JORNAL DA REDE ALCAR
Ano
2, N. 19
– 3
de julho de 2002
Editores:
José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) e Francisco Karam (FENAJ/UFSC)
realcar@metodista.br
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Rede Alfredo de Carvalho para o
resgate da memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Colaboradores desta edição:
Carlos
Eduardo Lins da Silva (SP), Rosental Calmon Alves (Texas, USA), Luiz Otavio (BH),
Luis Guilherme Pontes Tavares
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Manchetes:
1- Fundador da ABI biografado pela revista IMPRENSA
2 - Gaúchos festejam o Dia Nacional da Imprensa
3 - Cronologia da Imprensa Brasileira na década de 90
4 - Internet disponibilizará acervo de jornais antigos
5 - Restauração de 6 mil jornais raros da Bahia
6 - Reportagem histórica de John Reed tem edição brasileira
7 - O martírio do repórter Tim Lopes
8 - Carlos Dummond de Andrade, editor a distância de jornal mineiro
9 - Editoração: História de um livro da Bahia
10 - História do Brasil e do Mundo em manchetes de “O Estado de S. Paulo”
11 - Marco na Teoria do Jornalismo: livro de Nilson Lage tem nova edição
12 - Revista da FGV publica edição monográfica sobre Mídia e História
13 - Jornalismo
investigativo: 30 anos de Watergate
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1
- Fundador da ABI biografado pela revista IMPRENSA
Gustavo de Lacerda, o catarinense cujo sesquicentenário de nascimento está sendo comemorado neste ano de 2002, teve o seu perfil biográfico resgatado na edição de junho da revista IMPRENSA. Os autores dessa biografia são a professora Marialva Barbosa (UFF) e o jornalista Fernando Segismundo, atual presidente da ABI e cronista da vida daquela entidade.
A mais importante iniciativa de Lacerda, que na juventude abraçou o ideário socialista, foi a criação da Associação Brasileira de Imprensa, no início do século XX. Além de espaço destinado a aglutinar os interesses corporativos dos jornalistas, ele pensou a instituição como alavanca para a formação e o aperfeiçoamento da categoria, incluindo no seu programa inicial biblioteca, escola de jornalismo, congressos e seminários. Sua morte prematura inviabilizou a realização das metas projetadas, mas seus colegas de geração assumiram a responsabilidade de implementa-las.
Aproximando-se da celebração do seu centenário em 2008, a ABI é sem dúvida a mais importante instituição brasileira da área.
Na edição de julho, a revista IMPRENSA publica a biografia do outro Lacerda, o Carlos que se tornou o símbolo da polêmica jornalística na imprensa brasileira em meados do século passado. A autoria dessa matéria, que integra a série “200 anos da imprensa no Brasil”, é do professor Marcelo Pimentel (UMESP).
2 - Gaúchos festejam o Dia Nacional da Imprensa
Neste
sábado (1/6), comemora-se o Dia Nacional da Imprensa. Embora a data seja
importante para todos os profissionais da área, muitos órgãos e entidades
representativas vão deixá-la passar em branco. Mas a Associação
Riograndense de Imprensa (ARI) faz questão de prestar homenagem a Hipólito
José da Costa que, no dia 1º de junho de 1808, deu o pontapé inicial para o
desenvolvimento da imprensa, lançando o primeiro jornal brasileiro, o Correio
Braziliense.
A
programação inclui palestras, debates, sessão solene e lançamento do Anuário
Gaúcho das Comunicações. (Leia abaixo).
A
Associação Brasileira de Imprensa (ABI)
publicou, em seu site, texto em que lembra a importância da data e parabeniza
os jornalistas de todo o país "pela sua difícil e incansável tarefa de
manter a sociedade informada, contribuindo dessa forma para o fortalecimento da
democracia".
Um
pouco de História
O
primeiro jornal do Brasil era impresso e editado em Londres, onde Hipólito
ficou exilado, depois de ser preso em Lisboa sob muitas acusações. Circulava
por aqui clandestinamente porque a Coroa portuguesa, já instalada no
Brasil, temia a propagação de idéias libertárias francesas. Britânicos e
portugueses também recebiam os exemplares do Correio. "Resolvi lançar
esta publicação na capital inglesa devido à dificuldade de publicar obras
periódicas no Brasil, já pela censura prévia, já pelos perigos a que os
redatores se exporiam, falando livremente das ações dos homens
poderosos", justificou o fundador, segundo o historiador Nelson Werneck
Sodré, no livro "História da Imprensa no Brasil".
No
Brasil, como a maioria da população era analfabeta, poucos liam o Correio.
Suas edições tinham de 96 a 150 páginas, divididas pelas editorias:
Correspondência, Reflexões, Política, Comércio e Artes, Literatura e Ciências
e Miscelânia. Dedicava-se mais à doutrina do que à notícia.
Em
setembro de 1808, Hipólito José da Costa parabenizou o Brasil pelo lançamento
da Gazeta do Rio de Janeiro, dedicada a divulgar informações sobre a Coroa.
Era o surgimento oficial da imprensa no país.
O
jornal foi publicado até 1822. Foram 175 exemplares.
Programação
da ARI (Porto Alegre)
1
de junho
10h - Palestra com o sociólogo Roque Callage Neto no auditório da associação,
localizado na Av. Borges de Medeiros, 915;
11h30min - O jornalista Eucádio Derrosso lança o livro "Os Caminhos da
Montanha", no Bar Social da ARI
3
de junho
20h - Sessão solene em homenagem ao Dia da Imprensa. Entrega da Medalha Caldas
Júnior a Manoel Braga Gastal e Jayme Copstein, na Loja Maçônica Grande
Oriente, localizada na Rua Jerônimo Coelho, 116.
4
de junho
19h - ARI lança a edição Anuário Gaúcho das Comunicações 2002, na sede da
Famurs, situada na Rua Marcílio Dias, 574.
Fonte: Portal Comunique-se, 1/6/2002
3
- Cronologia da Imprensa Brasileira na década de 90
O Centro de Documentação do jornal “Correio Braziliense” está elaborando uma Cronologia da Imprensa Brasileira e pretende elencar os acontecimentos marcantes da década de 90 do século XX. Para essa iniciativa, solicita a contribuição dos pesquisadores da imprensa, indicando quais eventos marcaram a nossa imprensa na referida década. As informações devem ser enviadas diretamente a Vânia Maria Moreira Caldas, email: vaniacaldas@correioweb.com.br
4 - Internet disponibilizará acervo de jornais antigos
A
Online Computer Library Center (OCLC) e a Olive Software acabam de fechar acordo
para a digitalização de arquivos de jornais e a disponibilização desse conteúdo
na web. A idéia é ajudar as bibliotecas a preservar material histórico de veículos
impressos antigos, alguns deles já extintos. Artigos, fotos e páginas de diários
deverão estar disponíveis e indexados.
Segundo
o vice-presidente da OCLC, Meg Bellinger, o trabalho vai dar prioridade aos
jornais públicos dos séculos XVIII e XIX.
Depois
de digitalizar os arquivos, as bibliotecas poderão hospedar o material em
seus servidores ou em um servidor da OCLC.
O
acervo de jornais como The New York Times e Wall Street Journal
está praticamente terminado. Já o material do Washington Post e Christian
Science Monitor deve estar todo arquivado até 2003.
A informação é do Information Today
Fonte: Portal Comunique-se, 5/6/2002
5
- Restauração de
6 mil jornais raros da Bahia
Projeto para restauração de cerca de 6 mil números de jornais raros, muitos deles únicos, foi aprovado pelo Faz Cultura (Programa Estadual de Incentivo à Cultura do Estado da Bahia). O acervo pertence à Biblioteca Setorial Monsenhor Renato de Andrade Galvão, vinculada ao Museu Casa do Sertão e ao Centro de Estudos Feirenses, ambos da Uefs (Universidade Estadual de Feira de Santana). O investimento previsto é de R$ 152.384,68.
A diretora da Casa do Sertão, Lúcia Cintra, acredita na adesão de empresas patrocinadoras, devido à importância da iniciativa. A biblioteca possui uma coleção de jornais feirenses datados dos séculos XIX e XX, contendo importantes informações sobre a região de Feira de Santana. "Mas é preciso uma intervenção na estrutura física, visando a sua preservação."
Diante da situação, a equipe da Casa do Sertão elaborou o projeto Restauração da Coleção de Jornais da Biblioteca Setorial Monsenhor Renato de Andrade Galvão e conseguiu a aprovação pelo FazCultura.
O
projeto prevê também a informatização de dados referentes aos jornais,
facilitando o acesso de estudantes, professores e pesquisadores oriundos dos
mais diversos níveis de ensino que constantemente procuram a biblioteca.
Fonte: Diário Oficial do Estado da Bahia, 04.06.2002, p. 11
6
- Reportagem histórica de John Reed tem edição brasileira
Quando os conflitos na região dos Bálcãs se encontravam no auge na década de
1990, era comum a citação por analistas de uma frase escrita por John Reed em
1916: "A questão da Macedônia tem sido a causa de toda guerra importante
na Europa pelos últimos 50 anos, e até ela ser resolvida não haverá paz nem
nos Bálcãs nem fora deles. A Macedônia é a mais apavorante mistura de raças
jamais imaginada. Albaneses, sérvios, romenos, gregos e búlgaros vivem ali,
lado a lado, sem se misturar e têm vivido assim desde os dias de São
Paulo".
Essa
referência recorrente indica não só a permanência e irresolução dos
problemas balcânicos na agenda internacional como a atualidade das conclusões
a respeito deles a que Reed chegara no início do século 20. O público
brasileiro poderá agora, mais uma vez, constatar que John Reed continua a ser
uma leitura elucidativa pelo conteúdo e agradável pelo estilo, graças ao lançamento
pela Conrad Editora de "Guerra dos Bálcãs"
(de onde a citação acima foi retirada), o primeiro livro publicado pelo célebre
autor de "Dez Dias que Abalaram o Mundo".
"The War in Eastern Europe" foi originalmente editado pela Scribners & Sons em 1918, com 329 páginas e 30 ilustrações em branco e preto de Boardman Robinson (cujo trabalho também aparece na edição brasileira). O volume era composto das reportagens publicadas a partir do verão de 1915 pela revista "Metropolitan", que havia contratado Reed como seu correspondente de guerra em 1914.
Nascido
em Portland, Oregon, e educado em Harvard, Reed se tornou conhecido pela sua
militância no Partido Comunista e pela atuação na revista "The Masses".
A cobertura que fez da Revolução Mexicana para "Metropolitan" o
credenciou como um dos mais importantes jornalistas americanos, condição
reafirmada depois de ser enviado para a Europa quando a Primeira Guerra Mundial
começou. O fato de ser o mais bem pago correspondente
internacional da imprensa americana era constantemente utilizado por seus
inimigos ideológicos que o acusavam pelo que julgavam ser uma contradição
inaceitável.
Quem já leu "Dez Dias que Abalaram o Mundo" sabe que Reed não tinha o menor compromisso com a imparcialidade. Isso não impediu que aquele relato da Revolução Comunista de 1917 viesse a ser considerado por um seleto grupo de professores de jornalismo convocados para selecionar as melhores reportagens do século 20 como o sétimo melhor trabalho jornalístico do período.
As convicções políticas de Reed estão presentes em todas as páginas de "Guerra dos Bálcãs". Ele não esconde sua simpatia pelos sérvios e pela tese da "Grande Sérvia". Mas a propaganda paneslava do autor não diminui a importância histórica de seu relato nem, muito menos, a qualidade literária do seu texto.
Os grandes momentos de "Guerra dos Bálcãs" estão na descrição do cotidiano dos locais por onde Reed e Robinson passaram nos sete meses em que correram a Europa conflagrada. Nelas, sobressai o humanista Reed, que supera de longe o ideólogo: "Na agitação de invasões repentinas, resistência desesperada, captura e destruição de cidades, os homens parecem perder seu caráter distintivo pessoal ou racial e tornam-se semelhantes na insana democracia das batalhas".
A missão seguinte de Reed, após a Primeira Guerra Mundial na Europa Oriental, foi a Revolução Russa. Nela, engajou-se como militante, mais do que jornalista. Sua colaboração com os líderes bolchevistas assegurou-lhe a honra, ao morrer em 1920, aos 33 anos, de ser enterrado na Praça Vermelha. Mas foi o reconhecimento de suas qualidades de repórter que possibilitou a recuperação póstuma de seu prestígio no país em que nasceu. O leitor brasileiro tem mais uma demonstração de por que isso ocorreu.
Carlos Eduardo Lins da Silva
Fonte: Folha de S. Paulo
7
- O martírio do repórter Tim Lopes
Foi
com enorme tristeza que acompanhei no domingo as tristes noticias sobre a
confirmação da morte de Tim Lopes. Os requintes de crueldade na captura, nas
sessões de tortura e na execução do nosso companheiro mostram um nível de ódio,
uma arrogância assassina raramente vista no mundo, mesmo quando consideramos os
freqüentes casos de execução de jornalistas. Podemos imaginar que essa
crueldade arrogante dos assassinos venha da certeza da impunidade que deve
povoar a cabeça desses senhores feudais que ha anos dominam territórios do Rio
de Janeiro, acostumados a decidir sobre a vida e a morte das pessoas, enquanto
olham de cima uma cidade que consideram dominada e um sistema de segurança
publica incapaz de enfrenta-los.
Uno a minha voz ao coro de brasileiros - jornalistas ou não - que estão
clamando para que o sofrimento e a morte de Tim não tenham sido em vão. Para
isso, será necessário manter viva por muito tempo uma mobilização cívica,
exigindo não apenas o mais obvio -- que os assassinos e todos os seus cúmplices
sejam punidos exemplarmente -- mas também algo ainda mais amplo e ambicioso:
que essas republicas independentes dominadas por traficantes de drogas
assassinos sejam desmanteladas e nunca mais toleradas, como tem sido por tantos
anos. Só assim o martírio de Tim não terá sido em vão.
Em meio a dor de saber do desaparecimento do Tim, fiquei estarrecido ao
encontrar na Internet opiniões de uns poucos que se diziam jornalistas mas
demonstravam ignorância e maldade em suas analises sobre o caso. Ignorância ao
disputar a própria noção de que o assassínio de um jornalista no exercício
da profissão e sempre um ataque a liberdade de imprensa em geral. Maldade ao
tentar responsabilizar a empresa ou os chefes de Tim por forçá-lo a se expor
ao perigo, mesmo sem que tenham tido a preocupação de investigar ou analisar
as circunstancias daquela pauta e da situação da matéria. Houve ate quem
tentasse desviar o debate para a velha discussão sobre o uso de câmeras
ocultas.
O Brasil tem sido muito tímido em reagir a morte de outros jornalistas nos últimos
anos. A situação chega a ser embaraçosa porque as vezes parece haver mais reações
no exterior (onde ha organizações muito ativas dedicadas a denuncias de abusos
contra a imprensa) do que no pais. Tem havido, porem, uma grande melhoria na reação
de organizações brasileiras, como a ANJ e a Fenaj, na investigação e
denuncia desses casos. A morte do Tim adquire uma repercussão extraordinária,
que não se via ha décadas no pais em casos de ataques a jornalistas. Tomara
que isso crie também o impulso para que os jornalistas brasileiros possam
aperfeiçoar ainda mais seus sistemas de resposta a qualquer agressão a
qualquer colega em qualquer parte do pais, mesmo nas mais remotas e esquecidas.
Quando o repórter Don Bolles morreu em 1976, na explosão de um carro-bomba, em
Phoenix, no Arizona, a reação de toda a imprensa americana foi forte e
imediata, num orquestrado esforço para que não se permitisse passar a bandagem
o sinal de que um crime contra jornalista era apenas mais um crime. A reação
incluiu a mobilização de uma equipe de 40 repórteres, cedidos por vários
jornais. Eles foram para Phoenix e durante três meses levaram a cabo o
"Projeto Arizona", com o objetivo de continuar com as investigações
de crime e corrupção que estavam sendo feitas por Don Bolles e que levaram os
bandidos a assassina-lo. As 23 matérias que resultaram desse esforço foram
publicadas em todo o pais e mostraram aos criminosos que em vez de intimidar ou
silenciar a imprensa, como eles devem ter pensado que ocorreria, o assassínio
de Bolles teve um efeito oposto.
Também e importante notar que o caso de Bolles e o "Projeto Arizona"
serviram para consolidar e a organização Investigative Reporters & Editors
(IRE), que naquele momentos ainda era um tímido esforço de um pequeno grupo
para unir jornalistas de todo o pais dedicados a investigação. A IRE for o
catalizador dos esforços que resultaram no projeto Arizona e a partir dai a
organização cresceu e tornou-se um importante centro de apoio para repórteres
e editores dos Estados Unidos e de outros paises que se dedicam ao que o nosso
Tim fazia melhor: investigar aquilo que outros querem ocultar dos olhos
fiscalizadores da sociedade.
Menciono o caso de Bolles apenas como um exemplo do que aconteceu nos Estados
Unidos em um caso similar ao do Tim, mesmo quando a vitima não era de um dos
maiores jornais do pais e nem de uma de suas maiores cidades. O mais importante
para mim nesse caso foi a mobilização dos colegas, que não deixaram o crime
cair no fatal esquecimento que dentro de pouco tempo será uma ameaça inexorável
no caso do Tim. A historia da IRE ficou marcada para sempre pelo "Projeto
Arizona" e a organização dos repórteres e editores dedicados a investigação
e ate hoje um legado importante. Ela não deixa os jornalistas americanos se
esquecerem de Don Bolles e ajudou a multiplicar os Dons por todo o pais.
Tomara que os jornalistas brasileiros possam mostrar ao mundo que somos capazes
de não deixar que o martírio de Tim tenha sido em vão. Para isso, e
fundamental manter a atual pressão para que as autoridades cumpram sua obrigação
de investigar, prender, julgar e punir os responsáveis; continuar e multiplicar
as investigações que o Tim estava fazendo; seguir o esforço que Tim fazia
para expor a sociedade esses territórios rebeldes do Rio de Janeiro, pois cabe
ao jornalismo independente sensibilizar o povo para o fato de que essa situação
e intolerável; e, finalmente, tentar aproveitar esse momento para rever nossos
sistemas de defesa de jornalistas agredidos e ameaçados, criando um melhor
mecanismo para denunciar esses casos e sensibilizar a sociedade, de modo a que
nunca mais haja duvida de que o ataque a um jornalista e um ataque a liberdade
de imprensa e ao sistema democrático do qual ela e um dos pilares de sustentação.
Rosental
Calmon Alves
Austin, Texas, 10/6/2002
8
- Carlos Dummond de Andrade, editor a distância de jornal mineiro
Neste
ano de 2002, quando se comemora o centenário de nascimento de Carlos Drummond
de Andrade, o jornalista e escritor Robinson Damasceno (foto) lembra uma
faceta pouco conhecida do poeta: a de editor a distância de Cometa
Itabirano. O jornal circula em Itabira desde 1979 e recebeu
diversas colaborações de CDA até sua morte, em 1987, através de bilhetes e
cartas em que alternava sugestões e críticas aos responsáveis pela publicação.
"Drummond nos informava corretamente sobre fatos que, à época, não
conhecíamos com profundidade", diz Robinson. "E isto muitas vezes
ocorria através de reprimendas bonanchãs, alegres e descontraídas, mas sempre
com muita humildade e segurança", acrescenta.
Damasceno
revela que o poeta, além dos bilhetes com idéias e conselhos editoriais,
enviava também ao Cometa poemas, crônicas e muitos textos inéditos.
Mas lamenta que os editores, naquela época, "não tenham tido a
capacidade, uma vez sequer, de conseguir uma entrevista exclusiva com Drummond,
do tipo olho no olho". Mas justifica: "é bem possível que, mesmo que
surgisse a oportunidade para esta aventura temerária, não tivéssemos a
ousadia suficiente para concretizá-la. Mesmo porque seria o cúmulo da
cabotinice entrevistar um dos editores para o próprio jornal". Ele
salienta, porém, que Drummond sempre foi "um editor que, mesmo ausente,
nunca deixou de ser generoso e imparcial".
"Carlos
Drummond, esquecido de sua superior capacidade e estatura, juntava-se a nós, à
distância, para balizar sem censura a nossa inventividade e nossa sede de
descobrir a nós mesmos e ao nosso patrimônio cultural coletivo, que era
Itabira", continua Damasceno. "Sua colaboração foi imprescindível,
sobretudo nas críticas sobre as relações de Itabira com a empresa que sempre
foi a sua tutora mor, a Companhia Vale do Rio Doce, sempre com uma asfixiante
onipresença".
As
relações de Carlos Drummond de Andrade com o editor Robinson Damasceno tiveram
um ponto culminante em 1983, depois de resgatado o acervo de fotografias do
itabirense Brás Martins da Costa ( 1866-1937), com reproduções inéditas da
cidade natal do poeta, datadas do século 19, o que o levou a fazer sua última
viagem à cidade e a escrever o monumental poema "Terra, Imagem, Memória".
Na obra, ele faz um criterioso testamento de suas recordações. Na época,
escreveu Drummond a Robinson: "... as imagens de Itabira me emocionaram,
trazendo-me de volta um tempo que conheci quase no final. O Brás revelou-se
excelente amador, com sensibilidade e certo apuro artístico".
O
poema e as fotos de Brás estavam destinados a se transformar em livro. Drummond
recebeu o projeto e o elogiou: "...achei o projeto excelente... agora é
meter o pé na tábua e colocar o livro na rua... Fico esperando cópias
melhores das fotos, que me pareceram da melhor qualidade, tanto mais que o velho
Brás não era profissional e Itabira não comportava especialização no gênero.
Lembro-me que, em 1915, meu pai teve de apelar para um fotógrafo de Santa Bárbara,
a fim de fazer um retrato de família, que aliás saiu muito bom e foi
enaltecido pelo Manuel Bandeira...".
Em
outra carta, Drummnd mostra desalento com a idéia de se promover, em Minas, um
encontro das cidades mineradoras. Comenta com Robinson Damasceno: "... não
faço fé neste encontro, que a meu ver será puro blá-blá-blá... Enfim,
veremos, e não quero inocular nos outros o meu cepticismo... Obrigado pelo que
me diz do poema sobre o velho Brás. Publiquei-o porque perdi a esperança de
ver o livro editado aí. Acho que o Aparecido está mais interessado em ser
Ministro da Cultura do que propriamente em incentivar a cultura em Minas. E para
que você não me julgue um irremediável má-língua, paro aqui e mando-lhe um
abraço amigo".
"Estas
são mais algumas das facetas deconhecidas do multiplamente facetado Carlos
Drummond de Andrade" comenta Damasceno. "Ele nos ajudava a troco de
nada. Creio que suas relações com o Cometa Itabirano foram parte
de sua reconciliação com Itabira. É gratificante saber que e nosso jornal
ajudou nisso", finaliza.
Luiz
Otávio (BH)
Fonte: Portal Comunique-se, 15/06/2002
9
- Editoração: História de um livro da Bahia
A História da Bahia, de Luís Henrique Dias Tavares, publicada pelo Convênio
UNESP/EDUFBa em 2001, além de ser o mais abrangente, indagativo e crítico
trabalho da História da Bahia, por si mesmo tem uma história. Escrito por um
professor, pesquisador e estudioso obstinado da História do Brasil,
especialmente a da Bahia, é o historiador Luis Henrique especialista em vários
temas que integram esse livro, sobre os quais tem inúmeros trabalhos
publicados.
A história dessa obra tem início há 43 anos, quando, em 1958, o professor Luís
Monteiro, que ministrava aulas de História da Bahia na Escola Normal, solicitou
ao professor Luís Henrique Dias Tavares, jovem professor de História do Colégio
Central da Bahia e da Universidade Federal da Bahia, que escrevesse uma História
da Bahia destinada aos alunos do curso de Magistério. Reunindo leituras e
pesquisas, o texto tomou forma de livro didático, e a primeira edição foi
publicada em 1959, pela Editora Civilização Brasileira S/A. Seu autor o
apresenta ao público dizendo tratar-se de um compêndio destinado ao curso
pedagógico, podendo ser utilizado com orientação do professor no 5º ano primário.
Essa primeira edição inicia inserindo a Bahia no processo de Expansão da
Europa Ocidental e amplia sua abordagem até 1947, quando, pós-Estado Novo, os
baianos elegeram o Dr. Otávio Mangabeira para governá-los. É relevante e
inovadora a análise específica que o autor faz dos movimentos sociais baianos,
desde a Colônia até a República. Levantes, conjurações e guerras jamais
tratados nos livros didáticos integram as páginas desse livro. Para citar
alguns: O Motim do Maneta, Conjuração dos Alfaiates, Mata-Maroto, as revoltas
de Guanais Mineiro, Malês, Cemiterada, Sabinada e o “Motim da carne sem
osso”, além da Guerra de Canudos.
Metodologicamente, esse manual já é inovador, se compararmos aos livros didáticos
da época. Cada capítulo apresenta uma cronologia localizando os fatos
nacionais e internacionais que tiveram relação com a Bahia. Para melhor
adequar o livro ao público a que se destinava, o autor apresentou um vocabulário
dos termos menos correntes, além de uma leitura ilustrativa de obra
especializada ou trecho de documento histórico relevante. Ainda nessa edição,
o autor, implícita ou explicitamente, inclui em alguns capítulos um item que
ele denominou “Questões em Debate”, objetivando desenvolver no aluno o tão
discutido e necessário espírito crítico. Mostra-lhes, assim, que a História
é uma ciência, que é produzida pelo historiador e que reflete os
conhecimentos, concepções e valores de diferentes intérpretes e de épocas
diversas, por isso, não existe unanimidade de posição em várias questões
ali abordadas.
Já essa primeira edição é um livro de História metodologicamente raro, para
não dizer único, pois a sensibilidade do seu autor, o cotidiano da sala de
aula e suas inquietações ideológicas ensinaram-lhe que escrever um livro de
História não era apenas relatar os fatos, mas fazer o aluno refletir sobre o
homem e a construção da sua História. Vale ressaltar que essa edição
pioneira já apresenta uma listagem de todos os presidentes da Província da
Bahia, com seus respectivos períodos de mandato e eventuais títulos nobiliárquicos,
além de uma outra, incluindo os governadores até 1959, destacando os
interventores que ocuparam o poder pós-1930, durante e após o Estado Novo.
Essas listagens foram atualizadas e ampliadas nas outras edições, com a inclusão
daquela que relaciona os governadores e vice-reis da Capitania da Bahia e das
terras do Brasil com seus respectivos períodos de mandato, entre 1549 e 1763,
quando a Bahia sediou o Governo Geral da Colônia, bem como os governadores e
capitães-gerais dessa Capitania, entre 1763 e 1821, momento do retorno do rei
D. João VI para Portugal. Nessa listagem, o professor Luís Henrique destaca
ainda os que receberam o título de vice-rei e os que integraram Juntas
Governativas com seus respectivos títulos. Esses anexos aparentemente simples e
factuais são de grande importância para o pesquisador, quando necessita
situar-se no período histórico da sua pesquisa ou conhecer os representantes
do poder político da Capitania, Província ou Estado da Bahia, durante os períodos
históricos respectivos da Colônia, Monarquia e República.
A segunda e a terceira edições, de 1962 e 1966, ambas da Civilização
Brasileira, apresentam a mesma metodologia anterior, embora tenham sido
atualizadas e ampliadas. A terceira edição atinge 1962, quando os baianos
elegeram Lomanto Júnior para o governo do Estado. Além disso, nessa edição o
autor amplia a abordagem sobre os movimentos político-sociais republicanos,
dedicando especial atenção ao Bombardeio da Cidade (1912) e ao Quebra-Bondes
(1930).
É curioso que, já nessa época, o professor Luís Henrique, além de dedicar
um capítulo do seu livro ao africano, incluindo itens como origem, tráfico e
cultura, procure valorizar as diferentes maneiras com as quais os escravos
resistiram à escravidão, incluindo como ilustração do seu trabalho uma
planta do quilombo baiano Buraco do Tatu, ainda hoje tão ausente dos livros didáticos,
apesar do avanço das pesquisas, crescimento de publicações sobre o tema,
reconhecimento dos elementos culturais africanos e valorização das características
étnicas.
É igualmente singular que essa edição da década de 60, de maneira
completamente inovadora, sugira que o professor leve seus alunos para uma visita
a um terreiro de candomblé, indique o calendário das festas Ketu em Salvador,
demonstrando a importância de o aluno baiano ter uma “lição viva” sobre a
cultura afro-baiana, e recomende a leitura do clássico trabalho de Roger
Bastide. Os que freqüentaram as escolas médias e universidades nessa época
sabem que as “visitas técnicas” ou “aulas práticas”, tão em moda
atualmente, representavam, àquela época, grande novidade metodológica,
sobretudo quando, para essa aula, é sugerido um tema que se tratava com tanto
preconceito e desvalorização.
A quarta edição, de 1969, é da Editora Itapuã e basicamente reproduz a
anterior, certamente refletindo um período de intensas restrições à produção
intelectual crítica e inovadora. A quinta, de 1974, foi publicada pelo Centro
Editorial Didático da Ufba e parece se distanciar das anteriores, que se
destinaram claramente ao curso de magistério. Além de apresentar um novo
texto, bastante mais elaborado, decorrente de outras pesquisas desenvolvidas
pelo autor, essa edição conta com novos capítulos sobre a economia e a
sociedade da Bahia, durante os diferentes períodos: Colônia, Monarquia e República.
O capítulo relativo aos movimentos sociais na Colônia, além de ampliado,
ganhou uma importante discussão conceitual.
O autor os divide e caracteriza em duas categorias: conflitos entre colonos e
metrópole e conflitos anticoloniais. Entre os primeiros, inclui o Motim do
Maneta (1711), Motim de Dezembro (1711), Levante do Terço Velho (1728) e Prisão
dos Oficiais da Câmara (1737). Quanto à segunda categoria, apresenta a Conjuração
Baiana de 1798 como uma das mais importantes ações anticoloniais do Brasil.
Essa análise resulta provavelmente das pesquisas realizadas pelo autor anos
antes, quando publicou dois estudos indispensáveis a todos aqueles que desejam
conhecer melhor esse importante movimento social baiano: o livro As Idéias dos
Revolucionários Baianos de 1798 (Salvador, Livraria Progresso, 1960) e O
Movimento Revolucionário Baiano de 1798 (Salvador, Imprensa Oficial do Estado
da Bahia, 1961), tese de Livre Docência para a Faculdade de Filosofia da Ufba.
Os movimentos sociais do século XIX também integram essa edição, num capítulo
novo intitulado “Antilusitanismo e Federalismo”, em que o autor discute as
difíceis e conflituosas ligações entre a Província da Bahia e o governo
central instalado no Rio de Janeiro. Nessa edição, a bibliografia constitui-se
um trabalho à parte, bastante mais rica, está dividida em: obras básicas,
documentos impressos, obras gerais e estudos especiais. Devo dizer que essa
bibliografia, atualizada nas edições subseqüentes, constitui-se em consulta
obrigatória para todos os estudantes universitários, candidatos a pós-graduação
na área de História da Bahia.
Essa edição se estende até a década de 60 e anuncia a indicação, pelo então
presidente da República, general Emílio Garrastazu Médici, do Sr. Antônio
Carlos Magalhães, para o governo da Bahia no quatriênio 1971/75. Quanto às
mudanças metodológicas, essa edição, com uma abordagem mais universitária,
retira o vocabulário e cronologia por capítulo, incluindo um questionário
reflexivo, além de leituras de trechos de documentos oficiais, cronistas,
viajantes... e “sugestões ao professor”. Nessa última, o autor propõe
visitas à Cidade do Salvador, ao interior baiano, consultas a documentos históricos,
utilização ou elaboração de mapas, etc. Nas sexta, sétima e oitava edições,
(1979), (1981), (1987), publicadas pela Editora Ática, o professor Luís
Henrique mantém a mesma linha metodológica e de abordagem histórica,
estendendo sua pesquisa até 1986, quando o Sr. Waldir Pires foi eleito
governador da Bahia.
A nona edição, publicada em 2000 pelo jornal Correio da Bahia, buscará um público
mais amplo e diversificado. É um novo livro, moderno, com pesquisas recentes,
ilustrações expressivas e excelente programação visual. Além disso,
integram-na instrumentos didáticos que bem a caracterizam, um CD-ROM e um CD
com músicas que cantam a Bahia. Essa edição inovadora, comemorativa dos 500
anos do descobrimento do Brasil, inicia abordando os povos indígenas que
habitaram as “Terras da Bahia” antes da presença dos europeus e africanos.
Só depois, dedica um capítulo para a Expansão da Europa Ocidental e as
especiais condições de Portugal nesse contexto.
Quanto à abordagem histórica, esse livro apresenta outras novidades como: o
autor, no decorrer do texto, se preocupa em levantar questões ainda não
devidamente trabalhadas pela historiografia baiana, bem como faz inúmeras
indicações bibliográficas durante a exposição dos diversos temas. Essas
indicações bem demonstram a erudição de quem transita pelas obras com
conhecimento e reflexão. É importante também ressaltar que a História da
Bahia Republicana está, nessa edição, completamente reescrita, com base em
novas pesquisas desenvolvidas pelo autor nos últimos anos. Essa obra atinge a
Bahia até o seu momento constitucional de 1988. Não sendo essa edição de caráter
exclusivamente didático, o autor mantém, em anexo a cada capítulo, uma
biografia de personagem histórico relevante na época ou dados adicionais sobre
o tema abordado e, ainda as denominadas leituras, nas quais inclui trechos de
documentos oficiais, cronistas, viajantes, artigos de jornais, discursos
pronunciados na Assembléia Legislativa, etc.
A décima e última edição, publicada em 2001 pela Edufba/Unesp, é uma edição
revista e ampliada da anterior, mantendo a mesma abordagem, metodologia e
organização gráfica de qualidade. A História da Bahia, nessa edição quase
totalmente esgotada e com proposta editorial para a preparação de uma nova,
apresenta características que consideramos relevante destacar.
·
É um trabalho resultante da experiência de pesquisas e estudos
acumulados durante mais de 40 anos.
·
Constitui-se um texto de síntese, único sobre a Bahia, com abordagem
que se estende por cinco séculos, desde a apresentação dos primeiros
habitantes da terra, no momento em que os europeus nela desembarcaram, no último
ano do século XV, até o retorno do Brasil/Bahia à legalidade democrática,
com a promulgação da Constituição de 1988.
·
É um texto em que o autor procura elaborar uma análise dos episódios
ligados à História da Bahia inserindo-os no contexto nacional e no
internacional e buscando sempre compreendê-los dentro de ampla articulação.
·
Em uma primeira leitura, destacam-se imediatamente as abordagens políticas
e socioeconômicas. No entanto, sem dificuldade, constatamos o tratamento
cultural que o autor dá a certos assuntos, como, por exemplo, às temáticas
dos povos indígenas e das nações africanas, bem como a imposição da cultura
portuguesa através de diversos instrumentos, o papel da Igreja Católica na
Bahia colonial ou mesmo a Guerra de Canudos, explicando sua origem na “enorme
distância física e nas diferenças culturais” entre o litoral e o sertão
baiano.
·
O texto, em vários capítulos, contém dados para o estudo da vida
cotidiana em Salvador e no interior da Bahia. Aí está o povo, o homem comum, o
negociante de armazém aberto, o pequeno comerciante varejista, os ambulantes
livres, libertos ou escravos, os soldados das tropas regulares e de linha, os
escravos com sua ampla diversidade. Também estão aí, claramente defendendo
seus interesses, os grandes proprietários de terras, comerciantes de grosso
trato, altos funcionários públicos, administrativos, judiciários, eclesiásticos
e representantes do poder local, integrantes das Câmaras Municipais.
·
Também fazem parte do cotidiano os registros que o autor dispensa às
preocupações das diferentes camadas sociais: o pagamento dos impostos, o preço
dos alimentos, a escassez de certos produtos do uso constante, as epidemias que
se abatiam sobre a população e tantas outras.
·
Localizamos ainda, ao longo desse livro, dados relativos à vida
cotidiana do Recôncavo baiano, do além-São Francisco, da Chapada Diamantina
ou do Sul da Bahia. Em vários temas abordados, da Colônia até a República de
1988, o autor analisa as relações sociais, as formas de sociabilidade, a
circulação das idéias nos movimentos revolucionários, os hábitos das
diferentes camadas sociais, bem como esporadicamente recompõe cenários urbanos
e rurais em diferentes épocas e locais.
·
Temas da especialidade do autor, como a Conjuração Baiana de 1798, o
singular processo de separação entre Brasil e Portugal e as implicações políticas
e econômicas ligadas ao tráfico de africanos para a Bahia, merecem leitura
mais atenta pelas múltiplas novidades que apresentam.
Por tudo isso e muito mais que aqui deixou de ser analisado, em virtude das próprias
imposições de um comentário para jornal, consideramos que esse livro tem uma
história e marca um momento na historiografia baiana. É uma síntese, mas não
só isso; é uma abordagem política e socioeconômica, mas não apenas isso; é
um livro que indica uma rica bibliografia, e muito mais, levanta polêmicas e
propõe novas pesquisas. Roguemos, nós todos, historiadores baianos do século
XXI, cada qual aos seus deuses, e esforcemo-nos para que um dia possamos
escrever com a lucidez, determinação e competência do Prof. Luís Henrique
Dias Tavares um livro como esse.
Maria
José de Souza Andrade
Fonte:
A Tarde, Salvador, 15.06.2002
10 - História do Brasil e do Mundo em manchetes de “O Estado de S. Paulo”
Realizou-se
em São Paulo na semana de 17 a 21 de junho uma mostra fotográfica que vai
relembrar boa parte da história do mundo e do Brasil por meio de algumas
manchetes publicadas no Estado desde 1875, ano da fundação do jornal. Quem for
ao Centro Empresarial de São Paulo, quando a exposição 13 Décadas do Estadão
permanece aberta ao público, poderá ver como fatos marcantes como a Proclamação
da República chegavam às mãos dos leitores brasileiros no fim do século 19.
E acompanhar a evolução deste trabalho ao longo de 127 anos.
Organizada
pelo Sindicato da Habitação (Secovi), a mostra traz painéis fotográficos
divididos por décadas. Em cada um, duas manchetes e duas fotos da cidade
mostram um panorama de São Paulo no período. Nos casos em que foi possível,
os expositores utilizaram imagens representativas da arquitetura.
Parte
das fotos é da Agência Estado.
O
Secovi desenvolveu a exposição como parte de uma outra idéia: mostrar a história
do mercado imobiliário. No primeiro módulo do projeto foram expostas imagens
de Alphaville e de anúncios antigos da Companhia City.
Nos
próximos, os organizadores pretendem mostrar a história dos shoppings e das
ferrovias. Depois de dez módulos, o projeto se transformará num livro.
A
exposição sobre o Estado pode até tornar-se uma mostra independente.
"Talvez
nós possamos montar onde houver um convite", diz o diretor de Publicidade
do jornal, Marcos Nogueira de Sá.
Fonte:
Jornal O Estado de S. Paulo, 17/06/2002
11
- Marco na Teoria do Jornalismo: livro de Nilson Lage tem nova edição
O
livro "Ideologia e Técnica da Notícia", do professor e pesquisador
Nilson Lage (EdUFSC e Insular, 2001, 160 págs., R$ 20), é uma obra de referência
para jornalistas, pesquisadores, professores e estudantes de comunicação. É
um título que já nasceu clássico, pois, 22 anos após a sua primeira edição,
continua extremamente atual.
Nilson
Lage faz uma pesquisa abrangente e apresenta uma análise original e crítica do
jornalismo, dos meios de comunicação e da notícia. A obra do professor da
UFSC respalda-se em sólidos fundamentos teóricos e filosóficos, mas também
ampara-se na prática de quem atuou nas redações. O seu colega no Curso de
Jornalismo, Eduardo Meditsch, autor de "O rádio na era da informação"
(EdUFSC/Insular), define o livro como “um marco na Teoria do Jornalismo”.
Lage, segundo ele, “juntou a sua base científica com a sua vivência
profissional e compreensão do papel social do jornalismo para produzir um
estudo consistente e útil sobre a notícia”.
Abrindo
“um novo campo de investigação acadêmica no país (a Teoria do
Jornalismo)”, a obra permitiu, por exemplo, ao professor Adelmo Genro Filho,
que foi uma espécie de divisor de águas no Curso de Jornalismo da UFSC, lançar
a proposta de estudar o jornalismo como “forma de conhecimento”. Adelmo
escreveu em 1987 o livro "O segredo da pirâmide", onde rebate alguns
dos pontos de vista formulados por Lage. “Adelmo morreu cedo – era jovem –
e não tive oportunidade nem de trocar idéias com ele”, lamenta.
"Ideologia
e Técnica da Notícia" foi lançado, sem grandes badalações, pela
primeira vez em 1979. O texto é resultado da dissertação de mestrado
defendida em 76 na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de
Janeiro. A terceira edição vem com breves acréscimos e atualizações em
alguns capítulos. A sensação de Nilson Lage será, certamente, compartilhada
pelo leitor: é “a sensação de que tudo mudou, mas tudo continua a mesma
coisa”.
Além
de clássica, a obra ressurge com a marca da polêmica. Embora esgotada, os
leitores continuaram se multiplicando. A prova, de acordo com Lage, são as críticas
que provocou: “algumas veementes, e não se critica o irrelevante”. O autor
também explica a demora para a reedição: “Porque estava ocupado com outras
coisas. Mais com semântica do que com sintaxe. Mais com o acompanhamento dos
avanços tecnológicos da imprensa do que com as questões gerais de semiologia.
Mais em difundir conhecimento do que em aprofundá-lo”.
Todas
essas preocupações foram, contudo, incorporadas, de forma sucinta, ao livro.
Por exemplo, duas décadas depois, “a indústria gráfica sofreu uma revolução,
devida principalmente à generalização do uso do computador”. Lembra que
“coexistiam na imprensa brasileira as formas mais avançadas e as mais
primitivas, ou artesanais, de fabricar periódicos”. Esclarece que “a
imprensa já existia como possibilidade material muito antes da exigência
social que a fez brotar”. Lage lança dúvidas sobre a originalidade dos
inventos atribuídos a Gutenberg, observando que “razões mais profundas
relacionam-se com a ideologia da narrativa histórica”, enfim, com a notícia.
“De qualquer forma, a invenção da Imprensa está na pré-história dos periódicos”,
informa.
Primor da observação
Teorizando
com a mente na academia e os pés no chão das redações, Lage ministra história
e realidade. Fala de comunicação, da descoberta da “imensa potencialidade do
texto escrito como instrumento de propaganda e informação”, sublinhando que
“a liberdade de expressão do pensamento somou-se, na luta contra a censura,
às outras liberdades pretendidas no ideário burguês, e o jornal tornou-se
instrumento de luta ideológica, como jamais deixaria de ser”.
Ao
fazer um relato histórico, o autor, refere-se ainda ao duplo papel desempenhado
pela publicidade. “Por um lado, permitiu a rebaixa do preço do exemplar,
colocando os jornais mais facilmente ao alcance da população recém-alfabetizada.
Por outro lado, integrou profundamente a empresa jornalística com o setor econômico
que lhe passou a garantir a sobrevivência”. Esta constatação pode levar ao
fato de que, ainda hoje, a realização de uma boa reportagem depende do
“necessário interesse” da indústria em produzi-la. “Eventualmente por
questão de sobrevivência na luta pela conquista de leitores ou de prestígio”,
acredita Lage.
Quando
penetra no tema central do livro, isto é, “ideologia e técnica da notícia”,
o pesquisador esmiúça o conceito de objetividade que “consiste basicamente
em descrever os fatos tal como aparecem”, o que significa, em outras palavras,
“o abandono consciente das interpretações, ou do diálogo com a realidade,
para extrair desta apenas o que se evidencia”. Sendo assim, ilustra Lage, “a
competência profissional passa a medir-se pelo primor da observação exata e
minuciosa dos acontecimentos do dia-a-dia”.
Esta
forma, contudo, ofereceu “certas vantagens”, entre as quais Lage cita “o
compromisso com a realidade material, a aceleração do processo de produção e
troca de informações e a denúncia das fórmulas arcaicas de manipulação”.
Afinal, como salienta, “a reiteração ideológica teria que ser feita por
outros meios, e estes foram supridos por novas formas de produção de informação”.
Liberdade do capital
A
grande imprensa brasileira, conforme diagnostica o pesquisador, é uma imprensa
de elite. O fato leva à seguinte conclusão: “embora às vezes graficamente
primorosa, os grandes jornais brasileiros seriam bastante eficientes do ponto de
vista editorial, distantes do leitor, preocupados demais em servir à complexa
ordem do poder”. Seriam? Logo adiante Lage deixa de lado a hipótese para
noticiar que “os grandes idealismos políticos, a crítica e o humor, que
estavam em alta há 20 anos, praticamente desapareceram como focos de leitura
inteligente”.
Collor
à parte, o pesquisador sustenta que “para o bem ou para o mal, nunca se
denunciou tanto, e nunca foram tão inúteis as denúncias”. Lage vai além:
“também nunca se exaltou tanto a modernidade cosmopolita contra o
conservadorismo nacional e o popular; ou se mostrou tão unânime o discurso da
mídia – submissa a uma espécie de onda que varre o mundo, define como simpáticos
ou condena aqueles que tentam resistir”. Diante desse quadro, o autor denuncia
que “a liberdade, hoje sabemos, é do capital. E a verdade impressa também
lhe pertence”.
O
escritor revela, didaticamente, que “a primeira coisa que um jornal informa é
sua ideologia”, assinalando que “num grande diário, será a ideologia de um
segmento econômico bastante forte para suportar os custos”. Portanto, alerta,
“só os ingênuos acreditam que não têm interesses capazes de levá-los a
deturpar fatos”. Em suma, complementa, os jornais encontram-se numa furada:
“são veículos de ideologias práticas, mesquinharias”.
Ainda
na opinião de Lage, o jornalismo é como a política, “uma arte do possível,
e como a filosofia, o cenário de uma luta em que a materialidade do mundo
termina por se impor. O compromisso com esse aspecto material, real, do fato
compõe um aspecto renitente, espontâneo e positivo do modo de ser dos
jornalistas”.
Lage
também faz ciência e conhece da arte. “Se o campo de conhecimento é novo e
se propõe um objeto muito extenso, é provável que o cientista crie uma
realidade ilusória com base nos seus critérios particulares de verdade”. Daí
a conclusão: “não há ciências reacionárias, mas usos historicamente
reacionários das ciências”.
Lage,
sem dúvida, promove a Teoria do Jornalismo, mas também dá alimento à
ideologia.
Moacir
Loth
Fonte: Portal comunique-se, 19/6/2002
12
- Revista da FGV publica edição monográfica sobre Mídia e História
A revista Estudos Históricos está recebendo artigos para a publicação de um número temático sobre Mídia e História.
Estudos
Históricos é uma revista semestral multidisciplinar dedicada à História, à
Historiografia e, mais particularmente, à História do Brasil. Ela é publicada
ininterruptamente pelo Centro de Pesquisa e Documentação de História
Contemporânea do Brasil, Cpdoc, da Fundação Getulio Vargas, do Rio de
Janeiro, desde 1988, e abre espaço para a publicação de trabalhos de
pesquisadores da comunidade acadêmica nacional e internacional, em sua maioria
das áreas de História e Ciências Sociais.
Serão
aceitos somente trabalhos inéditos sob a forma de artigos, entrevistas e
resenhas de livros, relacionados preferencialmente aos temas privilegiados nesta
edição:
A
mídia em perspectiva histórica.
Mídia
e instituições democráticas.
Mídia
e representação.
Mídia,
recursos de poder e regulação.
Mídia,
jornalismo e intelligentzia.
Retóricas
da mídia e recepção.
O
prazo final para a entrega dos originais é 31 de dezembro de 2002.
Os
textos submetidos para publicação deverão ser digitados em Winword, fonte
Times New Roman 12, espaço duplo, formato de página A-4. Nesse padrão, o
limite dos textos será de 30 laudas (ou aproximadamente 50 mil caracteres com
espaços) para artigos e 5 laudas para resenhas, incluindo-se as notas e referências
bibliográficas.
Todo artigo enviado à revista deverá conter dados sobre o autor (funções que exerce, áreas de interesse, últimas publicações, endereço eletrônico ou de correspondência, etc.) e deve ser enviado por e-mail para o seguinte endereço: eh@fgv.br.
Ou
por correio para:
Fundação
Getúlio Vargas /CPDOC
Secretaria da Revista Estudos Históricos
Praia de Botafogo, 190 , 14º andar
22.253-900 - Rio de Janeiro – RJ
Maiores informações sobre Estudos Históricos podem ser obtidas no site da revista: www.cpdoc.fgv.br/revista/
Saiba mais sobre o Cpdoc em www.cpdoc.fgv.br
13
- Jornalismo investigativo: 30 anos de Watergate
Completou
30 anos no dia 17 de junho — e não no dia 16, como alguns jornais mais
interessados na pirotecnia do mercado proclamaram — que uma patrulha da polícia
local de Washington descobriu uma operação de espionagem no escritório
eleitoral do Partido Democrata. Com esse episódio, a princípio de menor importância,
começava o que provavelmente constitui o confronto mais claro que aconteceu
entre o poder político e um meio de comunicação: Watergate. Desde que o
presidente Nixon se viu forçado a pedir demissão em agosto de 1974 como conseqüência
dos escândalos posteriores ao acontecimento, o nome desse hotel no distrito de
Columbia ficou registrado de maneira indestrutível na história, mas também na
mitologia do jornalismo mundial. Watergate é o símbolo da independência da
imprensa diante do poder político e uma advertência sobre o papel dos jornais
em uma democracia, que são responsáveis também por desvendar corrupções e
jogos sujos. Desde então, se afirmou a posição do jornalismo como um
‘‘poder paralelo’’.
Durante
três décadas, a imprensa de modo geral, e a norte-americana em particular,
experimentaram uma transformação importante. Desde as mudanças tecnológicas
às implantadas na estrutura dos jornais, tudo ou quase tudo parece diferente. A
concorrência com os novos instrumentos de comunicação eletrônicos fez com
que os jornais diminuíssem o peso de suas reflexões ao mesmo tempo em que
aumentavam o número de suas páginas e potencializavam a inclusão da cor em
suas fotografias, primeiro nos anúncios, mais tarde na informação. Algumas
publicações míticas, como o Times, de Londres, mudaram sua séria aparência
de qualidade pela vestidura alegre do sensacionalismo, enquanto a imprensa
vespertina se afligia em muitos países, vítima das horas dedicadas por seus
eventuais leitores à televisão. Mais tarde apareceram os suportes digitais,
com a conseguinte fragmentação da audiência, e a Internet, com sua vocação
de universalidade individualizada.
Tudo
isso levou a uma acelerada e crescente concentração das empresas jornalísticas,
que ultrapassou em seguida a propriedade dos meios de comunicação para
misturar-se, de forma desordenada, com a dos sistemas de lazer e entretenimento.
O tamanho começou a ser uma condição de sobrevivência, e a tradição de
propriedade familiar no setor se perdeu com a inclusão dos mais importantes
jornais do mundo na lista das empresas cotadas. O Washington Post acabava de
sair ao mercado de capitais precisamente na mesma data em que sua acionista de
referência, Katherine Graham, que tinha herdado o diário do marido, teve que
enfrentar numerosas pressões tendentes a frear os repórteres do jornal responsáveis
por investigar práticas de delitos na Casa Branca. Os advogados e gerentes do
Post não deixaram de avisar sobre os perigos que trazia um confronto aberto com
o poder, que acabaria ocasionando prejuízo aos acionistas, afetando o mercado
publicitário e arriscando a renovação das licenças de televisão que a
empresa mantinha.
A
senhora Graham, que vinha enfrentando há mais de um ano as decisões referentes
aos famosos papéis do Pentágono, não duvidou, mesmo assim, em apoiar as teses
do diretor Ben Bradlee e sua equipe de redatores de continuar com a investigação
e publicação dos fatos. O argumento que sustentava sua decisão era bem
simples: um jornal é uma empresa mercantil, e como tal tem um dever para com
seus clientes, mas também é um órgão de opinião pública, e sua obrigação
é servir, antes de mais nada, aos cidadãos. Essa a filosofia que então
triunfou, da qual se orgulharam milhares de jornalistas de todo o mundo durante
estes trinta anos e sobre cujo transcorrer nos obriga a perguntar hoje, diante
das modas em voga, as novas realidades e as diferentes ameaças que sobre a
liberdade de expressão se impõem — não poucas delas em nome da guerra sem
quartel contra o terrorismo.
Bill
Kovach e Tom Rosenstiel são dois jornalistas e experts em comunicação que se
dedicaram durante os últimos cinco anos a estudar essas questões. Conversaram
com centenas de colegas, leitores, empresários, anunciantes e cidadãos comuns,
recolhendo opiniões, impulsionando debates e tratando de descobrir, em meio à
polêmica, quais seriam os elementos do jornalismo, a matéria-prima fundamental
que, como o fogo, a água e a terra para os mais antigos, resumem os fundamentos
da existência da nossa profissão. Sua experiência, recolhida em um livro
publicado há alguns meses, realça que o jornalismo de hoje, incluídas as
transformações que a Internet oferece, continua tendo princípios básicos que
o identificam como profissão. Afastar-se deles é desertar da própria condição
de jornalista.
Essas
normas estão recolhidas em um decálogo de nove itens que não resisto em
reproduzir aqui: ‘‘1. A primeira obrigação do jornalismo é a verdade. 2.
Sua primeira lealdade é com os cidadãos. 3. Sua essência é a disciplina da
verificação. 4. Seus profissionais devem ser independentes dos acontecimentos
e das pessoas sobre as que informam. 5. Deve servir como um vigilante
independente do poder. 6. Deve outorgar um lugar de respeito às críticas públicas
e ao compromisso. 7. Tem que se esforçar para transformar o importante em algo
interessante e oportuno. 8. Deve acompanhar as notícias tanto de forma
exaustiva como proporcionada. 9. Seus profissionais devem ter direito a exercer
o que lhes diz a consciência’’. Seria difícil citar mais frases sobre os
direitos e deveres do jornalismo profissional nos nossos dias. Claro que esses
nove mandamentos se resumem facilmente em dois, pois desde as tábuas de Moisés
não existe decálogo com o qual não se possa fazer algo do estilo; o
jornalismo deve ser verídico e independente.
Nessa
frase tão simples se resume toda a essência do nosso ofício. Ser verídico
significa que efetivamente os jornalistas têm que contar os fatos tal como
aconteceram, não devem manipular os dados, nem ressaltá-los de acordo com seu
desejo; têm que ser rigorosos na verificação, exaustivos nas provas,
exigentes nos matizes. E têm, principalmente, que saber reconhecer seus erros e
enganos, e estar dispostos a padecer por eles. Serem independentes equivale a
que tenham consciência do papel social que seu trabalho implica; a não
manipular a verdade que conhecem devido a pressões ou conveniências do poder;
a não misturar suas opiniões ou interesses pessoais com os dos leitores; a não
mudar sua condição primária de testemunhas pela de juízes; a ser críticos,
debatedores, polêmicos e brilhantes sem que a paixão pelas palavras lhes
distancie da primeira paixão pela verdade, devendo usá-las para as iluminar
melhor e com mais luz.
O
aniversário de Watergate é uma festa para todo democrata, e uma boa
oportunidade para refletir sobre os pontos aqui mencionados. Tanto ou mais que
os partidos políticos e a representação parlamentar, a liberdade de expressão
é condição básica para o estabelecimento de democracias prósperas e sólidas.
Essas são questões óbvias muitas vezes esquecidas pelo poder, que tende à
auto-satisfação e ao onanismo, se resguardando nos votos recebidos antes que
honrando o livre arbítrio daqueles que os proferiram.
Eu
estive com Nixon anos depois do escândalo, quando ele publicou um livro de sua
autoria na Espanha. Pareceu-me um homem amargurado, rancoroso e rústico,
incapaz de entender que a glória do êxito da sua política exterior poderia
ter se manchado pelas sujas manobras que usou para ganhar e desacreditar seus
adversários políticos. Jantei com Ben Bradlee e uns amigos semana passada em
Paris. Com seus 80 anos, estava radiante de juventude e felicidade e brincava
como um garoto quando nos falava sobre a verdadeira identidade do garganta
profunda, a fonte primordial das revelações do caso. Algum outro entre os
presentes comentou o destino pessoal dos dois heróis da história, os
jornalistas Bernstein e Woodward. O primeiro chegou a ser o pop da profissão, dá
conferências e escreve livros, alguns tão apaixonantes como Su Santidad, a
biografia do papa Wojtyla, texto no qual submergi por recomendação de Gabriel
García Márquez e que recomendo a todo aquele que se interesse pelas misérias
do poder temporal da Igreja. Woodward continua trabalhando como repórter,
aparentemente com o mesmo entusiasmo e decisão de jovem, o que lhe converte em
um dos mais temidos e apreciados jornalistas da cidade.
Durante
muito tempo, sendo muito importante a contribuição do Caso Watergate à história
da imprensa e da liberdade em geral, pensava na sua mitificação, que havia
gerado muitas desgraças. Entre as maiores está a obsessão de alguns colegas
meus por derrubar e eleger presidentes a seu gosto, missão do jornalismo que não
encontrei escrita no código moral incluído acima. A decidida vocação de
grande parte da imprensa espanhola em intervir ativamente nas brigas e conspirações
do poder, colocando em jogo, de forma descarada, interesses da empresa ou dos
jornalistas que tomam as decisões, é o que permite que se mantenha seu caráter
provinciano e atípico, marginal, no panorama geral dos meios de opinião pública
europeus. Outra marca não menos importante é a perversão não justificada que
acabou por se desenvolver no jornalismo de investigação e de que as cadeias de
televisão nos mostram diariamente exemplos lamentáveis.
O
jornalismo de investigação não pode transformar os jornalistas nem em espiões,
nem em acusadores. Muito menos em ladrões. A invasão indiscriminada e abusiva
da vida privada que muitas vezes se comete jurando falso em nome da livre
expressão, o recurso à utilização de métodos que em uma democracia sadia
devem estar reservados à prevenção e decisão judicial, como são as gravações
clandestinas, a provocação de cometer irregularidades e corrupções para
assim demonstrar sua existência, a utilização do engano e da mentira como métodos
de trabalho, são coisas que permitem supor que alguns jornalistas, desses que
se tornam até agressivos, estão convencidos de que o fim justifica os meios.
Essa é a raiz e a essência do pensamento totalitário, de que, se queremos que
o jornalismo do futuro siga cumprindo o seu papel social, devemos fugir como se
fosse a peste de semelhantes aberrações profissionais.
A
história de Watergate, a de seus protagonistas, deve nos ajudar nisso também:
apreciar a difícil humildade com que é preciso exercer nossa tarefa, aprender
a nos separar dos ocupantes dos palácios e descer dos balcões e tribunas de
onde nos acena o poder. No final das contas, o êxito do Washington Post, sua
contribuição a uma mudança de rumo na história política da humanidade, se
deve em grande parte à perspicácia e à persistência profissional de um repórter
dedicado à informação local com bons contatos na delegacia de plantão.
Seguir observando isso é a primeira obrigação de todo aquele que desempenhe o
ofício de jornalista. Tudo mais — a grande filosofia deste tema, o das importâncias
e reverências, a vaidade do triunfo e a pretensão do pensamento — vem
depois, a reboque de uma sucinta nota policial.
Juan
Luis Cebrián
Fonte: Correio Braziliense . Reproduzido pelo Portal Comunique-se, 21/6/2002