JORNAL DA REDE
ALCAR |
Editores:
José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) / e-mail: marquesmelo@uol.com.br
e Francisco Karam (FENAJ/UFSC) / e-mail: fjkaram@terra.com.br
Edição Digital:
Profa. Maria Cristina Gobbi e Allan Peterson dos Reis (UMESP)
Sítio Digital:
Prof. Clovis Geyer e Ana Paula de Souza (UFSC)
www.jornalismo.ufsc.br/redealcar
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Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da
memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Colaboradores desta edição:
Osmar Mendes (São Paulo), Marco Morel (Rio
de Janeiro), Luis Guilherme Pontes Tavares (Salvador), Carlos C. Abumrad (São Paulo),
Etienne Jacintho (São Paullo), Miriam Abreu (Rio de Janeiro), Raquel Pinto (Rio de
Janeiro), Svendla Chaves (Porto Alegre), Cybelle de Ipanema (Rio de Janeiro), Beatriz
Coelho da Silva (São Paulo), Eduardo Sander (Rio de Janeiro), Isabel Lustosa (Rio de
Janeiro), Haroldo Ceravoo Sereza (São Paulo), Catarina Epprecht (Rio de Janeiro)
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Rede Alcar
Rede Alfredo de Carvalho promoveu encontro histórico no Rio de Janeiro
História, imprensa e representações culturais
Próximo encontro da Rede Alcar em Florianópolis, 2004
Novos núcleos regionais da Rede Alcar
Pesadelos e sonhos às vésperas do bicentenário da imprensa no Brasil
Saga jornalística de Arnon de Mello na série 200 anos da revista Imprensa
Memória Midiática
As Comemorações do Dia Nacional da Imprensa
Rádio e Televisão no Brasil: datas históricas
Telenovela: a quarentona que fez a cabeça do País
Os 125 anos do jornal O Fluminense
O jornalismo depois de Tim Lopes
Reaberta ao público a Casa de Rui Barbosa
Há 20 anos, nascia a "TV do ano 2000"
Reedição de "Quilombo", o jornal negro de Abdias do Nascimento
A história da literatura de cordel segundo Raimundo Santa Helena
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Rede Alfredo de Carvalho promoveu encontro histórico no Rio de Janeiro
Osmar Mendes (São Paulo)
A cidade do Rio de Janeiro viveu um dia histórico, no domingo primeiro de junho de 2003, com o início dos trabalhos promovidos pela Rede Alfredo de Carvalho para a Preservação da Memória e a Construção da História da Imprensa no Brasil. Logo pela manhã, o campus da UniCarioca, na avenida Paulo de Frontin, no bairro do Rio Comprido, foi tomado por um ruidoso grupo de congressistas, formado por profissionais e estudantes vindos de todo o País. Ali estavam representantes dos estados do Rio Grande do Sul, Paraná, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e de outras regiões brasileiras, todos interessados em colaborar firmemente para o sucesso do evento.
Os trabalhos foram abertos por Ana Arruda Callado e Cláudia Chaves, que introduziram para a interessada platéia o Professor Doutor José Marques de Melo que, com palavras brilhantes e otimistas, reforçou mais uma vez a importância do resgate da memória da história da imprensa nacional. O Professor Marques, num breve relato, traçou um histórico de tudo o que se tem feito no gênero em território nacional e conclamou empenho de velhos e novos pesquisadores para que o objetivo seja alcançado no menor tempo possível.
O I Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho teve como parceiros promocionais a ABI, a ABL, a ABECOM, a INTERCOM, a UERJ, a UFF e a UniCarioca. A Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro entrou com apoio cultural. A Comissão organizadora foi formada por Ana Arruda Callado, Cláudia Chaves, Ester Bertoletti, José Marques de Melo e Sonia Virgínia Moreira. Fizeram parte do Comitê Acadêmico: Carmen Lúcia Pereira, Denilson Botelho, Marialva Barbosa, Marco Morel, Lúcia Maria Bastos e Tânia Bessone.
Após uma explanação sobre o "Inventário e Articulação dos projetos desenvolvidos pelos grupos integrantes da RedeAlcar", houve um intervalo de uma hora para o almoço. No retorno, a platéia foi dividida em grupos de estudos, cada qual ocupando uma sala determinada nas instalações da Unicarioca. Dos 75 trabalhos inscritos, houve a apresentação de 52 pelos respectivos autores. Seis temas foram amplamente discutidos: História da Mídia Impressa (Jornal, Revista, Livro); História da Mídia Sonora (Rádio, Disco); História da Mídia Visual (Fotografia, HQ, Cartazes); História da Mídia Audiovisual (Cinema, Televisão); História da Mídia Digital (Web e NTCs) e História da Mídia Persuasiva (Publicidade, RP).
No Grupo da Mídia Audiovisual, foram apresentados trabalhos que despertaram o interesse da platéia e geraram debates calorosos. Entre os participantes estava a Professora Doutora Ruth Vianna, docente da UFMS atualmente participando de programa de pós-doutorado na Universidade de São Paulo, que mostrou uma parte de sua tese de doutorado, versando sobre o telejornalismo brasileiro. Os trabalhos se prolongaram até às dezenove horas e trinta minutos, quando foram encerrados. Um coquetel reuniu os participantes no saguão principal da UniCarioca, onde acontecia também o lançamentos de alguns livros. Entre eles, "..E o Cinema Invadiu Athenas", de Marcos Fábio Belo Matos, de São Luís, Maranhão, que retrata a história do cinema ambulante na cidade, e "O Despertar da TV - Memórias de um telespectador pioneiro", de Osmar Mendes Júnior, de São Paulo, que resgata os 22 anos em que a televisão brasileira, especialmente a paulista, só transmitia imagens em preto e branco.
Na segunda-feira, dia 2, houve o Simpósio "Resgatando a Memória da Imprensa", na tradicional sede da ABI - Associação Brasileira de Imprensa, na rua Araújo Porto Alegre, na Cinelândia carioca. Os trabalhos foram abertos por Ana Arruda Callado, que introduziu para a platéia o presidente da ABI, Fernando Sigismundo. O jornalista Milton Coelho da Graça foi o moderador do Painel I , que teve como tema os "Jornalistas Esquecidos".
A julgar pelos resultados e repercussão dos dois primeiros dias, ficou claro que esse é um tipo de evento que só tende a crescer nas próximas edições. O I Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho previa, ainda, para a tarde do dia 2 atividades na UniCarioca, com a participação de imortais da ABL - Academia Brasileira de Letras e, à noite, na UERJ - Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Nos dias 3 e 4, os trabalhos teriam prosseguimento na UERJ.
História, imprensa e representações culturais
O Seminário "História e imprensa: representações culturais e práticas de poder", realizado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) entre 2 e 5 de junho, como parte do I Encontro Nacional da Rede Alfredo d Carvalho, contou com a apresentação de trabalhos de 60 pesquisadores, que analisaram aspectos da história da imprensa no Brasil nos séculos XIX e XX. Compareceram especialistas de universidades (UFF, UFRJ, PUC e UERJ) e centros de pesquisa (Casa Rui Barbosa e CPDOC/FGV) do Rio de Janeiro, além de convidados de São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Rio Grande do Sul.
Próximo encontro da Rede Alcar em Florianópolis, 2004
Durante a sessão plenária dos integrantes da Rede Alfredo de Carvalho, realizada no campus da UniCarioca, cidade do Rio de Janeiro, no último dia 1 de junho, foi acolhida por unanimidade a proposta do Departamento de Jornalismo da UFSC - Universidade Federal
de Santa Catarina no sentido de sediar o segundo encontro, agendado para o próximo ano, na seqüência do VII Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo.
O evento será realizado nos dias 21-23 de abril de 2004, no campus da UFSC, integrando a programação comemorativa dos 25 de fundação do Curso de Jornalismo daquela universidade. O tema central do encontro será "História do Ensino de Jornalismo e das Profissões Midiáticas no Brasil". Permanecem, contudo, os demais GTs sobre História da Mídia, nos quais os pesquisadores podem apresentar os resultados dos estudos recentemente concluídos ou em processo de investigação. A coordenação do evento estará a cargo do Prof. Dr. Francisco Karam, ermail:
fjkaram@terra.com.brNovos núcleos regionais da Rede Alcar
O primeiro Núcleo Regional da Rede Alfredo de Carvalho foi instalado, em 2001, na Bahia, sob a liderança do Prof. Dr. Luis Guilherme Pontes Tavares. Trata-se do NEHIB Núcleo da História dos Impressos da Bahia, cujas realizações iniciais estão relatadas no texto que a seguir publicamos. Em 2002, foi instalado, sob a liderança da Profa. Ms. Juçara Brittes, o Núcleo de História Midiática do Espírito Santo.
No último dia 30 de maio, foi instalado, por iniciativa da Profa. Dra. Sandra Freitas o Núcleo Mineiro da Rede Alfredo de Carvalho. O acontecimento foi desdobrado em dois eventos, que contaram com a participação do Presidente da Rede Alfredo de Carvalho, Prof. Dr. José Marques de Melo. Um simpósio promovido na PUC Minas, em Belo Horizonte, sobre os desafios da reconstituição da memória midiática, na manhã do dia 30/5, registrou a presença dos jornalistas Guy de Almeida (responsável pelo Projeto Mercosul na PUC-Minas) e Rogério Tavares (dirigente da oNG Tver, em Minas Gerais. Um colóquio sobre a história da imprensa regional, promovido na noite do mesmo dia, na cidade de Divinópolis, no auditório da FADOM Faculdades Integradas do Centro-Oeste Mineiro, teve a presença do Prof. Ricardo Tavares, que lidera o inventário da história midiática no Centro-Oeste mineiro, micro-região integrada por 77 municípios.
Os próximos núcleos a serem instalados estão em processo de constituição no Nordeste: Pernambuco , Paraíba, Piauí e Maranhão, conforme depoimentos prestados durante a plenária da Rede Alfredo de Carvalho na cidade do Rio de Janeiro, na manhã do dia 1 de junho, no auditório da UniCarioca.
Na mesma ocasião, o Prof. Dr. José Amaral Argolo, diretor da Escola de Comunicação da UFRJ, anunciou a sua disposição no sentido de instalar na sede daquela escola o Núcleo Carioca da Rede Alcar, agregando-se aos esforços já empreendidos pela UFF (sob a liderança de Marialva Barbosa), da UERJ (sob a liderança de Marco Morel) e na UniCarioca (sob a liderança de Claudia Chaves), além daqueles desenvolvidos pela ABI (coordenados por Ana Arruda Callado), IHGRJ (coordenados por Cybelle de Ipanema) e MINC (coordenados por Esther Bertoletti).
Pesadelos e sonhos às vésperas do bicentenário da imprensa no Brasil
Luis Guilherme Pontes Tavares
Este breve relato tratará de pesadelos e sonhos. O primeiro pesadelo foi com As Variedades ou Ensaios de Literatura. Não encontrei o exemplar que serviria de original para a edição fac-símile que o Conselho Estadual de Cultura da Bahia anunciou há cerca de 30 anos. Essa foi a primeira revista literária do Brasil, impressa na tipografia de Manoel Antonio da Silva Serva nos primeiros meses de 1812 e editada por Diogo Soares da Silva Bivar, ambos portugueses.
Sobre o pionerismo desse título baiano não há o que contestar no capítulo "A primeira revista brasileira (1812)" com o qual o professor Hélio Viana inicia sua valiosa Contribuição à história da imprensa brasileira. Tampouco encontrei exemplar da edição fac-similar. Tive notícia, porém, dessa iniciativa em nota ao pé da página 126 do livro da professora Maria Beatriz Nizza da Silva A primeira gazeta da Bahia: Idade dOuro do Brasil e nos artigos que o professor Antonio Loureiro de Souza publicou e, 1972 e 1978 na Universitas e no Jornal da Bahia. Desconfio que o original desapareceu. Não retornou ao Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, a que pertencia, e não permaneceu no Conselho Estadual de Cultura, ao qual teria emprestado para edição fac-similar. Não há outro, por exemplo, na seção de obras raras da Biblioteca Pública do Estado da Bahia. Encontrei na biblioteca da Fundação Clemente Mariani um exemplar que me deu a impressão de reunir páginas de um original e páginas fotocopiadas. A mancha está meio esmaecida, mas permite a leitura. No entanto aquele papel em que foi impressa não parece ser do início do século XIX. Em resumo: o fato é que a edição anunciada há cerca de 30 anos terá que ser feita um dia para que muitos conheçam os três únicos números dessa primeira revista literária brasileira.
Eis o primeiro pesadelo. Há outro.
Há três anos tento de várias maneiras chamar a atenção de autoridades e intelectuais para a lamentável situação da biblioteca da Associação dos Empregados do Comércio do Estado da Bahia, instituição do início do século XX que ocupa o amplo sobrado que faz fronteira, de ponta a ponta, com a rua Tira Chapéu, no centro de Salvador. Ali apodrecem ao exagero no verbo, peço desculpas cerca de 10 mil volumes de livros e periódicos de origens portuguesa, francesa e brasileira, datados, sobretudo, do século XIX mas que alcançam a primeira metade do século XX. Já conversei sobre o assunto com inúmeras pessoas de órgãos públicos e de instituições privadas, gente de Salvador, gente do Rio, gente de São Paulo, gente de Lisboa... e nada. Temo que o acervo acabe adquirido por algum sebo por preço indecente e negociado depois por uma fortuna.
Os pesadelos me atormentam. Vou afastá-los com sonhos.
Lembro das atividades de 2001 em Salvador que marcaram a instalação da Rede Alfredo de Carvalho na Bahia. Graças a aquiescência dos professores José Marques de Melo, Cybelle de Ipanema e Esther Caldas Bertelotti e o apoio fundamental da diretora do Arquivo Público do Estado da Bahia naquele instante, a historiadora Anna Amélia Vieira Nascimento, foi possível realizar no período de 25 a 27 de abril o ciclo de conferências "Avaliando a imprensa brasileira nos 190 anos da primeira tipografia da Bahia". No dia 25, a professora Cybelle de Ipanema falou sobre "O empresário Manuel Antonio da Silva Serva e a implantação da tipografia na Bahia"; no dia 26, o professor Marques de Melo falou sobre "A construção da memória dos 200 anos da imprensa brasileira: o pragmatismo utópico da Rede Alfredo de Carvalho" e, no dia 27, fechando o ciclo, a professora Esther Bertoletti falou sobre "Preservação de memória da imprensa". O evento, realizado na Quinta dos Padres, o belo imóvel do século XVIII que sedia o Arquivo Público, reuniu professores, pesquisadores e estudantes. Essas palestras foram publicadas no início de 2002 no volume Rumo ao bicentenário da imprensa brasileira, patrocinado pela Editora da Universidade Federal da Bahia (Edufba). O conteúdo dessa publicação está no site da Rede Alfredo de Carvalho (www.jornalismo.ufsc.br/redealcar) e é permitido fazer download do arquivo em pdf.
Além de participarem do ciclo de palestra, os professores José Marques de Melo e Esther Bertoletti, na tarde do dia 28, na sede do Conselho Estadual de Cultura, explicaram os objetivos da Rede Alfredo de Carvalho e instalaram sua representação na Bahia, numa animada sessão de que participaram, dentre outros, a presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, professora Consuelo Pondé de Sena, o professor Cid Teixeira e o pesquisador Nelson Varón Cadena.
Dias depois, em 14 de maio, quando se comemora o aniversário da Imprensa na Bahia, a representação local da Rede Alfredo de Carvalho compareceu à Associação Baiana de Imprensa para anunciar a criação do Núcleo de Estudos da História da Imprensa da Bahia Nehib. O pequeno grupo de pesquisadores Kátia Carvalho, Nelson Varón Cadena e Luis Guilherme Pontes Tavares entregou ao vice-presidente da entidade, publicitário Jorge Randan, o projeto com os objetivos do Núcleo.
Desde então o Nehib procura parceiros e adesões. Nutrimos a esperança de que a Universidade Federal da Bahia nos apoiasse, através do Instituto de Ciência da Informação ICI. Mas isso não aconteceu, apesar da boa vontade do vice-reitor Othon Jambeiro. Adiante procuramos o apoio da Redecom a rede de escolas de comunicação da Bahia porém essa desde o final de 2002 caminha para a extinção.
O Nehib pretende buscar parceiros para levantar as fontes de estudo da história da imprensa da Bahia; inventariar as tipografias baianas do século XIX e respectivas publicações; elaborar o perfil dos jornalistas mais notáveis; levantar a iconografia dessa história; publicar obras fac-similares, segundas edições e obras inéditas; constituir banco de dados com todas essas informações e manter página na internet. Tudo isso é sonho realizável.
Foi também em 2001, que se utilizou na Bahia, pela primeira vez, o selo da Rede Alfredo de Carvalho, redesenhado em Salvador por uma designer da Edufba. Foi no livro do professor Marco Morel, da UERJ, Cipriano Barata na Sentinela da Liberdade, que é, segundo avaliação de Luís Henrique Dias Tavares, o estudo mais completo sobre o jornalista baiano que se notabilizou pela incansável luta em favor da independência do Brasil. Esse livro foi publicado sob o patrocínio do convênio da Assembléia Legislativa do Estado da Bahia com a Academia de Letras da Bahia. Firmado em 1998, esse convênio permitiu a edição de oito livros, três dos quais afins com a história da imprensa baiana. Os outros dois foram A Comunicação Social na Revolução dos Alfaiates, do jornalista Florisvaldo Mattos, e A Bahia de outrora, agora, da professora Angeluccia Bernardes Habert, baseado na coleção da revista Artes & Artistas, que circulou em Salvador entre 1920 e 1924. O livro, publicado em 2002, foi acompanhado do fac-símile do primeiro número da revista.
Ainda em 2001, como parte das comemorações dos 190 anos da imprensa na Bahia, a Rede Alfredo de Carvalho e o Nehib colaboraram com a Intercom Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação ao incluirem o simpósio sobre essa efeméride na programação da 53ª Reunião da SBPC Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência. Dele participaram os professores Sonia Serra, da UFBA e da FTC, que tratou da história do jornal comunista O Momento, que circulou em Salvador de 1945 a 1957; Weliton Aragão, que tratou da formação da grande imprensa na Bahia; e Luís Guilherme Pontes Tavares, do Nehib, que advertiu para a urgência do levantamento documental sobre a história da imprensa da Bahia.
Há dois outros fatos ocorridos em 2001 que merecem menção. O contato feito pelo professor José Augusto Ventín Pereira, da Faculdade de Ciências da Informação da Complutense de Madri, e a visita que fiz ao Museu Nacional da Imprensa, do Porto, quando conheci seu diretor, Luís Humberto Marcos. Esse museu é mais uma razão para visitar a grande cidade do Porto, no norte de Portugal. Quanto ao professor da Complutense, ele nos surpreendeu com a remessa de cópia em cd-rom de seu livro Los primeros cien años de la empresa informativa en Bahía, obra audaciosa, pois ele a escreveu sem jamais ter visitado a Bahia. Não obstante, ela se inscreveu como valiosa na pobre bibliografia sobre a história da imprensa baiana.
O Núcleo de Estudos da História dos Impressos da Bahia é o representante da Rede Alfredo de Carvalho na Bahia e tem contribuído para animar os estudos e os trabalhos sobre a história da imprensa na Bahia. Funciono como coordenador do Nehib e as atividades que desenvolvo são felizmente afins com a natureza da instituição. De modo que em 2002 desenvolvemos três projetos que serão concluídos no ano em curso. São eles: a coletânea de artigos e ensaios que resultará no volume intitulado Apontamentos para a história da imprensa da Bahia, trabalho que realizo como parte das minhas atividades como professor e pesquisador da Faculdade Integrada da Bahia FIB. Os textos escolhidos são de Octávio Mangabeira, Luiz Viana Filho, Aloísio de Carvalho, Aloísio de Carvalho Filho, Antonio Loureiro de Souza, Antonio Vianna, Honestílio Coutinho e Jorge Calmon.
Os dois outros projetos são a edição de duas pesquisas realizadas pelo bibliófilo Renato Berbert de Castro sobre as tipografias de Camillo de Lellis Masson, a primeira a publicar Espumas flutuantes, de Castro Alves, e de Manoel Antonio da Silva Serva, a pioneira da Bahia. Esses dois trabalhos serão mais um resultado do convênio da Assembléia Legislativa com a Academia de Letras da Bahia.
Estamos comprometidos com o propósito de concluir as iniciativas de 2002 no corrente ano. A elas acrescentamos a nova edição do clássico de Alfredo de Carvalho e João Nepomuceno Torres, Annaes da Imprensa da Bahia, publicado no primeiro centenário da imprensa da Bahia, em 1911. É mais uma iniciativa patrocinada pelo Núcleo de Pesquisa da Faculdade Integrada da Bahia FIB que buscará parceiro para a impressão do livro. Há, também, a perspectiva porque as conversações foram iniciadas do Instituto de Radiodifusão Educativa do Estado da Bahia Irdeb realizar documentário para televisão sobre a pioneira tipografia baiana, de Manoel Antonio da Silva Serva. O primeiro passo será a elaboração do roteiro, ao qual darei minha colaboração pessoal. Estou certo de que alguns dos senhores e senhoras farão parte do filme.
Incluo entre os sonhos a continuação da pesquisa que faço sobre o jornalista e editor baiano, nascido em Cachoeira, Cincinnato José Melchiades. No final do século XIX, ele imprimiu na sua Typographia Bahiana livros e mais livros de autores que alcançaram consagração nacional, a exemplo de Ruy Barbosa.
Quero, para encerrar, cumprimentar a Rede Alfredo de Carvalho e os parceiros que a apoiam neste I Encontro Nacional. Este evento que hoje começa nos anima a prosseguir trabalhando para que as comemorações de 2008 sejam assentadas em obras que revelem nosso passado e nos permitam construir melhor futuro.
BIBLIOGRAFIA
VIANA, Hélio. Contribuição à história da Imprensa brasileira. Rio de Janeiro: Nacional, 1945.
SILVA, Maria Beatri Nizza da. A primeira gazeta da Bahia; Idade dOuro do Brasil. São Paulo: Cultrix; Brasília: INL, 1978.
SOUZA, Antonio Loureiro de. Apontamentos para a história da Imprensa na Bahia. Salvador: Universidade Federal da Bahia, n. 12/13, 1972, p. 161-174; sob o título "Notícias sobre a Imprensa baiana, desde 1811: 167 anos de luta pela independência", foi republicado pelo Jornal da Bahia nas edições comemo-rativas do 20º aniversário do matutino em setembro de 1978 às páginas 6 e 7.
MELO, José Marques et al. Rumo ao bicentenário da imprensa brasileira. Salvador: Núcleo de Estudos da História dos Impressos da Bahia (Nehib); São Paulo: Rede Alfredo de Carvalho, 2002.
Saga jornalística de Arnon de Mello na série 200 anos da revista Imprensa
A edição de junho da revista IMPRENSA, em circulação nas bancas de todo o país, dedica o encarte da série 200 anos da imprensa no Brasil ao jornalista Arnon de Mello, o repórter que se tornou empresário, construindo o principal gr upo midiático do Estado de Alagoas. A série coordenada pelo Prof. Dr. José Marques de Melo, contou com a colaboração, para essa matéria, dos professores-jornalistas Rossana Gaia (CEFET-AL) e Boanerges Lopes (UFAL). Informações sobre a publicação estão disponíveis no sítio digital: www.portalimprensa.com.br
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As Comemorações do Dia Nacional da Imprensa
Miriam Abreu e Raquel Pinto
Afinal, o Dia Nacional da Imprensa é comemorado em 10/09 ou 01/06? Até 1999 a data era celebrada em 10/09, mas uma campanha da Associação Riograndense de Imprensa (ARI) conseguiu mudar o dia. A ARI entregou uma minuta de projeto de lei ao deputado Nelson Marchezan, em 1998, sugerindo a mudança. Mas, por quê?
Até 1999, valia o decreto de Getúlio Vargas, que 60 anos antes vinculou o início da atividade jornalística no Brasil ao lançamento da Gazeta do Rio, jornal da Coroa Portuguesa, em 1808. Desde 2000, o Dia Nacional da Imprensa passou a ser comemorado em 01/06, porque foi nesta data que o Correio Braziliense, de Hipólito José da Costa, circulou pela primeira vez.
A Gazeta do Rio não agradava os jornalistas. Eles não aceitavam ter um jornal nascido sob a censura da Metrópole como representante da imprensa brasileira. O diário foi o primeiro a circular oficialmente no Brasil, mas o Correio foi o primeiro jornal clandestino a ser lido na colônia - ele era impresso e editado em Londres, onde Hipólito ficou exilado, depois de ser preso em Lisboa sob muitas acusações. De acordo com o historiador Nelson Werneck Sodré, no livro "História da Imprensa no Brasil", o fundador do Correio disse: "Resolvi lançar esta publicação na capital inglesa devido à dificuldade de publicar obras periódicas no Brasil, já pela censura prévia, já pelos perigos a que os redatores se exporiam, falando livremente das ações dos homens poderosos".
Cento e setenta e cinco exemplares do Correio Braziliense circularam pelo Brasil. O jornal foi publicado até 1822.
As comemorações
A ARI preparou a Semana Hipólito José da Costa / Dia da Imprensa (veja a programação abaixo), que teve início no dia 29/05. Além de homenagear a imprensa nacional, a idéia é valorizar também o fundador do primeiro jornal brasileiro. Alguns sindicatos, como o do Espírito Santo, Santa Catarina e Distrito Federal, também programaram eventos.
A Associação Maranhense de Imprensa decidiu fazer algo diferente: organizou uma manifestação para este domingo (01/06) em defesa da qualificação e da regulamentação profissional, que contará com o apoio do Clube dos Pára-quedistas do Maranhão. O evento será na Praia de São Marcos, a partir das 8h30, em frente ao Bar Capitão Gancho.
A Federação Nacional dos Jornalistas preparou o manifesto "Imprensa, seu nome é liberdade", em homenagem aos profissionais de imprensa brasileiros (leia-o na íntegra abaixo).
Confira a programação da ARI - Comunique-se traz apenas a agenda do dia 31/05 a 07/06:
31/05
02/06
05/06
07/06
Veja aqui a programação de alguns dos sindicatos:
Espirito Santo
Brasília
Nos dias que antecedem a sessão solene, a Fenaj e o Sindicato de Brasília estarão distribuindo panfletos para divulgar o manifesto em defesa da profissão, junto às escolas de jornalismo e em outros pontos da capital federal.
Santa Catarina
São Paulo
Agora, o manifesto da Fenaj:
"Na semana em que se comemora o Dia da Imprensa (1º de junho) e ao se completar um ano do trágico assassinato do jornalista Tim Lopes (2 de junho), a FENAJ - Federação Nacional dos Jornalistas e os 31 Sindicatos filiados querem fazer uma homenagem a todos os jornalistas profissionais brasileiros, àqueles homens e mulheres que fazem da sua atividade diária um serviço à sociedade, garantindo o direito fundamental do acesso à informação ética, plural e livre.
A FENAJ e os Sindicatos reafirmam os princípios que norteiam o jornalismo. Conclamam a sociedade para que seja nossa grande aliada na defesa da liberdade de expressão, da liberdade de imprensa, da democratização da comunicação e da informação voltada ao interesse público. E lembram que a defesa destes princípios exige jornalistas responsáveis, organizados, preparados e comprometidos com a sua formação profissional."
Federação Nacional dos Jornalistas
Fonte: Portal Comunique-se, 30/5/2003
Rádio e Televisão no Brasil: datas históricas
Carlos C. Abumrad*
Inicialmente, cumprimento o trabalho desenvolvido pela equipe da Rede Alfredo de Carvalho "para o resgate da memória e a construção da história da iimprensa no Brasil", como diz o seu slogan.
E é justamente dentro dessa linha que estou escrevendo, para ressaltar dois aspectos, ambos relativos a datas, constantes de matérias reproduzidas na edição nº 29, de 1º de maio, do Jornal da Rede Alcar.
A primeira delas é Os 50 anos da TV Record, nostalgia e romantismo, transcrria do jornal O Estado de S. Paulo, na qual a repórter Carol Knoplich afirma que a TV Record é a mais antiga em operação no País. No final há um quadro cronológico, que começa com o ano de 1953, quando a TV Record foi fundada, e que termina com a observação: "A TV Tupi já funcionava".
A bem da verdade, a emissora de televisão mais antiga em funcionamento no País é a TV Globo de São Paulo, sucessora da antiga TV Paulista, esta fundada 1 ano e meio antes da Record. No livro Um País no ar - história da TV brasileira em 3 canais, Inimá Simões, um dos autores, menciona as seis primeiras emissoras brasileiras de televisão:
TV Tupi (SP) 18/09/1.950
TV Tupi (RJ) 20/01/1.951
TV Paulista (SP) 14/03/1.952
TV Record (SP) 27/09/1.953
TV Rio (RJ) 15/07/1.955
TV Itacolomi (BH) 08/09/1.955
A segunda matéria é a Rádio Clube de Pernambuco: emissora mais antiga da América Latina, extraída do site mantido pelo jornal Diário de Pernambuco, onde consta qaue aquela emissora foi fundada no Recife em 1.919, com o objetivo inicial de"desenvolver experiências com telegrafia sem fio", passando depois a executar serviços de radiodifusão.
Como jornalista especializado nessa área, conheço perfeitamente a questão das datas: faz parte da História que a primeira transmissão radiofônica no Brasil foi feita em 7 de setembro de 1.922, no Rio de Janeiro, então capital federal, na abertura da exposição comemorativa do Centenário da Independência. E a primeira emissora de rádio seria fundada no ano seguinte, em 23 de abril de 1.923, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, pelo médico, antropólogo e pesquisador Edgard Roquette Pinto, justamente por isso apelidado de Patrono da Radiodifusão Brasileira.
A propósito, a Revista USP ( fones (11) 3091-4403 e 3091-4438) acaba de lançar uma edição sob o título "80 anos de rádio", com artigos de diversos profissionais, inclusive o de Vera Regina Roquette-Pinto, contando a façanha de seu avô, que depois doou a emissora ao Governo Federal, passando a chamar-se Rádio Ministério da Educação, para manter seu caráter educativo.
Não pretendo criar polêmica em torno do pioneirismo. Apenas acho ser meu dever deixar registradas todas as versões referentes ao surgimento do rádio no Brasil para que os interessados possam pesquisar, conhecê-las e tirar suas próprias conclusões.
* Diretor da revista SINTONIA TOTAL, São Paulo-SP (
jornalradiotv@uol,com.br) Telenovela: a quarentona que fez a cabeça do PaísEtienne Jacinto
Julho de 1963. Glória Menezes é uma presidiária que trabalha como telefonista. Tarcísio Meira vive um homem que se apaixona pela voz da moça. As grades são o obstáculo a ser vencido. Essa é a história de 2-5499 Ocupado, de Dulce Santucci. O argumento e a direção são de profissionais argentinos. A importância? O enredo marca o início da telenovela diária no Brasil. Nestes 40 anos de tramas e dramas, o gênero mudou muito. O público se expandiu. Mas a essência é a mesma. E a fórmula parece inesgotável, apesar dos altos e baixos.
No começo, os textos das telenovelas eram adaptações de títulos de outros países da América Latina, Cuba e Argentina, principalmente. Hoje, isso é observado somente nas novelas do SBT. Gloria Magadan era quem ditava as regras nos anos 60. A cubana, que viveu nos Estados Unidos, trouxe para o Brasil a fórmula dos folhetins românticos importados, com príncipes, princesas, ciganos e outros personagens tão distantes da realidade nacional. Beto Rockfeller, de 1968, foi o divisor de águas. A novela de Bráulio Pedroso levou à telinha o anti-herói na pele de Luiz Gustavo. "Era uma trama contemporânea e cômica, com crítica social", fala a coordenadora do Núcleo de Estudos da Telenovela da USP, Renata Pallottini. Para a especialista, a novela transformou o gênero de romântico para realista.
Beto Rockfeller abriu o que muita gente considera a época de ouro da telenovela brasileira. Os 20 anos de glória começaram no final da década de 60 e se estenderam até os anos 80. "Na década de 70, os autores conseguiram emplacar produtos de qualidade na TV", comenta o autor Lauro César Muniz. "Ocorreram modificações técnicas e textos primorosos como O Bem-Amado (73), O Rebu (74), Escalada (75), Pecado Capital (75), Gabriela (75) e Nina (77)." Para o autor, muitas mudanças agitaram a teledramaturgia desde que ele começou na profissão, em 1966, com Ninguém Crê em Mim.
"Com o Plano Real, muita gente adquiriu TV com controle remoto. O público aumentou e a exigência diminuiu", fala o autor. Ele acha ainda que a TV paga e o videocassete desviaram o público seletivo para outros meios. "A TV aberta hoje é vista por uma platéia menos exigente e os autores estão escrevendo de forma diferente." Mas o escritor crê que todos os meios passam por momentos de crise. Daí, isso não significa que a novela esteja com os dias contados.
Para o autor Walther Negrão, não existem épocas de ouro e sim momentos e produções de qualidade. Ele coloca Beto Rockfeller como um marco e cita outras novelas como O Cara Suja (65), Antônio Maria (68) e Nino, o Italianinho (69) de sua autoria. Os protagonistas das tramas eram feirante, motorista e açougueiro, respectivamente. "Elas acabaram com a nobreza do folhetim", fala Negrão. Mas a mudança veio aos poucos. Em Nino, o Italianinho, o público rejeitou o ambiente do açougue. "Os telespectadores não agüentaram ver o protagonista cheio de sangue", conta. "Mudamos o ambiente para uma mercearia." Mesmo em Beto Rockfeller, alterações foram feitas para agradar ao público. Negrão diz que as pessoas olhavam torto para os golpes do personagem. "Foi preciso dar motivos para as trapaças e Beto se tornou uma espécie de Robin Hood, que roubava dos mais ricos para dar aos pobres."
Nostalgia O autor Gilberto Braga discorda de Lauro César quanto à exigência do público. Para ele, os telespectadores cobram boas histórias. E a nostalgia é algo natural. "Sabe o que se dizia na Grécia Antiga? Que o teatro estava decadente e que iria acabar. É natural o ser humano achar que no passado tudo foi melhor", diz Braga. Ele afirma que muita gente que acha a produção de 1980 melhor, tinha 10 ou 15 anos na época. "Com certeza, em 2020, pessoas que estão adorando as novelas de agora irão reclamar das novelas de 2020." Gilberto Braga até duvida da adoração por Escrava Isaura, adaptação da história de Bernardo Guimarães que ele realizou em 1976 com muito sucesso. "Todo mundo diz que adorou Escrava Isaura. Queria ver gostarem agora.", desafia. "Claro que tinha força novelesca, mas a realização na época era precária."
A turma dos nostálgicos é engrossada por duas damas da teledramaturgia. Eva Wilma é fascinada por Ivani Ribeiro e Janete Clair. "As duas conheciam muito bem a carpintaria da telenovela", fala a atriz. Para ela, as duas novelas mais marcantes de que participou foram Mulheres de Areia (73) e A Viagem (76), ambas de Ivani Ribeiro. Mas não esquece os personagens fortes que ganhou de Aguinaldo Silva em Pedra sobre Pedra (92) e A Indomada (97) nem dos "sete belíssimos capítulos" que fez em O Rei do Gado (97), com a dupla Benedito Ruy Barbosa e Luís Fernando Carvalho. Hoje, acredita ela, "não há mais a poesia de um beijo."
Protagonista do primeiro beijo na boca da TV, na série Sua Vida me Pertence, em 1951, Vida Alves defende esta como a primeira novela brasileira. A base era de folhetim, mas a atração não era diária. Para Vida, os enredos das primeiras novelas eram mais românticos.
Fôlego Ary Fontoura diz que não é saudosista. "Acho que tudo tem a sua época", diz o ator, que acredita que os autores abusam da fórmula da telenovela. "Estava conversando sobre isso com o Lima Duarte e chegamos à conclusão de que fazemos a mesma novela há 40 anos." Para ele, o que diferencia o talento de cada autor é a capacidade de criar suspense entre os capítulos. "E esses ganchos passaram a desaparecer." Ele também valoriza a novidade nos enredos e lembra de Saramandaia (76). "Tinha até uma mulher (a Dona Redonda, papel de Wilza Carla) que explodia de tanto comer."
A especialista Renata Pallottini acredita que a repetição é uma idéia contraditória na cabeça do telespectador. "O público de novela é como uma criança que gosta de ouvir as mesmas histórias por ser algo relaxante, mas ele se cansa mesmo inconscientemente", explica. "Cabe ao autor usar a fórmula antiga com novos ingredientes." Para ela, um autor que tenta inovar e obtém sucesso é Carlos Lombardi. "Só que, às vezes, ele exagera no ritmo acelerado, o que confunde o telespectador." Negrão concorda com a acadêmica. "Lombardi usa uma linguagem nova com o pé no folhetim", comenta o autor, que defende novas apostas nessa área. "O caminho é colocar novos talentos amparados pela experiência dos veteranos."
Essa é a tentativa da Globo atualmente. Gerar uma nova safra de autores que já trabalharam com os grandes escritores dentro da própria emissora. Renata Pallottini acha a renovação do gênero necessária. "A telenovela vai se esgotar um dia, assim como o folhetim impresso se esgotou. Mas não digo que será agora."
Svendla Chaves, de Porto Alegre (*)
A FM Cultura de Porto Alegre iniciou, no dia31 de maio, a veiculação de programas especiais sobre a história do rádio no Rio Grande do Sul. O conteúdo foi produzido pela Associação Gaúcha de Emissoras de Rádio e TV (AGERT) e faz parte de um projeto que inclui registros em vídeo e dois livros, lançados no último congresso da AGERT: "A História do Rádio no Rio Grande do Sul" e "Na onda do progresso".
Iniciada em 2001, a pesquisa é baseada em depoimentos de pessoas que acompanharam a evolução do rádio gaúcho e foi realizada em parceria com a Alternativa Consultoria e o Ministério da Cultura, através da Lei Rouanet. Em áudio, são 35 programas, que vão ao ar todos os sábados a partir das 11h30. Os quatro vídeos da mostra abordam temas como a radionovela, o rádio musical da década de 60, a abrangência do veículo e os fatos importantes na história nacional e regional que marcaram o desenvolvimento do rádio. O projeto tem o apoio da Secretaria da Cultura, Sindirádio, Central de Rádios do Interior, Assembléia Legislativa do RS, RBS TV, Marcopolo, DSM Elastômeros Brasil, Randon, Vivo e Sinoscar.
(*) Da equipe do site
Beminformado.comOs 125 anos do jornal O Fluminense
Cybelle de Ipanema
Agradecemos, como dever primeiro, a honra, que não tem preço, de falarmos, sem o realce, contudo, de qualquer de seus integrantes, em nome de 19 entidades sediadas em Niterói, pólo cultural do estado, emparelhado aos que projetam o Rio de Janeiro, nos setores acadêmico, científico e artístico.
A presente fala reveste-se de um cunho especial, por não se restringir, apenas, a passar informações sobre as diferentes facetas desta cidade, tão cara a vocês e a nós mesma, não nascida ou residente, mas de ligações afetivas fortes e antigas com a "terra de Araribóia", no recordar a fundação. Visa a homenagear, com justiça grande, o maior símbolo da imprensa niteroiense por suas raízes na cidade , estendido à província e ao estado, fazendo-se um jornal fluminense, por todos os títulos, a começar pela própria marca.
Louvamos Salvador Mata e Silva, motor, há muito, desse Instituto que ajudamos a criar (sócia efetiva fundadora, de grande orgulho, desde 1973), o ter erguido a bandeira do IHGN nas comemorações de data por demais expressiva, os 125 anos de O Fluminense, como agradecemos o lembrar esta pesquisadora carioca e fluminense, co-autora, com Marcello de Ipanema, de Imprensa fluminense: ensaios e trajetos (1984) e Catálogo de periódicos de Niterói (1988).
Dois motivos ainda poder-se-iam talvez invocar, para que falássemos sobre O Fluminense, carinhosamente, O Flu, embora sem o valor de muitos outros esmiuçadores da vida do estado do Rio de Janeiro, aqui presentes e não: o referido Imprensa fluminense: ensaios e trajetos tem a avalizá-lo, dando-lhe o brilho maior que não possuía, o prefácio enriquecedor do dr. Alberto Francisco Torres, Diretor-Presidente, então do jornal aqui homenageado, por um lado. Por outro, honra nossa, fomos colaboradores do jornal, entre novembro de 1977 e janeiro de 80, quando Assessores Culturais das Faculdades Simonsen. Semanalmente, no Suplemento Zona Oeste (a Faculdade é em Padre Miguel, no Rio de Janeiro), transformado em Baixada-Zona Oeste, em 30 de março de 1979, editamos uma coluna, "Memória comunitária", num total de 118 colaborações, transcrita, muitas vezes, em outros Suplementos, como Costa Verde, Cabo Frio etc.
São credenciais que nos arrogamos para aceitarmos o convite do presidente, o que não diminui a responsabilidade, pelo contrário, amplia-a, no dizer ao auditório um pouco da vida de O Fluminense e exaltá-lo nessa festiva comemoração de tantos janeiros.
É, hoje, O Fluminense o terceiro órgão de imprensa mais antigo do estado do Rio de Janeiro. Vence a corrida o Jornal do Commercio, da capital, fundado em 1827, seguindo-se O Monitor Campista, de 1834, e ele, de 1878. No Brasil, o pioneiro Diário de Pernambuco é de 1825 (dois anos mais antigo que o JC), coincidentemente, todos três, Diário de Pernambuco, Jornal do Commercio e Monitor Campista, integrantes da Cadeia Associada, os Diários Associados de Assis Chateaubriand.
A marca
Para o lançamento de um produto, que se pretende firmar pela excelência do que é oferecido, a primeira preocupação é a marca, o título, algo que impressione, que defina, que traduza anseios e ligação entre produtor e consumidor. Não havia, no início da imprensa, nem mesmo na altura da criação do nosso jornal, estratégias de marketing, sofisticação de pesquisas, análises de comportamento, estudos de psicologia humana tendentes a ação e reação, o que, no século XXI, mesmo sem que o percebamos, invade nosso cotidiano e nossa privacidade para selecionar o que calhe melhor, represente, enfim, aceitação.
Nos primórdios da imprensa, falavam muito marcas com idéia de luz, de despertar: Aurora Fluminense, Matutina Meiapontense, Farol Paulistano, Luz Brasileira...
A marca Fluminense, na imprensa do estado, é forte. O gentílico partiu do flumen, inis (o rio), do latim que não nos deixa mentir. A região integrou-se no contexto português, pela descoberta da Baía de Guanabara, em 1502 (julgada a boca de um rio), e se perpetuou. Aliás, seu uso como qualificativo aplicado às coisas da cidade e do que se tornou a província e o estado deve ter tido começo documentado no século XVIII, a exemplo da Flora fluminense, de frei Mariano.
Fluminense, identificando jornais de Niterói, já se aplicara três vezes, antes do vitorioso de 125 anos em 1848, folha de certa importância que durou pouco mais de um ano; em 1864, de poucos meses, até 65, e em 1867, estendendo-se por dois anos, praticamente. Não era incomum a existência curta falta de apoio, de recursos, de leitores.
Em 8 de maio de 1878 explode o novo O Fluminense (dos anteriores, um não ostentara o artigo O) que veio para ficar e ficar muito, impregnando a cidade de Niterói, capital da província do Rio de Janeiro, no tempo de d. Pedro II, portanto, e ultrapassando todas as fases por que tem passado o regime republicano no Brasil, desde sua implantação em 89. Viveu a República Velha, até 1930, a Revolução desse ano, o Estado Novo, a de 64, os regimes de exceção, confluindo na nossa contemporaneidade.
Epígrafe
Característica da imprensa dos primeiros tempos, era a divisa dos periódicos e dizia de sua linha, orientação, propósitos. Usava-se com freqüência o francês e o latim, extraindo ou não, citações de autores clássicos. O português também comparecia, sem predominar. Alguns exemplos, para ilustração. A Idade dOuro do Brazil, primeiro jornal baiano (1811), ornava-se com: "Falai em tudo verdades a quem em tudo as deveis" (Sá de Miranda). Em 1821, o Reverbero Constitucional Fluminense, grande propulsor da Independência, na corte, pediu socorro a Horácio, poeta latino, com "Redire sit nefas" ("Voltar atrás é um crime"), enquanto que O Farol Paulistano, de 1827, de José da Costa Carvalho, pioneiro na cidade de São Paulo, conservou, nos seus quatro anos de circulação, "La liberté est une enclume qui usera tous les marteaux", ou seja, "A liberdade é uma bigorna que desgastará todos os martelos", sem autor declarado.
O Fluminense nasceu órgão conservador, guardando mesmo uma linha política de oposição à situação liberal vigente, ainda que não sistemática. Não incluía no cabeçalho a sua orientação, mas pautava-se pela conduta de colocar "o partido acima de tudo, mas a nação acima dos partidos", como está bem sintetizado na edição do Centenário (p. 5 do tablóide). Intitulava-se, na cabeça mesmo, "órgão da Província do Rio de Janeiro" e "órgão dos interesses da Província do Rio de Janeiro", desde a reforma de 2 de julho de 1880, quando também modifica a representação do título.
De há muito é "O Fluminense, o jornal do Estado do Rio" e sem o o como atualmente.
Imagem
O visual chama a atenção nas bancas. Nem lemos o título, porém "vemos" o que interessa, pelo conjunto que se consolidou no subconsciente.
Em 1878 eram caracteres verticais, cheios nas partes superior e inferior, o que mudaria, naquela reforma, com a opção pela escrita em gótico, muitas vezes estilizada.
Este, O Fluminense do nosso imaginário, mantido por muitos milhares de edições, retornado à escrita vertical.
Mais de 45.600 dias medeiam entre o surgimento do jornal e esta fala. A história do periódico está em suas páginas, em suas campanhas, na penetração que ele mantém, mercê de sua credibilidade. Um desafio aos niteroienses se já não o tiverem realizado : levantar a vida desse herói que, aqui, ligeiramente esboçamos.
As amarelecidas páginas centenárias, até edições mais recentes, transformaram-se no instrumento de salvação, o microfilme, que preserva o original (mas, cá para nós, tira o sabor da pesquisa como a praticávamos, na década de 1950 e para a frente, quando nos iniciamos, levada por Macello de Ipanema, na fé de que a imprensa é a alma, o retrato da sociedade e indispensável fonte da História controlada, naturalmente, como todas as outras que se têm que cruzar).
Fomos dos propugnadores do recurso, com vistas a conservar os periódicos, retirando-os da consulta continuada que dilacera o papel e compromete, irremediavelmente, a integridade desses pedaços de vida, traduzidos em preto no branco.
O momento comporta um ligeiro desenho do trajeto do líder.
Quando O Fluminense foi fundado, estava no poder o partido liberal, segunda face da moeda das situações políticas durante o reinado do senhor d. Pedro II. Ele era um órgão conservador, enfrentando uma situação adversa, pois o gabinete dessa tendência caíra, ascendendo a outra linha, em 5 de janeiro de 1878, sob a chefia do visconde de Sinimbu, João Lins Vieira Cansansão de Sinimbu, chamado pelo imperador para organizar o novo ministério.
Tomou O Fluminense como bandeira: "defesa das tradições fluminenses, desenvolvimento comercial e industrial, dinamização da instrução pública, abertura de estradas e implantação de melhoramentos urbanos". Era, sem dúvida, um programa amplo que se ressente, no entanto, como visto, da falta de um item voltado à agricultura. Não acreditamos que estivesse ausente a preocupação: era como que óbvio, naturalmente, em um país "essencialmente agrícola" e uma província marcada, no cenário nacional, à frente da produção cafeeira, já no seu declínio, afinal.
Fomos à Biblioteca Nacional, no afã de colher, dos fundadores, o que pensavam, porque lançavam uma folha nova no cenário de Niterói. Circulava O Liberal, "Órgão Democrático da Província do Rio de Janeiro", filiado ao partido liberal, propriedade de uma associação, impresso no Rio de Janeiro, na Tipografia da Rua Nova do Ouvidor. Nasceu em 18 de janeiro de 1878, quatro meses antes, por conseguinte de O Fluminense e em cima da elevação do ministério liberal, como visto. Aí estava a resposta (não no corpo físico de O Fluminense porque não o encontramos). Só temos registro da saída de 9 números, de O Liberal, até 6 de fevereiro.
Lamentavelmente choremos todos, copiosamente , o microfilme, realizado de "originais da Biblioteca Nacional e da empresa O Fluminense" revela muitos mutilados e/ou ilegíveis. O primeiro número encontrado é o 4 (dilacerado) e, assim mesmo, subtendido, pela indicação do folhetim ("continuado do n 3"). Só a partir do 5 há regularidade.
Não culpemos, contudo, os primeiros responsáveis. Circunstâncias podem ter presidido a essa ausência.
Pequenos flashes salpicam a trajetória.
Assinatura e periodicidade
Do primeiro cabeçalho legível tira-se que a assinatura, para Niterói e corte, custava, por seis meses, 5#000 rs. e um ano, 10#000, vendendo-se o número avulso a 60 réis. Saía às quartas, sextas e domingos, "por enquanto". Terças, sextas e domingos eram os dias de edição de O Liberal. Logo, simultaneidade em dois dias da semana.
Aceitava para publicação gratuitamente, qualquer artigo de interesse público que devia ser encaminhado à sede.
Fundadores, primeiros tempos
Letras de ouro, ou o que mais seja, para significar apreço e elevação, devem reservar-se para Prudêncio Luís Ferreira Travassos e Francisco Rodrigues de Miranda, seus criadores, em 8 de maio de 1878.
O primeiro endereço, o sobrado da Rua da Conceição, no 59 antigo, local da tipografia de Rodrigues de Miranda.
O 1o número de O Fluminense não fugiu às linhas das publicações suas contemporâneas. Na primeira página, quase metade dela, o folhetim, romance em série, rodapé que mantinha aceso o interesse do leitor, chamariz para novas aquisições, tal qual hoje, as redes de televisão e seus dramas e comédias de capítulos e capítulos. Prática da imprensa brasileira, importação da França.
No jornalismo carioca pontificaram José de Alencar, por exemplo, com "Ao correr da pena", no Correio Mercantil, e outros. O rodapé, muitas vezes, era a crônica, mundana ou política. Exemplo também do Rio, A Semana, de Francisco Otaviano, enriquecendo o Jornal do Commercio.
O Fluminense de há 125 anos escolheu "A última conquista", de Salvador Guijarro, uma novela.
Durante muitos anos e como até hoje na imprensa de menos recursos do interior, do Rio de Janeiro e outros estados do Brasil a edição era de 4 páginas, a última reservada aos anúncios.
Começou trissemanal; foi diário, exceto às segundas, entre 1 de julho de 1892 e 31 de dezembro de 1902. É diário (meta em todos os lugares) desde 1o de janeiro de 1903 cem anos redondos com apresentação diária de notícias (informação) e formação à sociedade de Niterói e da terra fluminense.
Alegremo-nos quase. Prudêncio Luís Ferreira Travassos é rua em Piratininga; Francisco Rodrigues de Miranda espera o débito dos niteroienses. Até quando?
Diretores
Em 125 anos de existência, O Fluminense está na sua sétima direção, que assume em 1998, no caso, familiares do dr. Alberto Torres: a excelentíssima viúva, sra. Dolores Brochado Torres, a filha, Nina Rita Torres, e o neto, Alexandre Torres Amora.
Prudêncio Luís Ferreira Travassos, companheiro de Francisco Rodrigues de Miranda são os fundadores, repita-se, cabendo a direção ao primeiro que a exerceu por apenas seis meses. Não era um homem de imprensa, mas notabilizado como membro influente do Partido Conservador. Nasceu no Rio de Janeiro em 1850 e faleceu em Niterói, em 1911.
Em novembro, mesmo, de 1878 é Miranda o segundo diretor, esse sim, com tradição na imprensa, "condutor seguro e íntegro do órgão que criara, introduzindo-lhe melhorias e inovações, enriquecendo-lhe a colaboração com grandes nomes literários, colocando-o na defesa dos principais interesses da comunidade fluminense" enaltece a edição do Centenário.
Vinte anos mais velho que o colega, cabofriense, morreu em 1919, na capital, Niterói, tendo nascido em 1830. Dirigira o jornal por 41 anos, a então sua vida.
Segue-se outro gigante de direção, com 30 anos de serviços à folha, Luís Henrique Xavier de Azeredo, sobrinho e genro do antecessor. (Durante quatro anos o filho, Aureliano de Miranda Azeredo, o substituíra). Com a morte deste em 1949, até 1954, O Fluminense tem à frente um neto de Xavier de Azeredo, José Luís Azeredo da Silva, o quinto diretor.
Ascende, em 1954, para gerir o jornal, a Editora O FLUMINENSE S/A, do jornalista Alberto Torres. Foi este o mais profícuo, dirigindo seus destinos e da empresa por 44 anos, vencendo por pouco, em tempo, o fundador. Ao falecer, em 1998, estava a folha com 120 anos, o que significa que se tinha confundido com o jornal por mais de um terço de sua trajetória e ao qual imprimiria como desígnio maior, a verdade.
É o diretor contemporâneo de todos nós, é a alma de O Fluminense no pensarmos nele. Vida rica e proveitosa à comunidade.
Inaugurou, em 87, a Galeria dos Intelectuais do Ano, belamente inventada pelo Grupo Mônaco de Cultura, de Luiz Antônio Pimentel, nosso mais que nonagenário, e Carlos Mônaco, da Livraria Ideal e de ideais, galeria que, de então para cá, agita o ambiente cultural todos os anos, homenageando as figuras da cidade, pródiga em valores.
Nomeia dr. Alberto Torres o auditório da Imprensa Oficial do Estado do Rio de Janeiro, à Rua Marquês de Olinda, bem como a Praia de Icaraí.
A obra de Alberto Francisco Torres mede-se pela pujança de O Fluminense e pelo sólido arcabouço material de sua sede própria, os treze andares da Rua Visconde de Itaboraí, 184.
Até o endereço parece refletir ligações não por acaso. Foi o visconde de Itaboraí, Joaquim José Rodrigues Torres, de Porto das Caixas, em Itaboraí, o primeiro presidente da província do Rio de Janeiro, quando do Ato Adicional, de 12 de agosto de 1834, que separou o Município Neutro, sede da corte, do restante da província, com vida autônoma e funcionando, como nas demais províncias brasileiras, sua primeira Assembléia Legislativa, em 1835, na capital.
Colaboradores
Por uma tão estirada vida, não será surpresa contar o jornal com presenças importantes das letras, da política, das ciências, da sociologia, da história, da educação. Extensíssima é a lista dos antigos, dos modernos. Ficaríamos em cinco apenas: Guilherme Briggs, Francisco José de Oliveira Viana, o grande sociólogo, Manuel Benício, historiador e cronista, o escritor José Cândido de Carvalho, emigrado de Campos e fiel escudeiro de Alberto Torres, com o simpático e repetido "Recado", e também Azamor, Alfredo Lino Maciel Azamor, encontrado, igualmente, em outros periódicos de Niterói.
O centenário
Poucos jornais no Brasil e no mundo, têm atingido marca tão expressiva. Não poderia O Fluminense, sob o lúcido comando do dr. Alberto Torres, se omitir: havia que deixar presença através de edição traçando sua vida e louvando o território em que se insere. É a especial, Produto fluminense, em oito densos cadernos para fazerem a ligação: O Fluminense, o jornal do Estado do Rio. Lançada em 9 de maio de 1978, naturalmente por circunstâncias que privilegiaram esse dia ao anterior, realmente o centenário da fundação.
Muito feliz a criação do logotipo: o número 100, entrelaçado na figura de um galo, símbolo de notícias, pelo alviçareiro despertar. É o chanteclair, anunciador de um novo dia ou um novo tempo.
Assim caracterizavam-se suas subdivisões ou cadernos específicos: O homem, As regiões, A agropecuária, A indústria, As finanças, As construções, O turismo, Administração.
Uma equipe de peso realizou-o, à frente, o Diretor-Presidente, Alberto Torres, seguido por Ephrem Amora, Diretor-Superintendente, Olegário Wanguestel Jr, na Editoria Geral, mais os Editores: Executivo, Pinheiro Júnior; de Textos, Gilberto Fontes, e de Produção, Mauro Costa. Outros participantes em setores especializados (Arte e Diagramação, e Produção publicitária), além dos responsáveis por Reportagens e pesquisas gente niteroiense, ou não, que em O Fluminense ou outros veículos, tem provado capacidade e inteligência.
As várias sucursais, da cidade do Rio de Janeiro e cidades do interior, como Nova Iguaçu, Petrópolis, Cabo Frio e outras, além de Brasília e São Paulo, e correspondentes também deram suporte à realização.
As ilustrações que recheiam a edição retratam a realidade do estado em suas diferentes vertentes, tudo apoiado em extensa publicidade, tradução de confiança no jornal e seu empresário.
Antecede os Cadernos do homem e as realizações empreendidas no território fluminense um tablóide com o caminho do jornal, dos heróicos tempos da tipografia, de 1878, à pujança tecnológica, ao centenário.
Do editorial do dr. Alberto Torres, abrindo o 1o Caderno, encimado pelo expressivo título "Um século de vitoriosa realidade", destacamos:
Em seus cem anos de existência, todos voltados para o bem da cidade, do Estado e do País, O FLUMINENSE tem sido fiel aos nobres propósitos de seus inolvidáveis fundadores que puseram os anseios nacionais acima de tudo. (...)
De então até agora, no correr dos tempos, os que se lhes seguiram concorreram, cada qual à sua maneira, para que pudesse ele atingir a altitude a que chegou. (...)
Imperdoável seria que nesta oportunidade, ao comemorarmos cem anos de vida, não confessássemos nosso culto e reverência, nosso louvor e gratidão a quantos, já finados, que aqui trabalharam ou ainda ao nosso lado batalhando, muito deram e continuam a dar a O FLUMINENSE em amor, em idealismo, em perseverança, em vibração.
No tablóide, também palavras definidoras, "36 mil dias na História Fluminense":
(...) Como veículo de informação, O FLUMINENSE ultrapassou todas as técnicas de Imprensa em uso no País, desde a velha máquina movida a braço de escravos até as moderníssimas impressoras a vapor de fins do século, chegando afinal às rotativas e ao sofisticado processo offset. Instrumento de venda, teve oportunidade de registrar, através do filtro de seu balcão, toda uma evolução sociológica que o anúncio revela: a estrutura econômica do Império, apoiada no escravo como produto de transação; a evolução urbana e a explosão imobiliária dos anos 40 em diante, nas tradicionais ofertas de imóveis; os complementos criados pelo homem para seu conforto, do automóvel à televisão colorida. (...)
É como depositário de todos esses registros que O FLUMINENSE chega a seus cem anos. Este Caderno Especial apresenta, por isso, apenas uma visão geral deste monumental arquivo cuja descrição definitiva, se levada a volume, preencheria mais de cinqüenta milhares de páginas.
Cadernos
Como nos jornais das capitais ou de outras importantes cidades, O Fluminense diversifica suas matérias e as distribui setorizadamente. O caderno de Classificados tem o seu usuário cativo. Outros há, alguns em formato tablóide, com edições semanais.
"Encontro", "Pingo de Gente", da editora Nina Rita Torres, e "Jornal da Gente" são exemplos de cadernos que concentram matérias de determinados interesses para públicos especializados. Os possíveis "públicos-alvo" estão na mira de uma gerência ativa e ligada no que agrada e no que vende. O produto cultural mexe com as emoções do consumidor, partindo de um produtor que não pode prescindir de recursos para continuar a cadeia.
Os Suplementos
Com a Fusão, em 1975, dos estados do Rio de Janeiro e Guanabara, criando o novo Rio de Janeiro, sentimos que O Fluminense quis-se assumir com mais intensidade o perfil de "o jornal do Estado do Rio", sendo-o mais, fluminense que uma folha niteroiense, circulando além da Região Metropolitana (centrada na cidade do Rio de Janeiro, capital, e Niterói, um dos outros treze municípios englobados), tentaculando-se em todas as regiões que, realmente, com o primeiro governo da Fusão, se tornaram mais conhecidas e alcançadas, já também por uma intensa atividade nos setores viário, de educação e de cultura, emanada da ação governamental.
Data dessa faixa, aproximadamente, da soldagem dos estados, determinada pela Lei Complementar no 20, de 1o de julho de 1974, a criação e expansão dos Suplementos, voltados a diferentes regiões, onde O Fluminense era amálgama.
No Rio de Janeiro, a que se associa nossa experiência, funcionava uma sucursal no bairro de Campo Grande aonde fomos oferecer colaboração de dois professores/historiadores, na redação de uma coluna que estampasse a realidade daquela parte do município do Rio de Janeiro. Aceitou-o O Fluminense, para honra nossa.
O que chamamos, no território do Município da Corte, Município Neutro, Distrito Federal, Estado da Guanabara e, novamente, Município do Rio de Janeiro de Zona Oeste é a parte ocidental, por óbvio, reunindo as Administrações Regionais XVII (Bangu), XVIII (Campo Grande) e XIX (Santa Cruz). Não se cogitava, na criação destas Regiões Administrativas, descentralizadoras da administração no governo Carlos Lacerda, de Barra da Tijuca, de explosão posterior.
Configurava-se uma operação triangular: Marcello e Cybelle de Ipanema, funcionários das Faculdades Simonsen, forneciam matéria cultural à folha que, em troca, divulgava o nome da instituição universitária.
Os originais eram entregues, semanalmente, na sucursal da cidade, à Rua da Quitanda, dirigida por Eraldo Quintanilha.
O Suplemento Zona Oeste, de saída às sextas-feiras, ampliou-se para Baixada-Zona Oeste, ampliando nós, também, o âmbito da coluna. Digamos que a aceitação a levou a ser, muitas vezes reproduzida em outros Suplementos.
Eventualmente estivemos na sucursal de Cabo Frio, com integrantes da Associação de Meio Ambiente local, para considerações no terreno, ainda bem em começo, até com ações tímidas, extravasadas depois. Hoje, todo mundo é ecologista e defensor da natureza...
O leque daqueles mini-jornais regionais abarcava, com chamada O Estado ou O Estado do Rio, S. Gonçalo-Itaboraí-Rio Bonito (São Gonçalo, às vezes, substituído por Magé e outras, isolado); Sul Fluminense-Costa Verde; Cabo Frio-Araruama-São Pedro da Aldeia-Macaé; Norte-Flu. Ainda: Jornal do Interior e Terra Fluminense. Mais tarde, um dedicado à Região Oceânica que pensou, até, em se emancipar.
Pena que tenham se extinguido! De qualquer maneira, por 118 semanas manteve-se o fogo da coluna "Memória comunitária", onde uma seção, possivelmente útil, intitulava-se "Por onde andamos", esmiuçando logradouros, com localização, significado dos nomes, outros anteriores etc. Obrigados, O Fluminense! Obrigados, dr. Alberto Torres, que confiou em nós!
Campanhas
Em muitas deve ter-se engajado O Fluminense. Lembramos uma. A maioria dos que acompanham o Curso do Instituto e prestigiam esta fala viveram a revolução fluminense que foi a Fusão.
Em 1834, durante o período regencial, uma reforma da primeira Constituição, a imperial de 1824, constituiu-se no Ato Adicional, com data de 12 de agosto. Separaram-se as administrações do Município da Corte (Município Neutro, sede do governo) da Província do Rio de Janeiro. O pequeno território de 1.161 km2, como sede, ainda do governo central, transformou-se no Distrito Federal, com a República, tornado depois, para alegria de cariocas, um estado autônomo, o da Guanabara (1960), com a ida da capital para Brasília, como o preceituavam a Constituição de 1946 e anteriores.
A Lei Complementar no 20, de 1o de julho de 1974, porém na vigência dos governos militares, fundiu, 140 anos depois, as duas porções da terra fluminense, o que agradou e não agradou a gregos e troianos.
Mais de uma iniciativa de desfaze-la tem aparecido. O Fluminense encampou uma, estampando no cabeçalho, em seu logotipo, um mapa do estado, dividido em duas áreas, em preto e branco, indicando FUSÃO-DESFUSÃO.
Tecnologia
Uma empresa de seu tempo, sempre. O Fluminense acompanhou a evolução da imprensa e incorporou os avanços técnicos que ampliam os horizontes da comunicação. Nem podia deixar de assim ser, sob pena de sucumbir à concorrência. Já bastavam os grandes impactos do rádio e da televisão. A notícia, veiculada e impregnada no usuário por seus sentidos cada vez mais aguçados e inermes diante da massificação. O próprio Fluminense implantou uma rádio, a exemplo de cadeias nacionais ou mesmo empresas que não chegaram a tanto.
O dia a dia do jornal e da notícia aos fluminenses é um paralelo às mudanças vertiginosas que nos invadem.
Avançou O Fluminense, sob o comando de seu capitão, Diretor-Presidente Alberto Torres, até a edição impactante, da quinta-feira, 26 de novembro de 1998, com tarja de luto: "Morreu Alberto Torres (09.09.191225.11.1998)", com seis páginas dedicadas, continuadas no dia seguinte.
Ainda aí está, ainda há de prosseguir, sem solução de continuidade, na mão dos novos timoneiros, fiados no exemplo dos antecessores, alicerçados na confiança de leitores, colaboradores e anunciantes, formando uma corrente única de idealismo e de cumplicidade. A atual direção prossegue a carreira dos 125 anos; nós, da trincheira de cá, de consumidores, alguma vez, colaboradores, impulsionamos a marcha, lado a lado, para não permitir a interrupção da vida de um jornal, grande líder da nossa formação.
Ao fecharmos a presente alocução, de informação e muito de carinho, tornarmos a agradecer o privilégio de termos podido vir trazer pequeno preito de homenagem aos homens que fizeram e que fazem O Fluminense, ícone da imprensa do estado do Rio de Janeiro, há 125 anos, e pequena homenagem a esta cidade de 168, a partir de sua elevação, que sempre nos acolheu como hóspedes e participantes de sua cultura, fazendo-nos há 30 anos fundadores, ombro a ombro, com um pugilo, à frente Thalita Casadei e outros, do Instituto Histórico (depois, também Geográfico) de Niterói que Marcello presidiu, por força da generosidade de tão distintos sócios.
Agradecemos a Salvador a possibilidade de termos compulsado a Edição do Centenário e, como lembrança, reproduzimos para distribuição a 1a página do tablóide que a integra que eterniza o prédio de O Fluminense e o homemsímbolo que o geriu, Alberto Torres.
O jornalismo depois de Tim Lopes
Um ano sem Tim Lopes. Foi no dia 02/06/02 que o repórter da TV Globo foi seqüestrado, julgado e assassinado por traficantes, na favela da Grota, no Complexo do Alemão (RJ). Depois dessa morte trágica, muito se falou sobre jornalismo investigativo em fóruns, palestras e seminários. Profissionais e empresas discutiram quais são os limites de um repórter e de que forma ele pode exercer o seu trabalho, tentando se arriscar o mínimo possível. Comunique-se perguntou a profissionais da imprensa o que mudou no jornalismo investigativo brasileiro depois da morte de Tim Lopes. Confira o que disseram eles:
Percival de Souza - autor de "Narcoditadura"
Marcelo Canellas - repórter da TV Globo
Marta Gleich - editora-chefe do
Zero Hora (RS)Carlos Lindemberg - diretor de redação do
Hoje em Dia (MG)Aqui em Minas o risco da imprensa é menor, já que a violência não chega ao ponto do que acontece no Rio e em São Paulo. Mas nossos cuidados são baseados no bom senso. Procuramos não usar microcâmeras e outros recursos porque achamos que isso acaba por chamar a atenção das pessoas. Aqui, na redação do Hoje em Dia, recomendamos bom senso e prudência".
Roberto Cabrini - apresentador do "Jornal da Noite", da TV Bandeirantes
Beth Costa - presidente da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj)
Hélio Campos Mello - diretor de redação da ISTOÉ
Luís Recena - diretor editorial da
Gazeta MercantilFonte: Portal Comunique-se, 2/6/2003
Reaberta ao público a Casa de Rui Barbosa
Beatriz Coelho da Sillva
A Fundação Casa de Rui Barbosa reabriu seu museu como era nas duas primeiras décadas do
século passado, quando o palacete era residência do Águia de Haia, sua mulher, Maria
Augusta, e seus oito filhos.
Após sete meses de obras, o público saberá como vivia e trabalhava esse profissional
liberal (ele era advogado) que teve tanta influência na vida brasileira dos últimos anos
do Império e na República, até 1924, quando morreu.
Rui Barbosa foi jurista, diplomata, congressista, ministro de Estado e duas vezes
candidato à Presidência da República. A casa fica aberta ao público de terça a
domingo (incluindo feriados), sempre das 14 às 18 horas.
A instituição foi criada em 1930 pelo presidente Artur Bernardes para preservar a
memória de Rui Barbosa, que comprara e reformara a casa em Botafogo, então um dos
bairros mais nobres do Rio, para morar com a família.
Após sua morte, a viúva recusou ofertas de particulares e preferiu vender o imóvel ao
Estado. Por isso, hoje é possível conhecer seu estilo de vida, desde o traçado do
jardim, com 9 mil m2, até a organização dos 37 mil livros de sua biblioteca e as
dependências de serviço.
'Com o passar do tempo, objetos e móveis que pertenceram a eles foram reincorporados ao
acervo do museu, por doação ou compra', conta a diretora do Centro de Memória e
Documentação, Ana Pessoa.
'A exposição permanente mostra o ambiente em que Rui Barbosa trabalhou e viveu. Já o
jardim, por ser a única área verde do bairro, é visitado pela população das
redondezas.
Normalmente, o museu recebe 10 mil visitantes por ano, mas o número de pessoas, de todas
as idades, que vêm só para passear nos jardins é bem maior.'
A reforma no imóvel começou há dois anos, período em que o museu funcionou
parcialmente. Em outubro, precisou ser fechado para obras estruturais. 'Só esteve aberto
por empenho dos museólogos e de acordo com um cronograma de obras', explica o presidente
da Fundação, José Almino de Alencar.
A arquiteta responsável pelo projeto, Cláudia Carvalho, detalha o trabalho.
'Houve reparos nos estragos causados pelo tempo e pelas mudanças climáticas. Refizemos o
telhado e o estuque (gesso decorativo colorido que cobre internamente o teto) das salas
principais e substituímos calhas de água de chuva e as vigas de madeira comidas pelo
cupim por outras de metal', conta a arquiteta. 'O trabalho foi preventivo e deve ser
mantido através dos anos.'
Quem entra nas salas Constituição, onde fica a biblioteca, e Haia, o gabinete de
trabalho, tem a impressão de que Rui Barbosa se ausentou só por alguns minutos. Os nomes
dos ambientes, dados por Bernardes, lembram passagens da vida pública do dono do imóvel.
Já as salas Pró-Aliados, Federação e Buenos Aires, na área social, parecem prontas
para receber os amigos que freqüentaram as festas dadas para a sociedade da belle époque
carioca.
Os três ambientes dos aposentos do casal (sala Maria Augusta) informam quanto seus
moradores eram arrojados. Há uma saleta de vestir, com sólidos armários espelhados, uma
cama com dossel no quarto de dormir, ligado ao banheiro espaçoso, um dos pioneiros no
aquecimento a gás no Rio. 'É o primeiro exemplo de suíte construído no Brasil',
comenta Cláudia.
Passadas sete décadas de sua criação, a Casa de Rui Barbosa se tornou também uma
referência no estudo de história e literatura, a partir da biblioteca deixada por ele e
da doada por Plínio Doyle, que foi funcionário da instituição.
Desses documentos se criou o Museu-Arquivo de Literatura Brasileira, com um acervo deixado
81 por intelectuais e literatos, como Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Morais,
Clarice Lispector e Prudente de Morais.
Como instituição federal, ligada ao Ministério da Cultura, a Casa de Rui Barbosa sofre
falta de verbas, o que levou a seu fechamento à noite e atrasa ou impede a realização
de eventos (a exposição do centenário de Pedro Nava, que se completa em junho, só
poderá ocorrer em outubro, por exemplo).
Mas José Almino de Alencar, fiel aos princípios do ministro da Cultura, Gilberto Gil,
ameniza o problema. 'Como ele disse, em casa de pobre também se come e não falta
dinheiro para a manutenção e o salário dos funcionários', explica.
'Inventar recursos faz parte do nosso trabalho, embora a gente também lute para aumentar
para 1% a parte do orçamento destinada à cultura.'
Fonte: (O Estado de SP, 1/6/2003)
Há 20 anos, nascia a "TV do ano 2000"
Eduardo Sander (*)
Neste dia 5 de junho, deveríamos comemorar uma grande passagem na história da TV brasileira. Há 20 anos, esse dia era um domingo e às 19 horas entrava no ar, no canal seis do Rio de Janeiro, a figura emblemática e controversa do empresário Adolpho Bloch, anunciando que estreava a Rede Manchete de Televisão.
Nascida para ser a alternativa à então toda-poderosa Rede Globo, a Manchete vinha com um investimento de US$ 50 milhões de dólares (considerada na ocasião uma loucura para um país que vivia sob inflação altíssima), numa programação de alto nível, criando marcos até hoje lembrados, como os musicais "Um Toque de Classe" e "Bar Academia", os humorísticos "Cabaré do Barata" e "Domingo de Graça", a série "Xingu", as novelas "Dona Beija", "Corpo Santo" e "Pantanal". Sem falar na revelação de estrelas como Xuxa e Angélica.
Seu jornalismo foi lendário e copiado sobremaneira pela concorrência. Inicialmente, o "Jornal da Manchete" tinha três horas de duração, adotando o perfil (inédito à época) dos telejornais da também recém-nascida CNN, com a participação de comentaristas, uma forte riqueza de detalhes e cenários futuristas. E sobre esses cenários, podemos destacar: os antigos monitores que ficavam ao fundo foram copiados mais tarde pelo "TJ Brasil", do SBT; logo depois surgiria um enorme mapa-múndi, fonte de inspiração para o "CNT Jornal", "Jornal Bandeirantes" e o "Jornal da Band". Já a última identidade visual do "Jornal da Manchete" trazia ao fundo uma mescla entre o mapa-múndi e a redação da TV, mesma idéia do atual cenário do "Jornal Nacional".
Programas como "Documento Especial", inovaram e inspiraram outras produções do gênero como o "24 Horas", levado ao ar quase dez anos depois, também na Manchete. As entrevistas exclusivas marcaram a passagem do "Conexão Internacional" e "Conexão Roberto D' Ávila". Os inovadores "Márcia Peltier Pesquisa", o primeiro do gênero na TV Brasileira a usar um sistema telefônico para consultar o telespectador em tempo real, e "Na Rota do Crime", de teor sensacionalista e líder de audiência, dividiam espaço com o bem-comportado "Câmera Manchete", numa semana que trazia apenas jornalísticos na faixa das 22 horas.
A equipe contava com nomes do nível de Renata Capucci, Ana Paula Araújo, Márcia Peltier, Renato Machado, Cláudia Barthel, Carlos Chagas, Carlos Bianchini, o casal Leila Cordeiro-Eliakim Araújo, Leila Richers, Ronaldo Rosas, Marcos Hummel, Berto Filho, Solange Bastos, Paulo Alceu, Paulo Stein, Alberto Léo, entre muitos outros nomes hoje consagrados. Atualmente, apenas Cláudia Barthel, juntamente com Augusto Xavier, permanecem como reminiscentes da Manchete na emissora que a sucedeu, a Rede TV!.
Todos os momentos de glória da Rede Manchete foram intercalados por fortes crises, responsáveis por demissões, fechamento de departamentos e saída de profissionais. A dívida que a emissora assumiu na estréia jamais seria paga, sendo sempre a responsável por todos os problemas que aconteciam na emissora, agravados por novelas-fiasco como "A História de Ana Raio e Zé Trovão", "Amazônia", "Guerra Sem Fim" e "Brida", e programas esporádicos como "Raio Laser", "Vila do Tiririca" e "Seu Boneco nas Paradas". Cada fracasso resultava na perda de todo o investimento, desencadeando automaticamente uma reação em cadeia: os salários eram atrasados, o FGTS/INSS não era depositado, etc. Três greves históricas dos funcionários marcariam sua trajetória. A terceira, em 1992, repercutiu inclusive no exterior.
Em 1992 a emissora chegou a ser vendida, sendo retomada um ano depois porque o Grupo IBF, do empresário Hamilton Lucas de Oliveira, não pagara o valor combinado. Adolpho, velho gráfico nascido em Kiev, na ex-república soviética da Ucrânia, ficava cada vez mais decepcionado com a situação econômica do Brasil, que não se estabilizava, para poder pensar em dar início à reestruturação da gigantesca dívida do grupo. Com a saúde muito fragilizada, sua morte aos 87 anos, em 19 de novembro de 1995 dava início ao fim do seu sonho, iniciado em 1952, com o lançamento da Revista Manchete.
Em 1998 a situação tornava-se insustentável, devido ao quadro econômico recessivo+juros altos e também pelo investimento equivocado feito na novela "Brida", que saiu do ar inacabada. Era o melancólico fim da Rede Manchete, que não teve tempo de honrar seu slogan "A televisão do ano 2000". Suas concessões foram transferidas pelo Governo Federal em maio de 1999 para a TV Ômega, transformando-se na atual Rede TV!.
Hoje, quem passa pelo belíssimo edifício projetado por Oscar Niemeyer, não deixa de vislumbrar uma espécie de mausoléu, um túmulo onde repousam sonhos, projetos, ousadia e muita coragem. Dos três blocos de 11 andares cada, a TV ocupava três, as revistas Bloch outras três e as rádios Manchete AM e FM, o nono andar. Felizmente, graças à Internet, o analista de sistemas e apaixonado pela TV Manchete Diogo Montano, criou o site
www.redemanchete.kit.net, onde é contada e preservada a história da TV e seus grandes momentos.Enfim, por quase dezesseis anos, a emissora de Adolpho Bloch deixou sua marca na história da nossa Televisão. Muitos dos seus conceitos e filosofias são hoje aplicados pela concorrência. A Manchete sempre foi "de extremos", fazia sucessos na mesma velocidade que gerava fracassos. Mas tudo isso foi sempre caracterizado pelo incentivo ao novo, na valorização das novas idéias, o que contribuiu e muito para a transformação da maneira de fazer televisão, que pode ter sua atual programação muito criticada, mas sem dúvida, é uma das mais "abertas" a novos conceitos e experiências. Basta apenas elas serem aplicadas, tirando a preguiça e investindo em qualidade. A conseqüência será o público perceber, poder e querer participar.
(*) Jornalista.
Isabel Lustosa **
His Royal Highness e Mr. da Costa
Sobre a lápide em pedra lioz do túmulo do brasileiro Hipólito José da Costa, na igreja de St. Mary the Virgin, em Hurley, no condado de Berkshire, está gravado o seguinte epitáfio:
Dedicado à memória do comendador Hipólito José da Costa, falecido a 11 de setembro de 1823 com a idade de 46 anos [nascido na Colônia de Sacramento (região hoje pertencente ao Uruguai) em 25 de março de 1774, Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça tinha, na verdade, 49 anos quando morreu]. Um homem não menos distinto pelo vigor do espírito e proficiência científica e literária do que pela inteireza do seu caráter e atitudes. Descendia de uma nobre família do Brasil [sobre a família de Hipólito no Brasil, ver Dourado, pp. 15-29], e na Inglaterra residiu nos últimos dezoito anos durante os quais, por seus numerosos e valiosos escritos, difundiu entre os habitantes daquele imenso Império o gosto pelos conhecimentos úteis, a inclinação pelas artes que embelezam a vida e o amor pela liberdade constitucional, fundada na obediência às leis e nos princípios de mútua benevolência e boa vontade. Um amigo que conheceu e admirou suas virtudes, assim as recorda, para o culto da posteridade.
Esta bela homenagem de um amigo que preferiu permanecer anônimo é atribuída por um jornal inglês do tempo, o Gentlemans Magazine, ao duque de Sussex. Palavras tão amáveis parecem anunciar uma alma amável. Em todas as biografias de Hipólito, nos documentos relativos à sua atuação na Maçonaria e no longo período em que viveu em Londres, a figura do duque de Sussex sempre aparece a ele relacionada como o protetor, o amigo que possibilitou a Hipólito condições de viver e escrever na Inglaterra sem que a mão da Justiça portuguesa conseguisse alcançá-lo.
O maior desafeto do brasileiro, o conde de Funchal, embaixador da Coroa portuguesa em Londres, confessaria aborrecido ao irmão, conde de Linhares, o que o deixava de mãos atadas para punir Hipólito: Sua Alteza Real, o duque de Sussex, fizera o favor de conceder-lhe cidadania inglesa [Carlos Rizzini e Mecenas Dourado asseguram que Hipólito não se naturalizou. Os dois divergem quanto à situação dele na Inglaterra. Segundo Dourado, Hipólito prestara juramento de fidelidade ao rei da Inglaterra e, desta maneira, passara a gozar de certas prerrogativas de cidadão inglês, sem no entanto perder a nacionalidade de origem. Tonara-se denizen (Dourado, pp. 243-54). Rizzini, por sua vez, registra declarações do próprio Hipólito, segundo as quais o fato de ele ter adquirido ações do Banco de Escócia davam-lhe também todos os direitos de cidadão inglês (Rizzini, pp. 39-40). Ver também sobre o assunto, a nota 31 do artigo de Antônio Costela neste livro]. Mais do que isto, a amizade com o duque fazia com que Hipólito fosse, no seu tempo, "the only Brazilian with free access to the Royal Court" (Decho & Diamond, p. 19). O necrológio de Hipólito publicado no Gentlemans Magazine, em dezembro de 1823, diz que: "Mr. da Costa was Foreign Secretary to H. R. H. the Duke of Sussex and his eminent talents and distinguished worth had deservedly endeared him to his Royal Patron" (apud Rizzini, p. 18).
Apesar de ser generosamente citado em muitas passagens da biografia de Hipólito, como veremos a seguir, pouco ou quase nada se diz sobre a trajetória do próprio duque de Sussex. Seu papel estratégico na proteção a Hipólito estaria relacionado com seu status familiar (filho de Jorge III e irmão de Jorge IV e de Guilherme IV) e à sua posição na Maçonaria Inglesa, da qual era o grão-mestre. Na História da Maçonaria em Portugal, Oliveira Marques cita Hipólito da Costa ressaltando a importância do duque de Sussex para a inauguração do Oriente Lusitano, instalado com base no Oriente Inglês (Marques, p. 79, nota 31). Ele afirma, na mesma nota, que documentos da Intendência Geral de Polícia demonstram a convicção em que se estava do papel fundamental do duque na estruturação da Maçonaria portuguesa. Na história da Maçonaria inglesa também ele aparece como o responsável pela união dos Antigos aos Modernos, a partir de 1813, quando se tornou grão-mestre da Loja Unida de Inglaterra, posto que ocuparia até morrer, em 1843 (ver sites relativos ao tema na bibliografia).
Mas nos textos específicos sobre a história da Inglaterra ou mesmo da família real inglesa, da geração de que fez parte dos filhos de Jorge III, ou dos irmãos de Jorge IV e Guilherme IV, ou dos tios da rainha Vitória , a presença do duque é apagada ou mesmo apresentada de forma negativa.
O que se pode supor, a partir do contraste entre a importância política atribuída ao duque de Sussex nas bibliografias brasileira e portuguesa e a sua quase imperceptível presença na história da Inglaterra, é que essa valorização seria fruto de uma leitura otimizada do papel da família real inglesa naquele momento. Como diz David Carradine, no começo do século XIX, a importância política do rei e de sua família já era parcialmente neutralizada pelo fato de se viver numa monarquia constitucional. Sabia-se, portanto que "a monarquia não era imparcial, não estava acima da política, e nem num Olimpo acima da sociedade, como aconteceria mais tarde, mas participava ativamente tanto da política quanto da vida social" (Carradine, p. 120).
Os filhos do rei Jorge III
De modo geral, a imagem pública dos filhos de Jorge III não era das mais positivas. Lorde Wellington diria que eles eram "the damnedst millstones about the neck of any government that can be imagined" (apud Priestley, p. 15). Alvos fáceis para os caricaturistas, quase todos mantiveram amantes, contraíram dívidas e viveram acossados por elas, com suas rendas limitadas pelo rei que pensava assim conter os hábitos perdulários dos filhos. Desprezados pela aristocracia por conta de sua relativa pobreza, manifesta em carruagens e vestimentas inferiores, eles eram igualmente detestados pelo povo, que os via como parasitas enquanto subiam os impostos para financiar a guerra contra Napoleão. Diz David Carradine que "as vidas, os romances e o comportamento dos filhos de Jorge III eram suficientes para fazer deles talvez a mais detestada geração real da história inglesa" (Carradine, p. 119).
Um dos biógrafos de Jorge IV diz que seus seis irmãos trouxeram desprezo e ridículo para a monarquia, embora o próprio rei não necessitasse de qualquer ajuda para isto (Priestley, p. 15). Chamado na intimidade de Prinny, Jorge, nascido em 1762, rebelou-se muito cedo contra a rígida disciplina do pai. Aos dezoito anos, envolveu-se com uma atriz, Perdita Robinson, e, em seguida, com lady Malbourne. Em 1785, casou-se secretamente com Maria de Fitzherbert, uma católica, o que era proibido pela lei que regulava os casamentos reais. Mas, em 1795, suas dívidas, boa parte delas contraída nas mesas de jogo, alcançavam a cifra fabulosa de 630 mil libras. Num esforço para convencer o Parlamento a pagá-las, ele afastou-se temporariamente de Maria de Fitzherbert e casou-se com a prima, Carolina de Brunswick. Separar-se-ia desta meses antes do nascimento da princesa Charlote, herdeira do trono da Inglaterra, em janeiro de 1796. Extremamente impopular, tanto por suas atitudes políticas como pela perseguição que moveu contra a popularíssima rainha Carolina, Jorge IV era tido como um mulherengo e um bêbado compulsivo, além de ser viciado em láudano. Apresentava no final da vida "a preposterous figure of debauched obesity" (Strachey) e sinais de insanidade.
Seu irmão, Frederick, o duque de York, segundo filho de Jorge III, foi alvo de um escândalo envolvendo a amante, Mary Anne Clarke, presa por vender comissões e promoções no Exército, do qual ele era o comandante-em-chefe. Apesar disto, numa biografia da rainha Vitória, ele aparece como "the only one of them so we are informed by a highly competent observer who had the feelings of a gentleman" (Strachey). Depois de Frederick, vinha Guilherme, o duque de Clarence, que subiria ao trono em 1830, com o título de Guilherme IV. Guilherme teve dez filhos com a famosa atriz Dora Jordan, com quem viveu publicamente por mais de vinte anos. Mas abandonou-a em 1812, ficando com os filhos (os FitzClarence) e deixando que ela morresse na França, sozinha e na mais absoluta pobreza em 1816. Edward, o duque de Kent, casar-se-ia a contragosto com uma princesa alemã para gerar um herdeiro para o trono, pois a princesa Charlote, filha de Jorge IV, morrera aos 17 anos, ao dar a luz a um bebê morto. Pai da rainha Vitória, o duque de Kent, que vivia há mais de 27 anos com madame St. Laurent, só concordou em casar-se para livrar-se de suas muitas dívidas. Ernest, o duque de Cumberland, era provavelmente o homem mais impopular na Inglaterra. Além do aspecto horrendo que lhe dava a falta de um olho, causada por ferimento de guerra, era tido como mal-humorado e vingativo na intimidade, pesando contra ele a suspeita de ter matado seu criado e engravidado a própria irmã, Sophie. Na política, revelou-se um violento reacionário, que exerceu grande influência sobre o irmão, Jorge IV. Uma das razões para a grande popularidade da rainha Vitória na juventude foi o fato de ter mantido seu detestado tio Ernest longe do trono (Strachey).
Sobre o duque de Sussex costuma-se dizer de maneira geral que tinha gostos literários e colecionava livros (Strachey), mas a principal referência biográfica é sempre seu casamento com lady Augusta Murray, declarado nulo pelo Royal Marriages Act. Na biografia de Jorge IV, ele aparece, em contraste com o sinistro duque de Cumberland, como um homem amável mas firme em suas posições liberais e um patrono, ainda que modesto, das artes e das ciências. Mesmo assim, o autor cita referência em The Dictionary of National Biography que, a seu ver, diz muito sobre ele: "In his later years he was in great request as chairman at anniversary dinners" (Priestley, p. 18).
Esta imagem frívola e sem grande expressão contrasta com a que dele deixou registrada o próprio Hipólito da Costa, em vários momentos do Correio Braziliense e com a que também transparece em várias passagens da biografia do brasileiro. Este texto recupera a biografia do duque, a partir, principalmente, do livro de Mollie Gillen (Royal Duke, Augustus Frederick, Duke of Sussex, 1773-1843) e de outras fontes, procurando relacioná-la com a influência e a presença do duque na vida e na obra de Hipólito da Costa.
Lisboa, 1801 primeiros encontros
Mecenas Dourado supõe que o primeiro contato de Hipólito com o duque de Sussex tenha se dado em 1801, quando um e outro se encontraram em Lisboa. Hipólito havia chegado da Filadélfia, onde se filiado à Maçonaria, e Augustus Frederick empreendia mais uma das inúmeras viagens para clima quente, em virtude de sua precária saúde. Sobre as circunstâncias desse primeiro encontro não há registros, apenas suposições.
De qualquer maneira, parece pouco provável que Hipólito não tenha se encontrado com o duque antes de ser preso. Em primeiro lugar, as diminutas proporções da Maçonaria em Portugal nesse tempo faziam com que todos os seus membros residentes em Lisboa fossem pelo menos conhecidos uns dos outros. Segundo, evidências registradas nas biografias de Hipólito levam a crer que ele retornara da América determinado a trabalhar pelo crescimento e progresso da Maçonaria em Portugal e que, com este propósito, manteve intensa atividade durante o período em que permaneceu em Lisboa, de 1801 a 1802 (cf. Marques, p. 79). Esta atividade clandestina teria sido a causa secreta de sua viagem a Londres e de sua subseqüente prisão. [Episódios relatados em Dourado e em Rizzini, 1957. O grau de envolvimento de Hipólito com a Maçonaria se evidencia na profundidade de seus conhecimentos maçônicos apresentada nos trabalhos que publicou depois, notadamente na Narrativa da perseguição. Ali reproduz suas respostas aos interrogatórios que nada mais são do que sofisticadas análises do caráter e dos propósitos da Maçonaria.]
Movido pela vontade de trabalhar pela Maçonaria, Hipólito deve ter procurado as figuras que, naquele momento, eram as mais representativas da organização em Portugal. É muito provável que, tanto ele como o duque tenham participado da assembléia maçônica cujo objetivo era promover a constituição rápida da Grande Loja Portuguesa e que se realizou no palácio onde vivia o general Gomes Freire de Andrade (Dourado; Rizzini, 1957). Naturalmente que a presença em Lisboa de um príncipe real inglês já iniciado na Maçonaria, à qual todos os seus irmãos eram filiados, seria motivo suficiente para estabelecer contato. O que não era coisa difícil de se obter, porque uma qualidade notória do duque era a facilidade com que criava um clima de familiaridade com as pessoas, sendo reconhecidamente figura simpática e jovial.
Seja qual tenha sido a natureza do contato estabelecido por Hipólito com Augustus Frederick, em Lisboa, o fato é que este teve de ser interrompido em 1802, quando o brasileiro partiu para Londres em missão oficial, encarregado também de uma incumbência junto às lojas maçônicas inglesas: uma consulta à Grande Loja sobre a possibilidade de as lojas portuguesas trabalharem sob a proteção da bandeira inglesa. Tal assunto não devia ser estranho ao duque, que deve mesmo ter dado instruções ao brasileiro de como proceder junto à Maçonaria de seu país.
Como se sabe, Hipólito foi preso assim que retornou a Lisboa, por ordem do intendente-geral de Polícia, Pina Manique. Contemporâneos afirmam que o duque trabalhou, "forte e descobertamente", pela liberdade do irmão de ordem (Dourado, p. 101). Hipólito dirá, em 1815, que à sua perseguição devia a maior parte das amizades, da consideração e até da fortuna que gozava no meio de uma extensa roda de amigos de todas as classes respeitáveis da sociedade (Idem, p. 109). Dessas amizades, certamente, a mais importante, a mais significativa foi a que estabeleceu com o duque de Sussex.
Os documentos posteriores, particularmente os ofícios diplomáticos dos ministros portugueses na Inglaterra, testemunham a constante proteção dispensada pelo duque de Sussex ao redator do Correio Brasiliense. E convém dizer que conhecemos um dos gestos de Hipólito em honra dessa proteção e amizade: foi o de dar a um dos seus filhos os prenomes do duque: Augusto Frederico. [Dourado, p. 110]
Doenças e viagens: um amargo far niente
Quando chegou a Lisboa, em janeiro de 1801, para uma permanência que se estenderia até 1805, Augustus Frederick tinha 29 anos e nunca exercera qualquer atividade pública. Por conta dos problemas de saúde ou por razões que sua biógrafa não conseguiu identificar, ele fora mantido afastado tanto do serviço militar como de qualquer função de natureza diplomática ou política. Durante os sete anos anteriores, também gastara boa parte de seu tempo e de seus esforços, além de muito de seu prestígio pessoal e político, para fazer reconhecer em Inglaterra o casamento que contraíra, em 1793, em Roma, com lady Augusta Murray. Fora esta a única questão política com que se envolvera até então. Que seria apenas pessoal não fora o status do príncipe e a lei para os casamento reais de 1772.
Desde os treze anos de idade, Augustus Frederick vivera, na verdade, fora da Inglaterra. Tinha sido enviado, em junho de 1786, junto com os irmãos, Ernest e Adolphus, a Göttingen, na Alemanha, para estudar, seguindo uma prática adotada para todos os filhos homens de Jorge III, com exceção do príncipe de Gales. Em Göttingen, porém, começou a apresentar os problemas da saúde que o perseguiriam por toda a vida. As violentas crises de asma que o faziam ficar noites e noites em claro, quase sem conseguir respirar, sentado em uma cadeira de braços, foram associadas ao clima frio e úmido, e os médicos prescreveram climas mais amenos para a recuperação do doente.
Uma série de peregrinações pela Europa teria então início, prejudicando seus estudos e inviabilizando sua inclusão em qualquer atividade formal. Ao longo daqueles anos, apesar da doença, Augustus Frederick solicitaria insistentemente ao pai qualquer colocação que o pusesse em condição de servir ao país. Através da alentada correspondência que manteve sempre com a família, o príncipe solicita e implora qualquer destino, qualquer rumo para sua vida, propondo-se mesmo a tornar-se clérigo para, pelo menos, espiritualmente ser útil ao seu país. Em vão. Durante sete anos, apesar de Augustus Frederick escrever-lhe quinzenalmente, Jorge III nem sequer respondia às cartas do filho, conforme queixa deste ao príncipe de Gales. Enquanto aguardava uma colocação, o príncipe ocioso engordava em meio a jantares e festas, tornava-se fútil e indolente, construindo uma imagem internacional de bon vivant, de amigo das festas e da vida frívola da nobreza européia.
As loucuras do rei Jorge
Augustus Frederick era o sétimo filho de Jorge III (1738-1820), que teve quinze filhos. Durante o longo reinado deste (60 anos), os Estados Unidos se tornaram independentes da Inglaterra. Foi também em seu reinado que a Inglaterra travou guerra com a França até a derrota final de Napoleão. Enquanto governou, Jorge III exerceu forte pressão sobre o Parlamento no sentido de votar sempre da maneira que desejava, enfrentou a revolta dos whigs, partidários de um menor poder para o monarca e conseguiu impedir a aprovação de leis liberais como a que emancipava os católicos. Na década de 1790, a elevação dos impostos para pagar as despesas da guerra com a França tornou Jorge III extremamente impopular e ele chegou a ser alvo de vários atentados, dos quais o mais sério ocorreria em 1800, quando um homem disparou contra o seu camarote no teatro Drury Lane.
Uma estranha personalidade tinha o pai do duque de Sussex. Ao contrário dos filhos, quase todos movidos por paixões, Jorge III orientou sua vida no sentido de tudo sacrificar em nome de suas obrigações de monarca. Assim é que abriu mão de seu amor de juventude por lady Sarah Lennox que, sendo protestante e descendente de Carlos II, da dinastia dos Stuart, era considerada elegível, ou seja, apropriada para casar com o rei. Mas os interesses da casa de Hanover a que pertencia e a tradição de compromisso desta com o protestantismo, que lhes garantira a Coroa em detrimento dos Stuart, recomendavam que a escolha recaísse sobre uma princesa alemã e Jorge casou-se com Carlota de Mecklenburg-Strelitz, a quem só conheceu no dia do casamento. O casal teve quinze filhos, nove moças e oito rapazes, dos quais dois morreram na primeira infância.
Jorge III esforçou-se para construir a imagem de um monarca cuja vida privada era um modelo de retidão. Uma de suas primeiras proclamações intitulava-se "The Encouragement of Piety and Virtue", e nela ele se dispunha a "punish all manner of vice, profaneness, and immorality". Dedicado à família, o rei procurou dar aos filhos o exemplo de uma vida simples, em contato com a natureza, sem luxos exagerados, tentando habituá-los a dormir e acordar cedo, a manter uma dieta frugal, a não abusar de bebidas alcóolicas, a praticar exercícios e a ter disciplina nos estudos e no trabalho. Preocupava-se com as boas maneiras dos filhos e tinha uma lista de proibições quase absurdas, cujas recomendações "se tiver vontade de tossir não o faça de jeito algum mesmo que se sinta sufocar"; "se sentir vontade de espirrar trinque os dentes, mesmo que isto faça algum vaso explodir" já pareciam indicar uma mente original (Hibbert).
Jorge III terminou seu reinado louco. Os sinais de insanidade começaram a se manifestar em 1788, quando atacou o principe de Gales e tentou matá-lo. O rei foi colocado numa camisa-de-força e submetido a um doloroso tratamento; no ano seguinte, os médicos o consideraram recuperado. Mas ele voltaria a sofrer novos acessos em 1801 e 1804. Em 1811, declarou-se irremediável a insanidade do soberano, e a regência foi assumida pelo filho mais velho, também Jorge o príncipe de Gales que, com a morte do pai em 1820, seria coroado rei com o nome de Jorge IV.
A loucura do rei Jorge foi, mais tarde, identificada pelos médicos como um dos sintomas de porfiria, uma doença que costuma acometer membros de famílias reais em conseqüência de casamentos consangüíneos. Da prole do rei, suspeita-se que o próprio Jorge IV tenha apresentando sintomas da enfermidade, além de seus irmãos, os duques de York, Kent e Sussex. O filho deste último com lady Augusta Murray, Augusto dEste, morreria aos 54 anos de esclerose múltipla, uma das formas de manifestação da doença.
Amor em Roma
Em janeiro de 1793, em uma das tantas viagens de que era feita a sua vida, Augustus Frederick seguiu para a Itália, onde reencontrou lady Augusta Murray (1768-1830), a quem não via desde a infância. Encontro que marcou sua vida. Até então, seus apelos ao rei para que lhe fosse concedida alguma função ou para que pudesse retornar a Londres haviam caído em ouvidos moucos.
Dez anos mais velha que o príncipe, Augusta era filha de lorde John Murray (1732-1809), quarto conde de Dunmore, que fora o último governador colonial da Virgínia (1771-76) e cujo nome está ligado à história da independência dos Estados Unidos. Enquanto o conde de Dunmore estava nas Bahamas, para onde fora nomeado governador em 1787, lady Dunmore e suas filhas conheceram Augustus Frederick na Europa.
Foi uma paixão fulminante. O jovem príncipe que, até então, limitara-se a flertes inconseqüentes, apaixonou-se perdidamente por lady Augusta. As cartas de amor trocadas pelo casal, mais tarde reveladas pelo filho deles, fazem parte das coletâneas do gênero e revelam um amor profundo de parte a parte, que se prolongaria por sete anos (ver o site www.loveletters.com).
Foi por saber que o casamento não contaria com a aprovação do rei que eles resolveram se casar secretamente, colocando depois os parentes diante do fato consumado. Usando de subterfúgios, Augustus Frederick atraiu o reverendo William Gunn à casa de Augusta na noite de 4 de abril de 1793, quando seus parentes não estavam, e o convenceu a celebrar a cerimônia. Este o fez muito a contragosto e apenas sob a promessa de que, houvesse o que houvesse, seu nome não seria revelado. Ao longo de muitos anos, em virtude das questões legais daí decorrentes, Augusta, Augustus e, depois, os dois filhos do casal, solicitariam em vão ao reverendo Gunn que testemunhasse diante do Parlamento inglês que oficiara o matrimônio em Roma para que este fosse considerado válido.
Uma lei desumana e cruel
A revelação do casamento para a família da noiva não mudou muito as coisas. Lady Dunmore perdoou o casal e acolheu o genro com muita amabilidade. Porém, quando o rumor afinal chegou a Londres, o rei ordenou a Augustus Frederick que voltasse para a Inglaterra. Augusta já esperava o primeiro filho e viajou separada do marido, chegando a Londres um mês depois, em outubro de 1793. No final de novembro do mesmo ano, disfarçados como simples burgueses e usando apenas seus nomes próprios, eles realizaram nova cerimônia de casamento em uma paróquia dos subúrbios de Londres, desta vez com testemunhas. O primeiro filho do casal nasceu em 13 de janeiro de 1794 e Augustus Frederick mal teve tempo vê-lo e de se despedir da mulher, tendo recebido ordens de partir de novo para a Itália. Em 24 de janeiro, o rei tomou oficialmente conhecimento do casamento do filho e deu ordens imediatas ao chanceler, ao arcebispo de Canterbury e aos demais ministros para proceder "in this unpleasant business" como a lei determinava, pois Augustus tinha se casado em idade inferior à permitida. Também deu ordens para impedir que lady Dunmore e sua filha deixassem o país (Gillen, p. 77).
O Royal Marriage Act, de 1772, determinava que nenhum membro da família real poderia se casar antes dos 25 anos sem a aprovação do rei e, depois desta idade, caso este vetasse a união, havia o recurso de recorrer ao Parlamento e aguardar um ano pela resposta. Caso uma das duas casas não concordasse com o matrimônio, caberia ao rei decidir se o casamento poderia ou não se realizar. Qualquer pessoa que assistisse a tal matrimônio ou dele soubesse com antecedência e não o denunciasse seria considerada culpada de praemunire, punida com a perda de todos os seus bens e títulos e ficaria presa conforme a vontade do rei. O casamento contraído em desafio à lei seria considerado nulo e sem valor, e ilegítimos os filhos gerados.
Fora o próprio Jorge III, motivado pela indignação que lhe causaram os casamentos de dois dos seus irmãos, quem engendrara essa perversa lei que não passaria sem muitas reações no Parlamento e na imprensa. Mas passou e todos os filhos de Jorge III foram vítimas dela. As filhas mulheres que se casaram só o puderam fazer depois dos quarenta anos. E a mais nova, Amélia, manteve um romance com um oficial, o capitão Charles Fitzroy, do qual teria nascido um dos 56 netos ilegítimos de Jorge III.
Um casamento marcado por separações longas e involuntárias
Apesar das tantas e conhecidas ligações de seus irmãos mais velhos e dos escândalos que se desenrolaram em Londres por conta delas, o caso de Augustus Frederick e de lady Augusta Murray teve um impacto maior junto à nobreza inglesa. Pois, tanto mrs. Fitzherbert, como a atriz Dora Jordan e madame St. Laurent eram tidas pelo rei e sua família como simples "ligações", não sendo reconhecidas como membros da família real. De família católica, mrs. Fitzherbert não estava em condições de reivindicar qualquer coisa sob o reinado de Jorge III, tão pouco simpático aos católicos. As origens de Dora Jordan e de madame St. Laurent, por outro lado, também impossibilitavam qualquer pretensão. Já a família de Augusta era tão ou mais enraizada na aristocracia inglesa quanto a do próprio Jorge III.
Lady Augusta avait effet sur Maria lavantage dappartenir à lÉglise établie, celui dune descendance royale. Du cóté paternel elle comptait dans la lignée de ses ancêtres: Henri VII, roi dAngleterre; Guillaume 1o, prince dOrange; Louis, duc de Montpensier; Charles VII, roi de France. Du côté de sa mére qui était une Stuart, elle descendait de Jacques dÉcosse. [Wilkins, p. 164]
É possível que este fato, aliado ao empenho da família Murray no sentido de fazer reconhecer o casamento e, com isto, tornar legítimos os dois filhos nascidos da união, tenha exasperado ainda mais ao rei. Pois, tornados legítimos, os filhos do duque de Sussex seriam candidatos naturais ao trono, atrapalhando a estratégia de Jorge III que, com a lei de 1772, pretendia sobretudo garantir o controle sobre a sua sucessão.
Em julho de 1794, tanto o casamento realizado em Roma como o subseqüente, celebrado em Londres, foram considerados nulos com base no Royal Marriage Act. Durante cinco anos, Augustus Frederick foi mantido no continente, sem poder voltar a Londres, enquanto Augusta era impedida de sair da Inglaterra. Ao longo desse tempo, ele escreveu seguidas vezes ao pai, ao príncipe de Gales e às demais autoridades que podiam influir para fazer reconhecer seu casamento ou, pelo menos, obter que a mulher e o filho fossem autorizados a se reunir a ele no continente. Em vão.
Augustus Frederick também continuava com seus pleitos para que lhe fosse confiada alguma missão; e mantinha intensa correspondência familiar, na qual teve sempre a preocupação de relatar os fatos políticos e militares que, a seu ver, poderiam interessar ao governo inglês. Também não deixava de ocupar seu tempo, espírito curioso que era, aprimorando a cultura através dos estudos de história da arte, da música e da religião, além de começar a constituir, nessa fase, a valiosa biblioteca de que tanto se orgulharia futuramente. Durante sua última temporada italiana (de janeiro de 1794 a maio de 1798), dedicou-se ao estudo da música e ao canto, praticando oito horas por dia. No entanto, sem ocupação, longe da mulher e do filho, o príncipe dava seqüência à vida de playboy internacional da primeira juventude, em meio a grandes festas e suntuosos jantares devidamente registrados nas colunas sociais do tempo (Gillen, pp. 90-1).
Enquanto isso, seus irmãos Adolphus e Ernest lutavam na guerra contra a França, o último sendo seriamente ferido em combate. Com a Europa cada vez mais agitada, Jorge III determinou a mudança de Augustus Frederick para Berlim. Lá foi encontrá-lo lady Augusta Murray em agosto de 1799, mesmo sem ter obtido permissão para deixar a Inglaterra. Ela viajou clandestinamente usando o nome de mrs. Ford. O filho de cinco anos viajara semanas antes acompanhado por um criado do príncipe. Antes do final daquele ano, Augustus Frederick decidiu retornar para a Inglaterra com a mulher, independentemente da autorização do rei. Ao que parece, a possibilidade de reconhecimento do matrimônio ficara definitivamente afastada. O casal se estabeleceu em Londres e Jorge III, que no início se recusara a receber o filho, experimentou certo alívio ao achar que este se convencera que sua ligação com lady Augusta era apenas uma "ligação".
Em Londres, na segunda metade do ano de 1800, Augustus Frederick preparou-se para mais uma viagem rumo a um clima quente. Desejando unir o útil ao agradável, pleiteou um posto em alguma colônia, Malta, talvez. Mas o primeiro-ministro William Pitt (1759-1806) disse-lhe polidamente que não havia nenhum cargo a altura dos "Illustrious Rank and Station of your Royal Highness". Mantinha-se, segundo Mollie Gillen, o mesmo circulo: ele era importante demais para um emprego comum, e não era competente o bastante para ocupar um cargo à altura de seu status (Gillen, p. 110).
Foi assim que, em dezembro de 1800, Augustus Frederick partiu para Lisboa, tendo sido, em 27 de novembro, elevado a barão de Arklow, conde de Inverness e duque de Sussex. O rompimento com Augusta Murray deu-se pouco depois de sua partida e teve como pretexto o nascimento da segunda filha do casal em agosto de 1801 que, possivelmente por dúvidas (logo superadas) em torno de sua origem, só veio a ser reconhecida pelo pai um ano após o nascimento. O mais provável é que Augustus Frederick estivesse cansado de uma relação que se arrastava em meio a intensa luta contra o poder da Coroa inglesa, cansado também da situação de inferioridade que a vida toda lhe relegara o pai e que fora agravada pelo casamento com Augusta. A recente aquisição dos títulos e a pressão exercida nesse sentido pelo príncipe de Gales devem ter sido decisivas para o desfecho do caso.
Lady Augusta ainda faria uma tentativa de salvar o casamento, viajando clandestinamente a Lisboa em março de 1802. Hospedado no Palácio das Necessidades, o duque de Sussex recusou-se a vê-la, chegando mesmo a tomar um navio para Gibraltar. Augusta retornou sem ter encontrado o marido, mas com a promessa de que suas dívidas seriam pagas.
Outro episódio dessa trama político-sentimental foi mencionado por Mecenas Dourado em sua biografia de Hipólito: a visita do capitão George Murray, irmão de lady Augusta, ao duque de Sussex em Lisboa, levando-lhe documentos pelos quais este assumiria responsabilidades materiais para com lady Augusta e seus dois filhos. Ocorrido em agosto de 1802, o encontro foi marcado pelas ameaças públicas feitas pelo capitão ao duque (Dourado, pp. 101-07).
Em outubro de 1803, o conde de Dunmore voltou afinal das Bahamas. Recebido em audiência por Jorge III, queixou-se do tratamento dispensado pelo duque de Sussex à sua filha e aos dois filhos do casal, principalmente no que dizia respeito à manutenção da família. O rei ouviu as queixas sem nada dizer, mas quando Dunmore começou a acusar o duque de falta de sentimentos para com os filhos, Jorge III gritou, transtornado: "Bastardos! Bastardos!".
O conde, segundo a narrativa de um de seus filhos, teria retorquido com uma expressão de lesa-majestade: "Yes, Sire, just such bastards as yours are". O soberano, então com 73 anos, encarou furioso o conde, de 71, e gritou: "What, what, what´s that you say, My Lord?" Ao que, Dunmore, enfrentando-o, voltou a afirmar que sua filha era legalmente casada com o filho de Jorge III e que, portanto, seus filhos eram tão bastardos quanto os do próprio rei. Apesar deste episódio, em abril de 1806, um acordo foi feito com lady Augusta Murray, pelo qual eram atendidas suas demandas, desde que cessasse todos os procedimentos legais contra o duque de Sussex e deixasse de usar os títulos pertencentes ao mesmo (Gillen, p.136).
Vontade de trabalhar e inexperiência
Em Lisboa, o duque de Sussex foi hóspede do príncipe regente, d. João, no Palácio das Necessidades. Como de outras vezes, nenhuma fora encarregado de nenhuma missão política, militar, cultural ou diplomática. Continuava tutelado pelo pai, através de secretários e cavaleiros que o acompanhavam com a função de, entre outras, administrar suas finanças. Se essa situação sempre o incomodara, agora, aos 29 anos, na plenitude do uso de todos os títulos de nobreza a que tinha direito um príncipe real, ela lhe parecia totalmente humilhante. Apesar do aspecto geral de Lisboa não lhe ter agradado no início, o clima era favorável à sua saúde e seu interesse pelas intrigas políticas locais prolongariam sua permanência em Portugal por cerca de quatro anos.
A vontade de ter alguma ação efetiva fez com que o duque, que fora tão amavelmente recebido por d. João, manifestasse a intenção de acompanhá-lo na visita que o regente faria às tropas acampadas na fronteira. Também se ofereceria para lutar como voluntário num eventual confronto com a França, atitudes que provocariam os primeiros dos tantos problemas que teria com os representantes oficiais da Inglaterra em Lisboa. Mas seria com a Paz de Amiens, concluída entre a França e a Inglaterra em março de 1802, e com o estabelecimento do marechal Jean Lannes como embaixador da França em Lisboa que o duque ocuparia a cena principal.
Personagem tão ou mais alheio à tradição diplomática quanto o duque de Sussex, Lannes um típico general do exército de Napoleão, de origem modesta, sem muita cultura nem maneiras polidas adotaria uma política diplomática tão agressiva em Lisboa que seria inicialmente repelido por d. João (Chrisawn). A visão superestimada que, em sua correspondência, Lannes deixou da importância política e estratégica do duque de Sussex naquele momento passou à história. Através do constante relato que fazia a Napoleão dos progressos de sua política diplomática, Lannes acentuava a "enorme influência" do príncipe inglês sobre a nobreza portuguesa.
Segundo o embaixador da França, o príncipe inglês não tinha vergonha de freqüentar os quartéis, misturando-se com os soldados, bebendo com eles e dando-lhes comidas e roupas. Tal conduta era, para Lannes, um exemplo da baixeza e perfídia inglesas. Hospedado no Palácio das Necessidades, o duque teria a casa, a mesa, os estábulos e até mesmo as dívidas pagas pelo príncipe regente. Como agradecimento, acrescentava Lannes, o duque se misturava em vergonhosas orgias com os nobres e liderava uma revolta contra o regente (Chrisawn).[No entanto, para o historiador português Joaquim Veríssimo Serrão, na verdade, foi Lannes quem deixou uma imagem negativa. "Sua estada entre nós", diz, "traduziu-se em atos de contrabando, no roubo de objetos de valor e em conflitos pessoais, além de uma constante intromissão nos atos do governo" (Serrão, p. 329). A demissão de Pina Manique da direção da Alfândega fora, ainda segundo Serrão, exigida por Lannes, após o intendente de Polícia ter prendido, sob a acusação de contrabando, um ajudante do diplomata. "Acrescente-se que, para satisfazer a sua venalidade e os caprichos de sua esposa, Lannes mandou retirar do Museu Real da Ajuda centenas de espécies naturais conchas, aves, répteis, pedras em ouro, cristais, etc. muitas delas enviadas do Brasil pelo naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira e que hoje constituem o espólio do Museu de Arte Natural de Paris" (Serrão, p. 330).]
Em 1803, era de fato considerável o prestígio do duque de Sussex junto a d. João, e ele chegou a ser convidado pelo príncipe regente para ser general do Exército português. Lannes acreditava que o objetivo de Augustus Frederick era ser o comandante- chefe e forçar a mão do regente para fazer do governo de Portugal um mandato inglês (Gillen, p. 124). Mas um incidente propiciou uma mudança de posição, favorecendo Lannes junto a d. João em detrimento do duque. Foi o papel que este, vítima de ingenuidade política, desempenhou nos famosos Motins dos Campos de Ourique. Episódio sempre citado, os motins foram provocados pelo general Gomes Freire de Andrade e pelo marquês de Alorna, com o objetivo de desacreditar e reduzir o poder que havia sido dado à Real Guarda de Polícia, idealizada por Pina Manique, com a aprovação de d. João, para garantir a ordem interna. Comandada por um emigrado francês, o conde de Novion, a Real Guarda de Polícia era repressiva e impopular, perseguindo os maçons e todos aqueles, que, segundo os critérios de Pina Manique, adotassem posturas liberais.
Ameaçados pelo crescente prestígio daquela força, a qual fora atribuído o status de regimento de linha, Gomes Freire e Alorna aproveitaram-se da festa de Nossa Senhora da Piedade, que se realizava nos Campos de Ourique, para fabricar, na noite de 24 de julho de 1803, um falso distúrbio entre os homens de seus batalhões. Quando a Real Guarda de Polícia interveio para restabelecer a ordem, os homens de Gomes Freire, incentivados pelo povo, a atacaram. Novion encontrava-se no Palácio de Queluz com o príncipe regente e, ao ser informado do que se passava, rumou para Ouriques e lá foi preso por Gomes Freire.
Foi na carruagem do duque de Sussex e acompanhado por ele que Gomes Freire seguiu para Queluz a fim de dar as suas explicações a d. João. O príncipe regente, irritado com todo o episódio e com a prisão de Novion, recusou-se a recebê-lo, mas concedeu breve entrevista ao duque. Gomes Freire recebeu ordens de ficar à disposição do comandante do distrito e, em seguida, o duque foi reunir-se a ele e a Alorna no quartel, onde ficaria até a madrugada.
Segundo Mollie Gillen, Gomes Freire acabou convencendo o duque de que uma situação de extremo perigo para Portugal fora abortada por sua intervenção em Ouriques. Já impressionado com a forte presença francesa em Lisboa, o duque resolveu alertar d. João do perigo e escreveu-lhe longa carta na qual dizia que o confronto entre a tropa e o povo não tinha sido um episódio banal. Sugeriu que d. João aproveitasse a prisão de Novion e de seus ajudantes para os submeter imediatamente a uma corte marcial. E exaltou Gomes Freire que, a seu ver, arriscara a própria vida para salvar a de d. João e restaurar a ordem pública. O duque também dizia acreditar que a Real Guarda de Polícia estava infiltrada pelos jacobinos (Gillen, p. 127; GEPB, pp. 440-41).
D. João sentiu-se ofendido com o caráter da carta e fez saber ao embaixador inglês, lorde Robert Fitzgerald, que não tornaria a receber o duque até que este se comprometesse a não mais se intrometer "de algum modo direto, ou indireto, nos negócios internos do governo" (GEPB, p. 441). Lannes aproveitou-se do episódio e da amizade de Augustus Frederick com os maçons, Gomes Freire e Alorna, para aproximar-se de d. João e para alarmar Lisboa com boatos sobre uma suposta conspiração maçônica internacional em que estaria envolvida a nobreza, liderada pelo príncipe inglês, contra o príncipe regente e hostil aos interesses portugueses. [Gomes Freire e Alorna eram, de fato, representantes da nobreza portuguesa empenhada em preservar seus privilégios e adversários de d. Rodrigo, o ministro pró-Inglaterra que era visto pelos nobres como contrário a esses mesmos privilégios. Gomes Freire de Andrade (1757-1817): nascido em Viena de pai português e de uma fidalga austríaca, foi educado naquela Corte para a carreira militar. Combateu em Argel e na Rússia, sob o comando do príncipe Potemkin. Aos 36 anos foi incorporado no exército português e participou de várias operações militares mas nunca foi bem aceito pelos superiores a quem não reconhecia competência. Preso em função dos acontecimentos relatados acima, foi solto por influência do duque de Sussex mas, em seguida, transferido, com seu batalhão, para Cascais. Foi executado em 1817 por conta de seu envolvimento na conspiração liberal.]
O embaixador da Inglaterra contornou o episódio e o próprio d. João convenceu-se de que tudo não passara de um mal-entendido e que o duque não tivera a intenção de ofendê-lo. Este, quando se deu conta da dimensão de sua gafe, temendo a reação do pai, pensou mesmo em sair do Palácio das Necessidades e deixar Portugal. Tendo obtido a promessa de lorde Fitzgerald de que nenhum despacho oficial ou privado sobre o episódio seguiria para a Corte da Inglaterra, resolveu permanecer em Lisboa. Mas, para suas pretensões futuras, este seria mais um fator a distanciá-lo dos desejados postos de responsabilidade.
Encontro em Lisboa
Foi este o duque de Sussex que Hipólito encontrou em Lisboa, em 1801: imponente, muito louro, alto, corpulento, simpático, boa voz, de fácil contato, tratando com excessiva familiaridade a todos, inclusive aos subalternos, amigo dos jantares e das festas (vocação que o acompanharia por toda a vida). Como visto, era um novato em questões políticas, para as quais só despertara na Itália, em 1793. Seus laços com a Maçonaria inglesa, apesar da vinculação de seus irmãos mais velhos, eram ainda tênues.
Apesar dos esforços de Jean Lannes para fazer com que se acreditasse que o duque era o líder de uma vasta conspiração internacional maçônica, Mollie Gillen acha que, em Portugal, o interesse maçônico do duque ainda era incipiente. Ela acredita mesmo que deve ter sido o contato com o jovem brasileiro Hipólito da Costa ou com Gomes Freire de Andrade que o levou a seu maior envolvimento com a Maçonaria e que ajudou a fixar o mito de seu papel fundamental na Maçonaria portuguesa naquele momento (Gillen, p. 124).
Portugal parece ter sido um marco em sua vida. O fim de seu casamento com Augusta Murray, o aprofundamento de seus relações com a Maçonaria que teria, depois, papel tão importante em sua vida, e o começo, ainda que desastrado, de seu envolvimento em questões políticas. O que transparece do episódio dos Campos de Ouriques, no entanto, é também a boa intenção do duque, a vontade de ajudar, acreditanto que abriria os olhos de d. João para o que se passava.
Quando o duque de Sussex chegou a Lisboa, em janeiro de 1801, Hipólito acabava de retornar de sua viagem à Filadélfia. Sua biografia é bem mais conhecida entre nós do que a de Augustus Frederick e, por enquanto, basta dizer que, quando possivelmente se encontraram pela primeira vez o duque tinha 29 anos, apenas um a mais do que Hipólito. Enquanto Augustus Frederick tivera até então uma vida de playboy internacional, com os estudos prejudicados pelos constantes problemas de saúde, e com a vida profissional anulada pela indiferença ou intenção do rei em mantê-lo ocioso, Hipólito orientara-se para os estudos desde a primeira infância, fora um brilhante aluno da Universidade de Coimbra e passara dois anos nos Estados Unidos em importante missão para o governo português. Esses antecedentes, aliados a um agudo sentido de observação e a uma considerável cultura geral, faziam de Hipólito da Costa uma figura respeitada em Portugal. Como demonstra Mollie Gillen, o prestígio do duque, bem como a suposta influência sobre o meio lisboeta em que viveu parecem pertencer mais ao mundo das ilações históricas do que à realidade. Certamente, o alto status de filho do rei da Inglaterra deveria assegurar-lhe a reverência da melhor sociedade portuguesa, contribuindo para alimentar a lenda. Que, de resto, não deveria desagradar a um príncipe tão carente de reconhecimento.
O provável encontro de Hipólito da Costa com o duque de Sussex em Lisboa, no entanto, foi seguido de uma longa separação. Durante os três anos em que passou nos cárceres da Inquisição, ele Hipólito permaneceu quase que totalmente isolado, sem contato com o mundo exterior, e quando por fim fugiu da prisão em 1805, o duque de Sussex já estava na Inglaterra.
Entre os seus: Londres, 1805-1809
Em 1804, uma nova e ainda mais grave crise do rei Jorge III fez com que o duque de Sussex voltasse à Inglaterra. Sua volta foi bem recebida pela família e os primeiros dois anos passados em Londres foram de reintegração e convívio mais estreito com as irmãs mais novas (Mary, Sophie e Amelia) e com a sobrinha Charlotte, herdeira do trono e a quem se tornaria particularmente afeiçoado. Nesta fase, esteve também, como nunca estivera antes nem voltaria a estar depois, bastante próximo do irmão mais velho, o príncipe de Gales.
Em meados de 1806, um posto disponível na Jamaica acendeu-lhe de novo a esperança de obter uma colocação que garantisse, ao mesmo tempo, o reconhecimento de suas capacidade, algum rendimento e o clima quente que sua saúde reclamava. Ao candidatar-se à vaga, o duque lembrou que chegara aos 34 anos sem qualquer demonstração de aprovação ou de confiança do governo, enquanto todos os seus irmãos desfrutavam de posições lucrativas e de responsabilidade.
Em setembro de 1806, no entanto, a doença de Augustus Frederick piorou, agravada por seu estado de espírito, descrito pelo irmão a que era mais próximo, o duque de Kent, como "unusual despondency of mind [...] an alarming degree of incipient hypochondria". Estado de espírito que era produto também da convicção a que ia chegando de que nunca teria um emprego oficial. Mergulhado em profunda depressão, ele escreveria, em outubro, ao príncipe de Gales: "I am here not only a useless being but a burden to myself and friends" (Gillen, p. 145).
O duque de Sussex não obteve o posto da Jamaica, ocupado por outro, considerado mais capaz. Em 1808, seu irmão, o duque de York, fechou-lhe definitivamente as portas do Exército, do qual era comandante-chefe, alegando, através de mensagem oficial, que Sua Majestade ficara sensibilizada com a oferta de seus serviços, mas que, como o duque nunca havia estado antes no Exército, a opinião do rei é de que era tarde demais para que entrasse na profissão.
Em 1809, excluídas todas as esperanças de uma colocação formal, ficou claro para Augustus Frederick que as viagens ao estrangeiro eram coisa do passado e sua vida sofreu uma guinada. Como diz Mollie Gillen, naquele momento de crise, ele afinal percebeu que sempre haveria inúmeras oportunidades para um príncipe imbuído de espírito público, cheio de energia, estudioso, gregário, interessado numa variedade de assuntos e nos problemas de seu país.
There were charities to patronize, Masonic ambitions to further, educational and cultural projects to sponsor, protégés to help, reforms to work for, government mesures to support or oppose. [...] With his favorite brother the Duke de Kent, also cast out into the wilderness of public inactivity, he managed to be very active indeed. [Gillen, p. 147]
Jorge IV
A primeira aparição do duque de Sussex nas páginas do Correio Braziliense foi motivada por dois discursos que pronunciou no Parlamento contra as limitações dos poderes de regência conferidos a seu irmão, o príncipe de Gales, em virtude da doença do pai. No primeiro deles, datado de 20 dezembro de 1810, Augustus Frederick, segundo Hipólito, falou com "superior eloqüência" para defender apaixonadamente os direitos constitucionais do príncipe de Gales (CB, 5:661-66).
No segundo discurso, datado de 28 de janeiro de 1811, sobre a mesma matéria, o duque afirmou que expunha ali suas opiniões como "um ardente amigo de meu pai e soberano, como um ardente amigo do príncipe de Gales, meu irmão e como um mais ardente amigo de tudo que possa ter por sagrado na Constituição" (CB, 6:168). Mais adiante, Hipólito justifica a publicação do discurso do duque de Sussex ao lado do pronunciado pelo conde de Liverpool, da situação como exemplar da fala da oposição na Câmara dos Lordes (CB, 6:206). Partido ao qual pertencera, durante toda a vida, o príncipe de Gales.
Desde que se estabelecera em Londres, em 1804, o duque de Sussex estreitara os laços com os irmãos. Sobretudo com o príncipe de Gales, compartilhando as idéias políticas e as amizades que então ligavam o herdeiro do trono inglês e alguns de seus irmãos aos Whigs. Espírito aberto às novas idéias, observador atento das transformações por que passava o continente europeu, onde vivera por dezoito anos, influenciado ainda pelo espírito liberal da Maçonaria inglesa, à qual ia gradualmente se integrando, o duque de Sussex se alinharia naturalmente com os Whigs.
Desde a juventude, quando se tornara independente do pai, o príncipe de Gales adotara o partido da oposição. Enquanto Jorge III preferia ministros Tories, o príncipe de Gales cercou-se de aliados Whigs, contando entre seus amigos Charles Fox, Edmund Burke e William Sheridan. No entanto, ao assumir a regência, em 1811, ele mudaria de atitude.
As limitações impostas pelo Parlamento à regência deixaram poucas possibilidades de ação imediata ao príncipe de Gales. Antes disto, no entanto, a morte de Charles Fox, em 1806, líder da velha guarda dos Whigs, com a qual ele mais se identificava, deixara os Whigs divididos e fragilizados. Diante desse quadro, o príncipe de Gales acabou por convidar o chefe do ministério Tory, lorde Spencer Perceval, a continuar no cargo. Tal atitude exasperou os Whigs que imaginavam subir ao poder com ele e passaram a considerá-lo um traidor (Carradine, p. 119). De fato, sob a influência dos Tories, o príncipe de Gales passou a acreditar que os sentimentos liberais e antimonárquicos de seus amigos Whigs eram "unfavourable to good government" (Priestley, p. 35). Deste ponto de vista, ele não só reavaliaria a necessidade da reforma parlamentar proposta pelos Whigs, pela qual o poder do monarca sofreria maior controle do Parlamento, como também adotaria a mesma postura intransigente do pai na questão da emancipação dos católicos.
Jorge IV foi, tanto na regência quanto em seu reinado, extremamente impopular. Além da guinada política para a direita, as questões relacionadas ao seu casamento com a princesa Carolina de Brunswick contribuíram para afastá-lo do povo. O casamento de conveniência se desfez tão logo foi confirmada a gravidez da princesa de Gales. A aversão mútua do casal, evidente desde o primeiro encontro, converteu-se em profunda inimizade ao longo dos anos. Vivendo a maior parte do tempo no estrangeiro, a princesa de Gales, cujo temperamento forte e comportamento liberado para os padrões do tempo chocavam, foi observada por espiões que depois depuseram contra ela num processo que ficou conhecido como "a Delicate Investigation". Processo secreto realizado no Parlamento inglês, em 1806, baseado na suposição de que a princesa teria dado à luz a um filho bastardo.
Em 1820, com a morte de Jorge III, Carolina reivindica direitos de rainha da Inglaterra e enfrenta novo processo. Desta vez, para que o casamento dela com Jorge IV fosse considerado nulo e seu nome excluído das preces pela família real nas liturgias da Igreja Anglicana. Apesar dos escândalos que envolveram seu nome, largamente explorados pela imprensa e pelos caricaturistas, Carolina era extremamente popular. Enquanto durou o processo, em suas idas e vindas à Casa dos Lordes, era saudada entusiasticamente pelo povo. O duque de Sussex, seu cunhado, que, em 1806, testemunhara contra ela no primeiro julgamento, tomaria seu partido em 1820, e acabaria associado a ela na simpatia do povo que apreciava a rainha e detestava o rei.
Jorge IV determinou que, durante sua coroação, a entrada da rainha na abadia de Westminster fosse impedida. De fato, Carolina teve que voltar da porta, mas isto motivou uma série de manifestações públicas de repúdio ao rei que só cessaram quando ela morreu subitamente em agosto de 1821. Jorge IV morreu em 1830. Sua impopularidade era tanta que o jornal The Times publicou um editorial onde se lia: "Nunca houve morte menos sentida do que a deste rei", indagando em seguida: "Quem derramou sequer uma lágrima por ele? Qual o coração que estremeceu com uma palpitação de tristeza desinteressada?" (Carradine, p. 120).
Um príncipe liberal
A guinada do príncipe de Gales para o partido conservador o afastaria gradualmente, durante a regência e, depois, ao longo de seu reinado, do irmão mais novo. O duque de Sussex marcaria sua ação na política e na sociedade inglesas por uma corajosa atitude de oposição. Ele revelou-se um verdadeiro liberal no Parlamento, trabalhando pela emancipação de católicos, judeus e protestantes dissidentes, pela abolição da escravatura e por uma reforma parlamentar tendente a ampliar os direitos dos Comuns perante a Câmara dos Lordes.
The Duke dedicated himself to reform, to helping the less fortunate where his name and active presence could bring benefits, and to studying for a close understanding of all matters under consideration by the Parliament where injustice might be perpetuated; but he never campaigned for personal power. [Gillen, p. 185]
Segundo Hipólito da Costa, no discurso que pronunciou em 1812, em defesa dos católicos da Inglaterra, o duque "desenvolveu os verdadeiros princípios do cristianismo, recomendando a tolerância mútua pelos sentimentos cristãos, pela política do Estado e pelos ditames da filosofia" (CB, 8:300, apud Dourado, pp. 138-9).
Mais tarde, em 1814, o duque de Sussex tomará a defesa dos interesses portugueses e brasileiros prejudicados pelo Tratado de Paris (1814). Apesar do tratado ter determinado a devolução de Caiena aos franceses, disse o duque, "não se fez menção da restituição de Olivença da parte de Espanha a Portugal". O duque lembrou a obrigação em que estava o gabinete inglês de defender Portugal, que fora prejudicado "pela adesão do príncipe regente português com S. M. britânica, [...] porque o sacrifício daquele distrito tinha sido o preço, que custara a Portugal a sua constante adesão aos antigos tratados com a Grã- Bretanha". Sua Alteza Real, acrescenta Hipólito, esperava, portanto, que o gabinete britânico "houvesse de esforçar toda a sua influência na presente ocasião para obter ao Brasil a mesma linha de marcação que fora estipulada no tratado de Utrecht" (CB, 13:821-26).
Todavia, o discurso mais polêmico do duque foi aquele em que questionou a legalidade do ato do Parlamento britânico que determinou a prisão de Bonaparte na ilha de Santa Helena: "Condenar a um desterro distante e à prisão um estrangeiro e chefe cativo, o qual, depois da abdicação de sua autoridade, confiando na generosidade britânica, se rendeu a nós, em preferência de seus outros inimigos, é indigno da magnanimidade de uma grande nação". Hipólito ressalta no protesto do duque a força institucional da Constituição inglesa, pois a falha do Parlamento teria sido a de deixar de estender a proteção da Constituição, "não já a uma nação estrangeira, mas a um indivíduo, que havia sido terrível inimigo de seu país" (CB, 16:296-97).
De resto, a defesa da Constituição e do modelo de monarquia constitucional inglesa estaria sempre na base das palavras do duque de Sussex. No primeiro discurso que pronunciou em defesa do direitos da regência do príncipe de Gales, ele lembrou que residira dezoito anos no continente, "durante o progresso dessa terrível e calamitosa revolução" e, observando seu desenrolar, concluíra que o fato que antecedera a queda de todos os governos fora "pôr a magistratura da realeza em suspenso e falta de reputação, ou inflamar, injuriar e prejudicar o espírito do povo contra o seu soberano e seus herdeiros". Na opinião de Augustus Frederick, mais sagrada até do que a família real em Inglaterra era a sua Constituição: "Tão magistralmente estão equilibradas as suas três partes componentes que, se um dos três ramos sofrer uma invasão, isto trará consigo a queda dos outros dois".
Parodiando as palavras de William Pitt, presidente da Casa dos Lordes em 1788, quando Jorge III foi afastado do trono pela primeira vez: "Que Deus se esqueça de mim se eu me esquecer de meu rei", o duque de Sussex cunhou a frase que expressava melhor sua devoção: "Que Deus se esqueça de mim se eu me esquecer da Constituição de minha pátria", completando: "Esta Constituição que tem sido a nossa ostentação por tanto tempo; e a inveja de toas as nações que nos cercam e que, pela falta desta benção, tem todas sido confundidas em uma horrível massa de anarquia, ruína e desesperação" (CB, 5:665-66).
Grão-mestre tolerante e eficiente benemérito
A importância do duque de Sussex na história da Maçonaria inglesa é ressaltada na bibliografia sobre o assunto. Ele, que se iniciara em Berlim aos 26 anos, a 20 de dezembro de 1798, só passaria a manter uma atividade maçônica regular a partir de 1806. Em 1813, sua ação, ao lado do duque de Kent, na liderança das duas frentes os Antigos e os Modernos em que se dividia a Maçonaria inglesa contribuiu decisivamente para a reunião delas na United Grand Lodge, da qual foi eleito grão-mestre. Revelou-se neste posto o líder da união e da tolerância, contribuindo para o progresso e a expansão da ordem em todas as camadas da sociedade e em todas as etnias. Valendo-se da autoridade de grão-mestre do Grande Oriente Inglês, base maior da Maçonaria no mundo, ele estimulou a expansão das lojas maçônicas entre os negros americanos, entre os turcos na Alemanha, entre os irlandeses na Inglaterra e nas ilhas do Pacífico. Tendo sido sempre um estudioso das religiões, respeitando todos os credos, trouxe para a Maçonaria um clima de plena tolerância religiosa. Proclamando-a universal, removeu as referências cristãs das leituras e rituais, favorecendo o incremento das lojas maçônicas judaicas.
These superficial changes, which reflected a desire for Freemasonry to be open to all men believing in God irrespective of their creed, were fostered by the Duke of Sussex who was a Hebrew scholar, a member of Jewish learned societies and also a supporter of Christian Emancipation. [Apud http://www.geocities.com/Athens/Acropolis/8291/donfr.html]
Eleito presidente da Society for Encouragement of Arts, Commerce e Manufactures em 1816, cargo que ocupou até sua morte em 1843, ele promovia anualmente a entrega de prêmios a todos aqueles que tivessem contribuído para o progresso científico e tecnológico, inventando ou desenvolvendo melhoramentos em qualquer ramo do conhecimento prático. Seu interesse permanente por novos inventos e instituições aproximou-o também do socialista utópico Robert Owen, amigo de seu irmão Edward, o duque de Kent. Numa visita a Owen, este, usando cubos, fez-lhes uma demonstração da "proportionate amount of the different classes of society" (Gillen, pp. 181-22).
O duque de Sussex presidiu cerca de setenta instituições de caridade. Talvez a mais importante delas tenha sido o hoje chamado Queen Charlotte Maternity Hospital. Após assumir o cargo de presidente de seu conselho diretor em 1809, outro posto que ocupou até morrer, convenceu a mãe a tornar-se patrona do hospital que passou, a partir daí, a chamar-se Queen Charlotte (antes, chama-se Bayswater Lying-in Hospital). O duque atraiu outros príncipes e princesas de sua família para colaborarem como patronos do hospital e promoveu uma série de mudanças e melhoramentos que fizeram com que, em 1815, todas as dívidas da instituição estivessem pagas. Em 1825, ele tinha orgulho de dizer que, desde o começo de sua administração, o Queen Charlotte atendera 46 mil mulheres pobres. O hospital admitia tanto as mulheres casadas como as não casadas, proporcionando a todas o mesmo tipo de assistência, ainda que as mantivessem separadas, "that the morals of one might not be corrupted by other" (Gillen, p. 154).
O prestígio de Sua Alteza Real
Nas duas biografias mais completas de Hipólito da Costa, a influência do duque de Sussex é apresentada como fundamental para o seu estabelecimento em Londres e para que a empreitada do Correio Braziliense não fosse prejudicada pelos inimigos. A intervenção excessiva do duque em alguns episódios, a facilidade com que se envolveu, por exemplo, nas negociações com o conde de Funchal (Dourado, pp. 380-81), ganha nova luz a partir dos aspectos da biografia do duque registrados acima. É uma presença miúda, constante, fácil, como fora em Lisboa junto a Gomes Freire.
Não deixa de ser uma presença ilustre, com cacife para escrever a d. João no Rio de Janeiro em defesa dos interesses do amigo (Dourado, pp. 112-13). Mas o que sua biografia nos revela é que ele não era um príncipe tão prestigiado como levam inicialmente a crer as menções a ele nos estudos sobre Hipólito da Costa e a história da Maçonaria em Portugal. Era, como vimos, um príncipe que, depois de ter sido deixado de lado pelo pai, viveu em constante litígio com o irmão poderoso, militando sempre no partido da oposição; um príncipe que vira todas as reivindicações que fizera aos governantes de seu país serem negadas; um príncipe cujas rendas eram muito inferiores às dos irmãos e que, por isso, viveria sempre acossado por dívidas. Mesmo suas qualidades bonomia, facilidade em estabelecer relações e desconhecer diferenças, falta de ambição pessoal seriam usadas contra ele. Entre os políticos do tempo, sua imagem era ridicularizada como a de um comediante, e as obras sociais que patrocinou, apresentadas pela imprensa Tory através de caricaturas e anedotas como simples pretextos para novas festas e jantares (Gillen, pp. 157, 166 e 181).
Essa imagem recuperada por sua imparcialíssima biógrafa contrasta com a que dele procurou projetar entre nós, através das páginas do Correio Braziliense, seu amigo Hipólito da Costa. As atitudes corajosas e liberais de Augustus Frederick no Parlamento serão o modelo de que se valerá o jornalista para saudar o perfeito e exemplar funcionamento das instituições constitucionais inglesas. O protesto do duque contra a prisão de Bonaparte, por exemplo, seria uma prova do espírito de independência com que se conduzem as discussões no Parlamento.
Também as circunstâncias do discurso em que o duque de Sussex defendeu os interesses portugueses são apresentadas por Hipólito como exemplares do modo como se conduzem os homens no Parlamento inglês. Desaprovando as medidas gerais dos ministros do rei, diz Hipólito, um político de oposição como o duque de Sussex diz em público, na Casa dos Lordes, a sua opinião sobre essas matérias "com franqueza e denodo". Dirige seus argumentos, acrescenta Hipólito, sem rebuços, invectiva os ministros e, acabado o debate, vai falar com eles e muitas vezes graceja sobre a violência do argumento, ou o ímpeto das imputações que se usam de ambas as partes. Hipólito lembra ainda, como exemplo de boa convivência das idéias diferentes, que, enquanto o duque de Sussex segue o partido da oposição, seu irmão, o duque de Cumberland, segue o partido ministerial (CB, 13:842-43).
Hipólito e os libertadores em Londres
Um aspecto da biografia de Hipólito da Costa que ainda não mereceu a devida atenção dos estudiosos é a sua relação com os movimentos de independência na América. No pequeno trecho do livro Latin Americans in London que trata do jornalista brasileiro, lê-se que Hipólito da Costa, após seu estabelecimento em Londres, tinha começado a colaborar "closely with Miranda and other Latin American and European liberals and exiles in London" (Decho & Diamond, p. 19). Hipólito é classificado em outra parte como um dos latino-americanos importantes que Bolívar teria conhecido em Londres (Idem, p. 16).
O Correio Braziliense é, naturalmente, a fonte para conhecer o pensamento do jornalista sobre o processo de independência das colônias espanholas. Mas só a análise da documentação existente nos arquivos europeus poderá, um dia, dimensionar, em suas reais proporções, o papel do jornalista naquele processo. Mecenas Dourado reproduz carta de Caldeira Brant a José Bonifácio em que o primeiro informa, de Londres, em 1822, que, os ingleses que serviram em Portugal estariam prontos a embarcar para o Brasil e que qualquer autorização a Hipólito da Costa "que sabe perfeitamente como se fizeram, e talvez teve parte em todas as expedições que daqui se fizeram para Colômbia, Chile, bastaria para embarcar gente, armas e principalmente armar navios" (apud Dourado, p. 115). Hipólito, ainda segundo Dourado, seria o auxiliar eficaz e oficial do governo venezuelano de Bolívar para o qual teria contatado soldados e marinheiros ingleses (Idem, p. 115, nota 141).
Apesar da ligação de Hipólito com os libertadores ligação que compartilharia com outro amigo e protegido do duque de Sussex, o barão dEben [originário de uma tradicional família da Silésia, o barão dEben (1778-1825) conheceu o duque de Sussex em Berlim, em 1796. Nomeado por lorde Castlereagh, em 1808, para organizar o Corpo da Leal Legião Lusitana, foi governador de armas de Trás-os-Montes. No ano seguinte, tornou-se coronel a serviço do príncipe regente da Inglaterra. Lutou contra os franceses em Portugal e, em 1810, estava de volta a Londres intermediando os contatos de Hipólito da Costa com o conde de Funchal. Em 1814, foi nomeado ajudante de campo do regente da Inglaterra; achava-se em Lisboa, em 1817, quando foi acusado de participar da conspiração de Gomes Freire. Foi expulso de Portugal e também não pôde mais se estabelecer na Inglaterra, retirando-se para a Alemanha (Dourado, pp. 253-54). As ligações do barão com os duques de Sussex e de Kent e com o príncipe de Gales foram fundamentais para a suavidade de sua pena em comparação com a de Gomes Freire. "It was Ebens involvement with the British royal family which probably accounts for the comparatively lenient way he was treated by the judges" (Maylm, p. 21).] , na biografia do próprio duque nada há que indique qualquer participação dele no processo de independência das colônias espanholas. Por isso nos chama particularmente a atenção a referência ao duque no trabalho de John Lynch sobre as tendências monárquicas do general San Martin.
In 1821, he sent Juan García del Río and James Paroissien to Europe to secure recognition of Peruvian independence, alliance with a European power, and a prince. One of the names proposed as Emperor of Peru was the Duke of Sussex, son of George III. The two commissioners raised no interest or support in Chile and Buenos Aires and by the time they began negotiations in England San Martín had already resigned. [Linch, p. 20]
Se levarmos em conta tudo o que Mollie Gillen levantou em torno das expectativas de colocação que o duque de Sussex alimentara por quase toda a vida, a proposta de San Martin, reunindo o clima adequado a uma posição de grande responsabilidade, representava um pacote tentador. John Linch não nos revela se o duque de Sussex tomou contato com essa proposta ou mesmo se ele tinha alguma ligação com San Martin. Teria a ponte entre o duque e os libertadores sido estabelecida por Hipólito?
ConclusõesUma das raras páginas do Correio Braziliense dedicadas a uma grande festa londrina foi publicada no volume 10. Trata-se de uma festa maçônica em homenagem a lorde Moira que fora, durante 25 anos, o grão-mestre efetivo da Maçonaria, sob o grão-mestre que era o príncipe de Gales. A reunião, que aconteceu em 27 de fevereiro de 1813, foi presidida pelo duque de Sussex, o qual estava acompanhado de seus irmãos, os duques de York, de Clarence, de Kent e de Cumberland. No salão dos Framaçons, em Great Queen-Street, puderam se acomodar para jantar, sem constrangimento, cerca de seiscentas pessoas. Hipólito destaca a beleza das damas presentes, a excelência da música proporcionada pela famosa orquestra do duque de Kent e de alguns cantores. Sucedem-se depois do jantar os brindes e saudações. O discurso do duque de Sussex em honra do homenageado detalhou fatos da trajetória política e social de lorde Moira. Depois do agradecimento deste, as senhoras retiraram-se para um "esplêndido refresco", o duque de Sussex presenteou o lorde com uma magnífica jóia e pronunciou uma oração maçônica, recapitulando seus serviços à ordem. Sobre isto e o que mais se passou, diz Hipólito, o silêncio é o único dever (CB, 10:99-101).
O que surpreende nesta nota é o entusiasmo revelado pelo jornalista que é, em geral, bastante comedido no relato da vida mundana. Hipólito descreve uma festa de que evidentemente participou e parece vibrar de entusiasmo, tanto pelo que a festa representa para a Maçonaria como pelo papel central que nela desempenha seu amigo, Augustus Frederick. Em dezembro daquele ano o duque se tornaria grão-mestre da Maçonaria inglesa.
Na década de 1950, Carlos Rizzini descobriu que os descendentes de Hipólito da Costa em Londres ainda guardavam objetos que lhe haviam sido presenteados pelo duque: uma cafeteira de prata e um relógio de ouro. Descobriu também que possuíam um retrato do jornalista que enfeitara uma das paredes do Palácio de Kensington, onde o duque de Sussex vivera e que, depois de sua morte, fora oferecido à viúva de Hipólito. Rizzini localizou ainda uma carta do duque a um velho amigo, onde aquele se escusa de não poder comparecer a um jantar anteriormente marcado por sentir-se ainda aturdido com a morte do "poor da Costa", ocorrida sete dias antes (Rizzini, p. 18). E o duque se empenharia, após a morte do amigo, em obter de d. Pedro uma pensão para o afilhado, Augustus Frederick Hipólito da Costa, a quem também ajudou a se encaminhar na carreira militar (Idem, p. 22).
A história das relações de Hipólito da Costa com o duque de Sussex foi levantada tanto por Carlos Rizzini como por Mecenas Dourado. Na obra desses biógrafos, a influência do duque no estabelecimento do brasileiro em Londres está fartamente documentada. Este trabalho procura revelar um pouco mais sobre Augustus Frederick, contrastando aspectos de sua biografia com a imagem que se fixou dele a partir das biografias de Hipólito da Costa, como também das referências ao duque inseridas no Correio Braziliense. Não foi seu objetivo traçar um paralelo entre as idéias políticas de um e outro, estabelecendo as identidades que, à primeira vista, estão patentes: liberdade religiosa; fim da escravatura; progresso industrial e científico; monarquia constitucional; um Parlamento forte etc. Só um conhecimento mais aprofundado dos textos e discursos deixados pelo duque permitiria um cotejo equilibrado. Conhecendo, no entanto, a densidade da obra de Hipólito da Costa, sua notável biografia, a firmeza e clareza de suas posições e, agora, as dificuldades da trajetória política, intelectual e social do duque, podemos inferir que é provável que tenha havido uma maior influência do protegido brasileiro sobre seu ilustre protetor inglês.
Estabelecer o grau dessa influência, as áreas em que ela se manifestou de maneira mais evidente serão objeto de um futuro trabalho. Para este, nos basta concluir com o elogio à amizade que uniu dois homens notáveis. Pois foi sob o signo da amizade que se construiu essa relação em que o respeito patente nas declarações de Hipólito às qualidades sempre realçadas do príncipe injustiçado fazem par com a boa vontade e o empenho permanente deste em apoiar o amigo brasileiro, a quem admirava, como deixou expresso nas palavras tão amáveis que fez gravar em sua lápide.
* Agradeço a Alberto Dines a leitura atenta que fez deste texto e várias indicações bibliográficas, notadamente as que se referem à passagem de Hipólito pela Maçonaria portuguesa e à sua relação com os chamados "libertadores" (ver final deste artigo). Assunto para o qual me despertou a atenção.
(**) P
esquisadora da Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro, doutora em ciência política pelo Iuperj (Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro) e autora de Insultos impressos. A guerra dos jornalistas na Independência (Companhia das Letras, 2000), Nássara. O perfeito fazedor de arte (Relume Dumará/RioArte, 1999), Brasil pelo método confuso. Humor e boemia em Mendes Fradique (Bertrand Brasil, 1993) e Histórias de presidentes. A República no Catete (Vozes/FCRB, 1989).BIBLIOGRAFIA
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http://www.antiqillum.com/TLSix-009.htm
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Outros sítios de interesse
http://collections.ic.gc.ca/blackloyalists/people/influential/dunmore.htm
http://www.pbs.org/wgbh/aia/part2/2h47.html
http://www.virginiaplaces.org/places/henry.html
http://www.bartleby.com/65/du/DunmoreJM.html
http://www.liming.org/nwta/culnorfolk.html
http://www.norfolkhistorical.org/highlights/19.html
http://www.history.org/History/teaching/tchaadun.htm
http://www.dacorbacon.org/DACOR/Earl_Dunmore.htm
http://www.mscare.com/a0106/page_05.htm
Fonte: Observatório da Imprensa, 3/6/2003
Reedição de "Quilombo", o jornal negro de Abdias do Nascimento
Haroldo Ceravolo Sereza (Fonte: O Estado de S. Paulo, 8/6/2003)
De dezembro de 1948 a julho de 1950, um grupo de intelectuais negros, liderados por Abdias do Nascimento, fez publicar dez edições de Quilombo. O jornal estabeleceu um novo patamar na discussão dos problemas raciais do País, explicitando uma agenda política que rejeitava "a piedade e o filantropismo aviltantes" e lutava "pelo seu direito ao Direito". O jornal também negava fortemente a idéia de que a luta contra o racismo não fazia sentido no Brasil, porque o problema não existiria por aqui.
A pauta de Quilombo, que acaba de ganhar uma edição fac-similar de seus números (Ed. 34, 128 págs., R$ 38), impressiona, ainda hoje, por vários motivos. Em primeiro lugar, pela autoria dos textos. "À maneira dos melhores jornais americanos ou franceses da época, o Quilombo congregava, num mesmo espaço político e cultural, intelectuais negros e brancos, que emprestavam sua grandeza para a construção do pós-racismo brasileiro: gente da envergadura de Guerreiro Ramos, Ironides Rodrigues, Edison Carneiro, Solano Trindade; ou do quilate de Nelson Rodrigues, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre, Arthur Ramos, Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, Péricles Leal, Orígenes Lessa, Roger Bastide, para ficar nos maiores", escreve Antonio Sérgio Alfredo Guimarães na introdução à edição.
"Mantendo-se em sintonia com o que se produzia em Paris, Nova York ou Chicago, traduziu e deu a conhecer o texto Orpheu Negro, de Jean-Paul Sartre, entrevistou Albert Camus, reproduziu artigos do The Crisis", continua.
Outro aspecto, talvez até mais importante, é a idéia de que o racismo precisava ser combatido em várias frentes. Os textos variam da questão institucional, em torno da discussão da lei do então deputado Afonso Arinos, que transformaria em crime a discriminação racial, à eleição da boneca de piche, uma miss negra. As capas traziam modelos e atrizes, realçando a beleza negra, e textos se queixando da recusa de escolas à presença de negros. O jornal também procurava lembrar nomes como Lima Barreto, Cruz e Souza, Teodoro Sampaio, e sempre, claro, tratava do mundo do teatro. Fazia denúncias contra quem praticasse a discriminação, condenava as condições de trabalho das empregadas domésticas e defendia candidatos negros.
Para inaugurar a coluna Democracia Racial, o jornal convidou Gilberto Freyre, que defendia que no País vinha se "definindo uma democracia étnica".
"Nós queríamos as opiniões as mais diversas", lembrou, nesta semana, por telefone, do Rio, Abdias do Nascimento, nascido em Franca (SP), em 1914.
"Até de quem discordava. O Gilberto Freyre participava dos nossos atos."
Leia abaixo entrevista de Nascimento.
Estado - Como é ver o Quilombo reeditado?
Abdias do Nascimento - Gostei muito, porque me lembra uma época, todos aqueles amigos, o contexto social. Nosso grupo se reunia todas as tardes, tomava cafezinho, essas coisas que não há mais hoje em dia. Hoje, está todo mundo enclausurado, as pessoas se esquecem que a vida é diálogo.
Estado - Para a história do movimento negro, qual a importância do jornal?
Abdias - O Quilombo ajudou a despertar a consciência do negro, de seus valores. Infelizmente, não pode continuar. Teve uma circulação pequena, mas influente, porque era bem realizado. Ele ajudou também a aglutinar as pessoas e a mostrar que o Teatro Experimental do Negro não era só um grupo de teatro, era também uma frente de luta. Nós organizamos duas conferências nacionais do negro, um congresso, advogamos a discriminação racial como crime, políticas públicas em favor do negro, patrocinamos o concurso do Cristo Negro. Não tínhamos um programa estreito e conseguimos concretizar muitas questões.
Estado - Que questões, na sua opinião, avançaram a partir do que vocês defenderam?
Abdias - Em vários pontos, fomos vitoriosos. A questão das cotas, que agora é moda, por exemplo. Estávamos falando disso desde os anos 1940, talvez com outro nome. As idéias ficam, elas podem demorar, mas acabam germinando. A idéia de que a discriminação racial é crime, por exemplo. Depois que passar essa questão das cotas, a sociedade brasileira vai discutir, em seguida, outra coisa que já falávamos, que é a da compensação aos negros pela escravidão. É uma questão de justiça. Outros grupos humanos, como os judeus, acabaram recebendo, ainda que não totalmente, alguma forma de indenização pelo que sofreram. Quando acabou a escravidão, Ruy Barbosa já defendia que os negros fossem indenizados. Já lá havia o germe da correção dessa injustiça.
Estado - Essa, então, deve ser a próxima bandeira do movimento negro?
Abdias - Essa é uma questão que a comunidade tem de buscar, temos de reconstruir a dignidade da população de cor. O negro não nasceu escravo, isso é importante para resgatar a integridade do negro, que, depois do fim da escravidão, continuou espoliado, atirado na pior situação, enquanto herdeiros dos donos de escravo continuaram a enriquecer.
Estado - Mais de 50 anos depois, pelos textos do Quilombo, é possível perceber que alguns argumentos enfrentados pelo movimento negro são semelhantes.
Abdias - Os argumentos são parecidos, às vezes usam até as mesmas palavras. Mas toda a minha identidade foi construída assim, desde a minha escola primária em Franca. Eu luto por essas coisas, me chamam de radical, rebelde. Foi assim que eu virei adulto, lutando contra a sociedade que quer associar o negro à vadiagem, à contravenção, a mesma sociedade que, muitas vezes, o joga nessa situação. Acabei ficando com uma imagem desagradável.
Estado - Como assim?
Abdias - Quem trata desses problemas acaba estigmatizado. O negro bem-vindo é aquele que não reclama, que aceita as patacoadas de democracia racial, etc. Temos de estar na trincheira, mandando bala, mostrando que a realidade é outra. A democracia racial deve ser perseguida como utopia, ninguém é contra ela, contra a miscigenação, desde que não haja uma pressão para que o negro "embranqueça", como sempre houve no Brasil.
Estado - A escritora Toni Morrison disse que a criança negra hoje tem, nos EUA, condições melhores que as que viveu. Não só porque não há mais discriminação institucionalizada, mas também porque há negros como modelos de sucesso. No Brasil, o que mudou?
Abdias - Alguma coisa melhorou. Mas tudo isso foi fruto de uma grande luta. Hoje, temos uma secretária de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, a Matilde Ribeiro, o vice-presidente do Senado, o Paulo Paim, vários deputados. As coisas estão mudando, mas elas não podem parar, porque senão volta tudo. A sociedade brasileira é hipócrita e covarde. O negro não pode bobear.
Estado - O movimento negro tem algo semelhante ao que representou o Quilombo?
Abdias - No Rio e São Paulo, não vejo uma imprensa negra. Teve a revista Raça, mas ela era mais comercial e acabou. De todo modo, as caras negras estão aí. Temos de trabalhar muito ainda.
A história da literatura de cordel segundo Raimundo Santa Helena
Catarina Epprecht (Fonte: Jornal do Brasil, Idéias, 7/6/2003)
Depois de Patativa do Assaré, Raimundo Santa Helena é um dos nomes mais celebrados do cordel. Além de seus 430 livretos de poesia de cordel publicados em diversas línguas, ele é um dos fundadores da Feira de São Cristóvão. Não são poucas suas contribuições para a história da literatura de cordel. Foi o primeiro a lançar, em 1979, o cordel urbano, uma guinada nesse gênero de poesia, que antes apoiava-se no tripé: seca, cangaço e Padre Cícero. Agora, pela segunda vez, Santa Helena pretende ser pioneiro: lança o cordel infantil. Publicado pela Editora Entrelinhas, O menino que viajou num cometa (30 páginas, R$ 8) é uma delicada preciosidade para as crianças.
A trajetória pessoal de Raimundo Luiz do Nascimento, nascido na cidade de Santa Helena, não é apagada pelo percurso da carreira. Filho de nordestino morto por Lampião, Santa Helena saiu de casa aos 11 anos, ''com canivete na mão'', para vingar a morte do pai. Foi menino de rua, engraxate, baleiro, trocador de ônibus, garçom, jornaleiro. Não parou por aí. Com trabalho de dia e estudo de noite, entrou para a Escola de Aprendizes de Marinheiro, no Ceará. Também foi um condecorado combatente na Segunda Guerra e estudou mais de um ano e meio nos Estados Unidos. Hoje, vive tranqüilamente no Rio de Janeiro com sua esposa e filha, formada em Letras pela UFRJ. Mas é como cordelista que Raimundo Santa Helena, de 77 anos, faz história.
O ''poeta marujo'' conta antes a história da poesia de cordel para explicar como chegou ao universo infantil:
- A primeira fase do cordel no Brasil começa quando ele chegou aqui, com os portugueses, há 100 anos. Entrou pelos portões da Paraíba, do jeito mesmo que existe até hoje, vendido em livrinhos pendurados no cordel.
A segunda fase, que começou por volta de 1979, foi o momento em que o cordel ficou ''de vela na mão'', como ele explica. Em todos os países que existia, foi sufocado pela grande imprensa. Para evitar que morresse, promoveu-se um congresso internacional, na Bahia.
- A gente queria criar um jeitinho brasileiro de salvar o cordel - comenta.
No final de 1979, o próprio Santa Helena revigorou e atualizou esta forma de poesia, inaugurando uma terceira fase, ao lançar o cordel urbano, com tema ecológico inspirado em uma reportagem do Jornal do Brasil.
- Quando ninguém pensava em falar de ecologia, o JB já fazia reportagens contra a devastação da Amazônia. Foi publicado que os italianos tinham destruído milhões de árvores no Brasil - conta o cordelista sobre sua fonte de inspiração para o Devastar o Brasil?... Aqui pra vocês!.
Ele fala que pegou recortes do jornal para colocar as letras na capa do livro:
- E a imprensa que antes sufocava o cordel, passou a alimentá-lo.
Hoje em todo o mundo existe cordel com temas urbanos. E a inovação da vez é o cordel infantil, já considerado pelos pesquisadores como a quarta fase desta poesia.
Santa Helena fala que teve a primeira idéia em 1984:
- Após uma palestra que dei, as crianças vinham com folhas de papel para eu autografar. E eu pensava naquelas crianças que queriam meu autógrafo só pra ter um papel com meu nome. E eu pensei: ''Meu Deus, porque ainda não fiz um cordel infantil.''
Depois de pronto, ele conta que mostrou os originais datilografados a Carlos Drummond de Andrade. É costume que os cordéis só tenham como ilustração uma xilogravura: a da capa. Mas Drummond aconselhou Santa Helena a publicar o livro com uma xilogravura por página. Sugeriu que não fossem usados desenhos de livros infantis e sim as imagens talhadas em madeira, como manda a tradição.
Mas ainda não foi desta vez que o cordel saiu. Um ano depois, quando o cordelista lançava Nicarágua em dez línguas, com poesia contra a invasão americana, voltou a lembrar do cordel para as crianças.
- Uma menina de seus 4 anos se soltou da mão do pai, passou por debaixo das pernas do povo, chegou perto de mim e perguntou: ''Quem é você?'' Aí eu me abaixei, porque eu não falo com criança em pé, e fui falar com ela. Naquele dia eu pensei: ''Meu Deus, porque ainda não lancei aquele cordel?''
Apesar da vontade, o cordelista não podia arcar com os custos das várias xilogravuras que pretendia colocar no livro. Em 1987, uma pesquisadora da Fundação Nacional do Livro Infantil chegou a pedir uma cópia do cordel, que desde então faz parte do acervo da instituição. Mas o lançamento só foi possível quando a Editora Entrelinhas se prontificou a publicá-lo.
As 29 xilogravuras são de Erilvaldo, ''um jovem de 38 anos'', segundo Santa Helena considerado um dos melhores do Brasil. E com o livrinho, a criança ganha um CD e um estojo com lápis coloridos.
A história de O menino que viajou num cometa cita personagens históricos, como Joana D'Arc ou Tiradentes, e fala de saúde, de astronomia e da igualdade entre homem e mulher. Mas independente do seu caráter didático, traz uma divertida história de Brasilenho, menino que pega uma carona celeste e como ''anjo foguete'' chega à Lua. No livro, o poeta também faz um apelo à paz: ''Pra que se fechem feridas/ De velhos ressentimentos/ Pra que se rasguem caminhos/ De novos conhecimentos!/ Pra que seja cada mão/ Um elo de multidão/ Nos desertos poeirentos.''
O livro foi lançado na Bienal, no estande da Entrelinhas, onde dois repentistas contavam a história do livrinho de Santa Helena, mas também cantavam repentes para as crianças.