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Jornalista
de múltiplas experiências
Fonte:
ABI - Rodrigo Caixeta
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Com
mais de 30 anos dedicados ao jornalismo,
Paulo Markun acumula passagens pelos
mais importantes veículos de comunicação
do País, como os jornais O Estado
de S. Paulo, O Globo e Folha
de São Paulo e as emissoras de TV
Globo, Bandeirantes, Record e Manchete.
Escolheu a faculdade de Comunicação
motivado pelo movimento estudantil e não
abandonou mais a profissão. Desde 1998,
apresenta o “Roda viva”, exibido há
20 anos pela TV Cultura e considerado um
dos melhores programas de entrevistas da
televisão brasileira.
Em sua trajetória, Markun ainda
encontrou tempo para escrever mais de
dez livros e dirigir vídeos e documentários.
Passou pelos cargos de repórter,
editor, comentarista, chefe de
reportagem e diretor de Redação e
criou algumas publicações. Nesta
entrevista, ele fala sobre o teste
vocacional que o indicou para a Escola
de Comunicações e Artes da USP (ECA) e
a relação que tinha com Vladimir
Herzog, analisa a cobertura jornalística
da política brasileira e apóia a decisão
do Governo em vetar o projeto de lei
complementar que amplia as funções do
jornalista.
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ABI
Online — Aos 19 anos, o
senhor estreou como jornalista do Diário
Comércio e
Indústria, antes mesmo
de se formar em Jornalismo. Quando
percebeu que tinha vocação para a
profissão?
Paulo Markun — Não sei se em algum
momento senti a tal vocação. Com 15
anos, fiz um teste vocacional e me
indicaram a Escola de Comunicações da
USP, que acabara de ser criada e era
mais elástica. Como alternativa,
apontaram Letras e História. Mas como
cresci na casa do arquiteto Villanova
Artigas, que aglutinava uma rapaziada em
busca de conhecimento e militância,
entrei para o cursinho de Arquitetura.
Seis meses depois, desisti — era e sou
péssimo em qualquer coisa que dependa
de desenho. Acabei prestando vestibular
para a ECA e escolhi Jornalismo. Isso em
1970, 71, quando o que me motivava era o
movimento estudantil, quase desaparecido
depois do boom de 1968. No
primeiro ano de faculdade, consegui esse
emprego de um mês no DCI e não larguei
mais a profissão. Mas só depois de
1975 é que me dediquei integralmente
— ou quase — ao ofício.
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ABI
Online — Ao longo desses
anos, o senhor foi repórter, editor,
comentarista, chefe de reportagem,
diretor de Redação em emissoras de
televisão, jornais e revistas e também
apresentador. Qual dessas funções mais
gosta de exercer? Por quê?
Markun — Gosto muito de editar revista
e de dirigir documentários. São
atividades que têm semelhanças, na
medida em que você mexe com texto e
imagem e precisa editar realmente,
manter o interesse do leitor/espectador
e dar seu recado. Nos últimos anos,
escrevi alguns livros e viveria disso,
se fosse possível no Brasil de hoje.
ABI Online — O
"Roda viva" é considerado um
dos melhores programas de entrevistas da
TV brasileira. A que se deve a fórmula
do sucesso do programa, que está
prestes a completar 20 anos no ar?
Markun — O “Roda viva” é uma
entrevista coletiva em que ninguém tem
o controle do que se passa. Essa
incerteza — bem como a certeza de que
a escolha de entrevistado e
entrevistadores só obedece ao critério
do interesse público — é que faz seu
sucesso. O que dificilmente seria
reproduzido numa TV comercial, por vários
motivos.
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ABI
Online — Este ano o
senhor lançou a série "O melhor
do Roda viva", com os temas
Cultura, Poder e Internacional. Como
surgiu a idéia de registrar em livro as
principais entrevistas do programa?
Markun — De tanto assistir a
entrevistas antigas — quase todas
correndo o risco de desaparecer em razão
da precariedade de sua conservação —
achei que valia a pena transferir parte
delas para o formato livro, que é o
mais duradouro já inventado. Foi o começo
de um projeto que consumiu dois anos, até
ser lançado, e só se viabilizou graças
ao apoio da Direção da Fundação
Padre Anchieta e dos patrocinadores:
Volkswagen, Tractebel e Atento.
ABI Online — Que
entrevista o senhor julgaria a melhor ao
longo da existência do programa?
Markun — Não sei apontar uma só.
Seria injusto com muita gente. Nem mesmo
as 60 relacionadas nos três volumes do
“Melhor do Roda viva” resolvem essa
questão. Isso porque há entrevistas
memoráveis no quesito relevância política,
outras quanto à densidade das idéias,
mais um bocado em razão da alta
voltagem emocional. Não estou fugindo
da resposta, mas uma só é muito pouco
mesmo.
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ABI
Online — O senhor tem
vasta experiência como autor e a
maioria dos seus livros é de caráter
biográfico, como os que retratam Dom
Paulo Evaristo Arns, Anita Garibaldi e
Vladimir Herzog. Ao reunir em "O
sapo e o príncipe" a trajetória
de dois importantes personagens da História
política brasileira, Luiz Inácio Lula
da Silva e Fernando Henrique Cardoso,
qual foi o seu maior trabalho?
Markun — Foi resumir os fatos do
período em 300 e poucas páginas. A
primeira versão passou de mil páginas,
mas quem lê tudo isso? Ao mesmo tempo,
fiz um esforço para produzir um relato
equilibrado, deixando de lado minhas
preferências e opiniões.
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ABI
Online — Em "Meu
querido Vlado", lançado ano
passado em memória dos 30
anos do assassinato do jornalista,
o senhor faz um relato pessoal daquele
momento da História brasileira, que
representou um marco na conscientização
da sociedade em relação à tortura e
aos maus-tratos a presos políticos.
Como era a sua convivência com Vladimir
Herzog?
Markun — Conheci Vlado em março
de 1975 e ele morreu oito meses mais
tarde. Nesse curto período, e
particularmente no mês e pouco que
trabalhamos na TV Cultura, tivemos um
intenso convívio, profissional, político
e pessoal. Ele era um sujeito crítico e
bem-humorado, perfeccionista e satírico,
militante e anti-sectário. Como
qualquer pessoa, estava longe de ser um
santo, mas acreditava que o jornalismo
era um tipo de missão. Faz falta hoje
em dia.
ABI Online — Qual foi
o maior tipo de violência que o senhor
sofreu durante a ditadura?
Markun — Nem foi a tortura, mas a
tentativa de desmoralizar a mim e outros
companheiros presos dias antes do Vlado
— tentativa que contou com o respaldo
entusiasmado da Folha da Tarde.
Claro que a tortura é inesquecível.
Mas igualmente inesquecível — embora
fisicamente indolor — foi o que o
governo Geisel fez com os militantes
presos naquele outubro de 1975, com a
ativa participação do jornal.
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ABI
Online — De que forma o
jornal atuou nesse episódio?
Markun — O General Geisel mandou
instaurar um inquérito policial militar
para apurar as circunstâncias do suicídio
de Vladimir Herzog. A ordem, que o
Comandante do II Exército tentou deixar
de cumprir, foi publicada no dia 30 de
outubro e o General-de-brigada Fernando
de Cerqueira Lima foi encarregado do IPM.
Diante dele e do promotor militar Durval
A. Moura de Araújo, companheiros e
parentes de Vlado tentaram afirmar que
ele fora torturado, que haviam
presenciado parte de seu interrogatório
e que a violência era a regra no
DOI-Codi. Nada ficou registrado. Ao
contrário, o documento foi forjado para
mostrar que o que havia ocorrido fora o
suicídio de um comunista atormentado
pela delação de seus companheiros.
No meu depoimento, ficou registrado que
eu não tinha "conhecimento de
qualquer induzimento, instigação ou
auxílio material por parte das
autoridades do DOI-Codi" em relação
ao suicídio e que não tinha também
conhecimento de que Vlado teria recebido
maus-tratos ou tratamento desumano ali.
Todas as minhas afirmações sobre a
tortura a que fora submetido, com minha
mulher e outras dezenas, talvez uma
centena de companheiros, foram
desprezadas. No dia 20 de dezembro de
1975, a Folha da Tarde ofereceu
oito páginas para publicar a íntegra
da acusação, em que éramos apontados
como delatores do Vlado. A manchete do
jornal não podia ser mais eloqüente:
“Desbaratada a gangue do nazismo
vermelho". Essa mancha só começou
a ser eliminada no início de 1976,
quando o Estadão publicou um
depoimento extrajudicial de Rodolfo
Konder, que recolocou os fatos em seus
lugares, antes de partir para o Canadá.
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ABI
Online — O senhor também
enveredou na linha dos documentários e
lançou, este ano, títulos como
"De amores e guerras", em que
conta a história de Anita e Giuseppe
Garibaldi, e "Timor Lorosae, o
nascimento de uma nação", em que
relata o esforço das Nações Unidas e
dos timorenses para reconstruir o país,
após a sua independência da Indonésia.
O que o levou a investir nesse segmento?
Markun — O documentário é a
reportagem na sua mais perfeita tradução
para a telinha — nunca tive a
oportunidade de produzir um para a
telona, mas quem sabe um dia? Pretendo
retomar esse tipo de trabalho sempre que
consiga os recursos para isso.
ABI Online — O que o
inspirou a criar publicações como o Pasquim
São Paulo, as revistas Imprensa
e Radar
e o Jornal do Norte,
de Manaus?
Markun — Cada caso foi um caso. O
Pasquim surgiu quando o Jaguar me
procurou na TV Record e propôs uma espécie
de franquia paulista, que virou
realidade com a participação de Manoel
Canabarro, principalmente. Dante
Mattiussi também atuou nos primeiros números.
Juntamos um time de colaboradores
competente e diversificado e o projeto
acabou naufragando como tantos outros
nanicos. A Imprensa nasceu depois da
morte do Pasquim São Paulo,
com Canabarro, Dante e Sinval de
Itacarambi Leão, que continua à frente
da revista. Muita gente achava que não
duraria dois meses e ela continua aí.
Radar foi uma tentativa de criar uma
revista sobre a mídia, já abrangendo
TV, Internet, novos veículos. Teve seus
momentos e deixou um rombo gigantesco,
que demorei a pagar. O Jornal do
Norte, feito por encomenda de um
poderoso local, permitiu criar uma
publicação da estaca zero, sem grandes
problemas de recursos. Mas durei só
quatro meses no comando do projeto,
depois do número um. Quem buscar a coleção
logo vai perceber por quê.
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ABI
Online — Neste momento, o
senhor se dedica a outros projetos
editoriais? Qual (ou quais)?
Markun — Ando matutando dois
produtos para a internet, que devem
estar no ar ainda este ano. E, como você
sabe, o segredo é a alma do negócio. Não
é segredo porém, que ganhei um
concurso internacional da Ibermedia,
para transformar em roteiro cinematográfico
de um longa de ficção a história do
conquistador Alvar Nuñez Cabeza de
Vaca. E que história!
ABI Online — Como o
senhor analisa a cobertura jornalística
atual da política brasileira?
Markun — A TV sofre por causa da
legislação que pretende garantir
democracia e equilíbrio, mas amarra o
noticiário e a cobertura. Foi assim no
primeiro turno. Espero que agora, com a
polarização e exigências menores, o
debate se amplie. Mas temo que fique
numa espécie de cabo-de-guerra entre
tucanos falando de ética e petistas, do
governo FHC.
ABI Online — Qual a sua opinião
sobre a corrida presidencial deste ano?
A partir de sua experiência na coordenação
de campanhas políticas, como avalia a
postura dos candidatos?
Markun — O jogo começou
polarizado entre o Presidente, que
precisa mostrar o que fez — e vai fazê-lo
comparando resultados com a chamada era
FHC, que continua mal avaliada — e
Alckmin, que tentou virar Geraldo. O
debate ético só tornou-se a peça
chave depois da publicação da foto da
dinheirama usada para a compra do dossiê
contra Serra. Agora vem o segundo round.
Com resultado imprevisível.
ABI Online — O senhor
disse em uma entrevista que
"jornalismo isento é utopia, deve
ser meta a se alcançar, mas não
existe". Por quê?
Markun — Ué, porque não vou
enganar ninguém. Isenção pode
funcionar em física, química, matemática.
No nosso mundo, dois e dois podem ser
quatro, três ou zero. Mas quem parte
para o trabalho usando suas definições
e preferências como uma espécie de
lanterna não irá muito longe.
ABI Online — Qual sua
opinião a respeito do Projeto de Lei
Complementar n° 79/2004, de autoria do
Deputado Pastor Amarildo (PSC-TO), que
amplia as funções do jornalista e foi
vetado integralmente pelo Governo após
gerar tanta polêmica?
Markun — Fez muito bem o
Presidente em vetar tal projeto. É só
uma demonstração de corporativismo, em
minha opinião. Mas melhor teria sido se
o projeto tivesse sido debatido e
abatido — ou confirmado — no
Parlamento, onde passou sabe-se lá
como.
ABI Online — E qual
é a sua posição em relação à
obrigatoriedade do diploma para
jornalista?
Markun — Fui a favor dessa
obrigatoriedade e hoje sou contra. Acho
que qualquer jornalista formado por uma
boa faculdade será igual ou melhor do
que aqueles sem formação específica.
Mas não creio que essa exigência seja
condição necessária ou suficiente
para assegurar uma imprensa de
qualidade, responsável, ética,
competente.
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ABI
Online — Quais os
caminhos da imprensa na geração da
internet? Qual é o perfil do repórter
do futuro?
Markun — Não tenho a menor idéia
dos caminhos da imprensa. Como a maior
parte da minha geração, tenho
acompanhado o que se passa e me preparo
agora para dar um pitaco mais abusado. O
repórter do futuro não deixará de ser
repórter, ainda que use outros meios e
que enfrente a concorrência de milhões
de blogs.
ABI Online — O que
acha que há de melhor e pior na mídia?
Markun — Como seria o escândalo
do mensalão ou dos sangessugas sem a mídia?
Como seria a mídia sem um escândalo
atrás do outro? Parece um jogo de
palavras, mas indica que o melhor e o
pior coexistem o tempo todo. O Congresso
é mais importante que a Presidência da
República e tem uma cobertura muito
ruim, até hoje.
ABI Online — Qual é
sua a relação com a ABI atualmente?
Markun — Espero que a entidade
coloque um pé efetivo em São Paulo,
onde exerço a profissão. Tem condições
de fazê-lo, sob o comando de Audálio
Dantas, que acaba de assumir o escritório
paulista da ABI. Acho que a
entidade tem muito a fazer no Brasil de
hoje.
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