JORNAL DA REDE ALCAR
Ano
2, N. 24
– 11
de dezembro de 2002
Editores:
José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) e Francisco Karam (FENAJ/UFSC)
realcar@metodista.br
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Rede Alfredo de Carvalho para o
resgate da memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Colaboradores desta edição:
Luiz
Guilherme Pontes Tavares (BA), Luiz Octávio (MG), Sérgio Augusto (RJ), Juvenal
Azevedo (SP), Angélica de Moraes (SP).
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2
- Preservando a memória
do jornalismo carioca
3 - Diário Oficial da Bahia inova ao publicar caderno noticioso
4 - Jornalista
mineira conta em livro seis anos de entrevistas
7
- Fotografia psicológica:
o legado de Félix Nadar
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1
- Paradigma
da imprensa: o jornalismo separatista de Trajano Coelho Neto
A edição de dezembro da revista IMPRENSA dá continuidade à série 200 anos da imprensa brasileira, coordenada pelo Prof. Dr. José Marques de Melo.
Em novembro, o personagem biografado foi o jornalista e professor Mário Erbolato, fundador do Curso de Jornalismo da Pontifícia Universidade Católica de Campinas.
Em dezembro, ganha notoriedade nacional o pioneiro do jornalismo do Tocantins, Trajano Coelho Neto, que liderou o movimento separatista destinado a dar autonomia política ao território incrustado no primitivo Estado de Goiás e que viria a constituir a mais nova unidade da Federação Brasileira. Assassinado durante a batalha emancipacionista, Coelho Neto não vivem tempo suficiente para testemunhar a criação do Estado do Tocantins, na conjunutra pós-constitucional de 1988.
A pesquisa para a elaboração do encarte foi realizada pelos jovens jornalistas Aurielly Painkow e Lailton Alves da Silva, que dedicaram ao tema e ao protagonista seus trabalhos de conclusão do curso de jornalismo na Universidade do Tocantins.
Na
edição dupla de janeiro/fevereiro de 2003, a série prossegue com o perfil
biográfico do jornalista gaúcho Alberto André, resgatado pela Profa. Paula
Casari Cundari, do Centro Universitário de Novo Hamburgo/RS.
2
- Preservando a memória
do jornalismo carioca
Uma
coleção para resgatar a memória do jornalismo carioca e estimular a
produção acadêmica local sobre comunicação parece ser um projeto de médio
porte. Parece, porque um olhar mais acurado e alguns telefonemas para diferentes
estados do país revelam que os Cadernos da Comunicação, série de livros
editada pela Prefeitura do Rio de Janeiro, já alcançou projeção nacional
desde sua primeira edição, em outubro de 2001.
Universidades na Bahia, Ceará, Pernambuco e Brasília procuram a Secretaria Especial de Comunicação, capitaneada por Ágata Messina, para conseguir exemplares de livros que contam a história do jornalismo carioca e trazem à tona o pensamento acadêmico. O conteúdo editorial, sem dúvida, é o carro-chefe. Os Cadernos da Comunicação são sempre impressos em uma cor na capa e em preto e branco no miolo, em papel off-set. “Costumo dizer que esse é um projeto franciscano”, diz Ágata. A qualidade, arremata ela, está na forma de apresentação e no conteúdo.
Os
cadernos têm tiragem de dez mil exemplares. Até agora, foram produzidas oito
edições – quatro pela série Memórias e o mesmo número pela série
Estudos. Na primeira, a trajetória de publicações que fizeram a história do
jornalismo brasileiro: O Cruzeiro e Correio da Manhã, por exemplo,
ganharam edições detalhadas sobre seus momentos mais importantes. Na série
Estudos, monografias sobre a construção da verdade no jornalismo, a ficção e
a realidade na reportagem policial e o fotojornalismo digital no
Brasil mostram o pensamento carioca.
Regina Stela Braga, editora e membro do Conselho Editorial, adianta o tema da próxima edição de Memórias, marcada para sair ainda em novembro: a fundação de Brasília e a reação da imprensa. O medo de estar longe dos personagens do poder político provocou uma cobertura extremamente crítica, na maioria das vezes. “Os que mais criticavam eram O Globo, o Correio da Manhã e Tribuna da Imprensa”, conta Regina. Enquanto isso, Jornal do Brasil mantinha-se neutro e a editora Bloch e o jornal Última Hora, de Samuel Wainer, eram os únicos incentivadores do projeto de Jucelino Kubitschek, cujo centenário é comemorado este ano.
Para ter acesso a informações como o posicionamento da imprensa da época em relação à construção da nova capital federal, a equipe dos cadernos conta com o apoio de instituições para realizar pesquisas, como o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro e a Associação Brasileira de Imprensa. Já a série Estudos está aberta àqueles que desejarem ver seus trabalhos acadêmicos publicados pela Prefeitura do Rio.
Quem seleciona o conteúdo do que será publicado nas duas coleções é o Conselho Editorial, formado por Ágata Messina, Leonel Kaz, Regina Stela Braga e Helena Duque. Por essa equipe já passaram os jornalistas Milton Coelho da Graça e Ruth Ferreira. O grupo é composto também por Andréa Coelho e Flávia David, responsáveis pela redação, além de Alexandre José de Paula Santos na revisão. O projeto gráfico e a diagramação são de John Lee Murray.
Desde
o início da segunda gestão de César Maia na Prefeitura, a idéia de produzir
alguma publicação sobre comunicação estava presente. Inicialmente, pensou-se
em fazer uma revista, conta Ágata. “Depois de muitas conversas, chegamos à
conclusão de que seria mais interessante fazer uma coleção, assim como a que
é editada pela Controladoria”, diz. Para quem perguntar o que o poder
público tem a ver com isso, Ágata responde: “Entre outros deveres, está o
de preservar a memória e estimular o conhecimento”.
Fonte:
Portal Comunique-se, 11/111/2002
3
- Diário
Oficial da Bahia inova ao publicar caderno noticioso
Luís Guilherme Pontes Tavares, de Salvador
A Empresa Gráfica da Bahia (Egba) comemorou seus 87 anos de fundação (7 de
setembro de 1915) estreando novo caderno do Diário Oficial (DO), exclusivo do
noticiário produzido pela Agecom - Agência Geral de Comunicação do Estado.
Antes, o noticiário era publicado nas primeiras páginas do caderno do
Executivo. Por enquanto, a mudança não ficou muito evidente porque as páginas
do novo caderno funcionam como capa de todos os demais cadernos do Diário (que
circula de segunda a sexta-feira).
Até chegar a caderno independente do DO, o noticiário jornalístico migrou das
páginas internas (a seção “Diversas notícias”, na primeira metade do
século XX, divulgava as ações do Estado e de instituições não-oficiais,
como o Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, a Associação Tipográfica
Baiana ou a Associação Baiana de Imprensa) para as primeiras páginas
(ocupando-as nos últimos 30 anos).
A iniciativa da Secretaria de Governo (a que estão subordinadas a Egba e a
Agecom) autoriza questionamentos quanto ao futuro do novo caderno. Ele
permanecerá integrado ao DO ou se tornará outro veículo? Qual será seu
título? Estado da Bahia, como o jornal criado em 1890 (e que circulou até
1897), retornado no século XX sob os auspícios dos Diários Associados? Será
destinado apenas a assinantes ou será vendido nas bancas? Permanecerá focando
as ações do Estado ou ampliará a cobertura? Concorrerá com os demais jornais
de Salvador na captação de publicidade?
A Agecom e as assessorias de comunicação das secretarias, empresas públicas e
fundações do Executivo estadual empregam mais jornalistas do que qualquer
redação de jornal, rádio, TV e web da Bahia. Têm, portanto, recursos para
produzir mais notícias do que os demais veículos, sobretudo no campo de sua
especialidade. E pode fazê-lo com qualidade, deixando de lado o ranço do texto
oficial e abrindo espaço para a criatividade, a reportagem e, quiçá, para a
publicação de suplementos monográficos – quando o jornalista José Curvelo
dirigiu a Egba nas décadas de 1970 e 1980, o DO publicou alguns.
O DO é o segundo jornal em circulação mais antigo de Salvador – A TARDE
surgiu três anos antes, em 1912. A considerável idade do DO o faz depositário
de rico material de pesquisa. Lembro, por exemplo, da minuciosa série de
reportagens sobre a visita do príncipe italiano Umberto di Savoia publicada em
julho e setembro de 1924; detalha os cardápios e lista os presentes oferecidos
pelo governador Francisco Marques de Góes Calmon, dentre os quais “uma
pérola, ainda presa à ostra, colhida na Ilha de Bom Jesus”.
É provável, todavia, que nenhuma edição do DO tenha jamais superado em
qualidade àquela de dois de julho de 1923, comemorativa do primeiro centenário
da Independência da Bahia. O volume reúne 120 artigos, de caráter histórico,
sobre variados temas – saúde, educação, imprensa, agricultura, finanças
–, escritos por Braz do Amaral, Teodoro Sampaio, Aloysio de Carvalho, Silio
Bocanera Junior, Aristides Novis, Gonçalo Moniz, Borges de Barros e outros.
Essa publicação é fonte indispensável para quem estuda a Bahia. Daí porque,
dados os avanços promovidos no DO pela Egba, sugiro que essa empresa, associada
a outras instituições públicas e privadas, patrocine a edição fac-similar
do precioso documento que é o DO de dois de julho de 1923.
Luís Guilherme
é jornalista, produtor editorial e professor.
Fonte: A Tarde,
Salvador, 4/11/2002
4
- Jornalista
mineira conta em livro seis anos de entrevistas
Luiz
Otávio, de Belo Horizonte
A jornalista Leila Ferreira, da TV Alterosa, emissora dos Diários Associados, lançou, em Belo Horizonte, seu livro "Leila Entrevista - Bastidores", onde conta detalhes de seu programa semanal de entrevistas que vai ao ar há cerca de seis anos, com um respeitável acervo de participantes: cerca de 1,5 mil pessoas. Entre o público cativo estão celebridades e curiosidades. O programa conta com 12 séries internacionais e uma outra especial, no interior de Minas Gerais. Dentre as personalidades por ela entrevistadas estão desde a atriz Vera Fisher até o escritor norte-americano Sidney Sheldon e o jornalista Lucas Mendes.
Leila
acha que seu trabalho - preparado em 26 dias, por solicitação e exigência da
editora Autêntica - deverá constituir um importante instrumento de consulta
para todos os estudantes de Comunicação, "que nele poderão se divertir
com as partes pitorescas e aprender com os meandros dos processos de
produção". Ela acumula algum sucessos memoráveis em sua carreira, como
uma entrevista exclusiva com a escritora chilena Isabel Allende ou com a rainha
Sílvia, da Suécia. Foi a primeira vez que Sua Majestade falou com uma emissora
de TV brasileira.
Mas Leila assinala que, em sua carreira, houve momentos em que também tomou "socos da realidade". Um deles ocorreu quando decidiu fazer uma reportagem em uma pensão de Belo Horizonte, onde apenas moravam desempregados e pessoas que vinham à capital em busca de trabalho - geralmente frustrando-se totalmente. "Eram pessoas sem nenhum horizonte na vida", lembra. "Seu desespero me emocionou".
Leila Ferreira não esconde seu entusiasmo e também um certo desdém por algumas matérias que produziu. "A melhor entrevistada foi Isabel Allende, uma mulher imbatível, pela inteligência, honestidade nas respostas, agilidade no raciocínio e originalidade na articulação das frases, que brotam sem nenhuma programação no meio da conversa. Ela é fascinante, possui uma mistura de senso de humor e de ironia fina, além de uma inteligência pulsante", destaca. O que a jornalista não gosta é da celebridade que chega ao estúdio com um discurso decorado. "Nesta categoria, a atriz Regina Duarte é 'hors concours'. Trouxe tudo decorado, respondendo às pergunta sem qualquer carga de sentimento e com uma frieza surpreendentre. Apenas representava, durante a entrevista. Eu tinha trazido para ela um vidro com doce de Araxá. Fiquei tão triste com a matéria que tive vontade de pegar o doce de volta", conclui.
"Leila
Entrevista - Bastidores", de Leila Ferreira
Editora Autêntica
130 páginas
R$ 15,00
Fonte:
Portal Comunique-se, 13/11/2002
Juvenal Azevedo (São Paulo)
Jornalismo
versus propaganda: no final dos anos 50 talvez o primeiro release pertinente foi
publicado pelo Estadão, pelo editor Cláudio Abramo. Veja como eram as práticas
naquela época.
Foi
no final dos anos cinqüenta. Não havia (ao menos que eu saiba) assessorias de
imprensa. Uma ou outra grande empresa tinha um departamento de "divulgação",
pois também a expressão relações públicas não era muito difundida. Até as
próprias agências de propaganda não tinham um departamento de "relações
públicas".
Mesmo
na Inter-Americana de Publicidade, do inesquecível Armando D'Almeida, que
durante a Segunda Guerra Mundial funcionara como departamento de imprensa da
embaixada americana (antecedendo o USIS), não havia nada parecido com as
assessorias de hoje. Nas agências, os releases eram mal e porcamente redigidos
por redatores publicitários que detestavam esse tipo de "job", para
depois serem encaminhados pelo departamento de mídia à direção comercial dos
veículos, de onde desciam para a redação com instruções para publicação.
Propaganda
disfarçada. Nessa
quase idade da pedra da divulgação, os releases não passavam de propaganda
disfarçada ou então de veículo para a vaidade dos anunciantes, pois eram
comuns textos que louvavam as qualidades dos produtos e as inevitáveis viagens
ao exterior, quando o empresário era fotografado junto à escada do avião em
companhia da mulher e, às vezes, dos filhos, para viagens sempre de "negócios".
Por seu turno, o pessoal da redação vingava-se da imposição do departamento
comercial e tacava uma tarja em volta da "notícia", mostrando assim
que estava havendo intromissão na sua área de competência.
O
pioneirismo da Standard.
Foi então que a Standard Propaganda, em São Paulo, através do escritor e
jornalista Hernâni Donato, e, no Rio de Janeiro, do jornalista Evaldo Simas
Pereira, ex-JB e Diário de Notícias, começou a formar seus departamentos de
relações públicas. Hernâni logo foi para a Norton, onde também implantou
esse esquema pioneiro, enquanto Simas permaneceu na Standard-Rio.
Profissionalizando
o setor a partir de uma mudança de mentalidade interna, Simas convenceu o
pessoal do atendimento e os próprios clientes de que "assinatura de
contrato" e "viagem à Europa" não eram notícia coisa nenhuma e
só poderiam sair como matéria paga. De passagem, é bom tornar claro que a
redação de alguns jornais, como a do "Estadão", já não se
submetia a nenhuma imposição do departamento comercial, e que este, por sua
vez, mandava os mídias e os anunciantes pastarem quando tentavam lhe empurrar
os primitivos releases.
Simas
iniciou então o contato direto entre redatores de RP e os secretários e
colunistas dos veículos impressos e eletrônicos. Foi um pioneiro.
Fraser
Bond e a Introdução ao Jornalismo.
Na mesma época lançou-se no Brasil o livro "Introdução ao
Jornalismo", do norte-americano F. Fraser Bond, que codificava a atividade
de assessoria de imprensa, desde como redigir um release até as visitas às fábricas,
as press-conferences, as demonstrações de produtos, etc., ajudando a formar
uma pioneira geração de divulgadores/assessores de imprensa.
Mas,
voltando ao Simas, foi ele o organizador do primeiro vôo de demonstração do
Electra, no Rio de Janeiro, para jornalistas e outros convidados VIP (esse mesmo
vôo foi depois organizado por mim em São Paulo). Foi também o Simas quem
divulgou nacionalmente o concurso Miss Secretária, a partir de uma idéia do
Newton Silva, na época na direção comercial da Remington Rand no Rio de
Janeiro (no ano seguinte, fiz a divulgação do mesmo concurso em São Paulo, e
entre as finalistas estava Dina Kutner, mais tarde conhecida como Dina Sfat).
Surgiu aí também o Dia da Secretária, até hoje comemorado a 30 de setembro.
Enfim,
o Simas, em 1959, já fazia o que muita gente ainda hoje não aprendeu a fazer.
Se estivesse na ativa, certamente estaria com alguns pioneirismos à frente de
nosotros, pobres mortais.
Nas
pegadas dos mestres.
Estimulado por meus gurus Simas e Hernâni, divulguei em São Paulo o festival
internacional de música do Fasano, que trouxe para temporadas no seu jardim de
inverno Marlene Dietrich, Sarah Vaughan, Brenda Lee, Sammy Davis Jr., Renato
Carosone e outras estrelas da época. E divulguei também o programa da TV Tupi
La Revue Chic, uma criação do jamais esquecido Livio Rangan para a Rhodia, com
algumas pirações do tipo Eder Jofre ser nocauteado pela maneca Pâmela, etc.,
etc., etc.
Até
que um belo dia a secretária do Simas me mandou um memo pelo malote,
acompanhado de convites para a imprensa, frisando que não era para convidar o
"Estadão". Tratava-se do quinto aniversário da Refinaria União de
Capuava, quando seria inaugurado mais um forno ou algo parecido pelo ministro
dos transportes do governo JK e haveria um coquetel seguido de almoço.
Estranhei,
mas deixei pra lá. Afinal, o "Estadão" tinha lá suas
idiossincrasias, como grafar o nome do governador Adhemar de Barros como Sr. A.
de Barros e era ardorosamente contra o Juscelino. Portanto, deixar de convidar o
"Estadão", naquele contexto, era uma coisa bastante natural.
Após
o almoço, um sucesso em termos de comparecimento de autoridades e jornalistas,
o Simas me pergunta se todos os grandes veículos tinham comparecido. Respondi
que sim, acrescentando que só não estava lá o "Estadão" porque não
havia sido convidado. O Simas empalideceu e quis saber a razão de não
convidarmos o maior jornal de São Paulo.
Expliquei-lhe
então a história do memo enviado pela sua secretária, para seu profundo
espanto. "Que besteira!", "Que besteira!", era só o que o
Simas conseguia dizer, mas logo, como um general no campo de batalha, procurou
salvar o que desse para ser salvo. "Vá você mesmo ao "Estadão"
e fale com o secretário de redação. Explique o que houve e veja se ele aceita
que você faça uma matéria sobre o evento, escreva e leve pra ele em seguida.
Enquanto isso, pegue o fotógrafo da agência, mande ele copiar as fotos,
voando, e entregue junto com o texto".
Uma
lição do Claudio Abramo.
E lá fui eu, enfrentar o mau humor permanente do Claudio Abramo na secretaria
de redação do Estado. Do alto dos meus 19 anos, tentei explicar o inexplicável
e transmiti a proposta bolada pelo Simas. O Cláudio me olhou sem mover um músculo
do rosto e disse: traga o texto e as fotos aqui até as cinco e meia (eram umas
três e meia). Mais não disse nem lhe foi perguntado.
Voltei
às 5h25 (felizmente a Standard ficava na Praça Roosevelt, a dois quarteirões
do "Estadão") e fui colocando o texto e as fotos na frente do lendário
Claudio. Ele olhou rapidamente o material, disse "deixa aí" e
continuou escrevendo a lauda que eu interrompera.
No
dia seguinte peguei o "Estadão" e comecei a filar (a propósito, essa
é uma das coisas mais gostosas que existem no trabalho de assessoria -
descobrir a notícia publicada, como se fosse a descoberta de um diamante ou a
entrada de um quarto ás no pôquer).
Pulei
a primeira página, por motivos óbvios, passei muito de leve pelas segunda e
terceira páginas, altamente improváveis para o evento de Capuava, e fui indo:
quarta, quinta, sexta, sétima... quando percebi já estava na penúltima página,
onde era publicada a coluna de vida noturna da querida Mary Winn. Não havia saído
nada. Fiquei p*, virei a página com raiva e xinguei. E foi aí, bem aí, no
finzinho do pu.., que meus olhos se arregalaram: na última página, tomando as
oito colunas do jornal, lá estava a matéria da Refinaria União de Capuava,
ilustrada por duas fotos do José Prezado de Jesus, fotógrafo da Standard
Propaganda, assistente do também lendário Otto Stupakoff.
É
bom lembrar que, desde o governo do Getúlio e até 64, o "Estadão"
se recusava a dar notícias nacionais na primeira página, que era totalmente
ocupada por matérias internacionais. Assim, a última página, em termos de notícias
nacionais, era na verdade a primeira. No pôquer, aquela matéria da refinaria
equivalia a um royal - de ouros, ainda por cima.
E
a primeira grande lição que eu tive fazendo assessoria de imprensa foi dada
naquele dia pelo Claudio Abramo: se você tem uma boa e honesta notícia na mão,
ela será publicada - mesmo que alguém tenha pisado na bola antes e
eventualmente possa ter melindrado o jornalista encarregado de apurá-la.
Claro,
claro, desde que esse jornalista tenha a grandeza moral e intelectual de um
Claudio Abramo, para quem o dever de bem informar seus leitores vinha em
primeiro lugar. Evidentemente, a recíproca também é verdadeira. Se você não
tem uma notícia de verdade, não a mande e economize tempo: o seu, o do
pauteiro, do editor, do colunista.
Fonte:
Portal Comunique-se, 12/11/2002
6
- O
acervo bibliográfico que o Brasil herdou da Família Real portuguesa
Sérgio
Augusto (Fonte: O Estado de S. Paulo, 23/11/2002)
Foi preciso que a Corte portuguesa se estabelecesse no Rio de Janeiro, em 1808, para que os brasileiros pudessem, finalmente, dispor de livros a mancheias e desfrutar do direito de imprimi-los sem atravessar o Atlântico. Até então, possuir e fazer uso de uma prensa, na terra dos papagaios, era crime ignominioso. Os tomos, folhetos e gazetas que nestas bandas eram manuseados vinham todos da Europa, vale dizer de Lisboa, filtrados pela censura régia e inquisitorial. O refrigério cultural com que Napoleão, indiretamente, nos premiou acaba de ser reconstituído em detalhes no primoroso ensaio A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis (Cia. das Letras, 554 págs., R$ 44,50), que Lilia Moritz Schwarcz escreveu com Paulo Cesar de Azevedo e Angela Marques da Costa. A biblioteca dos reis de Portugal, embrião da nossa Biblioteca Nacional, foi trazida até o Brasil em três viagens sucessivas, e sua odisséia tem como ponto de partida não o assédio de Napoleão ao império luso, mas o terremoto que arrasou Lisboa em 1755.
Faz
bem à alma saber que o monarca que de longe nos governava tinha tanto apreço
pelos livros. A família real poderia ter fugido apenas com suas riquezas mais
valiosas, do ponto de vista material, e no entanto o rei cuidou para que seu
maior tesouro espiritual lhe continuasse fazendo companhia na nova corte. Esse
foi o aspecto positivo da história. O negativo - terremoto e invasão francesa
à parte - tem como epicentro o obscurantismo dominante em Portugal desde que
seu primeiro regente dobrou-se, incondicionalmente, ao poder da Igreja.
Fomos descobertos em 1500 e 36 anos depois estabeleceu-se em Portugal a Censura inquisitorial. Proibía-se tudo que desagradasse ao clero e à corte.
Três poderes, agindo independentemente, com regras e princípios particulares, controlavam a circulação de idéias no jardim-à-beira-mar-plantado e nas colônias ultramarinas: o Santo Ofício vaticano, o Ordinário e o Desembargo do Paço. Para ser liberada, qualquer obra tinha de trazer impressos no rodapé os dizeres "Com todas as licenças necessárias". Em 1551, o Infante D. Henrique, Cardeal Inquisidor Geral, facilitou a repressão, instituindo o Rol dos Livros Defesos. O Infante antecipou-se, pois, ao Index Librorum Prohibitorum, do Vaticano, que só surgiria 30 anos mais tarde.
Durou até 1768 esse sistema tripartite de censura, unificado e secularizado pelo Marquês de Pombal, criador da Real Mesa Censória, dividida ao meio entre catões eclesiásticos e leigos, todos indicados pelo rei. Depois da queda do marquês, D. Maria I entronizou, em 1787, a Comissão Geral para o Exame e a Censura dos Livros, que ainda estava em vigor quando a Biblioteca dos Reis aportou no cais do Rio de Janeiro. Tão intensa era a volúpia censória da corte portuguesa que nem quando a Inquisição arquivou seu garrote, em 1821, a censura, já então luso-brasileira, topou sair de cena.
Predominavam
no índex inúmeros autores franceses, como Voltaire (que mais de uma vez gozou
Portugal como uma terra de catástrofes absurdas, atolada por superstições
religiosas e autos-da-fé), Diderot, Buffon, Montesquieu, Rousseau, D'Allembert,
Condorcet, Condillac, Mably, etc. A fina flor intelectual do Século das Luzes.
Todos considerados ímpios, heréticos, perigosos, no ibérico paraíso das
trevas. A esses se juntaram A Princesa de Clèves, de Mme. de la Fayette, e As Fábulas,
de La Fontaine. O americano Thomas Paine, autor de Direitos do Cidadão, também
entrou no rol dos defesos. Certas obras (o Traité de la Manie, do dr. Pinel, o
Ensaio sobre o Homem, de Pope) às vezes podiam ser lidas mediante licença
especial, exigência igualmente imposta às Viagens de Gulliver, de Swift; ao
Werther, de Goethe; aos Ensaios, de Montaigne; e a um punhado de autores,
ocasionalmente vetados na íntegra, como Edward Gibbon (o maior historiador do
Império Romano), Adam Smith (e seu clássico A Riqueza das Nações), Jeremy
Bentham, Thomas Hobbes, Locke, para citar apenas os mais visados.
Se já era difícil ter acesso a tais obras e autores em Portugal - onde, diga-se, não se imprimiam muitos livros e pouca gente sabia ler - imagine aqui. Aliás, o acesso a qualquer livro, na Colônia, em suas primeiras décadas de existência, só não devia ser mais trabalhoso que o combate aos tamoios e outros aguerridos aborígines.
Quase nada se sabe sobre a presença de livros em Pindorama, na primeira metade do século 16. Os colonos se ocupavam exclusivamente da formação de lavouras (especialmente de açúcar) e do corte de pau-brasil. Cultura, só extrativa. Mas livros por aqui havia, assim como bibliotecas, de instituições religiosas e particulares, formadas a duras penas e nem todas inteiramente submissas ao crivo da censura pré e pós-pombalina.
Em 1979, Rubens Borba de Moraes publicou uma modesta pesquisa sobre os livros e as bibliotecas institucionais e particulares do Brasil Colonial, editada pela Secretaria da Cultura, Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo, que merecia ser desenvolvida a uma dimensão a mais próxima possível da alcançada por A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis. Isso, contudo, talvez seja impossível, dada a escassez de documentos sobre as preferências literárias e os hábitos de leitura em nossas capitanias.
A
odisséia do livro e da leitura antes da chegada de D. João VI continua sendo
um desafio, mais cheio de perguntas sem respostas satisfatórias (Quem lia e o
que se lia no Novo Mundo português? Como os livros chegavam até aqui? Como se
fugia à vigilância da censura?), informações desencontradas e inventários
canhestros do que de dados capazes de nos oferecer um retrato menos desfocado de
nossa formação cultural.
Estima-se que os primeiros tomos aqui desembarcados pertenciam aos magistrados (destaque para as Ordenações Manuelinas e outros receituários legais) e religiosos (a Bíblia e demais obras necessárias ao culto). Só a partir da segunda metade do século 16, depois que em Salvador se instala o Governador-Geral e chegam os primeiros jesuítas chefiados por Manuel da Nóbrega, para catequizar índios e educar colonos, é que os livros mais voltados para a instrução começam a se difundir, dando início à vida administrativa, política, econômica, espiritual, militar e social do Brasil.
A cultura brasileira brotou nos conventos, mosteiros e abadias de jesuítas, franciscanos, carmelitas e beneditinos. E nesses redutos floresceu até o fim do século 18.
No final do século 16, os jesuítas já tinham uma biblioteca instalada em seu colégio em Salvador e outras no Rio, São Paulo e Espírito Santo.
A de Salvador chegou a abrigar 15 mil volumes. Padre Antônio Vieira, grande bibliotecário, considerava a do Colégio do Maranhão, onde cabiam até 5 mil volumes, "muito boa". Era nas ricas cidades do Nordeste que então se concentrava a vida intelectual do Brasil. Dos 13 brasileiros que foram estudar em Coimbra, no século 16, seis saíram de Salvador. A Bahia sempre enviava a Coimbra o maior contingente de estudantes: 175 (de um total de 353) no século 17 e 572 (de um total de 1.752) no século 18.
Os padres, e não apenas os jesuítas (expulsos do País por ordem de Pombal em 1759), adquiriam livros com o cacau e o cravo produzidos em suas lavouras e os remédios de suas afamadas boticas. Também aproveitavam o que funcionários do governo aqui deixavam e vendiam a preço de banana, para evitar o frete da volta a Lisboa. O que liam? Religião, história, geografia, estudos latinos, dicionários, gramáticas, filosofia, ciências, medicina. Sabe-se muito mais sobre as bibliotecas dos jesuítas que das outras ordens religiosas por causa dos trabalhos do padre Serafim Leite, historiador da Companhia de Jesus no Brasil.
As bibliotecas particulares se desenvolveram a partir das primeiras décadas do século 17. Mesmo no interior paulista, já menos preocupado com bandeiras e caça a esmeraldas. No fim do século 18, o ouvidor Lourenço de Almeida Prado mantinha em Itu uma apreciável biblioteca.
Minas Gerais, rica em ouro e diamantes, orgulhava-se de seu acesso a jornais ingleses e de mecenas como Manuel Nunes Viana, cuja atuação no campo editorial impressionou até os viajantes europeus que por lá passaram em meados do século 18. Foi ele quem levou Peregrino da América, de Nuno Marques Pereira, para ser impresso em Lisboa. Outro livresco, Manuel de Abreu Guimarães, de Sabará, tinha até ex-líbris.
Saint-Hilaire encantou-se com o nível de instrução e interesse literário dos letrados de Tijuco (Diamantina), onde se deparou com obras proibidas na Corte, como o Contrato Social, de Rousseau; o Espírito das Leis, de Montesquieu; e Telêmaco, de Fénelon - de enorme influência sobre as mentes locais. Surpreendentemente, nas bibliotecas dos Inconfidentes mineiros não havia livros explosivos, exclusividade do cônego Luiz Vieira da Silva, com quase 400 títulos dos grandes pensadores europeus dos séculos 17 e 18, vários da temida Ilustração, em suas estantes. Ilustrados por eles é que os Inconfidentes mineiros, os conjurados baianos de 1798 e os rebeldes pernambucanos de 1817 partiram para a luta pela independência.
Segundo consta, em 1793 só havia uma livraria no Rio. Vendia livros religiosos e de medicina. Seis anos mais tarde, surgiu uma segunda, igualmente limitada. É provável que outras mais existissem. Do contrário, os oficiais de livreiro não teriam reivindicado os mesmos privilégios, as mesmas isenções e a relativa liberdade de que desfrutavam os da Corte, seis meses antes do terremoto de Lisboa. Em vão, é claro. Para abrir suas asas sobre nós, a liberdade teria de esperar pela chegada da família real e pela abertura dos portos às idéias inimigas.
Angélica
de Moraes (Fonte: O Estado de S. Paulo, 23/11/2002)
Mora
no Brasil uma das maiores coleções privadas de obras do fotógrafo Félix
Nadar (1820-1910), pioneiro da câmera escura e perspicaz mestre do retrato de
abordagem psicológica. O precioso acervo é conservado com zelo de museu na
casa do empresário e editor Carlos Leal, no Rio de Janeiro. Para torná-lo
acessível ao público, Leal acaba de editar e estará lançando na
segunda-feira, em São Paulo, o livro Nadar, O Retratista de um Século (148 págs;
90 fotos; edição bilíngüe português-francês; R$ 65,00). O livro inclui
belo ensaio do romancista norte-americano John Updike, biocronologia de Nadar e
verbetes biográficos das personalidades retratadas.
A coleção, resultado de 15 anos de garimpo em sebos e livrarias francesas, já soma 200 fotos. Leal possui outras 500 imagens de fotógrafos contemporâneos nacionais e internacionais, mas nenhuma delas integra um conjunto temático ou autoral de envergadura semelhante à dedicada ao francês. "Sou fascinado por Nadar, admiro seu espírito aventureiro e avant-garde, o fato de ter sido o primeiro fotógrafo a fazer foto aérea e foto submarina, além de ser um retratista invulgar", afirma o colecionador.
Essa compulsão inclui o fetiche de ter visitado "várias vezes" os endereços onde Nadar teve seus estúdios em Paris. Especialmente aquele ateliê envidraçado, de dois andares, que ocupou no topo de um prédio no Boulevard des Capucines, encimado por sua assinatura gigante. Fotógrafo amador desde os 15 de seus 45 anos, Carlos Leal começou a interessar-se pelo artista francês quando ganhou de presente, do amigo livreiro Pedro Correa do Lago, um retrato de Santos Dumont feito por Nadar.
O pai da aviação, metido em um pesadíssimo e elegante sobretudo, com gravata-borboleta solidamente ancorada a um colarinho rijo e alto, parece emergir dessa couraça de modo quase diáfano, olhos imensamente tristes perdidos na distância. Um grande retrato, que vai buscar lá no fundo do personagem bem-composto a angústia que iria corroê-lo até o suicídio.
Nadar (ou Gaspard-Félix Tournachon, conforme foi batizado) costuma ser mais lembrado por ter sido o anfitrião do surgimento da pintura impressionista.
Foi em um de seus amplos estúdios, garantidos pelo status do fotógrafo mais famoso (e bem pago) de Paris na última metade do século 19, que novatos nos pincéis como Manet, Degas, Renoir, Monet, Sisley, Pissarro e Cézanne escandalizaram público e crítica ao exibirem pela primeira vez, de abril a maio de 1874, suas telas de contornos imprecisos e atmosfera luminosa. Que estúdio era esse? Exatamente o mais ensolarado: o do Boulevard des Capucines.
Mas Nadar foi bem mais do que mecenas de uma nova linguagem pictórica. Foi, assim como seus amigos impressionistas, um dos maiores artistas de seu tempo. Também cortejava a luz para criar suas figuras, só que não as fixava com tintas, mas com a própria luz, na mágica então ainda recente da fotografia.
Sua capacidade de capturar os estados de espírito e a personalidade de seus fotografados fica evidente ao folhearmos o livro, que soma imagens de nomes importantes do século 19 na literatura, na música, na pintura e no teatro.
Há retratos de um hirsuto Alexandre Dumas e um longilíneo Lamartine; há o olhar perfurante de Baudelaire e as olheiras cansadas de Victor Hugo. Ou uma incrível imagem de d. Pedro II, o ex-imperador do Brasil, morto no exílio.
Uma atração extra é observar a moda da época e alguns irônicos comentários visuais. Por exemplo: Nadar contrapõe aos complicados chapéus, plumas e penteados usados pelas damas de então, uma jovem modelo com um banal chapéu feito de jornal dobrado. Moldura perfeita para um rosto bonito, que dispensa adornos. Muito provavelmente, uma das garotas boêmias que Nadar chamava para servir de modelo, para desenfastiar-se da tarefa de focar a pompa sufocante das senhoras de sociedade, seu habitual ganha-pão.
O
destaque maior, no entanto, é a atriz Sarah Bernhardt. Nadar a fotografou inúmeras
vezes e em diversos estados de alma. O livro reproduz oito dessas fotos, várias
imortalizando a diva em figurinos e gestos de personagens que interpretou no
palco. O fotógrafo tinha, afinal, encontrado um tema de complexidade psicológica
à altura de seu talento.
Durante toda a sua vida, Hélio Damante não foi apenas um jornalista interessado nos problemas da política, da cidade e da religião. Com igual empenho e talento, dedicou-se ao estudo das tradições históricas e folclóricas do Estado, o que resultou em dezenas de estudos ainda hoje citados e utilizados como fonte de consulta por todos aqueles que pretendam aprofundar-se nesses assuntos. Damante morreu na madrugada de ontem, em Atibaia, aos 83 anos. O enterro realizou-se ontem à tarde no Cemitério de Bom Jesus dos Perdões, sua cidade natal, no interior de São Paulo.
Nascido
em 6 de maio de 1919, Hélio Damante era filho de Francisco Damante e Zélia
Moreira Damante. Professor diplomado pelo Instituto de Educação Caetano de
Campos em 1936, ficou pouco tempo no magistério, voltando-se para a vida da
imprensa. E o exemplo vinha de casa: o pai, que morreu em 1927, foi
correspondente do Estado em Bom Jesus dos Perdões e um dos pioneiros dos
estudos folclóricos no Estado.
Damante trabalhou primeiro no jornal O Operário, semanário editado no Brás.
Em 9 de abril de 1940, entrou no Estado, a convite de Júlio Rodrigues, que escrevia a coluna Movimento Religioso. Foi um início delicado para o jovem profissional de imprensa, segundo ele próprio: "O jornal havia sido tomado pela ditadura getulista e os Mesquitas foram exilados." Com a ocupação do jornal, Rodrigues afastou-se do Estado e Damante ocupou o seu lugar até 1945, quando o jornal voltou a ser dirigido pelos legítimos proprietários.
Com o retorno de Júlio Rodrigues ao Movimento Religioso, Damante passou a redigir notas para a seção Notícias Diversas, que publicava o material jornalístico hoje apresentado pelas editorias Geral e Cidades do Estado. Em 1955 elegeu-se para um breve mandato de vereador em São Paulo e, no ano seguinte, foi convidado a editar a seção de Política do Estado.
O "Papa" - Deixou o cargo em 1959, quando o então governador Carvalho Pinto o convidou para escrever os seus discursos e mais tarde o nomeou assistente particular.
"Pedi afastamento da Política porque me senti eticamente impedido e voltei a redigir o Movimento Religioso", explicou. Damante sempre admitiu que escrever para essa coluna era uma das suas atividades mais importantes. Ele se envolvia tanto com ela que ganhou, dos colegas de redação, o apelido de Papa, que o acompanhou durante toda a carreira no Estado.
Rubem Braga, que trabalhou no jornal, gostava muito de brincar com Damante por causa da predileção do colega pelos assuntos religiosos. Proferia blasfêmias e falava palavrões só para irritá-lo.
Pelo temperamento expansivo e talvez até pela formação de professor, Hélio Damante aproximava-se com muita facilidade dos jornalistas mais jovens. Na festa comemorativa dos 50 anos de Damante no Estado, um dos seus discípulos, Randolpho Marques Lobato, fez questão de ressaltar: "Também fora da escola, Damante sempre foi professor de todos, transmitindo humildade e dedicação e contribuindo para o aperfeiçoamento profissional de cada um." Em resposta, Damante insistiu na importância que dava ao diálogo com os mais jovens.
Não apenas com eles, porém. Era pessoa afável, sempre risonha, amiga dos colegas e tinha sempre uma palavra de elogio para os companheiros cujos textos lhe causassem impressão favorável ou nos quais muitas vezes encontrasse qualidades insuspeitadas pelos próprios autores. De cultura muito vasta, jamais fez alarde dos seus conhecimentos, mas estava sempre pronto a deixá-los à disposição dos companheiros que necessitassem de uma data, um nome ou até uma lembrança para a conclusão de uma reportagem.
Suas
opiniões muito claras e definidas a respeito de assuntos religiosos lhe
valeram, por vezes, críticas tanto das alas tradicionais quanto das correntes
conservadoras da Igreja. O interesse que o aproximou da Igreja Católica também
o levou a lecionar História das Religiões na Faculdade de Comunicação Social
Cásper Líbero.
Muito preocupado com os assuntos de todo o Estado, Damante escreveu, durante anos, o 1.º W, designação interna do editorial que a seção do Interior publicava diariamente. Funcionário da Prefeitura de São Paulo, por causa de suas opiniões políticas foi perseguido em administrações tão diferentes como as de Jânio Quadros e Luiza Erundina, que o demitiu da Prefeitura em 1989, quando ocupava, havia 13 anos, a função de assistente-técnico de divulgação.
O historiador - Em 1943 ingressou no funcionalismo público estadual como redator, cargo que exerceu até a aposentadoria. Nessa qualidade trabalhou no setor de imprensa da Comissão do 4.º Centenário de São Paulo e foi um dos assistentes do professor Jaime Cortesão na organização da Exposição de História de São Paulo comemorativa da data.
Hélio Damante foi sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de SP e membro da Academia Paulista de História, da Academia Paulista de Jornalismo e da Comissão Paulista de Folclore. Aliás, ele foi o autor da proposta que tornou agosto o mês do folclore e criou a expressão "civilização caipira" para definir a sociedade estável que surgiu em São Paulo após o surto do bandeirismo. Também nesse campo, suas posições eram claras: "Os verdadeiros folcloristas são os que podem realizar um trabalho no campo, mediante vivência com o povo. O resto é mera sociologia."
Como historiador, dedicou-se principalmente aos fatos de São Paulo, Estado e capital, e a algumas das suas personalidades. Publicou cinco livros e centenas de artigos sobre religião, folclore e história. Uma de suas obras mais importantes, a Nova Paulística, constitui um painel de ensaios sobre a história de São Paulo. Escreveu ainda trabalhos sobre a Catedral de São Paulo, sobre Mário de Andrade e sua relação com a cidade de São Paulo, além de perfis de Amadeu Amaral e do padre Manuel de Paiva. Seu último livro, de 1999, A Rainha Vitória e o Brasil, trata da influência vitoriana no País.
Teve ainda intensa atividade no Sindicato dos Jornalistas no Estado de São Paulo e na Federação Nacional dos Jornalistas. Recebeu, entre outras condecorações, a Ordem do Mérito do Trabalho, no grau de cavaleiro, a Medalha do Mérito Literário, gênero jornalismo, do PEN Center de São Paulo, e a Medalha Aluísio de Almeida, do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Sorocaba.
Aposentando-se
do Estado em 31 de dezembro de 1991, Damante continuou assíduo colaborador do
jornal, com cartas que enviava, como se fosse um leitor comum, a respeito de
assuntos tão variados como o catecismo da Igreja Católica, a Guerra do
Paraguai, a Guerra das Malvinas, a criação do Ministério da Defesa e os nomes
que, décadas atrás, dignificaram a Câmara Municipal de São Paulo. Mesmo
afastado, não conseguia livrar-se do vírus do jornalismo.