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Ano 8, N. 282 - São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil – maio de 2006

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HUMBERTO WERNECK lança coletânea das 
melhores crônicas brasileiras do século XX

Marcela de Miranda
Fonte: Jornal Matéria Prima

"Minha geração se formou muito na leitura de bons cronistas"


Formado em Direito, em 1969, pela Faculdade de Direito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), de Belo Horizonte, Humberto Werneck, 61, nunca exerceu essa profissão. Foi no jornalismo que encontrou a vocação profissional, área em que atua desde 1968. Já esteve presente em várias redações de revistas e jornais, como no "Jornal da Tarde", "Jornal do Brasil", nas revistas "Veja", "IstoÉ", "Playboy".

Além da atividade jornalística ele também é escritor. Iniciou a carreira literária com a publicação de Gol de Letras, texto do song book Chico Buarque Letra e Música, em 1989. Depois foi a vez de O desatino da rapaziada, em 1992, Pequenos fantasmas, em 2005. É autor, também, de A arte de sujar os sapatos, posfácio do livro Fama e Anonimato, do americano Gay Talese, um dos mestres do jornalismo literário, lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, entre outros livros.

No último dia 6 de abril, Humberto Werneck esteve na Universidade Estadual de Maringá (UEM), para participar de debate no projeto Sempre um Papo e para lançar o seu último livro Boa Companhia " Crônicas, pela editora Companhia das Letras, uma coletânea das melhores crônicas brasileiras do século XX.

Em entrevista concedida ao jornal Matéria Prima, ele abordou assuntos que envolvem o jornalismo e a literatura e falou sobre o projeto que inclui eventos de lançamentos de livros de escritores e artistas renomados, que visitam quatro capitais: Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Rio de Janeiro (RJ) e Curitiba (PR), além do interior de Minas Gerais e do Paraná.

Como o senhor ingressou no mundo jornalístico?
Eu não me formei em jornalismo. Meu projeto era outro, era literatura, era carreira diplomática e acabei um pouco afastado, mas por circunstâncias acabei tomando o rumo do jornalismo, e nunca me arrependi. Entrei na profissão na época em que o registro não era exigido, portanto antes de 1969, mais exatamente em maio de 1968. Fui convidado pelo escritor Murilo Rubião para trabalhar no Suplemento Literário, em Minas Gerais. Comecei então a descobrir o jornalismo, profissão pela qual, tantos anos depois, continuo apaixonado.

Sobre sua passagem pelas redações de revistas e jornais, como o senhor caracteriza? Sempre gostei mais da reportagem, dentro do jornalismo. Sempre tive vontade de presenciar as coisas, de falar com as pessoas, de ir aos lugares, de não ficar parado na redação. Comecei como repórter do "Jornal da Tarde", disputando vaga com outros, e ganhei. Meu chefe percebeu que eu sabia colocar os pronomes e me puxou lá para dentro [a Redação], para ser uma coisa chamada copydesk, que era um sujeito que ajeitava as matérias. Mas toda a minha carreira foi uma tentativa de resistir a esse distanciamento da rua. Enquanto pude, fui da reportagem. No final da minha carreira em redações " não digo que não vá voltar, mas [hoje] não vejo nada estimulante " fui redator-chefe da "Playboy" durante muitos anos e me tornei um editor sênior, que pautava suas matérias, fazia a reportagem, voltava, escrevia e fechava. Não me julgo nenhuma pessoa auto-suficiente, mas acho que uma coisa boa do jornalismo, gostosa, é o contato em primeira mão com a realidade.

Por que o livro "Pequenos fanstamas" ficou na gaveta durante 40 anos?
Aos 15 anos decidi que iria ser escritor e a partir dos 17 comecei a publicar contos - vários deles premiados em concursos e alguns selecionados para obras coletivas, como a Antologia de Contistas Novos, lançada pelo Instituto Nacional do Livro, em 1971. Mas aos 25 entrei em crise, coloquei em dúvida a minha vocação e tirei da gráfica o que ia ser o primeiro livro. Foi uma reação de orgulho de quem descobre que é muito menor do que a sua ambição. Só muitos anos mais tarde fiz as pazes com o modesto, porém apaixonado, ficcionista que sou e em 2005 lancei Pequenos fantasmas.

Como surgiu sua paixão pelo jornalismo literário?
Nasceu da minha paixão pela literatura e pela consciência de que você pode usar a palavra de uma maneira também que seja bela. A palavra não precisa ser só uma coisa funcional. Olhava às vezes o noticiário do jornal, a informação estava ali, mas podia ser contada de uma maneira mais saborosa, mais atrativa. A beleza é uma coisa que trabalha pela informação, o uso dessa ferramenta estética favorece a informação. E o que nós jornalistas pretendemos a não ser passar uma informação?

Mas há diferença entre jornalismo e literatura.
São dois meios de expressão que trabalham com a mesma ferramenta, a palavra. A semelhança acaba aí. O jornalismo, eu diria, é quase um antípoda da literatura, porque no jornalismo você escreve porque apurou o fato, não pode se afastar do trilho do real. E na literatura da ficção o criador tem liberdade ilimitada, pode criar o que bem entender. Jornalismo literário utiliza recursos da prosa de ficção, só isso. Você pode fazer descrições, reproduzir diálogos, compor personagens quase como um romancista faz, mas sem se afastar um milímetro da realidade, não é permitido inventar nada. Portanto, são duas coisas muito diferentes e não podem ser confundidas.

Quando começou o seu interesse pela crônica?
Comecei a gostar desse gênero no meu tempo de colégio. As amostras de boa literatura brasileira eram dadas no colégio, eram coisas antigas. O autor mais próximo de nós, cronologicamente, era talvez Mário de Andrade, que morreu no mês em que nasci, em 1945. Por volta de 1960 estava em atividade uma turma de grandes cronistas, como Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Rubem Braga, Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Antônio Maria, Cecília Meireles, e surgiu no Rio de Janeiro a Editora do Autor, muito voltada para esse gênero. Começaram a sair livros de crônicas, e para os jovens foi uma maravilha, porque os professores que estavam mais sintonizados com o tempo presente começaram a dar esse texto para ler. Era o máximo pegar uma coisa muito mais próxima, escrita de uma maneira cheia de prazer. A minha geração, não só de escritor, mas de jornalistas, se formou muito na leitura dos bons cronistas.

Como o senhor foi escolhido para fazer essa seleção das crônicas do último livro e que critério usou para escolher essas 42 crônicas?
Porque fui escolhido, não sei. Talvez transpareça muito para as pessoas das minhas relações a paixão que tenho pelo gênero crônica. Na hora de escalar esse time de 42 autores, recebi da Companhia das Letras uma orientação: o foco precisava ser no público jovem. Mas para mim sempre foi claro que escolher o jovem como leitor preferencial não significava abrir mão do leitor maduro. A partir disso, o meu critério foi: quais as crônicas que também eu, um homem maduro, gostaria de ler? Eu me tomei, assim, um pouco como um leitor/modelo. O que não me impediu de fazer uns testes de leitura, de submeter várias das crônicas a leitores jovens. Acho que consegui contemplar os dois públicos. A seleção, modéstia à parte, é bastante boa, são textos que têm durabilidade.

Quais os assuntos que podem ser encontrados nesse livro?
Dos mais variados. Tem coisas que são muito recorrentes em crônica, como o tema do amor. O livro abre com uma historinha muito bem-humorada de Rubem Braga, Viúva na praia. É muito divertida, tem uma sutileza enorme. E fecha com Paulo Mendes Campos, com uma crônica chamada O Amor Acaba, que, apesar do título meio pra baixo, é extraordinariamente cheia de esperança no amor. O amor acaba para recomeçar a qualquer momento, em qualquer lugar, diz Paulo Mendes Campos. O livro tem, ainda, crônicas sobre futebol, um bicho de estimação, uma conversa de bar, a paisagem vista da janela, muitos outros assuntos, até mesmo uma canja de galinha que um colunista de gastronomia tomou num hospital.

Um livro como esse é uma realização pessoal?
Acho que é. Me sinto como o Parreira [Carlos Alberto Parreira], que é incapaz talvez de dar um bom chute em uma bola, mas é capaz de arregimentar o que tem de melhor. E essa é a pretensão que tenho. Acho que alcancei.

O senhor poderia definir a crônica?
Essa é uma grande dificuldade, definir crônica. Sou um amante desse gênero, um devorador. Os especialistas não conseguem definir bem o que é isso. Rubem Braga teve uma sacada muito gozada. Perguntaram, afinal, o que era crônica? - e ele respondeu: "olha, quando não é aguda, é crônica". Quase como quem fala de uma doença... Cabe tudo nesse rótulo, pode pegar um cronista como Fernando Sabino, por exemplo, que fazia mais freqüentemente, pequenas histórias, contos tirados do cotidiano. Dizia Paulo Mendes Campos, que é outro grande cronista, sobre o que é uma crônica: são duas laudas em branco que vão encher com alguma coisa, pode contar uma história, um comentário sobre a atualidade, um poema em prosa...

E qual a sua crônica preferida?
Eu gosto muito da primeira e gosto muito da última, e não abro mão daquelas que estão no meio. Ou seja, o livro todo!

Como é participar do Sempre um Papo e lançar um livro nesse projeto?
Sempre um Papo é uma idéia genial, a genialidade está exatamente na simplicidade. Você pega um autor, uma obra e pessoas interessadas na obra, e cria uma conversa. Participar do Sempre um Papo é, para todo escritor, uma oportunidade preciosa de estar em contato direto com o leitor. É um sucesso tão grande que nesses 20 anos, mais de 2.000 escritores passaram por esse projeto. Inclusive peixes graúdos de outros países, como Saramago [José de Sousa Saramago], Mario Vargas Llosa. Sem falar de todos os brasileiros importantes. Já é a quarta vez que sou convidado para participar, além da antologia Boa Companhia: Crônicas, já estive para lançar Chico Buarque Letra e Música, O desatino da rapaziada e Minérios Domados, a poesia de Hélio Pellegrino, que tive a honra de organizar em livro pela primeira vez, pois o poeta morreu inédito.

Qual a sua opinião sobre a obrigatoriedade do diploma para exercer a profissão de jornalista?
Fico pouco a vontade para falar, uma vez que entrei na profissão no tempo em que não havia esse requisito. Mas não posso deixar de constatar que a exigência do diploma fecha as portas para ótimas cabeças formadas em outras áreas, o que significa empobrecimento do produto jornalístico. Digamos que obrigatório, antes de mais nada, deveria ser um ensino de qualidade nas faculdades de jornalismo.

 

 

 

Publicação mensal da Cátedra Unesco/Umesp de
Comunicação para o Desenvolvimento Regional
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