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JORNAL DA REDE
ALCAR |
Editores Responsáveis:
José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) / email: marquesmelo@uol.com.br e Francisco Karam (FENAJ/UFSC) / email: fjkaram@terra.com.br
Edição digital Profa. Maria Cristina Gobbi e Adriana Crozariol (UMESP)
Sítio digital Prof. Clovis Geyer e Ana Paula de Souza (UFSC)
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Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da
memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Colaboradores desta edição: Luiza
Nóbrega (Recife), Rogério Faria Tavares (Belo Horizonte), Nicolau Svcenko (São Paulo),
Fernanda Reche (Porto Alegre), Roseane Pinheiro (São Luis MA), Maria Cristina
Gobbi (São Paulo), Andressa Braun (Florianópolis), Luis Guilherme Pontes Tavares
(Salvador), Svendla Chaves (Porto Alegre)
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www.jornalismo.ufsc.br/redealcar
www.metodista.br/unesco/redealcar
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Noticiário da Rede Alcar
Reitor da UFSC formaliza apoio ao II Encontro da Rede Alcar
Maranhão lança Núcleo de Memória da Imprensa
Instalado o Núcleo Pernambucano da Rede Alcar
Núcleo Catarinense produz vídeo sobre Gustavo de Lacerda
Núcleo Baiano divulga eventos sobre História do Jornalismo
Capítulos de História da Mídia
História da concentração das redes de TV na América Latina
Dez anos sem Marcello de Ipanema
RS comemora 40 anos da Rede Legalidade
Jornalismo maranhense durante o regime parlamentarista: 1961-1963
Primeiro Doutor em Jornalismo do Brasil: celebração dos 30 anos
Eles mudaram a imprensa brasileira
Pedro Parafita Bessa: as lembranças de Maria Célia
Walter Galvani é patrono da Feira do Livro de Porto Alegre
Série 200 anos da imprensa brasileira
Maura de Senna Pereira, a primeira jornalista catarinense
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Noticiário da Rede Alcar
Reitor da UFSC formaliza apoio ao II Encontro da Rede Alcar
O Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Prof. Dr. Rodolfo Pinto da Luz, recebeu em audiência, na tarde do dia 17 de setembro, o Prof. Dr. José Marques de Melo, presidente do comitê nacional da Rede Alcar, e o Prof. Dr. Francisco Karam, presidente do comitê organizador do II Encontro Nacional, formalizando o apoio daquela instituição ao evento programado para os dias 15-17 de abril de 2004. Reiterou o compromisso da universidade no sentido de buscar parceiros nacionais e regionais capazes de financiar o evento.
Na mesma ocasião, o Professor Marques de Melo manteve contatos com o Jornalista Jair Aires Teixeira, presidente da Associação Catarinense de Imprensa, e como Historiador Jali Meirinho, Secretário do Instituto Histórico de Santa Catarina, no sentido de obter a adesão daquelas instituições locais ao encontro de 2004. Da mesma forma, recebeu a adesão do Jornalista e Escritor Moacir Pereira, novo membro da Academia Catarinense de Letras, o qual prometeu sensibilizar seus confrades literários para participar do evento.
Maranhão lança Núcleo de Memória da Imprensa
A Associação Maranhense de Imprensa (AMI) lançou com êxito o Núcleo de Memória da Imprensa do Maranhão (NMIM), no auditório da Faculdade São Luís, no dia 20 de agosto de 2003, às 20h, com a presença de professores, coordenadores e alunos dos cursos de Comunicação Social.
A presidente da AMI, Edvânia Kátia, e a jornalista Roseane Arcanjo Pinheiro apresentaram as propostas da AMI para o Núcleo e a plataforma de trabalho da Rede Alfredo de Carvalho. O professor e pesquisador Marcos Fábio Belo Matos, Mestre em Comunicação e Cultura (UFRJ), que participou do I Encontro da Rede Alcar no Rio de Janeiro, relatou sua experiência no evento, ressaltando a relevância das ações da Rede para a preservação da história da imprensa brasileira.
As seguintes deliberações foram feitas durante a reunião:
Instalado o Núcleo Pernambucano da Rede Alcar
O Professor Marques de Melo participou da instalação do Núcleo Pernambucano da Rede Alfredo de Carvalho, em ato público realizado no Auditório do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Pernambuco, na tarde do dia 12 de setembro. O evento foi co-promovido pelo Chefe do Departamento de Comunicação daquela universidade, Prof. Dr. Alfredo Vizeu, e pela Coordenadora do Curso de Jornalismo, Profa. Maria Luiza Nóbrega, contando com a participação de docentes e pesquisadores das universidades federal, rural e católica, bem como de instituições de ensino superior do Recife e de Caruaru.
Na mesma ocasião, a cidade de Olinda (Pernambuco) comemorou o dia da imprensa (10 de setembro) homenageando seu filho ilustre, Luiz Beltrão, responsável pela fundação, há 40 anos, do primeiro instituto acadêmico de pesquisa em comunicação do Brasil. Ao fundar o Instituto de Ciências da Informação Coletiva, na Universidade Católica de Pernambuco, Beltrão deslanchava a pesquisa universitária brasileira sobre os fenômenos comunicacionais, inspirando centros congêneres que surgiriam em outras regiões do país.
A efeméride foi celebrada pelo Curso de Comunicação da AESO - Associação de Ensino Superior de Olinda, por iniciativa da Profa. Suely Figueiredo, através de uma conferência proferida para seus alunos pelo Prof. Dr. José Marques de Melo, titular da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação.
Núcleo Catarinense produz vídeo sobre Gustavo de Lacerda
Mensagem recebida do Prof. Dr. Francisco Karam (UFSC) informa sobre a produção de um vídeo-documentário sobre o fundador da ABI, o catarinense Gustavo de Lacerda, cuja íntegra transcrevemos a seguir.
Vídeo-documentário: GUSTAVO DE LACERDA - UMA VIDA, UMA PROFISSÃO
Duração: 930
Sinopse: O documentário conta parte da história de um dos homens que marcou a imprensa brasileira, sem obter, no entanto, o devido reconhecimento por defender a dignidade da profissão. Gustavo de Lacerda dedicou sua vida ao jornalismo trabalhando em três redações ao mesmo tempo, o que não impediu que morresse de fome aos 55 anos. Mesmo assim, a luta por melhores condições de trabalho continua graças a uma de suas conquistas: a criação da Associação Brasileira de Imprensa no início do século 20.
Produção, roteiro e reportagem: Camila Paschoal, Estephani Zavarise, Marcela Campos e Paula Medeiros
Imagens: Dilson Branco e Paula Medeiros
Edição e Pós-produção: Augusto Fornari, Camila Paschoal, Estephani Zavarise e Paula Medeiros
Orientação: Delmar Gularte
Instituição: Laboratório de Telejornalismo (Curso de Jornalismo/ julho de 2003) - Universidade Federal de Santa Catarina
Núcleo Baiano divulga eventos sobre História do Jornalismo
Recebemos do Prof. Dr. Luis Guilherme Pontes Tavares, coordenador do Núcleo Baiano da Rede Alcar notícias sobre eventos realizados em Salvador, focalizando a História do Jornalismo naquele Estado brasileiro.
História do Jornalismo da Bahia
Luis Guilherme Pontes Tavares
O seminário "Jornais e jornalismo: a mídia na Bahia", organizado e patrocinado pela Fundação Pedro Calmon - Centro de Memória e Arquivo Público da Bahia, órgãos da Secretaria da Cultura e Turismo do Governo do Estado da Bahia, será reiniciado no próximo dia seis de outubro, às 17h, com a palestra "A Tarde em verbete", da professora doutora Consuelo Novais Sampaio, diretora do Núcleo de Memória e autora de verbetes de jornais baianos publicados na versão mais recente do Dicionário Biográfico do Cpdoc/Fundação Getúlio Vargas. Nesse dia, o diretor da Empresa A Tarde, senhor Silvio Simões, neto do jornalista Ernesto Simões Filho, criador, em 15 de outubro de 1912, do jornal, será o debatedor.
O seminário "Jornais e jornalismo: a mídia na Bahia" foi iniciado em 1º de setembro. A primeira etapa do evento foi até o dia cinco desse mês. A etapa que se iniciará no próximo dia 6 de outubro prosseguirá até o dia nove do mesmo mês. Nas duas ocasiões, os organizadores pretenderam passar a limpo a história de alguns ramos da mídia baiana e avaliar as perspectivas desse segmento da indústria cultural. Os pronunciamentos estão sendo feitos no auditório da Fundação Pedro Calmon térreo do Palácio Rio Branco, na Praça Municipal, centro antigo de Salvador, e o evento é aberto ao público.
PALESTRAS DE OUTUBRO
No próximo dia sete de outubro o presidente da Associação Baiana de Imprensa, jornalista Samuel Celestino, falará sobre "Evolução do jornalismo na Bahia, a partir de 1960". Será um depoimento testemunhal, considerando que nesse ano Celestino iniciou sua trajetória no jornalismo baiano. Ele é o colunista político de A Tarde. No mesmo dia, o professor e jornalista Florisvaldo Mattos tratará do tema "O jornalismo nacional na Bahia". Mattos foi o chefe da sucursal do Jornal do Brasil na Bahia e hoje edita o suplemento A Tarde Cultural.
No dia seguinte (08.10), o jornalista e professor doutor Othon Jambeiro, da Ufba, discorrerá sobre "O controle da informação na era Vargas (1930-1945)", seguindo-se o depoimento do jornalista e escritor Guido Guerra, autor de Lili Passeata (Rio de Janeiro: Record, 1984) e outros livros de ficção, sobre o tema "O jornalismo nos anos de chumbo". Guerra, apelidado de Papagaio Devasso, foi cronista irreverente do Diário de Notícias e do Jornal da Bahia no período da Ditadura Militar.
Os organizadores reservaram o último dia (09.10) para a história das mídias eletrônicas na Bahia, cedendo a palavra ao jornalista, professor e historiador Cid Teixeira, para falar sobre "O rádio na Bahia: tempos heróicos", e ao jornalista e professor doutor Sérgio Mattos, da Unibahia, autor da A Televisão no Brasil 50 anos de história (1950-2000), que tratará do tema "Multimídia: uma revolução na comunicação".
No período de 1º a cinco de setembro foram tratados os seguintes temas com seus respectivos palestrantes: "O Momento: um jornal militante (1945-1957)", pela professora doutora Sônia Serra, da Ufba e FTC, e pelo professor doutor Luís Henrique Dias Tavares, Emérito da Ufba, a quem coube relembrar a passagem por esse jornal comunista; "A Tribuna da Bahia: 34 anos de luta", pelo empresário Walter Pinheiro e pelo jornalista Paulo Sampaio; "O Diário de Notícias em verbete", pela professora Consuelo Sampaio; "Censura e ética na imprensa", pelo jornalista Paolo Marconi; "O Diário da Bahia em perspectiva histórica", pela professora doutora Kátia Carvalho; "O Jornal da Bahia, um inovador", pelo empresário e jornalista João Falcão; e "O Imparcial: um intervalo democrático, 1942-1947", pela professora doutora Petilda Serva Vasquez, da Ufba, seguida de comentários pelo jornalista Walfrido Moraes, que trabalhou no jornal.
Capítulos de História da Mídia
História da concentração das redes de TV na América Latina
Os professores argentinos Guillermo Mastrini e Martín Becerra analisaram, em artigo para o website Sala de Prensa, a concentração dos meios de comunicação, e particularmente a televisão, na América Latina.
Os acadêmicos da Universidade de Buenos Aires e da Universidade Nacional de Quilmes dizem, na introdução do artigo, que a análise faz uma revisão histórica dos grupos de proprietários das empresas de TV de maior envergadura na região (Televisa, do México; Globo, do Brasil; Cisneros, da Venezuela; e o grupo Clarín, da Argentina).
Mastrini e Becerra repassam os últimos 50 anos desses impérios midiáticos fundados por grupos familiares mas que ganharam importância regional e mundial a partir da "internacionalização dos mercados audiovisuais e da troca de gerações".
Sala de Prensa: http://www.saladeprensa.org/art473.htm
Fonte: Notícias Sobre Jornalismo nas Américas Selecionadas pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas, 29/08/2003
Dez anos sem Marcello de Ipanema
Há anos, no dia 16 de julho de 1993, falecia no Rio de Janeiro o historiador da imprensa Marcello de Ipanema, docente da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de uma obra alentada sobre os primórdios das atividades de comunicação impressa no Brasil. Parte dessa obra foi escrita em parceria com sua esposa, a também historiadora Cybelle de Ipanema, membro do comitê nacional da Rede Alcar, onde representa tanto o IHGB e o IHGRJ.
A família Ipanema fez publicar na seção necrológica do jornal O Globoo seguinte anúncio:
"Marcello de Ipanema Dez anos sem você Cybelle, José Marcello, Marcos Flávio, Rogéria e familiares agradecem aos parentes e amigos uma oração pela alma do inesquecível Marcello".
RS comemora 40 anos da Rede Legalidade
Fernanda Reche, Portal Comunique-se, 18/09/2002
O governador do Rio Grande do Sul, Germano Rigotto, inaugurou na manhã desta quinta-feira (18/09) nova placa em homenagem à Rede da Legalidade, no Gabinete da Secretaria de Comunicação Social, nos porões do Palácio Piratini. O presidente nacional do PDT e ex-governador do Estado, Leonel Brizola, esteve presente na homenagem.
Em 1961, Brizola formou a rede de rádios em favor da Campanha da Legalidade, assegurando a posse do vice-presidente João Goulart, após a renúncia do presidente Jânio Quadros. Em 1963, pouco antes de deixar o governo do Estado, Brizola descerrou, no porão do Palácio, uma placa de bronze em homenagem aos radialistas e jornalistas que trabalharam na Rede Legalidade. Durante o governo de Ildo Meneghetti, a placa desapareceu e até hoje ninguém sabe seu paradeiro. Há suspeitas de que tenha sido derretida.
Entre os homenageados, estão Hamilton Chaves, jornalista e secretário de Imprensa na época; João Brusa Neto, ex-subsecretário de Educação; Carlos Contursi, ex-diretor do Departamento de Censura, e Homero Simon, ex-engenheiro-chefe da Rádio Guaíba, responsável pela instalação da emissora no Piratini. Para saber mais sobre a Rede da Legalidade, visite o site do Projeto Vozes do Rádio, do curso de Jornalismo da Famecos/PUCRS.
Jornalismo maranhense durante o regime parlamentarista: 1961-1963
Confira matéria publicada no jornal O Estado do Maranhão no dia 07 de setembro de 2003, elaborada a partir da leitura do livro A arena da palavra: parlamentarismo em debate na imprensa maranhense (1961-1963), do Professor Dr. José Ribamar Ferreira Jr., do Departamento de Comunicação Social da UFMA. O livro, publicado pela editora Annablume, foi apresentado originalmente como dissertação de mestrado na PUC/SP.
Na arena do jornalismo
Imprensa maranhense abarcou posicionamentos políticos distintos sobre adoção do regime parlamentarista entre 1961 e 1963
Roseane Pinheiro*, especial para o Caderno Alternativo
"Fui vencido pela reação e, assim, deixo o governo. Nestes sete meses cumpri o meu dever. Tenho-o cumprido, dia e noite, trabalhando, infatigavelmente, sem prevenções, sem rancores. Mas, baldaram-se os meus esforços para conduzir esta nação pelo caminho da sua verdadeira libertação política e econômica, o único que possibilita o progresso efetivo é a justiça social, a que tem direito o seu generoso povo". Este trecho da carta-renúncia de Jânio Quadros, formalizada no dia 25 de agosto de 1961, colocou em xeque um processo político débil e atiçou parlamentares, empresários, classe média e a imprensa. O que viria depois?
A saída constitucional obrigava a entrega do poder ao vice, João Goulart, mas os conservadores olhavam com desconfiança para o ex-ministro do Trabalho de Juscelino Kubitschek. Especialmente os militares o consideram um aliado das forças de esquerda. Um clima de tensão abateu o país, dividido entre aqueles que queriam Jango fora do poder e os legalistas, liderados pelo governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola.
A saída política, costurada à força, chamou-se parlamentarismo. Com a renúncia de Jânio Quadros, o Brasil experimentou pela segunda vez o sistema parlamentarista. A primeira vez ocorreu no Império.
Esta tentativa de enfraquecer a figura do chefe de Estado usufruiu de uma arena privilegiada: os jornais.
Na cena maranhense, o que nos cabe aqui, os diários transformaram-se em palanque onde as palavras mesclavam interesses, conflitos e muitas argumentações diante da crise sucessória.
"Com tiragem diária, para cada jornal, por volta de mil exemplares, os periódicos de São Luís, nos primeiros anos da década de 60, já traziam a publicidade dos veículos produzidos pela recém-instalada indústria automobilística nacional, além de utensílios domésticos que começavam a ser popularizados entre os consumidores locais, como fogão a gás, refrigerador, rádio portátil, panela de pressão etc. (...) A diferenciação mais evidente entre os jornais, excetuadas algumas pequenas variações no planejamento gráfico (não desprezíveis , mas sem grande efeito de caracterização), era a coloração à qual pertenciam", atesta o professor José Ribamar Ferreira Jr, do Departamento de Comunicação Social da UFMA, autor do livro A arena da palavra: parlamentarismo em debate na imprensa maranhense (1961-1963), apresentado originalmente como dissertação de mestrado na PUC/SP.
Frentes Antes de focarmos o conteúdo dos jornais, faremos uma panorâmica sobre as articulações políticas que marcaram o sistema partidário de então. Em um cenário de "infidelidade partidária", como destaca o pesquisador, não é demais caracterizarmos os partidos enquanto "frentes" de interesses localizados, onde a troca de legenda era uma das regras mais usuais do jogo.
Vitorino Freire, o chefe do PSD maranhense, foi um dos principais atores políticos locais na eleição presidencial de 1960, que elegeu Jânio e Jango. Vitorino Freire foi obrigado, por entraves políticos, a apoiar o general Lott, mas ideologicamente aproximava-se mais de Jânio. Entre os dois pólos, preferiu "garantir" a vitória do PSD no Estado.
Outra força política o PSP - que fazia oposição ao vitorinismo ficou divido na eleição. Neiva Moreira preferiu apoiar Lott, enquanto correligionários decidiram defender outras candidaturas.
O deputado José Sarney, liderança mais popular da UDN à época, viu sua figura ganhar mais prestígio ao cerrar fileiras com Jânio, candidato vitorioso.
"O resultado pelo pleito, no Maranhão, confirmou, entretanto, a hegemonia pessedista como uma vitória do general Lott. O fraco desempenho do candidato do PSD, em âmbito nacional, não atingiu o poder eleitoral do partido no Maranhão. Jânio Quadros foi eleito presidente, rompendo o jejum de vitórias da UDN em eleições presidenciais", analisa Ferreira Jr. em seu livro.
Cobertura - Quatro jornais diários de São Luís, estudados por Ferreira Jr. em sua obra, expressaram bem as tendências políticas no início dos anos 60 e seus respectivos grupos na cidade: Correio do Nordeste, Diário da Manhã, Jornal do Povo e o Jornal Pequeno. Os editoriais e artigos tinham como alvo a crise política, a incerteza da posse de Jango e os "riscos" do parlamentarismo em um país em ebulição.
O Correio do Nordeste apresentava feição liberal e defendia os interesses dos comerciantes de São Luís. De propriedade do governador Newton Belo, o Diário da Manhã propiciava ampla cobertura às obras do Governo Estadual, divulgando as ações do PSD no Maranhão.
O Jornal do Povo, o mais importante veículo oposicionista, por sua vez, tinha à frente outro líder político, Neiva Moreira, que jamais deu trégua ao movimento vitorinista e ao governador Newton Belo.
Fundado pelo jornalista José Ribamar Bogéa, o Jornal Pequeno também se opunha ao vitorinismo e ao governo estadual, porém não mantinha ligações formais com partidos políticos.
Greve, manifestos e críticas ao governador
As primeiras manchetes, após a renúncia de Jânio Quadros, destacavam o repúdio dos militares, contrários à posse de João Goulart, e a reação dos movimentos sociais frente à crise política que caminhava a passos largos.
Em 27 de agosto de 1961, O Imparcial deu a seguinte manchete: "Forças Armadas não darão posse ao vice-presidente João Goulart". O tom de crise continuou merecendo destaque no jornal Pacotilha, de 29 de agosto do mesmo ano: "Congresso examina a mensagem de Mazzilli contra João Goulart".
Enfrentamentos políticos se anunciavam, como apontou o Jornal do Povo com a manchete "Greve nacional se Jango não for empossado" (27/08/1961).
As organizações sociais iniciaram movimentação e posicionaramse pela legalidade. O Imparcial e a Pacotilha, no final de agosto de 1961, publicaram manifesto dos ferroviários maranhenses, que defendiam o governo de Jango. A Pacotilha noticiou no mesmo número que estudantes de Direito e 26 sindicatos estavam defendendo o regime sob a liderança de Jango.
Os diários também instigaram os posicionamentos políticos das autoridades. O Jornal do Povo não tardou a se queixar da "omissão" do governador Newton Belo, a quem fazia oposição. "O dr. João Goulart foi candidato à vice-presidente como companheiro de chapa do candidato do PSD, Marechal Lott. Apesar disso o governo do Maranhão mantém-se na grave conjuntura nacional vergonhosamente omisso, dubiamente afirmando apenas que está preocupado em manter a ordem" (01/09/1961).
Um golpe. Assim definiu a implantação do parlamentarismo o Jornal Pequeno em 03 de setembro. "(...) O nosso povo ainda não se acha devidamente educado para essa mudança brusca de regime, imposta pelos três ministros militares e aceita, sem protesto e sem resistência, pelo amedrontado Congresso Nacional (...) A fórmula parlamentarista acelerará a intranqüilidade nacional".
Em tom preconceituoso, o Jornal do Povo tece suas considerações pelo sistema parlamentarista no editorial "Parlamentarismo Indígena", de 08 de setembro, onde pregou a inferioridade dos primeiros habilitantes do país em sua comparação à questão política. Sobre a crise, o diário chamou o sistema de gabinete de "autêntico filho abortivo do golpe".
Não por acaso o Diário da Manhã economizou palavras sobre o cenário político brasileiro. Ligado aos grupos conservadores, o veículo, em um único editorial, fez o chamamento à ordem, frisando três entidades - Deus, Pátria e Família.
Sobre os discursos dos jornais, "não se encontram grandes diferenças, no nível léxico-sintático, nem mesmo gráfico, entre os textos dos jornais oposicionistas e o do veículo de comunicação do governador Newton Belo", afirma Ferreira Júnior. O pesquisador notou ainda a falta de uma exposição mais pormenorizada nos jornais sobre o sistema parlamentarista.
"A manutenção dos debates nos limites das idiossincrasias locais foi uma decisão que carrega o medo de não poder escapar do plano dualístico, mesmo que o assunto não traga consigo o melhor pretexto para nutrir, no conteúdo verbo-jornalístico, a acirrada dissensão", analisa o professor.
"Plebiscito não salvará coisa alguma"
A tentativa de contornar a crise política através da adoção do sistema parlamentarista sofreu seu revés com o plebiscito, programado para 1965 e antecipado para 1963. Com a negativa popular, a crise sucessória se acentuou.
Nos jornais maranhenses, a oposição ao parlamentarismo acusava o novo regime de "trazer grave prejuízo para nossa pátria", segundo o editorial do jornal Diário da Manhã, porta-voz do PSD, de 12 de dezembro de 1962: "...tomamos posição (...) para condenar o parlamentarismo heterodoxo, que, ao nosso ver, vem não só manietando como seriamente comprometendo o Governo da República"...
O Jornal Pequeno foi crítico mordaz da causa parlamentarista, mas, embora enérgico na defesa de Jango, vociferou contra o vice de Jânio em 06 de janeiro de 1963, dia do referendum: "Jango pressionou o eleitorado nacional e corrompeu os partidos, custeando as excursões políticas de seus dirigentes para a propaganda do plebiscito, que não salvará coisa alguma".
Com o naufrágio da saída parlamentarista, a cena política foi abalada pela tomada do poder pelos militares em 1964 e o exílio de Jango.
Sobre a palavra na arena do jornalismo, o professor Ferreira Júnior finaliza: "o modo de pensar dos periódicos de São Luís tendeu a ratificar a densidade do apelo ´nativista´ concentrador, que assumiu a opção pelo presidencialismo".
* Jornalista integrante do Núcleo de Memória da Imprensa do Maranhão, fundado pela Associação Maranhense de Imprensa (AMI). E-mail: ami-ma@bol.com.br
Primeiro Doutor em Jornalismo do Brasil: celebração dos 30 anos
Em solenidade realizada no dia 4 de setembro de 2003, no Auditório principal da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais PUC-Minas, a Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação INTERCOM prestou homenagem ao seu fundador, Prof. Dr. José Marques de Melo, celebrando os 30 anos do seu Doutorado em Jornalismo. O evento contou com a presença de mais de uma centena de participantes, representando instituições nacionais e estrangeiras.
O Professor Marques de Melo foi o primeiro acadêmico brasileiro a conquistar o título de Doutor em Jornalismo no país, acontecimento registrado no dia 26 de fevereiro de 1973, na Universidade de São Paulo. Ele defendeu a tese "Fatores Sócio-Culturais que Retardaram a Implantação da Imprensa no Brasil", reeditada sob a forma de livro pela Editora da PUC do Rio Grande do Sul, com o título HISTÓRIA SOCIAL DA IMPRENSA (Porto Alegre, 2003).
Organizado pela Profa. Dra. Maria Cristina Gobbi (Cátedra UNESCO/UMESP), Profa. Dra. Sandra Freitas (PUCMG), Profa. Dra. Ruth Viana (UFMS) e Profa. Dra. Juçara Brittes (UFES), o seminário de Belo Horizonte foi aberto pela Presidente da INTERCOM, Profa. Dra. Sonia Virgínia Moreira, que enalteceu o papel do homenageado como artífice do campo acadêmico da comunicação no Brasil e responsável pela sua legitimação internacional.
Representaram a comunidade mundial das ciências da comunicação no evento as seguintes personalidades: Prof. Dr. Manuel Pares i Maicas (ex-presidente da International Association for Media and Communication Research IAMCR e membro fundador da World Network of UNESCO Communication Chairs - ORBICOM), Profa. Dra. Margarida Kunsch (Presidente da Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación ALAIC), Profa. Dra. Maria Immacolata Vassalo de Lopes (Presidente da Associação Italo-Latinomericana de Ciências da Comunicação), Profa. Dra. Cicília Peruzzo (Vice-Presidente da Federação Lusófona de Ciências das Comunicação LUSOCOM), Prof. Dr. John Downing (University of Texas, USA), Prof. Dr. Jorge Pedro Souza (Universidade Fernando Pessoa, Portugal), Prof. Dr. Salvador Alsius (Universidade Pompeo Fabra, Espanha), Prof. Dr. Dov Shinar (Universidade Ben Gurion, Israel), Prof. Valério Fuenzalida (Universidade Católica do Chile) e Prof. Gustavo Cimadevilla (Universidade Nacional de Rio Cuarto, Argentina).
Fizeram depoimentos públicos sobre a trajetória comunicacional do Professor Marques de Melo os seguintes pesquisadores brasileiros: Profa. Dra. Juçara Brittes (Universidade Federal do Espírito Santo), Profa. Dra. Sandra Freitas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais), Prof. Dr. Pedro Gilberto Gomes (Universidade do Vale dos Sinos), Profa. Dra. Ruth Vianna (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), Profa. Dra. Magnólia Rejane dos Santos (Universidade Federal de Alagoas), Profa. Dra. Beatriz Dornelles (Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul), Profa. Dra. Fátima Feliciano (Centro Universitário Alcântara Machado), Profa. Dra. Anmaria Fadul (Universidade de São Paulo), Prof. Dr. Adolpho Queiroz (Universidade Metodista de São Paulo) e Prof. Dr. Carlos Eduardo Lins da Silva (Editor-Adjunto do jornal Valor Econômico).
O Professor Marques de Melo foi ainda homenageado pela Profa. Dra. Sueli Ferreira, na abertura do XIII ENDOCOM Encontro de Documentação em Ciências da Comunicação, pela sua atuação como inspirador da PORT-COM Rede de Informação em Ciências da Comunicação nos Países de Língua Portuguesa e pelo Prof. Dr. Paulo Rogério Tarsitano, coordenador da X EXPOCOM Exposição Universitária da Pesquisa Experimental em Comunicação pelo seu incentivo permanente à pesquisa laboratorial e aos estudos empíricos da comunicação. A assembléia de constituição da Associação Ítalo-Latinoamericana de Ciências da Comunicação deliberou, por unanimidade, elegê-lo como Presidente de Honra da entidade, juntamente com as seguintes personalidades: Jesus Martin Barbero (Colômbia), Giovanni Bechelloni e Giuseppe Richeri (Itália).
Durante o XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, realizado no campus Coração Eucarístico da PUC Minas, na sessão dedicada ao lançamento de livros sobre comunicação, Marques de Melo autografou exemplares dos seus novos livros: História do Pensamento Comunicacional (Paulus) e Jornalismo Brasileiro (Sulina), bem como das reedições das suas teses de doutorado História Social da Imprensa (Edipucrs) e de livre-docência Jornalismo Opinativo (Mantiqueira).
Foram anunciados, ainda, o lançamento do CIBERMEMORIAL MARQUES DE MELO, organizado pela Profa. Dra. Fátima Feliciano , acessível no sítio digital http://www.marquesdemelo.com.br/ -, bem como da monografia PENSAMENTO COMUNICACIONAL ALAGOANO, publicação da EDUFAL, reproduzindo a Aula Magna proferida em Maceió, na solenidade de outorga do título de Doutor Honoris Causa pela na Universidade Federal de Alagoas. Circulou também entre os participantes do congresso da INTERCOM o folheto de cordel O MAIOR PESQUISADOR DE COMUNICAÇÃO PROFESSOR JOSÉ MARQUES, ORGULHO ALAGOANO, de autoria da jovem poeta Elessandra Araújo, ilustrado pelo xilógrafo Julian Santos de Pantas, por iniciativa do Laboratório de Pequenos Meios da UFAL, sob a supervisão do Prof. Dr. Antonio Freitas., com o apoio da Casa da Arte de Maceió www.decos.ufal.br/casadaarte
Natural da cidade de Palmeira dos Índios, Estado de Alagoas, José Marques de Melo, iniciou sua carreira como jornalista profissional em 1959 na imprensa de Maceió, continuando-a posteriormente em Recife e São Paulo. Completou estudos universitários nas áreas do Jornalismo e das Ciências Jurídicas e Sociais, em Pernambuco, tendo feito pós-graduação em Ciências da Informação Coletiva no Centro Internacional de Estudios Superiores de Periodismo para América Latina (Quito, Ecuador). Defendeu teses de Doutorado e Livre Docência em Jornalismo na Universidade de São Paulo, onde chegou ao ápice da pirâmide acadêmica como Professor Catedrático do Departamento de Jornalismo e Diretor da Escola de Comunicações e Artes. Realizou programas de pós-doutorado na Universidad Complutense de Madrid e na University of Wisconsin (USA) e atuou como professor visitante na Universidade Autônoma de Barcelona, Universidade do Texas, Universidade Iberoamericana do México e Universidade Diego Portales do Chile, entre outras. Publicou duas dezenas de livros e duas centenas de livros, além de haver supervisionado mais de cem teses e dissertações no campo das ciências da comunicação. Professor Emérito da Universidade de São Paulo, dirige atualmente a Cátedra UNESCO de Comunicação na Universidade Metodista de São Paulo.
Eles mudaram a imprensa brasileira
Nicolau Svecenko (Fonte: Folha de S. Paulo, 20/09/2003)
Esses três pesquisadores produziram um livro fascinante. Focados na cabine de comando dos mais importantes órgãos de imprensa no período 1970-80, eles os apresentam como protagonistas das grandes mudanças em curso no país, naqueles momentos decisivos, ao mesmo tempo em que examinam as intensas metamorfoses pelas quais esses periódicos passavam internamente.
Para isso, interpelaram os próprios timoneiros desses veículos de comunicação, através de entrevistas ao longo das quais eles vão revelando desde suas trajetórias pessoais, até seus projetos de percurso, os obstáculos com que se confrontaram e as metas que cumpriram.
A ênfase dos depoimentos recai, claro, sobre o desafio dos tempos tormentosos, os riscos de mares desconhecidos, os motins, os desvios de rota, a piratagem e o horror das calmarias, quando tudo fica plano, chato e vão, sem os ventos da aventura ou as correntes da imaginação.
Os três pesquisadores em questão são Alzira Alves de Abreu, Fernando Lattman-Weltman e Dora Rocha, ligados ao Centro de Pesquisa e Documentação (Cpdoc), da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro, organizadores do volume "Eles Mudaram a Imprensa" (Editora FGV).
Os "condottieri" da imprensa escolhidos foram Evandro Carlos de Andrade, encabeçando "O Globo" e mais tarde também o jornalismo da TV Globo; Alberto Dines, responsável pelo "Jornal do Brasil" e depois articulador do "Observatório da Imprensa"; Mino Carta, criador sucessivamente de "Quatro Rodas", "Jornal da Tarde", "Veja", "Isto É" e "Carta Capital"; Roberto Müller Filho, o estrategista da "Gazeta Mercantil"; Augusto Nunes, reformulador de "O Estado de S.Paulo" e do "Zero Hora" gaúcho e, finalmente, por ser o mais jovem, Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha, que levou adiante as reformas introduzidas no jornal por Cláudio Abramo.
Como se vê, uma proeza. Que se traduz, para nós leitores, num autêntico privilégio, o de acompanhar essas criaturas determinadas, submetidas a tensões extremas de diferentes matrizes, tomando decisões e assumindo alternativas em três fronts simultâneos: o ético e político, o jornalístico e o administrativo.
Em nenhuma dessas frentes o confronto foi mais leve, o que era acentuado pela atmosfera opressiva desses anos de chumbo e de radicais transformações tecnológicas, com um impacto forte no âmbito das comunicações.
Da difusão em massa da televisão, da
internet, da telefonia digital, dos satélites estacionários, às TV a cabo, o jornalismo
impresso tinha que se redefinir num mundo dominado cada vez mais pela espetaculosidade dos
recursos orais e visuais. Nenhuma aposta era garantida, nenhum resultado previsível,
nenhuma conquista permanente.
E no entanto, para a surpresa do leitor, esses capitães da imprensa renunciam a qualquer
imagem de heroísmo, seu pessoal ou do jornalismo em geral, insistindo no caráter
coletivo do trabalho, na pressão excepcional das circunstâncias e na inexorabilidade das
mudanças.
Por mais diferentes que eles sejam, pelas
personalidades, pelas gerações, pela formação, pelos estilos de atuação, esse traço
lhes é comum. Suspeitam de qualquer concepção salvacionista do jornalismo, suscetível
de alimentar a arrogância de que se tem a posse da verdade. Enfatizam o papel, não menos
crucial, de instilar a dúvida, relativizar as posições e nutrir o diálogo que mantém
pulsante o espírito público, mantendo um compromisso abnegado com a honestidade, a
lisura e a transparência.
Os depoimentos convergem em admitir que esse é um ideal difícil de cumprir à risca; mas
é o único pelo qual vale a pena lutar.
O livro não se prende ao período 1970-80, abrangendo desde pelo menos os anos 1950 até hoje. Nem se limita aos personagens entrevistados, envolvendo toda uma plêiade de intelectuais, de Lima Barreto a Cláudio Abramo e Raymundo Faoro. Dado o impacto inovador que tiveram, sente-se a falta de capítulos dedicados à revista "Realidade", aos alternativos e, sobretudo, ao "Pasquim". Prevalece o raio-X de algumas das mais ousadas aventuras culturais na história recente do país. E nada como a história contada por quem a fez e ainda faz.
Nicolau Sevcenko é professor de história da cultura na USP e autor de, entre outros, "Orfeu Extático na Metrópole" (Companhia das Letras)
Eles Mudaram a Imprensa
Autores: Alzira Alves de Abreu, Fernando
Lattman-Weltman, Dora Rocha (orgs.)
Editora: FGV
Quanto: R$ 44 (400 págs.)
Pedro Parafita Bessa: as lembranças de Maria Célia
Rogério Faria Tavares
Maria Célia Castro Bessa me recebeu no anoitecer de domingo, seis de julho, em sua casa do bairro da Serra. Foi a primeira vez que a viúva do professor Pedro Parafita de Bessa aceitou falar sobre o marido, morto aos 79 anos em 17 de setembro do ano passado, vítima de um acidente vascular cerebral.
Nas paredes da sala, Guignard, Manabu Mabe e Pancetti testemunharam a nossa conversa. Amor antigo do casal, durante muito tempo Pedro e Maria Célia freqüentaram um curso de história da arte em Belo Horizonte. Dos três filhos, Romeu, o mais velho, acabou se tornando artista plástico. Hoje, ensina e pesquisa a "infoarte" na Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, onde mora há quatorze anos. Letícia é psicóloga, como os pais, e Tereza dá aulas de Inglês, mesmo tendo se formado em Física e em Medicina.
Maria Célia esteve ao lado de Pedro por quarenta anos. Só agora o ciclo do luto está se fechando, ela conta. Psicanalista em plena atividade, esta mineira da cidade de Luz, no oeste do Estado, conheceu o marido quando trabalhavam no SOSP, o Serviço de Orientação e Seleção Profissional da capital mineira. Nascido em Juiz de Fora, onde residiu até os dezesseis anos, Pedro passou um ano em Portugal na companhia do pai, natural de Amarante, localidade vizinha ao Porto. Voltaram ao Brasil no último navio que partiu de Lisboa antes de estourar a segunda grande guerra. Foram direto para Belo Horizonte.
Pedro integrou a primeira turma do curso de Ciências Sociais da Universidade de Minas Gerais,o que hoje é a UFMG.Foi quando cursava a disciplina de Psicologia Educacional que escreveu o artigo "Uma analise do conteúdo dos jornais", publicada em 1952 na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. A matéria era lecionada por Helena Antipoff, introdutora da psicologia em Beagá.No final do semestre,ela se transferiu para o Rio de Janeiro e Pedro, o aluno mais brilhante, dono das melhores notas, agora já graduado, foi selecionado para ocupar a cadeira.
Maria Célia acredita que o artigo tenha sido o único que Pedro escreveu sobre o tema da Imprensa, já que depois se dedicou aos temas da Psicologia. Ela descreve o marido como leitor compulsivo de pelo menos quatro jornais todos os dias: stado de Minas, Folha de S. Paulo, JB e um último que variava. Pede que eu procure o professor Raimundo Nonato Fernandes, melhor amigo do Bessa, porque confia em que ele terá mais informações sobre o que o professor pensava a respeito dos meios de comunicação. Ela, sinceramente, não tem registros sobre o que levou o marido a interessar-se pelo assunto. Carinhosamente diz que Pedro era mesmo biruta:veja só,mediu, com régua, páginas e páginas de jornal.
A paixão maior da vida dele, ela continua, era, sem dúvida, a Universidade. Foram vinte e nove anos de sala de aula.Fundador dos cursos de Psicologia da Federal e da Católica, virou figura emblemática do meio acadêmico mineiro. Maria Célia diz que a vida de Pedro começou a acabar em 1969,quando ele,então diretor da Faculdade de Filosofia, resistiu contra a entrada da polícia do regime militar na escola.Semanas depois, Pedro Parafita de Bessa foi indiciado, respondeu a inquéritos e foi aposentado compulsoriamente, com base em dispositivos do AI5.
Naquele dia ele me disse que tiraram a razão dele de viver, relembra a esposa .A partir daí, iniciou suas atividades clínicas ,com as quais prosseguiu pelo resto da vida.
Com a abertura política, foi convidado para voltar a dar aulas, mas não aceitou. Recebeu,
então, o primeiro título de professor emérito concedido pela UFMG.
Maria Célia arremata: foi uma vida inteira, suspira. Sai da sala e volta com o cartão distribuído aos presentes à missa de sétimo dia do marido. No alto, "Mar Português", poema em que Fernando Pessoa, o predileto de Bessa, pergunta:
"Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu."
Célia revela que, no leito de morte do marido, perguntou a ele se tinha valido a pena. Bessa assentiu vigorosamente com a cabeça. Sinto que ela está aliviada por conseguir narrar todas as histórias com uma saudade tranqüila. Tomo mais um gole de café e anoto os números de telefone de Raimundo Nonato Fernandes, o melhor amigo de Pedro Parafita de Bessa. Confiro a data da publicação do artigo sobre a análise dos jornais: julho de 52.Fico emocionado. Cinqüenta e um anos depois, o texto que aquele então estudante de Ciências Sociais escreveu estava mais vivo que nunca, gerando encontros e ativando memórias.
Walter Galvani é patrono da Feira do Livro de Porto Alegre
Svendla Chaves
Foi anunciado, nesta quinta-feira pela manhã (25/09), o nome do patrono da 39ª Feira do Livro de Porto Alegre. O homenageado deste ano é o jornalista e escritor Walter Galvani, que atua no mercado gaúcho há quase 50 anos. É o segundo ano consecutivo que a Feira destaca profissionais da imprensa: em 2002, o patrono foi o jornalista Ruy Carlos Ostermann.
Walter Galvani começou a carreira jornalística em sua cidade natal Canoas, município da região metropolitana de Porto Alegre no jornal Expressão, em setembro de 1954. No ano seguinte, transferiu-se para o Correio do Povo, veículo da Cia. Jornalística Caldas Júnior, onde construiu boa parte de sua história de trabalho. Entre 1972 e 1975, editou a revista Signo Comunicação, dedicada à área de comunicação social.
Como escritor, Galvani publicou seis obras individuais e participou de duas antologias. O destaque é para o livro biográfico "Nau Capitânia Pedro Álvares Cabral, como e com quem começamos", baseado em investigação histórica feita pelo jornalista em Portugal. A obra teve cinco edições no Brasil e uma em Portugal, em 2000.
Galvani já recebeu diversos prêmios como jornalista e escritor e faz parte da Academia Riograndense de Letras. Foi patrono da Feira do Livro nas cidades de Canoas (1994) e Guaíba (2000). Hoje, é colunista de diversos veículos, atua como consultor de comunicação e tem seu próprio site: www.waltergalvani.com.br.
Sobre a Feira
A Feira do Livro de Porto Alegre é o maior evento do gênero realizado ao ar livre na América Latina. Foi criada em 1955, por iniciativa do jornalista Say Marques, na época diretor-secretário do Diário de Notícias. O objetivo era popularizar o acesso aos livros junto ao público gaúcho, oferecendo descontos e realizando a Feira em lugar de grande circulação: a Praça da Alfândega, no centro de Porto Alegre.
A Feira ganhou patrono a partir de 1965. Os indicados para a homenagem são escolhidos pelos associados da Câmara Rio-Grandense do Livro, organizadora do evento, e o patrono é eleito por um colegiado formado por representantes de entidades relacionadas com a literatura no RS, como diretores de faculdades de Letras, presidentes de entidades ligadas ao livro, secretários de cultura do Estado e do Município e diretores da Câmara Rio-Grandense do Livro.
Série 200 anos da imprensa brasileira
A série "200 anos da imprensa brasileira" foi publicada durante o período Junho/200 a Outubro/2003 na revista IMPRENSA. Tendo em vista a crise vivenciada pela publicação, que alterou a sua periodicidade de mensal para bimestral, reduzindo também o número de páginas de cada edição, várias seções sofreram descontinuidade. Em face disso, decidimos transferir esta série para o JORNAL DA REDE ALCAR, onde os leitores continuarão a acompanhar os perfis de figuras paradigmáticas da nossa imprensa.
Maura de Senna Pereira, a primeira jornalista catarinense
Andressa Braun*
Tudo começou graças a um empurrãozinho de José Acrisio, redator em 1923 de um dos mais importantes jornais da capital catarinense. Ele desafiou publicamente as mulheres a escreverem na imprensa de Florianópolis. A resposta ao desafio chegou à redação de O Elegante poucos dias depois, e a responsável foi Maura de Senna Pereira, pseudônimo: Alba Lygia. Em pouco tempo, o nome verdadeiro foi descoberto, e Santa Catarina conhecia aquela que viria a ser considerada a primeira jornalista do Estado de fato.
Uma mulher à frente do seu tempo, assim foi Maura de Senna Pereira. Ela nasceu em março de 1904, aprendeu a ler antes mesmo de freqüentar a escola; e aos 19 anos, com a morte do pai e de um de seus irmãos, teve que trabalhar para sustentar a família de 10 pessoas. Foi nesse momento que Maura assumiu sua primeira profissão, a de professora. Mas essa ocupação seria apenas para garantir a renda da família porque desde o primeiro artigo para O Elegante, Maura não deixaria mais de escrever.
O roteiro pela imprensa catarinense
Presbiteriana, a jornalista exerce, em 1924, a presidência da Sociedade Auxiliadora dos Moços, e escreve para o jornal O Atalaia, ambos ligados à Igreja. Sua primeira participação expressiva na imprensa será, no entanto, no mesmo O Elegante de seu artigo precursor. (foto1) Ela retoma sua vocação para o pioneirismo e escreve em 31 de março de 1925 aquele que viria a ser o primeiro artigo feminista publicado em Santa Catarina: "Volvamos nossas vistas para o porvir". Ele será parte de uma série publicada na seção "Feminismo", da qual Maura tornou-se responsável.
"Nesses últimos tempos, com especialidade, muito se há pregado uma profissão para a mulher. Que ella se não dedique exclusivamente á aprendizagem de encargos domésticos e prendas essencialmente feminis. E o que é mais: que não viva unicamente a cuidar de si, para apparecer bem, bem mascarada, á força de rouge, carmin e crayon, vivendo a vida material das futilidades e do coquettismo, das mentiras de salão, cuidando das modas e de flirt, em busca do marido rico, de invejável posição social, a quem levianamente entregará o coração e a vida, sem a menor reflexão, quasi sempre sem amor, e que lhe assegurará a mesma existência cômmoda e chic. (...)"
Um ano depois, passa a escrever a coluna "À la garçonne", do jornal florianopolitano Folha Nova. "Nela, Maura traçava perfis de senhoras e senhoritas da elite catarinense, não dentro dos padrões da época, mas mostrando sua importância pelas atividades que desenvolvem", explica Rosa Maria Schroeder, autora da dissertação de mestrado Uma mulher além de seu tempo: Maura de Senna Pereira.
Porém, sua participação mais duradoura na imprensa da Florianópolis da época ocorre no jornal República, onde escreve por sete anos. Em maio de 1931, seu nome aparece no expediente do jornal entre os redatores principais. A partir de então, Maura se torna responsável pela página "Domingo Literário", publicada semanalmente. Na seção, seu nome figura como diretora geral, sempre no topo da página emoldurada e decorada. Nesse período em que a comunicação entre Florianópolis e os outros centros culturais é escassa, Maura traz para a capital catarinense poemas e artigos de autores de outros estados brasileiros, e até mesmo de fora do país.
Lauro Junkes, escritor e presidente da Academia Catarinense de Letras da qual Maura fez parte graças a seu jornalismo engajado e presença intelectual marcante na vida social de Florianópolis diz que a maior contribuição da escritora foi conseguir a projeção da mulher em uma atividade predominantemente masculina. "Maura foi uma mulher de espírito avançado em tudo", afirma.
As bandeiras
As principais lutas de Maura eram relacionadas às mulheres. Ela defendeu incessantemente o direito da mulher ocupar novos espaços na sociedade de não ficarem restritas à esfera do lar , o direito ao divórcio e ao voto feminino. "Para Maura, a educação seria o meio das mulheres conseguirem ficar em posição de igualdade com os homens", explica a mestre em História Rosa Maria Schroeder.
No que diz respeito ao divórcio, a jornalista sentiu na pele o preconceito da sociedade da época. Aos 27 anos, casou-se pela primeira vez e foi morar no Rio Grande do Sul, terra-natal do seu então marido. Frustrada, rompe o casamento e volta para Florianópolis. Não permanece na Ilha nem por um ano. Não havia espaço para mulheres separadas, muito menos no meio público.
Um exemplo de mulher para Maura - e tema recorrente de seus artigos -, foi Anita Garibaldi. Além do heroísmo de Anita, a jornalista destacou, em seus escritos, a mulher que não se conformava com os papéis já estabelecidos pela sociedade e assumia novas posturas. Apesar de ressaltar essas qualidades, ela fez questão de citar os atributos da heroína ditos femininos, já que eram esses os respeitados pela sociedade. "Pode-se dizer que Maura foi uma feminista possível para a época, porque uma pessoa, por mais que inove, nunca está totalmente desligada de seu contexto", explica a mestre em História.
Além de defender causas feministas que somente mais tarde as militantes começariam a reivindicar, a jornalista também prenunciou uma consciência ecológica que surgiu apenas nas últimas décadas do século passado.
Rio de Janeiro, a terra adotada
Depois da separação do primeiro marido, Maura vai morar no Rio de Janeiro, cidade onde vive até o fim da vida e encontra como ela mesmo descreve em poemas o verdadeiro amor. Conhece o escritor José Coelho de Almeida Cousin, poeta mineiro de quem já havia publicado textos em seu "Domingo Literário" do jornal República, em Florianópolis. Em 1942, Maura passa a viver com o escritor e desperta mais fortemente para a poesia. A partir de então, torna-se novamente pioneira: aborda a perspectiva sexual das mulheres em seus textos.
Na imprensa carioca, Maura trabalhou em diversos jornais e revistas. Entre eles, A Noite, A Manhã e Vida. A impossibilidade de ter filhos fez com que se interessasse por alguns temas relacionados ao assunto. Em A Noite, por exemplo, a jornalista publica várias reportagens sobre o parto sem dor, realizadas na maternidade Clara Basbaum. Em 1957, a série torna-se livro e um fenômeno de vendas na Feira realizada naquele ano, no Rio de Janeiro. No jornal A Manhã, Maura escreve ainda inúmeras reportagens sobre fecundidade, esterilidade e terapêutica psiquiátrica.
No entanto, sua colaboração mais duradoura na imprensa carioca se dá no jornal Gazeta de Notícias. Primeiro, como criadora e responsável pelo suplemento "Mulher" que inicia em 1950. Mais tarde, como editora das colunas "Casa de Boneca" e "Nós e o Mundo".
Depois da mudança e união com Cousin, a jornalista retorna poucas vezes à Florianópolis, muitas delas para participar de eventos públicos e representar, como no período em que morou na sua terra-natal, a mulher catarinense. Maura de Senna Pereira, a mulher que abriu portas para as novas jornalistas e questionou valores enraizados na sociedade, morre no Rio de Janeiro em 1992, aos 88 anos, deixando legado significativo ao mundo jornalístico e literário.
Jornalista e poetisa
A veia poética acompanhou Maura de Senna Pereira em toda sua vida. É reconhecida por grandes escritores e está expressa em diversos livros. Carlos Drummond de Andrade avaliou sua poesia como de "alta meditação existencial". Jorge Amado classificou seus versos como "densos e fortes".
Seu primeiro livro foi Cântaro de Ternura, publicado em 1931, seguido de Poemas do Meio-Dia (1949) e Círculo Sexto (1959). País de Rosamor, de 1962, é considerado pelos críticos uma de suas principais obras e representa uma síntese do pensamento da escritora. Nele, Maura propõe um novo mundo, de uma sociedade igualitária, socialmente justa e em harmonia com a natureza.
Em 1980, a autora escreve Despoemas, um livro de apenas 23 páginas, seguido de Cantiga de Amiga, editado em 1981. Poemas-Estórias, de 1984, é um misto de poesia, conto, fábula narrativa e fábula poética. Seus últimos livros 7 Poemas de Amor e Busco a Palavra foram publicados em 1985, sete anos antes de sua morte.
Bibliografia Consultada
Atalaia, O 1924; Elegante, O 1923, 1925; Folha Nova 1926; Pátria, A - 1931; República 1928, 1929, 1931; PEDRO, Joana Maria. Mulheres honestas e mulheres faladas: uma questão de classe. Florianópolis: Editora da UFSC, 1994; PEDRO, Joana Maria. Nas tramas entre o público e o privado: a imprensa de Desterro no século XIX. Florianópolis: Editora da UFSC, 1995; PEREIRA, Maura de Senna. Busco a Palavra. Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1985; PEREIRA, Maura de Senna. Nós e o Mundo: crônicas resenhas artigos. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1976; PEREIRA, Maura de Senna. Poemas-Estórias. Rio de Janeiro: Achiamé, 1984; PEREIRA, Maura de Senna. Verbo Solto. Rio de Janeiro: Livraria Kosmos Editora, 1982; PIAZZA, Walter F. (organizador). Dicionário Político Catarinense. Florianópolis: Edição da Assembléia Legislativa do Estado de Santa Catarina, 1994; SCHROEDER, Rosa Maria Steiner. Uma mulher além de seu tempo: Maura de Senna Pereira. Dissertação de Mestrado em História, UFSC, 1997.
* Acadêmica de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina e Pesquisadora do Núcleo Catarinense da Rede Alfredo de Carvalho