Depoimento de Zita Beltrão - Extraído do Folkcom´98
1ª Conferência Brasileira de Folkcomunicação


 

Para ver o vídeo, selecione o player abaixo:


Confira abaixo o depoimento de Dona Zita transcrito na íntegra:

Quando eu conheci Luiz ele tinha dezenove anos e eu treze. Na Segunda vez em que nos encontramos, ele exibindo o seu sorriso mais simpático, foi logo dizendo:

- Zita, sabe que você não saiu do meu pensamento desde o momento em que eu lhe vi? Eu estou apaixonado. Quando você crescer, vou casar com você.

E eu pensei:

- Que rapaz saliente! Que brincadeira mais sem graça.

- Não. Ele não estava brincando. Casamos sete anos depois. Ele costumava dizer rindo:

- Sete anos de pastor Jacó serviu a Labão...

Vou comentar - a vôo de pássaro - algumas características de sua personalidade singular:

Luiz foi um amigo muito querido e um excelente companheiro: muito inteligente, cartesiano, um pouco irônico (pouco?), dono de grande sensibilidade, alegre, leal, afável, sensato, prudente, grande capacidade de iniciativa, de domínio de domínio de suas emoções, muita sabedoria em compreender o caráter humano. Adorava a vida. Odiava a injustiça, a burrice e a violência. Cultivava as amizades, gostava de dançar, de cinema, de teatro, de bons restaurantes. Cuidava das roseiras do nosso jardim e de uma pequena horta que tínhamos no nosso quintal (ele adorava ervilhas).


Luiz foi um dos primeiros jornalistas convidados a visitar os países do outro lado da cortina de ferro. Foi um tributo à sua seriedade, imparcialidade, inteligência e ética no trato da notícia.

Orador brilhante, Luiz conquistava o público logo nas primeiras palavras.

Certa ocasião ele estava pronunciando uma conferência em um grande auditório para mais de trezentas pessoas. Ele levara umas fichas com anotações e as consultava de quando em vez. De repente faltou luz e, na maior escuridão, Luiz continuou falando com a mesma eloqüência, entusiasmo e ritmo. Quando a luz voltou, a conferência prosseguiu como se nada tivesse acontecido. Ao terminar ele foi aplaudido, de pé.


Quando havia alguma divergência em questões acadêmicas, nos desencontros de opiniões, nas polêmicas, nos questionamentos, entre Luiz e professores, alunos, pesquisadores, estudiosos da comunicação, estas se restringiam, única e exclusivamente, ao plano intelectual. A amizade, o respeito, a confiança, a elegância sempre estavam presentes.


Profissionalmente Luiz era extremamente desprendido e tinha uma exarcebada concepção da ética jornalística e da função social da empresa.

Exerceu todas as inúmeras atividades a que se propôs e, as que lhe foram confiadas, com a mais intensa paixão e com a maior seriedade.


Outras informações sobre Luiz:

Tínhamos o costume de reunir toda a família em diversas ocasiões: Natal, Ano Novo, Domingo de Ramos, Domingo da Ressurreição, Dia das Mães, Dia dos Pais, Sextas-feiras da paixão, Dia do batizado de nossos netos quando era servido um grande almoço. Antes da refeição, todos em volta da mesa, de mãos dadas, rezávamos uma oração de louvor e agradecimento. Em seguida Luiz fazia um apelo aos filhos, genros, noras e netos para que lembrassem, sempre, de convidar para essas reuniões, os amigos cujas famílias residissem distante para com eles dividir nosso amor, nossa alegria, nossa fé.

O importante dessas reuniões era que dela participavam, como convidados, os empregados de nossa casa e de nossos filhos. (Registro nesse momento, com uma grande saudade de meu marido, que mantemos até hoje, esse costume).

Nos anos 80 estivemos em Jerusalém, onde passamos a Semana Santa.

Percorremos os mesmos caminhos percorridos por Jesus quando condenado à morte na cruz.

Poucos dias depois da Semana Santa, continuando nossa viagem, estávamos em Sodoma, onde nos hospedamos em um hotel às margens do Mar Morto, aquele pedaço de mundo azul, parado, estático como se fora uma imensa turmalina colocada no meio daquela pailagem lunar, árida, estéril, marrom e cinzenta. Dentro de um silêncio sepulcral pareciam flutuar sobre as águas do Mar Morto milhares de estranhas formações cristalinas e de esqueletos de árvores eternamente cobertas com uma camada espessa de sal.

Era de tarde, fazia frio e Luiz estava junto à janela, que se abria para uma turmalina lá embaixo, triste e calado, o olhar perdido na distância, a memória mergulhada num tempo longínquo. Perguntei por que tanta tristeza e ele respondeu:

Estou pensando no sofrimento enorme de Jesus carregando aquela cruz tão pesada sobre os ombros feridos, debaixo de açoites, impiedosamente flagelado e esbofeteado; estou pensando na dor lancinante nas mãos e nos pés aos ser pregado na cruz. Estou pensando na coroa de espinhos, na dor que sentiu quando o soldado o golpeou no peito com a lança.

Luiz era assim: profundamente religioso, amava o seu Deus sobre todas as coisas. Ele rezava o terço diariamente, assistia a missa e comungava todos os domingos.

Fui aluna do Curso Pioneiro de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco e Luiz foi um dos meus professores. Quando eu obtinha as melhores notas disciplinas que o professor Beltrão ensinava, ele dizia:

- "Não é nenhuma vantagem você se destacar como a melhor aluna nas disciplinas que ensino. Afinal você tem um excelente professor a lhe dar aulas particulares e tem a melhor biblioteca na área de jornalismo. Pode parecer proteção!!! Você é uma mulher muito inteligente e tem a obrigação de ser brilhante nas disciplinas dos outros professores. E, com esse argumento (ou chantagem?) ele conseguia que eu estudasse como uma danada, horas a fio, noites a dentro. Felizmente nunca o decepcionei. 
Olinda vivia em Luiz. Olinda vivia com Luiz. Olinda estava presente sempre a cada hora de cada dia, palpitando no seu coração, na sua alma, na sua, lembrança. O amor à sua cidade estava na memória ancestral, oriunda da vivência. Era comovente a presença da herança de amor que seu pai, Dr. Francisco Beltrão lhe deixou, como aliás Luiz relata no seu último livro: "Memória de Olinda" ... em 1954 morria meu pai no Recife. Doze dias antes da sua morte encontrei uma anotação, em sua simplicidade e privacidade, reveladora do seu imenso amor à cidade em que nascera, em forma de derradeiro lamento: "estou me sentindo doente. Ontem não pude ir à Olinda".

O amor de Luiz e de seu pai por Olinda parece que foi processado em um plano cósmico.

Olinda foi, durante os trinta anos em que Luiz viveu em Brasília, uma imensa e intensa saudade.

Antes de encerrar quero dizer do meu orgulho e alegria por essa homenagem que está sendo prestada ao meu marido.

Eu, meus cinco filhos, três noras, dois genros, quatorze netos e quatro bisnetos estamos profundamente sensibilizados e agradecidos.

E para concluir:

Todos os que tiveram a ventura e o privilégio de com Luiz dão testemunho da sua integridade, honradez, dignidade e probidade. Sua vida foi um exemplo. Sua memória é uma benção.

Obrigada.

Zita

 

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