Editorias

Grupo S.B.Campo

Comunidade Acadêmica

Corporações Profissionais

Estado e Sociedade Civil

Midiografia

Documentos

Diálogos e Perfis

Polêmicas

Agenda

Direitos á Comunicação na Sociedade da Informação

Acervo

Cartas

 

Serviços

 

 

 

Ano 8, N. 286 - São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil – outubro de 2006

_________________________________________________

 A um passo da invasão de privacidade?

 

Fonte: Comunique-se

Por trás das lentes de sua teleobjetiva, o profissional aguarda. Está de campana há horas, esperando qualquer deslize da celebridade que se dispôs a acompanhar naquele período. E, enfim, acontece o deslize, o furo, o flagra, a certeza de que seu clique estampará a manchete de algum veículo. Satisfeito, o fotógrafo se retira com a convicção de que está oferecendo ao seu público a informação que ele espera.

O jornalismo de celebridades é uma vertente da profissão que possui um dos maiores públicos. Seja em sites, revistas, programas de TV, de rádio ou em colunas sociais, o fato é que essa atividade, tantas vezes encarada com preconceito por colegas jornalistas, possui audiência cativa e movimenta um mercado cada vez maior e mais dinâmico em nosso País.

A diretora de conteúdo do site O Fuxico, Esther Rocha, acredita que esse interesse pelo corriqueiro da vida de celebridades se deve ao fato de que o cidadão comum enxerga nos famosos um espelho de si mesmo. “O fã vê o artista como algo como ele gostaria de ser ou de chegar perto. É uma coisa de projeção, de querer ser parecido. Tem o lado da fofoca, mas não é só isso. Por que quando colocam um colar numa novela ele começa a vender mais?”, questiona Esther.

Essa curiosidade do público alimenta a ambição e a busca pelo furo nos jornalistas do ramo, levados a se confrontar com o limite entre liberdade de imprensa e invasão de privacidade em sua rotina de trabalho. A precisão e a definição desse limite variam de veículo para veículo, mas todos os profissionais ouvidos pelo Comunique-se declararam que atuam dentro da ética e que possuem limites próprios que não estão dispostos a cruzar.

Entre quatro paredes
Leão Lobo, apresentador do De Olho nas Estrelas, da Rede Bandeirantes, afirma que esse limite é o muro da casa das pessoas e declara que nunca faria coisas como utilizar um guindaste para invadir a privacidade alheia, como fez o pessoal do Pânico, da Rede TV!. Esse tipo de barreira física, porém, não é o suficiente para ser utilizado como critério em todos os casos, sendo presente a necessidade de julgamento individual de cada profissional, muitas vezes pautado pela ética e pelo bom senso e em outras nem tanto.

A subeditora de Caras, Elenice Brígida Lombardo, aponta que para a publicação o bom relacionamento com os famosos é mais importante do que o furo. Ela afirma que a revista evita fazer coberturas não permitidas pela celebridade em questão e sempre entra em contato com a assessoria ou com o próprio artista para conseguir uma foto ou uma versão. Além disso, também diz que a Caras tem sempre o cuidado ao abordar temas delicados, como separações, uma perda importante ou um aborto, e procura obter respostas sensíveis e sinceras de seus entrevistados.

A diretora de O Fuxico, veículo que decidiu não noticiar nada sobre as recentes cenas de amor de uma famosa apresentadora brasileira em águas espanholas, diz que procura se colocar no lugar da pessoa-alvo e utilizar o bom senso para julgar cada caso. “Eu quero fazer entretenimento. Saiu disso e entrou no escândalo, estou fora”, disse Esther.

Além do muro da casa das pessoas, Leão Lobo também diz que tem preocupações morais e exemplifica apontando um caso que preferiu não divulgar. Um marido de uma apresentadora de televisão lhe enviou uma carta caluniando toda a família de sua mulher, expondo brigas internas e profundas ofensas aos familiares da esposa. “A moça estava no auge e ele falou que eu poderia publicar que ele estava dizendo aquilo tudo e assinava a carta”, disse Leão. “Achei tão pessoal e tão de baixo nível, deselegante, que liguei para a assessoria dela e avisei o que tinha e que não divulgaria. No dia seguinte recebi uma cesta de presentes da assessoria”, afirma.

Apesar desses exemplos, as celebridades, principalmente no começo de sua carreira, necessitam da exposição da mídia para construir sua imagem. Por isso o assédio de assessores de imprensa a profissionais desse ramo do jornalismo é muitas vezes intenso. Elenice declara que Caras é contatada por um “batalhão” de assessores, por exemplo.

Porém, em determinado momento de sua carreira, muitas vezes essa balança muda e os famosos passam a repudiar a exposição antes buscada com fervor. Esther acredita que isso acontece quando a celebridade já está com uma carreira estabilizada, sólida. Ao contrário, Leão Lobo pensa que isso ocorre no momento em que o sucesso pára de bater a porta, quando o cachê começa a baixar e a celebridade precisa chamar a atenção para si. Ele acredita que foi esse o caso que se passou com a tal apresentadora flagrada numa praia espanhola.

A vida em imagens
O fotógrafo Francisco Silva, dono da AG News, agência carioca de fotografia especializada em celebridades, atua no ramo há cinco anos, após dez trabalhando para o Jornal do Brasil. Sua empresa possui seis funcionários no Rio de Janeiro e até o final do mês terá dois em São Paulo. Ele, que já passou 16h esperando para fotografar Débora Secco, aponta que esse tipo de atividade é um tiro no escuro, já que nunca se sabe exatamente o que você vai conseguir.

Dois profissionais da equipe se dedicam exclusivamente a fazer rondas pelas praias cariocas em busca de celebridades. “Eles chegam às 08h, 09h e só saem junto com o sol”, aponta. Se o tempo estiver nublado, os fotógrafos se dirigem para a Lagoa Rodrigo de Freitas ou para restaurantes. “É um trabalho de caça ao tesouro”, diz.

Nessa loteria, muitas vezes um profissional consegue o equivalente a um mês de salário numa única foto. Cliques de Maria Fernanda Cândido dando cambalhotas na praia renderam R$ 4 mil ao fotógrafo e as fotos de Chico Buarque com uma mulher no mar carioca poderiam ser vendidas por algo entre R$ 5 e 7 mil, segundo Silva. Uma imagem regular, sem exclusividade, é negociada por cerca de R$ 150 no mercado.

Sobre invasão de privacidade, ele aponta que, como é dono de seu próprio negócio, pode impor regras pra si mesmo. Silva define seu limite de invasão no ponto em que fazer uma foto crie um problema tão grande a ponto de o fotografado vir a falar com ele. Porém também afirma que “até o momento em que você fez a foto, paparazzo, e a pessoa não viu, acho que não existe um limite”.

A revista Quem está realizando, por tempo indeterminado, a promoção “Você é o paparazzo”, incentivando a população a buscar imagens de celebridades. Uma foto que venha a ser publicada rende ao autor R$ 150. Nesses tempos de tecnologia digital e culto à imagem e à fama, é um prato cheio para todo aspirante a paparazzo.

 

 

Publicação mensal da Cátedra Unesco/Metodista de
Comunicação para o Desenvolvimento Regional
www.metodista.br/unesco