JORNAL DA REDE ALCAR
Ano 2, N. 209 de agosto de 2002

Editores: José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) e Francisco Karam (FENAJ/UFSC)
realcar@metodista.br

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Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Colaboradores desta edição:
Roseane Arcanjo Pinheiro (MA), Sebastião Jorge (MA), Manuel Francisco Brito (RJ)

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Sumário:

1 - Carlos Lacerda na Revista Imprensa

2 - RedeAlcar no Maranhão

3 - Imprensa maranhense em tempo de eleição

4 - Museu da TV ganha novo espaço na internet

5 - Intercom anuncia vencedores do Prêmio Luiz Beltrão 2002

6 - Relatório da ONU classifica imprensa brasileira como parcialmente livre

7 - Jornalismo  norte-americano revisto em livros

8 - Imprensa norte-americana: tendências do século XXI

9 - Livros discutem qualidade na imprensa norte-americana

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1 - Carlos Lacerda na Revista Imprensa

 

A edição de julho da Revista Imprensa (173) publica encarte assinado pelo Prof. Marcelo Pimentel (UMESP) sobre o jornalismo polêmico de Carlos Lacerda. Na edição de junho, a série 200 anos da imprensa no Brasil destacara o fundador da Abi, Gustavo de Lacerda, em matéria assinada pela Profa. Dra. Marialva Barbosa (UFF) e pelo Jornalista Fernando Segismundo (ABI. Esta previsto para a edição de agosto o perfil do repórter Edmar Morel, escrito pelo neto historiador Marco Morel.

 

A revista Imprensa circula na bancas de todo o pais e pode ser consulta também na web, site: www.revistaimprensa.com.br

 

 

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2 - RedeAlcar no Maranhão

 

O Maranhão, terra de jornalistas de renome como Ferreira  Gullar e Lago Burnett,  terá seu comitê estadual da Rede Alfredo de Carvalho. A Associação Maranhense de Imprensa (AMI) está mobilizando os três curso de Comunicação Social na capital São Luís (Universidade Federal do Maranhão, Faculdade São Luís e Uniceuma) para a indicação dos membros do grupo que integrará o mutirão acadêmico. A liderança da RedeAlcar está a cargo da jornalista Roseane Arcanjo Pinheiro.

 

A charge nos jornais de São Luís é o tema das pesquisas do professor Francisco das Chagas Frazão Costa Filho, da Faculdade São Luís (MA). O professor é mestre pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde defendeu a dissertação "Charge: imagem e crítica na imprensa maranhense, 1877-1880". O professor está preparando a publicação do trabalho.

 

Uma das características marcantes da imprensa maranhense é o grande número de diários, principalmente em São Luís. Atualmente nada menos que dez jornais circulam na capital: O Estado do Maranhão, O Imparcial, Folha do Maranhão, Jornal Pequeno, O Debate, A Hora, Atos e Fatos, A Tribuna do Nordeste, Diário da Manhã e O Litoral. O mais antigo é O Imparcial, do grupo Associados, que completará 77 anos em 2003.

 

 

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3 - Imprensa Maranhense em tempo de eleição

 

Sebastião Jorge

São Luís, a capital manhense, converteu-se numa cidade de jornais. Há mais jornais, sem dúvida, que leitores. São 14 ao todo. Não é pouco para uma cidade pobre e que quase não ler, como de resto o Brasil.

Os nossos jornalistas demonstram não se conformar em só escrever, pois querem também provar o gosto de ser patrões, experimentar o sabor de uma fatia do poder, se é que, hoje, esse meio de comunicação ainda dá poder. A não ser para alguns.

Não é fácil manter um jornal, não apenas pelo alto custo, como pelas implicações políticas. Ainda mais agora que o intimidam com a aprovação da Lei da Mordaça e a polêmica sobre critérios para arbitrar o valor em dinheiro da condenação por crimes de injúria, difamação e calúnia. Presentemente uma sentença pode fechar a empresa.

Antes essas folhas eram oferecidas com esperteza pelos gritos alegres dos jornaleiros. O marketing de simples se transformava em inteligente. Havia uma sirene de som alto e estridente na porta da empresa, anunciando o produto-notícia. Era colocado ainda um quadro com recortes dos principais fatos do dia, em lugares estratégicos, como jeito de chamar a atenção. Atualmente o destino da venda fica por conta dos maços de jornais colocados à disposição dos donos das bancas. Geralmente a vendagem é um mistério e a circulação, "segredo de Estado". O silêncio é a arma do negócio. O Instituto de Verificação e Circulação (IVC) é ignorado.

Para se editar um jornal é preciso coragem. Os problemas são muitos. Fechar as páginas com horário marcado é um suplício, apesar de que, hoje, o jornal de domingo circula na véspera. Acontece nas melhores famílias. A última edição do Le Monde, que circula às 12 horas, traz a data do dia seguinte. A pressão do relógio mexe com os nervos. Há quem ignore essas questões e se entregue a esse estranho prazer.

A tecnologia moderna facilitou o trabalho com a introdução do off set, da informática e da internet. Há cerca de 30 anos quase tudo era feito manualmente. As mudanças se deram muito rápidas. Quem não mudou dançou. Mesmo assim, fazer jornal tem problemas peculiares e sem entendê-los na raiz e desdobramentos, fica difícil. Culpa da globalização que exige um arsenal de conhecimentos.

Vida pós-eleição

Os jornais são entregues nas bancas de revistas e aos jornaleiros que preferem fazer ponto, a dar o clássico grito dos gazeteiros, anunciando as principais manchetes. Quatorze jornais são editados em São Luís. Não sabemos se a maioria preenche as necessidades do leitor menos exigente. Colocados à venda e quem os adquirir, a todos, daria uma salada exótica e cheia de surpresas. A diferença? No condimento e na escolha dos ingredientes. Só o paladar do leitor é capaz de arbitrar o gosto. Eis a relação dos títulos: O Estado do Maranhão, O Imparcial e Jornal Pequeno (são os mais antigos); Debate, Tribuna do Nordeste, Atos e Fatos, Hoje, A Hora, Diário da Manhã, Folha do Maranhão, Jornal do Município, Correio dos Municípios e Jornal da Baixada.

Ah, sim, ia esquecendo-me do último jornal que chegou para se incorporar à família: O 4° Poder. É isso mesmo, o 4° Poder, como quis Edmund Burke, no final do século 18, ao denunciar a influência "perniciosa" da imprensa na vida política da França. Depois da Revolução Francesa, Burke erguendo os olhos à Galeria da Imprensa da Câmara dos Comuns, disse: "Ali, senta-se o Quarto Poder, e é o mais importante de todos eles". O que foi um desabafo se transformou numa afirmação.

Número igual de jornais no Maranhão só no século passado, precisamente em 1915, quando havia, coincidência, 14 periódicos. Ei-los: O Ateniense, Bello Horizonte, O Cinema, O Estudante, O Guri, O Sabiá, Os Simples, A Vontade. Todos de cunho literário e alguns ligados a entidades literárias. Quanto aos outros eram noticiosos, sem desprezar o lado cultural, ou editados por órgãos de classe, como: A Tarde (de Antônio Lobo, um dos fundadores da Academia Maranhense de Letras), Echo do Norte (não tem nada com o jornal de título idêntico de João Lisboa, de 1834), O Estado, A Rua, São Luís e O Caixeiro.

O fenômeno se repete por esta época e tem explicação: ano eleitoral. Os jornais aparecem para apoiar certos candidatos, que geralmente, eleitos ou não, deixam de dar prosseguimento às atividades. Cumprida a missão se despedem do leitor, para depois se esquecer do eleitor.

A presença de jornais é saudável na democracia, desde que sem o fantasma da censura. A divergência de idéias é o que alimenta e reforça os princípios democráticos. Sem liberdade para informar, pensar e publicar, a imprensa perde o sentido do seu papel, como agente intermediário entre o público e o privado.

Ninguém que se iluda: sem estrutura econômica e financeira, é difícil conseguir independência, instrumento indispensável para um trabalho que dignifique a filosofia libertária que faz parte da história do jornal. Quanto ao mais, desejo a todos vida longa, pós-eleição. Bem verdade que muitos chegaram antes da temporada eleitoral, mas os princípios que move um jornal permanecem. 

Os melhores ficarão. O árbitro supremo do jornal é o leitor e não o eleitor. 

Fonte: Observatório da Imprensa, 14/7/2002

 

 

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4 - Museu da TV ganha novo espaço na Internet

O Museu da Televisão Brasileira ganha novo espaço na Internet após três anos. Agora funcionará dentro do portal Pró-TV. O primeiro site do museu foi projetado em 1999, já divulgando o projeto da Pró-TV - Associação dos Pioneiros da Televisão (na época ainda "APITE"). Por problemas internos e mudanças na empresa que o realizava, o museu saiu do ar por um tempo, deixando como promessa a atualização de seus dados.

A nova versão do Museu nasceu da parceria entre a Pró-TV e a Rede Meridional de Rádio e Televisão, que antes era responsável pelo site Canal 1 - Memorial da Televisão Brasileira. Os responsáveis pelo portal, dizem que "o Canal 1 foi uma ótima experiência para sentir o mercado da Internet e para ver qual seria a viabilidade em um investimento cultural neste universo". A experiência aconteceu de forma não-assumida por parte da rede, apenas para ver qual seria o resultado de um site feito no "anonimato".

A parceria com os pioneiros começou em junho, quando a Rede Meridional colocou no ar o site da Pró-TV. Já mantendo contando há tempos com a instituição, a idéia de ir além do pequeno portal Pró-TV consideravam um desafio. Devido a várias cartas e artigos sobre o portal - onde na definição do mesmo confundiam constantemente o site da associação com um possível site do museu - fizeram com que a decisão fosse tomada.

Assim, no dia 9 de julho - mesmo dia em que foi fundada a TV Excelsior, primeiro canal 9 de São Paulo - foi ao ar a nova versão do portal Pró-TV, já com o nome de "Museu da Televisão Brasileira". Com novo visual, mas adequado a necessidade do internauta, o portal oferece não só os itens que existiam na sua versão antiga, como novas matérias e seções. Em breve poderá ser visto o novo formato das seções que antes pertenciam ao Canal 1 e que logo passarão para o servidor do portal. Exposições virtuais serão realizadas e até mesmo o acervo poderá ser consultado. O endereço do Museu da Televisão Brasileira é o mesmo da Pró-TV (www.redemeridional.com.br/protv/).

Para colaborar com o Museu da Televisão, na versão real ou virtual, entre em contato com a Pró-TV pelo site ou pelo e-mail protv@ig.com.br. Maiores informações podem ser obtidas na seção "Colabore", no menu principal do portal.

Muito em breve sairá do papel a versão real do Museu da Televisão, que já conta com o apoio de colaboradores da Pró-TV e de instituições como a Rede Meridional, a Rede Globo de Televisão e a Agência Salles Darcy, entre outras. O Museu será construído na cidade de São Paulo.

 

 

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5 - Intercom anuncia vencedores do Prêmio Luiz Beltrão 2002

 

Já saíram os resultados do Prêmio Luiz Beltrão de Ciências da Comunicação 2002. Na categoria "Grupo Inovador", o vencedor foi o TJ Uerj On Line, produzido desde maio de 2001 pelo Laboratório de Vídeo da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Dirigido pelo professor Antonio Brasil, o site é produzido pelos alunos de Jornalismo.

A Eca-Usp foi a melhor na categoria "Instituição Paradigmática", que avalia a produção institucional de escolas, empresas, sindicatos e ONGs. A escola foi fundada em 1966.

José Benedito Pinho, doutor pela USP, foi escolhido "Liderança Emergente" de 2002. Formou-se em Publicidade em 1973 pela PUC de Campinas e vem atuando na Universidade Federal de Viçosa (MG) desde 1996, orientando teses e projetos. 

Antonio Fernando Costella é o vencedor na categoria "Maturidade Acadêmica", que ano passado tinha ficado com o professor Muniz Sodré, da ECO-UFRJ. Essa categoria avalia a obra do pesquisador. Bacharel em Direito pela USP, Costella trabalhou em diferentes universidades e hoje é Professor Titular de Legislação do Jornalismo na Faculdade de Comunicação do Centro Universitário Alcântara Machado, além de diretor editorial da Editora Mantiqueira de Ciência e Arte.

O Prêmio Luiz Beltrão de Comunicação é realizado pela Intercom. Fizeram parte do júri um colegiado de ex-presidentes da Intercom, como Manoel Carlos Chaparro, José Marques de Melo, Cicilia Peruzzo, entre outros.

Quem foi Luiz Beltrão - Nascido em Olinda (PE), em 1918, Luiz Beltrão trabalhou em redações de jornais, no ensino, na pesquisa, na divulgação, além de ter escrito ensaios e ficção. Tornou-se o primeiro doutor em Comunicação no Brasil com a defesa da tese sobre folkcomunicação, termo por ele inventado que analisa a comunicação popular sob um paradigma inédito até então. A tese foi defendida na UnB, em 1967, porém o título só lhe foi entregue em 1981.

 

Fonte: Portal Comunique-se, 15/7/2002

 

 

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6 - Relatório da ONU classifica imprensa brasileira como parcialmente livre

 

O Brasil é um país parcialmente livre quando se trata de liberdade de imprensa. A classificação é do relatório de Desenvolvimento Humano da ONU, divulgado nesta terça-feira (23/07), que avalia a objetividade da mídia e a liberdade de expressão (a avaliação varia entre 0 e 100 - quanto menor a nota, maior a liberdade de imprensa). A Noruega ficou em primeiro lugar, ganhando nota cinco, enquanto o Brasil ganhou 31.

Segundo o documento, nos últimos 20 anos, a imprensa livre conseguiu avançar graças às garantias legais e constitucionais da liberdade de expressão e à redução das restrições. Mas são poucos os países que possuem leis de liberdade de imprensa. O relatório cita dados da Ong Freedom House: só em poucas novas democracias é que a liberdade de expressão é comparável à das democracias estabelecidas. Estão na lista da FH países da Europa Central e do Leste e os países bálticos, além de vários países da América Latina e alguns da África, como Maurícias, Senegal e África do Sul. "Para serem plurais e independentes, os meios de comunicação têm que ser livres, não só do controle do Estado, mas também das pressões empresariais e políticas", diz o relatório.

 

O documento lembra que, embora em muitos países a liberdade de imprensa é garantida por lei, os governos encontram maneiras de controlar a mídia. "No Chile, o 'desrespeito à autoridade' é um crime contra a segurança do Estado e, apesar de existir a Lei de Imprensa de 2001, restrições à liberdade de expressão ainda impregnam a legislação chilena - onde as leis de difamação que o regime de Augusto Pinochet usou muito ainda estão em vigor", diz em certo trecho.

Mas a internet é uma fonte de informação alternativa, "vencendo, muitas vezes, as restrições impostas à imprensa, rádio e televisão institucionalizadas. Para milhares de iugoslavos, nos meses que levaram às eleições de setembro de 2000, a internet tornou-se a única maneira dos partidos da oposição, dos meios de comunicação independentes e dos rivais de Slobodan Milosevic se comunicarem com o público".

Um dos pontos abordados é a concentração de veículos nas mãos da propriedade privada. No Reino Unido, por exemplo, 85% dos jornais diários pertencem a grupos privados de comunicação. Nos EUA, seis empresas controlam a maior parte da mídia. Mas 60% das estações de TV de todo o mundo pertencem ao setor público. "A Televisa do México e a Globo do Brasil são dois dos maiores monopólios de comunicação do mundo, controlados por indivíduos e suas famílias, abrangendo todos os aspectos da produção e distribuição de televisão, rádio, filme, vídeo e grande parte das indústrias publicitárias dos respectivos países".

Cento e vinte e cinco países, com 62% da população mundial, possuem uma imprensa livre ou parcialmente livre. A imprensa em 61 países, com 36% da população mundial, ainda sofre sérias restrições.

Outros dados referem-se ao número de diários no mundo. Diz o relatório que, entre 1970 e 1996, praticamente duplicou a quantidade de jornais nos países em desenvolvimento. Passaram de 29 para 60 exemplares por mil habitantes. O número de TVs aumentou 16 vezes.

Ainda segundo o documento, a informação vem perdendo espaço para programas de entretenimento em estações de rádio e TV no mundo. 

A ONU defende que a mídia desempenha três papéis importantes para a formação de um governo democrático: como um fórum cívico, promovendo debates de todos os pontos de vista; como agente mobilizador; e como vigilantes, controlando abusos do poder.

 

Fonte: Portal Comunique-se, 24/7/2002

 

 

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7 - Jornalismo norte-americano revisto em livros

 

Uma nova leva de livros sobre jornalismo ganhou as prateleiras das livrarias norte-americanas recentemente. Escritos por profissionais com trajetórias distintas, os trabalhos têm pelo menos um ponto em comum: a constatação de que o jornalismo praticado atualmente está cada vez mais distante daquele com que conviveram.

Entre os novos títulos estão "The editor: how I saved The New York Times, The Washington Post and The Los Angeles Times from dullness and complacency", de Jim Bellows, "The news about the news: american journalism inperil", de Leonard Downe Jr., "Into the buzzsaw: leading journalists expose the myth of a free press", coleção com reportagens investigativas compiladas por Kristina Borjesson, e "Bias: a CBS insider exposes how the media distort the news", de Bernard Goldberg. 

Bellows escolheu título nada modesto para contar como transformou a maneira de pensar de alguns jornalistas da década de 70 como Tom Wolfe e Gay Talese. O editor imprimiu sua marca em três grandes jornais americanos ao incentivar a redação de reportagens mais subjetivas e ousadas. Não há dúvidas de que foi um dos personagens do newsjournalism.

Já Downe Jr. defende tese polêmica: o que define um jornal não são editores e repórteres, mas seu proprietário. Como exemplo de como conduzir bem um veículo ele cita Katherine Gragam, dona do Washington Post, que apoiou as investigações de Bob Woodward e Carl Bernstein no caso Watergate.

 

Kristina Borjesson fez uma compilação de grandes reportagens investigativas nos Estados Unidos com direito a prefácio assinado por Gore Vidal. A autora mostra como o trabalho de jornalistas investigativos se aproxima muito mais ao de policiais do que ao de colegas de profissão. 

No livro de Goldberg, ex-editor da CBS, não faltam acusações de que emissoras como CBS, ABC e NBC estiveram a serviço do liberalismo ao longo de décadas. "Bias: a CBS insider exposes how the media distort the news" está na lista dos mais vendidos nos EUA.

Fonte: Portal Comunique-se, 17/7/2002

 

 

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8 - Imprensa norte-americana: tendências do século XXI

 

Manoel Francisco Brito

Fonte: Jornal do Brasil, Suplemente IDEIAS, [03/AGO/2002] 

Arthur Sulzberger Jr., atual comandante do Times, durante as semanas seguintes aos ataques ao World Trade Center no ano passado, deixou que sua redação editasse a cobertura em páginas que não continham qualquer anúncio. Também não tremeu ao saber que num movimento quase que espontâneo, de raro brilho jornalístico, sua redação mobilizou 300 repórteres para escrever obituários de todos, anônimos e famosos, que morreram no atentado. Os Estados Unidos se comoveram. Coisas assim, diz Baker, vem ficando menos freqüentes no jornalismo, ''degradado pela pressão do topo para espremer margens de lucro irrealistas''.

Os novos executivos, acusa ele, têm como traço comum o total desinteresse pela prática jornalística. Na verdade, nesse universo onde rentabilidade, custos e movimentos de ações importam mais do que notícias, eles nem precisam entender de jornalismo. No cômputo geral, aponta Baker, produzem balanços espetaculares no curto prazo, produtos e empresas decadentes com o correr dos anos. Em 1995, os Chandler do Los Angeles Times, sem sucessores na família, sucumbiram aos encantos da profissionalização e contrataram um sujeito que jamais havia pisado num jornal. Seu nome era Mark Wiles, ex-aluno de Wharton e Columbia, que, no emprego antigo, dirigia uma fábrica de cereais; aliás, uma das maiores do mundo, a General Mills. Como primeira medida, fechou o Newsday de Nova Iorque, jornal onde os Chandler investiram US$ 100 milhões. A medida, oficializada como corte de custos, fez as ações da cadeia de jornais da família subirem imediatamente. Hoje, ela pode ser qualificada como uma bobagem. O Newsday, à época de seu fechamento, estava prestes a se descolar de seus dois competidores nova-iorquinos, o New York Post e o Daily News, controlando um filé num dos mercados mais importantes do país. Não foi a única bobagem de Wiles no emprego. Com as ações em baixa, a empresa em polvorosa e a credibilidade editorial abalada, a cadeia liderada pelo LA Times foi vendida à Tribune Company, uma potência da mídia cuja cadeia de jornais tem no Chicago Tribune a sua nau capitânia. Foi dele que se gerou o atual conglomerado. 

O Trib, como é conhecido pelos leitores, era um sonolento jornal até ser comprado em 1911 pelo coronel Robert McCormick, um conservador radical, porém aguerrido defensor da liberdade de imprensa. Vinte anos mais tarde, era o maior dos Estados Unidos. Foi um dos primeiros a ser dirigido por executivos profissionais. Seu desempenho financeiro, diga-se de passagem, é estupendo. Teve margem de lucro de 29% em 1999 e é considerado, há muito, uma das empresas jornalísticas mais rentáveis dos Estados Unidos. A qualidade de seu jornalismo, no entanto, não faz jus aos números. 

Ele é um bom jornal, mas há muito não faz parte da constelação de grandes produtos jornalísticos americanos. Seus executivos reconhecem o problema e lamentam sua situação, conta Baker. O editor-chefe do jornal, um dos entrevistados do livro de Downie e Kaiser, diz que paga um preço alto por manter um olho na rentabilidade e o outro no controle de custos. Acha o jornal raso e admite que cada vez mais imprime erros. Seu chefe, Jack Fuller, que dirige a cadeia da qual o Trib faz parte, concorda, mas diz que não tem planos, apesar dos excelentes resultados do negócio, de colocar mais dinheiro no jornalismo. Tem medo de investir no produto e por qualquer razão se ver pressionado pelo mercado a manter ou crescer sua rentabilidade. O único anabolizante conhecido para conseguir isto seria aprofundar o controle e o corte nos custos. Melhor deixar como está.

O problema, como insinua Baker, é que este tipo de gestão de empresas jornalísticas é ruim não apenas para o jornalismo, mas a longo prazo também para o negócio. O Trib é rentabilíssimo, mas seu futuro é sombrio. Perdendo importância, o jornal tem dificuldade de atrair novos leitores e manter os antigos. De 1978 para cá, a circulação caiu de 800 mil exemplares diários para pouco mais de 600 mil.

É fácil acusar os velhos barões da imprensa de serem homens de negócio erráticos, perdulários, que freqüentemente levam suas empresas, por mais brilhantes que sejam, à falência. A verdade é que em comparação com os atuais executivos profissionais que comandam o jornalismo americano, os barões é que eram os exímios ganhadores de dinheiro. Com raras e honrosas exceções, foram suas empresas, e a reputação do jornalismo que elas praticavam, que serviram de alicerces para a construção dos grandes conglomerados de mídia americanos.

Kay Graham, ao mandar seu jornal publicar tudo o que descobria sobre Watergate, tinha um olho na excelência editorial e outro no lançamento de ações de sua empresa no mercado. Ela sabia que, se seu jornal se tornasse absolutamente relevante, isso só ajudaria a elevar o preço das ações. Não deu outra. Graham abriu o capital da empresa em plena confusão de Watergate com um estrondoso sucesso. Hoje, The Washington Post Company figura entre as 500 maiores empresas dos Estados Unidos. The New York Times Company tem emissoras de rádio e TV e uma das importantes cadeias de jornais dos Estados Unidos. O Times faturou US$ 3 bilhões no ano passado. Seu site na internet está entre os mais visitados do mundo. Os Newhouse também não têm do que reclamar. Suas revistas são as únicas que apresentaram crescimento de circulação em 2001.

Em contraste com as agruras enfrentadas por companhias como a AOL-TimeWarner, Vivendi ou CBS, o que sobrou do baronato da mídia americana vai indo muito bem, obrigado. Num universo onde é raro encontrar alguém que não esteja em situação desesperadora, as exceções empresariais, como na prática jornalística, continuam sendo os Sulzberger, os Newhouse e os Graham. Seguem ganhando muito dinheiro e, de quebra, informando bem à república.

 

 

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9 - Livros discutem qualidade na imprensa norte-americana

 

Manoel Francisco Brito

Fonte: Jornal do Brasil, Supplemento IDÉIAS, [03/AGO/2002]

A queda de qualidade do jornalismo é tema talvez tão velho quanto a própria imprensa. Mas, de vez em quando, a discussão do assunto produz uma novidade. A última delas está sintetizada em artigo que Russel Baker, talentoso repórter e ex-colunista do New York Times, escreveu para a edição de 18 de julho da New York Review of Books examinando cinco livros recém-lançados sobre o jornalismo americano. Escorado em sua experiência e no conteúdo dos livros resenhados, ele argumenta que organizações jornalísticas tornam-se importantes não necessariamente pela qualidade de seus jornalistas ou o quilate de seu caixa. 

''A história do jornalismo é totalmente clara sobre o que diferencia os jornais importantes dos medíocres: é a qualidade de sua propriedade'', escreve Baker. ''Repórteres e editores podem discordar, mas não importa o quão esplêndida seja uma equipe editorial, um dono muito tímido ou muito indiferente ou muito pão-duro produzirá um jornal, na melhor das hipóteses, mediano.'' Por aqui, onde a discussão sobre a queda da qualidade na imprensa parece confinada à falta de dinheiro, frases como a de Baker podem parecer heresia. 

Afinal, faz muito pouco tempo que em nome do crescimento, em busca de investimentos para melhorar seus produtos e serviços, a imprensa brasileira começou a substituir seus lendários barões por executivos profissionais e a associar-se a capitais institucionais. A moda nas empresas é a reestruturação financeira e a reorganização guiadas pelos escritórios de direito societário. Para seus profissionais, a discussão de rigueur versa sobre a entrada do capital estrangeiro no setor. Dinheiro, ou investimento, como ele prefere ser chamado, faria muito bem ao negócio. Pode ser até que melhore a qualidade do jornalismo. Isso é coisa para o futuro dizer. 

Enquanto ele não chega, não custa nada, nem que seja para melhorar a qualidade da conversa, debruçar-se sobre o artigo de Baker. Ele tem o benefício de escrever com a autoridade de quem viveu esta história. Ao contrário daqui, onde a chegada desse dinheiro focado na rentabilidade e preocupado com as oscilações de ações no mercado é recente, nos Estados Unidos o processo que empurrou as velhas dinastias jornalísticas para fora de seus impérios começou há pouco mais de 40 anos. Baker afirma que o resultado dessas quatro décadas foi ótimo para algumas emissoras de TV locais, ruim para o negócio como um todo e péssimo para a qualidade do jornalismo americano. 

Da safra editorial que examina, Baker se impressiona mais com dois dos cinco livros. The last editor (Prometheus, 392 páginas), de Jim Bellows, é uma memória desse tempo em que jornalistas conviviam com patrões mercuriais, evitavam relações promíscuas com políticos e celebridades e, sobretudo, divertiam-se na profissão. The news about the news: american journalism in peril (Knopf, 292 páginas), escrito por Robert Kaiser e Leonard Downie, examina num extenso trabalho de reportagem o que aconteceu com a qualidade do jornalismo americano depois que os Pulitzer, Hearst, Chandler e Paley entregaram suas cadeias de rádio, TV e jornais a profissionais gestados nas melhores escolas de negócios dos Estados Unidos ou aderiram aos seus conceitos de administração. Como Baker, os três autores viveram intensamente as últimas décadas do jornalismo americano. 

Bellows, descobridor de talentos jornalísticos como Tom Wolfe, dirigiu a redação do Washington Star, fechado por seus proprietários em 1978, em nome da rentabilidade, quando disputava cabeça a cabeça a liderança na capital americana com o Washington Post. Downie é o atual editor do próprio Post. Kaiser, um de seus mais próximos colaboradores. Ambos trabalharam sob a caneta de Ben Bradley, o lendário editor-chefe do jornal que fez fama dirigindo a cobertura do caso Watergate. Com base no que lê nos livros e na sua própria experiência, Baker diz que o jornalismo entrou na era da melancolia. 

Ele descreve uma situação em que a profissão de jornalista não só perdeu seus encantos como foi profundamente modificada. ''Seu dever maior não é mais manter a república na condição de bem informada - ou confortar os aflitos e afligir os confortáveis, como diz o velho ditado - mas servir ao mercado de ações com um bom relatório sobre ganhos a cada três meses, ou em outras palavras, confortar os confortáveis'', diz. ''Os velhos barões da imprensa podiam ser plutocratas, excêntricos e tirânicos, mas eram estadistas se comparados aos executivos que se movem pelas chicotadas do mercado. A velha-guarda se preocupava com seus jornais e com o que a opinião pública falava deles. Ela era formada por pessoas que amavam seus jornais e vibravam com o poder sobre a vida pública que sua propriedade lhes dava. Eles podiam esquecer os balanços quando tinham grandes histórias a serem cobertas.'' 

Segundo Baker, o Post, onde trabalham Downie e Kaiser, alcançou o Olimpo do jornalismo não pela presença de Bradley e outros grandes nomes na sua redação, mas porque Katharine Graham, morta no ano passado, era a sua dona naquele momento. Anos atrás, o próprio Bradley reconheceu isso em suas memórias. Graham arriscou perder o jornal e o resto do seu império jornalístico, mas publicou cada linha do que seus jornalistas descobriam sobre o escândalo de Watergate. À época, estava prestes a lançar ações da empresa no mercado de capitais. Seus diretores achavam que tocar em Watergate poderia levar a empresa a breca.

Antes dela, Arthur Sulzberger, no New York Times, desafiou tribunais, a Casa Branca e o Pentágono. Mas em nenhum momento, apesar do pedido de demissão do advogado do jornal, contrário à decisão de seu dono, impediu o New York Times de publicar reportagens sobre os Pentagon Papers, relatórios internos dos militares americanos que comprovavam a manipulação dos resultados nos campos de batalha do Vietnam.

Nos anos 80, bem antes de vender sua cadeia de jornais a outra cadeia maior ainda que a sua, Otis Chandler insistiu para que o seu Los Angeles Times não recuasse um milímetro na cobertura que fazia sobre a poluição da cidade. Algumas dessas reportagens geraram prejuízos para os negócios do próprio Chandler. 

Baker diz, com a ajuda de Kaiser e Downie, que donos de jornais deste calibre estão desaparecendo sem deixar herdeiros e, junto com eles, a qualidade do jornalismo americano. Faz apenas exceção a quatro antigas dinastias da imprensa. Os McClatchy, que entregaram a gestão de sua cadeia de jornais a executivos que incorporaram o espírito de seus donos. Os Graham, ainda firmes no timão do Post. Os Newhouse, que, depois de passarem décadas destruindo a excelência editorial dos jornais que a família engolia, compraram a editora Conde Nast, dona de uma das jóias raras do jornalismo americano, a revista The New Yorker, mudaram de rumo e voltaram a investir na qualidade. E, finalmente, os Sulbergers, do New York Times.

 

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