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O
grande negócio é o jornalismo

O
presidente da Rede Record, Alexandre
Raposo, diz que o crescimento da
televisão no Brasil, com o sistema
digital, vai se apoiar na produção de
informação
Fonte:
Portal da Comunicação
Há
menos de dois anos no cargo, o presidente
da Rede Record, Alexandre Raposo,
paulistano de 35 anos, já conseguiu bater
duas metas: levou a empresa ao segundo
lugar em faturamento publicitário
(segundo medição do Ibope Monitor, de
janeiro a junho deste ano) e à segunda
maior audiência em todo o país no
horário nobre (também segundo o Ibope).
Com 15 emissoras próprias e 85 afiliadas,
já cobre mais de 95% do território
brasileiro e abre o sinal para
espectadores de mais de 100 países.
Raposo garante que vai partir para a
disputa contra a Rede Globo pelo primeiro
lugar e marca uma clara separação entre
a Record e a Igreja Universal. "O
fundador da Igreja é o acionista da
televisão. Dá a impressão de que se tem
aí uma relação, mas ela é apenas
comercial, porque quem administra a
televisão não é o dono. Vendemos o
horário da madrugada para a Igreja
Universal. Ela é um cliente", diz
ele, embora o Ibope Monitor não compute
essa receita por considerar a Igreja na
categoria de "anunciantes próprios
das emissoras", como o Baú da
Felicidade para o SBT e a Fundação
Roberto Marinho para a Globo.
A seguir, os principais trechos da
entrevista que ele concedeu à revista
Negócios da Comunicação.
Como surgiu essa decisão de enfrentar
a emissora líder de audiência?
A Record sempre foi uma televisão
feita para São Paulo. Teve uma
participação muito importante na
história da televisão brasileira, mas
não acompanhou as mudanças do mercado.
Quando este grupo assumiu, eram muitos os
problemas, que nós deixamos para trás.
Começamos uma nova Record, muito pequena,
mas já com o objetivo de se tornar
líder. Desde que este grupo assumiu,
quando o empresário Edir Macedo a
adquiriu, no início de 1990, começou o
sonho. Era só sonho, que nós
perseguimos, e hoje ele começa a se
tornar real. Naquela época, a Record era
o último lugar na audiência e hoje é a
segunda no horário nobre.
Qual foi o primeiro passo dado para
perseguir esse objetivo?
Foi começar a formar uma rede. Com
ela, pode-se investir em programação,
porque produzir programas custa caro. Sem
uma grade de qualidade, com grandes
atores, jornalistas, grandes eventos
esportivos, shows, você não chega às
casas das pessoas, e, se você não chega,
o anunciante também não. A meta foi
transformar a Record numa rede nacional
por meio da filiação, porque não havia
capacidade econômica para comprar outras
emissoras. Afiliamos a primeira emissora
em Manaus, mas só conseguirmos trazer
emissoras em grande escala em 1997. Em
1998, com emissoras próprias e afiliadas,
já cobríamos 60% do território nacional
e, hoje, cobrimos 95%, com 100 emissoras,
sendo 85 afiliadas e 15 próprias.
E a expansão internacional?
Temos o sinal aberto para 135 países
e estamos no pacote básico da Sky, com
mais de 8 milhões de assinantes. Nos
outros países, onde não temos um
repetidor, as pessoas que têm uma antena
sintonizam. Temos escritórios na China,
Washington, Nova York, Londres, Israel,
Los Angeles e Miami. Temos também o
trabalho de exportação de novelas, que
é feito aqui mesmo no Brasil. Hoje, 17
países compram nossas novelas. Em
Portugal, fomos líderes de audiência. No
Chile e na Venezuela, a aceitação das
nossas novelas tem sido muito
interessante.
Novela é o seu grande negócio?
Não. O grande negócio é o
jornalismo. É através dele que você
leva a informação e pode cobrar das
autoridades os benefícios para a nação,
é o elo entre a população e a
televisão. Mas a novela é o nosso
carro-chefe no entretenimento.
Por que vocês fazem tudo muito
parecido com a emissora líder?
A decisão foi de fazer da Record uma
televisão de qualidade de padrão
mundial. Essa qualidade que a Globo
imprime não é uma coisa criada por ela,
e sim pelos americanos, pelos japoneses,
pelos ingleses. Nós colocamos a Record
nesse patamar. Adquirimos equipamentos que
nos proporcionassem buscar essa qualidade,
treinamos o pessoal e contratamos novos
profissionais. Acabou ficando com uma
qualidade igual, mas é diferente (risos).
Buscamos o padrão mundial. Se você
comparar nosso jornalismo com o da CNN,
vai ser igual. Se comparar o jornalismo da
Globo, também. Nós não copiamos a
Globo. Nos associamos a esse padrão de
qualidade. A Globo é um referencial, mas
a BBC é muito mais, a CNN...
Nas novelas, vocês contrataram
profissionais da Globo...
Aí é uma coisa inevitável. Só a
Globo produzia novelas. E tinha uma queixa
dos profissionais, porque a emissora
líder não conseguia agrupar todo mundo,
com tanta gente fora do ar, sem escrever,
sem atuar, sem dirigir. Essas pessoas
cobravam não só da gente, mas de outros
canais, para que passássemos a produzir.
Chegamos à conclusão de que o mercado
estava órfão, precisava de alguém para
suportar essas pessoas e inovar, trazer
algo novo.
Vocês não se assustavam com o fato de
os outros concorrentes terem tentado sem
sucesso?
Nenhuma emissora chegou a esse padrão
de qualidade porque apenas tentaram. Nós,
não. Nós pesquisamos, analisamos,
ouvimos o público, os empresários, as
agências. Nós fomos buscar qual era a
necessidade desse mercado. Foi um trabalho
muito bem pensado. Por isso, ele não
aconteceu há dez anos, nem há oito, mas
quando já tínhamos uma rede consolidada,
uma marca totalmente restabelecida e com
grande valor no mercado e afiliadas
fortes.
As novelas pesam quanto no orçamento
da rede? Quanto custou o estúdio no Rio
de Janeiro?
O investimento inicial é muito alto,
porque precisa de estrutura e de
equipamento. O equipamento é caro e tem
impostos muito altos. Mas, quando você
já pagou o equipamento, sua estrutura
está paga, então começa a ser
rentável. Novela é um produto que dá
resultado. O estúdio no Rio custou R$ 200
milhões, ao longo de três anos. Ao
produzir em quantidade, temos economia de
escala, e o mercado internacional dá um
fôlego. Novela é praticamente a única
coisa que se vende, além do espaço
publicitário. Pelo que saiu publicado, a
Televisa fatura US$ 400 milhões (R$ 880
milhões) com exportações, e a Globo
fatura US$ 80 milhões (R$ 175 milhões).
É um mercado interessante e nós queremos
buscar a nossa fatia. Com cinco produtos,
nós já somos o segundo exportador
brasileiro nesse mercado. E queremos
avançar, mas para isso precisamos de mais
produtos.
A emissora tem uma ligação estreita
com a Igreja Universal. Como é essa
relação?
Todo mundo pergunta isso. O fundador
da Igreja é o acionista da televisão.
Por isso, dá a impressão de que se tem
aí uma relação, mas ela existe apenas
de forma comercial, porque quem administra
a televisão não é o dono. Ele é o
proprietário, o acionista, mas ele não
faz parte da gestão. Há um mercado de
anunciantes evangélicos. As igrejas desse
neopentecostalismo passaram a fazer uso da
radiodifusão. Antes de a Igreja Universal
adquirir horários na Record, ela comprava
em outros canais, e ainda compra. Outras
igrejas também compram. Na Bandeirantes
tem um programa de igreja em horário
nobre. Como somos um país muito grande, a
evangelização passou a acontecer também
pela TV. Na Record, vendemos para a Igreja
Universal o horário da madrugada, de 1h15
às 7h00 da manhã, no qual teríamos um
ingresso publicitário muito pequeno. É
uma relação comercial.
É como se fosse um cliente?
Como se fosse, não, ela é um
cliente. Inclusive, a Igreja não está
nem aqui dentro, tem o estúdio dela.
Mesmo comprando espaço na Record, ela
ainda compra horários na CNT, na Rede
Bandeirantes e na TV Gazeta. E não
vendemos para outras igrejas porque não
temos mais horário disponível.
Vocês
perdem o 2o lugar para o SBT durante
o dia. Esse é o maior obstáculo hoje?
O SBT tem muitas horas de
programação para o público infantil, e
o anunciante não vai colocar dinheiro
nessa programação. Como um todo, existe
um empate técnico diário. Ora eles ficam
um ponto na nossa frente, ora nós estamos
na frente. No horário nobre, ao
contrário de nós, que estamos investindo
em produto nacional, o SBT investe no
México, comprando novelas mexicanas, e
deixa de gerar emprego no Brasil. O SBT
tem por semana em torno de 40 horas de
produto nacional, a Record tem 80 horas, e
a Globo, 92 horas. Nós temos o dobro em
relação ao SBT e a Globo não tem nem
15% mais do que nós. No horário nobre,
que movimenta a maior parte da verba
publicitária, nós estamos na frente
deles há pelo menos oito meses. Então, a
Record consolidou o segundo lugar. Em
faturamento, já superamos o SBT, que já
teve um papel importante, mas parou de
investir, demitiu pessoas, perdeu
apresentadores.
Vocês nunca têm mudanças bruscas na
programação. Como conseguem isto?
Todos os produtos que nós lançamos
hoje, de um modo geral, nós pesquisamos
antes. Para o programa "Tudo é
possível", da Eliana, fizemos
dezenas de pesquisas qualitativas, aquelas
feitas com pessoas assistindo e opinando.
Assim, fica mais fácil. Você também
pode errar com pesquisas, mas erra muito
menos. O feeling do patrão, do dono, já
não é tão importante, se você não
pesquisar. Empirismo é coisa do passado.
O que acontece com os produtos hoje?
Segmentação. É uma megatendência
no mundo. As pessoas raramente lançam
produtos. Não há muito o que lançar
hoje, e então você segmenta, faz um
produto para o jovem, para o magro, para o
gordo, para o surfista, para tribos, para
a terceira idade, você segmenta por
religião, por etnia. A televisão
trabalha com muita segmentação. A Record
tem um mix que dá resultado, mas isto se
deve ao planejamento.
O que vocês consideram que é preciso
fazer para adquirir credibilidade?
Qualidade, responsabilidade social,
preocupação com o cidadão. Nós tivemos
dentro da "Prova de Amor",
novela líder de audiência, o trabalho de
busca a crianças desaparecidas. No
momento em que tínhamos, todos os dias,
milhões de pessoas assistindo à novela,
colocávamos ali fotografias de crianças
desaparecidas. Concordo que ela não foi
líder por isso, porque o foco dela não
era o social, mas o social nasceu com a
novela, e isto significa que ele não
atrapalha. O social não pode ser feito
pensando somente no benefício.
Na publicidade, quais são as armas que
vocês têm para atrair os anunciantes?
Uma grande equipe comercial,
planejamento de marketing e um público de
qualidade. O anunciante quer associar sua
marca ao que tem qualidade.
O que a Record espera obter com a
chegada da televisão digital?
Vai ser bom não só para as
emissoras, mas para o Brasil. A escolha do
sistema japonês vai garantir televisão
aberta gratuita para milhões de
brasileiros. Com outro modelo, não
teríamos isso. Como seria ter televisão
paga num país como o Brasil? Não dá,
por enquanto. Seria injusto. Por isso, a
decisão de optar pelo modelo japonês foi
acertada. Temos estudos dos nossos
técnicos, dos técnicos do SBT, da Globo,
do pessoal da Universidade Mackenzie,
estamos todos unidos no mesmo propósito.
O sinal digital ainda depende da
homologação dos canais, embora já se
tenha um estudo pronto. A Record terá um
canal Rio-São Paulo, que é o melhor
canal.
Com o sistema digital, muda o quê?
Teremos portabilidade e mobilidade, o
indivíduo poderá assistir à sua
televisão no trânsito de casa para o
trabalho, pelo telefone celular ou no
monitor no próprio ônibus, metrô ou
trem, e com isso acaba ampliando o número
de pessoas que vão assistir à
televisão. Automaticamente, o mercado
cresce. A alta definição de imagem vai
motivar as pessoas a assistir mais porque
a qualidade é excepcional. E, mais para o
futuro, a interatividade vai ser
interessante.
O crescimento de audiência vai
alavancar o investimento das televisões?
Num primeiro momento vai alavancar
para a indústria, com novos monitores
portáteis, celulares, vai gerar emprego
no Brasil. Nós não vamos cobrar pelo
sinal. Nossa receita continua no mercado
publicitário. Mas vamos aumentar a base,
vamos ter lá 80% de pessoas assistindo.
Hoje, o número de aparelhos é de 60
milhões e amanhã nós vamos ter 80
milhões. É um veículo de massa e vai se
tornar um megamassa.
A programação vai mudar com isso?
O jornalismo vai crescer muito. O que
eu posso garantir é que nós teremos mais
informação. Vamos ter a mobilidade do
rádio. Hoje, as pessoas não carregam
rádio no ônibus ou no trem, mas todo
mundo tem celular. No dia que o sujeito
tiver oportunidade de ter celular com
televisão, ele vai comprar um.
Vocês vão tomar parte da audiência
que a internet tem hoje?
A internet ainda é muito limitada
porque as pessoas não têm acesso. A
televisão vai informar muito mais, com
mais agilidade do que hoje, mais parecido
com o rádio, que é o veículo mais
rápido. E vamos tirar algum tempo das
pessoas na internet. Nós sabemos que a
internet vai crescer, mas ela depende mais
da capacidade econômica das pessoas, de
ter banda larga, que ainda é uma coisa
muito cara.
Vocês vão transmitir simultaneamente
em mais de um canal?
Não pensamos nisso. Precisamos saber
primeiro se vamos ter financiamentos do
BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social], viabilizar recursos
para o financiamento dos transmissores e
dos equipamentos, e também financiar a
indústria, que vai produzir monitores,
novos celulares, o set up box
[decodificador]. E depois tem o imposto de
importação. O governo precisa desonerar
os encargos nas importações, que são
altíssimos. Por que eu tenho que pagar
60% ou 70% de imposto? Nós vamos ganhar,
mas a população, também.
Quanto a produzir o set up box só em
Manaus, qual é a sua posição?
Eu faço parte dessa comissão
provisória que a ministra Dilma Rousseff
criou e que está sendo o fórum de
discussão da política da TV digital. A
minha posição é que o set up box deve
ser produzido em todo o Brasil. A Zona
Franca de Manaus teve o seu momento, ela
continua, mas temos que produzir onde há
capacidade e onde está a população.
Quando o telespectador vai mudar de um
sistema para o outro?
Quando alcançarmos a cobertura dos
principais estados. A indústria não vai
produzir o set up box se não tiver
comprador, e o sujeito não vai comprar o
aparelho se não tiver TV digital onde ele
mora. Se o governo criar linhas de
financiamento este ano ainda ou no início
de 2007, e definir logo os canais nas
principais capitais, o boom acontece em
menos de dois anos.
Com a televisão digital, haverá novas
fontes de receita?
Ela vai abrir um mercado de venda de
conteúdo para o exterior. Com melhor
qualidade, teremos condição de vender
documentários, um segmento que não
existe no Brasil. Ao produzir com o
padrão de qualidade que o mundo usa,
poderemos ampliar todo o mercado de
conteúdo. Também vamos vender conteúdo
específico para telefonia celular. Com a
convergência de mídias, surgem várias
possibilidades, como conteúdo esportivo,
informações em geral, shows. Num reality
show como nós temos (O Aprendiz),
poderemos disponibilizar só um trecho
para o sujeito que não quer todo o
programa. Poderemos ter parcerias com as
empresas de telefonia. Hoje as pessoas
não baixam ringtones? Ainda é cedo para
discutir isso, estamos falando de
possibilidades. Serão tantas coisas que
é difícil mensurar neste momento. Tudo o
que nós fizemos até aqui foi em cima de
planejamento. Vai continuar assim. Não
tem como dar certo sem tentar prever os
passos futuros.
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