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HUMBERTO WERNECK lança
coletânea das
melhores crônicas brasileiras do século XX
Marcela de Miranda
Fonte: Jornal Matéria Prima
"Minha geração se formou muito na leitura de bons
cronistas"
Formado em Direito, em 1969, pela Faculdade de Direito da Universidade Federal
de Minas Gerais (UFMG), de Belo Horizonte, Humberto Werneck, 61, nunca exerceu
essa profissão. Foi no jornalismo que encontrou a vocação profissional, área em
que atua desde 1968. Já esteve presente em várias redações de revistas e
jornais, como no "Jornal da Tarde", "Jornal do Brasil", nas
revistas "Veja", "IstoÉ", "Playboy".
Além da atividade jornalística ele também é escritor. Iniciou a carreira literária
com a publicação de Gol de Letras, texto do song book Chico Buarque Letra e
Música, em 1989. Depois foi a vez de O desatino da rapaziada, em 1992, Pequenos
fantasmas, em 2005. É autor, também, de A arte de sujar os sapatos, posfácio do
livro Fama e Anonimato, do americano Gay Talese, um dos mestres do jornalismo
literário, lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras, entre outros
livros.
No último dia 6 de abril, Humberto Werneck esteve na Universidade Estadual de
Maringá (UEM), para participar de debate no projeto Sempre um Papo e para
lançar o seu último livro Boa Companhia " Crônicas, pela editora Companhia
das Letras, uma coletânea das melhores crônicas brasileiras do século XX.
Em entrevista concedida ao jornal Matéria Prima, ele abordou assuntos
que envolvem o jornalismo e a literatura e falou sobre o projeto que inclui
eventos de lançamentos de livros de escritores e artistas renomados, que
visitam quatro capitais: Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Rio de Janeiro
(RJ) e Curitiba (PR), além do interior de Minas Gerais e do Paraná.
Como o senhor ingressou no mundo jornalístico?
Eu não me formei em
jornalismo. Meu projeto era outro, era literatura, era
carreira diplomática e acabei um pouco afastado, mas por circunstâncias acabei
tomando o rumo do jornalismo, e nunca me arrependi. Entrei na profissão na
época em que o registro não era exigido, portanto antes de 1969, mais
exatamente em maio de 1968. Fui convidado pelo escritor Murilo Rubião para
trabalhar no Suplemento Literário,
em Minas Gerais. Comecei
então a descobrir o jornalismo, profissão pela qual, tantos anos depois,
continuo apaixonado.
Sobre sua passagem pelas redações de revistas e jornais, como o senhor
caracteriza? Sempre gostei mais da reportagem, dentro do jornalismo. Sempre tive vontade de
presenciar as coisas, de falar com as pessoas, de ir aos lugares, de não ficar
parado na redação. Comecei como repórter do "Jornal da Tarde",
disputando vaga com outros, e ganhei. Meu chefe percebeu que eu sabia colocar os
pronomes e me puxou lá para dentro [a Redação], para ser uma coisa chamada
copydesk, que era um sujeito que ajeitava as matérias. Mas toda a minha
carreira foi uma tentativa de resistir a esse distanciamento da rua. Enquanto
pude, fui da reportagem. No final da minha carreira em redações " não digo
que não vá voltar, mas [hoje] não vejo nada estimulante " fui
redator-chefe da "Playboy" durante muitos anos e me tornei um editor
sênior, que pautava suas matérias, fazia a reportagem, voltava, escrevia e
fechava. Não me julgo nenhuma pessoa auto-suficiente, mas acho que uma coisa
boa do jornalismo, gostosa, é o contato em primeira mão com a realidade.
Por que o livro "Pequenos fanstamas" ficou na gaveta durante 40
anos?
Aos 15 anos decidi que iria ser escritor e a partir dos 17 comecei a publicar
contos - vários deles premiados em concursos e alguns selecionados para obras
coletivas, como a Antologia de Contistas Novos, lançada pelo Instituto Nacional
do Livro, em 1971. Mas aos 25 entrei em crise, coloquei em dúvida a minha
vocação e tirei da gráfica o que ia ser o primeiro livro. Foi uma reação de
orgulho de quem descobre que é muito menor do que a sua ambição. Só muitos anos
mais tarde fiz as pazes com o modesto, porém apaixonado, ficcionista que sou e
em 2005 lancei Pequenos fantasmas.
Como surgiu sua paixão pelo jornalismo literário?
Nasceu da minha paixão pela literatura e pela consciência de que você pode usar
a palavra de uma maneira também que seja bela. A palavra não precisa ser só uma
coisa funcional. Olhava às vezes o noticiário do jornal, a informação estava
ali, mas podia ser contada de uma maneira mais saborosa, mais atrativa. A
beleza é uma coisa que trabalha pela informação, o uso dessa ferramenta
estética favorece a informação. E o que nós jornalistas pretendemos a não ser
passar uma informação?
Mas há diferença entre jornalismo e literatura.
São dois meios de expressão que trabalham com a mesma ferramenta, a palavra. A
semelhança acaba aí. O jornalismo, eu diria, é quase um antípoda da literatura,
porque no jornalismo você escreve porque apurou o fato, não pode se afastar do
trilho do real. E na literatura da ficção o criador tem liberdade ilimitada,
pode criar o que bem entender. Jornalismo literário utiliza recursos da prosa
de ficção, só isso. Você pode fazer descrições, reproduzir diálogos, compor
personagens quase como um romancista faz, mas sem se afastar um milímetro da
realidade, não é permitido inventar nada. Portanto, são duas coisas muito
diferentes e não podem ser confundidas.
Quando começou o seu interesse pela crônica?
Comecei a gostar desse gênero no meu tempo de colégio. As amostras de boa
literatura brasileira eram dadas no colégio, eram coisas antigas. O autor mais
próximo de nós, cronologicamente, era talvez Mário de Andrade, que morreu no
mês em que nasci, em 1945. Por volta de 1960 estava em atividade uma turma de
grandes cronistas, como Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Rubem Braga,
Rachel de Queiroz, Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Antônio Maria,
Cecília Meireles, e surgiu no Rio de Janeiro a Editora do Autor, muito voltada
para esse gênero. Começaram a sair livros de crônicas, e para os jovens foi uma
maravilha, porque os professores que estavam mais sintonizados com o tempo
presente começaram a dar esse texto para ler. Era o máximo pegar uma coisa
muito mais próxima, escrita de uma maneira cheia de prazer. A minha geração,
não só de escritor, mas de jornalistas, se formou muito na leitura dos bons
cronistas.
Como o senhor foi escolhido para fazer essa seleção das crônicas do último
livro e que critério usou para escolher essas 42 crônicas?
Porque fui escolhido, não sei. Talvez transpareça muito para as pessoas das
minhas relações a paixão que tenho pelo gênero crônica. Na hora de escalar esse
time de 42 autores, recebi da Companhia das Letras uma orientação: o foco
precisava ser no público jovem. Mas para mim sempre foi claro que escolher o
jovem como leitor preferencial não significava abrir mão do leitor maduro. A
partir disso, o meu critério foi: quais as crônicas que também eu, um homem
maduro, gostaria de ler? Eu me tomei, assim, um pouco como um leitor/modelo. O
que não me impediu de fazer uns testes de leitura, de submeter várias das
crônicas a leitores jovens. Acho que consegui contemplar os dois públicos. A
seleção, modéstia à parte, é bastante boa, são textos que têm durabilidade.
Quais os assuntos que podem ser encontrados nesse livro?
Dos mais variados. Tem coisas que são muito recorrentes em crônica, como o tema
do amor. O livro abre com uma historinha muito bem-humorada de Rubem Braga,
Viúva na praia. É muito divertida, tem uma sutileza enorme. E fecha com Paulo
Mendes Campos, com uma crônica chamada O Amor Acaba, que, apesar do título meio
pra baixo, é extraordinariamente cheia de esperança no amor. O amor acaba para
recomeçar a qualquer momento, em qualquer lugar, diz Paulo Mendes Campos. O
livro tem, ainda, crônicas sobre futebol, um bicho de estimação, uma conversa
de bar, a paisagem vista da janela, muitos outros assuntos, até mesmo uma canja
de galinha que um colunista de gastronomia tomou num hospital.
Um livro como esse é uma realização pessoal?
Acho que é. Me sinto como o Parreira [Carlos Alberto Parreira], que é incapaz
talvez de dar um bom chute em uma bola, mas é capaz de arregimentar o que tem
de melhor. E essa é a pretensão que tenho. Acho que alcancei.
O senhor poderia definir a crônica?
Essa é uma grande dificuldade, definir crônica. Sou um amante desse gênero, um
devorador. Os especialistas não conseguem definir bem o que é isso. Rubem Braga
teve uma sacada muito gozada. Perguntaram, afinal, o que era crônica? - e ele
respondeu: "olha, quando não é aguda, é crônica". Quase como quem
fala de uma doença... Cabe tudo nesse rótulo, pode pegar um cronista como
Fernando Sabino, por exemplo, que fazia mais freqüentemente, pequenas
histórias, contos tirados do cotidiano. Dizia Paulo Mendes Campos, que é outro
grande cronista, sobre o que é uma crônica: são duas laudas em branco que vão
encher com alguma coisa, pode contar uma história, um comentário sobre a
atualidade, um poema em
prosa...
E qual a sua crônica preferida?
Eu gosto muito da primeira e gosto muito da última, e não abro mão daquelas que
estão no meio. Ou seja, o livro todo!
Como é participar do Sempre um Papo e lançar um livro nesse projeto?
Sempre um Papo é uma idéia genial, a genialidade está exatamente na
simplicidade. Você pega um autor, uma obra e pessoas interessadas na obra, e
cria uma conversa. Participar do Sempre um Papo é, para todo escritor, uma
oportunidade preciosa de estar em contato direto com o leitor. É um sucesso tão
grande que nesses 20 anos, mais de 2.000 escritores passaram por esse projeto.
Inclusive peixes graúdos de outros países, como Saramago [José de Sousa
Saramago], Mario Vargas Llosa. Sem falar de todos os brasileiros importantes.
Já é a quarta vez que sou convidado para participar, além da antologia Boa
Companhia: Crônicas, já estive para lançar Chico Buarque Letra e Música, O
desatino da rapaziada e Minérios Domados, a poesia de Hélio Pellegrino, que
tive a honra de organizar em livro pela primeira vez, pois o poeta morreu
inédito.
Qual a sua opinião sobre a obrigatoriedade do diploma para exercer a
profissão de jornalista?
Fico pouco a vontade para falar, uma vez que entrei na profissão no tempo em
que não havia esse requisito. Mas não posso deixar de constatar que a exigência
do diploma fecha as portas para ótimas cabeças formadas em outras áreas, o que
significa empobrecimento do produto jornalístico. Digamos que obrigatório,
antes de mais nada, deveria ser um ensino de qualidade nas faculdades de
jornalismo.
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