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JORNAL DA REDE
ALCAR |
Editores Responsáveis:
José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) / email: marquesmelo@uol.com.br e Francisco Karam (FENAJ/UFSC) / email: fjkaram@terra.com.br
Edição digital Profa. Maria Cristina Gobbi e Adriana Crozariol (UMESP)
Sítio digital Prof. Clovis Geyer e Ana Paula de Souza (UFSC)
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Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da
memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Colaboradores desta edição: Alvaro
Leme (São Paulo), Ana Paula Ramos (São Paulo), Aurélio Vellame (Salvador, BA),
Caarlos Heitor Cony (Rio de Janeiro), Carlos Haag (São Paulo), Carlos Marchi (Rio de
Janeiro), Cláudio Murilo Leal (Rio de Janeiro), Edgard Patrício (Fortaleza CE),
Flaubert Paiva (Rio de Janeiro), Geraldo Lopes (São Paulo), João Bondaczuk (Rio de
Janeiro), Laura Mattos (São Paulo), Mino Carta (São Paulo), Regina Zilberman ( Porto
Alegre RS)
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www.jornalismo.ufsc.br/redealcar
www.metodista.br/unesco/redealcar
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Noticiário da Rede Alcar
Diretor do Museu da Imprensa de Portugal abrirá encontro de Florianópolis
Hemeroteca traz de volta Esther Bertoletti à Biblioteca Nacional
Núcleo Gaúcho: 500 anos da Propaganda Brasileira
Núcleo Cearense lança novos olhares sobre a pesquisa histórica da imprensa
Rede Alcar integra-se à comemoração dos 170 anos do jornal Monitor Campista
Capítulos de História da Mídia
Imprensa, História e Literaura
A longa viagem do crítico José Veríssimo
História do Rádio: a saga da PRK-30
Niomar, La Pasionária do Brasil
Tempo e memória nas coleções de jornais
Frias e Abramo: a triste história volta à tona
Acervos digitalizados e acessíveis: meta do Arquivo Público de São Paulo
Igreja eletrônica: do Frei Mojica ao Bispo Macedo
Literatura de rodapé (ou) o jornal como suporte literário
Telenovela: os sucessores de Janet Clair
João do Rio: do jornalismo ao teatro
Série 200 anos da imprensa brasileira
Frei Caneca, um argonauta no jornalismo brasileiro
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Noticiário da Rede Alcar
Diretor do Museu da Imprensa de Portugal abrirá encontro de Florianópolis
O jornalista e professor Luis Humberto Marcos, diretor do Museu Nacional da Imprensa, instalado na cidade do Porto, em Portugal, fará a conferência inaugural do II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho, agendado para a cidade de Florianópolis, SC, na noite de 15 de abril de 2004. Ele falará sobre o tema "Memória da Imprensa: o papel científico e pedagógico dos museus midiáticos".
Também confirmaram sua presença ilustres pesquisadores brasileiros, convidados a falar sobre o tema central do evento História do Ensino de Jornalismo e das Profissões Midiáticas no Brasil. O programa oficial inclui duas mesas redondas sobre essa questão:
SEXTA, 16 de abril - 9 horas:
A história do ensino de Jornalismo e das Profissões Midiáticas (dos primórdios ao Ciespal) - Painelistas: José Marques de Melo (USP/UMESP), Ana Arruda (ABI), Nilson Lage (UFSC), Erasmo de Freitas Nuzzi (Fac. Cásper Líbero)
Mediadora: Jornalista Beth Costa, Presidente da Federação Nacional dos Jornalistas
SÁBADO, 17 de abril - 9 horas:
A história do ensino do Jornalismo e das Profissões Midiáticas (Do Ciespal ao Currículo Mínimo e a 2004) - Painelistas: Adolpho Queiroz (Umesp/Unimep), Claudia Moura (PUC-RS), Eduardo Meditsch (UFSC), Sonia Virgínia Moreira (UERJ)
Mediador: Gerson Martins (Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo)
Contudo, a parte substantiva do encontro configura-se através da apresentação dos resultados das pesquisas concluídas ou em desenvolvimento nos diferentes Núcleos Regionais da Rede Alcar. Os interessados em inscrever trabalhos deverão enviar imediatamente seus resumos aos coordenadores de GTs, podendo encaminhar os textos completos até o dia 19 de março de 2004. Reproduzimos a seguir a lista dos GTs em funcionamento:
REDE ALCAR : GTs DE História da Mídia
Núcleo A História das Profissões Midiáticas
História do Jornalismo
Coordenadora: Marialva Barbosa (Univ.Federal Fluminense) e-mail: mcb1@terra.com.br
História da Publicidade
Coordenador: J. B. Pinho (Universidade Federal de Viçosa) e-mail: jbpinho@ufv.br
História da Propaganda
Coordenador: Adolpho Queiroz (UMESP) e-mail: adolphoq@metodista.br
História das Relações Públicas
Coordenadora: Claudia Moura (PUCRS) e-mail: cpmoura@pucrs.br
Núcleo B História dos Suportes Midiáticos
História da Mídia Impressa (Jornal, Revista, Livro)
Coordenador: Luis Guilherme Pontes Tavares (NEHIB) e-mail: editor@alba.ba.gov.br
História da Mídia Sonora (Rádio, Disco)
Coordenadora: Ana Baum (Universidade Federal Fluminense) e-mail: ana.baum@ig.com.br
História da Mídia Visual (Fotografia, HQ, Cartazes)
Coordenadora: Sonia Luyten (Unisantos) e-mail: sonialuyten@hotmail.com
História da Mídia Audiovisual (Cinema, Televisão)
Coordenadora: Ruth Vianna (UFMS) e-mail: viannar@terra.com.br
História da Mídia Digital (Web e NTCs)
Coordenador: Walter Lima Jr. (UniFIAM) e-mail: digital@walterlima.jor.br
Núcleo C História dos Conteúdos Midiáticos
História da Mídia Educativa
Coordenadora: Marlene Blois (UniCarioca) e-mail: mmblois@univir.br
Coordenação nacional:
José Marques de Melo (USP/UMESP)
e-mail: marquesmelo@uol.com.br
Coordenação local:
Francisco José Castilhos Karam
e-mail: fjkaram@terra.com.br
Informações específicas sobre o evento, taxa de inscrição e programação cultural estão disponíveis nos seguintes endereços: realcar@cce.ufsc.br
Telefone: 0xx48 331-9215
Fax: 0xx48 331-9490
Hemeroteca traz de volta Esther Bertoletti à Biblioteca Nacional
Através de portaria publicada no DOU no dia 31/10/2003, o Ministro da Cultura, Gilberto Gil, protagonizou ato de justiça, ao reconduzir aos quadros diretivos da Biblioteca Nacional a Jornalista. Esther Bertoletti. Criadora do Programa Nacional de Microfilmagem dos Jornais e Revistas publicados no Brasil, que desenvolveu amplamente na década de 80, salvando coleções que perigavam esfacelar-se nos arquivos de empresas e bibliotecas públicas, a Dra. Bertoletti foi preterida durante os Governos Collor/Itamar e afastada de suas funções diretivas na Biblioteca Nacional.
Com a ascensão do Governo FHC, ela foi convidada pelo Ministro da Cultura, Francisco Weffort para integrar a equipe do Programa Resgate, responsável pela microfilmagem dos documentos coloniais portugueses referentes ao Brasil e que agora estão disponíveis para consultas em diversos arquivos brasileiros. Esse projeto esteve subordinado até recentemente ao Gabinete do Ministro da Cultura no Rio de Janeiro, passando agora à alçada da Biblioteca Nacional.
Ao ser nomeada Diretora do Centro de Referência e Difusão da Biblioteca Nacional ela tem condições de se dedicar prioritariamente ao seu projeto histórico, qual seja a instalação de uma Hemeroteca Nacional, reunindo as coleções de jornais, revistas e outras publicações periódicas, como ocorre em países como os Estados Unidos da América, França e México. Ela vem trabalhando no sentido de transferir as coleções da imprensa periódica atualmente concentradas em vários andares do edifício da Avenida Rio Branco para um edifício conquistado pela Biblioteca Nacional na região do Cais do Porto. Desta maneira, ampliará o espaço do edifício-sede para abrigar as coleções de livros, manuscritos e obras raras.
Sua intenção é recuperar o novo edifício, numa parceria entre o governo e a iniciativa privada, até o ano de 2006, quando o Brasil celebra 300 anos da Imprensa Clandestina, inaugurando a Hemeroteca Nacional em 2008, quando comemoramos 200 anos de instalação da Imprensa Oficial.
A busca de parcerias com a iniciativa privada será facilitada pela nova função que a Dra. Esther Bertoletti exerce na Associação Comercial do Rio de Janeiro. A convite do ex-Ministro e atual Presidente daquela Associação, Marcílio Marques Moreira, ela integra, no biênio 2003/2005, o Conselho Empresarial de Cultura do Rio de Janeiro.
Além de suas atividades como servidora pública, Esther Bertoletti permanece como sócia ativa do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e membro do comitê nacional da Rede Alfredo de Carvalho.
Núcleo Gaúcho: 500 anos da Propaganda Brasileira
A Memória da Propaganda, o Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa e a Secretaria de Estado da Cultura convidam para a exposição "Propaganda Brasileira - 500 anos" .
Estarão expostos, diversos painéis e banners que contam a história da propaganda no Brasil, desde tabuletas de ilustrações e letras desenhadas aos cd-rooms e home-pages, em um espaço colorido, moderno, com um apelo visual fantástico. Uma extraordinária mostra dos mais notáveis, incríveis, divinos e deslumbrantes anúncios criados por geniais e humildes publicitários.
A exposição é uma homenagem a estes profissionais que construíram e percorreram até aqui o caminho da propaganda brasileira, colocando-a entre as mais criativas e respeitadas do mundo. A mostra também representa a retomada da vida cultural do Museu, hoje sendo reconstruída na gestão do Diretor Antônio Renato Henriques, que vem buscando apoio na iniciativa privada.
A exposição, que tem entrada franca, estará aberta para a visitação desde o dia 04 de novembro (terça-feira), ficando até o dia 31 de dezembro, de terça a sábado, das 8h30min às 18 horas e domingos das 13 às 21 horas. As visitas guiadas para escolas e grupos podem ser agendadas pelo telefone (51) 32 86 20 51.
O Museu de Comunicação, que sedia a Rede Alcar no Rio Grande do Sul, fica na Rua dos Andradas, 959, centro de Porto Alegre.
Núcleo Cearense lança novos olhares sobre a pesquisa histórica da imprensa
O lançamento do Núcleo Cearense da Rede Alfredo de Carvalho está anunciado para o dia 5 de dezembro de 2003, e se dará a partir de um seminário com temática "A Imprensa e a Pesquisa Histórica: novos olhares sobre a Ciência", a ser realizado do auditório da Universidade Federal do Ceará. A coordenação do evento está sendo feita por Edgard Patrício, dirigente da ONG Catavento Comunicação e Educação, onde lidera o Projeto de Pesquisa Rádio e Matrizes Culturais: rádio e sociedade nas décadas de 20 a 40 no Ceará, com apoio do CNPq Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico.
O seminário está assim estruturado:
1 -Abertura
2- A Rede Alfredo de Carvalho: histórico e formação
3 - Mesa-redonda: O rádio e a pesquisa histórica
4 - Mesa-redonda: o jornal e a pesquisa histórica
5 - Instalação do Núcleo da Rede Alcar no Ceará
5.1 - Representante Rede Alcar: perspectivas da Rede
5.2 - Representante do Catavento: proposta de estruturação do núcleo da Rede no Ceará
5.3-Assinaturas de adesão ao núcleo da Rede Alcar no Ceará
6. Coquetel de encerramento e lançamento de livros
Informações sobre o evento: ecologiaopovo@bol.com.br
Rede Alcar integra-se à comemoração dos 170 anos do jornal Monitor Campista
A cidade de Campos de Goytacazes, situada na cidade do Rio de Janeiro, sedia o terceiro jornal diário mais antigo do Brasil. Pertencente hoje à cadeia dos Diários e Emissoras Associados, construída por Assis Chateaubriand, o jornal Monitor Campista foi fundado em 1834, permanecendo em circulação até os dias de hoje, como também acontece com os seus predecessores: Diário de Pernamubuco (1825) e Jornal do Commércio do Rio de Janeiro (1827).
Em viagem a Campos, nos dias 13-14 de novembro de 2003, a convite da FAFIC Faculdade de Filosofia de Campos,instituição em processo de transformação para constituir o novo Centro Universitário Fluminense, o presidente da Rede Alfredo de Carvalho, Prof. Dr. José Marques de Melo visitou as novas instalações do Monitor Campista. Recebido pelo seu Diretor Secretário, Jairo Coutinho Maia, conheceu a redação informatizada, bem como o núcleo de produção da edição digital daquele periódico.
O presidente da Rede Alcar observou também o estado de conservação da coleção do jornal, fonte de pesquisas básica para a História Regional. Além da coleção existente no próprio jornal, o Monitor Campista pode ser consultado na Coleção de Jornais Campistas, mantida pelo Arquivo Público Municipal (período 1850-1981), bem como na Coleção de Microfilmes da Biblioteca Nacional (período 1834-1900). A redação do jornal já está trabalhando para publicar a edição comemorativa dos 170 anos, que circulará no dia 4 de janeiro de 2004.
A vista foi feita em companhia do Prof. Andral Tavares, coordenador do Curso de Comunicação da FAFIC, que aceitou a sugestão feita pelo Professor Marques de Melo no sentido de promover um concurso de reportagens entre os estudantes de jornalismo da região com a finalidade de resgatar momentos significativos e personagens emblemáticos da trajetória daquele jornal centenário. A idéia será viabilizada pela FAFIC, que buscará a parceria da Fundação Cultural Jornalista Osvaldo Lima, entidade mantida pela Prefeitura Municipal de Campos.
Informações sobre a iniciativa podem ser obtidas através do seguinte email: andraltavares@uol.com.br
Capítulos de História da Mídia
Imprensa, história e literatura
Reunindo 30 pesquisadores das áreas de História, Literatura, Comunicação e Ciências Sociais, o seminário Imprensa, história e literatura, de 26 a 28 de novembro de 2003, propôs-se a contribuir para o maior entendimento da imprensa periódica enquanto motor e cenário do debate e da divulgação das obras de escritores, intelectuais, artistas e cientistas e de seu papel na história da cultura e das idéias no Brasil. Visando destacar a questão do campo social da recepção e das linguagens, o seminário enfatizou a interlocução entre história e literatura.
Programação
26/11
9h Conferência de abertura: Alberto Dines, "Hipólito da Costa, hoje"; Cybelle de Ipanema (IHGB), "A tradição historiográfica de estudos sobre imprensa".
10h30 Mesa 1: Primeiros impressos. Debatedora: Isabel Lustosa (FCRB); Jean Marcel de Carvalho França (Unesp-Franca), "Literatura e Imprensa no período joanino"; Ivana Stolze Lima (História-FCRB), "Pasquins e cidadania no período regencial"; Marco Morel (História-UERJ), "Imprensa e escravidão no Brasil do século XIX".
14h Mesa 2: A polêmica nas folhas. Debatedor: José Almino de Alencar (FCRB); Rita Elias (Letras-UFRJ), "Alencar e as polêmicas literárias"; Maria Alice Rezende de Carvalho (IUPERJ), "Polêmica e pensamento social"; Nisia Trindade (COC-Fiocruz), "Monteiro Lobato, Belisário Penna e a campanha sanitarista nos jornais".
16h30 Mesa 3: Suplementos Literários. Debatedor: Antonio Herculano (FCRB); Maria Eugênia Boaventura (IEL-Unicamp), "O Suplemento Literário do Jornal do Brasil e o início do Caderno B"; Isabel Travancas (Antropologia-IFCS-UFRJ), "O livro no jornal suplementos literários franceses e brasileiros na década de 1990".
18h30 Confraternização.
27/11
9h Abertura: Tânia Regina de Luca (Unesp-Assis), "Os três tempos da Revista do Brasil".
10h Mesa 4: Literatura nos jornais. Debatedor: Júlio Castañon Guimarães (FCRB); Armando Gens (Letras-UERJ/UFRJ), "A literatura nos jornais: 1870/1900"; Flora Sussekind (FCRB/UniRio), "As crônicas de Joaquim Manuel de Macedo no Jornal do Commercio; Maria Zilda Cury (Letras-UFMG), "A poesia de Carlos Drummond de Andrade na imprensa".
14h Mesa 5: O moderno em revistas. Debatedora: Vera Lins (FCRB/UFRJ); Monica Velloso (História-FCRB), "Sensibilidades modernas: as revistas literárias e de humor no Rio da Primeira República"; Ana Luiza Martins Camargo (História-Condephaat/Secretaria de Estado da Cultura, SP), "Revistas em revista em São Paulo"; Maria Lúcia Camargo (Letras-UFSC), "Revistas literárias contemporâneas".
16h30 Mesa 6: A cidade na imprensa. Debatedor: Renato Cordeiro Gomes (Comunicação-PUC-Rio); Sandra Pesavento (História-UFRGS), "Cidadania e exclusão: linguagens simbólicas nos jornais"; Maria Stella Bresciani (História-Unicamp), "Imprensa e cidade".
18h30 Lançamento na livraria Divulgação e Pesquisa do livro O Brasil Republicano (4 volumes), organizado por Jorge Ferreira e Lucília de Almeida Neves, com a presença de todos os autores do Rio de Janeiro.
28/11
9h Abertura: Alzira Alves Abreu (CPDOC), "A modernização da imprensa os jornais dos anos 50 a 70".
10h Mesa 7: Impressões visuais. Debatedora: Angela de Castro Gomes (CPDOC); Claudia Oliveira (História-UFRJ), "Fotografia, cidade e indivíduo em Fon-Fon, Selecta e Para Todos, 1907-1930"; Marco Antonio da Silva (História-USP), "O lugar da caricatura"; Marcus de Paula (EBA-UFRJ), "Transformações gráficas: Klaxon".
14h Mesa 8: Transformações na imprensa. Debatedora: Joëlle Rouchou (FCRB); Cristiane Costa (Comunicação-UFRJ), "Escritores jornalistas e a reportagem"; Ana Maria Mauad (História-UFF), "O impacto do fotojornalismo na modernização da imprensa"; Maria Paula Nascimento Araujo (História-UFRJ), "A imprensa alternativa do anos 70".
16h30 Encerramento: "Narrativa, história e imprensa", Manoel Salgado Guimarães (História UFRJ); Marisa Lajolo (IEL-Unicamp)
A longa viagem do crítico José Veríssimo
Cláudio Murilo Leal
(Fonte: Jornal do Brasil, Caderno Idéias, 1/11/2003)Uma visão panorâmica da crítica literária brasileira que militou entre o fim do século 19 e o começo do século 20 destacaria, como referência obrigatória, três nomes que representaram cabalmente aquele importante momento de transição da nossa cultura: Araripe Jr., Sílvio Romero e José Veríssimo. Transição da subjetividade romântica para o despertar de um cientificismo que marcaria o período realista-naturalista no Brasil. Um quarto nome, o mais velho e o mais criativo de todos, Machado de Assis, abandonou precocemente a crítica, depois de produzir lúcidos ensaios, como o definitivo ''Instinto de nacionalidade''.
Araripe Jr. e Sílvio Romero se apresentavam como instauradores de uma nova crítica e revelavam um marcado caráter de cunho científico. Imbuídos dos ideais que propugnavam pela objetividade no tratamento do fato literário, e adotando alguns procedimentos tomados de empréstimo principalmente das ciências sociais, estes dois críticos ampliaram o campo de suas investigações, entendendo a literatura como uma manifestação que devia ser inserida num contexto mais amplo, que incluía as dimensões do cultural e do social.
A filosofia e a doutrina dos luminares da Europa do século 19 tiveram ampla divulgação entre nós: o positivismo de Comte, o determinismo de Taine, o evolucionismo de Darwin, e outros como Spencer, Heckel ou, mais especificamente literários, Sainte-Beuve e Zola, compuseram um imprescindível quadro de referências para quem desejasse entender a literatura como um sistema de trocas no mercado das novas idéias. Ao lado da vertente cientificista, propagou-se também um sentimento nativista, não mais voltado para o exótico indianista, como no romantismo, mas para uma saudável tentativa de descoberta das nossas diferenças culturais em relação à Europa.
José Veríssimo (1857-1916), sem desprezar esta abertura do enfoque literário em direção à postura crítica que ampliava a compreensão do fenômeno cultural, não descurou da valorização do elemento estético no julgamento da obra literária. Apesar de autor de importantíssimos livros, que ajudaram a construir a consciência da nossa nacionalidade, como História da literatura brasileira e Estudos brasileiros, Veríssimo tem sido vítima da perpetuação de alguns rótulos contrários ao estilo da sua prosa e ao seu suposto desinteresse pela literatura estrangeira. Por esse motivo, deve-se ressaltar a importância do livro que a editora Topbooks traz a lume, em elogiável parceria com a Academia Brasileira de Letras, intitulado Homens e coisas estrangeiras.
Nele, estão reunidos os três volumes publicados em primeira edição entre 1899 e 1908, iniciativa que representa um oportuno resgate dessa pouco lembrada produção de José Veríssimo. A faceta universalista da obra do nosso crítico se encontrava de tal forma relegada que o mestre Afrânio Coutinho, em Caminhos do pensamento crítico, escreve que o bom-senso de Veríssimo ''lhe compensava a ausência de cultura literária universal.'' Também Otto Maria Carpeaux, em sua utilíssima Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, omite este título, Homens e coisas estrangeiras, no verbete dedicado a José Veríssimo.
Em se tratando de examinar o estilo de Veríssimo, apesar de não se poder compará-lo ao de Machado de Assis, não é ele inferior ao de Sílvio Romero, retórico e passional. Um crítico como Álvaro Lins, hoje fora do circuito da nossa inteligência - pois ainda é aguardada uma reedição da sua obra -, escreveu, no terceiro volume da série Jornal de Crítica: ''Pude verificar que o estilo de Veríssimo se revela natural e agradável, quase direi belo: um exemplo está na página em que descreve a sua visão de Eça de Queiroz num teatro de Lisboa.'' Justamente este texto já pode ser relido, com renovado prazer, pelo leitor contemporâneo, como um daqueles que compõem Homens e coisas estrangeiras.
Em Veríssimo, a análise da literatura guarda um lugar privilegiado, como não podia deixar de ser, na obra de quem foi, primordialmente, um crítico literário. A leitura da presente reunião dos trabalhos nos aclara, também, sobre a sutil relação do nosso autor na aproximação da cultura brasileira à européia. E este processo pode ser acompanhado por intermédio dos ensaios sobre Anatole France, Chateaubriand, Zola, Victor Hugo, d'Annunzio, Eça, Dumas, Tolstói, Taine, Sainte-Beuve e outros. A História, os costumes, os temas sobre raça, cultura ou feminismo inserem, por outro lado, esses textos numa estratégia de globalização do saber, que caracterizou a posição dos nossos críticos realistas.
Homens e coisas estrangeiras compõe-se de 70 resenhas, incluindo cinco que foram publicadas, em 1907, em Que é literatura e outros escritos. A minuciosa introdução de João Alexandre Barbosa, autor de excelente livro sobre Veríssimo, intitulado A tradição do impasse, é rica de elementos que levam à iluminação de textos que necessitam, hoje, para sua compreensão, de uma abordagem erudita e historicamente distanciada.
Inicialmente publicados na imprensa, os artigos tratam, em sua maioria, de assuntos da atualidade ou comentários sobre livros recentes. Por suas qualidades de estilo e de reflexão, estes textos transcenderam as contingências temporais e passaram a merecer definitiva preservação, incorporados que foram à nossa tradição crítica, através do livro. Esses ensaios-resenhas refletem uma tendência de interpretação dos mundos europeu e americano, formulada por um intelectual brasileiro. O leque de temas abordados se configura amplo e revela uma preocupação com a compreensão do Outro, da alteridade cultural, longe de qualquer sentimento xenófobo.
Um exemplo é o ensaio ''A vida literária nos Estados Unidos'', que analisa o sistema americano de incentivo à cultura. Boston, Harvard, a carreira dos professores universitários, as revistas literárias, as conferências, os poetas, os educadores literários são ilustrações objetivas do que Veríssimo denomina de ''vitalidade literária dos Estados Unidos''. Textos como ''A França intelectual'', ''A regeneração da América Latina'', ''A nova Alemanha'', ''O país extraordinário'' evidenciam as preocupações do literato que atua, também, como cientista social. Alguns ensaios examinam com argúcia livros que se detiveram sobre figuras da importância histórica de um Napoleão, Cromwell ou Kropotkin. É o literato que se apóia em seus conhecimentos de historiador. Outros textos abordam ainda aspectos da literatura latina, das letras hispano-americanas e portuguesas. Outros, versam sobre os clássicos: Cervantes, Shakespeare, Tácito e Petrônio. A lista onomástica de Veríssimo é rica, longa e variada. Homens e coisas estrangeiras é uma demonstração de que não nos encontrávamos ilhados espiritualmente em relação aos grandes centros irradiadores da cultura.
Relembrando que estes trabalhos foram originariamente publicados em periódicos, antes de reunidos em livro, torna-se importante registrar a permanente atuação da imprensa na divulgação, ontem e hoje, de textos de caráter cultural, sempre no intuito de propagar idéias e democratizar o acesso ao conhecimento. O livro, como veículo perpetuador da cultura tem, no entanto, seu papel insubstituível, inclusive resgatando obras de inestimável valor, como a presente reedição de Homens e coisas estrangeiras, de José Veríssimo.
História do Rádio: a saga da PRK-30
Fonte: Gazeta de Alagoas, 2/11/2003
Em 1947, três antes da televisão chegar ao Brasil, um programa de rádio conseguia o feito de prender mais da metade da população do Rio de Janeiro em casa - pelas ondas da Rádio Nacional, entrava no ar, exatamente às 20h30, a PRK-30, "estação clandestina" que, durante meia hora, apresentava quadros de humor que dominariam as conversas do dia seguinte.
Fez tanto sucesso que permaneceu 20 anos no ar (de 1944 a 1964), por mais de 800 representações em diversas emissoras do País. Época que inspirou a pesquisa de Paulo Perdigão, autor de No Ar: PRK-30! (202 páginas, R$ 49), valioso livro que a editora Casa da Palavra acaba de lançar e que detalha o trabalho pioneiro de dois humoristas: Lauro Borges (1901-67) e Castro Barbosa (1909-75).
Eram deles as vozes características dos locutores Otelo Trigueiro e Megatério Nababo dAlicerce, da fadista Joaquina Dobradiça da Porta Baixa, do professor de ginástica Reinaldo Muniz Magalhães, personagens de um tipo especial de humor, mais inocente e desprovido de qualquer cinismo ou sarcasmo.
"Era modernista e surreal, mas sem o engajamento político e satírico de outros marcos da comicidade nacional", observa Perdigão, lembrando ainda o mais desvairado nonsense, a começar pelo total desrespeito às normas lingüísticas. Ciente que a simples reprodução no papel não seria suficiente para se entender a empatia popular despertada pelo humor do programa, Perdigão formou um pacote: o livro vem acompanhado de dois CDs com gravações originais de diversos quadros da PRK-30. E ainda, no final do volume, há a reprodução de scripts originais.
Mesmo sem a pretensão de espelhar criticamente a realidade, a PRK-30 utilizava a demagogia eleitoreira, a falta dágua e a carestia como fonte de inspiração. E aí reside um dos segredos de seu sucesso, segundo Paulo Perdigão: "Rudes ou iletrados, velhacos ou atoleimados, jamais seus personagens deixaram de ser criaturas adoráveis, porque nelas não existe o Mal
Niomar, La Passionária do Brasil
Carlos Heitor Cony (Fonte: Folha de S. Paulo, 8/11/2003)
Na semana passada, aos 87 anos, morreu Niomar Moniz Sodré Bittencourt,
a mulher que, aqui no Brasil, mais se aproximou da figura mítica da Passionária. Não
chegou a ser uma guerrilheira no sentido tradicional, mas uma resistente da causa da
liberdade, comumente agredida, ora pelos fanáticos da esquerda, ora pelos da direita.
Proprietária do "Correio da Manhã", dona atuante que ficava na Redação até
a edição do dia fechar, ela fez cerrada oposição ao governo de João Goulart,
responsabilizando-se pelos dois históricos editoriais -"Basta!" e
"Fora!"-, que foram a senha da sociedade civil contra o caos daquele início de
ano.
Mas, no dia seguinte ao golpe militar, abriu seu jornal, cujos tópicos
tinham a fama de derrubar ministros, aos cronistas e colunistas de sua redação,
publicando os primeiros textos e na certa os mais veementes contra a ditadura progressiva
que se instalava no país.
A consequência, a médio prazo, foi a invasão de seu jornal, quando, em dezembro de
1968, presa na própria Redação, foi levada para uma cela comum no Dops, onde passou uma
longa temporada entre presas comuns, em condições subumanas de promiscuidade e de
higiene.
Perdeu tudo: o jornal, os bens, os direitos políticos. Figura obrigatória da sociedade carioca, fundadora e primeira diretora do Museu de Arte Moderna do Rio, ela jamais namorou a esquerda ou a direita, não se beneficiou dos governos que, às vezes combatia, às vezes (raras) apoiava. Uma lição de independência que aprendera com Paulo Bittencourt.
Por falar em Paulo, lembro a melhor definição de seu caráter, feita por Carlos Lacerda, que então se situava em trincheira contrária: "Paulo é insubornável. Só se vende por um almoço que ele mesmo paga".
Ao escrever a "História da Imprensa Brasileira", Nelson Werneck Sodré disse: "Niomar merecerá sempre o emocionado respeito de todos os que amam a liberdade acima de tudo".
Tempo e memória nas coleções de jornais
Pedro João Bondaczuk (*) Fonte: Portal Comunique-se, 3/11/2003
As coleções dos jornais, além de se constituírem num precioso material para os historiadores - afinal, o jornalismo é o relato da história humana no exato momento em que ela acontece - contém um acervo literário como raras bibliotecas possuem. Os grandes escritores brasileiros, em sua maioria, freqüentaram algum dia as redações. Podem ser citados, entre outros, Machado de Assis, Artur Azevedo, Euclides da Cunha, Monteiro Lobato e Guilherme de Almeida. Ou Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara de Rezende, Érico Veríssimo, João Ubaldo Ribeiro, Fernando Sabino, Murilo Mendes, Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Inácio Loyola Brandão, Luís Martins (que assinava, apenas, "L. M. as suas colunas no jornal O Estado de São Paulo), Sérgio Milliet, Paulo Bonfim, Luiz Fernando Veríssimo, Carlos Heitor Cony... E a relação poderia ser desfiada por aí afora. Estes escritores fizeram, generosamente, a ponte entre o jornalismo e a literatura, através da crônica.
No entanto, muitos trabalhos extraordinários desses intelectuais jamais foram publicados em livros. Ficaram (alguns ainda ficam) restritos às coleções de jornais encadernadas (que hoje são microfilmadas) ou em hemerotecas - álbuns de recortes - dos leitores mais práticos e perspicazes. Afinal, por um preço irrisório, esses colecionadores compulsivos têm em mãos um acervo que, embora, paradoxalmente, tenha sido acessível a uma quantidade enorme de pessoas, pouquíssimas tiveram o bom senso de recortar e guardar.
Textos magistrais, depois de lidos - muitos nem o foram pela maioria - acabaram servindo para embrulhar verduras, carnes, peixes, ou utilizados para forrar o piso de automóveis, quando não tiveram fins até mais prosaicos e menos nobres. Este é o destino dos jornais velhos. Nunca é demais repetir a constatação de Jorge Luiz Borges: "O jornalista escreve para o esquecimento, quando seu sonho seria escrever para a memória e o tempo". Alguns excelentes redatores, que quando na ativa polarizaram diariamente a atenção de ávidos e fiéis leitores, jamais publicaram livros. Tão logo se afastaram da profissão, foram esquecidos. Ou quando lançaram seus volumes de crônicas, passaram despercebidos e hoje são raramente lembrados.
É o caso de Paulo Barreto. Citado pelo nome de batismo, pouquíssimos leitores - talvez os mais eruditos ou idosos - são capazes de identificar quem ele foi. Pelo pseudônimo com que atuou na imprensa carioca, contudo, é melhor identificado, embora raros possam dizer que leram alguns dos seus textos. Referimo-nos a João do Rio, que no início do século XX gozou de prestígio semelhante - guardadas as devidas proporções - que tem o nosso cronista mor, Rubem Braga.
Pouca gente conhecia melhor sua cidade, principalmente no que diz respeito ao comportamento de seus habitantes, do que ele. Paulo Barreto começou a trabalhar em jornais ainda adolescente, aos 20 anos. Ao morrer, em 1921, aos 40 anos, era tido como um dos maiores nomes da imprensa brasileira. Hoje, quem o conhece de fato? Quantos já leram, por exemplo, "Dentro da Noite", "Vida Vertiginosa" e "Alma Encantadora das Ruas", seus principais livros?
O mesmo ocorre em relação a Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que na década de 60, até sua morte aos 44 anos, encantava os leitores do jornal "Última Hora", da revista "O Cruzeiro" e de tantos outros órgãos, com suas crônicas bem-humoradas, inteligentes e brincalhonas. Quem se lembra do Gari? Ou de Arapuã? Ou mesmo de colunistas mais recentes, que não estão mais na ativa e que deixaram tanto de si nas páginas dos diários onde trabalharam?
João do Rio, uma espécie de "árbitro do comportamento" do carioca, abordou, entre outras tantas coisas, essa verdadeira obsessão que as pessoas têm pelos modismos. Retratou com maestria todo esse empenho delas para estarem, por exemplo, trajadas de acordo com a moda do momento - mesmo que se trate mais de uma fantasia carnavalesca, de tão ridícula e caricata que é, do que de uma vestimenta - ou para usarem o jargão em voga (composto por chulices inomináveis) ou para fazerem qualquer coisa considerada "moderna".
Trata-se de vã tentativa de aparecer, daqueles que não têm estrutura, fundamento, cultura e nada que os destaque da massa, senão uma forçada (artificialíssima) excentricidade. É uma desesperada busca pela popularidade (ou pelo popularesco?), na impossibilidade de conseguir a verdadeira celebridade que advém do talento, da competência, do esforço, da sensibilidade e da inteligência.
Todos querem, evidentemente, o seu espaço público, os seus "quinze minutos de fama". Lutam para serem reconhecidos, valorizados e, se possível, glorificados. Alguns fazem disso um objetivo de vida. A diferença é que os competentes agem, de forma consistente e prática. A maioria não.
João do Rio constatou: "Tudo no mundo é cada vez mais figurino. O figurino é a obsessão contemporânea. Se os antigos falavam de quatro idades, sendo que na última, na de ferro, fugiu da terra para o azul a verdade, nesta agora o figurino impera. Estamos na era da exasperante ilusão, do artificialismo, do papel pintado, das casas pintadas, das almas pintadas".
Ressalte-se que esta crônica foi escrita há oitenta e oito anos. No entanto, como é fácil de se observar, é atualíssima. O artificial, o forçado, o falso, o "prêt-a-porter", o "use e jogue fora" estão cada vez mais na ordem do dia. As pessoas como que se defendem da vida, em vez de viverem. Esmeram-se em artificialismos, em "papéis pintados, casas pintadas, almas pintadas".
Olavo Bilac, anos depois, em 19 de março de 1917, em uma palestra sobre Bocage na Sociedade de Cultura Artística de São Paulo, já havia abordado essa obsessão pela popularidade. Observou, em certo trecho: "É tão fácil ser popular! Terríveis assassinos, exímios ladrões, grandes devassos alcançam facilmente uma celebridade mais vasta do que a que logram os mais altos benfeitores da humanidade e os mais claros servidores da arte".
O poeta esqueceu, apenas, de dizer o quanto essa súbita fama é efêmera. Enquanto as feras humanas, os bandidos e os pilantras de todas as espécies são esquecidos em questão de dias e retornam para sempre à sua anônima mediocridade, as obras dos homens notáveis os mantêm vivos na memória coletiva através de gerações. E quanto mais o tempo passa, mais fica valorizado o que fizeram. Justiça histórica...
(*) Jornalista e escritor
Frias e Abramo: a triste história volta à tona
Mino Carta (*) Fonte: Site Comunique-se, 3/11/2003
Recordo um dia de fim de agosto de 1977, começo de noite, vinha eu de Brasília, e do aeroporto de Congonhas fui direto para a redação da Folha de S.Paulo. Entrei no gabinete do diretor, Claudio Abramo, amigo fraterno, e anunciei: "Tenho novidades".
Desde minha saída da direção de Veja, era colaborador da Folha e dirigia IstoÉ. Fonte preciosa, o general Golbery do Couto e Silva, tido como ideólogo do golpe de 1964 e, dez anos depois, autor do plano da distensão "lenta, gradual, porém segura". As novidades, naquele começo de noite, brotavam de uma conversa com o Merlin do Planalto.
Golbery enxergava o mundo em branco e preto e acreditava na inesgotabilidade da Guerra Fria, mas era admirável conhecedor da alma nativa e dos humores da elite verde-amarela. As idéias políticas dele não batiam, obviamente, com as minhas, e as razões do Estado eram para ele cruciais, de sorte que não mexeria uma única, escassa palha para me tirar de alguma enrascada. No entanto, podia ser cordial e afável, além de "boquirroto", conforme seu próprio auto-retrato.
Esta história já a contei muitas vezes. Sempre surge um motivo para relembrá-la, como será provado. E a memória é importante na vida do indivíduo e das nações. No começo de agosto de 1975, visitei em Brasília o general Golbery, chefe da Casa Civil do general-presidente Ernesto Geisel. Ele acabava de regressar ao posto depois de demorada ausência, provocada por um deslocamento da retina que o levara à Espanha para uma operação bastante delicada.
Voltava em má hora. Geisel vinha de pronunciar o discurso dito "da pá de cal", que parecia enterrar o projeto da distensão e motivava Ulysses Guimarães a comparar o Brasil com a Uganda de Idi Amin. Golbery estava desolado, previa a escalada do Terror de Estado, que, de fato, viria, inexorável. Comentou, cabisbaixo: "Cheguei tarde".
Para variar, o risco nascia no costumeiro jogo das candidaturas à sucessão. Candidato dos falcões e do ministro Falcão, apresentado como da Justiça , o ministro do Exército, Silvio Frota. Candidato de Golbery, João Figueiredo (e aqui não entrarei no mérito). Explicava o chefe da Casa Civil: "Geisel está encalacrado, ou demite Frota, até 12 de outubro de 1977, ou não conseguirá fazer seu sucessor".
Tomou-me a perplexidade. Faltavam mais de dois anos para 12 de outubro de 1977. E por que 12 de outubro? Aniversário colombiano, Dia da Padroeira, Dia da Criança? Brinquei: "Festa da Uva?" Impassível, Merlin sentenciou: "Deixa comigo, a data é esta".
Pois, naquele fim de agosto de 1977, Golbery me disse que a data fatal da derrubada de Frota se aproximava e que as chances eram favoráveis. Tais as novidades que queria segredar ao Claudio. Ele vivia momento difícil, não menos que a própria Folha, ré pela publicação de uma crônica de Lourenço Diaféria, disposto a considerações sobre o duque de Caxias, aquele herói (herói?), consideradas ofensivas pelo regime.
Esta porção do enredo ainda é misteriosa para mim. Certo é que as pressões sobre o jornal eram comandadas pelo general Hugo Abreu, porta-voz dos falcões alinhados em torno de Frota, e eu me apressei a contar ao Claudio quanto ouvira de Golbery. O amigo abriu o sorriso e exclamou: "Vamos chamar o Frias". Quando me ouviu, Octavio Frias de Oliveira exibiu, para minha surpresa, espanto até, uma expressão do mais puro ceticismo. "O Golbery é um iludido", soletrou textualmente.
Claudio Abramo, que transformou a Folha em um jornal importante, foi tirado da direção da redação no dia 17 de setembro de 1977. O general Silvio Frota foi demitido do Ministério do Exército no dia 12 de outubro do mesmo ano. Menos de um mês depois.
Li no AOL Notícias, no 23 passado, uma longa entrevista de Octavio Frias de Oliveira, notável fazedor, tycoon autêntico, que por mim sempre manifestou grande simpatia. Lá pelas tantas, o entrevistador pergunta: "Se o senhor trabalhasse no telemarketing da Folha e tivesse que convencer uma pessoa a assinar o jornal, qual argumento usaria?"
Frias responde: "A independência do jornal. Tenho um fanatismo pela independência da Folha. Tenho um episódio curioso. Na época da ditadura, acho que no governo Médici, o chefe da Casa Militar, com quem eu tinha certa relação, não me lembro o nome dele, me telefona e diz: "Ô, Frias, aqui quem fala não é o seu amigo não, é o chefe da Casa Militar. Ou você muda esse jornal aí ou nós vamos fechar". Eu mudei. O Claudio Abramo era nosso diretor de redação. Eu chamei o Claudio e disse: "Claudio, vai para Paris como nosso representante e depois você volta".
O empresário-editor tem 91 anos, idade que nem tantos alcançam, e, entre os que alcançam, bom número só recorda da infância. Tenho certeza de que este não é o caso de Octavio Frias de Oliveira. Quanto a mim, lembro, com precisão de pincel flamengo, bem ao contrário dos entrevistadores da AOL, talvez despreparados para a tarefa, que o governo Médici terminou dia 14 de março de 1974.
Esta é a verdade factual, aquela que os jornalistas devem respeitar.
No mais, cabe a pergunta: por que Octavio Frias de Oliveira, ao admitir pela primeira vez
ter sacrificado Claudio Abramo sob pressão do regime militar, erra tão clamorosamente
nas datas e nas pessoas?
Soa contraditória a afirmação da independência do jornal enquanto se apresenta uma
prova em contrário. Mas isso é o de menos. Sobra a impressão, que tive então e renovo
hoje, de que a Folha apostasse no general Silvio Frota.
(*) Diretor de Redação da Carta Capital
Acervos digitalizados e acessíveis: meta do Arquivo Público de São Paulo
Fonte: Gazeta Mercantil 4/11/2003
Fotos do jornal Última Hora são prioridade. Digitalizar documentos é uma forma de torná-los mais acessíveis e não apenas de preservá-los. Esta é a filosofia do Arquivo do Estado (AE) de São Paulo, segundo maior acervo de documentos históricos do País. Por isso o trabalho de digitalização está sendo desenvolvido em um projeto piloto que visa despertar o interesse de potenciais patrocinadores para dar continuidade à digitalização das primeiras 45 mil imagens de revistas dos séculos XIX e XX e ilustrações, que já se encontram disponíveis para consulta no banco de dados do arquivo. O volume de material digitalizado até agora é de 40 gigabytes de dados, uma fração insignificante do total de documentos oferecidos, mas que já serve como amostra para um projeto futuro.
Os principais objetivos são ampliar o fornecimento de imagens digitais para outros conjuntos documentais e a liberação deste conteúdo na web. Esta é a parte mais audaciosa do projeto. A meta é atacar as duas frentes, mas temos problemas para o financiamento do projeto já que precisaremos de mais espaço para guardar as novas imagens digitalizadas e dependeremos de investimentos em storage , diz o coordenador das áreas técnicas do arquivo paulista, Lauro Ávila. Segundo ele, também será necessária a criação de uma nova página na internet para disponibilizar a informação. Quem investir nisto fará um serviço para a cultura do País , diz.
O arquivo quer dar continuidade ao trabalho, mas precisa de um novo aporte da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Estamos, em parceria com a Unisys, buscando patrocínio para aprovar um projeto amplo de digitalização junto ao Conselho Municipal de Cultura e ao Memorial do Imigrante , diz Ávila. Este patrocínio também pode ocorrer pela Lei Mendonça de incentivo. O conjunto documental mais cotado para ser o próximo a passar pelo processo de digitalização é o acervo fotográfico, que conta com 160 mil fotos do jornal Última Hora do Rio de Janeiro, que circulou de 1951 a 1971; 2.162 caricaturas digitalizadas e 600 mil negativos, também do Última Hora, além de 805 mil fotos dos Diários Associados.
De acordo com o diretor técnico do AE, Fausto Couto Sobrinho, o pré-orçamento do projeto é de mais R$ 3 milhões. O valor do acervo é dezenas de vezes superior a isso , afirma. Já foram investidos R$ 650 mil dos quais R$ 220 mil foram para informática. O Programa de Infra-Estrutura da Fapesp liberou, a partir de 1998, a verba que está ajudando o AE a recuperar e tornar acessível seu acervo com mais tecnologia em parceria com a Unisys. A solução da Unisys inclui o software Unisys Image Folder, para digitalização de imagens, três servidores de rede, dois scanners, o cabeamento e a integração da rede, a instalação do banco de dados das imagens SQL da Microsoft e o treinamento dos funcionários do AE.
O banco de dados das imagens está disponível para consulta por meio de dois computadores do AE. A consulta pelo computador evita o manuseio dos documentos, um dos motivos de deterioração do acervo , afirma Ávila. A digitalização também previne a perda de documentos originais em incêndios e o roubo de documentos raros. O sistema permite ainda a gravação em CD das imagens eliminando o processo de fotocópias. Assim, o pesquisador pode levar para casa a informação que desejar. Os documentos que não estão no banco de dados podem ser digitalizados em scanner e gravados em CD, numa prestação de serviço sob demanda , diz Ávila.
O arquivo usa um sistema híbrido de microfilmagem e digitalização. A microfilmagem é a forma mais eficaz para preservação dos documentos. A digitalização não é estável e pressupõe a migração constante para novas tecnologias em uso - hardware, software e padrão de imagem -, mas permite democratizar a informação. Outros trabalhos realizados foram o mapeamento do AE em catálogo eletrônico permitindo busca por palavra-chave, título, autor. Está sendo produzido um catálogo impresso que servirá de guia do AE. A criação de um centro de referência jornalística é outra idéia. Cristina Borges Guimarães
Flaubert Paiva (*) - Fonte: Site Comunique-se, 7/11/2003
Trazido para o Brasil em 1896, o cinema só veio apresentar um surto de produção no período que corresponde as décadas de 1910 e 1920. Durante os tempos finais do século XIX Antônio Calado conseguia disseminar na zona boêmia do Rio de Janeiro um novo ritmo que, oriundo da senzala, ia aos poucos, através de instrumentos de sopro e cordas, ganhando espaço nos saraus de então, ainda embalados por modinhas suavemente dedilhadas em belos pianos de cauda. O império vivia seus dias de agonia, sua majestade - já em idade avançada, àquela época - não conseguia mais manter a forma absolutista de governo herdade de seu pai. Os movimentos abolicionistas ganharam força e tiveram o seu cumem em 1888. No ano seguinte, os republicanos foram os vitoriosos, conseguindo, através dos seus ideais positivistas, levar o alagoano Marechal Deodoro da Fonseca ao destaque de proclamador de uma república, cuja característica pretendia ser moldada na tese de que a ordem suscitaria no progresso.
Enquanto o cenário europeu vivia o apogeu do expansionismo industrial, o Brasil dos anos 90 daquele século estava ainda, sob todas as formas, com sua burguesia tentando copiar os estilos de vida do além mar. Ademais, a classe média - principalmente a carioca - procurava, numa forma medíocre, imitar os seus superiores (no sentido financeiro), de modo que tais atitudes contrastavam, brutalmente, com a vida que Euclides da Cunha mostrava existir nos grotões do País que explodia em levantes e manifestações contrárias as atitudes da recém estabelecida forma governamental. É nesse panorama, sabiamente mostrado pelos escritores pré-modernistas, que o cinema chega ao nosso solo.
Em meio a um tumultuado momento da história nacional, a tarde do dia 08 de julho de 1896 tornou-se um marco para as artes e o avanço tecnológico no Brasil, onde por volta das 14h o número 57 da Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, era cenário da primeira sessão de cinema do País, na qual se tem registro. De certo, não é cientificado quantas pessoas se fizeram presentes aquele evento, sabe-se apenas que em termos de impressionar, a ocasião não foi diferente da ocorrida em um café parisiense cerca de seis meses antes.
Em uma sala devidamente condicionada, os que compareceram a sessão ficaram bestificados ao visualizarem, de forma movimentada, as imagens de Um incêndio com bombeiros socorrendo as vítimas, A dança do ventre e das serpentinas, Uma briga de galos e gatos, Uma banda de música militar, Um trecho do Boulevard de Paris1, entre outras.
A história do cinema no Brasil apresenta-se repleta de dúvidas e controvérsias, uma das mais importantes está relacionada com o nome do realizador da primeira sessão fílmica, que até pouco tempo atrás (o engraçado é que não se sabe o mais ou menos quando) esteve em completa ignorância. Estudos do cineasta e pesquisador gaúcho Jesus Pfeil apontavam Francisco Paolo como sendo o detentor do mérito. Todavia, o diário carioca Jornal do Brasil, na edição de 07 de julho de 1996, trouxe no seu Caderno B um texto de autoria do jornalista Edmundo Barreiro, cujo teor aponta Henri Paillie como sendo o promotor da gênesis. Ao certo, não há registro de quem foi esse homem, acredita-se ser um pseudônimo usado, por motivos desconhecidos, pelo empresário paulista André Bourdelot, também apontado como um dos finaciadores da primeira exibição cinematográfica de São Paulo.
Em 07 de agosto de 1896, sob promoção de George Renouleau, não sendo identificados local e horário, foi a vez de São Paulo ficar conhecendo a maravilha criada pelos irmãos Lumière. Acredita-se que os presentes à primeira sessão de cinema na capital bandeirantes viram as mesmas imagens mostradas 29 dias antes no Rio de Janeiro, o que era uma coisa muito comum à época. Não sendo diferente do continente europeu, o cinematografo aporta no Brasil como um invento tecnológico, despertando apenas uma curiosidade em ver as imagens se movimentando numa forma real e não como um possível vetor para construção de uma narrativa.
Em sua fase inicial, que compreende o período entre 1896 e 1910, o cinema nacional tem como principal característica a disseminação do cinematografo, enquanto invento, nas mais longíquas áreas do País, embora que nesse período também comecem as primeiras produções de películas brasileiras. A maior parte desse material foi trabalhado entre o Rio de Janeiro - na época, Distrito Federal - São Paulo e Minas Gerais, incluindo o interior, a exemplo de Cataguases.
Não fugindo a história universal do cinema, a produção inicial brasileira deu-se na forma de registros cinematográficos, que evidenciavam paisagens e acontecimentos sociais e tinham como principal peculiaridade o experimento de equipamentos. Tal realidade, infelizmente, não pode ser bem analisada, pois grande parte do material filmográfico que elucida esta fase foi perdida ao longo das décadas posteriores, restando pouquíssimos e incompletos exemplares na Cinemateca Nacional, como é o caso de 24 fotogramas (um segundo e meio de projeção) feitos por José Roberto Cunha Sales em 1897 e descobertos no início de 1993 por José Inácio Melo Sousa, pesquisador daquela instituição.
Os Anais da Cinemateca Nacional - única instituição que tem toda evolução do cinema brasileiro catalogada - indicam Bailado de criança no colégio em Andaraí e Chegada de Trem em Petrópolis como os primeiros filmes realizados no Brasil. Ambos, produzidos pelo italiano Vitório di Maio em 1897.
Os trabalhos iniciais feitos aqui, eram desenvolvidos por imigrantes portugueses e italianos, em maioria. Com isso, idéias como as de Ademar Gonzaga, conceituado Pesquisador da fase inicial do cinema brasileiro, fazem suspeitar da veracidade de que Bailado de crianças no colégio em Andaraí e Chegada do Trem em Petrópolis sejam os primeiro filmes rodados no Brasil. Para ele, não passavam de meros fotogramas produzidos no exterior e que ganharam a titulação de nacionais afim de ganhar a graça do público. Depois de conhecidas todas as nuanças dos equipamentos que capitavam e projetavam as imagens animadas, era a vez de se lançar em campo com o propósito de ganhar algum dinheiro. Foi nessa época, que compreende os primeiros anos do século XX, que notabilizaram-se as figuras dos fotógrafos de cinema que trabalhavam na cobertura de eventos políticos e sociais.
Como os alvos preferenciais destes profissionais eram os abastados e bem prestigiados de então, deram-lhes logo - num tom pejorativo - o nome de escavadores, fazendo assim que a grande parte desta classe fosse vista como pessoas indesejáveis e rotuladas de oportunistas. Para sorte de uns poucos, como o caso do português Antônio Leal, alguns políticos e empresários registravam seus momentos de peculiaridade, essas atitudes colaboraram para o surgimento do cinema documental brasileiro, precisamente em 1902 quando inicia a República da Espada, tendo a frente o Marechal Floriano Peixoto. A partir daquele ano, os mais corriqueiros atos dos presidentes, volta e meia, eram foco de ampla cobertura cinematográfica. Os líderes achavam importante criar, perante o povo, uma imagem salutar e de difícil repelia e até a introdução da transmissão radiofônica, aquela era a ferramenta mais eficaz para esse objetivo.
A prática do cinema escavação durou no Brasil até os anos de 1920. Nesse meio tempo algumas poucas produções de película enveredaram pelo teor fictício, todavia foram - em sua maioria - embasadas pelos crimes famosos daquele período - a exemplo de O crime de cravinhos, dirigido pelo italiano Arturo Carrere em 1920, no estado de São Paulo - ou então por romances da literatura nacional como A escrava Isaura, rodado em 1929 e de O Guarani, cuja primeira versão foi montada em 1926, comprovando assim que as obras literárias brasileiras foram essenciais para a formação de uma dramaturgia cinematográfica no País.
Ainda durante o referido período, um cineasta desponta trazendo à tona um trabalho composto sob a égide de um roteiro original, sendo este o único daquele instante; trata-se do filme Barro Humano. Dirigido pelo carioca Ademar Gonzaga, crítica e estudos especializados consideram o trabalho como a primeira grande obra do cinema brasileiro, sendo também a primeira narrativa de ficção exibida e admirada em salas de projeção européias.
(*) Jornalista
Igreja eletrônica: do Frei Mojica ao Bispo Macedo
Ana Paula Ramos (*) - Fonte: Site Comunique-se, 7/11/2003
Pare e dê uma olhada na sociedade brasileira dos anos 70 até nossos dias. Veja as conseqüências do que se pode chamar de modernização e não esqueça de suas bases capitalistas. Constate suas transformações e como elas afetaram diretamente a forma de discurso das igrejas.
A modernização trouxe alguns questionamentos para as igrejas em nível ideológico, como seu desempenho na sociedade moderna. Realmente, frente a tantas mudanças, o trabalho das denominações religiosas com a nova sociedade massificada tornou-se praticamente nulo. O que quase obrigou a igreja a repensar sua forma de abordagem e renovar algumas peculiaridades para não perder seus fiéis.
Segundo Felix Wilfred, em artigo para a Revista Internacional de Teologia, as religiões em fase da globalização teriam que passar por uma metamorfose. Noutras palavras, transformar-se numa religião com embalagem atraente para ser acoplada pela aldeia global.
Além das mudanças, surge a competição ideológica. As igrejas não enfrentam apenas a sociedade moderna, mas a indústria cultural. A força desta indústria só tem aumentado se tornando uma briga desleal para igreja. É a mídia que passa a definir os padrões éticos da sociedade. Exatamente a área de atuação da igreja.
O ditado "se não pode com ele, junte-se a ele" surgiu como uma alternativa; e assim se fez. E eis que para igreja tudo pareceu muito bom. Cunhou-se assim o nostálgico termo "igreja eletrônica", que compreende a explosão dos programas religiosos, em especial evangélicos.
Vale lembrar que a televisão brasileira começou com um padre, o Frei Mojica. Este surgiu no vídeo cantando seus antigos sucessos, na primeira transmissão da TV Tupi de São Paulo, em julho de 1950.
Uma década à frente, figuras de televangelistas, como Rex Humbard, Jimmy Swaggart, Pat Robertson e Benhard Johnson se tornaram "parte da família" de milhares de lares brasileiros. Os programas eram transmitidos geralmente aos sábados ou domingos pela manhã, campeões de audiência entre o público cristão. Suas características? Carisma, eloqüência, emoção. Enfim, comunicadores em potencial.
Nos Estados Unidos, a igreja eletrônica ganhou força na década de 60, no meio da tensão e confusão social causada pela Guerra do Vietnã. Geralmente as igrejas ficavam repletas depois de abalos como este. As pessoas buscavam paz e segurança em Deus. Essa explosão foi reflexo da insegurança da época, como ocorreu após o atentado terrorista de 11 de setembro.
Com a onda de religiosidade e misticismo exacerbada, os pastores perceberam que a TV era uma forma eficaz para alcançar maior número de pessoas. A pregação passaria a ser em larga escala, alcançando mais resultados que os cultos. Com todo o clima a favor das igrejas, a idéia rapidamente se alastrou pelos Estados Unidos e por todo o mundo, até chegarem ao Brasil.
O pioneiro
O pastor Rex Humbard era mais que um pastor, um gênio de acordo com Carlos Cabral, em artigo para a revista eletrônica Telecentro. Conseguia reunir multidões nos estádios e auditórios. Sua função era pregar, gritar, chorar e arrecadar dinheiro, é claro.
Humbard foi o primeiro a deixar sua marca na TV brasileira. Sua pregação era conservadora e seu discurso baseado nos valores familiares. Como testemunho, sua família também participava dos programas. Maudee Aimee, seus dez filhos e dezenas de netos, todos em trajes comportados, cantavam hinos com o pregador.
Seu apogeu foi marcado em 1982 quando colocou 180 mil pessoas dentro do Maracanã, no Rio. Rex Humbard também ficou famoso por ter sido o pastor de Elvis Presley em seus últimos anos de vida e juntamente com o reverendo C. W. Bedley dirigiu a cerimônia fúnebre do cantor.
Foi Humbard que trouxe a benção do copo d'água a distância. Usada até hoje num dos programas da Record, em que um pastor abençoa o copo com água de todos os telespectadores. Ele começou sua carreira na Tupi, mas com o fechamento da TV outros canais começaram a transmitir seus programas.
Digno de Hollywood
Com o tempo, apareceram alguns sucessores. Surgia no vídeo de outras emissoras mais um pastor. O principal dele era Jimmy Swaggart, o showman da fé. Ele viajava o mundo fazendo seus milagres.
Com seu um metro e oitenta, cabelos louros e pelo jeito bem "enxuto" como diriam algumas fiéis - ou fãs, como queira -, Swaggart também conquistou multidões com seu talento. Além de pregar, ele cantava, chorava, gesticulava e fazia suas interpretações diante das câmeras. Quando Swaggart esteve no Maracanã, em 1987, teve direito a limusine, batedores, camarim, plumas e paetês. Um verdadeiro astro hollywoodiano.
Ele era pastor da Assembléia de Deus em Baton Rouge, Chicago. Sua pregação, carregada de apelo emocional, transmitia a ideologia norte-americana. Além de pregar contra o comunismo, Swaggart financiou a campanha contra o governo sandinista da Nicarágua.
Houve até comentários que ele seria o sucessor natural de outra figura do televangelismo, o pastor batista Billy Graham, que viajou o mundo fazendo seus programas religiosos e se consagrando uma mega-estrela deste segmento.
Escândalos
Em 1981, surgia Roberto Lemgruber. Na verdade, ela era mais milagreiro que pregador. Curava cegos, surdos e mudos e aumentava audiência do programa O Povo na TV, no então recém-nascido SBT. Até que alguém descobriu o farsante. Suas curas não eram verdadeiras. Lemgruber fez seu último "milagre" e desapareceu.
Com o passar do tempo, escândalos como este foram surgindo. Além das farsas, problemas financeiros e morais marcaram o fim da igreja eletrônica. Ao contrário de Billy Graham, que manteve sua integridade pessoal, Jimmy Swaggart se envolveu em um escândalo sexual de repercussão mundial. Depois de comprar briga com o pastor Bakker, acabou pagando o preço. O pastou flagrou Swaggart entrando num motel com diversas prostitutas. Diante da cena, ele só teve o trabalho de confessar. O programa logo saiu do ar no Brasil. Este foi só um dos casos.
Mesmo que a igreja eletrônica da década de 60 e 70 tenha desaparecido, ela foi a grande propulsora dos programas evangélicos que invadem a TV atualmente. O televangelismo deste pastores foi também precursor do surgimento de uma igreja que em 1977 surgiu para revolucionar tudo o que existia na TV.
Começando no subúrbio do Rio, o famoso bispo Edir Macedo Bezerra passou a ocupar os horários das rádios e televisores do País. Algum tempo depois, a Igreja Universal do Reino de Deus comprou um canal na TV aberta e passou a concorrer com as grandes emissoras.
Assim, a religião se tornou parte da indústria cultural. Uma coisa é certa: quanto mais sentidos são estimulados numa pessoa, menos eficaz é a mensagem. A TV, em certo sentido, atinge todos. A mensagem é tão mastigada e pronta que não permite uma mínima reflexão. Assim, as igrejas começaram a trabalhar como uma empresa. E como a indústria cultural faz da cultura, um bem que se vende para a obtenção de lucro.
Os dados históricos desse artigo basearam-se na reportagem "Você se lembra deles?", da revista Eclésia (março/03), na matéria "Erguei as mãos", da revista eletrônica Telecentro, e no artigo "Os discursos alternativos", de Luiz Roberto Benedetti, na revista Comunicarte.
(*) Estudante de Jornalismo
Literatura de rodapé (ou) o jornal como suporte literário
Regina Zilberman * (Fonte: Jornal do Brasil, Idéias, 8/11/2003)
Ainda não foi completada a história que narra a dívida da literatura brasileira para com o jornalismo, especialmente no século 19. Nos últimos anos, pesquisas conduzidas na universidade e em instituições responsáveis pela salvaguarda de documentos impressos e espólios de escritores vêm contribuindo para o conhecimento do que se passava com um romance, uma novela ou um poema antes de eles tomarem a forma de livro. Seguidamente, textos literários apareciam primeiro em jornais, para, depois, serem acolhidos por impressores, mais seletivos que os editores dos diários e, sobretudo, bem menos aventureiros, preferindo prestigiar nomes renomados em vez de novatos e elegendo gêneros consagrados, em lugar dos inovadores.
Parte considerável dos escritores que se destacaram no oitocentos atuou em mais de um periódico, diário ou semanal, configurando os inícios da profissão de jornalista, regulamentada muitas décadas depois. E número notável de romances apareceu antes em jornais ou revistas, migrando para o livro quando completada a publicação dos capítulos no rodapé destinado ao folhetim. Dentre os mais famosos, pode-se citar O guarani, de José de Alencar, que apareceu, em 1857, nas páginas do Diário do Rio de Janeiro. Não ficou atrás Machado de Assis, que avançou como romancista graças a O Globo, onde apareceram A mão e a luva e Helena, editados a seguir por Garnier.
Vê-se que a história da literatura brasileira, sobretudo a do século 19, quando se consolidou uma tradição nacional, é ainda uma atividade in progress. As obras tidas por completas ainda acolhem contribuições inesperadas e escritores tachados de secundários podem surpreender o historiador. Para não se falar da contribuição de nomes até há pouco esquecidos ou ignorados, como o das mulheres escritoras, que só recentemente receberam a devida atenção.
Não quer dizer que o cânone tenha de se submeter a mexidas e remexidas, visando ajustá-lo a cada descoberta ou resgate que se fizer. Proceder dessa maneira significaria que, de algum modo, aceita-se a idéia de que há um cânone relativamente fixo, cabendo tão-somente acomodar nele as novidades que aparecerem. A questão é outra, podendo ser resumida em dois pontos: primeiro, talvez seja o caso de se aceitar a volubilidade da história, sobretudo a da literatura, que acolhe manifestações diferenciadas e contraditórias, impedindo a quem lide com ela a adoção de idéias fixas, recortes preconcebidos ou dogmas indiscutíveis. Segundo, compreender o que aquela volubilidade impõe ao pesquisador: se esse não se mostrar permeável às manifestações do passado, não terá condições de desempenhar as tarefas que se esperam dele, marginalizando-se da história, que é, afinal de contas, sua matéria principal de investigação e interpretação.
A recente reedição de A família Agulha, de Luís Guimarães Júnior (nascido provavelmente em 1845 e falecido em 1898), ajuda a entender o que ocorre com a história da literatura brasileira, no que diz respeito ao século 19, e o que se pode esperar dos pesquisadores, historiadores, críticos e professores que se ocupam desse tema.
A história da literatura brasileira, enquanto campo de investigação, constituiu-se no mesmo século em que, digamos, nascia a literatura nacional. Essa, até a separação política de Portugal, integrava-se, como seria de esperar, à literatura da metrópole. Não que tivesse grande papel a desempenhar, pois, com a proibição da imprensa vigorando na colônia até 1808, nossos escritores tinham dificuldades para publicar seus textos. Raros tiveram a sorte de Basílio da Gama, que contou com o apoio do Marquês do Pombal, ou de Tomás Antônio Gonzaga, cujo Marília de Dirceu obteve boa repercussão junto aos leitores lusitanos. Poucos nomes, como os de Nuno Marques Pereira e Cláudio Manuel da Costa, completam esse elenco, o que levou os historiadores do século 19 a fazer um grande esforço para resgatar a produção literária precedente.
No século 20, contudo, os historiadores da literatura dispuseram de melhores condições de trabalho. Mas, herdeiros do positivismo do século anterior, não resistiram ao apelo de classificar e rotular escolas, períodos, estilos e normas. Colocaram na posição de canônicos escritores e textos que melhor representavam as classificações que elaboraram; e eliminaram o que não se ajustava ao padrão desejado.
A história da literatura, depois de formatada, tem grande dificuldade para mudar, tendendo a repetir o que está solidificado. Nem sempre o historiador da literatura retorna à fonte de onde manou a informação, sobretudo quando as idéias são admitidas pela escola e pela crítica. Se romper o paradigma historiográfico é já tarefa hercúlea, pior fica quando o ensino, por meio de exames, concursos e da própria universidade, consagra idéias feitas. Por conseqüência, se historiadores da literatura tiveram de deitar fora a água do banho, para terem meios de constituir uma estrutura de historiografia, ao longo dos séculos 19 e 20, muito bebê foi jogado junto, excluindo temas, pessoas e obras que talvez colocassem sob suspeita determinadas conclusões.
As últimas décadas do século 20 alteraram em profundidade esse panorama. Diferentes entre si, e até contraditórias, elas concordaram num importante aspecto: o cânone não era digno da irrestrita confiança depositada nele por tanto tempo. Fez-se necessário o retorno às fontes, estivessem elas nos livros, nos jornais, em manuscritos não publicados, em espólios e arquivos até então pouco consultados. A literatura brasileira lucrou muito com isso, pois, até então, o catálogo relativo ao século 19, por exemplo, parecia ralo. Essa impressão altera-se diante do encorpamento significativo do número de autores e obras elaboradas no período, obrigando-nos a relativar a conclusão.
Professora de Literatura da PUC-RS e autora de A Formação da Leitura no Brasil
A família agulha / Luis Guimarães Jr., 420 páginas, R$ 35
Telenovela: os sucessores de Janet Clair
Laura Mattos e Alvaro Leme (Fonte: Folha de S. Paulo, Ilustrada, 9/11/2003)
Dica a quem quer conhecer ou recordar o estilo de Janete Clair, cujas
novelas bateram os primeiros recordes de audiência da TV: veja "Celebridade",
na Globo.
Morta há duas décadas, em 16 de novembro de 1983, a autora segue como forte influência
da teledramaturgia brasileira e tem como principais seguidores Gilberto Braga, autor da
atual novela das oito, e Glória Perez, de "O Clone" (2001/02). Hoje no time VIP
de escritores, os dois iniciaram a carreira sob os ensinamentos "clairianos".
Braga, 57, assinou "Bravo!" (1975/76) com ela. Perez, 55, era sua colaboradora
em "Eu Prometo" (1983). Com a morte da autora, escreveu o desfecho da história
com Dias Gomes (1922-99), marido de Janete.
"A Glória é mais próxima pelo estilo passional. Ela pode sacrificar a coerência em função da emoção. Em "O Clone", o personagem ia ao Marrocos e voltava em dois dias. Já o Gilberto herdou os conflitos bem amarrados, personagens que, mais tarde, revelam uma ligação do passado com outros", diz Mauro Ferreira, autor de "Nossa Senhora das Oito - Janete Clair e a Evolução da Telenovela no Brasil" (editora Mauad), a ser lançado na próxima semana.
Braga tem da novelista a crítica social, as cenas de ação, o mistério. "Quem matou Odete Roitman?", de sua "Vale Tudo" (88/ 89), recriava o "Quem matou Salomão Hayala?", de "O Astro", escrita por Janete Clair em 78.
Perez ficou com os romances impossíveis, dilemas da ciência. Seus "O Clone" e "Barriga de Aluguel" (90/91) têm como antepassado "O Homem que Deve Morrer" (71/ 72), que falava de um transplante de coração, cirurgia nova no Brasil da época.
O fim dos castelos
Janete Clair nasceu em 1925 e foi batizada Jenete (o escrivão não entendeu o sotaque árabe de seu pai) Stocco Emmer. Começou a atuar como radioatriz e autora de radionovelas nos anos 40 e adotou o nome artístico em razão da música "Clair de Lune". Em 45, conheceu o dramaturgo Dias Gomes, à época radioator, com quem ficou casada até morrer.
Criou 31 radionovelas, principalmente na Rádio Nacional. Em 64, escreveu a primeira história televisiva, para a Tupi. Mas foi na Globo que se consagrou, com 18 novelas. Na emissora, inaugurou a era pós-Glória Magadan, autora cubana das histórias de castelos, com heróis de capa e espada.
Os originais da obra de Janete, guardados por Dias Gomes até sua morte, estão atualmente no guarda-roupa de um de seus filhos, Alfredo, 43. É uma pilha interminável de pastas, com originais datilografados pela escritora nas únicas duas máquinas que usou na vida. Os papéis sofrem ação do mofo e de traças. "Tentamos parcerias para guardar o material em local adequado. Seria ótimo se algum instituto nos ajudasse a preservá-lo", diz Alfredo.
Na semana passada, equipe do "Fantástico" registrou a montanha de papéis. Se não for cortada, a imagem estará em reportagem sobre a autora, na edição de hoje.
Neta cineasta
Ela se chama Renata Dias Gomes e tem 20 anos. Aos 6, sua redação sobre uma viagem imaginária ganhou o concurso de a melhor do colégio. Foi a primeira vez que sentiu o que era ser neta de Dias Gomes e Janete Clair.
"A pressão vinha por dois tipos de comentários: "Os professores só escolheram a dela porque é neta dos dois" ou "Será que vai ser uma nova Janete Clair?". Era horrível", conta Renata, que está no último ano da faculdade de cinema e deseja seguir os passos da avó na televisão.
Aos dez anos, parte do acervo de Janete Clair foi para a casa de
Renata, e ela passou a devorar originais de capítulos e capítulos de radionovelas e
telenovelas.
Sempre teve adoração pela avó e por seu trabalho, apesar de ter nascido apenas dois
meses antes da morte dela. Na infância, escrevia quase diariamente. Suas poesias, contos
e peças teatrais era enviadas secretamente pelo pai, Alfredo Dias Gomes, ao avô
dramaturgo.
Coruja, ele dizia que a neta tinha talento e chorou certa vez quando assistiu à montagem de uma peça escrita por Renata na escola. Mas foi uma novela de Dias Gomes que quase a fez desistir de ser escritora. "Ficavam me perguntando se eu sabia o que ia acontecer em "Fim do Mundo" [Globo, 96]. Descobri um pouco mais sobre a obra de meu avô e vi que, infelizmente, tinha semelhança com o que gosto de fazer: textos engajados, sobre política, religião."
Pouco depois, Dias Gomes foi ao colégio de Renata dar palestra sobre "Santo Inquérito" e "Pagador de Promessas", adotados pelo professor. "Ele chorou, eu chorei e tudo passou. Voltei a escrever." Recentemente, enviou um roteiro seu a Gilberto Braga, discípulo da avó. "Achei a Renata uma "dialoguista" bastante boa para a idade dela", diz o autor de "Celebridade" à Folha. Renata está grávida. O médico diz que deverá ser menina e nascer em 25 de abril, data do nascimento da avó. Coisa de novela. (LM)
João do Rio: do jornalismo ao teatro
Carlos Haag (Fonte: Revistas Fapesp, n. 93, novembro de 2003)
Ele exaltava a "Alma Encantadora das Ruas" com a mesma força que adorava o interior das coxias e foyers dos teatros. Reuniu, então, os dois mundos em seus escritos e as vielas e salões chiques da belle époque carioca viraram cenários e seus habitantes, personagens. Ao morrer, em 1921, de enfarte em plena rua Pedro Américo (cena digna de um melodrama, pois acabara de escrever uma crônica em que afirmava: "Aposto a minha vida - dois anos ainda, se houver muito cuidado"), seu cortejo atraiu mais de cem mil espectadores: mesmo na morte, João do Rio não pôde dispensar o público.
Escritor irrequieto de preocupações múltiplas, João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, o João do Rio (ou ainda, Claude, Caran d'Ache, Joe, José Antonio José, alguns de seus muitos pseudônimos), dedicou muita tinta de sua pena para discutir a decadência pela qual passava o teatro brasileiro de prosa no início do século 20. "Seus textos para jornais dão uma visão fantástica do teatro da época. Neles, João do Rio discutia as peças, falava sobre bastidores, autores, o público e, em especial, atacava a crítica teatral do tempo, que, para ele, dificultava o avanço da nossa cena ao impedir a entrada de idéias novas", diz a pesquisadora Níobe Abreu Peixoto, cuja tese de doutorado João do Rio e o Palco recupera o cronista como "repórter-de-coxia" e bom avaliador e autor de teatro.
Registro saboroso
A partir de pesquisa feita em periódicos da época (entre os quais O País, Revista da Semana, A Cidade do Rio, O Correio Mercantil ), Níobe traçou a evolução cronológica das idéias teatrais de João do Rio, trazendo à luz um interessante conjunto de opiniões sobre peças e dramaturgos, nacionais e europeus. De quebra, há um registro saboroso de como era a vida teatral de seu tempo, com descrição de ensaios, encenações, bastidores, entrevistas com atores, artistas e empresários, numa notável mistura de ficção e realidade.
"Mas ele sempre manteve uma visão muito prática de como deveria ser o teatro, quase com olhos de um empresário do ramo. Daí, por exemplo, a sua participação na polêmica da inauguração do Teatro Municipal do Rio: enquanto muitos defendiam que deveria ser um espaço apenas para autores nacionais, ele argumentava que, em face da incipiência de nossa dramaturgia, era preciso aprender com o que vinha de fora até que nossos autores se desenvolvessem", afirma a pesquisadora. O exemplo destacado, aliás, dá uma mostra da importância do teatro na vida cotidiana carioca antes da chegada do cinema. Para o bem ou para o mal, tudo girava em torno dos palcos. Nem sempre, porém, na direção preferida por João do Rio.
"Peça para agradar precisa apenas de ter muita dança intercalada, duas dúzias de trocadilhos correntes, piada grossa de vez em quando para chamar o calor à superfície como sinapismo à indiferença. Quando se tenta agarrar dois personagens para um fim decente e conduzi-lo ao terceiro ato o público não assiste ao esforço segunda vez", escreveu em 1908 em A Notícia . Comentário preciso: o público de então gostava apenas do vaudeville, do teatro sem compromissos cerebrais ou, para aparentar cultura européia, da ópera trazida pelas companhias estrangeiras. Ambos detestados por João do Rio.
"Essa cidade de musicógrafos está atrasadíssima no movimento musical. Os empresários não se arriscam a trazer novidades. Um verdadeiro pavor apodera-se das empresas quando se fala de trabalhos novos", observou para alfinetar o gênero lírico, visto por ele como uma "doença", uma "coqueluche estética": "O que fazer se toda a gente conhecida deixa a Duse às moscas e bate-se à bilheteria do Lírico para ouvir a Traviata ". Culpa do público, sem dúvida, mas ainda mais da crítica. "A nossa crítica, tomando gargarejos de pedantismo oficial, vai a campo com uma solenidade pedante de burguês empacotado em fatos domingueiros, atira um cumprimento ao amigo da direita, sorri ao da esquerda, e com o desespero da erudição comparativa vem fazer considerações estultas, deturpando o pensamento alheio com cortes inconvenientes e regouga repleta de convicção característica dos arcaicos."
"João do Rio acusava a crítica de rejeitar o que era nosso, impedir a revigoração do meio teatral e de apadrinhar artistas e companhias. Bem, ele estava certo, mas em seus escritos, muitas vezes, ele também envereda pelo mesmo caminho de tomar o partido de seus favoritos", observa a pesquisadora. Irritava-se igualmente contra aqueles que pregavam uma "regeneração teatral", em face do número crescente de espetáculos em cartaz na cidade.
"Aqui, quando a coisa não tem remédio e está perdida todas a acham esplêndida e os meninos críticos dos jornais falam a sério das 'peças' (dramalhões e vaudevilles) e todos, com a maior calma, asseguram: 'Movimento animador! O Teatro Nacional renasce!'" Na realidade, os autores nacionais, desestimulados pelo desinteresse geral do público, deixavam de lado a produção de peças de teatro. Peças sérias, conta-nos João do Rio, só se for em francês ou italiano, e por companhias estrangeiras com Eleonora Duse ou Sarah Bernhardt. "Criava-se dessa forma uma divisão perversa de trabalho: os autores brasileiros só escreviam para companhias que visavam ao grande público e, com isso, estavam restritos a produzir obras de nível inferior e desatualizadas. As peças mais intelectualizadas e contemporâneas eram privilégio das companhias européias", nota o professor João Roberto Faria, orientador da tese.
Para piorar ainda mais a vida da cena brasileira, havia a concorrência da novidade: o cinematógrafo. "Além de roubar o público dos teatros, a chegada do cinema obrigou os produtores teatrais a baratear os ingressos para tentar recuperar o público perdido", lembra Faria. "Nesse movimento, criaram-se os chamados teatros por sessões, em que uma peça era apresentada em sessões corridas, uma após a outra. As peças eram picotadas e imperava o comercialismo, denunciado por João do Rio", completa.
"E os nossos autores, vendo que não podiam levar o sacrifício a
morrer de fome, foram entrando para os cinematógrafos, a princípio como intermédio,
depois como vozes por detrás do pano e por fim expulsando o aparelho e representando com
uma rapidez de trem expresso, borracheiras indizíveis. Pegar em peças de autores mortos
ou ausentes e amassá-las em almôndegas de uma hora e não indagar a quem os direitos
devem ser pagos é um crime punível", atacou em um texto de 1911. Os resultados logo
são visíveis.
"O público compara, o público é cruel, o público vai ao estrangeiro. Os atores
nacionais de valor, vendo-se na dura contingência de não poder lutar contra a corrente,
correm aos transatlânticos. Raros são os que ainda resistem heroicamente. As companhias
estrangeiras, que eram raras, começaram a vir aos magotes, passaram a demorar mais tempo,
quase todo o ano", nota o escritor. O ponto de inflexão dessa decadência pareceu a
muitos estar na construção, polêmica, do novo Teatro Municipal do Rio de Janeiro pelo
prefeito Pereira Passos.
Casa de espetáculos
"Muita gente censurou a despesa que se faz com a construção desse edifício maravilhoso. Podia-se, é certo, com a soma despendida, levantar um lindo teatro de comédia, fazer um matadouro modelo ou edificar algumas dezenas de prédios para escolas. Gastou-se muito, mas gastou-se bem. Os povos, como os indivíduos, não vivem só de utilidades práticas, querem alguma coisa que lhes encante a existência, que lhes eleve e delicie a alma", observou João do Rio em sua crônica na Ilustração . Enquanto isso, o debate se acalorava na sociedade fluminense sobre o que se deveria apresentar na nova e suntuosa casa de espetáculos.
Mas nem sempre se podia ser sério.Para esfriar os ânimos, o cronista, defendendo a variedade no palco em face da incipiência da dramaturgia nacional, também comentava sobre o sistema de refrigeração do teatro: "O Municipal tem um aparelho de distribuição de ar frio que tomba do alto. O resultado: gripes consecutivas. Ainda outro dia, diante de mim, uma senhora teve com essas mudanças um verdadeiro acesso de gripe: batia o queixo como se atravessasse o Báltico em dezembro". Igualmente humorada é a sua previsão do deslocamento do eixo cultural da Capital Federal para São Paulo, baseado num comentário feito pela atriz francesa Sarah Bernhardt em 1893.
Então, a celebrada diva, ao se despedir dos paulistas, elogiou a cidade como "a capital artística do Brasil", observação curiosa ante ao pouco desenvolvimento cultural de São Paulo. Mas João do Rio relembra o cumprimento da atriz para fustigar seus conterrâneos. "Nós estamos a fingir que nos enganamos, a aparentar crer que o público carioca freqüenta e aprecia teatro ou qualquer outra manifestação de prazer artístico ou é um puro engano. São Paulo continua a ser a capital artística do Brasil. Nós nos assemelhamos muito a essas famílias de mediania burguesa que querem dar baile sem poder, convidam a vizinhança toda, mais os conhecidos que moram longe e ficam depois atrapalhados para dar de cear a tanta gente. Tanto teatro aberto e tanta desilusão..."
Gênero ligeiro
"Nessas crônicas, João do Rio se aproxima das críticas feitas anteriormente por Machado de Assis, José Veríssimo e Artur de Azevedo sobre a continuidade no teatro brasileiro do século 20 dos vícios do século 19, com sua preferência pelo gênero ligeiro. Para eles era preciso superar o distanciamento entre o teatro e a literatura, algo que só iria ocorrer mais tarde com a chegada de uma nova geração de dramaturgos que trabalhavam sobre temáticas mais sérias", diz Roberto Faria. Temáticas sérias e que falassem do Brasil, como preconiza João do Rio em alguns de seus textos. "O brasileiro não compreende que sua primeira qualidade deve ser a de amar as suas coisas. Isso acontece com os produtos da inteligência, com tudo. Somos um pobre país. E o havemos de ser indefinidamente enquanto julgarmos inferior o que é nosso."
Uma de suas últimas batalhas foi pelos direitos do autor. Em 1917, após anos pregando pela necessidade da criação de uma sociedade de autores teatrais, João do Rio torna-se o primeiro presidente eleito da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a SBAT. Afinal, ele também era um autor. "Mas em suas peças não encontramos o ambiente decadente, pesado e mórbido que envolve os personagens de seus contos. Sua dramaturgia mais comentada privilegia o perfume, a polidez e a artificialidade dos ambientes refinados", conta Níobe. Em peças como Eva ou A Bela Madame Vargas notamos a grande influência do escritor inglês Oscar Wilde, de quem ele traduziu Salomé .
Estilo dândi
"Ele traz o universo grã-fino da belle époque para os palcos, captando como teria sido morar no Brasil querendo respirar o ar de Paris. É uma boa crítica de costumes que dialoga com o boulevard francês e com Wilde, por meio das grandes frases e tiradas espirituosas de personagens como o Barão Belfort", diz João Roberto Faria. "Ele cultivou o estilo dândi, mas sua obra foi bem além disso. É uma pena essa confusão entre vida e obra, que adora focar no elemento marginal, homossexual. João do Rio retratou como poucos uma fatia da sociedade e o fez de forma crítica, embora pareça alienada à primeira vista. Mas é tudo uma caricatura em que o cronista e crítico pega a máscara do observador atento", completa Níobe.
O Projeto - João do Rio e o Palco
Modalidade - Bolsa de Doutorado
Orientador - João Roberto Gomes de Faria - FLCH/USP
Bolsista - Níobe Abreu Peixoto - FLCH/USP
Série 200 anos da imprensa brasileira
Coordenação e edição: José Marques de Melo
Perfil n. 39
Frei Caneca, um Argonauta no Jornalismo Brasileiro
Enio Moraes Júnior * e Júlio Antônio Moreira **
* Jornalista. Especialista em Jornalismo Político. Mestrando em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Professor do Curso de Comunicação Social da Universidade Federal de Sergipe (licenciado) e das Faculdades Integradas de São Paulo.
** Jornalista. Aluno especial da disciplina Pensamento Jornalístico Brasileiro na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Professor do Curso de Comunicação Social das Faculdades Integradas de São Paulo e produtor de vídeos e documentários pela VCR CineVídeo.
O jornalista Frei Caneca
Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, o Frei Caneca, nasceu Joaquim da Silva Rabelo, no bairro Fora-de-Portas, na periferia do Recife em 1779. Morreu fuzilado, também na capital pernambucana, no dia 13 de janeiro de 1825.
Na historiografia brasileira, Frei Caneca é tradicionalmente apresentado como um religioso que pertenceu à Ordem do Carmo de Recife e participou de importantes revoltas patriotas no início do século XIX, como a Revolução Pernambucana, em 1817, e a Confederação do Equador, em 1824. No entanto, além de um dos mártires da Independência brasileira, Frei Caneca foi também um célebre jornalista, autor de uma vigorosa obra de cunho político e de marcante atuação no cenário social do país entre os anos de 1817 e 1825.
A atuação jornalística de Caneca insere-se num momento em que o jornalismo brasileiro é predominantemente opinativo e ligado a causas político-sociais. A cena pública foca-se não só em lutas e revoltas pela independência do Brasil de Portugal, como também na conquista de uma nação verdadeiramente livre com cidadãos, legislação, comércio etc, de fato, emancipados.
Com o jornal Typhis Pernambucano, que editou a partir de 1823, Frei Caneca firmou-se porta-voz dos anseios libertadores nacionais. Tornou-se, assim, uma das principais lideranças em defesa da independência, de fato, do Brasil da Coroa Portuguesa e da administração do país de acordo com os interesses brasileiros.
Seu pensamento e sua atuação política têm fortes laços com os ideais iluministas e liberais que grassaram na Europa do século XVIII ligados a nomes como Rosseau, Montesquieu, Diderot e Voltaire. O pensamento destes autores, entre outros, terminou por influenciar a Revolução Francesa e a Revolução Americana no final dos anos 1700 e respingou sobre os movimentos emancipacionistas da América Latina e do Brasil.
Somado a isto, a performance de Frei Caneca como orador em praça pública e em assembléias, bem como a linguagem e o jornalismo que pratica, bebem diretamente nos seus aprendizados sobre oratória e retórica no início de sua carreira religiosa. Neste aspecto, Caneca é fortemente influenciado pelos clássicos gregos, especialmente Quintiliano.
É, pois, marcado por uma grande erudição e ligado às causas liberais que emerge o jornalista Frei Caneca. Um dos seus grandes influenciadores, tanto do ponto de vista político quanto jornalístico, foi, sem dúvida, Cipriano Barata. Jornalista e uma das principais figuras de oposição ao poder imperial, Barata idealiza, redige e edita o Sentinela da Liberdade em 1823, quando é preso e enviado para o Rio de Janeiro, onde permanece até 1830.
Com a saída do seu líder de cena, Caneca passa a centralizar as críticas ao Império no seu próprio jornal, o Typhis Pernambucano, sua obra essencialmente jornalística e, neste contexto, mais relevante.
Vale destacar que Caneca já havia colaborado em outras publicações, como o Correio do Rio de Janeiro, no qual publica as Cartas de Pítia a Damião, que tinham como principal objetivo estimular discussões constitucionais, especialmente a partir da instalação da Assembléia Constituinte em maio de 1823, após a Proclamação da Independência do Brasil.
O argonauta e o Typhis
O primeiro número do Typhis Pernambucano circula no dia de Natal de 1823 e, de cara, já dá mostras a que veio (CANECA, 2001: 307):
"É um direito natural e inalienável de qualquer cidadão, seja qual for a forma de governo em que se vive, o exame e o juízo dos fatos público, sem que sirva de égide a alguém a graduação, a classe, a hierarquia e a autoridade; e este direito é tanto mais sagrado quanto a ação praticada toca os direitos primários de um povo, de uma nação; e s. m. i. se acha tão penetrado desta verdade, que no dia 13 fez baixar o seu segundo decreto, em que declara que a qualificação de perjura, que o primeiro impôs à Assembléia Geral Constituinte e Legislativa, não deveria entender da totalidade da representação nacional do generoso povo brasileiro, sim da facção dominante do Congresso"
O nome da publicação é uma referência ao argonauta Tífis, que na mitologia greco-latina era um grande conhecedor da arte da navegação e o primeiro piloto do navio Argos. Certamente Caneca procurava expressar, já no nome da publicação que começava a editar, o papel que desejava para ela: o de um guia, de um destemido herói enfrentando as constantes tormentas num mar agitado e traiçoeiro.
Foram, ao todo, publicadas 28 edições do jornal, entre os dias 25 de dezembro de 1823 e 05 de agosto de 1824. Com uma diagramação tipicamente ladrilhada, o jornal apresentava duas seções permanentes: Brasil e Pernambuco. Na primeira, de caráter nacional, discutia questões relacionadas à política brasileira e a segunda, de caráter mais restrito e regionalizado, preocupava-se com as questões pernambucanas.
Caneca costumava, em todas as edições do Typhis, abri-lo e fechá-lo com as mesmas citações. Na abertura, uma recorrência à sua erudição e aos padrões clássicos ao citar um trecho do Canto V de Luís de Camões: "Uma nuvem, que os ares escurece, sobre nossas cabeças aparece". No final de cada edição, a mesma sentença "Cautela, união, valor constante. Andar assim, é bom andar. Boa viagem". Mais que uma mera citação, o uso da retórica para expressar sua posição sobre a necessidade de luta e enfrentamento.
Com um padrão fortemente opinativo e esmeradamente venal, o que era característico dos jornais e pasquins da época, as edições do Typhis conseguiram arrebatar leitores e influenciar a opinião pública, levando às ruas as dissonâncias de parte da população com os atos e projetos do governo central.
Mas as críticas não se restringiam a questões políticas, mas também eram pessoais, atingindo o caráter de políticos e jornalistas. José Fernandes Gama, proprietário do Arara Pernambucana, era o principal alvo do Typhis e a quem Caneca atacava afirmando que "idéias velhas não podem reger o mundo novo" (SODRÉ, 1983: 90).
Frei Caneca apresentou, em sua atuação, uma genuína síntese entre teoria e prática. A transformação do seu conhecimento sobre retórica e oratória e da sua postura ideológica (de base iluminista e liberal) na sua prática política, usando como instrumento o jornalismo, são provas cabais desta práxis. Segundo Morel (2000: 75), a quem cabe o mérito de entender Caneca como produtor de um conhecimento precursor na comunicação brasileira: "Frei Caneca não pregava apenas, também assumia ele mesmo, em sua prática pessoal, a ampliação dessa cidadania. Argonauta enfrentando o contexto bravio de um novo Império ainda marcado pelas práticas do Antigo regime".
Em sua defesa, a expressão de seu pensamento jornalístico
Os familiares de Frei Caneca destruíram muitos dos seus escritos. Talvez para ficar com sua herança ou até mesmo por temer as represálias do imperador que o condenou à morte. Entretanto, dos escritos que restaram, a defesa que Caneca apresentou em seu julgamento sumário pelo crime de rebelião é o texto que, ao lado do Typhis, melhor apresenta os elementos do seu pensamento jornalístico e onde estes aparecem mais claramente.
A defesa pioneira da liberdade de imprensa, o uso da retórica como expressão do jornalismo de opinião e a prática também pioneira do jornalismo comparado presente na analogia que faz entre o Typhis, o Regulador Brasileiro e o Conciliador Nacional constituem, estes três elementos, marcos do pensamento jornalístico do Frei.
Liberdade de Imprensa
Os jornais eram publicações recentes no Brasil. D. Pedro I havia garantido a liberdade de imprensa na Constituição que acabara de outorgar. Frei Caneca faz desta liberdade seu maior álibi e escreve uns docs primeiros manifestos da imprensa livre no país:
"Conquanto parecesse ao réu que as doutrinas de seus impressos não formam objeto do conhecimento desta comissão, por já estar determinado o tribunal dos jurados, como privativo dos abusos da liberdade de imprensa; contudo ignorando o réu as ordens imperiais, de que está escudada a mesma comissão, e que este reto juízo não ultrapassará os termos que lhe foram prescritos por sua majestade o imperador, não hesita de si nestes artigos, que passa a expender" (CANECA,2001: 629).
Retórica como expressão do jornalismo opinativo
A retórica sempre foi a aliada mais próxima do político Frei Caneca. Nas assembléias ele era um grande arrecadador de votos. A retórica se tornou seu ofício. Nas praças, seus discursos o fizeram popular, respeitado e querido. A tal ponto chegou sua popularidade que, quando condenados à morte, três presos recusaram o perdão de suas penas em troca de assumir a função de carrasco. Na defesa, Caneca abusa da retórica deixando sua marca nos primeiros passos do jornalismo opinativo que reinaria quase absoluto no Brasil até meados do século XX.
"A enormidade da acusação é tão grande que de por si basta para aterrar o varão mais forte, e o faria temer, se acaso se não lembrasse que eram seus juizes varões brasileiros, cheios de retidão, e que sabem dar descontos às fraquezas da humanidade, imitando a piedade e beneficência do príncipe magnânimo, que os revestiu de tão alta autoridade. Esta idéia consoladora anima o réu, e lhe alivia os espíritos abatidos, para alçar a trêmula voz e fazer chegar ao conhecimento deste juízo os argumentos em que funda sua defesa, e mostrar sua constante adesão e obediência ao supremo imperante da nação brasileira" (CANECA, 2001: 628).
Jornalismo Comparado
A comparação que Caneca elaborou dos artigos do Typhis com os textos dos jornais O Regulador Brasileiro e O Conciliador Nacional são grandes estratégias de sua defesa e uma das primeiras manifestações nacionais de Jornalismo Comparado:
"Que a soberania reside na nação, que a nação é quem se constitui e por meio dos seus representantes em Cortes dois pontos cardeais em que rola toda a doutrina do Typhis são duas verdades confessadas por sua majestade no decreto de 8 de junho de 1822, no manifesto de 6 de agosto do mesmo ano aos povos e nações amigas, além de outras ocasiões".
"Que sua majestade, depois de ter chamado seus súditos para serem felizes, não lhes pode dizer não quero que o sejam mais disse o Regulador Brasileiro à face do mesmo trono, sem a menor censura. É destes princípios, pois que nasce o juízo feito sobre a dissolução da Assembléia do Rio de Janeiro, expostos nos números 1, 2 e 3 do Typhis".
"O réu escrevia em Pernambuco, onde por um bando do governo de 14 de maio de 1823, se publicou o decreto de sua majestade o imperador, quando príncipe regente, de 18 de junho do ano antecedente sobre a liberdade da imprensa; e o que escreveu sujeitando-se a esta lei nunca pelas autoridades foi julgado subversivo, anárquico e afrontoso à pessoa de sua majestade, nem oposto aos seus direitos; pois que no dilatado espaço de oito meses, que durou o seu periódico, nunca foi chamado ao jurado, como devia no caso dos abusos da liberdade de imprensa; assim como não foi chamado a dar conta de sua doutrina e opiniões o redator do Conciliador Nacional, que escreveu muito antes do réu que A soberania estava nos povos (números 3,18,22,30); Os povos não são herança de ninguém (número 40); Deus não quer sujeitar milhões de seus filhos ao capricho de um só (número 17); Os reis não são emanação da divindade, são autoridades constituídas etc" (CANECA,2001: 629).
O mestiço de cabelos cor-de-fogo
Grande orador e discursista, Frei Caneca tinha um enorme poder de eloqüência e exercia, com seus discursos e argumentações, grande influência sobre o povo e as decisões da Comarca de Pernambuco. A origem humilde talvez possa ser apontada como uma das razões de sua popularidade.
O bairro Fora-de-Portas, onde nasceu e morou durante a infância, era um importante entreposto comercial do Império. Na região modesta viviam artesãos e tinha uma população marcadamente portuguesa que costumava receber as tripulações lusitanas.
Seu pai, Domingos da Silva Rabelo, era português e tanoeiro. Sua mãe, Francisca Alexandrina de Siqueira, era filha e neta de lisboetas, mas o bisavô havia casado com uma mestiça brasileira chamada Maria e, graças a ela, Caneca encontra suas origens entre os brasis. Esta mistura de raças cinge-lhe a expressão física mais contrastante: um mestiço de cabelos cor-de-fogo.
Caneca tinha, ao que se sabe, um irmão, Januário, que na vida adulta foi cirurgião formado pela Escola do Recife, ajudante do exército e vacinador no Rio Grande de Norte.
Os estudos religiosos do Frei foram facilitados pela ascendência reinól e pela presença de um tio materno, Antônio de Natividade Dantas, na Ordem Carmelita. Assim, Caneca foi para o Convento do Carmo, vendo não só uma forma de estudar como também de ascender socialmente. Em 1796 tomou o hábito, passando a se chamar Joaquim do Amor Divino; em 1797, professou e em 1801 ordenou-se, com dispensa especial, aos 22 anos, com o nome da profissão paterna.
Caneca era estudioso, inteligente, de "apetite enciclopédico" e dava atenção, especialmente, para a Retórica e a Filosofia. No início de sua vida religiosa, leciona retórica e geometria. Nesta primeira fase, até 1817, produz textos de conteúdo didático em que dá mostras da erudição que iria caracterizá-lo.
Pelo que se sabe, foi apaixonado por uma mulher a quem chamava Marília e teve cinco filhos: Carlota, Joana, Ana, Fortunato e Joaquim Teodoro. Chama atenção dos seus biógrafos o fato de um homem de circulação tão restrita - apenas saiu de Pernambuco (e de Alagoas, na época comarca pernambucana), para ir à Bahia, onde esteve preso por quatro anos ter tão eloqüente erudição.
Em 1824, acusado de participar da Confederação do Equador, Caneca e outros rebeldes são obrigados a fugir de Pernambuco. Em direção ao Ceará, o Frei escreve Itinerário, em que narra os momentos seguintes à Confederação, sua tentativa de fuga e seus dias de cárcere depois que é capturado. Finalmente julgado e condenado, é fuzilado no dia 13 de janeiro de 1825, em Recife.
Pernambuco na luta pela Independência
Entender a obra e a atuação política de Frei Caneca significa, também, entender o contexto histórico e os aspectos econômicos e políticos de sua época. A atuação de Caneca ocorre num período de intensa agitação, no Brasil, em função de tornar-se independente de Portugal e, em seguida à Independência, de formular seus próprios preceitos e leis e criar um país legitimamente independente.
O momento final da atuação e da produção de Caneca é a Confederação do Equador, que eclode em 1824. No entanto, este fato é antecedido pela Revolução Pernambucana, de 1817.
A Revolução é produto da grave crise econômica e, conseqüentemente, política, que passa a perturbar alguns setores do Nordeste brasileiro a partir de 1780. A base das discordâncias está no surgimento e fortalecimento de um Nordeste ao norte, urbano - que consegue produzir uma economia mista, passando a não produzir apenas açúcar (cana), mas também algodão, graças à fertilidade de seu solo e um outro Nordeste ao sul, basicamente de engenhos que, sem um solo apropriado, continua insistindo na monocultura da cana-de-açúcar.
O quadro de privilégios agrava-se, justamente, porque a produção algodoeira alcança alto valor no comércio com a Inglaterra, fortalecida com a Revolução Industrial e com uma indústria têxtil em expansão. No entanto, talvez a principal razão do zelo emancipacionista do norte esteja ligada ao fato de a exportação do algodão para a Inglaterra usufruir as vantagens do livre câmbio. Some-se a isso a existência, na região, de fortes núcleos urbanos, como Recife, o que fazia com que as idéias e as discussões de base iluminista e revolucionária se proliferassem.
Mas a Insurreição fracassa e Caneca, que participara abertamente do movimento como ideólogo e conselheiro do exército republicano, é preso e exilado na Bahia por quatro anos. Três anos mais tarde, levada a cabo por um conflito entre elites, ocorre a Confederação do Equador, na qual Caneca também toma parte. Na verdade, o movimento é uma tentativa de algumas províncias do Nordeste brasileiro Pernambuco, Ceará, Paraíba, Rio Grande do Norte criar um país independente em 1824, logo em seguida ao surgimento do Império, em 1822. Politicamente, a Confederação associa-se aos anseios da pequena burguesia urbana que não aceitava continuar subalterna ao poder político e econômico legado, pelo imperador, apenas aos portugueses instalados no Brasil.
A convocação da Assembléia Constituinte, no início do Império, em 1823, sua posterior dissolução pelo imperador D. Pedro I que queria seu poder pessoal acima do poder Legislativo e Judiciário e, em 1824, a outorga de uma Constituição para o Brasil são o estopim para a deflagração da tentativa da Confederação.
Preparado o projeto da Carta a ser outorgada, este é enviado a algumas câmaras municipais para consulta. Ao chegar à Câmara dos Deputados do Recife, Frei Caneca coloca-se contra a proposta por expressar preceitos contrários ao liberalismo. A partir daí, tem lugar mais uma atuação política de Caneca com todos os seus matizes intelectuais e jornalísticos e preparam-se as condições para forjar Confederação do Equador, que finalmente é proclamada em 2 de julho de 1824.
Cronologia de um argonauta
1779: nasce Joaquim da Silva Rabelo;
1796: toma o hábito na no Convento da Ordem do Carmo de Recife, passando a se chamar Joaquim do Amor Divino;
1797: professa na Ordem;
1801: ordena-se frei carmelita, aos 22 anos, adotando o nome Caneca em homenagem à profissão paterna;
1802: a partir deste período já dá aulas filosofia aos carmelitas e, no ano seguinte, de geometria e retórica;
1809: é nomeado secretário do visitador da Ordem Carmelita Frei Carlos de São José e Souza;
1809 a 1817: como produto dos seus esforços intelectuais e de seu trabalho como professor, escreve o Tratado de Eloqüência: extrahido dos melhores escritos e as Táboas Symópticas do Sistema Rhetórico de Fábio Quintiliano.
1817: participa da Insurreição (ou Revolta) de 1817;
1817 a 1821: neste período, Caneca fica preso na Bahia por sua participação na Revolução de 1817. Na prisão, dá aulas e escreve o Breve Compêndio da Gramática Portuguesa;
1822: escreve a Dissertação sobre o que se deve entender por pátria do cidadão e deveres deste para com a mesma pátria. Neste texto, de alto teor iluminista, Caneca preocupa-se em "instruir o povo" sobre "a possibilidade da união entre os portugueses de ambos os hemisférios, sobre os auspícios da monarquia constitucional" (Rebeldes Brasileiros, 2002: 393);
1823: publica as Cartas de Pítia a Damão no Correio do Rio de Janeiro. Publica também O Caçador atirando à Arara Pernambucana;
1823 a 1824: dirige e edita o Typhis Pernambucano. Publicado a partir de dezembro de 1823, é seu espaço, por excelência, de atuação jornalística;
1824: dissolvida a Assembléia Constituinte, é preparado o projeto da Constituição a ser outorgada e é enviado à Câmara dos Deputados do Recife. Frei Caneca coloca-se contra a proposta e a critica no documento Crítica da Constituição Outorgada; a postura que assume será usada para sua condenação à morte;
1824: participa da Confederação do Equador;
1824: escreve Itinerário, texto em que narra os momentos que se seguem à Confederação do Equador, incluindo sua tentativa de fuga até o Ceará e seus dias de prisão a partir do momento em que é capturado. O texto também é considerado um importante marco descritivo da geografia da região nordestina;
1825: no dia 13 de janeiro, é fuzilado em Recife, em praça pública;
1875: grande parte de sua obra de Frei Caneca integra o texto Obras Polypticas e Litterárias de Frei Joaquim do Amor Divino Caneca, organizada por Antônio Joaquim de Melo, publicada em sua primeira edição no Recife, em 1875;
1917: no local do fuzilamento de Caneca, em Recife, é erguido um busto do Frei. Na placa, lê-se: "Neste largo foi espingardeado junto a forca a 13 de janeiro de 1825 por não haver reo que se prestasse a garroteá-lo o patriota Frei Joaquimo do Amor Divino Caneca, republicano de 1817 e a figura mais notável da Confederação do Equador em 1824. Homenagem do Instituto Arqueológico e Geográfico de Pernambuco".
Bibliografia
CANECA, Frei Joaquim do Amor Divino. Organização e introdução: Evaldo Cabral de Mello. São Paulo: Editora 34, 2001.
CHACON, Vanireh & LEITE NETO, Leonardo. Frei Caneca: Typhis Pernambucano. Brasília: Centro Gráfico do Senado Federal, 1984.
FAUSTO, Boris. História do Brasil. 5ª ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo : Fundação do Desenvolvimento da Educação, 1997.
MELO, José Marque de. História do Pensamento Comunicacional: cenários e personagens. São Paulo: Paulus, 2003.
MOREL, Marcos. Frei Caneca Entre Marília e a Pátria. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2000.
Rebeldes Brasileiros: homens e mulheres que desafiaram o poder. Coleções Caros Amigos, Fascículo 01: Frei Caneca e Carlos Marighella. São Paulo: Editora Casa Amarela: 2002.
Revista Continente Documento: O Revolucionário Frei Caneca. Recife: Companhia Editora de Pernambuco, Ano I, número 09, maio de 2003.
SEGISMUNDO, Fernando. Imprensa Brasileira: Vultos e Problemas. São Paulo: Alba, 1962.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da Imprensa no Brasil. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1983.