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JORNAL DA REDE ALCAR
Ano 3, N. 3201 de agosto de 2003

Editores Responsáveis:

José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) / email: marquesmelo@uol.com.br e Francisco Karam (FENAJ/UFSC) / email: fjkaram@terra.com.br

Edição digital – Profa. Maria Cristina Gobbi e Adriana Crozariol (UMESP)

Sítio digital – Prof. Clovis Geyer e Ana Paula de Souza (UFSC)

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Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Colaboradores desta edição: Roseane Arcanjo (São Luis – MA), Sandra Freitas (Belo Horizonte- MG), Valdenizio Petrolli (São Caetano do Sul), Steve Connor (New York, USA), Raquel Pinto (Rio de Janeiro – RJ), Laura Mattos (São Paulo), Delmar Marques (Porto Alegre), Maurício Thuswohl (Rio de Janeiro), Silvana Arantes (São Paulo), Gilberto de Mello Kujawski (São Paulo), Esther Hamburger (São Paulo), Luis Victorelli e Tânia Orsi (Bauru – SP), Leonel José de Oliveira (Lajeado – RS), Gustavo Accioli (Maceió – AL), Fernando Lattman-Weltman (Rio de Janeiro – RJ), Aluízio Falcão (São Paulo – SP)

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www.jornalismo.ufsc.br/redealcar

www.metodista.br/unesco/redealcar

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Sumário:

Noticiário da Rede Alcar

II Encontro Nacional em Florianópolis

Anais do I Encontro publicados pela UniCarioca

Rede Alcar no Rio Grande do Sul

Rede Alcar no Maranhão

Rede Alcar em Minas Gerais

Rede Alcar no ABC Paulista

Rede Alcar no Rio de Janeiro

Capítulos de História da Mídia

Incas teriam inventado linguagem binária

O nascimento da imprensa brasileira

TV Globo: a história oficial

As empresas familiares e os problemas de sucessão na indústria jornalística

Trajetória de Ary Carvalho: de "Última Hora" e "Zero Hora" a "O Dia"

Estado e mídia no Brasil Republicano: de Deodoro a Vargas

Julio Mesquita: aula magna de jornalismo

Dicionário da Globo recupera a história da TV

Mazzaropi: uma visão cômica do capitalismo brasileiro

O Taquaryense: jornal centenário gaúcho que mantém faceta gutenbergiana

Memória Alagoana: a trajetória jornalística de Costa Rego

Eles mudaram a imprensa nacional: depoimentos ao CPDOC-FGV

Centenário de Mário Ferraz Sampaio: projeto de comemoração

Agripino Grieco: protótipo do polemista brasileiro

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Noticiário da Rede Alcar

II Encontro Nacional em Florianópolis

Conforme deliberado pela plenária do Rio de Janeiro, o II Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho vai se realizar em Florianópolis (SC), no período de 21 a 23 de abril de 2004, na seqüência do Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo.

Os dois eventos conjuntos integram a programação comemorativa dos 25 anos de fundação do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina. O encontro da Rede Alcar será organizado pelo Prof. Dr. Francisco Karam, Titular da Cátedra FENAJ/UFSC de Jornalismo, unidade acadêmica parceira da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação no lançamento da Rede em abril de 2001.

A programação preliminar do nosso encontro está a seguir esboçada:

II ENCONTRO NACIONAL DA REDE ALFREDO DE CARVALHO

Florianópolis, 21-23 de abril de 2004

Tema central:

História do Ensino de Jornalismo e das Profissões Midiáticas no Brasil

Evento promovido pela Rede Alcar

Rede Alfredo de Carvalho para a Preservação da Memória da Imprensa e a Construção da História da Mídia no Brasil

Realização:

Cátedra FENAJ de Jornalismo

Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Santa Catarina

Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina

Parceria institucional:

ABI, FENAJ, IHGB

ABECOM, COMPÓS, INTERCOM

Fórum dos Professores de Jornalismo

Apoio cultural:

Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação / Revista IMPRENSA

Comissão organizadora:

Eduardo Meditsch, Francisco José Karam, Sérgio Mattos, Sérgio Murillo de Andrade, Valci Zuculoto, Rogério Christofoletti

Comitê acadêmico:

José Marques de Melo, Ana Arruda Callado, Esther Bertoletti, Cybelle de Ipanema, Marialva Barbosa, Marco Morel, Francisco José Karam

Secretaria-executiva:

Francisco José Karam e Dalton Barreto

fjkaram@terra.com.br; dalton@cce.ufsc.br

Os participantes do I Encontro da RedeAlcar

poderão inscrever trabalhos em 3 categorias:

1) – CC - Comunicação Científica:Trabalhos em GTs (Professores, Pesquisadores, Pós-Graduandos) ou IC - Iniciação Científica (Estudantes de Graduação);

2) Memória (Profissionais e Empresários);

3) Produtos Audiovisuais (Filmes, Vídeos, CDRoms, etc)

Calendário:

Resumos (06 de fevereiro de 2004)

Textos completos (até 27 de fevereiro de 2004)

Inscrição de trabalhos:

Os resumos e textos de comunicações científicas ou iniciação científica devem ser enviados diretamente aos coordenadores de GTS,

As propostas referentes a Memória e Produtos Auviovisuais devem ser enviadas aos cuidados de F. Karam, para: realcar@cce.ufsc.br

GTs – Grupos de Trabalho de História da Mídia

Coordenação nacional:

José Marques de Melo (USP / UMESP)

Email: marquesmelo@uol.com.br

Coordenação local:

Francisco José Karam (UFSC)

Email: fjkaram@terra.com.br

  1. História do Jornalismo
  2. Coordenadora: Marialva Barbosa (Universidade Federal Fluminense_

    Email: mcb1@terra.com.br

  3. História da Publicidade
  4. Coordenador: J. B. Pinho (Universidade Federal de Viçosa)

    Email: jbpinho@ufv.br

  5. História da Propaganda
  6. Coordenador Adolpho Queiroz (UMESP)

    Email: acfq@merconet.com.br

  7. História das Relações Públicas
  8. Coordenadora: Claudia Moura (PUCRS)

    Email: cpmoura@pucrs.br

  9. História da Mídia Impressa (Jornal, Revista, Livro)
  10. Coordenador: Luis Guiulherme Pontes Tavares (NEHIB)

    Email: editor@alba.ba.gov.br

  11. História da Mídia Sonora (Rádio, Disco, Fitas)
  12. Coordenadora: Ana Baum (UFF)

    Email: ana.baum@ig.com.br

  13. História da Mídia Visual (Fotografia, HQ, Cartazes)
  14. Coordenadora: Sonia Luyten (Unisantos)

    Email: sonialuyten@hotmail.com

  15. História da Mídia Audiovisual (Cinema, Televisão)
  16. Coordenadora: Ruth Vianna (UFMS)

    Email: viannar@terra.com.br

  17. História da Mídia Digital (Web e NTCs)
  18. Coordenador: Walter Lima (UniFIAM)

    Email: digital@walterlima.jor.br

    10. História da Mídia Educativa

Coordenadora: Marlene Blois (UniCarioca)

Email: mmblois@univir.br

Calendário:

Resumos (até 06 de fevereiro de 2004),

Aceite dos coordenadores (até 13 de fevereiro de 2004)

Textos completos dos trabalhos aceitos (até 27 de fevereiro de 2004)

Obs 1.: Os trabalhos devem ser encaminhados para os/as coordenadores de GTS (ver formato, corpo, etc.). O tempo de apresentação de cada trabalho, no GT, oralmente, será de 20 minutos. O texto completo deverá ser enviado na data prevista, para que seja providenciado CDROM (produzido pelo Curso de Jornalismo da UFSC) com todos os textos dos GTS mais os de Iniciação Científica , a serem entregues ao final do II Encontro da Redealcar.

Obs. 2: os trabalhos de iniciação científica (que podem versar sobre história das mídias em geral ou de qualquer mídia específica) devem também ser encaminhados para os coordenadores de cada grupo em que couberem;

Obs. 3: os produtos a serem apresentados deverão ser encaminhados à comissão organizadora do evento (definir modelo de cópia, versão, formato...até o prazo final de inscrição)

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Anais do I Encontro publicados pela UniCarioca

A equipe organizadora do I Encontro Nacional da Rede Alcar, sob a liderança de Cláudia Chaves, cumpriu o compromisso assumido com os participantes do evento, publicando em CDRom os Anais do Encontro do Rio de Janeiro. Eles foram distribuídos a todos os participantes que inscreveram trabalhos e compareceram ao evento, no período de 1 a 4 de junho de 2003.

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Rede Alcar no Rio Grande do Sul

Está programado para o dia 1 de agosto, em Porto Alegre, o lançamento do Núcleo Gaúcho da Rede Alfredo de Carvalho. O evento está sendo convocado conjuntamente pelo Presidente da Rede Alfredo de Carvalho para a Preservação da Memória e a Construção da História da Imprensa no Brasil, Prof. Dr. José Marques de Melo,e pelo Diretor do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, Historiador Antônio Renato Henriques,

A agenda do evento compõe-se das seguintes atividades:

1 – Abertura do ato: pelo Vice-Governador do Estado do Rio Grande do Sul, Prof. Dr. Antonio Hohlfeldt

2 –Apresentação da Plataforma da Rede Alcar pelo Prof. Dr. José Marques de Melo

3 – Exposição sobre a Memória da Mídia Gaúcha pelo Historiador Antonio Renato Henriques

4 – Propostas e Projetos para Construir a História da Mídia no Rio Grande do Sul pelos representantes das entidades que formarão o Núcleo Gaúcho da Rede Alcar.

Na próxima edição deste jornal publicaremos noticiário completo sobre o evento de Porto Alegre.

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Rede Alcar no Maranhão

Roseane Arcanjo (AMI – Associação Maranhense de Imprensa)

Envio notícias sobre a imprensa no Maranhão para os colegas da Rede. Não pude ir ao Encontro da Rede Alcar, mas incentivei dois colegas - Francisco Frazão e Marcos Fábio Matos, que participaram do evento, apesar das dificuldades e apresentaram pesquisas sobre o cinema e São Luís e charges nos jornais no séc. XIX. Eles não tiveram apoio da Faculdade onde lecionam.

Realmente estamos com problemas para articular o Núcleo, em função de excesso de trabalho dos colegas e horários incompatíveis. Mesmo assim, temos conversado e nosso desejo é começar os seminários locais da rede após as férias de julho.
Conseguimos também um espaço em O Estado do Maranhão para publicar matérias sobre memória e imprensa mensalmente. Vamos pautar os esforços para preservar a história da imprensa maranhense.

Tenho uma novidade: descobri um pesquisador do rádio maranhense. Ele é filho de um radialista já falecido e tem material para lançar um livro. Estou fazendo os contatos.
Aproveito para congratular todos da Rede Alcar pelo êxito do Encontro do Rio. Alíás gostaria de continuar recebendo as informações sobre os próximos eventos nacionais ou regionais.

1. Pesquisadores maranhenses no Encontro do Rio

Os professores Faculdade São Luís, Marcos Fábio Belo Matos e Francisco Frazão, que fazem parte do Núcleo da Rede Alcar-MA, participaram do I Encontro da Rede Alfredo de Carvalho, no Rio de Janeiro. O evento, que reuniu pesquisadores, jornalistas, estudantes de jornalismo, tem como objetivo realizar um inventário da imprensa no Brasil, que comemorará seu bicentenário em 2008. Marcos Fábio lançou o livro "... E o cinema invadiu a Athenas – A história do cinema ambulante em São Luís". A obra é resultado da dissertação de Mestrado em Comunicação e Cultura na UFRJ. Francisco Frazão, também Mestre em Comunicação e Cultura na UFRJ, apresentou As charges no jornalismo impresso maranhense no século XIX (1876 – 1880) .

Charges – De acordo com o professor Francisco, a charge e o seu contexto histórico em fins do século XIX na imprensa maranhense remonta aos primórdios da imagem impressa em nosso jornalismo. Em seu trabalho, procurou reconstituir os diversos fatores que intervieram nesse meio visual. A análise do desenho, nesse contexto, recebe a orientação e apoio da Semiologia de base lingüística. O estudo do discurso visual, entretanto, não se faz isolado ou restrito em suas estruturas, mas articulado com o contexto histórico. "A linguagem visual (a charge) e a não-verbal (entendida aqui como os diversos tipos de textos do jornalismo impresso) se intercruzam e interpenetram no amálgama da linguagem jornalística. No século XIX, em especial no Maranhão, esse discurso se mostrou como uma crítica combativa, unilateral, unívoca e mordaz em relação aos padrões da província", afirmou no resumo da pesquisa enviada ao I Encontro da Rede Alcar.

Cinema - No livro "... E o cinema invadiu a Athenas – A história do cinema ambulante em São Luís", Marcos Fábio faz análises socioculturais sobre as repercussões do cinema na sociedade ludovicense no período de 1898 a 1909. Na São Luís do século XIX para o século XX, as famílias ricas enviavam seus filhos à Europa, onde tinham contato com os novos padrões culturais e de entretenimento. Neste contexto, a arte cinematográfica encontrou a capital do Maranhão inserida em um importante cenário político e econômico. Para reconstruí-lo, Marcos Fábio valeu-se dos jornais – Pacotilha, Diário do Maranhão e O Federalista, que circularam na época, onde pode captar impressões sobre o impacto do cinema na cidade. "O objetivo buscado foi o de apresentar uma teia de relações que possibilitasse o entendimento dos fatores a que a invenção dos Lumière estava ligada e as razões de sua disseminação pelo mundo. Tentamos ainda estabelecer, minimamente, o percurso que o novo entretenimento fez de Paris até o Brasil, desembarcando primeiramente no Rio de Janeiro e depois alcançando as outras cidades e chegando, finalmente, à Ilha de São Luís", destacou o autor em seu livro.

2. Guarnicê de Cine Vídeo: Audiovisual na emergência

A primeira etapa do 26º Festival Guarnicê de Cinema foi aberta no Hospital Psiquiátrico Nina Rodrigues, como forma de protesto dos organizadores pela falta de apoio financeiro

Carça Melo (Fonte: O Estado do Maranhão - Caderno Alternativo 15/06/2003)

Você pode achar que tudo não passa de uma grande loucura. Só que não é bem assim. O 26º Festival Guarnicê de Cinema mais uma vez padece do mal que o acomete desde a sua criação, há exatos 26 anos: falta de patrocínio. Dessa vez, porém, Euclides Moreira Neto, organizador do evento, encontrou uma maneira inusitada de chamar a atenção de empresas e autoridades para o problema. A abertura do Festival acontecerá num palco pouco comum, a Galeria Zelinda Lima, do Hospital Psiquiátrico Nina Rodrigues, neste domingo (15), às 16h.

Moreira afirma que o objetivo da decisão é protestar contra o que considera um acinte à cultura do Maranhão. "Essa atitude foi a forma que a UFMA, por meio do Departamento de Assuntos Culturais, órgão promotor do evento, encontrou para protestar contra a falta de apoio do empresariado e do Governo Federal, que muito prejudicou o festival", reclama Euclides Moreira.

Mas somente a abertura do festival acontecerá no Hospital Nina Rodrigues. A solenidade contará com apresentação do Coral Colun Vox e do grupo de teatro do Colun, que encenará a peça Woyzeck, de Georg Buchner. Também serão exibidos os filmes Rosas, de Ione Coelho, e À Margem da Imagem, de Evaldo Mocarzel. Este último tem a direção do editor de cultura do jornal O Estado de São Paulo e traz depoimentos de moradores de rua da capital paulista. Entre os entrevistados, alguns maranhenses contam o drama de viver como sem-teto na maior cidade da América Latina.

O vínculo com o Hospital Nina Rodrigues, estreitado com a exposição Arte Que Cura, realizada no Palacete Gentil Braga (sede do DAC), será reafirmado por meio da apresentação da peça teatral Woyzeck. Com texto de George Buchner, a montagem é encenada pelo grupo do Teatro Colun, sob a direção de Josué da Luz. O enredo enfoca a loucura humana, fazendo indagações comuns aos ditos "normais".

SEM GLÓRIA - Mesmo sendo o quarto festival de cinema mais antigo do Brasil e o segundo mais antigo promovido por uma universidade, no caso a Federal do Maranhão, o Guarnicê coleciona problemas quando o assunto é patrocínio. É um reconhecimento sem glória. Euclides Moreira Neto afirma que, apesar de o projeto do festival ter sido aprovado pela Lei Rouanet (nº 8.313/91 e que possibilita aos patrocinadores a dedução de até 100% do valor devido do Imposto de Renda), não foi possível captar recursos. "Mandamos por duas vezes ofícios para estatais como a Petrobras e BR Distribuidora, entre outras, mas não obtivemos respostas", lamenta.

Devido aos parcos recursos angariados, o festival será realizado em duas etapas. Ao contrário dos anos anteriores, a versão 2003 do evento incluirá apenas as mostras não competitivas e acontecerá de domingo ao dia 26, em vários espaços da cidade (ler quadro com programação).

Estão inclusas as mostras Guarnicezinho, Cinema na Praça, Tendência de Vídeo e Tendência de Filme, Doc.21, Refestança, Olhar Sobre os Lençóis Maranhenses e as Oficinas Kinoforum de Realização e Produção Audiovisual.

A etapa competitiva do festival acontecerá a partir do dia 27 e se estenderá até o dia 3 de julho, no Centro de Criatividade Odylo Costa, filho. No roteiro, serão exibidos os filmes e vídeos selecionados para participar dos concursos do festival, a exemplo do Clip de 1 Minuto, Comercial e Telereportagem, Mostra de Cinema Longa-Metragem Nacional, Mostra Sérgio Sanz e Mostra do Cinema Espanhol.

3. Parceria do Núcleo da Rede Alcar-MA com o jornal O Estado do Maranhão

O Núcleo da Rede Alfredo de Carvalho-MA e a Associação Maranhense de Imprensa (AMI), em parceria com o jornal O Estado do Maranhão, publicará mensalmente, a partir do mês de julho, matérias jornalísticas que vão abordar iniciativas que buscam preservar a imprensa no Maranhão, destacando sua evolução nos últimos séculos.

A primeira matéria será uma entrevista com o professor Francisco Frazão sobre a pesquisa As charges no jornalismo impresso maranhense no século XIX (1876 – 1880), apresentada no I Encontro da Rede Alcar, no Rio de Janeiro. A coordenação do trabalho será realizada pela jornalista Roseane Pinheiro.

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Rede Alcar em Minas Gerais

Sandra Freitas (PUC Minas)

Rogério Tavares, da ONG Tver-Minas, que participou da solenidade de lançamento da Rede Alcar MG, no último dia 30 de maio, gostou muito de estar conosco nessa caminhada para resgate da memória do jornalismo em nosso país. Já combinamos o formato do nosso programa televisivo, que precisará do aval e uso das marcas da REDE ALCAR, da ABI e da UNESCO para colocarmos na vinheta de abertura e encerramento.

Na próxima semana já começaremos as gravações das primeiras edições que terão entrevistas e reportagens sobre os seguintes colegas de imprensa: Prof. José Mendonça, prof. Anis Leão e o prof. Guy de Almeida. Os programas serão de trinta minutos cada, dois blocos, com treze minutos mais ou menos, cada um deles. Teremos a entrevista mas paraprepará-la exibiremos uma reportagem contando a história de vida do entrevistado e em seguida falamos da trajetória profissional.

Será veiculado na TV Comunitária de BH( com possibilidades grandes de veiculação na Rede Minas) e nossa idéia é também fazer um correspondente para veiculação em rádio.

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Rede Alcar no ABC Paulista

Valdenizio Petrolli

Em setembro de 2003 estamos comemorando 40 anos do jornal "O Metalúrgico de Santo André". Este foi o primeiro jornal sindical lançado no ABC. Já entrei em contato com o Sindicato dos Metalúrgicos para comemorar esse evento. Pretendemos fazer um debate e lançar um número especial do jornal. O sindicato também comemora 70 anos.

No ano que vem comemoramos 100 anos do primeiro jornal lançado no ABC. Eu já estou revisando a minha dissertação de mestrado. Vou transformá-la em livro com o título de "Inventário da Imprensa do Grande ABC - 1994 - 2004". Já cadastrei mais de 1.000 periódicos. Continuo visitando os arquivos no ABC e de outras cidades. Quando estive no Rio de Janeiro (durante o I Encontro Nacional da Rede Alcar) aproveitei para visitar a Biblioteca Nacional. Segui as instruções da Profa. Esther Caldas. Localizei 167 títulos correspondente ao Grande ABC (todos já cadastrados). Além disso, consegui um CD com o cadastro de todos os jornais da cidade de São Paulo (mais de 11 mil títulos). O pessoal da Biblioteca nota "mil" no atendimento.

A comemoração do Centenário da Imprensa no ABC vai coincidir com o VIII Congresso de História do Grande ABC que vai ser realizado em Paranapicaba (Santo André).

Agora sou membro do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arquitetônico-Urbanístico e Paisagístico de Santo André. Eu sou o representante da Câmara Municipal de Santo André, aprovado em sessão pela maioria dos vereadores (21 votos à favor e nenhum contra). Também sou conselheiro da FundaçãoPró-Memória de São Caetano do Sul (o mais antigo no cargo) e do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico de São Bernardo do Campo (também um dos mais antigos)

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Rede Alcar no Rio de Janeiro

Através de Portaria 256, datada de 17 de julho de 2003, a Presidente da FENORTE – Fundação Estadual do Norte Fluminense, Profa. Ana Lúcia Boynard, institui o projeto "Centenário de Mário Ferraz Sampaio", destinado a festejar , através de seminários, concursos e publicações, a contribuição daquele ilustre radialista ao desenvolvimento midiático do Estado do Rio de Janeiro. Trata-se de uma iniciativa que conta com plena adesão e participação da Governadora Rosinha Garotinho.

O Projeto Mário Ferraz Sampaio nasceu na mesma ocasião em que a Rede Alfredo de Carvalho, celebrava na capital do Rio de Janeiro, o Sesquicentenário de nascimento do fundador da ABI, Gustavo de Lacerda. Ao visitar Campos de Goytacazes, o Prof. Dr. José Marques de Melo lançou a idéia, que bem acolhida pelos dirigentes da FENORTE e da FAFIC. O histórico do projeto e suas metas estão contidas na próxima seção deste boletim, sob o título "Centenário de Mário Ferraz Sampaio: projeto de comemoração".

Informações detalhadas sobre os eventos podem ser solicitados à assessora de comunicação da FENORTE, Linda Mara Silva, e-mail: linda.mara.silva@bol.com.br, Fones: : (22)2726-1506- 99027530.

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Capítulos de História da Mídia

Incas teriam inventado linguagem binária

Steve Connor, do Independent (Fonte: Folha de S. Paulo, 24/06/2003)

Eles construíram o maior império de sua era, com uma vasta rede de estradas e armazéns. Ainda assim, os incas, dinastia fundada por Manco Qapac que durou de 1200 a 1532, não tinham linguagem escrita. Era o que se achava.

Um estudioso da antigüidade sul-americana, no entanto, acredita que os incas possuíam uma forma de comunicação não-verbal, codificada numa linguagem binária semelhante à dos computadores de hoje. Gary Urton, professor de antropologia da Universidade Harvard, reanalisou o complicado sistema de nós usados como ferramentas contábeis pelos incas, os "quipu", e descobriu que eles contêm um código binário de sete bits, capaz de processar mais de 1.500 unidades separadas de informação.

Em busca de uma prova definitiva de sua descoberta, que será detalhada num livro, Urton acredita que está perto de encontrar a "Pedra de Rosetta" da América do Sul, um "quipu" que tenha sido traduzido para o espanhol cerca de 500 anos atrás.
"Estou otimista sobre encontrarmos um", afirmou, em alusão à pedra que permitiu aos estudiosos decifrar a escrita egípcia.

Os "quipu" podem ser bastante elaborados, compostos de uma corda principal à qual são anexadas várias outras. Cada corda pendente pode ter cordas secundárias, terciárias e assim por diante, como ramos de uma árvore.

Sete bits

Urton descobriu que há, teoricamente, sete pontos na confecção de um "quipu" nos quais a pessoa que fazia os nós podia fazer uma escolha simples entre duas possibilidades -um código binário de sete bits. Por exemplo, ela poderia tecer uma corda de lã ou de algodão, ou pendurar as cordas pendentes a partir da frente da corda principal ou de trás.

Num código estrito de sete bits, isso daria 128 permutas (o número dois elevado à sétima potência), mas Urton disse que, devido ao fato de haver 24 cores nos "quipu", o número real de permutas seria 1.536 (26 x 24).

Isso poderia significar que o código usado pelos incas permitia que eles processassem 1.536 unidades de informação, em comparação com as mil estimadas nos sinais cuneiformes sumérios.

Se Urton estiver certo, isso significa que os incas não só inventaram uma forma de código binário 500 anos antes da invenção do computador, mas também que eles a usaram como parte da única linguagem escrita tridimensional do mundo. "Eles podem tê-los usado para representar um monte de informações", afirma. "Cada elemento pode ter tido um nome, uma identidade ou uma atividade como parte da narração de uma história", diz. "Eles teriam usado sua forma de armazenar conhecimento da mesma maneira como usamos palavras."

Há evidências narrativas de que os "quipu" eram mais do que simples ábacos pré-colombianos. Os espanhóis capturaram um inca tentando esconder um "quipu" que, segundo ele, registrava tudo que havia sido feito em sua terra. O instrumento foi queimado.

Para provar sua hipótese, Urton se volta para um cemitério incaico no norte do Peru onde ele diz ter descoberto uma coleção de 32 "quipu" da época da conquista. Ele espera que documentos espanhóis do mesmo período contenham a tradução de um deles.

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O nascimento da imprensa brasileira

Raquel Pinto (Fonte: Portal Comunique-se, 24/06/2003)

Do surgimento do primeiro jornal brasileiro, em 1808, ao princípio do império. É através deste túnel do tempo que a doutora em Ciência Política Isabel Lustosa conta a história da imprensa brasileira no livro "O Nascimento da Imprensa Brasileira". A obra faz parte da coleção Descobrindo o Brasil, composta por pequenos volumes escritos por especialistas, em linguagem acessível a todos, buscando levar o leitor mais perto dos acontecimentos. A coleção é dirigida por Celso Castro (CPDOC/FGV) e cada livro inclui ilustrações, cronologia e sugestões de leitura. "O Nascimento da Imprensa Brasileira" mostra como a imprensa influenciou o processo de independência da nação, em um período em que política e imprensa se confundiram da forma mais radical.

Em entrevista ao Comunique-se, Isabel disse que o livro é uma versão resumida da sua tese de doutorado em Ciência Política para o IUPERJ. Para realizar a pesquisa e redigir a tese, foram quatro anos de trabalho. "Precisei de mais dois para transformá-la no livro 'Insultos impressos - a guerra dos jornalistas na Independência', publicado em 2000 pela Cia. das Letras. Para escrever este (que é produto de toda essa trabalheira anterior) precisei de apenas dois meses".

Para ajudar na pesquisa, Isabel teve acesso a alguns dos primeiros jornais brasileiros publicados entre 1808 e 1823, alguns panfletos do mesmo período e também, naturalmente, a bibliografia já existente sobre história da nossa imprensa e sobre a Independência do Brasil.

Uma das coisas que mais impressionou a autora é a importância da palavra escrita naquele contexto. "Foi muito bom descobrir a vibração que marcou a Independência do Brasil e como ela se transferiu para os nossos primeiros jornais. Melhor dizendo, como esses jornais influíram em todo o processo: do Fico à Independência, da inauguração de nossa primeira Assembléia Constituinte à sua dissolução por D. Pedro I". Para Isabel, também foi muito interessante descobrir como a linguagem desses jornais preservava a maneira de falar da gente do tempo e da gente comum. Ao mesmo tempo esses estilos de linguagem correspondiam muitas vezes à origem mais ou menos modesta dos jornalistas. "Foi muito interessante identificar quem eram esses jornalistas e que projetos para o Brasil estavam defendendo através de seus jornais". Uma das histórias que ela mais gosta é a de Hipólito da Costa: o primeiro jornalista brasileiro. "Sua trajetória, cheia de aventuras e suas idéias extraordinárias para o Brasil fazem dele um personagem importantíssimo para a nossa história. Também gosto da parte relativa à retórica dos insultos, as estratégias dos jornalistas para atacar seus adversários".

Isabel disse ainda que desde "Histórias de Presidentes - a República no Catete", que publicou pela Vozes em 1989, este é seu sétimo livro, fora os de que participou ou organizou. Em 2001, ela lançou pela Casa da Palavra "Lapa do desterro e do desvario - uma antologia". Em 1999, "Nássara - o perfeito fazedor de artes" e em 1993, pela Bertrand Brasil: "Brasil pelo método confuso - humor e boêmia em Mendes Fradique". Isabel também publicou dois livros infantis: "O Chico e o avô do Chico", em 1996 e "A história dos escravos", em 1998. "No momento me dedico a estudos sobre as idéias e a trajetória de Hipólito da Costa, sobre quem tenho publicado vários artigos. Minha intenção é depois reuni-los em um livro. Também preparo para serem publicadas pela Editora da UFMG duas coletâneas de meus artigos publicados em jornais e em revistas acadêmicas.

Isabel lança o livro nesta segunda-feira (24/06), a partir das 20h, durante uma noite de autógrafos na Livraria da Travessa, na rua Visconde de Pirajá 572, Ipanema, Rio de Janeiro

"O Nascimento da Imprensa Brasileira", de Isabel Lustosa - Jorge Zahar Editor

Preço: R$ 17,00

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TV Globo: a história oficial

Laura Mattos (Fonte: Folha de S. Paulo, Ilustrada, 29/6/2003)

Tema de teses acadêmicas e de variados tipos de livros, a Globo decidiu dar a própria versão sobre sua história. No próximo dia 15, chega às livrarias o primeiro volume do "Dicionário da TV Globo", com 1.500 verbetes que "definem" desde a mais remota novela até os recentes "reality shows".

É o primeiro resultado de um projeto de recuperação da memória das Organizações Globo. Formado em 1999, um grupo de historiadores, antropólogos, sociólogos e jornalistas vasculhou arquivos da empresa e de jornais e realizou mais de 200 entrevistas com atuais e ex-funcionários.

O "Dicionário" traz os nomes de todos os programas produzidos e exibidos pela Globo desde sua abertura, em 1965. No primeiro volume, são 220 novelas, 56 minisséries, 21 seriados, 49 humorísticos, 164 musicais etc. Os verbetes trazem sinopse, elenco e, muitas vezes, bastidores e comentários. Alguns ocupam mais de uma página ("Roque Santeiro", por exemplo, consome três).

A obra ganha sabor principalmente quando o texto foge da descrição seca. Pela primeira vez, a Globo assume, de forma institucional e organizada, analogias entre personagens da teledramaturgia e do cenário político brasileiro desses quase 40 anos.
É o caso de "Irmãos Coragem" (1970/1971), novela de Janete Clair. O verbete traça comparação entre a fictícia vila dominada por um "coronel" corrupto e o Brasil da época, governado pelo presidente Médici (de 1969 a 1974).

"Ficção e realidade também se confundiam no plano da política, com uma analogia entre a situação de arbítrio vigente no país e o poder desmedido do coronel na pequena Coroado. No Brasil governado pelo general Médici, o Estado perseguia os partidos de esquerda e permitia a tortura dos presos políticos nos órgãos de repressão. Em "Irmãos Coragem", Pedro Barros ditava a lei, corrompendo a polícia, comprando votos e oprimindo a população", diz um trecho do verbete.

Como num divã, a emissora opta ora por colocar o dedo em suas feridas, ora por não abordar assuntos mais complexos.

No verbete "Big Brother Brasil", não deixou de citar "Casa dos Artistas", "reality show" do SBT, e a disputa jurídica entre as emissoras. "Nessa época o SBT levava ao ar "Casa dos Artistas" com a mesma estrutura de "Big Brother". O Superior Tribunal de Justiça, no entanto, negou o pedido da TV Globo para suspender a transmissão de "Casa dos Artistas"."

Nos verbetes sobre Chacrinha, a emissora preferiu não tratar das denúncias de que artistas que iam a seus programas tinham de cantar em shows externos do apresentador sem cachê -a história foi confirmada à Folha por Leleco Barbosa, filho e diretor dos programas de Chacrinha.

"Foi uma acusação que só encontramos em jornais. Apesar de boas fontes, as reportagens trazem um debate e nem sempre são conclusivas. Como Chacrinha não admite a história em sua biografia, preferimos não abordar a questão", diz Sílvia Fiuza, coordenadora do Projeto Memória, que produziu o dicionário.

Historiadora com mestrado em antropologia, ela está na empresa desde 1980 e diz que os pesquisadores tiveram liberdade para tratar das passagens polêmicas. Trabalhando no limite entre uma obra institucional e histórica, Fiuza diz que seu maior desafio será o volume dois, sobre jornalismo.

Luís Erlanger, diretor da Central Globo de Comunicações, que escreveu a apresentação da obra, diz que a emissora avalia a possibilidade de lançar outros produtos no Projeto Memória, como DVD, e de colocar o "Dicionário" na internet. "Cada verbete é parte da história de nossa cultura."

DICIONÁRIO DA TV GLOBO. Editora: Jorge Zahar (tel. 0/xx/21/2240-0226; site: www.zahar.com.br). Quanto: R$ 59 (940 págs.).

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As empresas familiares e os problemas de sucessão na indústria jornalística

Delmar Marques

A exigência do diploma para o exercício profissional e o fato de as grandes empresas do setor dependerem de estruturas familiares podem estar entre as principais causas da crise que afeta os meios de comunicações brasileiros. As assertivas estariam corretas se fossem considerados os pontos de vista de Renato Bernhoeft, um desses especialistas de vozeirão retumbante e tom afirmativo que soma a experiência em consultorias para mais de duzentas grandes companhias em três continentes.

Presidente da Bernhoeft Consultoria e representante para a América Latina da FBCGi (Family Business Consulting Group International), Renato lamenta que o sistema de ensino brasileiro, mesmo o acadêmico de mais alto nível, não prepare os alunos para assumirem o papel de empreendedores. "Todos saem da faculdade pensando num emprego público ou em trabalhar numa multinacional", diz. Lembrando que das cem maiores fortunas brasileiras, apenas doze são fruto de herança, ele afirma que os grandes empreendedores nascem na periferia, não têm acesso às universidades e se fazem na vida com muito trabalho e disciplina.

Os filhos da classe média, ainda segundo a opinião dele, anseiam apenas por bons salários. A segurança da família os acomodam nas aspirações medianas, evitam riscos e, invariavelmente, aplicam o pouco que conseguem poupar em carros novos e roupas de grife. Nas empresas familiares, base dos grupos societários controladores da mídia brasileira, o comodismo seria ainda maior, no entendimento de Bernhoeft.

Talvez estejam aí as razões de os grandes conglomerados de comunicações enfrentarem atualmente dificuldades financeiras e desempregarem em massa sem que surjam empreendimentos capazes de absorver essa mão de obra e ocupar os novos espaços abertos pelo desenvolvimento tecnológico e social. Herdeiros insistem em linhas editoriais ultrapassadas, brigam por picuinhas, estabelecem feudos, perdem o controle das despesas e tomam decisões equivocadas nos investimentos, comprometendo todo o patrimônio amealhado pela primeira geração. Quando buscam alternativas, recorrem sempre aos mesmos profissionais, gente moldada sob seu tacão e compromissada com a continuidade. E nada muda.

Falando sobre o tema "Empresa Familiar: Desafio da Continuidade" no Núcleo de Jovens Empreendedores (NJE) da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Bernhoeft colocou que muitos empresários desenvolvem um comportamento autoritário e machista, acreditando serem eternos. "Outro dia", brincou ele, "tentaram dar uma tartaruguinha de presente para o Roberto Marinho, mas ao saber que o animal viveria no mínimo uns trinta anos ele a recusou, dizendo que não queria se apegar a um bichinho que poderia morrer antes dele."

Silvio Santos seria, nas palavras de Bernhoeft, outro exemplo de descaso com a sucessão familiar, preterindo as filhas na tentativa de entregar o poder a um sobrinho. Como as herdeiras poderão ter, um dia, o controle do grupo, problemas sucessórios poderão surgir, com reflexos óbvios na empresa. "Na volta do cemitério é a pior ocasião para se resolver as coisas."

Na hora lembrei de Maurício Sirotsky, meu mais próximo exemplo de empresário bem sucedido no setor. Ele começou com a "voz do poste" em Passo Fundo, foi para Porto Alegre trabalhar como radialista, assumiu uma rádio cheia de dívidas, depois um jornal quase quebrado, montou uma televisão e seguiu driblando as dificuldades até deixar o invejável conglomerado que é a RBS para seus descendentes. Acordava cedo e era dos últimos a sair. Fui produtor de um programa de notícias na sua rádio que começava às 6hs e ele o ouvia e chegava na empresa às 7hs recomendando, delicadamente, que baixasse o tom nos próximos dias para compensar o malho dado na ditadura naquela edição. Às 23hs, quando eu colocava no ar o noticioso noturno da sua televisão, lá ainda estava ele. Haveria espaço, hoje, para essas aventuras empresariais?

Num país em que entrar para o serviço público para merecer uma aposentadoria privilegiada sempre foi a meta da grande maioria, talvez seja o momento de pararmos para pensar em todas as oportunidades de realização profissional que estamos perdendo. Fracassamos com a Coojornal (Cooperativa de Jornalistas de Porto Alegre) e em muitas outras tentativas de associação para lançamento de veículos alternativos. Seguimos de um emprego para outro, em carreiras atribuladas e inseguras, mais preocupados em lutar por ilusórios privilégios corporativos, alimentando nossos egos com títulos vazios, editor disso, diretor daquilo, sem nenhum compromisso com o futuro.

Vamos acumulando experiências desastrosas, idade e cabelos brancos, colecionando tombos, profissionais e do cavalo, literalmente, sem outra pretensão além de sentar diante do teclado, mera extensão de nossos dedos, para soltar o verbo e jogar nos impulsos eletrônicos as confusões mentais que nos afligem. Na esperança de que acordem alguém, jovem e empreendedor, capaz de construir alguma coisa onde só vemos o caos. Com trabalho e disciplina.

(*) Jornalista, escritor e dramaturgo, diretor da DM Textual Editoração Eletrônica, de São Paulo, e da Editora Paralelo 30, de Porto Alegre.

Fonte: Portal Comunique-se, 3/7/2003

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Trajetória de Ary Carvalho: de "Última Hora" e "Zero Hora" a "O Dia"

Maurício Thuswohl (Fonte: Folha de S. Paulo, 4/7/2003)

O jornalista Ary Carvalho, presidente do Grupo de Comunicação O Dia, que edita o diário carioca "O Dia", morreu ontem, às 3h20, no hospital Samaritano, no Rio, de falência múltipla dos órgãos. Carvalho tinha 69 anos e estava internado desde 21 de maio, quando sofreu derrame cerebral.

O corpo de Ary Carvalho foi velado durante parte da manhã e toda a tarde de ontem na sede do parque gráfico de "O Dia", no bairro de Benfica (zona norte). Após a missa, o corpo do jornalista foi conduzido ao Memorial do Carmo no cemitério do Caju (zona norte), onde foi cremado.

O velório, acompanhado por cerca de 300 pessoas, teve a presença de personalidades da política, de artistas e de empresários do setor de comunicação. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi representado pelo ministro das Comunicações, Miro Teixeira, que já foi repórter de "O Dia".

"O Ary era um repórter que virou dono de jornal. Mas a cabeça dele ainda era de repórter. Ele gostava de sentar e discutir a notícia, discutir um furo que o seu jornal deu ou levou, discutir uma suíte bem feita. É uma grande perda para o Brasil", disse o ministro.

O ex-governador e atual secretário de Segurança Pública do Rio, Anthony Garotinho, representou a governadora Rosinha Matheus (PSB) no velório. Único a chegar ao local de helicóptero, Garotinho provocou certo constrangimento quando o vento produzido pelas hélices do aparelho derrubou as coroas de flores que estavam alinhadas na entrada do salão onde o velório foi realizado.

O prefeito do Rio, Cesar Maia (PFL), foi um dos primeiros a chegar. Também compareceram o ex-governador de São Paulo Orestes Quércia (PMDB), o senador Sérgio Cabral Filho (PMDB-RJ), os deputados federais Francisco Dornelles (PP-RJ) e Alexandre Cardoso (PSB-RJ), o vice-presidente da Infoglobo Comunicações Ltda., João Roberto Marinho, e o presidente do Conselho Editorial do "Jornal do Brasil", José Antônio do Nascimento Brito.

"Ary era um grande empresário e um companheiro importante. Mas a principal imagem que fica na memória é a da pessoa alegre e cheia de vida", disse Marinho.
Ary Carvalho deixou viúva, Marlene, as filhas Eliane, Lígia e Ariane, e quatro netos. Emocionada, Eliane lembrou o legado do pai: "Ele nos deixou algo muito bonito e, quando passar essa dor, a gente tem que tocar essa obra dele, ele merece. Menino pobre de Birigui [SP], meu pai é um típico exemplo do homem brasileiro que venceu na vida", disse.

Trajetória

Nascido em 25 de abril de 1934, Ary Carvalho mudou-se para a capital paulista aos 14 anos. Em 1955, já trabalhando no jornal do bairro onde morava, teve sua primeira reportagem assinada em um veículo de comunicação de maior porte: um texto sobre os ritos cerimoniais de casamento da maçonaria, publicado na "Última Hora", de Samuel Wainer.

Contratado pelo jornal, sediado no Rio, em pouco tempo já era chefe de reportagem. Promovido a secretário de Redação e depois a diretor, Carvalho aceitou, em 1961, a proposta de Wainer de dirigir a seção do jornal no Paraná.

Depois de aumentar a venda do jornal no Paraná de 6.000 para 23 mil exemplares, Carvalho dirigiu o "Última Hora" no Rio Grande do Sul, onde o jornal chegou a ter sua circulação impedida pelos militares em 1964. Em maio daquele ano, ele propôs a Wainer, que estava exilado na Embaixada do México, a compra da seção gaúcha do "Última Hora". Foi assim que nasceu o "Zero Hora".

Após vender o "Zero Hora" para o atual dono, a Rede Brasil Sul de Comunicações, Carvalho voltou para o Rio e, em outubro de 1983, comprou o jornal "O Dia", que pertencia ao ex-governador do Rio Chagas Freitas. Sob sua direção, "O Dia" passou por uma reestruturação editorial e gráfica, ganhando qualidade sem perder seu perfil de jornal popular. Nesse período, teve aumento de circulação e vendagem e obteve vários prêmios nas áreas jornalística, administrativa e de marketing.

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Estado e mídia no Brasil Republicano: de Deodoro a Vargas

Silvana Arantes (Fonte: Folha de S. Paulo, 9/7/2003)

"Na sua lua-de-mel, ainda, com Mussolini e com Hitler, o chefe do governo deposto a 29 de outubro [Vargas] fez proibir "O Grande Ditador" [de Charles Chaplin], no qual via uma caricatura do totalitarismo em geral."

"Proibido o filme, deu-se uma coisa: do território do Rio Grande do Sul, de várias cidades, correram trens especiais para o Uruguai -país livre e democrático- só para levar pessoas curiosas para admirar "O Grande Ditador"."

O relato -de um ex-redator do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), órgão de censura que caracterizou o governo de Getúlio Vargas no período do Estado Novo (1937-1945)- é reproduzido pelo pesquisador do cinema brasileiro José Inacio de Melo Souza em seu livro "O Estado contra os Meios de Comunicação (1889-1945)".
Editado pela Fapesp e Annablume, o volume condensa a dissertação de mestrado defendida por Melo Souza na Escola de Comunicações e Artes da USP.

O autor classifica a censura à obra de Chaplin como "o caso mais grave de desentendimento do DIP com o cinema americano". Além das implicações diplomáticas envolvidas na prática da censura a filmes estrangeiros no Brasil, a obra vasculha a relação do Estado com a imprensa e o rádio, a partir de 1889, quando o governo era outro (Deodoro da Fonseca ), o DIP ainda não existia e "o meio de comunicação mais importante era a imprensa".

A principal fonte de pesquisa de Melo Souza foram os arquivos do DIP, franqueados aos pesquisadores pelo Arquivo Nacional. Neles, o autor não encontrou os famigerados boletins de censura.

"Os boletins da censura podem nunca ter existido, no estilo de documento que [o pesquisador] Inimá Simões encontrou para fazer o seu trabalho sobre a censura no regime militar ["Roteiro da Intolerância", editora Senac]", diz.

Melo e Souza conclui que "nos anos 30 e 40, os censores assistiam aos filmes e assinavam os certificados de liberação, somente, sem deixar um parecer por escrito".
Mesmo que laterais, os documentos pesquisados no Arquivo Nacional são suficientes para dar a conhecer o ponto de vista dos censores. "O Estado contra os Meios de Comunicação" diz que a censura à produção nacional era feita com base no gosto dos censores, "área restrita da burocracia, sobre quem a sociedade não podia exercer controle".
"Parece-me bem evidente que o gosto era o da elite, mesmo que esta fosse representada por um Vinicius de Moraes que, como crítico de cinema na década de 40, só via cinema estrangeiro e gostava do cinema mudo", diz o autor.

Para a produção internacional, valiam outros critérios. "A situação de dominação estrangeira obrigava os censores à utilização de uma razão diferente daquela a que estavam acostumados a empregar na análise do filme brasileiro, ou seja, as razões do Estado sobrepunham-se às de gosto pessoal", afirma Melo Souza no livro.

O ESTADO CONTRA OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO (1889-1945). Autor: José Inacio de Melo Souza. Editora: Fapesp e Annablume (0/xx/11/3031-9727). Quanto: R$ 25 (229 págs.).

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Julio Mesquita: aula magna de jornalismo

Gilberto de Mello Kujawski (Fonte: O Estado de S. Paulo, 10/7/2003)

O leitor do Estado não pode dispensar a leitura do livro A Guerra (1914-1918) (O Estado de S. Paulo/Terceiro Nome, 2002), que reúne os boletins semanais escritos por Julio Mesquita durante a 1.ª Grande Guerra.

Poder-se-ia pensar que se trata, apenas, de uma homenagem tardia da família prestada ao fundador dessa grande casa de imprensa pelos seus descendentes.

Engano. O livro A Guerra constitui um documento histórico denso, de significado humano e cultural permanente, repleto, ao mesmo tempo, de formulações, avaliações doutrinárias e achados da maior atualidade.

Paralelamente, desenrola-se, do começo ao fim, como uma aula magna de jornalismo, própria para formar não meros profissionais do ramo, e sim redatores vocacionados, que desempenhem seu trabalho como delegados de um poder espiritual.

Em primeiro lugar, falemos do documento histórico, elaborado pelo autor na condição de um repórter que se transportou para o teatro das operações militares, por meio da leitura diária de telegramas recebidos de hora em hora pela redação, e no exame incansável dos melhores jornais e revistas europeus. Não se tem notícia, em parte alguma, de um acompanhamento tão rente e continuado da sucessão dos eventos ao longo dos quatro anos do conflito. O trabalho factual do repórter foi completado pela análise conceitual do jornalista, feita com raro senso tático e estratégico na consideração das forças militares e diplomáticas em ação. Finalmente, os feitos do repórter e do jornalista receberam o selo definitivo do pensador, do humanista formado na leitura assídua dos clássicos da História, da Literatura e da Filosofia.

Fatos, análise e reflexão se aglutinam como momentos indissolúveis na trama complexa, totalizante e detalhada da narrativa, elaborada com a paciência do artesão, a penetração e a agilidade do jornalista e a clarividência do sábio que sabe enxergar a floresta ao fundo das árvores. O vigor, o escrúpulo, a vivacidade do texto são de pasmar o leitor de hoje, e causa estranheza que ficasse por tanto tempo esquecido na poeira do arquivo, do qual foi desentranhado graças à iniciativa, ao trabalho e ao "flair" privilegiado de um jovem descendente do autor, Ruy Mesquita Filho, responsável pela edição dos quatro volumes fartamente ilustrados com o preto e branco pungente de fotos da época, brilhantemente lidas pelo comentário de Napoleão Sabóia.

Ao correr da leitura se somam visões panorâmicas da luta, sobrepostas com sentido arquitetônico que lembra os filmes de Einsenstein (com toques de Jean Renoir no clássico do cinema A Grande Ilusão). Julio Mesquita abre a grande angular da sua inteligência sobre o espaço e o tempo da 1.ª Grande Guerra: "Hoje, de uma maneira ou de outra, a humanidade está envolvida na guerra, porque não há aonde não vão os seus efeitos, e o que de lado a lado, a ferro e fogo se pleiteia, é uma transformação completa do mundo - transformação geográfica, transformação política, transformação social, transformação econômica, transformação moral, porque até a alma das nações e dos indivíduos há de surgir transformada das cinzas deste vastíssimo incêndio." Não é saber dizer tudo em poucas palavras essenciais?

A Guerra de 14 marca o final da belle époque, com sua explosão de otimismo e truculenta alegria de viver, e o início de um mundo novo no qual tudo é insegurança.

Ao valor de imperdível documento histórico acresce a aula magna de inteligência e ética jornalísticas. Gilles Lapouge, no prefácio que dedica ao livro, usando o toque de finura que lhe é peculiar, chama atenção para "o mérito incomparável" do olhar distante daquele jornalista radicado no Brasil, ao mesmo tempo que tão presente no cenário da guerra européia.

"Graças a esse olhar distante, o balanço da guerra se anima, se complica e se enriquece maravilhosamente." De fato, a visão distante unifica o campo visual e por isso mesmo o torna mais inteligível no conjunto e no pormenor.

Eis aí a primeira lição de jornalismo. Porque o "olhar distante" deve ser uma qualidade constante do jornalista, mesmo quando ele trata de fatos ocorridos do outro lado da rua. Em qualquer circunstância, o jornalista tem de guardar das coisas aquela "distância hermenêutica" que lhe permite entendê-las em contexto, sem entrar em corpo a corpo com a crueza da notícia, como faz a TV de baixo nível.

A segunda lição é que "o olhar distante", ao contrário do que parece, não é neutro nem indiferente. Não enxerga o mundo de um ponto situado fora dele, em Sírius, e sim de um ponto de vista concreto, biográfico, o meu ponto de vista. O olhar distante não é distante por ser afastado, é distante por ser perspectivo. Perspectiva implica ponto de vista. E o ponto de vista se sustenta em convicções morais e políticas firmes e irremovíveis. Traduzindo a metáfora: o olhar jornalístico não deve desmentir as opiniões pessoais do jornalista, mas estas não podem turvar a isenção e imparcialidade da notícia.

A terceira lição está na dramaticidade de que vem repassado o olhar distante, na medida em que é situado e participante, acompanhando o desenrolar dos acontecimentos como o encadeamento das cenas no teatro. A linguagem de Julio Mesquita é feita de movimento incessante, não só no plano exterior como na dimensão interior, da consciência e da alma do narrador. E drama significa, literalmente, movimento.

Por último, e aqui brilhou o prefaciador Jorge Caldeira, "a prosa de Julio Mesquita é coloquial e fluente", num tempo dominado pela linguagem empolada e oratória, e pelos rebuscamentos parnasianos. O grande Mesquita estende a mão ao leitor e o introduz no interior do jornal, com a mais sincera cordialidade e sem nenhuma soberba. Ele ensinou o jornalista a conversar com o leitor, num tempo em que os redatores só sabiam discursar para o leitor.

Eis aí a aula magna de jornalismo, em grande estilo, permanente e atual, que nos lega aquele homem de inteligência turbilhonante e de vontade inquebrantável, que transformou um simples jornal numa instituição. E instituição significa um poder espiritual, atuando em mentes e corações.

Pois não basta ao jornal ser um órgão independente de notícias e opinião.

Ele tem de ser, ademais, um filtro das notícias poluídas e das opiniões intoxicadas pela mentira, pela má-fé, pela ignorância e pelo charlatanismo.

Gilberto de Mello Kujawski é escritor e jornalista E-mail: gmkuj@terra.com.br

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Dicionário da Globo recupera a história da TV

Esther Hamburger (Fonte: Folha de S. Paulo, Ilustrada, 21/7/2003)

Com o lançamento, na próxima quarta-feira em São Paulo, do primeiro volume do "Dicionário da TV Globo", a emissora e a editora Jorge Zahar oferecem uma contribuição decisiva -embora ainda parcial- para a reconstituição da história da TV.
O livro de quase mil páginas, contém mais de 1.500 verbetes e ilustrações dos programas produzidos e exibidos pela TV Globo desde sua inauguração, em 65.
Resultado do projeto Memória das Organizações Globo, o trabalho possui um inegável tom institucional. Basta notar a ausência, por exemplo, de verbetes sobre profissionais de destaque, autores, diretores, atores e produtores, ou pelo menos um índice, que permitisse a localização dos profissionais mencionados.

Mas a edição cuidada traz levantamento exaustivo e criterioso, com datas, horários e dados técnicos parciais das produções classificadas como pertencentes aos gêneros dramaturgia e entretenimento. Um segundo volume, em fase de preparação, enfrentará os jornalísticos e esportivos.

A publicação consolida informações de fontes variadas e especificadas, que incluem documentos internos, imprensa, publicações especializadas e depoimentos de profissionais, constituindo um valioso banco de dados, útil a telespectadores e profissionais.

Fragmentos relevantes da história da teledramaturgia emergem nos verbetes. A ascensão e queda de Glória Magadan, a cubana que inaugurou a produção de novelas na emissora, está documentada. A autora é responsável pelos primeiros sucessos de público no estilo dramalhão, em oposição ao qual surge a "fase verdade", liderada por Daniel Filho, que tem início em 69, com "Véu de Noiva", de Janete Clair.
A originalidade de Chacrinha está resgatada, embora não haja referência, aos motivos -políticos- que levaram à interrupção do contrato da emissora com o apresentador durante dez anos.

Ao se dispor a compartilhar informações sobre uma história que não é propriedade de ninguém, a Rede Globo inicia uma importante "abertura". Cabe sugerir que o primoroso banco de dados seja disponibilizado em versão eletrônica, mais flexível a atualizações, correções e consultas. Vale sugerir também que se acrescentem informações sobre a existência ou não de registro audiovisual dos programas listados.
A promoção do acesso às imagens propriamente ditas complementaria bem o esforço. Diversas minisséries vêm sendo editadas em formato DVD. Trechos de programas estão acessíveis no site da emissora. Falta o grosso da programação. Quem sabe o contato com a ousadia formal e temática, até hoje não superada, de trabalhos como "Armação Ilimitada" incremente a produção contemporânea?

Esther Hamburger é antropóloga e professora da ECA-USP

DICIONÁRIO DA TV GLOBO. Editora: Jorge Zahar (tel. 0/xx/21/2240-0226).
Quanto: R$ 59 (940 págs.)

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Mazzaropi: uma visão cômica do capitalismo brasileiro

Luis Victorelli e Tânia Orsi *

"O que eu entendo por cultura popular? As raízes do povo brasileiro. Assim, negar o caipira brasileiro é negar a própria raiz. Acho que cultura é justamente não esquecer o passado, não esquecer nossas tradições... O meu público está comigo há 40 anos e não me larga. Quer dizer que ele me entende".

Mazzaropi, entrevista ao Folhetim da Folha de S. Paulo, 02/07/78.

-"Símbolo do caipira brasileiro". Não foi à toa que o ator ganhou este título. Quem não ouviu falar de Mazzaropi ou nunca assistiu a um dos mais de 30 filmes deste caipira está perdendo, além de boas histórias, a oportunidade de conhecer obras que se integram à cultura popular brasileira. Amácio Mazzaropi conseguiu com seus trabalhos dar uma nova idéia do caboclo brasileiro retratando nas telas do cinema uma parte da identidade nacional que por vezes sofre preconceitos e é esquecida.

O ator sabia fazer a reelaboração da identidade de nosso povo, através da releitura dos acontecimentos da época e sua reprodução de maneira que seu público entendesse. Segundo o sociólogo Glauco Barsalini, que lançou em 2002 o livro "O Jeca do Brasil" (Ed. Átomo), fruto de sua tese de mestrado, Mazzaropi conta, por meio de suas narrativas engraçadas, a história do povo brasileiro, retratada pelo caipira. O maior motivo de seu sucesso era a forte ligação com as raízes da nossa cultura. Mazza, como era chamado, virou sinônimo do caipira transformando-se numa figura folclórica no imaginário dos brasileiros. "Seus personagens tem tanta força que as pessoas se identificavam com eles", diz Barsalini.

Embora as histórias mudem em cada filme, é comum na maioria deles a figura do empregado que era injustiçado pelo patrão (geralmente um mau patrão) mas, que, no final da história, "dava a volta por cima das estruturas sociais", lembra o sociólogo. "Isso é um grande sonho na vida desses trabalhadores, submetidos ao processo de dominação".

O Jeca, representado por Amácio Mazzaropi, mostra a "malandragem" do brasileiro que, às vezes, possa ser perversa, não passa do famoso jogo de cintura da sobrevivência, inerente a identidade nacional. Essa busca, de maneira habilidosa a tudo o que se quer, presente em todos seus filmes, demonstra a flexibilidade do brasileiro.

Nas palavras de Miroel Silveira, jornalista das décadas de 60 e 70, havia no ator uma preocupação inteligente de preservar a empatia com o público e defender a situação humana, sem perder os resultados cômicos. Assim, permanecia na memória do povo como alguém que superou as dificuldades da vida com a sua matreirice.

A roça nas telas

Os filmes de Mazzaropi têm vínculos com a cultura brasileira apresentando traços fundamentais da raiz nacional. Seus personagens apresentam características de um Brasil colonial, um retrato do caboclo da roça que é a base de formação do povo paulista do séc. XIX. O ator estampava nas telas um caipira em conflito com a modernização do país.

Ele representava o trabalhador, o pobre que muitas vezes não tinha condições de levar uma vida mais digna estampando a luta dessas pessoas para manter a honra própria - um dos valores fundamentais do brasileiro. "Quando ele diz - sou pobre, mas tenho dignidade, ele esta fazendo resistência cultural", afirma Barsalini.

Em seu livro, Barsalini faz um paralelo entre as mudanças sócio-econômicas ocorridas nas décadas de 50, 60 e 70 e os filmes de Mazzaropi. O sociólogo afirma que alguns trabalhos do ator estavam inseridos num contexto de êxodo rural, forçado devido a latifundialização do campo, quando muitos optaram por morar na cidade. Tais pessoas passam a ocupar um universo completamente diferente da vida no campo. "Toda essas novidades na vida das pessoas demoraram a serem assimiladas e o Mazza estampava na tela esse conflito social", conta Barsalini.

Uma obra de resistência cultural

Na década de 60, enquanto a marcha do país é de urbanização, Amácio segue na direção oposta, levando o caipira cada vez mais para o campo numa tentativa de recapitular a identidade do trabalhador que vivia da terra. Para Barsalini, fica claro que "na medida em que o Brasil se transformava em urbano, ele intensificava a popularidade e a personagem ficava mais caipira ainda".

Como poucos no cinema, segundo o sociólogo, Mazzaropi resgatou as raízes de nossa cultura popular, mantendo laços com aquilo que é de valor da cultura brasileira. Quando o ator estreou no cinema, na década de 50, o Brasil era um país predominantemente agrário (Mais de 60% da população morava no campo). Quase todas as cidades existiam em função da economia rural e a maior parte dos consumidores de cinema eram pessoas ligadas à cultura cabocla (ou sertaneja, estancieira - dependendo da região do país). Os papéis do artista afinavam-se com esse universo social dos trabalhadores urbanos recém chegados do campo.

Analisando os trabalhos de Mazzaropi, de acordo com o sociólogo, é possível perceber que ele era também um grande crítico social refletindo o que estava acontecendo no país, tratando inclusive de temas polêmicos e que, por vezes, eram tabus para a sociedade da época. No filme "O Jeca e seu filho preto", por exemplo, o assunto tratado era o preconceito e, em "Jeca contra o capeta" a discussão foi a respeito do divorcio. Também era comum encontrar nestas produções a representação do inglês como o malvado da história, o que demonstra mais uma crítica de Mazzaropi, desta vez contra a Inglaterra, que no séc. XIX impunha sua força imperialista ao Brasil.

Embora atualmente suas críticas pareçam ultrapassadas, já que seguiam valores da época. Barsalini garante que se ainda estivesse vivo ele continuaria sendo visto pelas novas gerações, já que o ator possuía uma grande capacidade de renovação dos debates. "Ele faz brincadeiras com a juventude, põe o caipira fazendo coisas da moda, o que mostra a grande flexibilidade desses personagens, que lhe permite ganhar novos fãs".

Mazzaropi x Monteiro Lobato

"Caipira é um homem comum, inteligente, sem preparo. Alguém muito vivo, malicioso, bom chefe de família. A única coisa diferente é que ele não, teve escola, não teve preparo, então tem aquele linguajar ... Mas no fundo, no fundo, ele pode dar muita lição a muita gente da cidade". Mazzaropi, Folhetim da Folha de S. Paulo, 02/07/78.

Embora o escritor e o artista tenham uma personagem em comum (O Jeca), a abordagem sociológica de ambos é bem diferente. Enquanto Lobato exaltava a indolência, incompetência, o desânimo para o trabalho e o homem doente do campo, o personagem de Mazza ressaltava um caipira astuto, ladino, de espírito aventureiro e que não media esforços para manter sua dignidade.

Monteiro Lobato tinha uma visão afinada sobre os aspectos de nossa cultura de raiz. Logo que se formou em direito pelo Largo de São Francisco, assumiu a fazenda do avô que falecera. Sem grande vocação para ser campesino, não demorou a se irritar com o estilo de vida dos trabalhadores rurais. "Ele não entendia o povo caipira, pois não tinham a disciplina que ele estava acostumado", afirma Barsalini. "A tendência era ver o caipira como coisa ruim, como piolho da terra".

Segundo o sociólogo, o ator tirou proveito da fama do Jeca, de Lobato, para ganhar dinheiro, mas abandonou a idéia de um caipira franzino e aproximou-se mais do Zé Brasil, outro personagem de Lobato que, como grande observador que era, não tardou a ver o caipira de outra forma. Em outra fase da vida, mais maduro, compreendeu que as dificuldades vividas pelos lavradores brasileiros não existiam por opção, mas por imposição de um sistema econômico de exclusão social e pela ausência de investimentos do Estados nesses trabalhadores. Com o filme Jeca Tatu (1959), Mazzaropi procurou explorar o lado da "malandragem" e do jogo de cintura brasileiro.

Reconhecimento tardio

"Esse pessoal me picha, mas quando eu morrer, será que eles pensam que eu vou levar tudo isso comigo? Eu não construí nenhum império de cinema, apenas criei condições para poder trabalhar, sem depender de ninguém. Tudo o que tenho, devo ao meu público. Quando eu morrer isso tudo que eu tenho vai ficar para o cinema nacional. Eu não vou poder levar nada disso. Então, por que eles me picham tanto?". Folha de S.Paulo, 14 de junho de 1981

Mazza atuava, cantava e após construir sua própria indústria cinematográfica, que deu um impulso ao cinema nacional, passou também a produzir seus próprios filmes. O ator também contracenou com importantes artistas nacionais, entre eles o compositor Adoniran Barbosa, no filme Candinho (1953). Mesmo assim, o cineasta que, durante mais de duas décadas, atraiu milhões de espectadores aos cinemas tardou a ter o reconhecimento da crítica cinematográfica. ""O crítico é uma pessoa. E no Brasil há 120 milhões de pessoas" (Mazzaropi, jornal Agora, 27/02/71).

Os bons comentários sobre seus trabalhos só começaram a surgir no final de sua carreira quando alguns críticos começaram a rever seus conceitos sobre o ator. O caso mais importante é do jornalista Paulo Emílio Sales Gomes (um dos nomes mais importantes da crítica cinematográfica na época) que, depois de anos de criticas negativas aos trabalhos de Mazza, assumiu que fazia críticas sem nunca tê-lo assistido. A nova opinião do jornalista influenciou muitos críticos que também passaram a adotar outras posturas.

O interesse em redescobrir sua obra cresce cada vez mais. "Hoje nós temos uma visão mais clara da importância do Mazza no cinema popular Brasileiro", conta o coordenador geral do Instituto Mazzaropi, Cláudio Marques. Mazzaropi, além de representar muito bem as características do homem do campo, principalmente da região sul e sudeste, embora não fosse caipira, também trouxe outro importante contribuição: a valorização da indústria cinematográfica.

Mazza construiu sua própria produtora (PAM filmes - produtora Amácio Mazzaropi) e teve grande sucesso. Com ela conseguiu fazer cinema nacional economicamente independente. "Nunca fez financiamento nem teve apoios culturais", diz Marques. "Ele provou que é possível fazer cinema popular de grandes bilheterias".

Um caipira intuitivo

O dado mais curioso é a importância da intuição de Mazzaropi que, mesmo sem entender a mecânica cinematográfica conseguiu alcançar o sucesso. Isso, explica Barsalini, se devia ao seu conhecimento profundo dos gostos populares. "As pessoas se identificam com ele e tem um grau de ligação muito grande com aquilo que ele estampava na tela".

Nada estranho para alguém que, segundo Claudio Marques, ouvia demais as pessoas. "Ele era um profundo observador das coisas do interior e muito atento à cultura caipira", diz. E com o conhecimento de causa de quem conviveu com o ator durante 54 anos, Francisco Santiago, que foi criado por Mazzaropi, diz que era dessas simples conversas que seu "pai", como se referia ao ator, tirava as idéias para escrever tantas histórias. Santiago, que trabalhou em 17 filmes de Mazzaropi e possui grande parte de acervo do ator, dedica-se a manter viva a memória do mais famoso caipira brasileiro. Seu próximo projeto é terminar o último filme de Mazzaropi -Maria romba homem- que teve sua produção interrompida com a morte do cineasta.

Mazzaropi utililiza em seus filmes o estilo "Happy End" (final feliz) dos filmes norte-americanos. Usava um tipo de narrativa clássica com começo, meio e final, feliz, claro. Com a mescla de drama e comédia ele promovia debates e provocava sentimento de satisfação com tudo dando certo no final.

Isso era exatamente o que procuravam os novos trabalhadores da cidade (recém vindos do campo) que se viam refletidos na tela e, ao menos lá, se saiam bem. O ator acreditava neste tipo de dramaturgia onde podia fazer críticas ao sistema de maneira mais branda, o que condiz com o cordialismo do brasileiro. "Usando essa linguagem o povo entendia Mazzaropi", diz Barsalini. "Quem não o entendia eram os intelectuais".

Revisão histórica

Uma boa notícia é que alguns filmes dos acervos da Cinemateca Brasileira e da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro estão sendo examinados, como parte do projeto "Diagnóstico do Acervo Cinematográfico Brasileiro" (convênio entre o Ministério da Cultura e a Sociedade Amigos da Cinemateca/SP). Dentre os escolhidos está Chico Fumaça, de 1958. O Instituto Mazzaropi, entidade que administra o Museu Mazzaropi, localizado na fazenda Santa em Taubaté (SP), onde o ator começou a produzir seus filmes, há quase 20 anos, busca a preservação da memória de Amácio Mazzaropi.

Uma amostra desse trabalho é a re-criação da Trupe Mazzaropi. Inspirada na trajetória do ator é composta por seis artistas de teatro treinados para divertir adultos, crianças e pessoas que necessitam de alguns tipos de tratamento especial como asilos, creches e hospitais. O projeto, que existe há um ano em Taubaté, espera também levar alegria a instituições de outras cidades.

Mesmo assim, o sociólogo lamenta os poucos estudos sobre o ator e acredita que a atuação de Amácio Mazzaropi na TV e na rádio merece estudo mais aprofundado. De acordo com o sociólogo, não agradava ao artista a idéia de fazer TV, já que segundo Mazza, o veículo não era bom porque "gastava a imagem do Jeca". Tal explicação talvez bastasse, mas, na opinião de Barsalini esse é um ponto a ser pesquisado. "Quando apresentei meu mestrado essa questão foi levantada pela banca examinadora", diz Barsalini convidando novos pesquisadores para o serviço.

Mazzaropi fora das telas

"O homem Mazzaropi é um empresário que pensa na sua empresa, a PAM Filmes. Pensa na evolução do cinema brasileiro em termos comerciais. Ao passo que o Mazzaropi ator pensa naquilo que o povo quer ver, que gosta (...)Então é preciso ser bom comerciante para ser bom artista, para ter sucesso". Mazzaropi, entrevista ao Folhetim, Folha de São Paulo, 02/07/78.

Fora das telas, segundo Santiago, Amácio era moderno, falava muito bem, dormia e acordava cedo, não bebia e nem fumava. "Quando ele tinha que acender um cachimbo para gravar, para ele era a morte", lembra. Mazzaropi não conhecia a mecânica do cinema. Para produzir seus filmes contava apenas com sua intuição e seu conhecimento do gosto popular, buscando na realidade o assunto para seus filmes. "Ele gostava de ouvir as histórias do pessoal da roça, dos menos favorecidos".

Amácio Mazzaropi nasceu em São Paulo, na Barra Funda, em 09 de abril de 1912 e faleceu na mesma cidade em 13 de junho de 1981, de câncer na medula óssea. Tinha 69 anos. Desde pequeno, além de ajudar a mãe na venda de verduras que plantavam, decorava textos de teatro e imitava um tipo de caipira que agradava a todos nas festas da escola. O garoto freqüentava todos os circos que passavam pela cidade e não escondia sua vontade de se tornar um artista circense.

O sonho foi realizado. Antes de fazer sucesso no rádio, na televisão e no cinema, Amácio Mazzaropi passou pelo circo, foi ajudante de faquir e acompanhou diversas "trupes" pelo interior de São Paulo. Criou inclusive a "Trupe Mazzaropi".

O ator começou sua vida artística em 1926 no circo La Paz. Mesmo sem o apoio da família, como assistente do famoso faquir Ferry, que consegue para ele um documento que transforma seus 14 em 19 anos. Agora ele podia contar as piadas picantes que o povo gostava nos intervalos dos shows e acompanhando a trupe pela estrada de ferro Central do Brasil.

Mas foi em 1932, quando eclode a Revolução Constitucionalista que Mazzaropi passou a ter contato com vários artistas famosos. Durante a revolução, foi criado em Taubaté um projeto chamado Teatro do Soldado, com arrecadação de fundos e organização de espetáculos para divertir os combatentes. Foi nesta ocasião que o ator estreou na Trupe Carrara e, logo depois da Trupe Olga Crutt.

Em 1935, Amácio convenceu a família a seguir a trupe de Olga. Persuadidos, os familiares viraram atores e logo montam seu próprio pavilhão -um barracão de tábuas, coberto com lonas e bancos de madeira para o público. Após receber a herança de seu avô, em 1943, retoma seu projeto melhorando as condições do pavilhão. A família faz sucesso pelo interior de São Paulo, mas, começa a passar por dificuldades quando o pai do ator adoece e a idéia é abandonada.

Sua estréia no palco foi ao lado de Nino Melo no teatro Oberdã, em São Paulo, como ator e diretor da peça "Filho de sapateiro, sapateiro deve ser". Mas, mesmo com o sucesso da peça, não desistiu da idéia do pavilhão e logo recomeçam as apresentações. No ano de 1948 estréia o programa "Rancho Alegre" que faz enorme sucesso na Rádio Tupi, dois anos depois (1950), junto com a inauguração da TV no Brasil, leva seu programas para as telas e repete a dose. Daí para o cinema foi um pulo.

Aos 39 anos, Mazzaropi trabalhava no rádio, televisão e teatro em São Paulo e no Rio de Janeiro começou, um ano depois, uma carreira cinematográfica de 32 filmes. Os diretores Abílio Pereira de Almeida e Tom Payne resolvem chamar o artista para um teste na Companhia Cinematográfica Vera Cruz. Entre muitos candidatos, Mazzaropi é escolhido e contratado. Seu primeiro trabalho foi Sai da Frente, em 1951, pela produtora Vera Cruz e direção de Abílio Pereira de Almeida.

Após deixar a Produtora Vera Cruz -que passava por dificuldades- e realizar mais alguns filmes em outras produtoras, resolve arriscar e criar sua própria produtora, a Produções Amácio Mazzaropi (PAM Filmes) em 1958. Com recursos próprios, inicia as filmagens de Chofer de Praça. Para produzir o filme, vende sua casa, carro e tudo que podia para alugar os estúdios e equipamentos da Companhia Vera Cruz. Além de produzir, Mazzaropi passa a cuidar do lançamento e distribuição de seus filmes por todo o Brasil controlando na bilheteria o resultado dos filmes. Estava com 46 anos e havia alcançado a produção de um filme por ano.

A herança

Mazzaropi era um artista nato e um empresário com muito tino comercial, conta o biógrafo Antônio Leão da Silva Neto na obra "Astros e Estrelas do Cinema Brasileiro". Em seus filmes quase sempre é casado ou enamorado com a personagem vivida pela atriz Geny Prado. Na vida real nunca se casou, mas teve um filho adotivo: Péricles Moreira, que na morte do pai, teve de esconder a notícia da mãe de Mazzaropi, dona Clara. Com 90 anos e fragilizada, acreditava que o filho estava viajando, uma rotina na vida do ator. Péricles era filho de uma empregada do cineasta e nasceu em sua casa.

Desconfiado e solitário, o caipira de fala arrastada, tímido, mas cheio de malícia, arrasta multidões aos cinemas, escreve Silva Neto. "Lança um filme por ano e sempre em 25 de janeiro, aniversário de São Paulo, e no cine Art-Palácio, que ele adota para lançamento das películas, pois o dono do cinema foi o que mais lhe apoiara no início da carreira de produtor", revela. Mazzaropi, que antes emprestava fazendas para a realização dos filmes, compra a sua própria, a Fazenda da Santa, em Taubaté, onde monta seus estúdios. Entrou também no ramo de laticínios, tornando-se um dos maiores fornecedores da empresa Leites Paulista.

Com o sucesso dos negócios constrói no local, nos anos 70, novos estúdios e um hotel. "O império que constrói é dilacerado pelos herdeiros após sua morte, com todos os seus bens indo à leilão, inclusive os filmes. O Hotel-fazenda onde está seu estúdio, continua existindo, agora, com o nome de Hotel Fazenda Mazzaropi, mantenedor do Museu Mazzaropi com um acervo de mais de 6.000 peças", conta Silva Neto.

Mesmo depois de famoso, Mazzaropi não abandonou suas origens e fez circo até morrer aceitando todos os convites possíveis para atuar nos picadeiros. O ator tinha por prática não cobrar cachês de circos pobres e realizar shows com renda destinada a instituições. "Ele era muito humano, carinhoso... Ajudava instituições de caridade fazendo shows beneficentes e não cobrava nem as despesas", conta Santiago.

"A crítica, no começo, me arrasava, agora silencia. Alguns críticos nem mencionam meus filmes nas indicações, como se não existisse. Mas há uma coisa que ninguém pode negar: pouca gente contribuiu tanto para o cinema brasileiro quanto eu e o meu Jeca". Amácio Mazzaropi. (Folha de S.Paulo, 14 de junho de 1981. Um dia depois de sua morte).

Relação dos filmes de Mazzaropi

Sai da Frente (1952 - p&b – ator); Nadando em Dinheiro (1952 - p&b – ator); Candinho (1953 - p&b – ator); A Carrocinha (1955 - p&b – ator); O Gato de Madame (1956 - p&b – ator); Fuzileiro do Amor (1956 - p&b – ator); O Noivo da Girafa (1957 - p&b – ator); Chico Fumaça (1958 - p&b – ator); Chofer de Praça (1958 - p&b - produtor, roteirista, argumentista, ator); Jeca Tatu (1959 - p&b - produtor, roteirista, argumentista, ator);As Aventuras de Pedro Malasartes (1960 - p&b - diretor, produtor, ator); Zé do Periquito (1960 - p&b - diretor, produtor, argumentista, ator); Tristeza do Jeca (1961 - p&b - diretor, produtor, argumentista, ator); O Vendedor de Lingüiça    (1962 - p&b - produtor, argumentista, ator); Casinha Pequenina (1963 - p&b - produtor, argumentista, ator); O Lamparina (1964 - p&b - produtor, ator); Meu Japão Brasileiro   (1964 – cor - produtor, roteirista, ator); O Puritano da Rua Augusta (1965 - p&b - diretor, produtor, argumentista, ator); O corinthiano (1966 - p&b - produtor, argumentista, ator); O Jeca e a Freira (1967 – cor - diretor, produtor, argumentista, roteirista, ator); No Paraíso das Solteironas (1968 – cor - diretor, produtor, roteirista, ator); Uma Pistola para Djeca (1969 – cor - produtor, argumentista, roteirista, ator); Betão Ronca Ferro (1970 – cor - produtor, argumentista, ator); O Grande Xerife (1972 – cor - produtor, argumentista, ator); Um Caipira em Bariloche (1973 – cor -. diretor, produtor, argumentista, ator); Portugal Minha Saudade (1973 – cor - diretor, produtor, argumentista, ator); O Jeca Macumbeiro (1974 – cor - diretor, produtor, argumentista, ator); Jeca Contra o Capeta (1975 – cor - diretor, produtor, argumentista, ator); Jecão...Um Fofoqueiro no Céu (1977 – cor - diretor, produtor, argumentista, roteirista, ator); Jeca e o seu Filho Preto (1978 – cor - produtor, argumentista, ator); A Banda das Velhas Virgens (1979 – cor - diretor, produtor, argumentista, roteirista, ato); O Jeca e a Égua Milagrosa (1980 – cor - diretor, produtor, argumentista, roteirista, ator)

Fonte: http://www.museumazzaropi.com.br/filmes.htm

* Jornalistas que integram a equipe de ScienceNet , projeto de pesquisa voltado para a promoção da cultura da divulgação científica, através do jornalismo científico. Parceria institucional desenvolvida com o apoio do Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da Universidade de São Paulo (HRAC/USP) e Universidade do Sagrado Coração (USC).

Fonte: ScienceNet, Bauru (SP), Ano VII - nº 46 - Julho de 2003

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O Taquaryense: jornal centenário gaúcho que mantém faceta gutenbergiana

Leonel José de Oliveira (UNIVATES)

No dia 31 de julho de 2003 o jornal O Taquaryense, fundado em 1887 por Albertino Saraiva,  comemorou 116 anos de vida. Segundo mais antigo do Estado - perdendo apenas para o Jornal Gazeta do Alegrete, de 1882 -, o semanário gaúcho mantém suas
atividades na cidade de Taquari, localizada a 94 km de Porto Alegre, na região central do Rio Grande do Sul.

Não bastasse sua longevidade, outro fator expressivo alia-se a este centenário veículo jornalístico: o de manter praticamente ininterrupta sua forma original de confecção e
impressão. Isto significa dizer, portanto, que O Taquaryense não apenas está ativo mas, em pleno século XXI, é montado "tipo por tipo" e impresso numa rotativa do século retrasado, máquina esta da marca Marinoni, produzida na Itália.

Mas não é somente esta 'faceta gutenberguiana' que se esconde por detrás de O Taquaryense. Sua outra relíquia chama-se Plínio Saraiva, um senhor que aos cem anos de idade mantém a lucidez para revisar textos e cuidar da expedição na pequena casa onde o jornal funciona, na rua 7 de Setembro, no centro da cidade. Se não há nenhum exagero em dizer que 'seu Plínio'  - como é carinhosamente chamado - é a alma do jornal, as razões para assim considerá-lo aumentam quando descobrimos que é proveniente de sua aposentadoria a quantia necessária para a manutenção do semanário, o que inclui o pagamento de dois funcionários responsáveis por sua montagem.

O afeto de Plínio Saraiva pelo jornal é tamanho que O Taquaryense, como ele mesmo diz, pode ser considerado seu irmão mais velho. Aliás, não sem razão: seu pai, Albertino Saraiva, chegou em Taquari aos 21 anos, proveniente da cidade de São Jerônimo, distante 68 km de Porto Alegre, e fundou o jornal 16 anos antes de seu nascimento, dia 1º de abril de 1903. Nono dos 14 filhos de Albertino Saraiva, 'seu Plínio' conheceu sua esposa, Consuelo Alvim Saraiva, ainda muito jovem. Em 1929, casaram e tiveram dois filhos: Flávia e José Carlos. Hoje seu Plínio tem 6 netos e 9 bisnetos.

Mas toda essa história, com sua infinidade de detalhes e riqueza histórica, está por ser contada. Para tal,o Centro Universitário Univates da cidade de Lajeado, Rio Grande do Sul, e O Taquaryense firmaram um acordo de intenções em 10 de agosto de 2002. O fato foi desencadeado pela proposta do Curso de Comunicação Social da Univates em desenvolver o "Projeto Cultural O Taquaryense", que visa resgatar e preservar a história do jornal a partir da recuperação de suas instalações físicas, contemplando a recuperação completa do mobiliário e de suas instalações, o levantamento, recuperação e registro em microfilmagem e cd-rom do acervo histórico do jornal e a catalogação e registro do maquinário, peças de trabalho e demais implementos físicos existentes no local.

A viabilização destas ações se deu junto ao Governo do Estado do Rio Grande do Sul a partir da Lei de Incentivo à Cultura (LIC), restando à Univates firmar parceria com empresa da região. Posteriormente à sua recuperação, O Taquaryense deverá ter condições físicas apropriadas para transformar-se em temática de pesquisa para o corpo docente e discente da Instituição, além de fonte para estudantes e pesquisadores de outros centros de ensino.

No contexto do projeto desenvolvido pelo Curso de Comunicação Social da Univates, as primeiras tarefas propostas especificam a produção de documentário áudio-visual e de projetos de pesquisa que reconstituam o contexto histórico de O Taquaryense enquanto veículo jornalístico. Como objetivo final, seus idealizadores propõem não apenas sua preservação e posterior fonte de pesquisa científica, mas a transformação desta secular instituição jornalística em um 'Museu Vivo de Comunicação'.

Este ano, o aniversário do jornal será comemorado no dia 2 de agosto com a visita de uma comitiva formada por professores do Curso de Comunicação Social da Univates e do Centro Universitário Feevale, além de alguns convidados ilustres, dentre os quais, o Professor Doutor José Marques de Melo e o Diretor Tesoureiro do ICOM, Flávio Luiz Seibt.  

No momento é possível obter mais informações sobre O Taquaryense a partir de textos produzidos experimentalmente pelos alunos da Univates no endereço
www.univates.br/comunica, na página do curso de Jornalismo. Em breve estará disponível nesta mesma página um material explicativo mais amplo sobre o "Projeto Cultural O Taquaryense"

Se uma série de pesquisas estão por serem feitas, uma primeira curiosidade já está no ar: seria 'seu Plínio' o jornalista mais idoso do Rio Grande do Sul em atividade? Ou
seria o mais idoso do mundo?

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Memória Alagoana: a trajetória jornalística de Costa Rego

Gustavo Accioli (Fonte: Primeira Edição, Maceió, 14/07/2003)

No início deste mês, muito se falou do centenário de nascimento do médico pilarense Arthur Ramos. Nada mais justo, afinal, num estado tão acostumado em esquecer dos personagens que fizeram história, qualquer homenagem a um grande homem é por demais necessária. Porém, o esquecimento dos alagoanos se mostrou cruel em relação a outro alagoano que fez parte da nossa história: o ex-governador de Alagoas (1924-1928), senador, deputado e antes de tudo, jornalista, Pedro da Costa Rego, ou simplesmente, Costa Rego. Assim como Arthur Ramos, ele também era cidadão natural de Pilar.

Apesar da carreira de sucesso na política, esta em nada se compara à trajetória de Costa Rego no jornalismo. Na primeira metade do século passado, ele fez carreira e se consagrou como um dos maiores jornalistas brasileiros. Foi o homem forte do maior e mais influente jornal brasileiro da época, o já falecido Correio da Manhã, do Rio de Janeiro. Dirigiu o jornal por mais de 15 anos e teve sob seu comando gente do porte de Graciliano Ramos, Aurélio Buarque de Holanda, Antônio Callado e Otto Maria Carpeuax.

Costa Rego morreu no Rio de Janeiro, no dia 5 de julho de 1954, há exatamente 49 anos, porém, nada se falou sobre isso. Ano que vem, a morte deste alagoano completará cinco décadas e possivelmente (a memória alagoana torce para que não) passará em branco, como já aconteceu com muitos homens importantes da nossa história.

Costa Rego nasceu em 12 de março de 1889, e num intervalo de dois anos seu pai e sua mãe morreram. Ele, ainda criança, com pouco mais de dez anos, e mais seus cinco irmãos (Rosalvo, Rosina, Rosália, Rosana e Rosalba) se viram órfãos. Por causa da fatalidade, a família resolveu mandar os dois meninos para serem criados pelo tio e jornalista, Antonio José de Oliveira e Silva, que trabalhava no jornal Diário de Notícias, do Rio de Janeiro. Depois da saída trágica de Alagoas, os irmãos fizeram trajetórias de sucesso: Rosalvo da Costa Rego seguiu carreira na igreja e chegou a ser bispo do Rio de Janeiro, enquanto Pedro se dedicou ao jornalismo.

A carreira jornalística de Costa Rego foi norteada pela persistência. Começou como revisor e terminou como editor-chefe. Na época, ser editor-chefe do Correio da Manhã tinha o mesmo peso de um ministro de Estado. Costa Rego foi brilhante na imprensa, ao ponto de tornar-se o primeiro professor de jornalismo do Brasil. Era obstinado pelo idioma Português, tanto que os textos do Correio eram tidos como impecáveis, mas ele não se limitou a ter o domínio da língua, o jornalista era antes de tudo um mestre na profissão. Escrevia todos os dias artigos assinados dos mais variados temas. Devido à influência destes artigos, eram publicados simultaneamente em dezenas de jornais pelo Brasil, inclusive no Jornal de Alagoas.

A importância de Costa Rego para a imprensa brasileira é tamanha. Mesmo tendo desenvolvido uma carreira política paralela, o próprio jornalista, em artigo publicado no Correio da Manhã, em 14 de dezembro de 1929, afirma que nunca foi outra coisa a não ser um homem de imprensa: "No Governo de Alagoas, não fiz outra coisa a não ser honrar o jornalismo, de onde nunca saí e onde continuo com fé de profissional". Costa Rego é mais um personagem da história alagoana e brasileira que está sendo enterrado injustamente. É preciso que nomes como o dele não caiam no esquecimento, sob o risco do Brasil ser cada vez mais um país que não respeita sua memória.

* Serviram de fontes de pesquisa os livros O legendário Costa Rego, Maceió, UFAL, 2001, produzido pelo juiz Antônio Sapucaia e História do pensamento comunicacional, São Paulo, Paulus, 2003, escrito pelo professor José Marques de Melo.

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Eles mudaram a imprensa nacional: depoimentos ao CPDOC-FGV

Fernando Lattman-Weltman (DHBB - Cpdoc - FGV)

Tenho o prazer de comunicar a o lançamento do livro "Eles mudaram a imprensa: depoimentos ao Cpdoc", pela Editora FGV, Rio de Janeiro. Organizado por mim e pelas colegas Alzira Alves de Abreu e Dora Rocha, o livro traz entrevistas com seis jornalistas que tiveram participação fundamental na reformulação ou na criação de órgãos de imprensa brasileiros nas últimas décadas do século XX.

Resumo:
* Este livro reúne depoimentos de jornalistas que tiveram uma participação fundamental na reformulação ou na criação de órgãos de imprensa brasileiros nas últimas três décadas do século XX. As inovações por eles introduzidas tiveram repercussão em toda a imprensa do país e contribuíram para desenhar a face que hoje ela tem.
As entrevistas constituem fontes indispensáveis para a recuperação de suas carreiras jornalísticas e para a reconstrução de um dos períodos mais significativos da história brasileira, o da transição da ditadura militar para o regime democrático.

Sumário:

Informações complementares: WELTMANF@fgv.br

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Centenário de Mário Ferraz Sampaio: projeto de comemoração

1 – Antecedentes

A iniciativa de celebrar o Centenário de Nascimento de Mário Ferraz Sampaio configurou-se em abril de 2002, quando o idealizador da Rede Alfredo de Carvalho, visitou a cidade de Campos, RJ, a convite da Faculdade de Filosofia de Campos.

Antes de proferir a conferência de abertura do SIPEC-Sudeste, ali promovido pela INTERCOM — Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, o Prof. Dr. José Marques de Melo fez questão de dizer que a concordância manifestada aos organizadores do evento na verdade lhe permitia atender a um convite não correspondido há quase 20 anos. Explicou que fora convidado pelo Prof. Mário Ferraz Sampaio para participar do lançamento do seu livro História do Rádio e da Televisão no Brasil e no Mundo (Rio de Janeiro, Edições Achiamé, 1984), mas não pudera comparecer. Desta maneira, cumpria dois compromissos: aquele que deixara pendente com Mário Ferraz Sampaio, há 18 anos, e o que lhe propusera recentemente o Prof. Andral Tavares, sucessor do pioneiro campista.

O colóquio então mantido com o Prof. Andral Tavares e outros docentes da FAFIC foi entremeado por recordações da presença marcante de Mário Ferraz Sampaio em eventos históricos da comunidade acadêmica de ciências da comunicação: as Semanas de Jornalismo da ECA-USP, os congressos da ABEPEC, INTERCOM e UCBC. Indagando sobre a memória do pioneiro da radiodifusão no Norte Fluminense, o Professor Marques de Melo ficou surpreendido com a lacuna identificada no acervo cognitivo das novas gerações. Diante disso, sugeriu aos colegas da FAFIC resgatar aquela memória para celebrar o centenário de nascimento do pioneiro, previsto para 2004. E, desta maneira, incluir a mídia sonora no conjunto das ações desenvolvidas pela Rede Alfredo de Carvalho, cujo escopo inicial foi dimensionando em torno da palavra imprensa, embora esta tenha sido empregada de forma abrangente, incluindo todos os meios de difusão coletiva.

O projeto voltou a ser discutido com a Profª. Ana Lúcia Sanguedo Boynard, presidente da FENORTE, durante a VI FOLKCOM, realizada em Campos, em abril de 2003. Ela expressou imediato acolhimento, informando que o submeteria à consideração da Governadora do Estado do Rio de Janeiro. Sua Adesão materializou-se através do seguinte comunicado:

"... na última quinta-feira, 22/05, quando despachamos com a senhora Governadora Rosinha Garotinho, ela não só nos parabenizou pelo abraço a sugestão, como cobrou a própria participação por ser "do ramo". Assim, considerando que já participamos a Rosinha que no segundo semestre de 2003 deveremos estar lançando o projeto com o edital, para que na data certa no primeiro semestre de 2004, possamos apresentar o resultado de um concurso sobre o tema, em um belo e significativo evento, só nos resta, humildemente pedir SOCORRO ao senhor, autor intelectual da idéia. Conto com a sua supervisão, sugestões, propostas e o que mais puder nos oferecer. Queremos ainda poder contar com sua presidência no grupo de trabalho que estaremos montando em junho/2003 e antecipo que o Governo do Estado, através da Secretaria de Governo, à qual pertence a Fenorte, instituição que tenho a honra de estar presidindo pela segunda vez, já conta com o apoio da FAFIC, dirigida pela segunda vez,já conta com o apoio da FAFIC, dirigida pela nossa querida Regina Sardinha e mesmo sem consultá-los, tenho certeza de que conto também com apoio dos professores Andral e Orávio..."

2 – Calendário Proposto

O ciclo comemorativo do centenário do radialista Mário Ferraz Sampaio pode ser composto por um conjunto de iniciativas, de acordo com o seguinte calendário:

2003/Julho — Instalação do Grupo de Trabalho constituído pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro. Portaria de 17/07/2003.

Comissão de Organização – Grupo de Trabalho

- Presidência – José Marques de Melo – Rede Alfredo de Carvalho

- Regina Sardinha – FAFIC

- Andral Tavares – FAFIC

- Orávio de Campos – FAFIC

- Elias Walter – TECNORTE

- Ana Lúcia Boynard – FENORTE

- Linda Mara Silva – ASCOM / FENORTE

2003 / Setembro — Publicação do edital anunciando o Concurso Mário Ferraz Sampaio e lançamento nacional durante o XXVI Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, agendado para a cidade de Belo Horizonte.

2003 / Dezembro — Lançamento da reedição patrocinada pela FENORTE do livro História do Rádio e da Televisão no Brasil e no Mundo, escrito por Mário Ferraz Sampaio, com prefácio de Roberto Amaral (atual ministro da Ciência e Tecnologia do Governo Federal) e apresentado por José Marques de Melo (presidente da Rede Alfredo de Carvalho). O posfácio dessa nova edição por ser escrito pela Governadora Rosinha Garotinho.

2004 / Janeiro a Setembro — Irradiação, pelas emissoras radiofônicas de Campos, de programas documentários, rememorando os 70 anos da Radiodifusão no Norte Fluminense e destacando o protagonismo de Mário Ferraz Sampaio. Os documentários serão produzidos previamente pelos estudantes e professores da FAFIC, tendo como de fundo os cenários descritos por MFS em seu livro de 1984. (Entidades em que Mário Ferraz atuou para eventos mensais e turmas da FAFIC – Rádio Cultura completa 70 anos em novembro).

2004 / Maio-Junho — Simpósio sobre o tema "Radiodifusão no Norte Fluminense: Contribuições de Mário Ferraz Sampaio", contando com a participação de pesquisadores e radialistas da região, com a finalidade de sensibilizar os alunos da FAFIC. Local: Campos/RJ.

2004 / Agosto — Seminário Nacional sobre o tema "Vida e Obra de Mário Ferraz Sampaio", bem como lançamento do livro e CD Rom publicados pela FENORTE, reunindo os trabalhos vencedores do Concurso MFS, em evento solene programado pelo Governo do Estado, na cidade do Rio de Janeiro. (Em Campos, um dia com a presença da Governadora Rosinha Garotinho).

2004 / Setembro — Anúncio dos Vencedores do Concurso Mário Ferraz Sampaio, durante o XXVII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, agendado para a cidade de Porto Alegre.

3 – Concurso Mário Ferraz Sampaio

O concurso tem a finalidade de incentivar a produção e divulgação de conhecimento sobre Radialismo enquanto disciplina integrante do campo midiológico, estruturado em três modalidades:

  1. Impressa — Ensaio bibliográfico sobre o tema: "Pioneiros da Radiodifusão Brasileiro", podendo enfocar a trajetória do rádio na sociedade brasileira ou focalizar a biografia de uma das figuras destacadas por Mário Ferraz Sampaio no capítulo final do livro História do Rádio e da Televisão no Brasil e no Mundo;
  2. Radiofônica — Perfil bibliográfico de Mário Ferraz Sampaio e sua contribuição para a história da radiodifusão brasileira;
  3. Videográfica —Trajetória profissional de Mário Ferraz Sampaio e seu protagonismo como pioneiro da radiodifusão no Norte Fluminense.

A premiação se fará através da escolha dos três melhores trabalhos, em cada modalidade, assegurando-se aos vencedores:

a) quantia em dinheiro a ser estipulada pelos patrocinadores;

b) publicação dos trabalhos vencedores, sob a forma de livro (ensaios impressos) e de CD Rom (trabalhos produzidos em suportes radiofônico e videográfico).

Além disso, os trabalhos classificados serão difundidos através dos seguintes mecanismos:

  1. O livro será distribuído à bibliotecas das escolas de comunicação e emissoras de RTV de todo o País;
  2. As peças radiofônicas serão irradiadas pelas emissoras vinculadas ao sistema de rádio do Estado do Rio de Janeiro;
  3. Os vídeos-documentários serão exibidos pelas emissoras de televisão vinculadas aos sistemas municipal e estadual de televisão.

O julgamento dos trabalhos será feito por uma comissão especialmente constituída pelas entidades patrocinadoras, integrada por sub-comissões correspondentes a cada modalidade em concurso.

Campos dos Goytacazes, 25 de julho de 2003.

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Agripino Grieco: protótipo do polemista brasileiro

Aluízio Falcão (Fonte: O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 26/07/2003)

Faz 30 anos que Agrippino Grieco morreu. Talvez com ele, em 1973, tenha morrido no Brasil uma vigorosa escola crítica em que se mesclavam, nos textos admiráveis, a ironia e a generosidade. Ele foi, simultaneamente, o destruidor feroz e o guardião de muitas reputações literárias. Ninguém manejou com tal destreza, entre nós, o que Octavio Paz, referindo-se a André Breton, chamou de "linguagem da paixão".

"Eu não tenho balança de justiça. Tudo em mim é gratidão ou vingança", escreveu Agrippino. Entenda-se por gratidão um débito intelectual assumido voluntariamente por todo leitor de uma boa obra. Por vingança, o rigor contra os maus escritores e a reabilitação de nomes que fossem vítimas dos maus críticos.

Este "esfrangalhador de burrices", no dizer de Monteiro Lobato, foi chamado de Mestre, assim com maiúscula, por Gilberto Freyre. Recebeu homenagem até mesmo de Alceu Amoroso Lima, o mais venerado confrade no ofício: "Sua crítica, em geral demolidora de tudo que representa originalidade falsa ou artificialismo, é alimentada por uma larga cultura universal."

Conferências – Quando, em 1988, transcorreram 15 anos de sua morte e o centenário do seu nascimento, o filho Donatello organizou pequena coletânea de apontamentos guardados pelo pai em caixas de sapatos. Eram epigramas, frases, textos diversos. Algumas dessas notas se referiam às conferências literárias que ele fazia, cobrando ingresso, pelo Brasil inteiro. Nelas, Agrippino usa contra si mesmo o veneno da ironia que tantas vezes destilou em sua avaliação do trabalho alheio. Vale a pena lembrar três breves registros sobre as famosas palestras:

(...) "Certo prefeito mineiro relutou em ajudar-me, porque estavam esgotadas as verbas e, de acordo com o código das municipalidades, só poderia ser pedido suplemento de verba em caso de calamidade pública, peste ou enchente. E o prefeito explicava-nos isso sorrindo, como a consultar-me se devia incluir a conferência literária entre essas calamidades públicas..."

(...) "Em outra cidade, apresentaram-me a um médico risonho. Perguntei como ele se chamava, alguém me disse: dr. Herodes. Comecei a chamá-lo assim, apesar de notá-lo contrafeito. A certa altura alguém advertiu: o homem não era Herodes, é pediatra e mata crianças que lhe levam, como o Herodes da Palestina que matava todos os recém-nascidos."

(...) "Nunca deve o conferencista ficar mais de dois dias numa cidade do interior: a intimidade destrói a auréola."

Embora divertido, chega também a ser doloroso saber que um intelectual como Agrippino Grieco precisou vender ingressos para ser ouvido, pagando comissão ao esperto "empresário" que tratava do negócio. Igualmente melancólico é o fato de ter deixado manuscritos em caixas de papelão e não haver, até onde se sabe, um trabalho sistematizado para inventariar sua obra. Sabe-se que apenas Gralhas e Pavões, o livrinho já referido, figura em catálogo no Brasil. Em Portugal estão à venda duas das suas obras (Poetas e Prosadores do Brasil e São Francisco de Assis e a Poesia Cristã). Quem quiser adquiri-las no Brasil, via Livraria Cultura, terá de esperar 16 semanas, a partir da encomenda em São Paulo.

Nosso Mencken – Melhor destino foi reservado a Henry Louis Mencken, célebre polemista norte-americano, apenas oito anos mais velho do que o nosso Grieco e cuja obra é reconhecida internacionalmente. No Brasil, o melhor de sua fúria iconoclasta foi traduzido pelo escritor Ruy Castro e publicado sob o título O Livro dos Insultos.

Embora Grieco mirasse exclusivamente o universo literário e Mencken tivesse como alvo, segundo Edmund Wilson, "toda a vida intelectual" dos Estados Unidos, os dois guardavam marcantes semelhanças biográficas. Foram ambos autodidatas e acumularam extraordinário saber. Tiveram em comum a preocupação em rechear de humor quase todos os seus escritos. Agrippino, por exemplo, opondo-se ao movimento modernista eclodido em São Paulo, distinguiu-se pelas famosas sátiras antiacadêmicas e apoio decidido ao novo romance brasileiro dos anos 30, com Graciliano Ramos, Érico Veríssimo, José Lins do Rego e Jorge Amado. Mencken, reconhecendo pioneiramente Joseph Conrad e ainda Henry Miller ou Dorothy Parker, mas não hesitando em fazer restrições a nomes sagrados como Dostoievski e D.H. Lawrence, por exemplo.

Torpedos – Grieco e Mencken cultivaram o mesmo gosto pelas definições curtas e ácidas. Para melhor entendimento desta comparação, façamos aqui um resumo da pesquisa realizada por Donatello Grieco, agrupando por assunto alguns torpedos e farpas disparados por Agrippino:

Insultos – "Insultavam-se mutuamente e ambos tinham razão." "Seu ultraje honrava." "Começou a aprender italiano depois de ter traduzido Dante." "O chofer Emerson Fittipaldi foi premiado por violar as leis do trânsito."

Estilo – "Para lê-lo, precisarei primeiro, utilizando-se de gramática e dicionário, aprender a língua pessoal em que ele escreve." "Envernizadores, ou melhor, engraxates do estilo." "Páginas que antes parecem esculpidas que escritas." "Antes aprendiam para escrever, agora escrevem para aprender."

Erudição – "Só parece erudito quando fala de assuntos que desconhecemos e nos quais não podemos controlá-lo: poetas da Finlândia, prosadores búlgaros e assim por diante."

Livros – "Crescem cada vez mais as orelhas dos livros... e dos autores." "A Livraria Garnier acabou banco português, e lá está o gerente no lugar em que se sentava Machado de Assis." "Nunca houve livro que não melhorasse se reduzido à metade."

Tipos - "Inútil como um tenor resfriado." "Mais mentiroso que elogio de epitáfio." "Homem que melhor sabia cumprimentar no Rio." "Não guarda nenhuma recordação dos que passaram por ele: indiferente como quarto de hotel." "Um profissional da indignação." "Solene como uma tese de doutorado." "Uma fração de homem." "Do partido dos fartos, dos gordos, dos contentes." "Morreu na Índia, sua única singularidade." "Cidadão grave como o Diário Oficial." "Dá felicitações com um ar de quem está dando pêsames." "Cobriram-no de adjetivos poéticos, mas ele queria apenas um substantivo prosaico: dinheiro."

Mascate -- Talvez, na última frase acima, esteja o caso do próprio Agrippino Grieco, quando mascateava sua inteligência pelo interior do Brasil. Quem teve esta idéia foi o poeta Salomão Jorge, que o abordou quando ele fazia uma palestra (gratuita) na cidade de Santos. Agrippino percebeu Salomão, na fila da frente, fixando-o com olhos rútilos. No fim, o espectador abraçou fortemente o conferencista e convidou-o a explorarem, juntos, o negócio das conferências. Ao escritor, bastaria falar, mediante uma comissão de 40%. O "empresário" procuraria prefeitos, venderia bilhetes, conseguiria local, faria propaganda. Agrippino ganhou o suficiente para viver bem e montar uma biblioteca de 50 mil volumes, ricamente encadernados. Costumava dizer, a propósito de seu agente: "Eu sou as minas de Salomão."

Numa só conferência, ele ganhava mais do que na edição de um livro. Entregou-se furiosamente a essa atividade, sem prejuízo de uma vasta e densa produção intelectual. Com o dinheiro arrecadado, se não adquiriu propriedades, pelo menos montou a biblioteca dos seus sonhos.

Somente assim ele pôde educar os filhos e escapar das limitações materiais que o cercavam desde a infância. Diferentemente de H.L. Mencken, herdeiro de próspero comerciante de charutos, o crítico brasileiro teve origem modesta. O seu pai era um pobre imigrante italiano que se estabeleceu como pequeno tintureiro em Paraíba do Sul. Agrippino alternava o trabalho na tinturaria com longas noites de leitura na biblioteca pública local. Aos 18 anos fez um curso de telegrafista e foi trabalhar na Central do Brasil. Manteve, no Rio, os mesmos hábitos de leitor voraz. Aos 21 anos publicou o primeiro livro (de versos) e passou a escrever em jornais. Estreou como crítico em grande estilo, substituindo Tristão de Athayde, por indicação do próprio, no então famoso rodapé literário de O Jornal. E daí para frente o seu prestígio, reforçado pelas conferências, espalhou-se de Norte a Sul.

Outro Brasil – Essa história somente poderia ter acontecido num país menos complexo como era o Brasil dos anos 10 até o fim dos 50, quando Agrippino brilhou intensamente. Hoje, as palestras remuneradas são reservas de mercado para analistas de economia ou magos do esoterismo. Intelectuais, quando muito, recebem minguados cachês em "projetos culturais". Entrada paga só existe no show biz.

É impossível, nos dias que correm, um escritor dizer o que disse Agrippino Grieco em 1943, há exatamente 60 anos, entrevistado por Joel Silveira: "Uma conferência deve ser como uma ópera. O conferencista é o tenor. Não tenho despesa com orquestra, coro, figurantes e cenário. Sou eu somente, e mais alguém para cuidar da publicidade, da venda de ingressos, da visita antecipada aos jornais. E para isso tenho o Salomão, uma fera que defende com unhas e dentes os 40% que lhe pago. Não pode haver negócio mais seguro."

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