Editores Responsáveis: Resgatando a História da Imprensa e Construindo a História da Mídia no Brasil (1908 - 2008) LINKS www.jornalismo.ufsc.br/redealcar
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Encontro Nacional Mais d Mais
de 250 inscritos no III Encontro da Rede ALCAR em Novo Hamburgo (RS) Mais de 2 Grupos de Trabalho História
do Jornalismo Sócios
em Destaque Série
Alcar – Livros de Sócios com o Selo da Rede Alfredo de Carvalho
Núcleo
Baiano
Capítulos de História da Mídia Dom Quixote: um best-seller de 400 anos
A História da Televisão no
Paraná: um jeito próprio de fazer parte da televisão brasileira JORNAL DA REDE ALCAR
Encontro Nacional Mais de 250 inscritos no III Encontro da Rede ALCAR em Novo Hamburgo (RS)
No
segundo dia acontecerá o colóquio acadêmico Érico
Veríssimo: do Jornalismo à Literatura, marcando o centenário de
nascimento do autor. O colóquio contará com a coordenação do pesquisador e
vice-presidente gaúcho, Antônio Hohlfeldt. |
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Júlio
Afonso Pinho (Universidade Federal de Goiás) |
O contexto
histórico do nascimento das Relações Públicas |
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Rudimar
Baldissera (FEEVALE/UCS) e Marlene Branca Sólio (UCS) |
Relações
Públicas – Processo histórico e Complexidade |
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Cleusa
Maria Andrade Scroferneker (PUCRS) |
(Re)Construindo
a história das Relações Públicas |
Mesa-Redonda
2: Relações Públicas - Conceitos e Práticas
das 16h30min
às 18h30min
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Ana Maria Walker Roig Steffen (PUCRS) |
Teoria e
Prática – uma relação dissonante em Relações Públicas no Brasil do
Século XX |
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Ana Maria
Córdova Wels (PUCRS/FEE) |
Aspectos
históricos da atividade de Relações Públicas: paralelos com a origem
das Assessorias de Comunicação Social |
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Laura
Maria Glüer (Centro Universitário Metodista IPA) |
O conceito
de Empresa-Rede na Assessoria de Imprensa - um estudo em Porto Alegre (RS) |
Mesa-Redonda
3: Trajetórias do Ensino de Relações Públicas
das 8h30min
às 10:00horas
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Cintia
Carvalho (FEEVALE/ULBRA) e Helaine Abreu Rosa (FEEVALE) |
A trajetória
do curso de Relações Públicas da FEEVALE: dos primórdios à
contemporaneidade |
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Marcia Formentini, André Gagliardi, Tiago Mainieri de
Oliveira (UNIJUÍ) |
A trajetória
das Relações Públicas na região Noroeste do RS |
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Ediene do
Amaral Ferreira (UNIVALI) |
O ensino das Relações Públicas em Santa
Catarina |
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João
Carissimi (UNIVALI) |
Sônia
Bandeira (1965-1999): a trajetória de vida da relações públicas em
Santa Catarina |
|
Gustavo
Eugênio Hasse Becker (ULBRA) |
Inventário bibliográfico em monografias de Relações Públicas
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Vagner de
Carvalho Silva (Mestrando PUCRS) |
As Relações
Públicas Internacionais nos currículos de Relações Públicas do Rio
Grande do Sul |
Tópico A:
Características do Egresso do Curso
Tópico B:
Características da Estrutura do Curso
Tópico C:
Questões de Avaliação do Curso
Fórum de Professores de Relações Públicas
Sócios
em Destaque
Série
Alcar – Livros de Sócios com o Selo da Rede Alfredo de Carvalho
Desde a sua fundação, em 2001, a
Rede Alfredo de Carvalho vem desenvolvendo esforços no sentido de disseminar a
produção científica dos pesquisadores a ela integrados. Para tanto, instituiu
o Selo Alcar, criado pela equipe da Editora da Universidade Federal da Bahia. Até
agora foram publicados 6 volumes nessa série, que agrega mais uma edição,
produzida pelo GT de História da Publicidade e Propaganda, a ser lançado no
encontro de Novo Hamburgo, sob a coordenação do Prof. Dr. Alfredo Queiroz. Eis
a relação das obras já publicadas, bem como dos seus autores/organizadores:
1. Cipriano Barata na Sentinela da Liberdade
– Marco Morel, Salvador, Academia Baiana de Letras / Assembléia Legislativa
do Estado da Bahia, 2001, 412 p.
2.
Rumo ao Bicentenário da Imprensa Brasileira
– José Marques de Melo, Cybelle de Ipanema e Esther Bertoletti, Salvador,
NEHIB, 2002, 69 p.
3.
Marco Zero da Rede Alfredo de Carvalho na Bahia
- Luiz Guilherme Pontes Tavares, ed., Salvador, Núcleo de Estudo da História
dos Impressos da Bahia, 2003, 43 p.
4.
Vargas, agosto de 54, a história contada pelas ondas
do rádio – Ana
Baum, org., Rio de Janeiro, Editora Garamond, 2004, 237 p.
5.
São Paulo na Idade Mídia – José Marques de Melo e Antonio Adami,
orgs., São Paulo, Arte & Ciência, 2004, 377 p.
6.
Apontamentos para a História da Imprensa na Bahia – Luis Guilherme Pontes Tavares, org.,
Salvador, Academia Baiana de Letras / Assembléia Legislativa do Estado da
Bahia, 2005, 157 p.
7.
Propaganda: História e Modernidade –
Adolpho Queiroz, org., São Paulo, Rede Alcar, 2005
Presidente da Rede Alcar recebe título honorífico na UFPB
Ao fazer a entrega solene do título de Doutor Honoris Causa ao Professor José Marques de Melo, em João Pessoa, Paraíba, na sala do conselho universitário, na noite de 25 de fevereiro de 2005, a Reitora Maria Yara Campos Matos declarou que a Universidade Federal da Paraíba -UFPB sentia-se honrada em prestar aquela homenagem no marco comemorativo dos 50 anos da instituição.
Ele disse textualmente: "Professor Doutor José Marques de Melo: nós que fazemos a Universidade Federal da Paraíba, nos sentimos muito honrados em tê-lo, a partir de hoje, fazendo parte de nossa Instituição. E esta ocasião se reveste de maior importância porque este é o ano do cinqüentenário de nossa Universidade: cinqüenta anos construindo uma história que se pauta pela busca da excelência acadêmico-científica, e sua história, professor, só vem enriquecê-la".
Dentre as personalidades que recentemente mereceram igual honraria da UFPB destacam-se o escritor brasileiro Ariano Suassuna e o sociólogo francês Edgar Morin.
A outorga do título honorífico ao Professor Marques de Melo foi aprovada por unanimidade pelo Conselho Universitária da instituição, em sessão de 29 de março de 2004, mediante proposta endossada pelo Departamento de Comunicação Social, de autoria dos professores Moacir Pereira e Wellington Pereira.
Em sua justificativa, os autores realçaram, entre outros méritos, "a qualidade do seu trabalho como pesquisador e professor de Comunicação Social na América Latina, tendo sua obra reconhecida internacional e nacionalmente, contribuindo para a manutenção do status científico da área de Comunicação Social".
Ato solene
A sessão especial do Conselho Universitário da UFPB convocada para a entrega do título contou com a presença de representantes do Governador do Estado da Paraíba e do Prefeito da Cidade de João, bem como de entidades corporativas, reunindo uma centena de intelectuais, profissionais e estudantes.
A apresentação do homenageado foi feita pelo professor Moacir Barbosa, que resgatou sua história de vida, destacando aspectos da trajetória universitária. Ele esclareceu que apesar de ter consolidado sua carreira acadêmica no sudeste do país, mais precisamente na Universidade de São Paulo, sempre guardou um olhar de incentivo para a construção dos programas de pós-graduação no Nordeste, região onde nasceu e se manteve ligado à pesquisa principalmente no âmbito da Folkcomunicação.
Por sua vez, coube ao professor Wellington Pereira realizar o balanço crítico da obra do professor Marques de Melo. Além de mencionar sua amplitude temática e sua constante sintonia com o pensamento comunicacional contemporâneo, especialmente a Escola Latinoamericana de Comunicação, ele destacou sua fidelidade às raízes nordestinas, mantendo permanente diálogo com autores paradigmáticos como Gilberto Freyre, Paulo Freire, Celso Furtado, Josué de Castro e Luiz Beltrão.
Em seu discurso de encerramento, a Reitora Maria Yara Campos Matos arrematou: "Neste ato enfatizamos a importância da distinção porque cada procedimento realizado nesta noite teve o objetivo de lembrar e registrar o que não pode nem deve ser esquecido: a contribuição inestimável do professor, jornalista e escritor José Marques de Melo prestada à educação e à sociedade brasileira. Este ritual registra uma história, lembra um passado de trabalho profícuo que deixou raízes profundas e extensas; e esse passado é indestrutível porque fez parte da textura de vida do agraciado e de todos aqueles que com ele conviveram ou aprenderam"
Desafios do jornalismo
Em sua oração de agradecimento o Professor Marques de Melo revelou-se comovido, principalmente por ser um desterrado nordestino, generosamente acolhido por São Paulo, quando foi obrigado, como tantos "paus-de-arara", a se refugiar no sudeste brasileiro, no seu caso em busca de melhores oportunidades intelectuais, tendo em vista a perseguição que os "donos do poder" empreenderam contra todos aqueles que não rezassem pela cartilha da "doutrina de segurança nacional", instituída pelo regime militar pós-1964.
Em seguida, dirigiu-se particularmente às novas gerações de professores e estudantes de jornalismo, concitando-os a corresponder aos desafios cruciais que a conjuntura emergente coloca perante a profissão e a sociedade.
Enfatizou o impasse histórico vivenciado pelo jornalismo brasileiro, qual seja a pequena expansão do público leitor de jornais e revistas, em face do pauperismo econômico e da carência educacional que vitima a maioria da população nacional. Cabe aos vastos contingentes da sociedade brasileira - argumentou - matar sua fome cotidiana de informações através da mídia eletrônica, principalmente o rádio e a televisão, veículos que são obrigados a nivelar seus conteúdos de acordo com patamares cognitivos situados quase ao rés-do-chão para poder garantir sua sobrevivência econômica.
Lamentou, a seguir, o descompasso existente entre as demandas do mercado e as estratégias universitárias. "É justamente aí que reside um dos impasses colossais das nossas escolas de comunicação, particularmente dos seus cursos de jornalismo. Pois eles privilegiam de modo ostensivo programas de ensino ancorados exclusivamente no referencial da cultura erudita, desdenhando, quando não desprezando, o universo popular. A ênfase da produção de mensagens na maioria das nossas instituições permanece estacionária na mídia gutenbergiana, quando nada extrapolando para as formas de expressão escrita disseminadas pela internet."
E fez uma conclamação aos jovens. "Gostaria de desafiar a nova geração dos estudiosos do jornalismo da nossa região, no sentido de buscar alternativas pedagógicas que correspondam às aspirações dos contingentes de famintos de cultura e de informação, nutrientes fundamentais para convertê-los em cidadãos ativos e participantes. Do contrário eles permanecerão alvo fácil das manipulações dos populistas de todos os matizes, hábeis no uso da mídia audiovisual."
Finalizando, destacou a sua preocupação em relação às investidas perpetradas por segmentos do poder nacional no tocante ao instituto da liberdade de expressão e pensamento, cuja proteção foi institucionalizada pela carta constitucional de 1988. "Temos presenciado, contudo, tentativas esboçadas por agentes do poder executivo ou do judiciário no sentido de minar o edifício que sustenta a liberdade de imprensa. Artifícios ostensivos ou dissimulados começam a despontar em cadeia, resultando em atos que restringem ou inibem o desempenho profissional dos jornalistas. Se não houver uma constante vigilância da sociedade corremos o perigo de retrocesso."
Perfil
José Marques de Melo é jornalista, professor universitário, pesquisador científico e consultor acadêmico.
Iniciou-se no jornalismo aos 15 anos de idade, mas preferiu seguir a carreira acadêmica, tendo sido o primeiro Doutor em Jornalismo diplomado em universidades brasileiras. Integrou a equipe fundadora da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paula, da qual esteve afastada durante a segunda metade dos anos 70, perseguido pela ditadura militar. Com a anistia política de 1979 retornou à instituição, onde completou sua carreira universitária, tendo sido eleito pela comunidade acadêmica para a mais elevada posição hierárquica, ou seja, o cargo de Diretor, quando se aposentou no serviço público. Desde então, integra a equipe acadêmica da Universidade Metodista de São Paulo, onde coordenou o programa de pó-graduação em comunicação social, dirigiu a faculdade de ciências da comunicação e da cultura e atualmente lidera a Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional. Preside, desde 2001, a Rede Alfredo de Carvalho para o Resgate da Memória da Imprensa e a Construção da História da Mídia no Brasil.
Tem uma vasta e diversificada produção bibliográfica, sendo autor de duas dezenas de livros e mais de duas centenas de artigos em periódicos científicos do país e do exterior. Suas obras mais recentes são: Jornalismo Brasileiro (Sulina, 2003), A esfinge midiática (Paulus, 2004) e Midiologia para iniciantes (Educs, 2005).
Homenagens da mesma natureza desta que acaba de receber da Universidade Federal da Paraíba já lhe foram outorgadas, anteriormente, pelas seguintes universidades: Universidade Católica de Santos (1997), University of Texas, Austin (1998), Universidade de São Paulo (2001), Universidade Federal de Alagoas (2003).
Informações mais detalhadas da sua trajetória intelectual podem ser encontradas na Plataforma Lattes do CNPq ou no cibermemorial:
www.marquesdemelo.com.brFonte: JBCC – Jornal Brasileiro de Ciências da Comunicação, n. 268, ano 2005
Fundadora da Rede Alcar tem biografia publicada em livro-reportagem
Ana, Alma de Repórter é o título do livro-reportagem de autoria das jornalistas Layla Milan.Guerra e Viviane Ribeiro Salles, recentemente diplomadas pelo Centro Universitário Alcântara Machado – UniFIAM – na cidade de São Paulo. O volume focaliza a história de vida e a trajetória profissional de Ana Arruda Callado, pernambucana do Recife que triunfou no jornalismo carioca, tendo sido a primeira mulher a exercer uma chefia de reportagem num jornal de prestígio nacional.
Apresentado como trabalho de conclusão de curso, o livro foi orientado pela Profa. Ms. Rosemary Bars Mendez, coordenadora do curso de jornalismo daquela instituição. As autoras pretendem ampliar a difusão da obra, através de edição comercial, distribuída às livrarias de todo o país.
Ana Arruda Callado participou da fundação da Rede
Alfredo de Carvalho em 2001, quando exercia o cargo de Presidente do
Conselho de Administração da Associação Brasileira de Imprensa – ABI.
No ano passado, ela foi agraciada com o Prêmio Luiz Beltrão de Ciências
da Comunicação, na categoria Maturidade Acadêmica, outorgado pela
Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação –
INTERCOM.
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O Resgate da
História da Imprensa na Bahia
Luís Guilherme Pontes Tavares*
No
prefácio que escreveu para o livro Apontamentos
para a história da Imprensa na Bahia, o jornalista brasileiro Jorge Calmon,
decano (nasceu em 1915 na Bahia) da categoria, defende que é “cabível, e viável,
um trabalho com o objetivo de criar condições para o levantamento da história
da imprensa neste Estado”. O livro é mais uma co-edição da Academia de
Letras da Bahia com a Assembléia Legislativa daquele Estado brasileiro. Reúne
ensaios de oito autores, todos jornalistas, sete dos quais imortais da Academia
de Letras da Bahia. Os textos foram divulgados em distintas épocas e publicações.
Há textos da década de 1910 e o último é da década de 1980. Honestílio
Coutinho, que foi noticiarista da Imprensa Oficial do Estado, é o único autor
que não foi da Academia. Os demais são os ex-governadores Octavio Mangabeira e
Luiz Viana Filho, o ex-senador Aloysio de Carvalho Filho, seu pai Aloysio de
Carvalho, o professor Antonio Loureiro de Souza, o jornalista Antonio Vianna e
Jorge Calmon, que, além do prefácio, também é autor de um dos ensaios.
Jorge Calmon, que trabalhou em A
Tarde, principal jornal baiano, desde 1934 a 1996, dirigindo a redação por
cerca de 50 anos, deu o título de “A Imprensa exige sua história” para o
prefácio de Apontamentos... em que
oferece um roteiro para o levantamento da história da imprensa baiana:
Um dos primeiros passos seria a recuperação das coleções
de jornais antigos, pertencentes ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia,
Biblioteca Pública e Arquivo Público. Começando pela cuidadosa restauração
dos exemplares, inúmeros deles extremamente estragados. Seguindo-se (mas
podendo ser concomitante com o restauro) a microfilmagem total das coleções,
de então em diante proibidas ao manuseio. Providência decorrente da
microfilmagem (ou da gravação em CD) das coleções seria a organização de
um banco de dados, a ser utilizado pelos pesquisadores, contendo o índice de
todas as publicações assim arquivadas. A etapa seguinte visaria à localização
e reprodução de jornais baianos existentes em arquivos públicos ao longo do
País.
Jorge Calmon informa no prefácio que as
bibliotecas de Salvador possuem pouquíssimas coleções dos mais de 1500 periódicos
que a Bahia publicou a partir de 1811. Informa que a professora Kátia Carvalho,
no seu livro sobre o Diário da Bahia,
lista menos de 30. Por outro lado, acrescenta que a professora Lizir Arcanjo
localizou na Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, quase 300 coleções
de periódicos baianos e, a seu pedido, a diretora anterior do Arquivo do Estado
da Bahia, Anna Amélia Vieira Nascimento, adquiriu os microfones de todas e os
disponibilizou aos pesquisadores.
Além do prefácio, Jorge Calmon participa do
livro com o ensaio “Oito razões (dentre muitas outras) para que exista Curso
de Jornalismo”. Trata-se da saudação que dirigiu aos formandos do curso da
Ufba em 1986. As oito razões são as seguintes: “a opção vocacional; a seleção
dos mais aptos ao exercício da profissão; o preparo para o ofício; o
conhecimento da ética do jornalismo; o estudo da legislação de imprensa; a
formação universitária do comunicador; a profissionalização definitiva do
jornalista; e, afinal, a estabilidade econômica da categoria”.
A PARTIR DE 1811
O localização dos textos, a digitação,
atualização ortográfica, revisão e as notas de rodapé foram etapas
patrocinadas pela FIB-Centro Universitário da Bahia, através de seu Núcleo de
Pesquisa. O trabalho foi iniciado em 2002 e concluído em dezembro último pelo
Grupo Editorial da Assembléia Legislativa. Os textos selecionados cobrem a história
da imprensa na Bahia desde o funcionamento do primeiro prelo em Salvador, em
maio de 1811, até a década de 1980, a que se refere o texto do jornalista
Jorge Calmon.
O texto de Octavio Mangabeira é sobre o primeiro
centenário da imprensa baiana e foi proferido no Instituto Geográfico e Histórico
da Bahia em 14 de maio de 1911. Mangabeira, que governou a Bahia de 1947 a 1951,
era, em 1911, o orador oficial do IGHB. O texto foi publicado no número triplo
37-39 da revista da instituição. Nele, o autor salienta, sobretudo, a
contribuição do pioneiro Manoel Antonio da Silva Serva e de seus sucessores
– sua viúva e filhos –, que, entre 1811 e 1843, foram responsáveis pela
impressão de mais de 70 periódicos em Salvador.
O jornalista Aloysio de Carvalho, que foi
redator-chefe do Jornal de Notícias
entre o final do século XIX e os primeiros 20 anos do século XX e que,
posteriormente, integrou os quadros de A
Tarde, escreveu para o Diário Oficial
de 02 de julho de 1923, edição comemorativa do primeiro centenário da
Independência da Bahia, o texto “A Imprensa na Bahia em 100 anos”. Cobre um
período um pouco maior do que aquele de que tratou Octavio Mangabeira. O texto
é, também, um libelo às ameaças à liberdade de imprensa. Aloysio de
Carvalho recebeu o apelido de Lulu Parola e inscreveu seu nome entre os grandes
epigramistas da Bahia.
Aloysio de Carvalho Filho publicou em 06.03.1960,
no Diário de Notícias, o ensaio
“Jornalismo na Bahia, 1875-1960”. Além de jornalista, poeta e escritor,
como o pai, ele foi professor e diretor da Faculdade de Direito da Bahia e
senador. Sua contribuição em Apontamentos...
é rica de nomes de antigos jornalistas baianos. Atribui, por exemplo, a Alfredo
Requião, noticiarista do Jornal de Notícias,
a qualidade de repórter-nato. Informa, também, que “ninguém, talvez, o
superasse no registro dos fatos de sociedade, o que hoje se denomina, como
outros estilos e outro temperamento, de crônica social”. Quiçá algum dia se
possa comparar a obra dele com a de João do Rio!
O título de Apontamentos
para a história da Imprensa na Bahia foi tomado de empréstimo ao ensaio de
Antonio Loureiro de Souza. Seus “Apontamentos...” foram publicados no número
duplo 12-13 da revista Universitas, da
Ufba, em 1972. Há outra versão publicada em 1978 no Jornal da Bahia. Loureiro foi professor de História do Jornalismo
da Escola de Bibliotecnomia e Comunicação da Ufba e colaborou em vários
jornais e revistas. Seu texto contribui sobretudo com a referencia a periódicos
que circularam na primeira metade do século XX. É possível que seja a única
fonte a esse respeito.
O ex-governador Luiz Viana Filho, de ampla folha
de serviços à vida pública e às letras, pronunciou em 1980 a conferência “Alguns aspectos do jornalismo
baiano” na Associação Baiana de Imprensa, em comemoração ao cinqüentenário
da instituição. O texto foi, posteriormente, transformado em livreto. O Doutor Luiz rememora sua passagem pelas redações do Diário
da Bahia, de O Imparcial e de A Tarde.
Lembra, por exemplo, o convívio com Aloysio de Carvalho na redação desse último.
O texto de Honestílio Coutinho, publicado como o
de Aloysio de Carvalho no número especial do Diário Oficial dedicado ao primeiro centenário da Independência
da Bahia, trata dos oito anos iniciais da Imprensa Oficial do Estado. É sempre
bom lembrar que a decisão de J. J. Seabra de criar a Imprensa Oficial e lançar
o DO da Bahia modificou a relação do
Governo do Estado com os jornais de então. Até 1915, os atos oficiais eram
publicados no jornal do partido do governador ou naquele mais próximo dele. O
artigo de Honestílio Coutinho oferece informações detalhadas sobre o quadro
de pessoal e a relação de equipamentos da instituição em 1923.
Quanto
ao ensaio de Antonio Vianna, publicado no
n. 11 de Os Annaes, datado de
fevereiro de 1912, sob o título “A Notícia”, me pareceu precioso por causa
da reflexão do autor sobre o tema. Ele, inclusive, arrisca tipificar a notícia.
Diz ele: “Fosse um estudo sobre a notícia, o que explano, e classificaria o
assunto: notícias felicitantes; notícias necessárias; notícias aristocráticas;
notícias vagabundas; notícias graves, agudas, temidas e caluniadas”. Em
seguida, explica cada uma delas. O jornalista e poeta Antonio Vianna, pai da
também acadêmica Hildegardes Vianna, deixou reconhecida contribuição como
folclorista.
CENTENÁRIOS
O livro Apontamentos para a história da
Imprensa na Bahia chega em hora própria por causa da proximidade das
comemorações do bicentenário da instalação da imprensa no Brasil (2008) e
na Bahia (2011). A Academia de Letras e a Assembléia Legislativa querem que a
obra inspire novos estudos sobre o tema. As duas instituições, com esse livro,
inauguram a Coleção Cipriano Barata, de caráter interinstitucional. Em
parceria com a Edufba (Editora da Universidade Federal da Bahia), estão
patrocinando outro livro da coleção – a segunda edição de A primeira gazeta da Bahia: Idade d’Ouro do Brazil, da professora
Maria Beatriz Nizza da Silva, da Usp. A obra será impressa na Egba e lançada
neste semestre.
Os preparativos para as comemorações do bicentenário da Imprensa
no Brasil tiveram início em 2001quando foi formada a Rede Alfredo de Carvalho.
A iniciativa foi do professor doutor José Marques de Melo, emérito da Usp e
titular da Cátedra Unesco sediada na Metodista de São Paulo, e a solenidade
ocorreu na Associação Brasileira de Imprensa – ABI – , no Rio de Janeiro.
Em 14 de maio do mesmo ano, foi criado em Salvador o Núcleo de Estudos da História
dos Impressos da Bahia – Nehib – que, desde aquela data, representa a Rede
na Bahia. A Rede pode ser acessada na web:
www.jornalismo.ufsc.br/redealcar,
www.metodista.br/unesco
e www.feevale.br/redealcar.
A Rede Alfredo de Carvalho realizou seu primeiro encontro nacional
em 2003, no Rio de Janeiro, e, no ano passado, realizou o segundo encontro em
Florianópolis. O terceiro encontro será em abril próximo em Novo Hamburgo
(RS). Em 2006, o quarto encontro será em Fortaleza, e o quinto, em 2007, poderá
ser em São Paulo. O encontro final em 2008, comemorativo do 13 de maio de 1808,
data da criação, pelo príncipe regente dom João, da Impressão Régia, deverá
ser no Rio de Janeiro, que nesse ano passara a ser a sede da Corte portuguesa.
É lamentável que a Bahia, sobretudo Salvador, em cujo território
foi instalada a primeira tipografia de iniciativa privada do Brasil, não tenha
se candidatado para ser sede de um dos encontros nacionais da Rede. Teria sido,
no mínimo, uma homenagem a Alfredo de Carvalho, o pesquisador pernambucano que
pretendeu inventariar em 1908, por ocasião do primeiro centenário da instalação
da imprensa no Brasil, todos os periódicos publicados no Brasil entre 1808 e
1908. Não conseguiu êxito completo no seu projeto, mas a Bahia, por causa da
iniciativa dele, ganhou a obra Annaes da
Imprensa da Bahia (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia,
1911), fruto do levantamento feito por Carvalho e João Nepomuceno Torres. A
segunda edição desse valiosíssimo livro está prevista no projeto da Coleção
Cipriano Barata.
* Jornalista, produtor editorial e professor da FIB. É o organizador da coletânea Apontamentos para a história da Imprensa na Bahia. Coordena o GT de História da Mídia Impressa da Rede Alfredo de Carvalho desde 2003.
Mestre
em Comunicação e Cultura pela UFRJ, o professor Marcos Fábio é autor do
livro E o cinema invadiu a Athenas – A história do cinema ambulante em São
Luís, lançado durante o I Encontro da Rede Alcar, no Rio de Janeiro. O
jornalista continuará as atividades de mobilização da comunidade acadêmica e
da sociedade para a importância de pesquisas e da preservação da história da
imprensa brasileira.
SÉRIE MEMÓRIA E IMPRENSA
Nos últimos dias do vitorinismo (Pesquisa na UEMA
aborda ações do Governo Newton Bello, no início dos anos 60, sob os olhares
dos jornais)
Os caminhos e descaminhos do desenvolvimento econômico e social da
cidade de São Luís estão intimamente ligados ao ideário político dos grupos
que assumem o poder estadual. A partir desta perspectiva e com o objetivo de
analisar as transformações que a capital atravessou no início dos anos 60, o
aluno egresso do Curso de História da UEMA, Sergio Martins Tamer, elaborou a
monografia “As ações do governador Newton Bello em São Luís e a urbanização
que não aconteceu (1961-1965)”, sob a orientação do Professor Dr. Cláudio
Zannoni.
“O trabalho procura compreender, de maneira crítica, as ações do
governo Newton Bello, em níveis estadual e municipal (...) com especial atenção
ao desenvolvimento econômico e
social e à urbanização prometidos pelo poder público”, afirmou o autor.
Ao analisar a trajetória do governo Newton Bello, o autor optou por
visualizar as mudanças sob a ótica da imprensa, especialmente dos jornais
“Diário da Manhã”, de propriedade do então governador, e “Jornal do
Povo”, veículo de oposição, que teve em sua direção o jornalista Neiva
Moreira. Este recorte da história do
Maranhão contemporâneo traz à tona o chamado último período da era “vitorinista”,
quando o pernambucano Vitorino de Brito Freire comandou com “mão-de-ferro”
as lutas políticas no cenário estadual.
Discursos - Os duelos nas tribunas impressas já citadas enriqueceram a pesquisa,
mostrando percepções, interesses, alianças e choques, elementos presentes no
cenário político. Enquanto a oposição apostou nas denúncias e críticas,
caso do “Jornal do Povo”, o jornal da situação, “Diário da Manhã”,
destacou discursos e projetos do governador.
Foram formas diferenciadas de mostrar alternativas para a capital, que
carecia de desenvolvimento social e econômico.
“Newton Bello foi um governo marcado por problemas tanto políticos
quanto econômicos. Sua habilidade política foi cada vez mais exigida e até
utilizada com êxito, mas a concentração de poder, cada vez maior em suas mãos,
acabou lhe causando problemas que,
num crescente, terminaram dissipando a liderança política estadual”,
comentou Sergio Martins Tamer em sua pesquisa, cujo referencial teórico está
amparado em obras de Benedito Buzar, José Reinaldo Barros Ribeiro Júnior, Jerônimo
de Viveiros, Mário Meirelles, Jean-Louis Harouel,
Antônio Torres Montenegro, entre outros autores.
As fragilidades do governador ganharam as páginas do “Jornal do
Povo” através dos discursos de Neiva Moreira, a exemplo da edição de 15 de
janeiro de 1962: “Não posso deixar de reconhecer, como cidadão que anda
pelas ruas, que não há lei alguma de trânsito que se respeite em São Luis e
tal fato decorre do afrouxamento moral e da quebra de autoridade em que
mergulhou o governo e que se reflete em tudo”.
Por sua vez, o jornal “Diário da Manhã” defendeu as ações do
governador, ressaltando as promessas de campanhas. A edição de 03 de fevereiro
de 1961, deixa bem clara esta posição ao valorizar as intenções do líder do
Poder Executivo: “durante meu governo procurarei incentivar indústrias já
existentes e implantar novas (...) adiantar que darei atenção aos seguintes
empreendimentos: a industrialização de óleos vegetais, principalmente babaçu
e semente de algodão (...) Tentarei implantar certas indústrias novas no
Maranhão, como a da madeira, e as de frigoríficos e laticínios”.
Na opinião do autor da monografia “As ações do governador Newton
Bello em São Luís e a urbanização que não aconteceu (1961-1965)”, o último
governador do período “vitorinista” não alcançou seus objetivos. “Não
se procurou adequar devidamente o Maranhão e São Luís ao capitalismo
brasileiro ou, pelo menos, tentar melhorar nossas potencialidades ou, quem sabe,
descobrir novas e utilizá-las para driblar a concentração de considerável
desenvolvimento, fomentado pelos governos federais no eixo Rio de Janeiro-São
Paulo”, analisou Sergio Martins Tamer.
O governador Newton Bello foi uma das figuras centrais dos últimos
momentos do “Vitorinismo” no Maranhão, movimento político capitaneado por
Vitorino Freire entre 1945 e 1965. Com o golpe militar de 1964, outros núcleos
de poder assumem a cena em nível nacional mudando as regras do jogo político
no país.
“Aliás, vai ser justamente pela reconhecida influência na esfera pública
federal, onde angariou importantes apoios ao seu nome (...) que veremos Vitorino
crescer politicamente a ponto de perceber que podia então reinar no Maranhão
como seu líder político de primeira grandeza”, destacou Sergio Martins Tamer.
Uma das primeiras medidas de Vitorino Freire, após despontar
nacionalmente e se aproximar do presidente Eurico Gaspar Dutra foi tomar as rédeas
do Partido Social-Democrático (PSD), que ajudou a fundar no Estado em 1947.
Mesmo costurando articulações políticas, sofreu politicamente com um racha no
partido, criando anos depois outro espaço político, o Partido Social
Trabalhista (PST).
Conforme o pesquisador, Vitorino teve êxito em mais um projeto político
com a finalidade de pode ter, para si, o controle absoluto do Estado. É dentro
do novo partido que emergiu a liderança de Newton Bello. Ele foi vereador,
suplente do senador Antônio de Alexandre Bayma pelo PST, e deputado estadual.
Crescendo vertiginosamente, Newton Bello elegeu-se deputado federal em 1955 pelo
PSD.
Na análise do escritor Benedito Buzar, um dos mais importantes
estudiosos do “Vitorinismo”, na metade da década de 50, o partido ganhou
hegemonia política e a partir daí nasceram novas lideranças nos seus quadros,
entre elas Cid Carvalho, Renato Archer, Newton Bello, Pedro Braga Filho e José
Sarney.
Vislumbrando o Poder Executivo, Bello travou embates dentro do PSD,
principalmente contra o ex-governador Eugênio de Barros, que se candidatou ao
Senado. As disputas políticas giraram em torno da direção do partido no
Maranhão, culminando com a vitória de Newton Bello em 1961.
Na década de 60, São Luís já enfrentava problemas em seu processo de
urbanização. Esse assunto foi um dos alvos dos opositores do governo Newton
Bello, como indica a pesquisa de Sergio Martins Tamer.
O jornalista Neiva Moreira criticou a ausência de políticas públicas
que pudessem organizar o trânsito, implementar a coleta de lixo e melhorar a saúde
pública: “São Luis é uma capital abandonada (...) Nem sequer um plano urbanístico
existe (...) O abastecimento da cidade é uma obra do acaso. A assistência à
infância um sonho. As ruas vivem esburacadas”, afirmou o jornalista na edição
do “Jornal do Povo” de 05 de março de 1963.
Em outro momento novamente a “pena” de Neiva Moreira, em 06 de
outubro de 1963, recaiu sobre os desafios urbanísticos enfrentados pelo
governador: “O calçamento da capital é o maior inimigo dos motoristas. Não
há veículo que resista aos buracos existentes nas artérias de nossa cidade.
Ruas quase intransitáveis. Buracos e valas se encarregam de acabar com os
autos”, criticou.
Com o objetivo de promover a qualidade de vida na capital, o governo
Newton Bello esboçou um plano urbanístico para a capital, elaborado pelo
engenheiro Ruy Mesquita, porém não saiu do papel. “Nem a ponte sobre o Rio
Anil chegou a ser construída neste curto espaço de tempo e nem a ocupação
planejada do São Francisco. Somente em 1970, vinte anos após a primeira indicação
de Mesquita, a ponte tornou-se uma realidade“, apontou a pesquisadora
Valdenira Barros, citada na monografia “As ações do governador Newton Bello
em São Luís e a urbanização que não aconteceu (1961-1965)”.
O governador Newton Bello contestou as denúncias de seus inimigos políticos
em discurso à Assembléia Legislativa em 1964, e ressaltou iniciativas da sua
gestão. Segundo o governador, “a Prefeitura da capital experimentou, em 1963,
o influxo renovador de uma ação coordenada (...) Serviços de imediata
necessidade, como os de Pronto Socorro, Limpeza Pública e outros, passaram por
completa organização e reequipamento em parte com o apoio financeiro do
Estado”.
Na visão do autor da pesquisa, “ diante da situação encontrada, a
prefeitura de São Luís não tinha condições de realizar seu objetivo maior,
que é gerar qualidade de vida para os seus cidadãos (...) Por ser ‘anexo’
do governo (...) não cumpriu seu papel”, concluiu.
* Coordenadora do Núcleo de Estudos sobre a História da Imprensa no Maranhão, fundado pela Associação Maranhense de Imprensa (AMI), que integra a Rede Alfredo de Carvalho, movimento nacional pela preservação da memória da imprensa brasileira. E-mail: ami@ami-ma.com.br
Recebemos do Professor Adriano Gomes, do Departamento de
Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, em Natal, proposta
para a criação do Núcleo Potiguar da Rede Alfredo de Carvalho:
“Escrevo para alimentarmos a possibilidade de uma
"sucursal" da Rede Alcar em Natal, ancorada pela Universidade Federal
do Rio Grande do Norte, conforme breve entendimento no Porto. Tenho total
interesse para que tal ocorra, e já me coloco à sua disposição. No presente,
trabalho com uma pesquisa sobre "Mídia e Memória: uma análise dos
documentos sonoros da Rádio Poti (1945-1955)", cujo andamento já nos
sinaliza para resultados interessantes. A Poti foi a primeira emissora de Rádio
do RN, e estamos adotando o método da História Oral para reunir informações
que venham dar
sustenção ao nosso arcabouço teórico. Portanto, através de narrativas, e
tomando o questionário aberto como instrumento, estamos cruzando os dados dos
informantes para uma conlusão sobre a história da Poti. Paralelo a isso,
estamos reunindo documentos (áudio,fotografias, ata de funação, etc)
de eventos que marcaram a referida emissora. Sendo assim, gostaria de tomar
conhecimento sobre procedimentos a serem adotados para que a Rede Alcar possa
garantir seu espaço em Natal.”
O Núcleo Paulista da Rede Alcar
promoveu, na noite de 28 de março, na Livraria FNAC, em Pinheiros, o livro “São
Paulo na Idade Mídia”, coordenado pelos professores José Marques de Melo e
Antonio Adami. O volume reúne um conjunto de palestras proferidas durante o
primeiro semestre do ano passado, na sede do Instituto Histórico e Geográfico
de São Paulo, sobre o tema “Itinerário da Mídia Paulista”. O evento fez
parte da programação comemorativa dos 450 anos de fundação da cidade de São
Paulo. Os capítulos de História da Imprensa foram escritos por Laércio
Arruda, Samuel Pfromm Neto e Valdenizio Petrolli; História do Rádio:Antonio
Adami, André Barbosa e Lígia Trigo: História do Cinema: Antonio de Andrade,
Alfredo d´Almeida e Helena Bonito:
História da Televisão: Osmar Mendes Jr., Fátima Feliciano e Sandra Reimão;
História das Inovações Midiáticas: Ruth Vianna, Sonia Luyten e Walter Lima
Jr.
O livro “São Paulo na Idade Mídia”
foi publicado pela Editora Arte & Ciência, com distribuição a toda a rede
livreira nacional, mas pode ser adquirido diretamente, através do site: http://www.arteciencia.com.br
Himídia aprova estatuto e define
linhas de pesquisa
O
Núcleo de Pesquisa da História da Mídia no Brasil, "Himídia", da
Universidade de Marília (UNIMAR), se reuniu no dia 17 de março, no anfiteatro
do departamento de Comunicação Social, para discutir e votar o estatuto,
eleger os coordenadores, definir as linhas de pesquisa e planejar as atividades
para 2005.
A
reunião teve a participação dos seguintes membros: os professores da Unimar
Dra. Maria Cecília Guirado, Dra. Lucilene dos Santos Gonzales, doutoranda Maria
Inês Almeida Godinho, doutorando Roberto Reis, Mestrando Gilberto Rossi Júnior,
doutoranda Semíramis Nahes e os alunos do Mestrado em Comunicação Patrícia
Thomaz, Walkirio Ricardo Costa, Kéwelyn Fernandes Pinto, Ana Luisa Antunes
Dias, Renata Corrêa Coutinho, Telma Maria da Silva e Carolina Becker Lamounier.
As
professoras coordenadoras do Himídia Maria Cecília Guirado (Jornalismo) e
Lucilene dos Santos Gonzales (Publicidade e Propaganda), eleitas após a aprovação
do estatuto, apresentaram as atividades de 2004, destacando a realização de
dois seminários sobre História da Mídia. Sobre os projetos para 2005, as
coordenadoras informaram sobre o projeto de elaboração de um livro, para o
segundo semestre, com artigos dos membros do Himídia e de pesquisadores
renomados de outras instituições de ensino. Também foi discutida com os
integrantes do Núcleo a organização do III Seminário de História da Mídia,
que ficou agendado para o dia 02 de junho de 2005.
A
assembléia, constituída pelas coordenadoras eleitas, pela comissão científica
e pelos membros presentes, estipulou que as reuniões do Himídia serão
realizadas nas primeiras quintas-feiras de cada mês. Portanto, os próximos
encontros serão realizados nos dias: 05/05, 02/06, 01/07 e assim por diante.
Ainda na reunião, os integrantes do Himídia discutiram o estatuto do Núcleo.
As linhas de pesquisa em funcionamento são:
-
História da Midiologia: Jornalismo – Dra. Maria Cecília Guirado;
- História da Propaganda e Publicidade no Brasil – Dra. Lucilene dos Santos
Gonzales;
- Publicidade no Brasil: Tendências e Perspectivas – Dra. Lucilene dos Santos
Gonzales;
- Mídia Local e Regional – Doutorando Roberto Reis e
- História da Comunicação Audiovisual – Doutoranda Maria Inês Almeida
Godinho.
Walkírio
Ricardo Costa e Gilberto Rossi Júnior sugeriram que, no futuro, sejam incluídas
linhas de pesquisa nas áreas de Agronegócio e Turismo. As coordenadores
lembraram da possibilidade de incluir também projetos na área de Mídia e
Educação. Após a discussão, a assembléia votou e aprovou todos os artigos
do estatuto, que foi encaminhado à reitoria da Universidade de Marília para
devida homologação.
Site do Núcleo
A coordenadora do Núcleo Paulista
da Rede Alcar, Profa. Dra. Fátima Feliciano, convida os interessados a visitar
o site institucional no endereço: http://nucleopaulista.cjb.net
A iniciativa mereceu acolhida
entusiástica do Prof. Osni Dias, paulista radicado em Mato Grosso do Sul, que
nos escreve reafirmando o interesse em criar Núcleo semelhante no Estado onde
hoje atua academicamente. Eis o texto da mensagem recebida:
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Dom Quixote: um best-seller de 400 anos
Sebastião Jorge *
"Aqui começa verdadeiramente a história da Imprensa - na parte que lhe cabe de, rapidamente e de maneira uniforme, fazer chegar uma obra a muitos olhos".[...] Celso Bubeneck. Rev. Consulex, fev.99.
Parece exagero que um livro considerado, por unanimidade, como obra prima de todos os tempos, por intelectuais do mundo e a qual ajudou a mudar, de alguma maneira, os rumos da humanidade, esteja completando 400 anos de sucesso, absoluto. Depois da Bíblia de Gutenberg de 42 linhas, "O engenhoso fidalgo de la Mancha" é considerado o primeiro best-seller literário do planeta, publicado em 1605, sendo ambos os mais vendidos, lidos e traduzidos, alimentando, assim, o sonho e a busca da globalização cultural.
No mesmo ano do lançamento conseguiu a proeza, alguma coisa inacreditável, ter seis reedições. Vertidas para o francês e inglês o livro passa a ser um acontecimento europeu, logo, mundial. O número de exemplares vendidos alcançou a impressionante soma de cerca de 12 mil. Começava a cumprir-se, com esse fato, a profecia do autor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616), depois da recusa de algumas editoras, ao registrar com estas palavras, a respeito da obra: não haverá nação nem língua que não seja traduzida.
Curioso que Cervantes trabalhou apenas com uma das mãos. A outra ele perdeu na famosa batalha naval de Lepanto, na qual se tornou herói, lutando contra o perigo muçulmano no continente europeu. Enfrentando a tragédia com certa galhardia, disse, com ironia, a respeito: para maior glória da mão direita.
Há muitas interpretações na leitura do livro, que encheu de orgulho e influenciou o mundo literário, pela inovação narrativa dos episódios. Grande parte do conteúdo foi extraída das extravagâncias e experiências vividas pelo autor, nas peregrinações e nas quais se meteu em encrencas, até ser preso. Apesar da vida irregular, não se esqueceu de olhar de perto, e ao mesmo tempo, ser um admirador e assimilar o espírito da arte e da literatura do renascimento, ao morar por algum tempo na Itália.
O personagem principal é Alfonso Quejana, o Dom Quixote, que se autoproclamou, mais tarde, Cavalheiro de Triste Figura. Tinha cerca de 50 anos de idade. Pertencia a uma família tradicional de fidalgos espanhóis. Com alguma posse, em um certo lugar da Mancha, gastou uma boa soma em dinheiro na compra de livros de cavalaria, passando noites sem dormir. Nada de outros prazeres. Sentia-se atraído pelo cenário das lutas.
Certo dia resolveu ser um desses guerreiros. Seduzido pela coragem e o desempenho dos mesmos. Incorporou os personagens, que pertenceram ao respeitável e reduzido grupo de heróis. Desejava ser um deles. Meteu-se numa armadura dos antepassados e convidou para ser o seu companheiro e fiel escudeiro, o vizinho, Sancho Pança, com a promessa de lhe dar uma ilha para governar. Pelo nome ou apelido, podemos avaliar o tipo. Os dois montam num pangaré e num burro velho.
Saem pelo mundo em busca de aventuras, com a promessa de desafiar os poderosos que oprimiam os fracos, defender as donzelas dos maus tratos e enfrentar qualquer tipo de injustiça. Nessa marcha tudo o que olham se traduz como inimigo. O ideal do personagem, com seus sonhos e ilusões, é de uma nobreza ímpar. Prossegue nessa empreitada até quando as pessoas concluem que Alfonso perdeu o juízo e precisa recuperar-se e voltar para casa.
Dois amigos ligados a ele, um padre e um barbeiro (que fazia sangria), mais uma sobrinha e uma criada resolvem curar o mal pela raiz. Exorcizar a biblioteca, benzendo-a e queimando os livros que lhe estavam enfeitiçando e tirando a energia. Ao saber do episódio Alfonso Quejana é vítima de depressão. Dentro de pouco tempo, morre.
Dom Quixote, na sua loucura, viveu entre o sonho e a realidade. Deu exemplos ao mundo de justiça. Quis consertar os erros alheios e o fez, pelo modo, que achou viável, embora correndo perigos e enfrentando dificuldades. Zombado como herói de fancaria, maltratado como bobo e xingado como louco, provocando risos e galhofas, Dom Quixote deveria ser olhado também como um sábio e mestre da vida. Não Menos Sancho pela fidelidade.
Saavedra apesar da pouca educação escolar era um autodidata, versado nos clássicos. A idéia introduzida naquele romance foi denunciar, com mordacidade e humor a proibição da leitura, pelos grupos religiosos que se digladiavam nas cruzadas através das palavras e da espada, ou seja, protestantes e católicos. Sócrates e Platão já recriminavam o livro feito de papiro.
Os dois filósofos confiavam na educação oral, no poder da memória. A tipografia que data de 1450 veio a popularizar o livro a partir do século XVII. Muitos escritores famosos usaram o mesmo recurso de Saavedra para protestarem contra a censura à leitura. E fazer provocações pelo ambiente de hipocrisia da época. O grande autor, ou, o maior entre os maiores, teve seguidores, a exemplo de um Shakespeare, Flaubert, Dostoievski, Charles Dickens, sem incluir um bom número de grandes escritores nacionais.
Triste morte de Dom Quixote, a morte na solidão. Sem os livros que tanto amava, perdeu a razão de viver. Afastado do maior dos seus prazeres, perdeu interesse pela vida. Pobre Dom Quixote o mais autêntico sonhador da literatura, foi, sem dúvida, herói de um mundo que se deixa iludir pela metáfora da "aldeia global". Daí o renascer de Miguel de Cervantes Saavedra através dos séculos, firmando-se como criador de personagens, ainda, hoje, insuperáveis.
(*) Professor universitário, jornalista e advogado.
E-mail: sbjorge@uol.com.br
Livros de devoção: os best-sellers da colônia
JEAN MARCEL CARVALHO FRANÇA
Fonte: FOLHA DE S. PAULO, Caderno Mais, 20/02/2005
A história do livro no Brasil, sobretudo do livro no período colonial,
nunca ocupou um lugar de grande destaque nas preocupações dos
historiadores brasileiros. Produzimos, ao longo do século 20, obras
interessantes e instrutivas, como "O Livro, o Jornal e a Tipografia no
Brasil", do jornalista Carlos Rizzini, "Livros e Bibliotecas no
Brasil Colonial", do erudito Borba Morais, "A Palavra Escrita",
do crítico Wilson Martins, e pouco mais -tão pouco que somente com muito
boa vontade se poderia vislumbrar uma tradição de estudos no setor.
É bem verdade que, nas últimas duas décadas, inspirada pelas obras de
Roger Chartier, Robert Darnton, Carlo Ginzburg, Franco Moretti, entre outros,
a historiografia brasileira passou a despender mais atenção ao complexo
circuito dos livros e leitores. Todavia ainda não são muitos os trabalhos
sobre o tema que têm vindo a público.
É, assim, bastante recomendável que o leitor interessado no assunto
consulte "Livros de Devoção, Atos de Censura - Ensaios de História
do Livro e da Leitura na América Portuguesa (1750-1821)", o mais
recente trabalho da historiadora Leila Mezan Algranti. Vinculado à
mencionada linhagem de pesquisas inaugurada na década de 1980, o livro de
Algranti, como indica o título, reúne uma série de ensaios acerca da
produção, circulação e consumo de livros religiosos no Brasil entre a
metade do século 18 e o início do século 19. Dito de outro modo, reúne
algumas reflexões sobre um dos gêneros mais lidos no Brasil colonial, os
livros religiosos, durante um período de suma importância para a
construção do que viria a ser conhecido como cultura brasileira.
"Caminho salvífico"
"Livros de Devoção", como se disse, é uma coletânea de ensaios
e, embora guarde razoável unidade entre as suas partes, não deixa de
padecer de um mal comum a obras do gênero, a repetição: a apresentação
de um outro documento retorna uma, duas vezes; a explicação de um tal
procedimento metodológico, com mais ou menos discrição, se insinua em
vários ensaios; a biografia de um determinado "personagem" vai e
volta; em suma, há um repassar de coisas que por vezes incomoda.
Malgrado, porém, esse pequeno inconveniente, os sete ensaios que compõem
as duas partes do livro são de leitura agradável, bem documentados e
trazem algumas abordagens interessantes.
A primeira parte, "Gêneros e Práticas de Leitura", composta por
três ensaios, procura mapear o que liam e como liam as mulheres internas
nos conventos e recolhimentos do Brasil e de Portugal.
Algranti, de saída, procura traçar o "contexto em que as leituras
ocorriam" a bem da verdade, para brincar com as palavras, um contexto
que é um "texto", na medida em que é construído a partir das
normas e regimentos dos conventos e casas de recolhimento da colônia e da
metrópole e determinar o perfil das leitoras nele inseridas.
Dando prosseguimento a tal empreitada, a historiadora apresenta, no segundo
ensaio, um "estudo de caso" e esquadrinha a biblioteca minguada,
como a cultura lusa do período (metropolitana e colonial), da fundadora do
convento de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, madre Jacinta de São José.
O terceiro e último ensaio da primeira parte é dedicado à análise de um
gênero muito bem acolhido na época: as "biografias" e "autobiografias"
produzidas por internas, por religiosas e por confessores, obras que davam a
conhecer ou o próprio "caminho salvífico" de quem escrevia ou o
caminho de uma outra servidora de Deus conhecida do "autor".
Nestes dois últimos ensaios, nota-se, por vezes, um esforço da
pesquisadora em apontar, no rol de leituras de Jacinta ou nas tais "biografias",
por exemplo, a "ação de um sujeito" -a marca de uma "personalidade"-,
bem como encontrar nessa documentação um caminho de acesso a um suposto
cotidiano das religiosas.
Para bem e para mal, porém, o que a própria historiadora acaba por
apresentar e constatar são padrões de leitura muito rígidos e restritos
de obras marcadas, de ponta a ponta, por tópicas e lugares-comuns.
Censores sensíveis
A segunda parte do livro, "Censura e Livros Religiosos na Corte do Rio
de Janeiro", abarca quatro capítulos, três dos quais notadamente
dedicados a mapear o processo de circulação de livros no Rio de Janeiro
dos tempos de d. João 6º. Algranti começa por descrever a estruturação
da censura dos tempos joaninos, uma censura muito presente do ponto de vista
burocrático, mas carente de critérios, de regras, de organização e,
sobretudo, de eficiência.
Em seguida, mapeia o mundo dos livreiros da corte, dando especial atenção
à comercialização de livros religiosos -gênero em decadência num Rio de
Janeiro, que rapidamente deixava para trás os ares de cidade colonial. Por
fim, a pesquisadora procura dar a conhecer o perfil dos censores, homens -não
todos, é certo- bem informados, prestigiados socialmente e que outrora,
quando alijados do poder, liam e defendiam, destaca a historiadora, muitas
das idéias contidas nos livros que então censuravam.
Haveria, é certo, muito mais a comentar desses ensaios que se propõem a
percorrer um domínio, senão selvagem, ao menos com muito a ser explorado
pelos historiadores brasileiros. Em linhas gerais, porém, eis o que o
leitor encontrará em "Livros de Devoção".
Resta apenas destacar que quem aprecia discutir opções teóricas
subjacentes às análises históricas também terá com que se ocupar neste
livro, pois a pesquisadora é assaltada por uma série de questões que, a
bem da verdade, batem à porta, ou deveriam bater, de todos os historiadores
contemporâneos, questões do gênero: lidamos com sistemas, do tipo "sistema
colonial", ou estamos o tempo todo descrevendo um jogo que se auto-organiza,
nos moldes propostos, por exemplo, por Foucault? Que espaço os padrões, as
tópicas e os lugares-comuns deixam para o que se entende por "ator
social", "sujeito da ação", "personalidade"? Ou
que relações estabelecer entre o "discurso" e a "prática"?
Jean Marcel Carvalho França é professor de história na Universidade Estadual Paulista (Franca-SP). É autor de "Literatura e Sociedade no Rio de Janeiro Oitocentista" (Imprensa Nacional/ Casa da Moeda).
Livros de Devoção, Atos de Censura
301 págs., R$ 40,00 de Leila Mezan Algranti. Ed. Hucitec (r. João Moura,
433, CEP 05412-001, São Paulo, SP, tel. 0/xx/ 11/3060-9273).
Tributo aos pioneiros do jornalismo baiano
Elias Machado*
Apontamentos para a história da imprensa na Bahia, de Luis Guilherme Pontes Tavares ( (org.), edição Academia de Letras da Bahia/Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, Salvador, 2005, 158 pp.
Estudioso atento da história do jornalismo baiano, o jornalista, editor e professor Luis Guilherme Pontes Tavares, coordenador do Núcleo de Estudos da História dos Impressos na Bahia (Nehib), resolveu aceitar a tarefa de contribuir para suprir a lacuna apontada pelo colega Antonio Loureiro de Sousa, que chamara a atenção, no começo dos anos 70 do século passado, para a absoluta falta de trabalhos sobre os pioneiros da imprensa baiana. Fundada em 1811, com o lançamento do jornal Idade d’Ouro do Brazil, dirigido pelo português Manuel Antonio da Silva Serva, uma das mais antigas do país, a imprensa baiana está próxima de completar 200 anos.
A coletânea Apontamentos para a história da imprensa na Bahia, lançada numa parceria da Academia de Letras da Bahia com a Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, organizada por Luis Guilherme, tem como principal mérito reunir artigos, escritos entre 1911 e 1986, de oito dos mais destacados jornalistas baianos, Aloysio de Carvalho, Aloysio de Carvalho Filho, Antonio Loureiro de Sousa, Antonio Vianna, Honestilio Coutinho, Jorge Calmon, Luiz Viana Filho e Octavio Mangabeira, dois deles ex-governadores, Octavio Mangabeira e Luiz Vianna Filho.
Centro de referência para o jornalismo brasileiro por ter sido a primeira capital do país e uma das cidades com imprensa mais influente ao longo dos tempos, ao contrário do que seria de se esperar, com a exceção de alguns trabalhos esparsos, raras são as obras sobre a história da imprensa baiana. O conjunto de artigos reunidos, antes publicados em revistas acadêmicas de circulação restrita ou em jornais de difícil acesso, permite que seja conhecida, pelos relatos pessoais de antigos jornalistas, detalhes preciosos sobre as características do jornalismo praticado na Bahia no século passado.
Linhas de pesquisa
Os textos reunidos por Luiz Guilherme, além de escritos em períodos muito distintos, alguns com uma diferença de mais de 60 anos, têm ao menos três tipos de formatos diferentes: 1) relatos de memórias, 2) resenha histórica e 3) discurso de saudação. A diversidade de formatos em nada prejudica a qualidade do livro, que apresenta um conjunto de testemunhos muito ricos, que devem agora ser submetidos ao crivo dos pesquisadores, para comprovar em futuros estudos detalhes que, nestes artigos, por enquanto, são pistas para pesquisas que ainda estão para ser feitas sobre as especificidades do desenvolvimento da imprensa brasileira e da baiana, em particular.
No caso baiano, em parte como decorrência de esforços do próprio Luis Guilherme, tivemos a publicação regular de obras como A comunicação social na Revolução dos Alfaiates, de Florisvaldo Mattos, em 1998, Cipriano Barata na Sentinela da Liberdade, de Marco Morel, em 2001, e A Bahia de Outr’ora, agora, de Angeluccia Habert, em 2002, todas publicadas pela Academia de Letras da Bahia/Assembléia Legislativa da Bahia. Além destes, outros trabalhos pioneiros são os Anais da Imprensa baiana, de Alfredo de Carvalho e João Nepomuceno Torres, de 1911, A primeira imprensa da Bahia e suas publicações (1811-1816), de Renato Berbert de Castro, de 1969, e O Diário da Bahia século XIX, da professora Kátia de Carvalho, 1979.
A escassa lista de obras, em que, salvo os casos do Diário da Bahia e da revista Artes e artistas, a maioria trata de publicações do século 19, contribui para melhor avaliar o significado da variedade de pistas existentes nos artigos desta coletânea para compreender o jornalismo praticado em periódicos de referência como Jornal de Notícias, Diário de Notícias, Jornal da Bahia e A Tarde, para citar somente os mais expressivos. Relatos testemunhais da natureza destes são essenciais para um tipo de pesquisa muito pouco praticada pelos historiadores do jornalismo brasileiro: a das mutações na estrutura das redações, no discurso jornalístico e no aparecimento de novos gêneros de narrativa.
A formação sistemática
No relato de Aloysio de Carvalho, por exemplo, de 1923, fica evidente que, nos anos 20, a figura do repórter estava perfeitamente incorporada às redações, tendo se transformado "na alma do jornal" (p. 46). Aqui caberia uma pesquisa mais detalhada sobre um dos precursores da reportagem e na crônica social no jornalismo baiano, Alfredo Requião, do Jornal de Notícias. Um outro dado pitoresco revelado pelo texto de Aloysio de Carvalho: as dificuldades enfrentadas pelo Diário de Notícias para encontrar quem estivesse disposto a vender o jornal nas ruas em 1875, naquele tempo uma atividade mal vista entre a população de Salvador. Uma terceira pista que valeria a pena pesquisar melhor deste artigo de Carvalho: até os anos 30 do século 20 a entrevista era um gênero desconhecido nos jornais baianos: "Não se publicavam entrevistas. Entrevistas poderiam ser dadas e, com certeza, o eram; mas se viessem a público seria um Deus nos acuda." (p. 48).
Do conjunto dos artigos o último que faz uma resenha das publicações data de 1972, o de Antonio Loureiro de Sousa, então professor de História da Imprensa no curso de Jornalismo da Universidade Federal da Bahia, um dos mais antigos do país, criado em 1949. Uma leitura atenta destes textos demonstra que a imprensa baiana sempre manteve uma vinculação estreita com as correntes políticas, servindo de plataforma para conservadores ou liberais. Realidade que passados mais de 30 anos mantém muito de atualidade, com os jornais muito dependentes de um grupo político, como o Correio da Bahia, do senador Antonio Carlos Magalhães ou adotando posições em consonância com a conjuntura política como A Tarde, que mesmo mais estruturado como empresa, recentemente manteve postura sectária com o governo do estado, quando era comandado pelo jornalista Cruz Rios.
Para o leitor menos avisado, um dos artigos do livro – o discurso proferido pelo jornalista Jorge Calmon como paraninfo da turma de formandos em Jornalismo da Universidade Federal da Bahia em 1986 – talvez possa parecer fora de lugar na coletânea. Lego engano. Nele Calmon, ao enumerar as oito razões para a existência dos cursos de Jornalismo, do alto de uma experiência de 60 anos como redator-chefe de A Tarde, apresenta um rico testemunho sobre a evolução do jornalismo baiano desde a década de 30 até os anos 80 do século passado. Professor emérito da Universidade Federal da Bahia e um dos fundadores do curso de Jornalismo nos anos 40, Calmon, um jornalista formado nas redações, mesmo reconhecendo as deficiências dos cursos então existentes, sabia mais do que ninguém as vantagens de uma formação sistemática na universidade. Uma formação que será melhor quando conhecermos o passado da nossa imprensa. Neste sentido, a coletânea organizada por Luis Guilherme no Núcleo de Pesquisa do Centro Universitário FIB, sem dúvida, representa uma contribuição singular.
* Jornalista, escritor e professor da Universidade Federal da Bahia
Fonte: Observatório da Imprensa, 08.02.2005
Bordallo Pinheiro, um gênio sem fronteiras
"Bordallo Pinheiro: um génio sem fronteiras" é o nome da exposição patente ao público, na Galeria da Caricatura do Museu Nacional da Imprensa, na cidade do Porto, Portugal.
Esta mostra pretende evocar o centenário da morte de Bordallo Pinheiro (1846-1905) e homenagear a sua genialidade fixada em múltiplos jornais e livros, em Portugal e no estrangeiro, inclusive no Brasil.
A exposição é composta por originais e dezenas de publicações periódicas, das quais, Bordallo foi fundador ou colaborador. Podem ser vistas autocaricaturas publicadas em jornais e revistas como o "António Maria", "A Paródia", "Pontos nos ii", "Lanterna Mágica", "Ocidente" e "Brasil-Portugal" entre outras.
Para além das autocaricaturas, os jornais expostos abordam vários temas, privilegiando as "eleições" e as homenagens de que Bordallo Pinheiro foi alvo em 1903 e 1905.
A aposta no cartoon, em termos nacionais e internacionais, e a oportunidade do centenário, levam o Museu Nacional da Imprensa, a fazer de 2005 o "Ano de Bordallo Pinheiro" com a promoção de outras iniciativas, como a afixação do seu nome na futura Galeria Internacional da Caricatura projectada para este ano.
A exposição pode ser vista na Galeria da Caricatura do Museu Nacional da Imprensa até Maio, no seu horário habitual: todos os dias das 15h às 20h.
O Museu está instalado na cidade do Porto, a montante da Ponte do Freixo, em Portugal.
Fonte: Boletim Comunique-se, 09/03/2005
Quando o jornalista Vladimir Herzog foi assassinado no Doi-Codi, em outubro de 1975, o Brasil começou a mudar.
Aluno do segundo ano do curso de Jornalismo da Faap - Fundação Armando Álvares Penteado, eu e minha turma, mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, ficamos perplexos, indignados e revoltados, apesar do medo que tomou conta de cada um de nós sobre o que viria pela frente.
Havíamos tido aulas com o Marco Antonio Rocha e com o Rodolfo Konder, ambos também presos na mesma ocasião e que, tal como Herzog, correram risco de vida. Marquito é atualmente editorialista do Estadão e Konder, entre as inúmeras atividades, mantém um programete diário na Rádio Cultura FM, de São Paulo, denominado O sabor da crônica. Outro dos professores da Faap preso, mas com quem não cheguei a ter aulas, foi Duque Estrada, que atualmente empresta seu talento, na área de diagramação e produção gráfica, à Carta Capital, de Mino Carta.
Assassinato confirmado, o pânico tomou conta de todos nós, estudantes e profissionais, temerosos de que o recrudescimento da repressão ganhasse proporções inimagináveis. O papel do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, nesse momento, foi decisivo para aglutinar as forças civis do País e dar, aos militares e às forças da repressão, uma resposta vigorosa, determinada, altiva e, mais do que tudo, corajosa, sobre o que havia acontecido com Vlado.
A entidade assumiu a responsabilidade e o compromisso de enfrentar a censura e denunciar aquele assassinato dentro e fora do Brasil, a despeito dos riscos que seus diretores passaram a correr. Tratou de mobilizar as entidades civis e religiosas para combater as garras da repressão e se contrapor ao banho de sangue que começava a ocorrer e que poderia ceifar outras dezenas, centenas de vidas. Manteve uma vigília permanente durante vários dias até o histórico Culto Ecumênico na Praça da Sé, reunindo, apesar da repressão, milhares de brasileiros, numa celebração que pôs lado a lado o Cardeal-Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns, o Rabino Henry Sobel, e, salvo engano, o Pastor Protestante James Wrigth, entre outras figuras.
Toda essa história, em riqueza de detalhes, será finalmente contada em livro por um de seus principais protagonistas, Audálio Dantas, que à época presidia o Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, depois de ter derrotado em eleições uma diretoria considerada pelega pela ala jovem e progressista da categoria. Na luta contra a ditadura, as várias facções políticas então existentes, praticamente todas de esquerda (umas mais revolucionárias que outras), decidiram colocar suas diferenças de lado e, unidas, como nunca havia se visto, somaram forças e criaram o MFS - Movimento de Fortalecimento do Sindicato, ganhando a eleição e mudando a face do jornalismo no País, desde então.
Trinta anos depois, Audálio chegou a conclusão de que agora é a hora de escrever um livro sobre o caso Herzog e de dar seu testemunho pessoal e profissional sobre o episódio que acabaria influenciando de forma decisiva a história política do Brasil, nas três últimas décadas do Século XX.
Reticente, por entender que muita coisa já havia sido escrita sobre o caso, Audálio diz que mudou de idéia, sobretudo porque há uma coisa que o incomoda profundamente e que agora terá a oportunidade de resgatar: exatamente o papel do Sindicato naquele episódio, que até hoje não foi devidamente avaliado.
O trabalho, segundo revelou Audálio, será feito em conjunto com Jorge Sá de Miranda, amigo pessoal e que também acompanhou de perto tudo o que se passou na época. Jorge entrevistará pessoas que tiveram participação no caso, incluindo os jornalistas que foram presos na época, diretores do sindicato, personalidades como Dom Paulo Evaristo Arns, o rabino Sobel etc. E o primeiro entrevistado será Dom Paulo, na próxima semana. Também serão pesquisados documentos da época.
"Será o meu olhar, o meu sentir a partir do sindicato" - diz Audálio. "Voltarei aos primeiros movimentos nas redações, com a organização do MFS - Movimento de Fortalecimento do Sindicato, e à conseqüente vitória da oposição, uma das primeiras e mais importantes do sindicalismo brasileiro, sob a ditadura" - destaca.
Essa histórica de mobilização dos jornalistas de São Paulo, inédita na trajetória do Sindicato, acabaria sendo decisiva para desmontar a farsa montada pelo Doi-Codi, sobre o suicídio de Vlado, e para o engajamento geral da sociedade na luta contra a ditadura.
O livro deverá ser publicado ainda este ano e de um certo modo será, segundo Audálio, um diário no qual contará os momentos mais relevantes da atuação do Sindicato e os fatos que se encaminharam para a escalada de violência que atingiu os jornalistas e culminou com o assassinato de Herzog.
Para os mais jovens, vale relembrar algumas atividades exercidas por Audálio, ao longo de sua carreira. Além de atuar em alguns dos principais veículos de comunicação do País, Audálio foi também o primeiro presidente da Fenaj eleito pelo voto direto, foi deputado estadual e federal, presidiu a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e há pouco mais de dez anos montou sua própria empresa, inicialmente denominada Allcom e que agora leva o seu próprio nome: Audálio Dantas Comunicação.
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História da Televisão no Paraná:
um jeito próprio de fazer parte da televisão brasileira
Rosa Maria Cardoso Dalla Costa – UFPR (Curitiba – PR)
Resumo
Este trabalho apresenta uma análise da história da televisão no Paraná, com suas semelhanças e discrepâncias em relação à história da televisão brasileira. Da primeira exibição feita através de dois receptores colocados na vitrine da Loja Tarobá, atual edifício Garcez, em 17 de julho de 1954 à criação de empresas modernas que se destacam na retransmissão da programação das redes nacionais, traça-se aqui o desenvolvimento de um setor consolidado através do pioneirismo, boas relações políticas e uma certa ousadia na visão empresarial. Concatenada e, às vezes, limitada pelos rumos tomados pela televisão brasileira, marcados, por sua vez, pelo monopólio de grandes empresas de comunicação, a televisão paranaense constrói sua especificidade, vendo diminuir da sua programação a produção local, mas ao mesmo tempo firmando laços cada vez mais estreitos com o poder político e econômico estadual. Sua história evidencia, portanto, as principais características da própria sociedade paranaense dos últimos 40 anos. Apesar disso, porém, tem sido pouco registrada e praticamente ignorada nos trabalhos que estudam a história da televisão brasileira e ainda mais, na sua programação de veiculação nacional, que se atribui o papel de promover a integração nacional.
Introdução
Tão presente na vida de todos os brasileiros e dos demais cidadãos do mundo, a televisão parece sempre ter existido com o mesmo padrão de qualidade e os mesmos protagonistas que entram diariamente em nossas casas para nos divertir, informar e convencer da compra dessa ou daquela novidade do mercado.
Um pouco mais de um século de história, metade do qual já partilhado em solo brasileiro, registra o desenvolvimento de uma das mais significativas e revolucionárias invenções do século XX. A televisão tornou-se presente e corriqueira em nossa vida. Em parte retratando nossas mazelas e nossos avanços e em parte protagonizando muitas de nossas ações. Apesar de estar presente em todo o mundo e de apresentar características semelhantes no que diz respeito à criação de uma representação social e de uma ligação direta com os setores econômicos e políticos, em cada lugar do planeta ela tem também suas particularidades, justamente por ser produto e ao mesmo tempo "produtora" da sociedade na qual está inserida.
No Brasil, a televisão surgiu logo no início da década de 50, num contexto de "guerra fria" marcado pela ânsia de acompanhar as inovações técnicas dos países desenvolvidos. Tão precária e exótica quanto o pioneirismo do responsável pela sua chegada ao país, o jornalista Assis Chateaubriand, ela tornou-se, em pouco tempo, a grande catalizadora das emoções e do sentimento de pertencimento a uma nação. Contribuiu para a formação do mercado consumidor brasileiro que migrava do campo para cidade, num processo de modernização que ia além das fronteiras nacionais, mas que no estado tinha grandes proporções.
A televisão chega ao Paraná dentro deste mesmo contexto de modernização econômica, urbanização e desejo de acesso ao progresso tecnológico. Suas peculiaridades dizem respeito ao papel desempenhado pelo estado no cenário nacional e às relações de forças aqui estabelecidas. A proposta deste texto é a de analisar o surgimento da televisão neste estado e de relacioná-lo ao desenvolvimento da televisão brasileira de uma maneira geral, apontando a ligação entre os primeiros empreendedores locais com os grupos nacionais já estabelecidos. O que aconteceu em Curitiba e, na seqüência, no interior do estado, foi uma ligação direta entre as emissoras daqueles centros (que produziam os programas retransmitidos pelas repetidoras) em convênio com empresários locais.
Outra característica emergente é em relação ao pioneiro e à falta de condições materiais, humanas e de equipamentos técnicos, o que não impediu a inauguração deste novo meio de comunicação. O mesmo fato não ocorre quando da inauguração das empresas televisivas nas cidades do interior. Neste momento, já havia à disposição material técnico e equipes preparadas para viabilizar cada uma das novas TVs implantadas nas demais regiões do estado.
1. Surgimento da televisão no Brasil
A história da televisão no Paraná, como de resto em todo o país, teve seu início caracterizado pela inexperiência e, ao mesmo tempo, pioneirismo de seus fundadores, grandes dificuldades financeiras das empresas que resolveram implementá-la e absoluta falta de condições técnicas e profissionais para viabilizar sua programação.
Foi no dia 18 de setembro de 1950, em São Paulo, que o lendário Assis Chateaubriand, patrocinado pelas empresas Companhia Antártica Paulista, Sul América Seguros, Moinho Santista, Prata Wolff e pelo governo, inaugurou oficialmente a primeira estação de televisão no Brasil – a TV Tupi Difusora de São Paulo. Apesar dos protestos de Walther Obermuller, engenheiro norte-americano, diretor da NBC-TV, que veio ao Brasil para supervisionar a instalação dessa primeira emissora, com uma hora e meia de atraso, o primeiro programa da televisão brasileira foi correto do começo ao fim. "Improvisado e irresponsável, é certo, mas impecável. Ao final de duas horas de programação, só um especialista familiarizado com o funcionamento de um canal de TV (e não havia ninguém assim no Brasil) poderia perceber que apenas duas, e não três câmeras, haviam funcionado" (MORAIS, 1994, p. 503).
Quatro anos depois, numa noite fria de sábado, dia 17 de julho de 1954, uma multidão aglomerou-se diante do edifício Moreira Garcez, no centro de Curitiba, para ver os dois receptores colocados na vitrine da loja Tarobá que ali funcionava. Com essa iniciativa os empresários Nagib Chede, Raul Vaz e Amador Aguiar tentavam atrair investimentos que viabilizassem o projeto de instalação da TV no Paraná. De um estúdio improvisado, montado no sétimo andar do mesmo edifício, foi transmitido um show promocional, no qual o radialista Didi Bettega apresentava alguns artistas locais, seguidos por profissionais trazidos da TV Tupi de São Paulo especialmente para o evento.
Nas semanas seguintes a apresentação televisiva foi repetida em Ponta Grossa, através de um estúdio instalado na Rádio Clube Pontagrossense; poucos meses depois, na cidade de Palmeira, onde o então prefeito, Benjamim Malucelli havia se tornado um grande acionista da Rádio e Televisão Paraná S.A., incentivando a subscrição de ações ( JAMUR Jr. 2001).
A partir daí, a história da televisão no Paraná acompanha as principais etapas do desenvolvimento da televisão no Brasil, sofrendo diretamente as influências das suas características e peculiaridades.
Segundo CAPARELLI (1982) essa história deve ser compreendida dentro do contexto mais amplo do desenvolvimento capitalista que, a partir da década de 50, estabelece uma nova ordem internacional, na qual o capitalismo monopólico - enquanto um modo de produção material e intelectual – para constituir-se e generalizar-se, reproduzir-se e recriar-se continuamente, engendra também idéias, valores e doutrinas.
Embora no Brasil, profundas transformações econômicas tenham ocorrido desde a década de 30, são os anos 50 que marcam uma reordenação do mercado brasileiro, através das operações comerciais, financeiras e industriais de grandes corporações, na sua maioria de origem estrangeira e a Revolução de 1964 que lhe confere o seu caráter estrutural.
Assim, a história da televisão brasileira pode ser dividida, segundo o mesmo autor, em duas fases. Uma primeira, que vai do seu surgimento em 1950 até 1964 e é caracterizada pelo capital nacional, a improvisação e o pioneirismo e uma segunda, caracterizada pela entrada de investimentos estrangeiros, especialmente norte-americanos, e pela profissionalização e aperfeiçoamento de suas empresas.
Do ponto de vista dos grupos que marcaram uma e outra fase, podemos caracterizar, como o faz Caparelli, a primeira como a do "Império Chateaubriand", em alusão ao poder exercido pelas empresas Associadas de propriedade de Assis Chateaubriand no setor de comunicação nacional e a segunda como a do "Monopólio da Globo", que a partir de 1964 cria um dos maiores conglomerados de comunicação do Brasil e do mundo.
No Império Chateaubriand a televisão começa a se desenvolver nos principais pólos econômicos do país, nos quais os Diários Associados, jornais do Grupo Chateaubriand, já estavam consolidados. As primeiras emissoras televisivas eram totalmente dependentes da tecnologia industrial norte-americana que não só fornecia os equipamentos técnicos para as primeiras transmissões como também os receptores que começam a fazer parte dos lares brasileiros. Em termos de programação, havia uma transposição do rádio para o novo meio, tanto em relação aos recursos humanos quanto em relação aos programas. Porém, como ainda não havia o vídeo-tape, toda a programação televisiva era produzida nas regiões e, apesar de já passar por uma padronização na sua forma e conteúdo, era caracterizada por elementos da cultura local, o que definitivamente deixa de acontecer a partir da integração que ocorrerá com o surgimento das grandes redes de televisão na década de 60.
2. A televisão demora, mas chega ao Paraná
Segundo Jamur Jr (2201), apesar de o Paraná estar na rota de instalação das empresas Associadas, de Assis Chateaubriand, do sucesso com o público e a venda das ações, o processo de instalação da primeira emissora paranaense não ocorreu rapidamente. Em 1953, alguns empresários e políticos paranaenses como Raul Vaz, Gastão Chaves, Alexandre Guttierez, Mário Hipólito César e Nagib Chede, associam-se e registram a Rádio e Televisão do Paraná S.A., mas a primeira transmissão pública só acontece um ano depois. Apesar do sucesso dessa primeira exibição, a sociedade não foi para frente e acabou sendo transferida pelo banqueiro Amador Aguiar para o Grupo das Associadas.
Porém, entusiasmado com a experiência de 1954 e inconformado com o atraso do Paraná em relação aos outros estados, o advogado Nagib Chede, proprietário da Rádio Emissora Paranaense, rompe com Chateaubriand, pede a concessão de um canal de televisão para Curitiba e volta a fazer transmissões em 1958, valendo-se do auxílio do publicitário Arnaldo Delmonte e do técnico mineiro Olavo Bastos.
Interessados em vender receptores e impulsionar seus próprios negócios, outros empresários de lojas como Hermes Macedo, Prosdócimo e Madison, incentivam o projeto de Nagib Chede, que por sua vez, beneficia-se da amizade com o então governador paranaense, Moysés Lupion, para conseguir uma audiência com o presidente Juscelino Kubitschek, na qual obtém a autorização para uma montar uma emissora de TV em Curitiba.
Chede investe todos os esforços possíveis para implantar seu projeto, desde a procura de equipamentos em São Paulo até a compra de uma kitinete no 20º andar do edifício Tijucas. É lá que, após sete meses de experiência, no dia 28 de outubro de 1960, é inaugurada a TV Paranaense Canal 12. Como era comum nas demais emissoras brasileiras daquele período, todas as transmissões eram feitas ao vivo, com profissionais do rádio, que tinham facilidade de comunicação oral e improvisação diante das situações tragicômicas que aconteciam com freqüência.
Aos poucos, a emissora de Chede foi crescendo e se estruturando. Apesar do mercado curitibano ser formado essencialmente por pequenos comerciantes, a publicidade desenvolveu-se inesperadamente e contribuiu para esse desenvolvimento. Em 1965, a TV Parananese começa a utilizar o videotape – uma novidade que revoluciona a programação televisiva em todo o país – e melhora significativamente a qualidade de suas gravações e edições. Mas se de um lado, a empresa adquiria know how e experiência, de outro novos desafios se apresentavam. Crescia em todo o país o número de receptores de televisão e um mercado assim promissor começa a ter pela primeira vez concorrência. No cenário nacional, era o início da profissionalização e do aperfeiçoamento da indústria cultural, que de um lado sofria as mudanças provocadas pelo declínio do Império Chateaubriand e de outro começava a se deslumbrar com as novidades trazidas pela programação transmitida em rede nacional.
A segunda emissora de televisão do Paraná – a TV Paraná Associada, Canal 6 – ligada à rede de Assis Chateaubriand, é inaugurada em 1960 e traz para Curitiba profissionais mais experientes, vindos da TV Tupi de São Paulo, bem como equipamentos mais modernos, como os primeiros aparelhos para transmissão externa.
No Paraná, a TV Paranaense que até 1968 exibe a programação da Rede Globo, do Rio de Janeiro, sofre com a fuga dos telespectadores para as novelas da TV Excelsior, que começam a sedimentar o gênero de maior sucesso da programação televisiva brasileira. A Globo, a partir daí, transfere seu contrato à TV Iguaçu, Canal 4 e a emissora de Chede, após sofrer um abalo financeiro é vendida para um grupo de banqueiros integrado por Edmundo Lemansky, Adolfo de Oliveira Franco Filho e o advogado Francisco Cunha Pereira Filho, proprietário do jornal Gazeta do Povo.
A guerra pela audiência estava apenas começando. O Canal 6 passa a priorizar as transmissões esportivas e é a primeira emissora a narrar uma partida de futebo na televisão, com a participação do comentarista Vinicius Coelho e o repórter William Sade. Junto com o crescimento e a consolidação da emissora no Paraná, marcado pelo início da construção de estúdio para gravação de novelas que seriam distribuídas nas demais emissoras do grupo, tem início o processo de decadência das Emissoras Associadas, após a morte de seu criador, Assis Chateaubriand, em 1968. No Paraná, a morte de Adherbal Stresser, faz com que Edmundo Monteiro, diretor dos Diários e Emissoras Associados, de São Paulo, venda a TV Paraná e o Diário do Paraná a Oscar Martinez, que incumbiu seu filho, José Carlos Martinez da direção das empresas. Mais tarde, a TV Paraná torna-se Rede OM de Comunicação e em parceria coma TV Gazeta de São Paulo, cria a CNT (Central Nacional de Televisão), a primeira rede nacional de televisão fora do eixo Rio-São Paulo.
Em 1967 é inaugurada a TV Iguaçu, canal 4, primeira emissora a ser projetada especialmente para ser uma geradora de televisão. De propriedade de Paulo Pimentel, proprietário da Editora "O Estado do Paraná S.A.", a emissora começa a funcionar com os melhores equipamentos de transmissão da Marconi, da Inglaterra e o melhor vídeo-tape do mundo, fabricado pela Ampex, dos Estados Unidos. A estrutura do prédio construído para sediar a TV Iguaçu apresentava uma gigantesca torre de transmissão com um restaurante giratório no topo, três estúdios e um grande auditório. Através de um convênio firmado com a TV Record, a emissora de Pimentel, passou a transmitir os melhores programas da televisão brasileira da época e, unida a uma programação local de qualidade, fez com que o Canal 4 obtivesse um dos maiores índices de aceitação junto ao público da história da televisão no Paraná.
Nos anos seguintes a programação da TV Iguaçu se destacou pela criação de bons programas jornalísticos como o Show de Jornal, que inovou o telejornalismo, distanciando-o do formato radiofônico e introduzindo novas técnicas como a primeira reportagem de rua e o uso de slides. Em 1972, a emissora passa a transmitir a programação da Rede Globo, que começava a consolidar sua liderança na audiência nacional. Mas um fato – o crescimento político de Paulo Pimentel, segundo JAMUR JR (2000) – faz com que seus adversários pressionem a Rede Globo a retirar a sua programação da TV Iguaçu e passá-la para a TV Paranaense. No ano de 1978, a emissora passa a exibir programas da Rede Tupi de Televisão, até sua extinção dois anos depois. Em 1981, a TV Iguaçu começa finalmente a transmitir a programação do recém inaugurado Sistema Brasileiro de Televisão, de propriedade do empresário Sílvio Santos.
Duas outras emissoras merecem ser mencionadas neste breve relato da história da televisão no Paraná. A primeira delas é a TV Coroados, inaugurada em 1963 com o intuito de levar as empresas Associadas à Londrina. Primeira emissora instalada numa cidade do interior do Paraná e a segunda no Brasil, a TV Coroados, foi propriedade dos principais empresários de comunicação do Paraná – Paulo Pimentel e Oscar Martinez – até ser oferecida pelo então ministro Golbery do Couto e Silva para Roberto Marinho, proprietário da Rede Globo de Televisão. A segunda, a TV Tibagi de Apucarana, inaugurada em 1967, é integrante do grupo Paulo Pimentel e uma das responsáveis pelo desenvolvimento dos meios de comunicação no norte do Paraná.
Com o aumento de aparelhos receptores em todo o país e o crescente investimento publicitário nas emissoras, a televisão não pára de se desenvolver, absorvendo todas as inovações tecnológicas que aparecem no mercado. A década de 70, marcada pelo início das transmissões em cores, é caracterizada pela consolidação do Sistema Nacional de Telecomunicações que permite a integração de todo o território nacional a partir da programação televisiva. É também neste período que a Rede Globo se distancia das demais emissoras através da sua eficiência e profissionalismo administrativo e da consagração da sua grade de programas, cujo carro chefe é a telenovela.
No Paraná a emissora global também começa sua expansão através da TV Coroados (Canal 3 de Londrina). TV Cultura (Canal 8 de Maringá) e TV Cataratas. O grupo Paulo Pimentel reage e inaugura em 1979 a TV Tarobá de Cascavel, região oeste paranaense e em 1985 a TV Naipi, em Foz do Iguaçu, fechando um circuito que abrange todo o Paraná.
Em 1987, uma lei estadual, cria a TVE, que somente em 1992 passa a ser denominada definitivamente como Rádio e Televisão Educativa do Paraná, tendo como sua principal finalidade a promoção de atividades educativas e culturais.
Na década seguinte o grupo Paulo Pimentel inaugura a sua quarta emissora, a TV Cidade, em Londrina, cujo ponto alto é o jornalismo regional. A TV Curitiba (Canal 2) até então retransmissora da Rede Manchete, passa às mãos do grupo J. Malucelli, e é reinaugurada, em 1989, como uma emissora independente, priorizando programas jornalísticos locais. Em seguida, passa a transmitir a programação da Rede Bandeirantes.
O início dos anos 90 marca a chegada da TV a cabo em Curitiba. A VTV é a empresa responsável pelo lançamento do primeiro pacote de programas estrangeiros na cidade, que incluía os canais: TNT, Raí, CNN, ESPN,MTV, Prime Time, Playboy e TVE.
Considerações finais
Estudando a história do Brasil no último século percebe-se a predominância do eixo Rio-São Paulo no domínio econômico e político nacional. Esta realidade tornou-se mais evidente no período do governo Juscelino Kubitschek na segunda metade dos anos 1950, com sua decisão de localizar a industrialização a partir de um centro dinâmico estabelecido entre São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Como a história da televisão no Brasil surge neste período, sua expansão em direção ao Paraná também reflete esta realidade. O estado foi dependente de programações, técnicos, material e know-how vindos da capital paulista, apesar de constar com a iniciativa e o mesmo pioneirismo dos empresários paulistas e cariocas entre os empreendedores locais.
Um traço nesta história da televisão local é a acentuada ligação entre os empreendedores e o poder público instituído, tanto a nível municipal, como estadual e nacional. Apesar de tal ligação não ser uma novidade paranaense, aqui no estado ela se dá de uma maneira peculiar, que pouco se transformou no decorrer dos anos. Os atores dessa relação são praticamente os mesmos, ou seus descendentes, desde o início da história da televisão no Paraná. O avanço dos estados vizinhos ainda provoca um certo fascínio que impede iniciativas de valorização da cultura local e regional. Por outro lado, apesar do aumento significativo de cursos de comunicação social no Estado nos últimos seis anos, ainda não existem profissionais especializados na produção de programação televisiva. Os que conseguem se formar e se destacam, buscam o mercado nestes outros estados, repetindo um ciclo que se não impede, pelo menos atrasa o desenvolvimento de uma televisão verdadeiramente paranaense.
Nota:
Segundo JAMUR JR (2001), Delmonte, publicitário paulista, recém contratado pela empresa Hermes Macedo de Curitiba, cedeu o aparelho de televisão que trouxe na bagagem para as transmissões e ofereceu informações técnicas e artísticas úteis às apresentações. Bastos, técnico mineiro que havia construído, em 1948, o primeiro transmissor de televisão no Brasil, trouxe a Curitiba um transmissor de imagens que permitiu a captação de imagens do Canal 7 pelos transmissores instalados nas lojas Tarobá.
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