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A
um passo da invasão de privacidade?
Fonte:
Comunique-se
Por
trás das lentes de sua teleobjetiva, o
profissional aguarda. Está de campana há
horas, esperando qualquer deslize da
celebridade que se dispôs a acompanhar
naquele período. E, enfim, acontece o
deslize, o furo, o flagra, a certeza de
que seu clique estampará a manchete de
algum veículo. Satisfeito, o fotógrafo
se retira com a convicção de que está
oferecendo ao seu público a informação
que ele espera.
O
jornalismo de celebridades é uma
vertente da profissão que possui um
dos maiores públicos. Seja em sites,
revistas, programas de TV, de rádio ou
em colunas sociais, o fato é que essa
atividade, tantas vezes encarada com
preconceito por colegas jornalistas,
possui audiência cativa e movimenta um
mercado cada vez maior e mais dinâmico
em nosso País.
A
diretora de conteúdo do site O
Fuxico, Esther Rocha, acredita que
esse interesse pelo corriqueiro da vida
de celebridades se deve ao fato de que o
cidadão comum enxerga nos famosos um
espelho de si mesmo. “O fã vê o
artista como algo como ele gostaria de
ser ou de chegar perto. É uma coisa de
projeção, de querer ser parecido. Tem
o lado da fofoca, mas não é só isso.
Por que quando colocam um colar numa
novela ele começa a vender mais?”,
questiona Esther.
Essa
curiosidade do público alimenta a ambição
e a busca pelo furo nos jornalistas do
ramo, levados a se confrontar com o
limite entre liberdade de imprensa e
invasão de privacidade em sua rotina de
trabalho. A precisão e a definição
desse limite variam de veículo para veículo,
mas todos os profissionais ouvidos pelo Comunique-se
declararam que atuam dentro da ética e
que possuem limites próprios que não
estão dispostos a cruzar.
Entre
quatro paredes
Leão
Lobo, apresentador do De Olho nas
Estrelas, da Rede Bandeirantes, afirma
que esse limite é o muro da casa das
pessoas e declara que nunca faria coisas
como utilizar um guindaste para invadir
a privacidade alheia, como fez o pessoal
do Pânico, da Rede TV!. Esse tipo de
barreira física, porém, não é o
suficiente para ser utilizado como critério
em todos os casos, sendo presente a
necessidade de julgamento individual de
cada profissional, muitas vezes pautado
pela ética e pelo bom senso e em outras
nem tanto.
A
subeditora de Caras, Elenice Brígida
Lombardo, aponta que para a publicação
o bom relacionamento com os famosos é
mais importante do que o furo. Ela
afirma que a revista evita fazer
coberturas não permitidas pela
celebridade em questão e sempre
entra em contato com a assessoria ou com
o próprio artista para conseguir
uma foto ou uma versão. Além
disso, também diz que a Caras tem
sempre o cuidado ao abordar temas
delicados, como separações, uma perda
importante ou um aborto, e procura obter
respostas sensíveis e sinceras de seus
entrevistados.
A
diretora de O Fuxico, veículo que
decidiu não noticiar nada sobre as
recentes cenas de amor de uma famosa
apresentadora brasileira em águas
espanholas, diz que procura se colocar
no lugar da pessoa-alvo e utilizar o bom
senso para julgar cada caso. “Eu quero
fazer entretenimento. Saiu disso e
entrou no escândalo, estou fora”,
disse Esther.
Além
do muro da casa das pessoas, Leão Lobo
também diz que tem preocupações
morais e exemplifica apontando um caso
que preferiu não divulgar. Um marido de
uma apresentadora de televisão lhe
enviou uma carta caluniando toda a família
de sua mulher, expondo brigas internas e
profundas ofensas aos familiares da
esposa. “A moça estava no auge e ele
falou que eu poderia publicar que ele
estava dizendo aquilo tudo e assinava a
carta”, disse Leão. “Achei tão
pessoal e tão de baixo nível,
deselegante, que liguei para a
assessoria dela e avisei o que tinha e
que não divulgaria. No dia seguinte
recebi uma cesta de presentes da
assessoria”, afirma.
Apesar
desses exemplos, as celebridades,
principalmente no começo de sua
carreira, necessitam da exposição da mídia
para construir sua imagem. Por isso o
assédio de assessores de imprensa a
profissionais desse ramo do jornalismo
é muitas vezes intenso. Elenice declara
que Caras é contatada por um
“batalhão” de assessores, por
exemplo.
Porém,
em determinado momento de sua carreira,
muitas vezes essa balança muda e os
famosos passam a repudiar a exposição
antes buscada com fervor. Esther
acredita que isso acontece quando a
celebridade já está com uma carreira
estabilizada, sólida. Ao contrário, Leão
Lobo pensa que isso ocorre no momento em
que o sucesso pára de bater a porta,
quando o cachê começa a baixar e a
celebridade precisa chamar a atenção
para si. Ele acredita que foi esse o
caso que se passou com a tal
apresentadora flagrada numa praia
espanhola.
A
vida em imagens
O fotógrafo Francisco Silva, dono da AG
News, agência carioca de fotografia
especializada em celebridades, atua no
ramo há cinco anos, após dez
trabalhando para o Jornal do Brasil.
Sua empresa possui seis funcionários no
Rio de Janeiro e até o final do mês
terá dois em São Paulo. Ele, que já
passou 16h esperando para fotografar Débora
Secco, aponta que esse tipo de atividade
é um tiro no escuro, já que nunca se
sabe exatamente o que você vai
conseguir.
Dois
profissionais da equipe se dedicam
exclusivamente a fazer rondas pelas
praias cariocas em busca de
celebridades. “Eles chegam às 08h,
09h e só saem junto com o sol”,
aponta. Se o tempo estiver nublado, os
fotógrafos se dirigem para a Lagoa
Rodrigo de Freitas ou para restaurantes.
“É um trabalho de caça ao
tesouro”, diz.
Nessa
loteria, muitas vezes um profissional
consegue o equivalente a um mês de salário
numa única foto. Cliques de Maria
Fernanda Cândido dando cambalhotas na
praia renderam R$ 4 mil ao fotógrafo e
as fotos de Chico Buarque com uma mulher
no mar carioca poderiam ser vendidas por
algo entre R$ 5 e 7 mil, segundo
Silva. Uma imagem regular, sem
exclusividade, é negociada por cerca de
R$ 150 no mercado.
Sobre
invasão de privacidade, ele aponta que,
como é dono de seu próprio negócio,
pode impor regras pra si mesmo. Silva
define seu limite de invasão no ponto
em que fazer uma foto crie um problema tão
grande a ponto de o fotografado vir a
falar com ele. Porém também afirma que
“até o momento em que você fez a
foto, paparazzo, e a pessoa não viu,
acho que não existe um limite”.
A
revista Quem está realizando,
por tempo indeterminado, a promoção
“Você é o paparazzo”, incentivando
a população a buscar imagens de
celebridades. Uma foto que venha a ser
publicada rende ao autor R$ 150. Nesses
tempos de tecnologia digital e culto à
imagem e à fama, é um prato cheio para
todo aspirante a paparazzo.
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