JORNAL DA REDE ALCAR
Ano
2, N. 18
– 4
de junho de 2002
Editores:
José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) e Francisco Karam (FENAJ/UFSC)
realcar@metodista.br
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Rede Alfredo de Carvalho para o
resgate da memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Colaboradores desta edição:
Luiza
Nóbrega (PE), Luiz Guilherme Pontes Tavares (BA), Loreta Valadares (BA), Luiz
Octávio (BH), Simone Ribeiro (BA),
Adriana del Ré (SP), Ricardo Bonalume Neto (SP), Carlos Vogt (SP), Mauro Dias
(SP)
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Manchetes:7
2 - Odylo Costa, filho, na série histórica da revista Imprensa
3 - Perfil biográfico de Luiz Beltrão repercute na cidade do Recife
4 - Historiador galego analisa primeiro século da imprensa baiana
5 - Sentinela da Liberdade volta a circular em Salvador
6 - Cinema, fator de integração na Bahia dos anos 20
7 - Livros prestam tributo à grande reportagem
8 - Família Mesquita ingressa no ramo televisivo
9 - Imprensa do povo: cordel remoçado
10 - História das Histórias em Quadrinhos: o acervo da USP
11 - José Reis, paradigma brasileiro do jornalismo científico (1907-2002)
12 - José Reis: o semeador, o cientista e o poeta
13 - Revisando a Trajetória de Historiadores Brasileiros
14 - Barão de Itararé, renovador do texto humorístico brasileiro
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1-
Redealcar
em Pernambuco
A
Profa. Maria Luiza Nóbrega, docente do Departamento de Comunicação da UFPE
– Universidade Federal de Pernambuco – reafirma a adesão daquela instituição
à Rede Alfredo de Carvalho. Ela participou, em Porto Alegre, do Encontro
promovido pela RedeAlcar durante o Fórum dos Professores de Jornalismo,
dialogando com a Profa. Dr. Marialva Barbosa sobre as pesquisas concluidas ou em
fase de pesquisa documental, sob a sua orientação:
Pereira
da Costa
– A pesquisa sobre a produção jornalística do pioneiro da
pesquisa histórica sobre a imprensa pernambucana já estão concluída. O
projeto foi desenvolvido com a participação de uma equipe de alunos da graduação
em Jornalismo, bolsistas de iniciação científica. O livro contendo os
resultados do estudo já está no prelo – Editora Bargaço – aguardando o
patrocínio do Arquivo Público do Estado.
Publicidade - “Estou terminando o livro 100 anos de Publicidade na Mídia Impressa de Pernambuco (1900-2000), com o apoio do PIBIC-UFPE que bancou o bolsista. O livro se baseia no material recolhido nas páginas do Jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco. Aproveitei esse livro para dar um primeiro passo na aproximação entre nossas escolas, profissionais do mercado e meus alunos, produzindo assim uma obra conjunta. É mais um passo no sentido de estimular a cooperação entre todos.”
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2
- Odylo
Costa, filho, na série histórica da revista Imprensa
A
revista IMPRENSA de maio (edição número 171), que circula nas bancas de todo
o país, dedica o encarte da série 200 anos da imprensa brasileira ao
jornalista maranhense Odylo da Costa, filho. Trata-se de um projeto coordenado
por José Marques de Melo, idealizador da Rede Alfredo de Carvalho.
O
texto sobre Odylo foi escrito pelo Prof. Dr. Antonio Teixeira de Barros, docente
da UnB e do CEUB – Centro Universitário de Brasília. A pesquisa biográfica
foi realizada com a colaboração de Maria Lúcia Costa de Almeida e Juliana
Andrade Lima.
Os interessados podem obter informações sobre a revista, consultando o sítio digital - www.revistaimprensa.com.br
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3
- Perfil
biográfico de Luiz Beltrão repercute na cidade do Recife
Personagem
biografado pela revista IMPRENSA no início deste ano, na série 200 anos da
imprensa no Brasil, Luiz Beltrão foi tema do artigo publicado pelo professor
Fernando Antonio Gonçalves na página de opinião do “Jornal do Commércio”
do dia 10 de abril de 2002.
A
ênfase do comentário está no pioneirismo intelectual de Luiz Beltrão, no
ensino e na pesquisa das ciências da comunicação, formando novas gerações
de jornalistas e desvendando as fronteiras de uma nova disciplina científica, a
Folkcomunicação. No próximo ano de 2003, o país comemora os 40 anos de criação
do primeiro centro universitário da pesquisa comunicacional brasileira, o
ICINFORM – Instituto de Ciências da Informação, fundado por Luiz
Beltrão em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco.
Vale
a pena transcrever os trechos finais daquele artigo:
“Antecipador
por excelência, o Luiz Beltrão foi apontado (...) como um talento que
acreditava que o jornalista deveria ser possuidor de uma formação universitária,
mesmo que não fosse em jornalismo. Sua tese Liberdade de Imprensa e formação
profissional, em 1953, fez detonar debates apaixonados.
“Um
talento Pernambuco, o Luiz Beltrão, que muito engrandeceu a história maurícia,
que possui uma caminhada que não deve ser abandonada ao relento pelos que
imaginam estar tudo por aqui aos trancos e barrancos, sem eira nem beira, os
aloprados de costume.”
Recorde-se que Luiz Beltrão é o hoje o patrono do principal prêmio brasileiro das ciências da comunicação, outorgado anualmente pela INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdsiciplinares da Comunicação a entidades e personalidades que fazem contribuições relevantes aos estudos comunicacionais.
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4
- Historiador galego
analisa primeiro século da Imprensa baiana
Transcorrem no dia 14 de maio de 2002
os 191 anos da instalação da Imprensa na Bahia. A data se refere à estréia
em 1811 do periódico A Idade d’Ouro do Brazil, impresso na Tipografia de
Manoel Antônio da Silva Serva, a primeira da Bahia, que fora inaugurada na véspera.
O Núcleo de Estudos da História dos Impressos na Bahia - Nehib -, criado em
2001 com o apoio da Associação Bahiana de Imprensa, homenageia a data com esta
resenha. O professor José Augusto Ventín Pereira, da Faculdade de Ciências da
Informação da Universidade Complutense de Madri, escreveu o livro Los primeros
cien años de la empresa informativa en Bahía.
Trata-se de estimável contribuição
ao estudo da história de nossa imprensa. O Nehib possui cópia em cd-rom do
livro, pois a edição em papel (356 páginas, organizadas em sete capítulos),
publicada pela Fragua, de Madri, está esgotada. Natural da Galícia,
Espanha(1), Ventín Pereira é diretor do Instituto Universitário de Comunicação
Radiofônica da Complutense e autor, dentre outros, do livro Empresa
informativa. Introducción a la teoria de la decisión, publicado em 1994 pela
mesma Fragua. Descende, segundo informa, do primeiro donatário da capitania da
Bahia, Francisco Pereira Coutinho. Na ascendência mais recente, seu avô, José
Augusto Ventín Duran, e seu pai, Daniel Ventin Cabadas, viveram na Bahia e
levaram para a Espanha livros e periódicos que ele utilizou.
Na dedicatória de Los primeros cien años..., o
professor Ventín Pereira esclarece que “con este trabajo, estoy intentando
devolver una mínima parte de lo que Bahia dio a mi familia, a los Ventín, a
los Cabadas, los Montes, los Duran, los Corujeira etc. Estoy intentando
demostrar mi agradecimento a una tierra y a unas personas que ricibieron sin
ningún tipo de reparos a mis ancestros”. Seu avô colaborou no periódico humorístico A Rolha(2),
editado na Bahia nos primeiros anos do século XX, assinando com o pseudônimo
Fuenteantela.
O estudo do professor Ventín Pereira
é baseado em grande parte nos valiosos trabalhos do pesquisador pernambucano
Alfredo de Carvalho publicados em números alternados das revistas do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto Geográfico e Histórico da
Bahia, depois reunidos no livro Annaes da Imprensa da Bahia, obra com a qual
Carvalho e João Nepomuceno Torres inventariaram os periódicos baianos de 1811
a 1911 (primeiro centenário). O professor Ventín Pereira utilizou também a
Memória sobre o Estado da Bahia, de Francisco Vicente Vianna e José Carlos
Ferreira, A Imprensa e o dever da verdade, de Ruy Barbosa, a História do Brasil
Reino, de Mello Moraes, e outras fontes.
O autor ocupa as primeiras páginas com a sustentação teórica do que é
empresa informativa e em seguida aplica o conceito ao caso baiano, envolvendo a
comercalização da informação, nascimento da empresa informativa, origem política
do jornalismo, estrutura socioeconômica e desenvolvimento da empresa
informativa e jornalística, classificação dos jornais e informação sobre os
profissionais da imprensa. Ventín Pereira lamentou não ter vindo à Bahia
antes de escrever o seu livro. No entanto, isso não desmerece o valor do seu
trabalho, sobretudo quanto à reorganização que deu aos dados do inventário
de Carvalho e Torres. Ele adotou 13 classes para os 1.413 periódicos da capital
e do interior baianos, de modo que constatou o predomínio daqueles de natureza
política (597), literária (324) e humorística (181).
Entre os méritos do trabalho de Ventín Pereira acentuo a periodização que
sugeriu para a história da Imprensa brasileira. A uma primeira fase chama de
“Oscurantismo Colonial”; uma segunda, de “Implantación”; e uma
terceira, de “plebiscitaria” que, iniciado com a Segunda Revolução
Industrial, se põe a serviço da luta pela supressão das desigualdades para
conseguir a instauração de um sistema de representação democrática. O
professor Ventín Pereira prossegue refletindo sobre os dados que divulgou em
seu livro. Seus próximos passos, por ele anunciados em recente e-mail, é
pesquisar os primeiros designers gráficos da imprensa brasileira.
NOTAS
1 O estudo mais recente sobre os
migrantes galegos na Bahia foi lançado no último dia 20 de abril, no Hospital
Espanhol, pelo professor Lois Pérez Leira, Galegos na Bahia de Todos os Santos.
Há estudos anteriores da autoria dos professores Jeferson Bacelar (A presença
espanhola na Bahia: os galegos no paraíso racial (1900-1950), Salvador, Centro
Editorial e Didático da UFBA, 1992; Galegos no paraíso racial, Salvador, Ianamá,
1994; Álbum de migrantes galegos: memória visual da presença galega na Bahia,
Salvador, Universitária, 1997); Maria del Rosário Alban (A imigração galega
na Bahia, Salvador, Centro de Estudos Baianos, 1983; Simpósio da língua e
imigração galega na América Latina, Salvador, Edufba, 1998) e Célia Leal
Braga (Os espanhóis em Salvador, tese de professor assistente; Memórias de
migrantes galegos, Salvador, Edufba, 1995).
2 Verbete 989 dos Annaes da Imprensa da Bahia, de Alfredo de Carvalho e João
Nepumoceno Torres (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 1911):
“Dezembro de 1902-1904. Periodico critico, caricato e chistoso. Illustrado com
a seguinte divisa: A liberdade é a lei”. Publicação mensal. (Redacção
anonyma).
Fonte: A TARDE, jornal de Salvador, BA, 11/05/2002 (Suplemento Cultural)
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5
- Sentinela da Liberdade volta a circular em Salvador
O jornal
Sentinela da Liberdade voltou a circular em Salvador no mês de maio, por
iniciativa da livraria Sabor dos Saberes, localizada no Pelourinho. O número
zero informa que, a partir do número
1, será encartado o fac-simile do número correspondente dda série original do
Sentinela da Liberdade lançada pelo jornalista baiano Cipriano Barata no
início do século XIX. O projeto conta com o auxílio qualificado da consultora
do Ministério da Cultura e coordenadora do Projeto Resgate, professora
Esther Caldas Bertoletti.
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6
- Cinema, fator de integração na Bahia dos anos 20
O que
significou o advento do cinema na Bahia? Como a nova tecnologia de linguagem
influiu nos costumes, nas tradições, no gosto artístico, na vida do povo da
província da Bahia? Que mudanças provocou no movimento intelectual e na
cultura baiana? Como se deu o “diálogo” teatro/cinema nos hábitos
culturais da cidade? E mais ainda, qual o significado do cinema como nova arte?
Com que categorias trabalha? Quais suas raízes conceituais? É o que procura
analisar Angeluccia Bernardes Habert, doutora em Ciências da Comunicação pela
Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, mestre em Ciências
Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, bacharel
em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da
Universidade Federal da Bahia, em seu recente livro A Bahia de outr’ora,
agora. Leitura de Artes & Artistas, uma revista de cinema da década de 20
(Salvador, co-edição: Academia de Letras da Bahia/Assembléia Legislativa do
Estado da Bahia, 2002, 207 págs.).
Com este sugestivo título, a autora recria a atmosfera cultural e o imaginário
da Bahia do início da década de 20 sob o forte impacto causado pela introdução
do cinema na vida provinciana de uma cidade de profundo sentimento religioso,
com grande apego às tradições, e que vivenciara (e perdera) o esplendor de
ser a capital da colônia, em um momento em que o desenvolvimento das forças
produtivas e a irrupção da grande indústria no país desbravavam a passagem
das representações culturais antigas para modernas, condições históricas
que propiciariam o surgimento de movimentos revolucionários como a Semana de 22.
É um momento de transição cultural, onde se misturam elementos, como em toda transição, mas que, no entanto, toma ainda “como referência a cultura clássica - branca, européia e civilizada”. Um momento em que a cidade passa por transformações que a deslocam de uma “Bahia heróica - antiga e religiosa - para a Bahia moderna (elegante e chique)”. Um momento em que o cinema aparece como um novo veículo, modificador de relações sociais e das formas de interação dos indivíduos com a cidade, uma nova linguagem, introdutora de representações modernas, com poder decodificador e capaz de, veloz e simultaneamente, atingir as “grandes massas”.
O registro histórico dessa transição e dessas mudanças, feito pela primeira revista de cinema da Bahia, Artes & Artistas, editada entre 1920 e 1924 por força da intrepidez e da capacidade de vislumbrar o futuro de Arthur Arezio da Fonseca, “tipógrafo, gravador, jornalista, autor” - visto pelo arguto olhar de Angeluccia em seu livro (originariamente, tese de doutorado, defendida em 1993, na USP) - ganha vida e movimento, luz e cores, cortes e continuidade, ação e pausa, construído quase como um “processo de montagem cinematográfica” (reflexo da própria estrutura da revista), formando um texto ágil, coerente e harmônico.
Das páginas
do livro vemos emergir mudanças na estrutura da cidade, o alargamento das ruas,
a urbanização de praças, a construção de avenidas. Há uma evocação da
Bahia, no livro, encantadora e viva ao mesmo tempo, que nos traz as imagens da
antiga Igreja da Sé (e os prenúncios da polêmica que acabaria por levar à
sua demolição em 1933), da construção e inauguração da estátua de Castro
Alves, na praça, (1921), da Avenida 7 e seu papel integrador, do movimento da
rua Chile, do Largo do Pelourinho. Registram-se os pontos da cidade mais
conhecidos e vemos surgir uma nítida divisão social da cidade, com seu espaço
do Centro, urbano e elegante, e os bairros interiores “camuflados por uma
sucessão de roças e chácaras.... onde moravam.... os ausentes da praça”.
Destacam-se elementos constitutivos da vida noturna da cidade, a formação do
gosto e dos hábitos culturais, as diferenças entre o teatro e o cinema e o
processo que leva ao predomínio deste último. Podemos quase visualizar os
grandes teatros - o antigo São João, o Polytheama, o Guarany - e sua luta pela
renovação e sobrevivência. Aparecem, também, o Olympia, o Jandaia, o Lyceu.
Através da leitura que Angeluccia faz da revista Artes & Artistas, podemos seguir o movimento dos espetáculos teatrais e a apresentação de filmes nos principais cine-teatros da Bahia nos primórdios dos anos 20. Cuidadosa escolha de críticas a alguns espetáculos teatrais e de cinema, com suas programações, descrição dos enredos e temas, biografias dos artistas e diretores etc., permite-nos obter mecanismos para acompanhar a intensidade da vida cultural, a ebulição provocada pelo cinema, as repercussões no imaginário.
Mas não
se trata somente de um resgate histórico documental visto através de um meio,
o cinema, nem o ponto de vista historiográfico de uma Bahia em movimento de
transição cultural. Isto, por si só, já daria dimensão de valor ao livro.
No entanto, Angeluccia, em seu livro, vai muito além: discute conceitos como
“indústria de consciência”, “cultura de massa”, “produto
cultural”, “cultura moderna”, analisa as relações universal/particular
no processo de criação literária e artística à luz do desenvolvimento das
forças produtivas. Tal exercício, em um esforço quase epistemológico, é
feito sob a ótica da dialética do cinema como arte e novo ramo de conhecimento
técnico.
Este
olhar atualiza o passado e aproxima o futuro, desvendando uma Bahia de outr’ora,
agora, que nos situa no presente e revitaliza a memória do passado confrontando
o futuro. Irrompem lembranças que nos identificam com tempos e lugares, rostos
e figuras, fatos e casos. Particularmente, para mim, foi gratificante
reconhecer-me em recordações da autora - amigas que fomos de infância -
quando, com amigos, brincávamos “nas ruínas do Polytheama”, “de ser
artista de cinema”... “recontando e representando os filmes” e assistindo
às “projeções” (idéia de dois amigos da nossa rua) “feitas com rolos
de papel desenhados, caixas de madeira e lentes emprestadas”.
Como diz
Angeluccia: “todo passado confrontado ganha integridade, encanto, harmonia
pacificadora, uma idéia de vida melhor”... e permite “a revelação do
passado no presente e do presente no passado”. E nada melhor para ilustrar
esta dialética do que as palavras de Marx, nos Grundrisse, sobre a arte grega e
a sociedade moderna, fazendo uma brilhante relação entre o universal e o histórico:
“um homem não pode voltar a ser criança sem se tornar infantil. Mas, acaso não
desfruta da ingenuidade da infância, e não deve aspirar reproduzir, em um nível
mais elevado, sua verdade? Por que a infância histórica da humanidade, no
momento mais belo de seu desenvolvimento, não deveria exercer um encanto
eterno, como uma fase que não voltará jamais?”.
Fonte: A TARDE, jornal de Salvador, BA, 11/5/2002 (Suplemento Cultural)
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7 - Livros
prestam tributo à grande reportagem
Um desafio à imprensa, em tempos de
escassez de grandes reportagens. Assim o escritor, jornalista e editor Luiz
Fernando Emediato, da Geração Editorial, definiu a coleção “Vida de
Repórter”, lançada semana passada em Belo Horizonte e reunindo matérias
especiais produzidas pelos repórteres José Maria Mayrinki, Klester
Cavalcanti, Lourival Sant’Anna e Marcelo Abreu. A iniciativa destina-se a
suprir uma lacuna evidente na imprensa brasileira , que consiste na escassez das
grandes reportagens. Quatro livros formam a coleção : “Vida de Repórter”,
de José Maria Mayrinki, mineiro radicado em São Paulo, “Viagem ao mundo dos
Taleban”, de Lourival Sant ‘Anna, “Direto da Selva”, de Klester
Cavalcanti e “Viva o grande líder”, de Marcelo Abreu.
Emediato revela que todas as obras,
escritas na primeira pessoa, são relatos de aventuras vividas pelos
jornalistas, através da cobertura de uma grande história ou recordando experiências
pessoais em décadas de profissão. “Vários profissionais estão procurando a
Geração Editorial depois que leram estas publicações, oferecendo seus
depoimentos”, diz o editor, que tem 30 anos de experiência na área. Ele
ressalta que este projeto editorial funciona ainda como “uma provocação”
às chefias de Redação dos grandes jornais brasileiros, pois mostra que “a
grande reportagem esta viva e precisa de um maior espaço”. Dentre os próximos
lançamentos, anuncia o livro “Bye Bye, Brejnev”, de Geneton Moraes Neto,
que foi correspondente na ex- URSS à época em que o líder soviético faleceu.
Joel Silveira também está preparando originais para enviá-los à editora,
sobre assuntos que Emediato prefere manter ainda sob sigilo.
Os livros são cativantes tanto para
jornalistas como para o leitor comum. “Vida de repórter”, de José Maria
Mayrinki, escrito originalmente sob o titulo “3 vezes 30”, em 1992 (
parceria com Carmo Chagas e Luiz Adolfo Pinheiro) trata dos 40 anos de vida
profissional do autor. São analisadas as relações com a Igreja Católica,
lembranças dos nove anos em que foi repórter da sucursal paulista do ‘Jornal
do Brasil’ e detalhes sobre seu retorno ao ‘O Estado de São Paulo’, onde
é hoje repórter especial. Relembra também a década em que prestou serviços
à revista católica “Família Cristã’. Mayrinki foi seminarista e estudou
Teologia.
Em “Viagem ao mundo dos Taleban”,
Lourival Sant’Anna aborda os atentados de 11 de setembro em Nova Iorque,
“quando a Humanidade ainda não sabia que alguém seria capaz de jogar um
Boeing contra um prédio cheio de gente”, conforme comenta o autor. Quatro
horas depois da primeira explosão, Lourival já estava no aeroporto de Cumbica,
embarcando para Telavive. Ele fornece, sob uma ótica humanista, uma visão do
confronto que se seguiu, viajando de Israel até a fronteira entre Paquistão e
Afeganistão.
Marcelo Abreu centra seu “Viva o grande
líder” em cobertura que fez na Coréia do Norte, como único jornalista
brasileiro a entrar naquele país, onde foi permanentemente vigiado por dois
guias indicados pelo governo comunista. O trabalho aborda principalmente o culto
fanático ao presidente Kim Il Sung, morto há seis anos. Fotografias foram
proibidas e as poucas publicadas mostram apenas a capital, Pyong Yong, sempre
quase deserta.
Klester Cavalcanti relata, em “Direto da
Selva – as aventuras de um repórter na Amazônia”, alguns casos até dramáticos,
como quando ficou durante horas amarrado a uma árvore, para evitar que
publicasse determinado material. Há ainda episódios engraçados : em certa
ocasião, teve que experimentar o ‘paricá’, bebida alucinógena dos índios
Yanomani. Klester viveu durante dois anos na região, como correspondente da
revista ‘Veja’, ao lado do fotógrafo Jandurari Simões.
Fonte: Portal Comunique-se, 13/5/2002
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8
- Herbert Levy: a biografia do revolucionário perplexo
O jornalista
Claudio Lachini lança este mês a biografia autorizada de Hebert Levy, dono da Gazeta
Mercantil. Morto em janeiro deste ano aos 91 anos, Levy foi responsável
pelo reerguimento do jornal, que comprou em 1934 por apenas 60 contos de réis.
Aos poucos, a GZM se tornou uma referência no mercado. Dentro
desse universo Lachini trabalhou por 28 anos, convivendo de perto com o empresário
e político (Levy foi deputado federal por 40 anos). Pela defesa de ideais
liberalistas e de seus pontos de vista, sempre coerentes, Levy é chamado
por Lachini de "Um Revolucionário Perplexo", alcunha que dá
nome ao livro. Editado com patrocínio do Banco Safra, o livro tem 256 páginas
e será vendido por R$ 20.
Lachini levou um ano para escrever a biografia, baseada em entrevistas
com colegas de profissão, empresários e familiares de Levy, além de
pesquisa em recortes de jornais e revistas. O objetivo do autor - que escreveu
o livro após sugestão dos filhos de Levy -foi apresentar um perfil
correto, a seu ver, de quem foi o dono da GZM: um liberal com
tendências próximas do trabalhismo inglês.
Eleito deputado federal pela primeira vez em 1947 pela UDN, Levy participou
das Marchas da Família com Deus pela Liberdade, movimento conservador que pedia
a deposição do presidente João Goulart. Visto isoladamente, este fato poderia
confiná-lo ao território da ultra-direita. Mas Levy apoiou Jango no
momento de sua posse, em 1961. A convite de Nelson Rockfeller, foi aos EUA
para assessorar o novo presidente, atitude que resultou em crítica dos
udenistas. Durante a ditadura militar, Levy defendeu a abertura política e a
revogação do AI-5.
Sua atuação no jornalismo começou quando tinha apenas 16 anos, quando
foi redator esportivo do São Paulo Jornal. Em 1928 foi redator
do Diário Nacional. Durante a quebra da Bolsa de Nova York, em
1929, Levy farejou a boa recepção que uma publicação direcionada à
comunidade empresarial teria. Lançou a Revista Financeira Levy,que
depois se fundiu com o Boletim Comercial Levy. Alguns anos depois seria a
vez da Gazeta Mercantil.
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9
- Imprensa do povo: cordel remoçado
Esta é uma história
De natureza bahiana
Que envolve o recôncavo
O massapê e a cana
O engenho, a usina,
O candeeiro de manga,
O carreiro que conduz
A junta de boi de canga
(...)
Ela envolve uma cidade
Bem antiga da Bahia
Um de seus protagonistas
A ela é que pertencia
Me refiro a Santo Amaro
A cidade de Besouro
Negro valente, danado
Que não levava desaforo
(...)
Besouro Cordão de Ouro
Valente de profissão
Que muitas vezes usara
A mesma provocação
Diante daquela ordem
Arretou-se e então
Respondeu pro forasteiro
- Não pedi cachaça, não!
Normalmente os valentões
Para mostrar valentia
Onde não era conhecido
Onde seu nome não ia
Sempre achava um pretexto
Pegava um e batia
Surrava alguém do trecho
Brigava e sempre vencia.
Antônio
Vieira
Não fosse a carpintaria solitária e exaustiva de alguns artistas, o cordel,
uma das mais autênticas formas de expressão da cultura popular do Nordeste,
estaria fadado à morte. Veículo de massa no passado, assim como o rádio, meio
de propagação de notícias em incrível velocidade, alfabetização, humanização
e fixação de conhecimento, vem encontrando fôlego e dedicação entre poetas
mais jovens, caso de um santamarense com nome de jesuíta português, Antônio
Vieira. Sem qualquer ajuda financeira, ele já fabricou um número razoável de
livretos, ricos em histórias e “causos” da cidade em que nasceu e de um
Brasil distante, que percorreu nos últimos 20 anos como voluntário de uma
comunidade espírita e, depois, como técnico do INCRA.
O contato com o campo e situações envolvendo disputa de terras no Amazonas,
Tocantins e Pará foi, aliás, uma das razões que impulsionaram Antônio Vieira
a trilhar o caminho da literatura e da música. A opção pelo cordel foi um
passo. Sem descuidar-se do formato tradicional, mas inovando nos ritmos (rock,
axé e outros, sem preconceitos), ele desenvolve temas ligados ao garimpo, fatos
que tiveram repercussão na história e personagens reais, como Manoel Faustino,
um dos “cabeças” da Revolução dos Alfaiates (1798), barbaramente
assassinado com os companheiros do movimento na Praça da Piedade. Para Felícia,
uma prostituta de Santo Amaro que “ensinou uma geração inteira”, também
fez poesia. Muitos eventos foram presenciados pelo cordelista na infância, pois
o pai possuía uma venda que era parada obrigatória para lendárias figuras.
Apesar do tempo, ele conseguiu reter com detalhes o que viu e ouviu.
Foi através do tio Propércio, um funcionário da Prefeitura de Santo Amaro e
ex-tenente do Exército, que Antônio Vieira passou a cultuar Besouro Mangangá
ou Besouro Cordão de Ouro, capoeirista cuja bravura foi enaltecida por Jorge
Amado em Mar Morto, além de ter sido tema de música de Baden Powell, sucesso
na voz de Elis Regina (Lapinha, 1968). Mistura de marginal e justiceiro, morreu
aos 27 anos, em 1920, após uma luta sangrenta. Três cordéis de Vieira são
dedicados ao personagem, entre eles O Encontro de Besouro com o Valentão Doze
Homens. O farmacêutico, protético, compositor, caixeiro, desenhista e, acima
de tudo, patriota Assis Valente, um dos mais célebres conterrâneos, também
foi homenageado. O artista tem como mestres incontestáveis Cuíca de Santo
Amaro e Rodolfo Coelho Cavalcante, glória na Bahia entre os anos 40 e 60, e os
paraibanos Romano da Mãe D’Água e Inácio da Catingueira, que, entre outros
feitos, protagonizaram um debate em 1870, no Mercado de Patos, com uma semana de
duração.
O poeta, músico, cantor e compositor Antônio Vieira é autor de mais de 30
trabalhos, entre eles A Praça, Templo da Liberdade e do Poder do Povo, Assis
Valente, o Santamarense que Queria Ver Tio Sam Tocar Pandeiro e A Peleja da Ciência
com a Sabedoria Popular (o mais volumoso e o mais denso, do seu ponto de vista).
Desse total, 12 fazem parte da coleção “Histórias do Recôncavo”. O maior
problema do cordelista é divulgar e editar as obras. Seu público cresce em razão
dos recitais que realiza, acompanhado de um violão e dois músicos, em hotéis,
bares, livrarias, colégios e universidades. Um dos sonhos que alimenta é ver a
sua arte tão aceita quanto a música popular brasileira. “O cordel é muito
mais profundo do que a gente pensa”, afirma.
Em setembro de 1976, em entrevista ao Jornal do Brasil, Carlos Drummond de
Andrade foi fundo no preconceito a que se refere Vieira. Ele saiu em defesa do
cordelista Leandro Gomes de Barros, a quem achava que se deveria conceder, em
1913, o título de príncipe dos poetas brasileiros, promovido pela revista
Fon-Fon, do Rio de Janeiro, e não ao poeta parnasiano Olavo Bilac. “Um é
poeta erudito, produto da cultura urbana e burguesa média; o outro, planta
sertaneja vicejando à margem do cangaço, da seca e da pobreza. Aquele tinha
livros admirados nas rodas sociais, e os salões o recebiam com flores. Este,
espalhava seus versos em folhetos de cordel, de papel ordinário, com
xilogravuras toscas, vendidos nas feiras a um público de alpercatas ou de pé
no chão”.
Fonte:
Jornal A TARDE, Salvador, BA, 13/04/2002
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10
-
História das Histórias em Quadrinhos: o acervo da USP
O
que para muitos pode significar coisa de criança, para um professor-doutor da
Universidade de São Paulo (USP) é fonte permanente de estudo: as histórias em
quadrinhos. Coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos (NPHQ)
na USP, Waldomiro Vergueiro, professor da Faculdade de Biblioteconomia, quer
instituir o Diretório Geral de HQs no Brasil. Para tanto, vai dar início, em
parceria com professores e alunos, a um projeto de organização e disponibilização
de todos os títulos de quadrinhos já publicados, nacionais ou traduzidos para
o português.
Até
agora, o núcleo tem uma base de 270 títulos catalogados. A previsão é de
que, quando o NPHQ chegar a 400 títulos, o conteúdo já possa ser pesquisado
na Internet, ainda no segundo semestre. O passo seguinte será partir para
materiais reunidos em gibitecas e acervos pessoais de colecionadores. O próprio
professor possui uma expressiva coleção, com pelo menos 15 mil revistas.
"A
princípio, vamos fazer um levantamento de títulos, para depois registrarmos
autores e desenhistas", explica Vergueiro. O banco de dados concentrará
informações desde 1905, quando foi publicada a primeira edição da revista
Tico-Tico. O exemplar serve de referência por ser considerado pioneiro na linha
de HQs. "O Tico-Tico foi muito popular, baseado no modelo europeu de
revistas para crianças. Tinha quadrinhos, histórias infantis, contos,
curiosidades, desenhos."
Antes
do lançamento da revista, o Brasil já 'flertava' com os comics por meio de sua
imprensa humorística. Segundo o coordenador do NPHQ, chegou a ser editado em São
Paulo um jornal chamado Diabo Coxo, o primeiro ilustrado no País, feito pelo
italiano Angelo Agostini. A carreira de Agostini foi pontuada por passagens em
diversos jornais brasileiros, no Império e no período republicano. "Agostini
tinha um traçado que se assemelhava muito com o das HQs e, por isso, vários
autores o consideram precursor do gênero", explica. "Inclusive o
logotipo da Tico-Tico foi criado por ele."
Na década
de 30, houve a publicação de um suplemento juvenil nos moldes
norte-americanos, no jornal A Nação. Algum tempo depois, passou a ser vendido
separadamente, diante do sucesso que fazia entre as crianças. Suas páginas
esboçavam as aventuras de super-heróis, como Flash Gordon e Mandrake. As
editoras Globo Juvenil, Ebal e Abril tiveram papel importante no fortalecimento
da indústria de quadrinhos no Brasil.
Na
linha de nacionais, os gibis de Mauricio de Sousa são imbatíveis no quesito
popularidade. Mauricio de Sousa idealizou seu primeiro personagem, o Bidu, em
1959, mas a revista Mônica só surgiu mesmo na década de 70. "São histórias
que são muito próximas das crianças brasileiras", analisa Vergueiro.
Nos
anos 90, foi a vez dos anti-heróis, criaturas violentas, com vícios,
imperfeitas, no estilo de Volverine, do X-Men, e O Justiceiro. Na mesma década,
surgiram os mangás, comics japoneses que fazem sucesso no mundo todo. Com a
nova tendência, chegou a febre Pokémon, Dragon Ball e tantos outros, cujos
quadrinhos deram origem a desenhos animados - e vice-versa.
Hoje,
o perfil predominante do leitor de HQs é o do jovem de sexo masculino, entre 13
e 25 anos, que encontra nos super-heróis uma espécie de válvula de escape,
para extravasar sua agressividade.
Para
o professor, falta no Brasil um registro preciso desse material histórico,
diferente do que acontece nos Estados Unidos e na Europa. "O crescente
interesse por quadrinhos nas universidades me supreendem cada vez mais. Recebo
uma média de cinco a dez e-mails por mês de estudantes que querem desenvolver
trabalhos relacionados ao assunto, mas não encontram orientadores nem material
de pesquisa."
Fundado
em 1990, o NPHQ promove reuniões mensais, nos quais são discutidos textos de
comics, atraindo uma média de 20 pessoas. Há ainda grupos de debates virtuais,
aberto a qualquer interessado, por meio do e-mail agaque-l@listas.usp.br. Outras
informações podem ser obtidas no site www.eca.usp.br/nucleos/nphqeca.
Fonte:
Jornal “O Estado de S. Paulo”, Cadernos 2, 16/5/2002
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11
-José
Reis, paradigma brasileiro do jornalismo científico (1907-2002)
O
cientista e jornalista José Reis morreu hoje de manhã em São Paulo em decorrência
de pneumonia. Ele tinha 94 anos. O enterro será amanhã, às 10h, no Cemitério
São Paulo (em Pinheiros, zona oeste de São Paulo).
Reis
é sem dúvida alguma o brasileiro que mais fez pela divulgação da ciência no
país. Conseguiu aliar uma importante carreira de pesquisador com reputação
internacional ao trabalho de explicar a ciência de modo didático através da
imprensa. Escreveu na Folha de S.Paulo desde 1947, quando o jornal se
chamava ainda "Folha da Manhã".
Reis
conseguiu fazer um trabalho de qualidade em quantidades assombrosas: seus textos
de divulgação científica são contados aos milhares. Escrevia uma vez por
semana na Folha, aos domingos. Tornou-se nome de prêmio ainda em vida. O
CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) concede
anualmente o Prêmio José Reis de Divulgação Científica a instituições,
jornalistas e cientistas.
Ele
também ganhou prêmios por seu trabalho de divulgação, como o Kalinga,
entregue pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência
e Cultura). Entre outros ganhadores do Kalinga estão o filósofo britânico
Bertrand Russell e a antropóloga Margaret Mead.
Nascido
no Rio de Janeiro em 12 de junho de 1907, foi o antepenúltimo dos treze filhos
de Alfredo de Souza Reis e Maria Paula Soares Reis. Sua formação científica
foi feita na Faculdade Nacional de Medicina (1925-30) e Instituto Oswaldo Cruz
(1928-29). Foi em seguida ao Rockefeller Institute, Nova York, se especializar
em virologia, em 1935-36. Conheceu cientistas famosos e foi influenciado por
eles, no Brasil ou no exterior. Já nessa época se preocupava com a disseminação
do conhecimento: trabalhou no Rio também como professor secundário.
Seu
excelente currículo no Instituto Oswaldo Cruz fez com que fosse convidado para
trabalhar como bacteriologista no Instituto Biológico de São Paulo, onde fez
carreira por muitos anos. Aposentou-se do instituto em 1958.
Reis
começou a pesquisar interessado basicamente no que se costuma chamar de
"ciência pura", sem aplicações práticas imediatas. Mas passou a se
interessar também pela ciência aplicada, quando notou os problemas práticos
que a avicultura no país tinha com doenças. Tornou-se um especialista em doenças
de aves respeitado internacionalmente. Entre seus assistentes nessas pesquisas
estava sua mulher, Annita Swenssen Reis. Seu Tratado de Ornipatologia, com
participação de Annita e Paulo Nóbrega, foi um bom exemplo dessa repercussão
internacional.
Envolvido
com a administração do Instituto Biológico, acabou adicionando a administração
pública na sua lista de conhecimentos, publicações e serviços prestados
_colaborou com reformas administrativas no governo paulista. Foi diretor geral
do Departamento do Serviço Público durante cinco anos, nos governos de
Fernando Costa e Macedo Soares.
Também
foi o organizador e primeiro diretor da Faculdade de Ciências Econômicas e
Administrativas, atual Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade,
da Universidade de São Paulo.
Reis
foi um dos fundadores da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência)
em 1948, junto com intelectuais e cientistas como Maurício Rocha e Silva, Paulo
Sawaya e Gastão Rosenfeld. Foi o primeiro secretário-geral da entidade, da
qual continuou como presidente de honra. Foi de novo eleito para presidir a SBPC
em 1979, mas problemas de saúde impediram que exercesse o cargo.
Seu trabalho na Folha foi além da divulgação de ciência. Foi diretor
de redação do jornal de 1962 a 1967, quando pediu para deixar o cargo. Foi um
período delicado. Após o movimento de 64 começaram perseguições políticas
a cientistas, notadamente "as caças às bruxas" na Universidade de São
Paulo. Reis se engajou pessoalmente na luta pela liberdade de expressão e na
defesa dos perseguidos na USP.
É
difícil escolher uma obra mais representativa entre seus livros, dada a
amplitude de seus interesses. Há desde o já citado "Tratado de
Ornitopatologia", um clássico sobre doenças de aves, ou um "Methoden
der Virusforschung", um resumo em alemão do que de mais moderno havia
sobre os vírus em 1939, escrito com H. da Rocha Lima e Karl M. Silberschmidt.
Mas há também "A Cigarra e a Formiga", uma adaptação da fábula em
que duas formigas de espécies brasileiras entram na história.
Reis
também fez traduções de livros variados _livros sobre a criatividade, a
teoria da relatividade de Albert Einstein, os animais da América do Sul ou
obras técnicas em agricultura ou didáticas.
A
carreira de José Reis parece à primeira vista uma coleção de atividades
muito diferentes entre si, uma "aparente falta de unidade", como ele
disse de si próprio certa vez. "Essa unidade, porém, eu sinto que ela
existe. Não é a unidade de uma linha reta de quem segue sempre a mesma trilha
de pesquisa do começo ao fim, mas é a unidade dos círculos crescentes que me
leva a procurar implicações cada vez maiores para o próprio conhecimento que
vou adquirindo."
*
O jornalista Ricardo Bonalume Neto escreve sobre ciência e tecnologia
desde 1985. Recebeu o Prêmio José Reis de Jornalismo Científico para o ano de
1990, concedido pelo CNPq, em 1991.
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12
- José Reis: o semeador, o cientista e o poeta
O
professor José Reis faleceu poucos dias antes de completar 95 anos. Quase um século
de vida, mais de 70 anos de dedicação à ciência e às formas de sua divulgação,
se se considerar que José Reis, em 1932, já, então, contratado pelo Instituto
Biológico, em São Paulo, para onde veio em 1929, publica na revista Chácara
e Quintais um texto intitulado "No início da Estação Avícola de
1932. Algumas sugestões aos avicultores brasileiros", preocupado em dar
aplicabilidade aos conhecimentos da área de sua especialidade e em desenvolver
uma forma de comunicação simples e direta, capaz de levá-los ao avicultor e
à sociedade, em geral.
O
Dr. Von Ihering me perguntou: Que peste é essa? Aí está uma coisa que você
pode descobrir para ajudar esse pessoal.
Aceitei
o desafio e, resolvido esse, outros foram se apresentando. Mas para
desimcumbir-me bem dessa missão de aconselhar, informar os sitiantes,
tornava-se importante estabelecer contato com eles e aprender a falar-lhes e
escrever-lhes com a maior simplicidade. Ao fim de pouco tempo, eu estava
escrevendo artigos em revistas agrícolas, como Chácaras e Quintais.”[José
Reis. Entrevista na Ciência Hoje, nº 1, julho/agosto de 1982]
Em
1936, em co-autoria com Paulo Nóbrega e Annita Swenson Reis, publica o livro Tratado
de Ornipatologia, consolidando sua reputação científica na área, a ponto
de os colegas e admiradores se referirem a ele como o "famoso médico das
galinhas" [ver, por exemplo, o texto de Crodowaldo Pavan "O Guerreiro
da Ciência", in Kreins, G. & Pavan, C. (orgs.), A Espiral em
Busca do Infinito, NJR, ECA/USP, p. 117].
Daí
para frente, o divulgador foi tomando fôlego e crescendo tanto sobre a mesma
base poética e humanista do amigo da ciência e do conhecimento, em geral, que,
em 1947, no dia 6 de abril, na então Folha da Manhã, inicia a colaboração,
primeiro sobre temas administrativos, logo depois, científicos, que se
estenderia por mais de meio século, até a sua morte no último dia 16, e mesmo
depois dela, já que deixou, como era de seu feitio, artigos preparados com
antecedência para publicação posterior.
Em
1948, segundo suas próprias palavras e por sua iniciativa, reúne os
professores e pesquisadores Paulo Sawaya, Maurício Rocha e Silva e Gastão
Rosenfeld e juntos fundam a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência
(SBPC), de que foi o primeiro secretário-geral, passando também a dirigir a
revista Ciência e Cultura, lançada no ano seguinte e da qual seguiria
como editor até 1954, numa primeira fase e, depois novamente, num segundo
momento, de 1972 a 1985.
Aposentado
do Instituto Biológico, em 1958 funda, com outros colegas, a Editora Ibrasa –
Instituição Brasileira de Difusão Cultural S.A., com o objetivo claro de
ampliar os instrumentos e as formas de ação de sua militância científica,
cultural, humanista e institucional. Em 1968, por essa editora publicaria, com
prefácio de Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, o livro Educação
é Investimento, um marco de referência do papel da educação e do
conhecimento no desenvolvimento social, político, econômico e cultural dos países
e das nações.
Antes
disso, em 1962, o professor José Reis assume, como diretor de redação da Folha
de S.Paulo, a responsabilidade pela "orientação e pelo preparo de
editoriais" com o cuidado, como ele próprio observa, de não prejudicar o
seu trabalho de divulgação científica. Fica na função até 1967.
CONHECIMENTO
COMPARTILHADO
Assim,
em 1979, o CNPq institui o Prêmio José Reis de Divulgação Científica; em
1997, quando José Reis completava 90 anos, a Fapesp criou o Mídia Ciência –
Programa José Reis de Bolsas de Jornalismo Científico; poucos anos antes, em
1992, a USP, na Escola de Comunicações e Artes (ECA), funda o Núcleo José
Reis de Divulgação Científica (NJR); o Laboratório de Estudos Avançados em
Jornalismo (Labjor), da Unicamp, institui, com o Laboratório de Estudos Urbanos
(Labeurb), ambos do Núcleo de Desenvolvimento de Criatividade (Nudecri), o Núcleo
de Jornalismo Científico (NJC), com o apoio do Pronex/CNPq e da Fapesp,
implantando, em seguida, em 1999, o primeiro Curso de Pós-Graduação, lato
sensu, de Jornalismo Científico no país.
A
publicação da revista eletrônica ComCiência, em parceria com a SBPC e
o relançamento da revista Ciência e Cultura, em sua terceira fase,
previsto para julho deste ano, durante a 54ª Reunião da SBPC, em Goiânia,
contribuem também para dar medida do quanto tem frutificado a sementeira
espalhada por José Reis nos campos e encostas das instituições acadêmicas,
científicas e culturais do país.
Como
diz a nota enviada pela diretoria da SBPC ao Jornal da Ciência, não há,
no Brasil, um fato importante no domínio da ciência e de suas relações com a
sociedade, através da atividade cotidiana da divulgação científica - quase
uma militância , que não tenha a marca da presença inteligente e criativa de
José Reis.
Difícil
também é identificar uma iniciativa institucional que seja, que não traga em
sua relevância para a ciência brasileira a participação decisiva de José
Reis.
Assim
foi com a criação da SBPC, em 1948, tendo como parceiros Maurício Rocha e
Silva, Paulo Sawaya e Gastão Rosenfeld; assim foi com a revista Ciência e
Cultura; assim foi com a luta pela criação da Fapesp; assim foi com a
implantação do tempo integral em São Paulo; assim foi com o estabelecimento
de uma cultura de aproximação entre o cientista e a sociedade, através de sua
atuação, desde 1947, na então Folha da Manhã, depois Folha de
S.Paulo; assim é e assim será para sempre na sua presença indelével, na
poesia de seus textos sobre ciência, na ciência de quem sabe contemplar a
beleza estética do conhecimento e por ele propugnar pelo prazer generoso de
compartilhá-lo com todos.
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13
- Revisando a Trajetória de Historiadores Brasileiros
Eles passam a vida perscrutando o passado de países
e civilizações, às vezes muito distantes no tempo e no espaço. Desta vez,
entretanto, foram obrigados a desviar a atenção da vida de pessoas já mortas
há muitos anos para olhar para as próprias trajetórias, assim como deixaram
de pensar em séculos para limitar-se às décadas que sucederam o dia de seus
nascimentos.
"Conversas com Historiadores Brasileiros" reúne o depoimento de 15
intelectuais da área, em entrevistas ao também historiador José Geraldo Vinci
de Moraes e ao economista José Marcio Rego. Os bate-papos abordaram quatro
temas principais: a trajetória pessoal de cada um, sua produção acadêmica,
opiniões sobre teoria da história e o o papel do historiador na sociedade
brasileira.
Os
entrevistadores procuraram ouvir historiadores de diferentes gerações e filiações
historiográficas. O time ficou assim: Maria Yedda Linhares, Edgar Carone,
Emilia Viotti da Costa, Boris Fausto, Fernando Novais, Evaldo Cabral de Mello,
José Murilo de Carvalho, Maria Odila da Silva Dias, Ciro Flamarion Cardoso,
Luiz Felipe de Alencastro, Edgard de Decca, Angela de Castro Gomes, João José
Reis, Nicolau Sevcenko e Laura de Mello e Souza.
No
ano em que se comemora o centenário de nascimento de Sérgio Buarque de Holanda
(1902-1982), os historiadores foram instados a falar sobre seu legado, ao lado
de Gilberto Freyre (1900-1987) e Caio Prado Júnior (1907-1990), para a história
do Brasil que se fez nos últimos 50 anos e a que se produz hoje nas
universidades em que eles atuam.
A tríade
foi, em geral, reverenciada, mas houve ressalvas. O baiano João José Reis
("A Morte É uma Festa") alertou: "As deficiências dessa geração
continuarão a pairar sobre suas obras, sobretudo os excessos generalizantes que
se encontram em todos eles. A historiografia atual demanda mais rigor empírico
e nenhum deles resistirá a esse teste em suas obras consideradas "clássicas'".
Já
o paulista Nicolau Sevcenko ("Orfeu Extático na Metrópole")
ressaltou o fato de que os três intelectuais se completam. "Temos a
combinação de três bases fundamentais para entender o país. O elemento da
estabilidade, da permanência, do sedentarismo [no caso de Gilberto
Freyre"; o elemento da errância, da itinerância, da fluidez, da flutuação
[no de Sérgio Buarque"; e o elemento do conflito, do choque, da luta de
classes [no de Prado Jr."."
A
falta de estudos mais abrangentes sobre o Brasil hoje, muitas vezes relacionada
à crescente especialização exigida pela academia, foi outro tema em debate.
Para Vinci de Moraes, co-autor do volume, os historiadores hoje concordam que,
principalmente depois da institucionalização da pós-graduação nos anos 70,
ficou mais difícil fazer análises amplas como as realizadas por Prado Jr./
Buarque de Holanda/Freyre.
"É
melhor que a situação seja assim hoje, pois o que se ganhou com a regularização
do ofício e com a profissionalização da pesquisa é valioso para a história
do Brasil", disse Moraes à Folha.
A
relação entre os historiadores e a mídia foi outro dos temas abordados. Para
Luiz Felipe de Alencastro, por exemplo, há um risco que vale a pena ser
assumido numa relação mais próxima entre os intelectuais e o jornalismo.
"É verdade que, se o historiador escreve patacoadas nos jornais, errando
redondamente sobre o presente, ele compromete sua reputação como estudioso do
passado. Também é certo que artigos com opiniões fortes, politicamente
engajadas, podem ser considerados prejudiciais para a reputação do
historiador. Mas, como o Brasil é um escândalo social permanente, minha decisão
é clara: prefiro tomar posição sobre a atualidade, e eventualmente
comprometer minha reputação de historiador, a ficar quieto."
Um segundo volume de "Conversas com Historiadores Brasileiros" está
nos planos. O livro faz parte de série idealizada pela editora 34 para mapear a
intelectualidade brasileira. Já foram lançados "Conversas com Economistas
Brasileiros" (vols.1 e 2) e "Conversas com Filósofos
Brasileiros".
CONVERSAS
COM HISTORIADORES BRASILEIROS. Autores: José Geraldo Vinci de Moraes e José
Marcio Rego. Editora: 34. Preço R$ 34 (400 págs.).
Fonte:
Folha de S. Paulo, Ilustrada, 18/5/2002
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14
- Barão de Itararé, renovador do texto humorístico brasileiro
O
jornal A Manha, do Barão de Itararé, é o bisavô, como diz o humorista
Jaguar, do Pasquim - e de todo o humor moderno brasileiro de irreverência e crítica:
dos textos de Sérgio Porto e dos absurdos em tom sério de Ivan Lessa às fábulas
e invenções de Millôr Fernandes e às patacoadas do Planeta Diário, depois
programa televisivo Casseta & Planeta.
Em
1955, de volta ao Rio, Aparício Torelly casou-se pela quarta vez e foi-se
afastando da imprensa.
"Quatro",
respondeu o aluno Aparício. "Como quatro?", espantou-se o mestre.
"Dois
meus e dois seus", matou a charada o aluno - está na biografia escrita em
1987 por Cláudio Figueiredo, As Duas Vidas de Aparício Torelly, o Barão de
Itararé.