Selo_Redealcar.JPG (22821 bytes)

JORNAL DA REDE ALCAR
Ano 3, N. 2706 de março de 2003

Editores:  
José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) / e-mail: marquesmelo@uol.com.br
e Francisco Karam (FENAJ/UFSC) / e-mail: fjkaram@terra.com.br

------------------------------------------------- 
Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da memória e a construção da história da imprensa no Brasil
-------------------------------------------------

Colaboradores desta edição:
Fabio de Souza Andrade (São Paulo), Wilson Martins (Curitiba), Augusto Nunes (Rio de Janeiro), Peter Burke (Londres), Jotabê Medeiros (São Paulo), Haroldo Ceravolo Sereza (São Paulo), Zuenir Ventura (Rio de Janeiro), Cristiane Costa (Rio de Janeiro), Antonio Brasil (Rio de Janeiro)

-------------------------------------------------

Sumário:

1 - História da Mídia: Encontro da RedeAlcar no Rio de Janeiro

2 - Redealcar no Fórum dos Professores de Jornalismo em Natal

3 - Paulo Francis: obra de ficção espelha imagem do jornalista

4 - Euclides da Cunha: o repórter que foi além dos fatos

5 - Brasil, de Cabral a FHC: a saga de um país na pena de um jornalista

6 - Biografia: gênero que suscita o interesse do público brasileiro

7 - Perfil de J. Carlos, um dos fundadores da charge brasileira

8 - Livro resgata memória da Imprensa Negra

9 - Carpeaux, antes de ser brasileiro

10 - O jornalismo segundo Zuenir Ventura

11 - CPDOC resgata a história da mídia no Brasil

12 - TV Colorida: primeira transmissão brasileira faz 31 anos

13 - Alberto André na série 200 anos da Imprensa no Brasil

14 - Memória do telejornalismo: referência fundamental para a História Contemporânea

-------------------------------------------------

1 - História da Mídia: Encontro da RedeAlcar no Rio de Janeiro

Continuam abertas as inscrições para o I Encontro da Rede Alfredo de Carvalho, que se na cidade do Rio de Janeiro, no período de 1 a 5 de junho de 2003, tendo como tema central "História da Mídia: 2 Séculos de História".

Trata-se do primeiro evento preparatório para o Congresso Brasileiro de História da Imprensa, previsto para o ano 2008, quando o Brasil comemora 2 séculos de funcionamento regular da mídia impressa. Foram programados 5 encontros, dos quais o primeiro está confirmado para o Rio de Janeiro, em 2003, e os próximos poderão ser realizados em São Paulo, Salvador, Belo Horizonte e Porto Alegre.

A iniciativa é da Rede Alfredo de Carvalho para a Preservação da Memória e a Construção da História da Imprensa no Brasil, um movimento intelectual lançado em parceria pela ABI - Associação Brasileira de Imprensa, ABL - Academia Brasileira de Letras, INTERCOM - Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação e ABECOM - Associação Brasileira de Escolas de Comunicação, Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, que conta a adesão do Centro Universitário Carioca - UniCarioca e da UERG - Universidade Estadual do Rio de Janeiro, tendo também o apoio cultural da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro.

A comissão organizadora do evento é constituída por: Ana Arruda Callado (ABI), Claudia Chaves (UniCarioca), Esther Bertoletti (MINC), Cybelle de Ipanema (IHGB), Marco Morel (UERJ), José Marques de Melo (UNESCO) e Sonia Virgínia Moreira (INTERCOM).

Além de simpósios, painéis e mesas redondas, o I Encontro da RedeAlcar pretende fazer um balanço da pesquisa em desenvolvimento sobre a História da Mídia Brasileira. Os pesquisadores que trabalham com essa temática podem inscrever seus trabalhos em 6 Grupos de Trabalhos: 1) História da Mídia Impressa, 2) História da Mídia Sonora, 3) História da Mídia Vsual, 4) História  Mídia Audiovisual, 5) História da Mídia Digital, 6) História da Mídia Persuasiva.

Os resumos dos trabalhos podem ser enviados até o dia 31 de março para o seguinte endereço: redealfredocarvalho@unicarioca.edu.br

Os autores das comunicações selecionadas terão prazo complementar até o dia 1 de maio para encaminhar os textos completos.

Transcrevemos, a seguir, instruções para a elaboração dos trabalhos a serem inscritos:

resumo de 10 linhas e três palavras-chave(até 31/03/2003) deverá ser enviado por e-mail, informando no início, título, nome do autor, instituição a que pertence, bem como a modalidade a que se destina:

Iniciação Científica (Estudantes de Gradução),

Comunicação Científica (Professores, Pesquisadores, Pós-Graduandos)

Memória (Profissionais e Empresários)

b) texto completo deverá ter de 10 a 15 páginas, incluindo bibliografia, apresentando no início, título, nome do autor, instituição a que pertence (até 01/05/2003) por e-mail;

c) O texto completo deverá ser enviado impresso e em disquete para a Coordenação do Encontro para fazer parte do programa do evento, acompanhado de um currículo sucinto do autor: redealfredocarvalho@unicarioca.edu.br

e) O disquete deve ser etiquetado com nomes do GT, autor e do texto:

GT1 – História da Mídia Impressa (Jornal, Revista, Livro)

GT2 – História da Mídia Sonora (Rádio, Disco)

GT3 – História da Mídia Visual (Fotografia, HQ, Cartazes)

GT4 – História da Mídia Audiovisual (Cinema, Televisão)

GT5 – História da Mídia Digital (Web e NTCs)

GT6 – História da Mídia Persuasiva (Publicidade, RP)

f) O nome do arquivo deverá conter o sobrenome do autor;

g) O texto deverá estar digitado em programa Word for Windows (6.0 ou 7.0), corpo 12, fonte Times New Roman, com espaço de 1,5. Para reentrâncias ou parágrafos, recomenda-se o uso da tecla tab;

h) As referências bibliográficas devem ser colocadas no final do texto

VOLTAR

2 - Redealcar no Fórum dos Professores de Jornalismo em Natal

A cidade de Natal (RN) sedia, no período de 1 a 4 de maio, o VI Fórum Nacional dos Professores de Jornalismo, evento comemorativo dos 40 anos do Ensino de Jornalismo no Rio Grande do Norte. A Rede Alfredo de Carvalho participará do evento, promovendo uma Mesa Redonda dedicada ao tema "Preservação da Memória e Construção da História da Imprensa no Brasil", coordenada pelo Prof. Dr. Francisco Karam (UFSC) e contando com a presença dos seguintes professores: Ana Arruda Callado (PUC-RJ), Carmen Lucia Pereira (UniRio), Claudia Chaves (UniRio) e José Marques de Melo (USP / UMESP).

Os interessados em maiores informações sobre o evento podem consultar o site: www.professoresjornalismo.jor.br

VOLTAR

3 - Paulo Francis: obra de ficção espelha imagem do jornalista

Fábio de Souza Andrade

Quando morreu, Paulo Francis (1930-97) deixou-nos apenas duas das três "cabeças" que planejava para compor sua figura de romancista: "Cabeça de Papel", de 1978, e "Cabeça de Negro", de 1979. "Cabeça", sem mais, um ataque cardíaco abateu antes de pronta, há seis anos, em Nova York.

Janusiano, no lugar do Cérbero pretendido, o escritor continua difícil de separar da presença imperiosa do jornalista peso-pesado. A mesma que afiança, em efígie, a reedição dos romances pela editora recém-criada que leva o seu nome. É sempre bom ter um amigo inteligente e informado. Paulo Francis, democraticamente, prestou-se ao papel, iniciático, para todos os que mastigaram letra de imprensa no país nos últimos 50 anos.

Tempestuoso, opinião rápida e afiada sobre tudo e todos, Francis era um dos poucos fenômenos atmosféricos interessantes na crítica cultural brasileira, território afeito às calmarias prolongadas, à conciliação e troca de afagos, ao palpite furado passando por juízo fundado.

Combinando anatomia de costumes com espionagem, mundinho da zona sul carioca com jogo político imperialista, os dois romances fazem o balanço das alternativas políticas do intelectual de esquerda no Brasil, quando a perspectiva da revolução havia sido engolida pela "gloriosa" e mesmo esta chegava a seus estertores.
Pelos olhos de Hugo Mann, crítico de cinema desiludido com a militância trotskista, refugiado numa independência de pensamento feroz, penetramos nas festas e farras da elite. Livre dos freios da respeitabilidade pública, o poder dança desfigurado e grotesco (como o ministro morbidamente obeso, sodomizado ao som de "Tico-tico no Fubá"), cinicamente desfrutando e calando a má consciência com paraísos artificiais (sexo, álcool e drogas).

Mesmo que lá fora o sol brilhe, republicano, banhando a cidade em cordialidade carioca, trata-se de uma descida aos infernos.

Em "Cabeça de Papel", Paulo Hesse, jornalista, seu gêmeo intelectual, faz a contraparte adesista, tendo, para consumo público, trocado a cumplicidade crítica pela integração total ao poder. Para além de inventário e classificação da fauna, os dois falam a mesma e cifrada língua, avaliam o teatro político e humano em uníssono, ainda que discordem dos caminhos a tomar, redimensionando a arena brasileira em escala global.

Dissolvem as motivações aparentemente autônomas dos atores locais, convertendo-os em marionetes dos interesses das grandes potências, a tal ponto que acaba por contaminar a intriga do romance de um alto teor de paranóia histórica.

Se o retrato da elite é eficaz, casando observação e síntese precisas a uma estilização bem realizada, o desfecho recorre a expedientes de um Graham Greene ou John Le Carré exacerbados.

A voz em primeira pessoa de Mann imprime à história um ritmo alucinado, vertiginoso. Em "Cabeça de Negro", sequência em que o narrador salta das franjas do poder para uma convivência mais íntima, é a sua consciência, editorial, que prevalece o tempo todo. Nesta mediação, mais do que nunca, está vivo o Francis jornalista do estilo bárbaro, alusivo e entrecortado, esboçando sem ter tempo de concluir, desbravador, mas com nova e legítima função gerada no romance.

Já se falou sobre a mescla de confissão e invenção que permeiam a obra ficcional de Francis. De fato, seus leitores do "Diário da Corte" e d'"O Afeto que se Encerra" (volume de memórias) reconhecem em Hesse e Mann parte de sua experiência pessoal.

Os dois "Cabeça", por exemplo, poderiam ser lidos como um guia, autorizado e comentado aos leigos, do que se passa intramuros nos grandes jornais brasileiros, por um dos protagonistas da modernização da imprensa na segunda metade do século passado.

Mas são mais. Apesar das falhas estruturais, são literatura ambiciosa de um estilista inconfundível, romance de idéias de primeira ordem e patrimônio de todos aqueles que, alternadamente de acordo ou do contra, aprenderam a discutir com Francis.

CABEÇA DE PAPEL. Autor: Paulo Francis. Editora: Francis. Quanto: R$ 29 (240 págs.).

CABEÇA DE NEGRO. Autor: Paulo Francis. Editora: Francis. Quanto: R$ 32 (280 págs.).

Fonte: Folha de S. Paulo, Ilustrada, 1/2/2003

VOLTAR

4 - Euclides da Cunha: o repórter que foi além dos fatos

Wilson Martins

Canudos é um fato que o livro de Euclides da Cunha transformou em fato histórico (Olímpio de Souza Andrade. "História e interpretação de Os Sertões". Org. e Int. Walnice Nogueira Galvão. Ap. Alberto Venâncio Filho, 4 ed., rev. e aum. Rio: Academia Brasileira de Letras, 2002). Fatos são episódios isolados e ocasionais exauridos neles mesmos; o fato histórico integra-se no tecido profundo da nacionalidade como elemento permanente, determinando-lhe o futuro. Sem "Os Sertões", Canudos teria ficado apenas como mais uma das numerosas eclosões de fanatismo que entre nós ocorreram — e que não tiveram o seu Euclides da Cunha: na memória coletiva, Canudos é uma realidade mental, não factual, é o triunfo do estilo literário que lhe conferiu realidade.

A contraprova é fácil de fazer: Euclides da Cunha chegou a Canudos "quando lá já se encontravam os correspondentes do ‘Jornal do Comércio’, Manoel Benício; de ‘A Noite’, Cisneiros Cavalcanti, morto em 9 de agosto; de ‘O País’, Lélis Piedade; da ‘Gazeta de Notícias’, Fávila Nunes; além de Gustavo Guabiru, ao qual se refere numa reportagem". Além disso, cabe lembrar "Os jagunços", romance de Afonso Arinos publicado em 1898 sob o pseudônimo de Olívio de Barros, sem contar, claro está, os milhares de artigos, folhetos e livros que desde então se seguiram, com a característica rotineira de factualidade, sem o gabarito analítico, estilístico e intelectual de "Os Sertões".

Em outras palavras, viram apenas os fatos, isto é, as peripécias, enquanto Euclides da Cunha percebeu tratar-se de fatos históricos, ou seja, fatos que marcaram um trânsito de civilização, para além de sua circunstancialidade. O contraste é mais do que perceptível no paralelo com o romance de Afonso Arinos: "Euclides teve conhecimento dessa tentativa do grande escritor mineiro de levar deliberadamente aquele assunto para o terreno da ficção? Não teve? Nada se conhece que autorize afirmação. O que se sabe sobre esse livro, edição única, raríssima de apenas cem exemplares, é que não confirmou o êxito de ‘Pelo sertão’, sendo, ao contrário, como no-lo apresenta Tristão de Athayde, um ‘romance longo demais, sem unidade de fatura ou de narrativa e freqüentemente dessaborido, revelando quase sempre a composição apressada para folhetim"’.

Note-se que Tristão de Athayde, como é óbvio, escrevia depois de ter lido "Os Sertões" e no quadro crítico que se consolidara desde 1902, cabendo reconhecer, ao mesmo tempo, serem excessivos os escrúpulos do sempre escrupuloso Olímpio de Souza Andrade: seria impossível que Euclides da Cunha não tivesse conhecimento de "Os jagunços" (e com que sofreguidão!) no momento em que escrevia e publicava vários excertos no "O Estado de S. Paulo". Há mais: percorrido com isenção, deve-se reconhecer que Afonso Arinos destacou no romance os mesmos episódios, as mesmas personalidades e os mesmos enfoques privilegiados por Euclides da Cunha. Mas, com uma diferença: faltava-lhe o gênio literário, o vigor estilístico, a amplidão mental, a visão trágica e a indignação cívica, em uma palavra, o temperamento.

A singularidade de "Os Sertões" decorre da excepcionalidade da matéria em coincidência com o espírito capaz de compreendê-la. É evidente erro de julgamento querer que os seus livros posteriores possam comparar-se com o primeiro em termos absolutos: são coisas diferentes. Em formulação de paradoxal ironia, pode-se pensar que ele, a exemplo de numerosos outros, cometeu o erro de estrear com a sua obra-prima... De fato, pergunta Olímpio de Souza Andrade, "e Euclides depois de ‘Os Sertões’? Que pensava do seu livro, da posição em que este o colocou?". Condenado a ser "competidor de si mesmo", não escondia alguma impaciente irritação, como revelava em carta a Agustín de Védia, aqui citada: era um "livro bárbaro de minha mocidade", quase um erro de juventude (tinha 31 anos quando o escreveu).

E escreveu-o nos três anos em que residiu na cidade de São José do Rio Pardo reconstruindo a ponte depois disso tão famosa quanto o autor e a obra, sendo sabido que já embarcara para Canudos com o projeto de escrever "um trabalho de fôlego", como anunciava "O Estado de S. Paulo" a 30 de julho de 97, ao registrar a partida do seu correspondente. Esse trabalho, acrescentava o jornal, "será por nós publicado em volume". Por incrível que pareça, observa Olímpio de Souza Andrade, "o livro não teve uma fase de lançamento despida de novos sacrifícios para o seu autor. Apesar da apresentação entusiástica de Lúcio de Mendonça ao provável editor, Euclides acabou por financiar, ele próprio, com um conto e quinhentos, mais ou menos duas vezes o seu ordenado, o lançamento da primeira edição. Tais dificuldades têm levado os seus biógrafos a perguntarem pelas razões invocadas pela direção de "O Estado de S. Paulo" para se desinteressar da publicação (...)".

Seja como for, os originais foram entregues à editora Laemmert que começou por recusá-los, acreditando que não teria público: "O seu erro, entretanto, se patenteava logo mais, pois que, já em fevereiro de 1903, pagava a Euclides o saldo de dois contos e duzentos daquela edição, interessando-se vivamente pela segunda, de setembro do mesmo ano, depois pela terceira, de abril de 1904, pondo no mercado, no espaço reduzido de um ano e meio, 6 mil exemplares, que traduziam o grande e legítimo sucesso editorial daquele tempo".

Agora, depois de numerosas reimpressões, o livro deve ser lido na edição Leopoldo M. Bernucci (São Paulo: Ateliê/ Imprensa Oficial/ Arquivo do Estado, 2001), com modelar aparato didático (hoje mais necessário do que nunca) e excelente introdução crítica. É um dos dois livros essenciais sobre "Os Sertões", o outro sendo o de Manif Zacarias (Lexicologia de "Os sertões": o vocabulário de Euclides da Cunha. Florianópolis: Garapuvu, 2001), ambos completados no plano crítico e historiográfico pelo indispensável Olímpio de Souza Andrade, tornando perempta, em conjunto, a maior parte da imensa bibliografia euclidiana.

Canudos só permaneceu na memória coletiva por causa de "Os Sertões", em contraste com as demais erupções de milenarismo de nossa história, incidentes de restrita amplitude. Nessas perspectivas, Canudos deve sua importância à circunstância todo acidental de haver inspirado uma obra-prima de literatura, um grande livro vingador que abriu na consciência da nacionalidade a ferida incurável e o remorso que ficaram ligados ao seu nome.

Fonte: O Globo, Prosá e Verso, 1/2/2003

VOLTAR

5 - Brasil, de Cabral a FHC: a saga de um país na pena de um jornalista

Augusto Nunes

Obcecado por ''libertar a História do banco escolar'', Eduardo Bueno acaba de oferecer aos leitores seu projeto mais ambicioso. Trata-se de uma História Geral do Brasil com 447 páginas, da pré-história ao crepúsculo do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso. Ao revisitar todos os temas obrigatórios da historiografia nativa - das capitanias hereditárias ao golpe de 1964, dos governos-gerais à Conjuração Mineira, da transmigração da família real às vertigens da Era Collor -, Bueno mantém, teoricamente, a estrutura tradicional dos livros didáticos. Só teoricamente.

O autor preserva o olhar simultaneamente mordaz e generoso. É irônico, eventualmente debochado, sem esquecer que a reverência ao tema (e ao país) é essencial. Fiel a seus ícones do velho e bom new journalism, Eduardo Bueno administra com talento as técnicas de ficcionista. Refinado sem escorregar no pernóstico, é sempre exuberante, mas sabe recorrer ao freio de mão quando o texto corre o risco de transformar-se em palavrório.

''Se alguém tem de sofrer por causa de um livro, que seja o autor'', diz Bueno. ''Quem pagou por um livro tem que ganhar o resto de mão beijada, para que nada lhe atrapalhe a viagem.'' Essa fórmula simples nada tem de simplória. Os três primeiros volumes da coleção Terra Brasilis (Viagem do Descobrimento; Náufragos, Traficantes e Degredados; e Capitães do Brasil), lançados pela Editora Objetiva, venderam, juntos, cerca de 500 mil exemplares. São números espantosos, sobretudo para o Brasil.

''A História não é, nunca foi e jamais será uma seqüência tediosa de nomes solenes e datas vazias'', diz Bueno em sucessivas palestras para todo tipo de público. ''História é fluxo, é suor, é sangue. A História pulsa repleta de ação, aventura, dor e superação'', proclama, no habitual tom enfático. ''Ainda assim, nos livros mais convencionais, ninguém come, ninguém morre, ninguém transa, ninguém trai, ninguém rouba. Tento lidar com personagens de carne e osso. E eles com certeza comem, transam, traem, roubam. E morrem, de morte morrida e de morte matada.''

Os livros de Eduardo Bueno não conjugam, nem pretendem conjugá-los, verbos como aprofundar ou analisar. Bueno prefere outros: descrever, induzir, sugerir. Em vez de explicar, também o autor quer entender. É um dos trunfos que fazem a diferença. ''Sou jornalista, não sou historiador'', repete. ''Meus livros têm os predicados e defeitos típicos do texto jornalístico.''

É compreensível que tantos embarquem nessas viagens de descobrimento. A lista de passageiros, informa, inclui tanto Fernando Henrique Cardoso quanto o motorista do ex-presidente. A diversificação do público é decididamente impressionante. ''Quando perguntam quem me lê, respondo que são crianças de 7 a 77 anos'', sorri. Dono de uma estante com mais de quatro mil livros sobre História do Brasil, segue avesso a fichas de filiação a qualquer escola, universidades ou tendências acadêmicas. E lê com igual desenvoltura gente de esquerda ou de direita.

Os amigos chamam de Peninha - referência ao destrambelhado primo do Pato Donald (que é repórter) - esse sujeito elétrico, inquieto, bom de conversa e gesticulador incontrolável. Peninha Bueno mantém no texto o mesmo ritmo frenético que lhe marcou o perfil, mas prende os leitores de tal forma que ninguém cai das páginas. Fascinado por minúcias, vasculhador de becos que a historiografia oficial teimosamente ignora, transformou Brasil: uma História em esplêndida redescoberta.

Comprova que a saga do país não foi apenas aprisionada no banco da escola. Também parece ter passado por uma sessão de tortura que a deformou, suprimiu seu viço, esmaeceu-lhe cores. Peninha Bueno conduz à remissão desses pecados, auxiliado pela iconografia singularmente rica (são cerca de mil imagens).

Grandes momentos se alternam com outros nem tanto. Mas o próprio título vale como salvo-conduto. É ''uma História'', sujeita a deslizes e omissões, ou trechos sublinhados por idiossincrasias discutíveis. Existem outras histórias. A de Bueno, marcada por visões heterodoxas, exibe muito mais nitidamente a força dos ventos da imaginação e da inteligência.

Leia-se um trecho do capítulo ''A corrida do ouro'' (sobre a descoberta das Minas Gerais). ''Embora não tenha havido um Jack London para eternizá-la em meia dúzia de obras-primas da literatura, nem uma indústria como a de Hollywood para transformá-la num mito universal, o fato é que o Brasil não apenas teve a sua corrida do ouro, como ela foi, no mínimo, tão dramática, vertiginosa e rentável quanto aquela que, em 1848, determinou a ocupação da Califórnia ou a que, meio século depois, exportou para os confins gelados do Alasca todos os horrores da civilização.''

Muitos já escreveram mais e melhor sobre temas examinados de passagem no livro. Sobre outros, produziram-se clássicos. Mas nenhuma história do Brasil oferece tamanha massa de informações com tanto frescor. Ao começar a leitura de Brasil: uma História, o leitor provavelmente pretende apenas saborear ''a incrível saga de um país'', como convida o subtítulo. Acaba aprendendo muito mais do que supôs que poderiam ensinar-lhe.

Fonte: Jornal do Brasil, Idéias, 1/2/2003

VOLTAR

6 - Biografia: gênero que suscita o interesse do público brasileiro

Peter Burke

Um dos gêneros literários mais populares de hoje é a biografia. Isso se aplica especialmente ao mundo de língua inglesa, mas as listas de livros mais vendidos no Brasil também revelam grande interesse público pelas biografias, especialmente as de pessoas do século 20, desde "Chatô" a Olga Prestes. Não é difícil compreender o porquê disso. Como sugere a onipresença da fofoca, a maioria de nós acha as vidas de outras pessoas fascinantes. Narrativas são mais fáceis de ler e mais instigantes de acompanhar do que análises ou mesmo descrições, e as vidas de indivíduos são mais acessíveis para nós do que as de sociedades ou culturas inteiras, sendo que seus dramas se desenrolam numa escala temporal semelhante a de nossas próprias vidas.

Quer sejamos pessoas mais velhas recordando nossa juventude ou pessoas mais jovens tentando imaginar como deve ser a velhice, a história de uma vida individual é repleta de interesse humano. Mesmo assim, algumas culturas (a européia e a chinesa, por exemplo) manifestam mais interesse do que outras pelos relatos de vidas individuais, enquanto diferentes tipos de pessoas apreciam diferentes tipos de biografia. A hagiografia, por exemplo, possui uma história longa, quer assuma a forma da vida de um santo ou da de um herói ou heroína de outra espécie -estadista, estrela de cinema, cantor, jogador de futebol-, cujas conquistas são apresentadas para que o leitor as admire e, possivelmente, tente imitar. Mas também existe um mercado para o tipo oposto de biografia, a biografia anti-heróica, na qual o autor demole as pretensões e expõe os pontos fracos da pessoa sobre a qual escreve. É o caso da biografia da rainha Vitória escrita por Lytton Strachey, lançada em 1921, mas traduzida apenas recentemente para o português ["Rainha Vitória", editora Record". Já houve momentos e lugares em que governantes e guerreiros foram vistos como os sujeitos mais apropriados de biografias, e outros em que a ênfase recaiu sobre indivíduos criativos, como Michelangelo, Proust ou Beethoven. Doenças e jantares O problema para quem quiser escrever sobre pessoas como essas é que o mais importante é sua vida interior, e essa vida interior pode não ter os acontecimentos ou datas com os quais os biógrafos costumam contar. A história da vida de Proust, por exemplo, é uma crônica de acontecimentos triviais, como doenças e jantares, mas esses acontecimentos formaram a matéria-prima para um grande livro.

Como sugere o último exemplo, a biografia é um gênero que inclui variedades distintas e que pode ser adaptado a finalidades diferentes. Na verdade, pode-se sugerir que o próprio gênero da biografia possui uma biografia própria, tendo assumido formas diferentes ao longo dos séculos, à medida que os interesses de leitores e escritores foram se modificando. Uma tendência recente, característica de uma cultura em que a "imagem" de um indivíduo, instituição, lugar ou produto é levada mais a sério do que nunca, é prestar atenção não apenas ao que fizeram ou pensaram os protagonistas de biografias, mas também à maneira como se apresentavam, àquilo que o crítico americano Stephen Greenblatt chama de "automoldagem": autodramatização, autopromoção ou a tentativa de copiar o modelo da vida de outra pessoa.

Um estudo recente sobre Cristóvão Colombo escrito pelo acadêmico Felipe Fernandez-Armesto, por exemplo, toma nota da preocupação que Colombo teve durante toda a vida com a autopromoção e a autodivulgação, descrevendo-o como "exibicionista mesmo quando se fazia passar por humilde" e dizendo que ele representava um papel "extraordinariamente bem escrito". Outro exemplo: uma biografia recente do poeta irlandês William Butler Yeats, pelo historiador Roy Foster, atribui ênfase ao modo como o poeta se apresentava em público: suas roupas, especialmente a conhecida capa preta e o chapéu grande, os gestos teatrais, a preocupação com os seus retratos reproduzidos nas primeiras páginas de seus livros, suas autobiografias e o que um contemporâneo dele descreveu, em 1915, como "a construção de uma lenda em torno dele mesmo".

Autobiografias e livros de memórias constituem maneiras especialmente eficazes para as pessoas apresentarem o que pode se chamar de "a versão autorizada" de suas vidas, fazendo crer que buscaram determinadas metas sem as hesitações, os desvios e as confusões que fazem parte da vida de todas as pessoas. Publicar cartas é outro meio usado para o mesmo fim. Cinquenta anos após a invenção da imprensa, Erasmo já pensava em publicar uma coletânea de suas cartas, algumas das quais ele reviu ou reescreveu para esse fim. Se queremos detalhes sobre a vida de uma pessoa, coletâneas de cartas como essa devem ser vistas com alguma desconfiança, e a mesma coisa se aplica a autobiografias e livros de memórias. Mesmo assim, são inestimáveis como documentos que revelam a auto-imagem da pessoa. Como diz Foster sobre o relato feito por Yeats de sua infância e juventude, ele diz mais sobre o poeta como ele era em 1914, ano em que o escreveu, do que como era em sua infância.

Nos últimos anos, os historiadores também vêm manifestando interesse crescente por pessoas do passado que podem ser descritas como tendo sido flagradas experimentando identidades diferentes. Essas pessoas incluem membros da burguesia que tentaram se fazer passar por nobres, cristãos que fizeram de conta que eram muçulmanos para ganhar acesso ao santuário de Meca e mulheres que se vestiram como homens, chegando a fazer carreira nos exércitos e marinhas britânicos, franceses e holandeses. Vistos no passado como virtualmente irrelevantes para a história, hoje os impostores são estudados com cuidado, como aconteceu no caso do falso Martin Guerre, um camponês francês do século 16 que fugiu para servir como soldado e, quando voltou para casa, descobriu que seu lugar na roça e na cama de sua mulher tinha sido tomado por um amigo dele. A história ficou famosa nos anos 1980, quando a historiadora americana Natalie Davis ["O Retorno de Martin Guerre], ed. Paz e Terra" e o cineasta francês Daniel Vigne [Idem, 1982] estavam trabalhando sobre ela ao mesmo tempo -uma coincidência que revela alguma coisa sobre as preocupações de nossa própria cultura. Uma figura menor do século 18 que se tornou alvo de atenções desse tipo, embora não seja tão famosa quanto Martin Guerre, foi George Psalmanazar, um francês que experimentou diversas profissões antes de ir à Inglaterra e tentar fazer-se passar por natural de Formosa. Ele publicou uma descrição detalhada da ilha em 1704 e foi levado a sério pelos cientistas da Royal Society, até ser desmascarado e denunciado como impostor. Psalmanazar representou muitos papéis. Ele foi japonês, natural de Formosa, francês, holandês, judeu, estudante, refugiado, soldado, convertido, estudioso e empresário empreendedor. Nas últimas décadas, a ascensão da história social às expensas da história política criou, por algum tempo, a impressão de que a biografia se tornaria um gênero obsoleto, pelo menos no mundo acadêmico. Mas acabou se descobrindo que o interesse pela história social incentivou o surgimento de novas formas de biografia, especialmente duas. Uma delas é o relato da história de uma pessoa comum, muitas vezes como meio de os leitores, em sua imaginação, penetrarem na vida de outra época -se bem que os biógrafos desse tipo discordem quanto ao tipo de pessoa mais indicado para ser escolhido para essa finalidade. Alguns escolheriam um indivíduo típico de sua era, enquanto outros preferem o que se pode chamar de uma pessoa ordinária extraordinária, alguém como Martin Guerre ou Menocchio, o moleiro italiano dotado de idéias religiosas excêntricas que domina o estudo "O Queijo e os Vermes", de Carlo Ginzburg [Companhia das Letras]. Uma segunda tendência nova tem sido a criação de biografias escritas coletivamente. Por exemplo, equipes de historiadores estudaram todos os integrantes de um grupo específico, tal como o dos senadores romanos da Antiguidade ou dos parlamentares britânicos modernos. As conclusões muitas vezes são esclarecedoras, mas são difíceis, quando não impossíveis, de comunicar sob uma forma que possa ser reconhecida como biográfica. Outra possibilidade, explorada recentemente, consiste em focalizar um pequeno grupo ou rede de amigos ou conhecidos unidos em torno de um empreendimento comum, como, por exemplo, os chamados "pais fundadores" da República americana -George Washington, Thomas Jefferson, Benjamin Franklin etc.- ou os membros da Sociedade Lunar de Birmingham, um clube britânico do século 18 cujos sócios incluíam cientistas e empresários e que foi estudado em "The Lunar Men" (2002), de Jenny Uglow.

Formas híbridas

É claro que se pode argumentar que essas formas de escrito não constituem biografias, assim como a descrição feita por Peter Ackroyd de sua história recente de Londres como sendo uma "biografia" pode ser vista como nada mais do que uma metáfora (como a outrora famosa "biografia" do rio Nilo escrita por Emil Ludwig). Mas acho que seria mais esclarecedor tratar essas afirmações com semi-seriedade e pensar nos textos acima descritos como sendo formas híbridas.

Gilberto Freyre certa vez descreveu um de seus livros como sendo uma "seminovela". De maneira semelhante, o livro de Ackroyd sobre Londres e o estudo da Sociedade Lunar feita por Uglow podem ser descritos como "semibiografias". Como acontece muitas vezes na história, parece que o melhor lugar para fazer descobertas e inovações é na fronteira, incluindo aquela que separa um gênero intelectual ou literário de outro.

Fonte: Folha de S. Paulo, Mais, 2/2/3003

VOLTAR

7 - Perfil de J. Carlos, um dos fundadores da charge brasileira

Jotabê Medeiros

Os caricaturistas são como os gansos do Capitólio: quando começam a grasnar, há perigo perto. Esse era o texto sucinto que acompanhava uma charge da revista Careta, em setembro de 1948, boutade perpetrada pelo cartunista J. Carlos (1884-1950), talvez o mais influente do século 20, com seu traço art déco e seu humor elegante.

Tanto sua obra quanto sua personalidade são temas recorrentes para o cartunista Cássio Loredano, de 54 anos, colaborador do Estado e com 30 anos de trabalho como profissional. Mas não só os cartunistas amam J. Carlos. Para se ter uma idéia, Carlos Drummond de Andrade o chamava de "ídolo". Mas a obsessão de Loredano com o artista da primeira metade do século 20 já rendeu até hoje quatro livros e uma exposição, J. Carlos e o Estado Novo, em 1997.

Agora, Loredano volta à carga com o compacto O Bonde e a Linha - Um Perfil de J. Carlos (Editora Capivara), sob a coordenação editorial do agora novo presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Pedro Corrêa do Lago, ele mesmo um ativo colecionador de charges e cartuns. O Bonde e a Linha foi escrito entre outubro e novembro de 2002, para celebrar o centenário da publicação do primeiro desenho do pioneiro.

Espírito de época - A perspectiva desse perfil sentimental escrito por um fã ardoroso parece ser a de recriar o espírito de uma época. Uma citação já ao final do livrinho dá a pista. "O ente que olhar, daqui a cem anos, as obras-primas de J. Carlos, poderá viver a vida que andamos vivendo", escreveu Álvaro Moreyra. É uma viagem no tempo que o autor empreende para resgatar manhãs e tardes de glória e mesmo crepúsculos amarelos. "O cortejo desceu a Marquês de São Vicente e entrou na rua Jardim Botânico. Os muros do Jockey e da Hípica querem impedir que a rua veja os cavalos e tapam a paisagem. Os aterros apartaram a Lagoa da rua mais de cem metros." Essa é a descrição do enterro de J. Carlos, sepultado no mesmo dia de sua morte "porque havia temores de confusão nas ruas no dia seguinte, dia de eleição". Além de rever um Rio de Janeiro que não existe há muito - mas que ainda emite fascínio - , Loredano reparte com seu antecessor a paixão pelo transporte coletivo - J. Carlos pongava nos bondes e Loredano vai de ônibus. Os cenários é que são bem diferentes. Havia um clima de febril mudança no Rio de J. Carlos - e não era mudança de dinheiro dos cofres públicos para a conta de Silveirinha. Em 1903, lembra o autor, havia um estrondo no ar de milhares de marretas derrubando 600 edifícios perto da Rua do Ouvidor. "Estavam abrindo a grande avenida, de 1.800 metros de extensão, e que ia superar a Avenida de Mayo, em Buenos Aires, até ali a mais larga da América do Sul." Naquele início de século, J. Carlos tornou-se o maioral.

Publicava em O Malho, Tico-Tico, Fon-Fon, Século XX, Leitura para Todos, Careta e as mais influentes revistas da época. Com o passar do tempo, foi evoluindo em diversos aspectos, assimilando mudanças, criando linguagem. Em 1933, ao publicar Minha Babá para a coleção Biblioteca Infantil de O Tico-Tico, promoveu mudanças no texto que chamaram a atenção do pesquisador Loredano. "As alterações que tinha promovido no texto revelam ainda que J. Carlos tinha na rua ouvidos tão atentos quanto o olhar, reproduzindo com fidelidade a fala brasileira, por exemplo, naquilo que o nosso português recebeu de contribuição africana." Para o autor do livro, J. Carlos abriu uma picada na selva com seu trabalho. Além da contribuição artística, do traço belo e limpo, Loredano acha que o pioneiro do cartum deixou um legado moral, de "vergonha na cara", uma saga contra o cinismo e o desespero. "J. Carlos pegou a caricatura brasileira literalmente na idade da pedra.

Quarenta e oito anos depois, tinha posto o País no mapa, nesta matéria", escreve. "E, quando acaba, o mundo está doente. O humorismo vai se tornar cerebral e sardônico, e adeus inocência de J. Carlos. O caricaturista vai retirar de novo a figura do cenário - e adeus leveza e inconsciência de melindrosa: o Homem está precisando estar só, consigo, com o espelho, com o divã, para entender porque fez o que fez."

O admirador, no entanto, é rigoroso na análise do antecessor. "Que desenhos tão incrivelmente grosseiros e gordurosos os trabalhos dos primeiros anos. É inacreditável que o príncipe da elegância os tenha feito", escreve Loredano, analisando os primeiros trabalhos de J. Carlos para A Avenida e Tagarela.

Tudo que o artista queria, àquela altura - corria o ano de 1903 -, era desenhar como o pioneiro Ângelo Agostini, sua maior fonte de influência até o fim dos dias.

Cássio Loredano (Prêmio HQ Mix de Caricatura em 2001) foi repórter e tornou-se profissional do cartum ao entrar para o extinto semanário Opinião, em 1972. Sorte de seus fãs que uma de suas maiores influências tenha sido esse José Carlos de Brito e Cunha, o J. Carlos, monstro do traço e influenciador de toda uma geração. Ou duas. Ou três.

Outro artista do traço, Chico Caruso, escreve no prefácio de O Bonde e a Linha que J. Carlos ainda rende muito livro. Há o J. Carlos publicitário, o portrait-chargista e o J. Carlos para crianças, este o "mais bonito e abrangente", segundo Loredano.

"Minhas charges dizem o que sinto e penso", dizia J.Carlos, que produziu compulsivamente - uma média de três desenhos por dia. Na opinião de seu perfilador, Cássio Loredano, ele foi, ao lado de Noel Rosa, o maior cronista do Rio de Janeiro.

Fonte: O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 2/2/2003

VOLTAR

8 - Livro resgata memória da Imprensa Negra

José Paulo Lanyi

O Sindicato dos Jornalistas e a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo (Imesp) reeditaram o estudo "Imprensa Negra", do jornalista e sociólogo Clóvis Moura. A primeira edição foi publicada em 1984 pela Imesp. Moura faz um estudo crítico da imprensa negra de São Paulo.

"Aqui a imprensa negra teve peso maior do que em outras cidades", diz Flávio Carrança, coordenador da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial, do Sindicato dos Jornalistas de São Paulo. "A comunidade negra começou a publicar seguindo o exemplo de outros núcleos de imigrantes".

Um artigo de Oswaldo Camargo conta como nasceu a primeira edição. "Imprensa Negra" analisa e reproduz páginas e citações de jornais como "A Rua", "Elite", "A Liberdade", "O Clarim da Alvorada", "União", "A Raça" e "Quilombo", entre outros. Examina também veículos contemporâneos, como "Raça", Raízes" e "Negro". O estudo de Clóvis Moura tem legendas de Miriam N. Ferrara.

"A importância do conjunto dessa obra é significativa para o resgate da auto-estima da comunidade afro-descendente. Esta é uma das ações que a comissão está desenvolvendo para contribuir com a análise da importância histórica dos negros na cultura brasileira", diz Paulo Vieira Lima, um dos integrantes da comissão do Sindicato dos Jornalistas.

A reedição será lançada no primeiro semestre, em data que ainda não está definida. Os 14 mil exemplares não serão vendidos. O contrato prevê a doação do livro para bibliotecas das escolas de comunicação e para bibliotecas públicas. A comissão está buscando patrocínio para bancar a distribuição. "Estamos resgatando a memória da imprensa negra brasileira. Por causa da escassez de recursos e de incentivos, o Brasil continua fraco em memória cultural. Temos jornalistas negros consagrados como José do Patrocínio, entre outros, que ficam no anonimato por falta de instrumentos como esta reedição", diz Ronaldo Junqueira, outro integrante da comissão, formada também por Chico Soares, Oswaldo Camargo, Oswaldo Faustino, Maurício Pestana, Benedito Egydio dos Santos e vários outros jornalistas do estado de São Paulo.

"É fundamental que a obra esteja disponível para os setores formadores de opinião e sobretudo para a imprensa. Alguns setores insistem em ignorar que o jornalismo deste país nasceu da criatividade e do talento de jornalistas negros", diz Vieira Lima.

Fonte: Portal Comunique-se, 4/02/2003

VOLTAR

9 - Carpeaux, antes de ser brasileiro

Haroldo Ceravolo Sereza

Otto Maria Carpeaux (1900- 1978), num artigo sobre Augusto Meyer, escreveu: "Os nossos críticos antigos nem sequer sabiam o que é método. Num sentido muito diferente, Augusto Meyer também 'não tem método'. Emprega ora este, ora aquele processo de interpretação, obedecendo só e exclusivamente à natureza da obra que pretende interpretar: o método estilístico, o método sociológico (nos seus estudos de literatura gaúcha) e - last but not least - o método psicológico." Um comentário que, na opinião de Mauro Souza Ventura, "pode ser aplicado igualmente a Carpeaux".

Ventura é autor de De Karpfen a Carpeaux (Topbooks, 258 págs., R$ 35), que procura estabelecer elos entre a atividade política e intelectual do crítico na Áustria e as análises literárias que publicou no Brasil. Não chega a ser uma "biografia intelectual" porque as informações biográficas se concentram em parte de sua vida, especialmente nos pouco conhecidos anos austríacos de Carpeaux, que foge do nazismo em 1938 e chega ao Brasil num navio com quase mil judeus convertidos aos cristianismo - gente à procura de um porto seguro, longe da Europa ameaçada pelo nazismo (esse caso é o assunto do livro Os Judeus do Vaticano. A tentativa de salvação de católicos não-arianos da Alemanha ao Brasil através do Vaticano, de Avraham Milgram, publicado no Brasil pela Imago).

Quando passa para a vida cultural brasileira, a obra discute essencialmente a leitura de Carpeaux. Ventura lembra que a escolha da crítica literária pelo austríaco é decorrência de sua vinda ao Brasil. "A julgar por seus dois primeiros livros, a obra de Carpeaux apontava na direção da especulação filosófica e da abordagem histórico-social. Sua migração para o Brasil como refugiado do nazismo e a precariedade de sua situação financeira impediram a continuidade de uma obra política e social que já se anunciava."

A Áustria - Quando a Alemanha anexa a Áustria a seu território, em 1938, Otto, ainda Karpfen, era membro do Partido Social Cristão, uma força que resistia aos grupos pró-germânicos. Um dos pontos mais relevantes do trabalho de Ventura foi, justamente, o de resgatar dois escritos deste Carpeaux político - Caminhos para Roma (1934) e A Missão Européia da Áustria (1935), que não faziam parte de suas bibliografias brasileiras.

O segundo e mais importante livro é um ensaio assinado por Otto Maria Fidelis (Maria e Fidelis são nomes que indicam sua conversão do judaísmo ao cristianismo) que defende a independência austríaca. Mas o faz dentro de uma tradição da Grande Áustria e do Sacro Império Romano-Germânico.

São posições que estavam um tanto ligadas ao chamado austrofascismo, e que se opunham tanto às experiências social-democratas, que ditaram a vida da cidade de Viena (a Viena Vermelha) nos anos 1920, quanto ao liberalismo austríaco, que vira o grande império ser reduzido a um pequeno país após a Grande Guerra (1914-1918).

O jogo político austríaco, no entanto, era bastante complexo, e Ventura acredita que as idéias de Carpeaux não poderiam ser compreendidas no Brasil, mesmo com o fim da Segunda Guerra (1945). Esse problema teria levado o próprio Carpeaux a evitar seu passado e a provocar o esquecimento dessas suas obras anteriores. Além disso, no meio da guerra, as idéias políticas de Karpfen estavam ainda mais superadas, e já não havia papel geopolítico possível para a Áustria.

Apesar disso, analisando os trabalhos iniciais de Karpfen, seria possível, para Ventura, entender Carpeaux de um modo mais "total". "A idéia inicial de meu trabalho", afirma Ventura, "era estudar a crítica de Carpeaux e toda sua tradição e influência". Mas, ao encontrar parte do passado do crítico na Áustria, o pesquisador (o livro é resultado de sua tese de doutorado na Universidade de São Paulo) decidiu mudar o foco do trabalho. "Ao estudá-los, fiquei surpreso em encontrar correspondências entre os argumentos políticos de Karpfen e os estudos literários de Carpeaux dos anos 1940 e 1950", conta Ventura.

Conforme escreve em seu livro, Ventura acredita que "a fase austríaca e a brasileira estão unidas por uma continuidade de pensamento: a visão de mundo barroco-católica da casa da Áustria". "Os dois principais elementos do pensamento de Carpeaux em Viena eram o clericalismo político e o conceito de missão histórica a ser desempenhada pela Áustria na Europa - uma Áustria que por séculos atuou como 'barricada' ocidental contra as invasões do leste, especialmente do império turco-otomano."

O "nacionalismo" austríaco de Carpeaux não significava uma defesa do Estado austríaco, mas da nação em meio a uma organização política supranacional. Ao chegar ao Brasil, essa posição não faria mais sentido e já estava claro que não haveria mais papel para a Grande Áustria. É possível especular que a crítica literária, além de seu papel prático, de permitir a sobrevivência do "intelectual sem cátedra", permite que ele continue a defender ideais universalizantes, mas num outro mundo, o mundo dos homens de letras. Crítica - Na opinião de Ventura, Carpeaux não deve ser classificado apenas como "crítico impressionista", como costuma ocorrer. Na verdade, seria possível encontrar um método nos seus ensaios.

"Seu trabalho é característico de um crítico no mais alto grau da palavra", diz. E escreve, na introdução: "Consciente das limitações e insuficiências inerentes a todo método quando se defronta com seu objeto, Carpeaux se movimenta, sempre, da parte para o todo e vice-versa. Ao mesmo tempo, articula diferentes disciplinas teóricas, sem sacrificar ou submeter a obra literária a nenhuma delas."

Uma das primeiras características do trabalho de Carpeaux seria a preferência explícita pelos narradores. É isso que o leva a recusar um romancista como Thomas Mann ("Na verdade, Thomas Mann é um pensador confuso, é o maior dos escritores de segunda ordem"; "Thomas Mann é um admirável ensaísta") e um escritor como Albert Camus ("Quem usa assim o gênero literário da ficção, pensa mais na tese do que nos caracteres do enredo, que chegam a só constituir o fundo da discussão").

Carpeaux também revela uma especial predileção pelo lado místico, misterioso e mesmo religioso da literatura. Ventura destaca, ainda, a resistência do crítico às alegorias, vendo a grande literatura como a que apresenta símbolos, capazes de gerar significados diversos em cada leitor, e não apenas reproduzir o real. "Para ele, a obra de arte é um 'monumento', e não um 'documento', da realidade", afirma.

Mais lançamentos - Além desse trabalho, novas edições devem recolocar o crítico nas estantes das livrarias do País. Para a Bienal do Livro, a Topbooks e a UniverCidade, do Rio de Janeiro, pretendem lançar o segundo volume dos Ensaios Reunidos de Carpeaux, organizados por Olavo de Carvalho. Serão mais de mil páginas e cerca de 200 textos. O livro sai quatro anos após a publicação do primeiro volume e reúne textos dispersos (a primeira parte) e prefácios e introduções (a segunda) de sua autoria. Ainda em 2003, segundo o planejamento da editora e da universidade, sai nova edição de sua História da Literatura Ocidental.

"Carpeaux influenciou críticos de várias matizes; ele pairava acima das divisões ideológicas, graças ao seu saber literário e ao universalismo de suas análises", afirma Ventura.

Fonte: O Estado de S. Paulo, Caderno 2, 8/2/2003

VOLTAR

10 - O jornalismo segundo Zuenir Ventura

"Não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar, viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas, somos testemunhas de nosso tempo, uma testemunha crítica, não necessariamente de oposição, mas implacavelmente crítica. Não quarto poder, como a imprensa gosta de se proclamar, mas contra-poder, ou seja, independente em relação a todo poder – executivo, policial, econômico, político ou jurídico."

"O jornalista irresponsável não será menos irresponsável por ser jornalista. Ao contrário, o jornalista leviano é tão nocivo ao jornalismo quanto um censor conseqüente. Com uma vantagem para este último: em nenhum momento ele finge servir à imprensa."

"Não sou nostálgico dos velhos tempos, não acredito que o novo jornalismo tenha vindo para acabar com a criatividade, com o talento e a ética. Um sistema que possibilitou a existência de tão bons exemplos profissionais em todo o mundo não pode ser maldito por natureza. O problema é que no Brasil estamos vivendo uma fase de mutação, de rito de passagem. Já deixamos de ser e ainda não somos. Mantivemos alguns defeitos dos velhos tempos sem adquirir as virtudes dos novos."

"Uma crise pode ser paralisante, depressiva, mas também pode ser progressista, transformadora. Acredito, espero, que a nossa crise seja desse último tipo – seja uma crise adolescente, de transição de um sistema para outro. Ou, como se diria hoje, de um jornalismo pré-moderno para um jornalismo pós-moderno. Mas essa passagem tem que ser feita sem perda de substância e de valores."

"Podemos alcançar uma excelente técnica, podemos modernizá-la; devemos perseguir uma invejável estética, devemos embelezá-la; mas não devemos, não podemos suprimir a ética ou cancelar a responsabilidade social. Se não formos orientados por uma inatacável ética, a sociedade continuará desconfiando de nós. Há os que dizem que o jornalismo, por ser um ofício e uma técnica, não precisa de ética, ou que a ética é também uma questão de mercado. Sabe-se até onde isso pode chegar. O século XX nos ensinou que a técnica sem o controle da ética pode levar aos piores crimes. De bons técnicos Hitler estava cheio, e Stálin também."

"Mesmo numa sociedade controlada pelas leis do mercado, pela lógica do consumo, movida pela competição e o lucro, mesmo numa sociedade de espetáculos, de ditadura do marketing – eu diria que por isso mesmo, principalmente por isso – o jornalismo tem que ter um autocontrole, uma autocrítica, uma ética. A questão é que esse controle não pode ser remoto, não deve ser exercido por outros poderes. É inaceitável recebê-lo de fora. Não por corporativismo, mas porque isso já foi experimentado no Brasil, é a censura, cujos efeitos sabemos como foram desastrosos para todos, sobretudo para o país. Temos nós temos que cuidar de nossas feridas e enfrentar nossos próprios desafios. Temos que aprender que nosso direito à liberdade não pode se exercer como um atentado ao direito de privacidade do outro."

"A língua portuguesa não vem sendo bem tratada nas redações, essa é que é a verdade. Não só nas redações, pode-se alegar, mas também em outros lugares onde deveria ser respeitada: salas de aula, escritórios de advogados, universidades. Por toda parte transgridem-se as regras gramaticais, assim como se infringem as leis de trânsito. Em meio a outras crises, institucionais e de valores, há essa crise da palavra – escrita e oral – para preocupar o país. Como disse Octavio Paz, quando uma sociedade se corrompe, a primeira coisa que se decompõe é a linguagem."

"Considero a escrita jornalística um ótimo exercício de disciplina. É como o treino físico para o atleta. As exigências da linguagem de jornal, obrigando-nos a racionar o adjetivo e o advérbio, a trabalhar mais com o substantivo e o verbo, isto é, com o sujeito, o predicado e o objeto, categorias essenciais para a comunicação, são um ótimo exercício de contenção e parcimônia. As limitações de espaço são outra imposição que leva o jornalista a um permanente e salutar trabalho de corte e expurgo, de redução. Só é preciso tomar cuidado para que esse exercício asséptico não leve à penúria de estilo. Dependendo do regime, o emagrecimento é sinal de fraqueza e não de saúde."

"Sou de um tempo em que a imprensa não era um dado do mercado, mas um fenômeno da cultura. O jornal não era um produto industrial mas um bem cultural. A relação entre o leitor e o jornal era de absoluta independência. Não é que o veículo não precisasse de sustentação, mas ele acreditava que sua missão era de condutor. O seu destino era impor sua opinião ao leitor. Não lamento sistematicamente essa transformação. Acho que houve muito ganho. O saudosismo não deve ser um álibi para não se valorizar o presente. Nunca os Estados Unidos tiveram no passado um jornal tão bem feito e importante quanto o 'New York Times'. Nem a Europa um jornal tão interessante quanto o 'El País', só para ficar em exemplos não polêmicos porque distantes de nós."

"Na época da ditadura militar, a censura se exercia por corte. Havia penúria de informação. Hoje, ao contrário, há demais. Mas como o excesso produz ruído, entropia, confusão, ele acaba funcionando como uma nova espécie de censura – por indigestão."

"O melhor jornal brasileiro seria feito não com informação, mas com explicação."

Fontes: Portal Literal e Portal Comunique-se

VOLTAR

11 - CPDOC resgata a história da mídia no Brasil

Cristiane Costa

À frente do núcleo de mídia do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (Cpdoc) da Fundação Getúlio Vargas, a socióloga Alzira Alves de Abreu tornou-se a principal autoridade sobre a história da imprensa no país. Coordenadora do monumental Dicionário histórico-biográfico brasileiro pós-30, de cinco volumes, ela conseguiu resumir nas 65 páginas de A modernização da imprensa, título recém-lançado da coleção Descobrindo o Brasil (Jorge Zahar Editor, R$ 14), o processo de extinção e transformação dos principais jornais brasileiros entre 1970 e 2000. Diretora executiva da Editora FGV desde 1994, ela prepara ainda para este ano a publicação de dois livros: Os jornalistas que mudaram a imprensa e Mídia e política, em que, além de uma grande pesquisa realizada por ela sobre o jornalismo econômico, há o trabalho de Fernando Lattman-Weltman sobre o papel da imprensa na transparência das decisões políticas, e o de Mônica Cortez, a terceira integrante do núcleo, sobre a reconstituição da história através das minisséries da TV Globo. O grupo começou a se formar em 1996, com a publicação de A imprensa em transição: O jornalismo brasileiro nos anos 50, livro que acabou rendendo um projeto maior: hoje Alzira coordena a pesquisa ''Brasil em transição: um balanço do final do século 20'', em que se discute o papel dos militares, do Estado, das relações internacionais, e, é claro, da imprensa e dos jornalistas nesta transição.

- Como funciona o núcleo de mídia da Fundação Getúlio Vargas?

- Nós trabalhamos a mídia com a perspectiva da sociologia, da história e da ciência política. Estamos interessados no papel da mídia num período específico: a fase de transição do regime autoritário para o regime democrático. A meu ver, a mídia teve um papel fundamental nesta transição. Estou muito interessada em ver como os jornalistas mudaram e, principalmente, como a imprensa mudou.

- No que os jornalistas de antes eram diferentes dos de agora?

- Antes dos anos 60, o jornalista era um romântico, não tinha hora para sair do jornal, depois ia para o bar e chegava em casa de madrugada. Aí veio o regime militar, e com ele a censura e a profissionalização. Os militares incentivaram a modernização da imprensa, facilitaram a compra de equipamentos, a construção dos grandes prédios ao mesmo tempo em que censuravam e prendiam jornalistas. Neste momento, há uma mudança no perfil do jornalista, que se profissionaliza - se eu disser isso os mais velhos não vão gostar, porque vão dizer que eles também eram profissionais. Também muda o perfil do jovem que entra no jornalismo, nos anos 60 e 70. Ele não pode mais atuar na editoria de política, que está cerceada. Então, vai para a editoria de economia. A grande mudanças da imprensa desta época se dá na cobertura econômica.

- Em que sentido?

- Num primeiro momento, os jornalistas estavam presos ao discurso dos tecnocratas, dos ministros. Mas foi através das editorias de economia que se começou a contestar abertamente o regime. É algo que se pode ver acompanhando a evolução da cobertura de economia. A partir do final dos anos 70, quando se dá a abertura, entra com força total o jornalismo investigativo. Há inclusive trabalhos mostrando que, na América Latina, a imprensa investigativa começa a surgir a partir dos anos 70.

- Mas não se fazia jornalismo investigativo antes?

- Isso é assunto para muita discussão, porque, quando se entrevista os jornalistas do período anterior, eles dizem que o jornalismo investigativo só existiu até os anos 70 e que daí em diante não existiu mais. O que acontece é que, a partir dessa época, ele ganha outra face, que é o denuncismo. É claro que há um lado muito negativo em se denunciar tudo, mas também não podemos esquecer que há um lado positivo. Ele impossibilita a conivência de certos jornalistas e donos dos jornais com os políticos. Se não publicar a denúncia, outro jornal vem e publica. Nesse sentido, o jornalismo investigativo começa com a abertura política. E foi ele que levou ao impeachment de Collor. Essas mudanças que aconteceram na imprensa nos últimos anos foram extremamente importantes para o país como um todo. Por isso, o livro que estou trabalhando agora é sobre o jornalismo investigativo e o jornalismo cidadão. A imprensa hoje está muito mais voltada para a cidadania. É isso que quero mostrar: como a partir da redemocratização, a pauta do jornal mudou.

- Em A modernização da imprensa, você fala de um pesquisa feita com 55 jornalistas brasileiros. Qual foi o objetivo?

- Quis traçar o perfil do jornalistas. Comecei entrevistando jornalistas da geração que nasceu nos anos 30 e começou sua vida profissional nos anos 50. Depois, entrevistei nascidos na década de 50 que começaram sua vida profissional nos anos 60 e 70. São gerações muito diferentes. A primeira não teve formação universitária, uns poucos fizeram curso de Direito, alguns não fizeram nem mesmo o curso secundário. Já na geração seguinte, observei que a maior parte dos jornalistas tem curso universitário, de jornalismo ou de história.

- Quem foi entrevistado? Estas entrevistas serão publicadas?

-Estou acabando um novo livro: Os jornalistas que mudaram a imprensa. Escolhi seis jornalistas que em meio a essa transição introduziram mudanças significativas na imprensa. A começar por Alberto Dines, que consolidou a reforma do JB. Evandro Carlos de Andrade, que fez a reforma de O Globo. Mino Carta, que criou a revista Veja, depois a IstoÉ, e ainda a Carta Capital. Augusto Nunes, que fez a reforma do Estadão e depois a da Zero Hora. Roberto Muller, que reformou a Gazeta Mercantil. E Otávio Frias Filho, que fez a reforma da Folha de S. Paulo. Eles me deram entrevistas longas sobre sua trajetória. E, para cada um, fizemos um texto introdutório. Por exemplo, quando falamos de Augusto Nunes, mostramos que tipo de jornal era o Estadão, cujas mudanças começaram nos anos 50, antes mesmo do Jornal Brasil. A mesma coisa para o Zero Hora.

- Os livros sobre a história da imprensa brasileira, como os de Nelson Werneck Sodré e Juarez Bahia, pecam por falta de precisão. Falta ao Brasil uma história da imprensa sistematizada?

- No Dicionário histórico-biográfico, que organizei, é possível encontrar a história dos principais jornais. Mas realmente o dicionário não dá conta das mudanças de perfil de cada órgão de imprensa.

- Os dados que você apresenta em A modernização da imprensa são impressionantes. Em 1950, o Rio de Janeiro tinha 22 jornais. Em 60, tinha 16. Em 70, sete. Hoje apenas cinco de médio e grande porte.

- Hoje, no Rio, nós temos o Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, o Extra e a Tribuna da Imprensa. E acabou. De grandes jornais, de circulação nacional, só dois.

- E a que você atribui essa diminuição brutal?

- À modernização do sistema de comunicação, não só no jornal, também na televisão, montado pelos militares. A tendência na década de 70 era concentrar. Há trabalhos que falam que os jornais acabaram por problemas políticos, mas não é bem assim. O Correio da Manhã, por exemplo, tinha problemas de gerenciamento. O Diário de Notícias também já vinha mal. Aí entra o governo pressionando, cortando publicidade, crédito em banco, o jornal fecha. Era uma questão de se adaptar às novas condições. E tem o problema, que às vezes a gente esquece, do preço do papel. As empresas todas se endividaram e estão endividadas em dólar. Quando o dólar dispara, como elas pagam as dívidas? Estão todas numa situação muito ruim.

- O papel do jornalista também mudou entre 1970 e 2000?

- O jornalista não é mais o porta-voz da opinião pública. Até os anos 60, ele se via claramente neste papel. Mas foi substituído pela pesquisa de opinião. Cheguei a ouvir de um jornalista: imagina se a gente ouvia leitor? Se pensasse assim, nunca teria feito a reforma do JB, porque as empregadas domésticas, que eram as principais leitoras na época, não iriam gostar. Se deixou de ser porta-voz da opinião pública, hoje o jornalista ganhou um papel fundamental na transparência das decisões políticas. Daí também estarmos fazendo uma pesquisa sobre a relação da imprensa com os procuradores da República. Os procuradores, a partir da Constituição de 88, foram se aliar a quem em sua busca por maior transparência? Aos jornalistas.

- Seu livro anterior, A imprensa em transição, marcou a aproximação entre história e jornalismo. Porque até recentemente a imprensa não era objeto de estudo dos historiadores, apesar de ser uma de suas principais fontes?

- Foi a própria história que mudou. Até muito recentemente os historiadores não admitiam estudar a história do tempo presente. Outro problema para quem se dedica à história do jornalismo é a dificuldade de acesso às coleções dos jornais. Onde estão os arquivos dos que fecharam, como o Correio da Manhã, Diário Carioca e Diário de Notícias? Mesmo os jornais ainda em funcionamento não abrem seus arquivos para os historiadores. Como é que se sabe da história dos jornais? Na comemorações de centenários, por exemplo, quando se faz um caderno especial.

Fonte: Jornal do Brasil. Suplemento Idéias, 15/02/2003

VOLTAR

12 - TV Colorida: primeira transmissão brasileira faz 31 anos

Há 31 anos, em 19 de fevereiro de 1972, aconteceu a primeira transmissão oficial em cores no Brasil, autorizada pelo Ministério das Comunicações. O marco foi a cobertura da Festa da Uva, em Caxias do Sul (RS), com imagens geradas pela TV Difusora de Porto Alegre e transmitidas pela Record. Antes disso, há registros de diversas experiências em cores como a exibição pela TV Tupi de São Paulo, em 1963, de documentários, episódios da série americana "Bonanza" e um discurso do presidente João Goulart, seguidas de testes da Globo e Bandeirantes. Em 31 de março de 1972, as principais emissoras brasileiras inauguraram oficialmente suas programações coloridas.

Em nível mundial, as primeiras imagens coloridas datam de 1929, em Nova York (EUA), e as transmissões regulares em cores começaram em 1954, também nos Estados Unidos.

Fonte: TELA VIVA News, 18/02/2003

 VOLTAR

13 - Alberto André na série 200 anos da Imprensa no Brasil

A revista IMPRENSA do primeiro bimestre de 2003 dedica o encarte da série "200 anos da imprensa no Brasil" ao jornalista gaúcho Alberto André, baluarte na luta pela liberdade de imprensa e pela formação profissional dos jovens jornalistas. A pesquisa foi realizada pela Profa. Paula Casari Cundari, coordenadora do Curso de Comunicação Social do UniVale - Centro Universitário de Novo Hamburgo, contando com a participação da estudante Renata Sturm.

Fonte: JBCC, ano 5, n. 204, 14/02/2003

VOLTAR

14 - Memória do telejornalismo: referência fundamental para a História Contemporânea

Antônio Brasil

Neste final de semana tivemos o privilégio de testemunhar, mais uma vez, o poder da TV para retratar a nossa História recente. Todos os telejornais mostraram imagens impressionantes de milhões de manifestantes que tomaram as ruas das principais capitais do mundo em gigantescos protestos contra a guerra no Iraque e a favor da paz mundial. As imagens da TV mandavam uma mensagem clara e evidente aos telespectadores e  líderes de todas as nações sobre os perigos de decisões apressadas e unilaterais que podem afetar a vida de todos em nosso planeta. As imagens diziam que o povo não é bobo.

Tanto o presidente Bush como o primeiro-ministro Blair, seguramente assistiram às mesmas imagens dos telejornais e, sem dúvida, devem estar preocupados. Afinal, eles bem sabem que vencer uma guerra não costuma garantir reeleição para presidentes americanos e primeiros-ministros britânicos. Muito pelo contrário. A cobertura internacional de TV foi excelente. Mobilizou centenas de jornalistas em diversos continentes, mostrou a sua força e, mais uma vez, registrou a História.

No Brasil também já tivemos momentos importantes da nossa história recente retratados pela TV com imagens inesquecíveis de grandes mobilizações populares. Estas imagens estão preservadas em nossa memória como um grande sinal da nossa força e como um constante alerta aos nossos dirigentes sobre os riscos de novas decepções.

Quem conseguiria esquecer as imagens impressionantes, de outras milhões de manifestantes durante os grandes comícios pelas Diretas na Praça da Sé ou na Candelária, as manifestações populares em diversas capitais brasileiras contra o Collor e, mais recentemente, as comemorações populares durante a posse do presidente Lula em Brasília? Estas imagens, no entanto, são mais do que meras lembranças ou recordações. Elas são registros muito importantes da nossa história recente. São verdadeiros "documentos visuais" de grande valor jornalístico que testemunham de uma forma definitiva, e melhor do que muitas palavras impressas, os fatos marcantes da vida social e política brasileira.

Se concordarmos que os nossos telejornais são documentos visuais importantes, que eles retratam a nossa história e que, por isso, merecem ser preservados, ficam no ar algumas questões em tom de alerta e provocação: afinal, para onde vão essas imagens ou essas matérias após serem exibidas em nossos telejornais? Como elas estão sendo preservadas? Quem possui esses acervos, e, o mais importante, quem controla o acesso a esses acervos tão importantes?

Ficou surpreso? Nunca tinha parado para pensar no assunto? Pois bem, então é bom começar a pensar. Se você acredita que um povo sem acesso a sua própria memória e a sua própria história é um povo sem direito à cidadania, e se você também concorda que o telejornalismo é uma referência fundamental para a nossa história, a principal fonte de informações para a maioria dos brasileiros, então você também deveria concordar que, provavelmente, estamos com sérios problemas.

Pare e pense, o que aconteceria se um jornalista, pesquisador ou estudante estivesse interessado em investigar, por exemplo, o dia do seu nascimento através dos nossos principais jornais. Não teria algum problema. Instituições públicas, como a Biblioteca Nacional, garantem a todo brasileiro acesso livre e democrático aos seus acervos. Ou seja, existe uma política de preservação da memória jornalística brasileira através do depósito público de jornais e revistas que garantem ao público um acesso livre, sem qualquer tipo de restrição à consulta e pesquisa.

Muito bem. Agora, o que aconteceria se o mesmo pesquisador, jornalista, estudante quisesse ter acesso aos telejornais brasileiros não só do dia em que nasceu, mas também aos noticiários de TV produzidos, por exemplo, durante os "sensíveis" anos da ditadura em nosso país? Como seria garantido o acesso livre e democrático a essas coleções de telejornais?

Entenderam o problema? Sentiram as dificuldades e as conseqüências? Em verdade, os nossos arquivos de TV ou centros de documentação pertencem exclusivamente às próprias emissoras de televisão. No Brasil, por incrível que pareça, imagem de telejornal ainda não é considerada documento jornalístico ou histórico, suficientemente importante para justificar sua preservação pelas instituições públicas. É claro que ainda existem problemas econômicos, técnicos e, principalmente, políticos.

Sem dúvida, alguns centros de documentação em nossas emissoras de TV fazem um trabalho excelente de preservação de acervos audiovisuais preciosos. Apesar da falta de reconhecimento, das limitações financeiras e tecnológicas, os profissionais da documentação fazem um trabalho heróico na preservação e recuperação desses documentos. O problema é que esses arquivos não são públicos. Simplesmente, eles não garantem o que deveria ser um direito de qualquer cidadão: o acesso livre e democrático aos acervos jornalísticos das televisões brasileiras para qualquer tipo de pesquisa, independentemente de questões ideológicas, econômicas ou de interesses empresariais. Não deveria haver a necessidade de "autorizações especiais"  para o acesso aos arquivos do jornalismo televisivo.

No passado, já tivemos algumas experiências representativas dessas dificuldades. Muitos ainda se lembram da proibição de exibição em todo o Brasil do documentário Beyond Citizen Kane (Além do Cidadão Kane), produzido pelo falecido diretor inglês Simon Hartog para o canal 4 da TV britânica em 1993. O documentário, na melhor tradição do gênero, fazia uma investigação crítica da trajetória da Globo e, por isso mesmo, enfrentou sérios problemas de acesso aos arquivos de imagens da emissora. O diretor Simon Hartog, na época, bem que tentou seguir as normas estabelecidas para quaisquer clientes interessados na aquisição de imagens de TV. Ele apresentou seu roteiro à emissora e solicitou acesso às imagens que, obviamente, foi negado. Na Inglaterra, ao contrário, é assegurado a todos os jornalistas, pesquisadores e documentaristas, o acesso às imagens do conteúdo dos telejornais. O documentário "Além do cidadão Kane" foi produzido de qualquer maneira com  imagens captadas do ar, sem autorização expressa da emissora e fez um grande sucesso na Inglaterra sendo exibido em diversos países do mundo. Mas não pôde ser exibido no Brasil. Logo no Brasil, que teria tanto interesse e necessidade de ver pelo menos um documentário sobre a nossa TV que não fosse simplesmente mais um produto de jornalismo "chapa-branca".

É claro que existem diversas cópias piratas disponíveis no Brasil, exibições clandestinas são organizadas nos sindicatos e universidades, o acesso ainda é livre na Internet (o endereço é http://www.teno.com.br ou você pode ir diretamente para a URL: http://www.teno.com.br/arquivos_especiais/brasil_beyond_citizen_kane.htm).  No entanto, o problema enfrentado pelo documentarista inglês que, por sinal, viria a falecer logo após a conclusão do filme, trata-se de um exemplo claro das dificuldades para se pesquisar a nossa televisão, e ainda mais, o nosso telejornalismo. Muitos não sobrevivem. Não é à toa que não temos bons documentários sobre a nossa TV ou pesquisas sérias sobre a História do telejornalismo brasileiro! As negociações e os compromissos seriam muito delicados. Sem o acesso totalmente livre e público aos acervos dos nossos telejornais, fazer uma pesquisa crítica do nosso principal meio de informação é muito difícil, desaconselhável, ou até mesmo, arriscado.

Algumas instituições públicas, como a Cinemateca de São Paulo, sem recursos e incentivos, ainda tentam com grandes dificuldades econômicas manter um acervo com alguns dos nossos telejornais. Esta é uma das vantagens oferecidas pela introdução das novas tecnologias. Com a digitação eletrônica de imagens e o acesso cada vez mais rápido de material audiovisual via Internet, já é possível garantir um acesso público mais eficiente, econômico e, principalmente, mais democrático ao conteúdo dos nossos telejornais. O problema não é mais questão essencialmente técnica ou econômica. A questão, na verdade, é muito mais política. Envolve diversos interesses que incluem uma discussão sobre "direitos de imagem" e, principalmente, envolve uma preocupação ainda muito grande em lidar com os fantasmas de um passado que insistem em não desaparecer nem ser esquecido.

Mas, se considerarmos que jornalismo é prestação de serviços e, que televisão é uma concessão pública, deveríamos também exigir o direito de acesso ao conteúdo dos nossos telejornais da mesma forma que asseguramos em nossa Constituição, o direito à informação. Os responsáveis pelo telejornalismo e pelos arquivos brasileiros deveriam "lembrar" que  uma da mais importantes missões dos jornalistas é a de preservar a história de uma nação e assegurar que a sua memória não seja esquecida. Afinal, o direito de se informar, segundo a Constituição brasileira, consiste na liberdade de recolha de informação, no direito de procura e de acesso a fontes de informação, isto é, no direito de não ser impedido de se informar. É sempre mais fácil exigir acesso à informação para investigar e denunciar... os outros.

Fonte: Portal Comunique-se, 17/2/2003

VOLTAR

Voltar para o topo           Voltar para Home