artur e da Távola
Redonda, as valentias do arqueiro das florestas de
Sherwood, Robin Hood, o fiel Little John,
Adam Bell, Clysme of the Clough, William de
Cloudeslee. Assim,
os germânicos recorreram ao ciclo de Nebelungo-not,
resistindo à influência da cultura francesa, de Luiz
XIV a Napoleão.
Assim
os gregos reviveram as lendas heróicas sob a pressão
turca e os italianos sob os austríacos na Lombardia.
Assim a Finlândia ressuscitou Kalavala.
Esse espírito popular mantém a arte tradicional
típica, própria, inconfundível, com os padrões
baixos de vida ou mesmo com o ambiente econômico
elevado, como na Suíça, norte de Portugal, Alemanha,
toda a Escandinávia.
São heranças indeléveis do artesanato”.
O tremendo perigo que esse desconhecimento dos
meios de comunicação do povo representa para uma
civilização, seja desenvolvida ou em vias de
desenvolvimento, foi bem fixado por Lancelot Hogben, em
seu estudo sobre a evolução da pintura
ao indagar “se algumas das civilizações do passado não
sucumbiram à pressão exterior até que perderam a sua
capacidade de ulterior crescimento porque seus meios de
comunicação eram inadequados para obter o esforço da
comunidade para o desenvolvimento cultural”.
Mostra
que “as fases de rápido crescimento da ciência
ocorrem quando é possível utilizar pessoal abundante e
diversos na solução dos problemas novos e dos que têm
resistido durante muito tempo ao espírito inventivo de
outros” e em que “novas necessidades, novos
materiais e novos instrumentos contribuem para formar
uma situação em que é possível uma mobilização do
talento humano em larga escala”.
Hogben
ajunta que tal situação não basta para lograr
resultados espetaculares, se os meios de comunicação
científica são defeituosos e impedem a livre circulação
das informações, relacionadas com estas atividades e a
coordenação dos novos conhecimentos, mediante sínteses
teóricas globais”.
E melancolicamente conclui que isto ocorre no
mundo ocidental, o que é uma grave ameaça, pois
“quando os meios de comunicação de que a ciência
dispõe limitam a participação recíproca do teórico
e dos que fazem o trabalho cotidiano, nesta contínua
interfertilização de teoria e prática, uma cultura se
aproxima de seu ocaso.
Se
tais constatações apocalípticas são feitas quanto
aos países líderes do desenvolvimento, afigura-se-nos
de muito maior importância que no Brasil e, geralmente,
nos países latino-americanos, como nas novas nações
africanas e orientais, se intente a investigação das
formas de expressão e dos meios de comunicação de que
se vale o povo para impor, às vezes de um modo
inesperado, palpável, e seu pensamento e a sua vontade.
Como o fez, por exemplo, naqueles dramáticos
dias de agosto-setembro de 1961, em que se registrou o
impressionante e inédito episódio da reação unânime
contra o expresso voto dos comandantes supremos das forças
armadas à posse legítima do vice-presidente da República,
com a renúncia do titular.
Fomos todos testemunhas dessa manifestação espontânea,
global, esmagadora, contra decisão personalista, que
pretendia sobrepujar-se à letra e ao espírito da lei e
da justiça. Sobre
os meios convencionais de comunicação, exerceu-se
estrita censura. As
classes populares valeram-se, então, de seus próprios
veículos - folhetos, volantes, atos de presença -
opondo à força militar a sua vontade soberana.
Esses
veículos, e muitos outros meios informais de comunicação
popular continuam, hoje, a conter o pensamento da massa,
embora aquela explosão opinativa não tenha conseguido
sensibilizar ao ponto ideal de atenção as elites
dirigentes e culturais.
Nem mesmo a oposição efetiva aos programas de
desenvolvimento nacional - oposição que é antes de
desconhecimento, de incapacidade receptiva, de que de
caráter político - desperta as nossas lideranças para
o problema da comunicação, como ponto de partida da
nossa caminhada para o progresso.
A
situação, aliás, parece não ser limitada apenas ao
nosso país, nem às nações subdesenvolvidas.
J.E. Gerald, no seu ensaio sobre A
responsabilidade social
da imprensa,
afirma categoricamente: “Numa época em que a
sociedade se está transformando de alto a baixo, a
imprensa não tem auxiliado o público na compreensão
do que está ocorrendo (...). Ajudar o povo a descobrir
centros de poder e torná-lo cônscio em questões de
política não mais parece dever jornalístico”.
O povo norte-americano, pois, guardadas as
devidas proporções e dentro de certas paralelas,
encontra-se, provavelmente, mal informado e não tem,
nos seus veículos ortodoxos de comunicação, autênticos
porta-vozes de sua opinião e dos seus ideais.
As
pesquisas de Lazarsfeld, Berelson, Gaudet, Katz, Merton
e Kurt Lewin, entre outras, nos Estados Unidos e países
subdesenvolvidos, concluíram por contrariar a crença
dominante de que os meios de comunicação coletiva eram
todo poderosos e exerciam decisiva influência direta na
aceitação de novas idéias.
Todas as investigações levaram à evidência de
que o efeito dos meios - jornais, rádio, televisão e
cinema - postos a serviço de grandes campanhas políticas
ou sociais, visando mudar opiniões e atitudes em curto
prazo, não era tão eficaz com se imaginava.
Para
que a mudança se verificasse, uma outra influência se
colocava entre os meios e o grupo afetado - a influência
do “líder de opinião” - personagem quase sempre do
mesmo nível social e de franco convívio com os que se
deixavam influenciar, tendo sobre eles uma vantagem:
estavam mais sujeitos nos meios de comunicação do que
os seus liderados.
Conheciam o mundo - isto é, haviam recebido e
decodificado as mensagens dos meios, transmitindo-as em
segunda mão ao grupo com o qual se identificavam.
O
processo denominado “fluxo da comunicação em dois
estágios” dos meios aos líderes e destes aos seus
amigos mais próximos - foi pacientemente pesquisado em
diferentes ocasiões e diversos ambientes e teve os seus
dados avaliados pelo Departamento de Pesquisa Social
Aplicada da Universidade de Columbia.
De uma maneira geral, foi verificado:
1.
que a influência de outras pessoas em decisões específicas
tende a ser mais freqüente - e certamente mais efetiva
- que a dos meios de comunicação coletiva;
2.
que influenciadores e influenciados mantêm relações
estreitas e, conseqüentemente, tendem a compartilhar
das mesmas características de situações sociais;
3.
que indivíduos intimamente relacionados tendem a ter
opiniões e atitudes comuns e relutam em abandonar o
consenso do grupo, mesmo que os argumentos dos meios de
comunicação coletiva lhes pareçam atraentes;
4.
que, embora a influência passe dos mais para os menos
interessados, estes últimos devem ter suficiente
interesses para serem suscetíveis à mudança.
Lazarsfeld, relatando as conclusões das
pesquisas de que participou, confirma que era preciso
melhor caracterizar os líderes de opinião:
1.
personificavam interesses específicos - por exemplo,
jovens solteiros tornavam-se líderes de moda pela
importância que seu grupo atribuía ao modo de
vestir-se;
2.
ocupavam posições tidas como propiciatórias de alta
autoridade no campo definido - assim, senhoras de idade
com grandes famílias eram conselheiras de compras, por
sua maior experiência;
3. eram acessíveis e extrovertidos, com
muitas relações;
4. tinham acesso a informação relevantes
provenientes de fora do seu círculo imediato.
Esta foi decerto a característica mais
importante, pois a deviam a conhecimentos de fora, a
visitas freqüentes a outras localidades ou, ainda a uma
incomum atenção aos meios de comunicação coletiva
como jornais, revistas e rádio. (...) Os líderes
tinham particular propensão a se submeterem aos meios
de comunicação coletiva adequados às suas esferas de
influência.(...) líderes de modas liam mais revistas
de moda, líderes de opinião liam sobre cinema, etc.
Pesquisas mais recentes substituíram a hipótese
do “fluxo tem dois estágios: os líderes de opinião,
que por sua vez, buscavam conselho e informação com
outras pessoas - num processo que Lazarsfeld denomina -
fluxo em múltiplos estágios - dos meios de comunicação
coletiva, através de vários líderes que se comunicam
entre si, para os grupos liderados”.
Essa consulta a fontes mais autorizadas - ou
assim consideradas pelos líderes de opinião - resulta
da sua mobilidade.
Como registrou investigação realizada em um
contexto subdesenvolvido, no Oriente Médio, os líderes
de opinião nunca estão completamente incorporados à
sua comunidade. Viajam freqüentemente para os contatos
com os seus informantes e conselheiros. Nos regressos,
chegam a recolher para si o prestígio até então
conferido aos mais velhos - os tradicionais anciãos
(entre nós, “coronéis”) - pois se tornaram
elementos de ligação da comunidade com o mundo de
fora.
Essa
conquista de liderança está intimamente ligada à
credibilidade que merece no seu ambiente e à habilidade
do agente comunicador de codificar a mensagem ao nível
de entendimento dos seus receptores.
Em função da estrutura social discriminatória
mantida em nações como a nossa, a massa camponesa, as
populações marginais urbanas e até mesmo extensas áreas
proletárias se comunicam através de um vocabulário
escasso e organizado dentro de grupos de significados
funcionais próprios. Quando se pretende transmitir uma mensagem a essas porções
de indivíduos - e, especialmente, quando a mensagem
insere um novo sistema de valores e conceitos, como no
caso de campanhas mudancistas
- é preciso “traduzir-lhes” a idéia,
adequando-a aos seus esquemas habituais de valoração.
O líder de opinião tem essa capacidade: é um
tradutor, que não somente sabe encontrar palavras como
argumentos que sensibilizam as formas pré-lógicas que,
segundo Levy Bruhl, Bastide, Malinowsky e outros sociólogos,
antropólogos e psicologistas, caracterizam o pensamento
e ditam a conduta desses grupos sociais.
Métodos e técnicas, modalidades e veículos
utilizados pelo líder de opinião para o
desencadeamento e seqüência da atividade comunicativa
também têm importância fundamental para quem deseje
investigar como se informam e participam do processo
social as camadas marginalizadas e menos cultas da
população. E,
especialmente, quando se pretende indicar caminhos ao êxito
de campanhas para a difusão de novas idéias e práticas,
como na atual fase da evolução brasileira, considerada
de transição com vistas ao desenvolvimento sócio-cultural
e econômico.
Já que os
grandes meios convencionais de comunicação coletiva não
funcionam para a obtenção de efeitos positivos para as
pretensões das elites culturais e políticas - as metas
desenvolvimentistas - porque as suas mensagens não são
assimiladas, por interação social, nos grupos
estudados, é tarefa de investigador pesquisar quais os
veículos que, tradicionalmente, servem à condução de
mensagens entendidas e aceitas em tais segmentos da
sociedade.
Em seguida,
impõe-se o trabalho de análise de conteúdo da
mensagem pelo pesquisador, a fim de classificá-la e
compará-la com aquelas omitidas pelos meios
convencionais de comunicação coletiva.
Se interessa (como no nosso caso) limitar o campo
de observação o estudo à comunicação jornalística
- isto é, dos fatos correntes, devida e objetivamente
interpretados e periodicamente transmitidos aos grupos e
receptores - a análise permitirá selecioná-la entre a
grande variedade de comunicações (especificamente
diversionais, promocionais, educativas, morais, etc.)
disseminadas pelos meios populares de difusão. Desde que as mensagens tenham aqueles atributos essenciais a
qualquer manifestação jornalística,
então, sem dúvida, impõe-se a inserção do veículo
com hábil para a emissão de notícias e expressão da
opinião coletiva.
Tarefa que
reclama um aparelho avaliador bem montado e capacitado
é a de medir a eficácia da comunicação, de modo
especial quando se procura alcançar objetivos
determinados, planificados para ditar mudança de opinião
e atitudes. Nesta
hipótese, como o ensina Eisenstadt,
à base de suas pesquisas sobre problemas de comunicação
em Israel, a eficácia é comprovada quando:
1.
tiver um efeito positivo no sentido das aspirações e
das identificações concebidas pelos destinatários em
matéria de hierarquia social (em outras palavras, deve
ser compatível com a imagem que os interessados formam
desta classe social e com as suas aspirações;
2.
for omitida ou transmitida por minerais que gozem de um
grande prestígio;
3.
for compatível com as tendências culturais e os
interesses sociais das elites;
4.
for transmitida pelas elites por via de relações
pessoais primárias, combinadas com as relações que
existem já entre as elites e a massa;
5.
for assimilada por interação pessoal no quadro de
grupos e relações primárias.
De exposto, infere-se que nenhum grupo social de
elite pode subestimar o processo da intercomunicação,
as suas condições e o emprego adequado de instrumentos
para promovê-lo eficazmente. No cumprimento da sua missão
na sociedade - e até mesmo no seu próprio interesse de
sobrevivência e manutenção da posição de liderança
- esses grupos dirigentes precisam valer-se não somente
dos grandes meios de comunicação de seu patrimônio e
dos comunicadores de seu próprio ambiente como, ainda,
dos líderes de opinião populares, armados, por seu
turno, de recursos e veículos que apenas eles possuem e
sabem manejar.
Nos tópicos
precedentes, procurei fixar os fundamentos teóricos que
me levaram à elaboração deste ensaio, de cujos propósitos
e métodos - que consumiram sete anos de atividade -
irei ocupar-me a seguir.
Em 1959,
logo que relatei os meus estudos sobre a comunicação
jornalística, efetuados à base das suas
manifestações convencionais dos seus veículos
consagrados - os periódicos, o rádio, a televisão, o
cinema - buscando isolar os seus atributos essenciais,
caracterizar os seus agentes e apreciar as suas condições
filosóficas, senti-me atraído por outros aspectos da
difusão de informações e expressão da opinião pública,
que pareciam ter escapado ao meu labor de indagação
científica.
Os dados
estatísticos sobre a circulação de jornais e
revistas, número de receptores de rádio e TV, de salas
de espetáculos e os índices de freqüência de
espectadores do cinema, em relação à população
brasileira; ao seu nível cultural, à sua capacidade
aquisitiva e à sua distribuição demográfica pelo
território nacional, levavam-me a procurar esclarecer
problemas que pareciam desafiar as conclusões a que
chegaram naquele primeiro ensaio.
Como se
informavam as populações rudes e tardes do interior de
nosso país continental?
Por que meios, por quais veículos manifestavam o
seu pensamento, a sua opinião? Que espécie de
jornalismo, que forma - ou formas - atenderia à sua
necessidade vital de comunicação?
Teria essa espécie de intercâmbio de informações
e idéias algo em comum com o jornalismo, que passei a
classificar de “ortodoxo”?
E não seria uma ameaça à unidade nacional, aos
programas desenvolvimentistas, aos nossos ideais políticos
e à mesma sobrevivência de homem brasileiro, como tipo
social definido, o alheamento em que nós, jornalistas
enigmática, que é a comunicação sub-reptícia de
alguns milhões de cidadãos alienados do pensamento das
elites dirigentes?
A realidade
brasileira era constatada por sociólogos, psicólogos
sociais, antropologistas, políticos e economistas: dois
brasis se defrontavam.
Um em franco desenvolvimento cultural e econômico;
outro, marginalizado, entravando os planos de progresso.
Um respondendo com maior ou menor desenvoltura
aos apelos dos meios de comunicação coletiva; outro não
suscetível dessa influência e, por conseguinte,
alienado dos objetivos pretendidos pela elite.
Um acreditando nas metas desenvolvimentistas e
mudando os seus padrões de comportamento ao influxo das
idéias e das técnicas novas, difundidas sobretudo
pelos veículos jornalísticos; outro crendo apenas nos
seus “catimbós”
e rejeitando até mesmo uma argumentação lógica,
fundamentada em causas e efeitos para aferrar-se aos
seus preconceitos, hábitos e costumes tradicionais, e
permanecendo surdo às mensagens jornalísticas
convencionais.
Descobrir os
“catimbós”
em que cria o homem do “hinterland” e surpreender o
processo mediante o qual as camadas menos cultas e econômicas
mais frágeis da sociedade urbana e rural se informavam
e cristalizavam as suas opiniões para uma ação mais
próxima ou remota ia-se tornando uma obsessão para o
pesquisado. Poderia
ser uma meta inatingível mas sem dúvida, constituía
um poderoso atrativo para quem sempre se considerou
antes de tudo um repórter.
Havia,
naturalmente, um propósito nesta cobertura quem
dispunha a empreender: queria confirmar os frutos da
pesquisa anterior nos domínios do jornalismo
convencional. Se
a comunicação jornalística era essencial à formação
das crenças e das decisões que impulsionam o indivíduo
e as sociedades à ação, evidentemente aqueles “catimbós”
tinham de ser veículos jornalísticos.
E o processo de atualização, reinterpretação
e readaptação dos modos de pensar e agir dessa massa
surda às mensagens da imprensa, do rádio, da TV e do
cinema, haveria, igualmente, de identificar-se com o
processo jornalístico, produzindo efeito mediante métodos
técnicos semelhantes.
Ou estaria
eu inteiramente errado em tudo quanto verificara e
concluíra antes ou iria encontrar conteúdo jornalístico
em atividades alheias, e até fundamentalmente
dessemelhantes, à atividade jornalística.
Iria flagrar agentes-comunicadores de fatos em
indivíduos que se surpreenderiam se lhes fosse dito que
eram jornalistas. Encontraria
a explosão da opinião pública em palavras e atos
aparentemente vazios ou inócuos de sentido reivindicatório.
Editorialistas vibrantes em iletrados e
analfabetos. Editores
sagazes em pobres diabos sem tostão e sem empresa.
De saída,
foi-me preciso recorrer às páginas da história.
Reler os cronistas coloniais.
Retornar à época em que, no Brasil, não havia
estradas, nem meios de transporte e, muito menos, folhas
impressas. Saber
como se comunicavam os indígenas, senhores da terra,
mesmo antes que aqui chegassem as velas lusitanas.
E acompanhar, através dos séculos de
povoamento, a evolução dos meios primitivos de contato
social. Para
ver, afinal, os que tinham subsistido, resistindo às
mudanças, inovações e circunstâncias, envolvendo-se
embora noutras roupagens, disfarçando-se,
travestindo-se de tal modo que nós os cronistas
modernos, não os identificamos e classificamos como
tais, perdendo em argúcia para os Thevet, Lery,
Anchieta e Gabriel de Sousa nos idos do I e II séculos.
Valeram-se,
nessa atividade sherloquiana, historiadores, sociólogos,
geógrafos, ilustradores, memorialistas.
Coleções de jornais e revistas, de avulsos e
volantes, de livros empoeirados esquecidos nas estantes
de bibliotecas e de “sebos” ou guardados em arquivos
públicos e privados.
As atenções de estudiosos que trabalham e
pesquisam campos afins, muitas vezes sem esperança de
ver divulgados os resultados da sua beneditina
tenacidade. As
conversas que mantive com os mais velhos e experientes
senhores-de-engenho e fazendeiros dos “bons tempos” da cultura canavieira nordestina e daquela “civilização”
do couro e do gibão, a que se refere o poeta.
Com chefes políticos do interior, os “coronéis”
de tanto prestígio, senhores de baraço e cutelo dos
sertões setentrionais brasileiros.
Com venerandas senhoras de quase um século de
existência, testemunhas eloqüentes das grandes
transformações sociais operadas no nosso país nesta
centúria.
Com
filhos e netos de escravos, com país-de-santos, com
gentes das nações africanas e das tribos indígenas, que se mantém vivas e
atuantes nos “maracatus”
e nos caboclinhos do riquíssimo carnaval recifense.
Com os antigos “caixeiros-viajantes” e os
novos representantes comerciais, com motoristas dos
transportes rodoviários, cantadores repentistas,
humildes “passadores-de-bicho”,
que enchem “poules” da manhã à tardinha de sítio
em sítio, com frades missionários, com andarilhos e
retirantes, cabos de destacamentos perdidos nos longes
das caatingas, reformados tenentes e capitães das
volantes policiais que deram fim, matando ou prendendo,
a bandoleiros famigerados.
E
com estes também, especialmente como tranqüilo e
bonachão Antonio Silvino, indultado assim por volta de
1937, que passeava solitário pelas praias olindenses
entoando a meia-voz hinos evangélicos como fiel “crente” converso. Todos
esses tipos, botas-de-sete-léguas com vivência entre
as populações “estrangeiras” de complexo nacional, falando a mesma língua, entendendo-se no
mesmo patuá, sentindo-se parte integrante da massa
rural e urbana, cujos meios de informação e expressão
ou aspirava surpreender.
Poderá a
alguns menos avisados parecer que ouvir o depoimento de
certos desses indivíduos teria sido perda de tempo.
E que não esquecera ou a lição de LAZARSFELD
de que os líderes de opinião não se encontram
particularmente nas classes mais cultas ou entre as
pessoas de maior prestígio da comunidade “mas
distribuem-se de forma bastante equilibrada por todas as
classes e profissões” .
A questão residia em, depois da pesquisa,
selecionar entre eles os agentes da comunicação
popular os “catimbozeiros”;
estudar-lhes a linguagem, situar em sua
mensagem, aparentemente distante do propósito
informativo-opinativo porque na maior parte das vezes
destinada especificamente a preencher ócios,
proporcionar mero entretenimento ou fazer negócio -
situar-lhe o conteúdo rico em significados, que
produziria no ouvinte, no leitor ou no assistente o
mesmo efeito da retórica jornalística entre os
receptores do outro Brasil.
Uma característica predominante surgia nos
agentes-comunicadores selecionados e nas modalidades que
adotavam para a transmissão das suas mensagens - a
característica folclórica.
Com muita precisão Pedro Calmon havia apontado,
na fase agitada da Regência, o início do divórcio
entre as classes sociais da pátria nascente:
“fragmentava-se a Nação”.
E fragmentava-se exatamente quando entravam na liça
os primeiros periódicos, tornando-se, logo,
porta-vozes, das elites dirigentes e cultas.
Essa fragmentação prosseguiria por todo o IV século
e teria o seu ciclo completado com a abolição da
escravatura, que retiraria à influência da casa-grande
a significativa população da senzala.
Os negros forros iriam engrossar a camada social
dos alienados do pensamento e da cultura da elite.
E incorporariam vigorosamente ao patrimônio sócio-cultural
da favela, do mocambo e da tapera as suas tradicionais
formas de expressão.
Que o sobrado, o palacete e a casa-de-fazenda não
compreenderiam, agravando-se a cada passo o abismo hoje
constatado.
Naturalmente,
essas formas de expressão se firmavam em costumes e práticas
vindas dos antepassados longínquos no tempo e no espaço.
Conservadas pela tradição oral e pelo admirável
instinto de preservação das raças oprimidas ou
desprezadas. Encobertas
pelos disfarces necessários à sua sobrevivência, pelo
sincretismo a que os seus portadores se submetiam
inapelavelmente ao contato com outra cultura.
Pertenciam, agora, ao folclore, que os senhores
menosprezavam, atribuindo-lhe valore de circo romano.
E que os próprios mais sagazes observadores do
passado, como Lopes Gama, acreditavam se apenas “um
agregado de disparatos”.
No que, de certo modo, ainda o acompanham certos
românticos estudiosos dos fatos sociais dos nossos
dias, para os quais as manifestações folclóricas são
meros “desenfados populares”, estratificações de
ocorrências e sentimentos idos e vividos.
Quando, na verdade, tais desenfados são
desabafos. Explosões
e não estratificações.
Revestem-se de atualidades e não de memória.
Achava-se de
acordo com a tese de Edson Carneiro, segundo a qual “sob a pressão da vida social, o povo atualiza,
reinterpreta e readapta constantemente os seus modos de
sentir, pensar e agir em relação aos
fatos da sociedade e aos dados culturais do
tempo” , fazendo-se através do folclore que é dinâmico
porque “não obstante partilhar, em boa percentagem,
da tradição e caracterizar-se pela resistência à
moda (...) é sempre, ao mesmo, tempo que uma acomodação,
um comentário e uma reivindicação[18]”.
Registrava,
na pesquisa, que meios de comunicação, que tinham
servido em épocas imemoriais e que haviam sido
abandonados ou tinham evoluído, para uma forma e
utilização sofisticada pelos que detinham a posse
oficial dos instrumentos de informação pública -
continuavam, como então, a prestar-se à veiculação
das mensagens populares: a poesia dos jograis medievais,
a poranduba dos silvícolas, a parlenda interesseira dos
mascates vendendo quinquilharias e fornecendo intrigas
de quebra, acham-se presentes nos improvisos dos
cantadores e nas novidades trazidas e levadas pelos
caixeiros-viajantes e choferes de caminhão, o
encantamento das estórias e lendas, que transmitiam no
seu simbolismo as normas de conduta aos clãs
primitivos, aplicáveis ou de mistura com fatos
correntes, e a sabedoria acumulada na experiência dos
pajés, dos feiticeiros, dos magos tupis e africanos,
mesclada com os ensinamentos dos evangelizadores de
Loyola - relativas à salvação das almas como à
conservação dos corpos e à afirmação da liberdade
humana - também é proporcionada nos nossos dias pelo
folheto impresso em prelos manuais e difundido através
da literatura do cordel, pelos almanaques editados por
laboratórios farmacêuticos, pelas revistas de época
largamente adquiridas no São João, no Natal, no
Carnaval, nos novenários e celebrações de santos
padroeiros.
Veículos de
informação e opinião da massa popular permaneceram
folguedos e autos trazidos no bojo das caravelas e dos
navios negreiros, como “a queima do Judas”, a
“serra dos velhos”, as canções, danças e
fantasias do Entrudo, o teatro de bancos mais pobres e
mais simples do mundo - o mamulengo - e a representação
nos amplos palcos das ruas e dos torreiros do “bumba-meu-boi”,
o mais nacional dos autos populares do país.
Muito do jornalístico se poderia registrar nos
produtos da habilidade artesanal de pintores,
escultores, ceramistas, rendeiras, gravadores e até de
cozinheiras do forno e fogão que desenvolveram e
praticam, conforme Gilberto Freire, “a
mais doméstica e tradicional das artes
brasileiras - a confeitaria” .
Olhadas com
os olhos que não vêem cinema, soletradas pelos lábios
de quem jamais chegou
à quarta-série primária, ouvidas pelos ouvidos moucos
às clarinadas saídas
dos alto-falantes, sentidas pelos insensíveis às
linhas e nuances da arte dos salões e galerias - as
mensagens transmitidas
através desses processos comunicativos singulares
produzem efeitos os mais decisivos no ânimo e no
comportamento da massa apática às solicitações do
jornalismo ortodoxo.
Quem
testemunha, anualmente repetido na semana que
precede ao dia de Finados, o espetáculo de multidões
de romeiros cortando as estradas nordestinas a pé, em
carros de bois, montando jumentos ou lotado
“paus-de-arara” e automóveis, rumo ao Juazeiro
cearense para homenagear a memória do Padre Cícero Romão
Batista, vindos desde o Pará e a Bahia, não pode
deixar de convencer-se da força persuasiva dessas
mensagens. Que
tem assim também comprovado o sentido de permanência
pois não são mais do que uma reprodução do
atendimento aos apelos feitos pelo taumaturgo em vida,
combatido por todos os veículos de informação bem
pensante da época.
A vinculação
estreita entre folclore e comunicação popular,
registrada na colheita dos dados para este estudo,
inspirou o A. na nomenclatura desse tipo “cismático”
de transmissão de notícias e expressão do pensamento
e das reivindicações coletivas.
Folkcomunicação
é, assim, o processo de intercâmbio de informações e
manifestação de opiniões, idéias e atitudes da
massa, através de agentes e meios ligados direta ou
indiretamente ao folclore.
Identificado nos seus caracteres formais e
batizado o fenômeno, dediquei-me a analisá-lo em sua
natureza, isolando-lhe os atributos e comparando-os com
aqueles do jornalismo convencional e erudito.
Como ocorre com a comunicação coletiva em
geral, a folkcomunicação também se especializa,
torna-se caracterizada de acordo com os seus objetivos e
efeitos combinados.
Assim, nem toda manifestação folclórica é
jornalística. E
por isso, da massa de fenômenos folclóricos (ou
indiretamente ligados ao folclore) que recolhi, foram
selecionados os que me pareceram que atendiam àqueles
atributos, confirmando-se, nas suas manifestações e na
personalidade dos seus agentes, os caracteres e condições
do jornalismo dentro da linha traçada no meu ensaio
anterior, até hoje não contestada e que, por conseqüência,
permanece válida.
É o
resultado dessa análise que lerá a seguir, através de
um esboço histórico comentado da Comunicação no
Brasil pré-cabralino e no Brasil Colonial e do
registro, algumas vezes mais e de outras menos
detalhado, dos agentes, métodos e técnicas da
folkcomunicação jornalística.
Na parte final, as conclusões formulam uma
teoria da folkcomunicação e expõem a necessidade
imprescindível de estarmos atentes a essa forma
esquisita do intercâmbio de informações e idéias
entre os dois brasis, no interesse da afirmação e do
desenvolvimento nacional.
[18]
Edison Carneiro.
Dinâmica do Folclore.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1965, p. 2.
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