JORNAL DA REDE ALCAR
Ano 2, N. 184 de junho de 2002

Editores: José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) e Francisco Karam (FENAJ/UFSC)
realcar@metodista.br

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Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Colaboradores desta edição:
Luiza Nóbrega (PE), Luiz Guilherme Pontes Tavares (BA), Loreta Valadares (BA), Luiz Octávio (BH), Simone Ribeiro
(BA), Adriana del Ré (SP), Ricardo Bonalume Neto (SP), Carlos Vogt (SP), Mauro Dias (SP)

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Manchetes:7

1 - Redealcar em Pernambuco

2 - Odylo Costa, filho, na série histórica da revista Imprensa

3 - Perfil biográfico de Luiz Beltrão repercute na cidade do Recife

4 - Historiador galego analisa primeiro século da imprensa baiana

5 - Sentinela da Liberdade volta a circular em Salvador

6 - Cinema, fator de integração na Bahia dos anos 20

7 - Livros prestam tributo à grande reportagem

8 - Família Mesquita ingressa no ramo televisivo

9 - Imprensa do povo: cordel remoçado

10 - História das Histórias em Quadrinhos: o acervo da USP

11 - José Reis, paradigma brasileiro do jornalismo científico (1907-2002)

12 - José Reis: o semeador, o cientista e o poeta

13 - Revisando a Trajetória de Historiadores Brasileiros

14 - Barão de Itararé, renovador do texto humorístico brasileiro

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1-
Redealcar em Pernambuco

A Profa. Maria Luiza Nóbrega, docente do Departamento de Comunicação da UFPE – Universidade Federal de Pernambuco – reafirma a adesão daquela instituição à Rede Alfredo de Carvalho. Ela participou, em Porto Alegre, do Encontro promovido pela RedeAlcar durante o Fórum dos Professores de Jornalismo, dialogando com a Profa. Dr. Marialva Barbosa sobre as pesquisas concluidas ou em fase de pesquisa documental, sob a sua orientação:

Pereira da Costa – A pesquisa sobre a produção jornalística do pioneiro da pesquisa histórica sobre a imprensa pernambucana já estão concluída. O projeto foi desenvolvido com a participação de uma equipe de alunos da graduação em Jornalismo, bolsistas de iniciação científica. O livro contendo os resultados do estudo já está no prelo – Editora Bargaço – aguardando o patrocínio do Arquivo Público do Estado.

  Alfredo de Carvalho – “Estamos começando pelo Instituto Histórico e  Geográfico de PE. A pesquisa é lenta porque o Instituto só atende ao público no sábado, pela manhã, quando um grupo de bravos historiadores voluntários vão pra lá para que os pesquisadores possam consultar o acervo. Eles não têm funcionários para atendimento externo. Descobrimos alguma coisa na Academia e estamos inventariando o que passa por nós. Agora vamos entrar com outra turma de Jornalismo e outra vez tentar conseguir alguns deles para dar continuidade.”

Publicidade -  “Estou terminando o livro 100 anos de Publicidade na Mídia Impressa de Pernambuco (1900-2000), com o apoio do PIBIC-UFPE que bancou o bolsista.  O livro se baseia no material recolhido nas páginas do Jornal do Commercio e do Diário de Pernambuco.  Aproveitei esse livro para dar um primeiro passo na aproximação entre nossas escolas,  profissionais do mercado e meus alunos, produzindo assim uma obra conjunta. É mais um passo no sentido de estimular a cooperação entre  todos.”

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2 -  Odylo Costa, filho, na série histórica da revista Imprensa

A revista IMPRENSA de maio (edição número 171), que circula nas bancas de todo o país, dedica o encarte da série 200 anos da imprensa brasileira ao jornalista maranhense Odylo da Costa, filho. Trata-se de um projeto coordenado por José Marques de Melo, idealizador da Rede Alfredo de Carvalho.

O texto sobre Odylo foi escrito pelo Prof. Dr. Antonio Teixeira de Barros, docente da UnB e do CEUB – Centro Universitário de Brasília. A pesquisa biográfica foi realizada com a colaboração de Maria Lúcia Costa de Almeida e Juliana Andrade Lima.

Os interessados podem obter informações sobre a revista, consultando o sítio digital - www.revistaimprensa.com.br

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3 -  Perfil biográfico de Luiz Beltrão repercute na cidade do Recife

Personagem biografado pela revista IMPRENSA no início deste ano, na série 200 anos da imprensa no Brasil, Luiz Beltrão foi tema do artigo publicado pelo professor Fernando Antonio Gonçalves na página de opinião do “Jornal do Commércio” do dia 10 de abril de 2002.

A ênfase do comentário está no pioneirismo intelectual de Luiz Beltrão, no ensino e na pesquisa das ciências da comunicação, formando novas gerações de jornalistas e desvendando as fronteiras de uma nova disciplina científica, a Folkcomunicação. No próximo ano de 2003, o país comemora os 40 anos de criação do primeiro centro universitário da pesquisa comunicacional brasileira, o  ICINFORM – Instituto de Ciências da Informação, fundado por Luiz Beltrão em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco.

Vale a pena transcrever os trechos finais daquele artigo:  

“Antecipador por excelência, o Luiz Beltrão foi apontado (...) como um talento que acreditava que o jornalista deveria ser possuidor de uma formação universitária, mesmo que não fosse em jornalismo. Sua tese Liberdade de Imprensa e formação profissional, em 1953, fez detonar debates apaixonados.

“Um talento Pernambuco, o Luiz Beltrão, que muito engrandeceu a história maurícia, que possui uma caminhada que não deve ser abandonada ao relento pelos que imaginam estar tudo por aqui aos trancos e barrancos, sem eira nem beira, os aloprados de costume.”

Recorde-se que Luiz Beltrão é o hoje o patrono do principal prêmio brasileiro das ciências da comunicação, outorgado anualmente pela INTERCOM – Sociedade Brasileira de Estudos Interdsiciplinares da Comunicação a entidades e personalidades que fazem contribuições relevantes aos estudos comunicacionais.

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4 - Historiador galego analisa primeiro século da Imprensa baiana

Transcorrem no dia 14 de maio de 2002 os 191 anos da instalação da Imprensa na Bahia. A data se refere à estréia em 1811 do periódico A Idade d’Ouro do Brazil, impresso na Tipografia de Manoel Antônio da Silva Serva, a primeira da Bahia, que fora inaugurada na véspera. O Núcleo de Estudos da História dos Impressos na Bahia - Nehib -, criado em 2001 com o apoio da Associação Bahiana de Imprensa, homenageia a data com esta resenha. O professor José Augusto Ventín Pereira, da Faculdade de Ciências da Informação da Universidade Complutense de Madri, escreveu o livro Los primeros cien años de la empresa informativa en Bahía.

Trata-se de estimável contribuição ao estudo da história de nossa imprensa. O Nehib possui cópia em cd-rom do livro, pois a edição em papel (356 páginas, organizadas em sete capítulos), publicada pela Fragua, de Madri, está esgotada. Natural da Galícia, Espanha(1), Ventín Pereira é diretor do Instituto Universitário de Comunicação Radiofônica da Complutense e autor, dentre outros, do livro Empresa informativa. Introducción a la teoria de la decisión, publicado em 1994 pela mesma Fragua. Descende, segundo informa, do primeiro donatário da capitania da Bahia, Francisco Pereira Coutinho. Na ascendência mais recente, seu avô, José Augusto Ventín Duran, e seu pai, Daniel Ventin Cabadas, viveram na Bahia e levaram para a Espanha livros e periódicos que ele utilizou.

Na dedicatória de Los primeros cien años..., o professor Ventín Pereira esclarece que “con este trabajo, estoy intentando devolver una mínima parte de lo que Bahia dio a mi familia, a los Ventín, a los Cabadas, los Montes, los Duran, los Corujeira etc. Estoy intentando demostrar mi agradecimento a una tierra y a unas personas que ricibieron sin ningún tipo de reparos a mis ancestros”. Seu avô colaborou no periódico humorístico A Rolha(2), editado na Bahia nos primeiros anos do século XX, assinando com o pseudônimo Fuenteantela.

O estudo do professor Ventín Pereira é baseado em grande parte nos valiosos trabalhos do pesquisador pernambucano Alfredo de Carvalho publicados em números alternados das revistas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, depois reunidos no livro Annaes da Imprensa da Bahia, obra com a qual Carvalho e João Nepomuceno Torres inventariaram os periódicos baianos de 1811 a 1911 (primeiro centenário). O professor Ventín Pereira utilizou também a Memória sobre o Estado da Bahia, de Francisco Vicente Vianna e José Carlos Ferreira, A Imprensa e o dever da verdade, de Ruy Barbosa, a História do Brasil Reino, de Mello Moraes, e outras fontes.

O autor ocupa as primeiras páginas com a sustentação teórica do que é empresa informativa e em seguida aplica o conceito ao caso baiano, envolvendo a comercalização da informação, nascimento da empresa informativa, origem política do jornalismo, estrutura socioeconômica e desenvolvimento da empresa informativa e jornalística, classificação dos jornais e informação sobre os profissionais da imprensa. Ventín Pereira lamentou não ter vindo à Bahia antes de escrever o seu livro. No entanto, isso não desmerece o valor do seu trabalho, sobretudo quanto à reorganização que deu aos dados do inventário de Carvalho e Torres. Ele adotou 13 classes para os 1.413 periódicos da capital e do interior baianos, de modo que constatou o predomínio daqueles de natureza política (597), literária (324) e humorística (181).

Entre os méritos do trabalho de Ventín Pereira acentuo a periodização que sugeriu para a história da Imprensa brasileira. A uma primeira fase chama de “Oscurantismo Colonial”; uma segunda, de “Implantación”; e uma terceira, de “plebiscitaria” que, iniciado com a Segunda Revolução Industrial, se põe a serviço da luta pela supressão das desigualdades para conseguir a instauração de um sistema de representação democrática. O professor Ventín Pereira prossegue refletindo sobre os dados que divulgou em seu livro. Seus próximos passos, por ele anunciados em recente e-mail, é pesquisar os primeiros designers gráficos da imprensa brasileira.

NOTAS

1 O estudo mais recente sobre os migrantes galegos na Bahia foi lançado no último dia 20 de abril, no Hospital Espanhol, pelo professor Lois Pérez Leira, Galegos na Bahia de Todos os Santos. Há estudos anteriores da autoria dos professores Jeferson Bacelar (A presença espanhola na Bahia: os galegos no paraíso racial (1900-1950), Salvador, Centro Editorial e Didático da UFBA, 1992; Galegos no paraíso racial, Salvador, Ianamá, 1994; Álbum de migrantes galegos: memória visual da presença galega na Bahia, Salvador, Universitária, 1997); Maria del Rosário Alban (A imigração galega na Bahia, Salvador, Centro de Estudos Baianos, 1983; Simpósio da língua e imigração galega na América Latina, Salvador, Edufba, 1998) e Célia Leal Braga (Os espanhóis em Salvador, tese de professor assistente; Memórias de migrantes galegos, Salvador, Edufba, 1995).


2 Verbete 989 dos Annaes da Imprensa da Bahia, de Alfredo de Carvalho e João Nepumoceno Torres (Salvador: Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, 1911): “Dezembro de 1902-1904. Periodico critico, caricato e chistoso. Illustrado com a seguinte divisa: A liberdade é a lei”. Publicação mensal. (Redacção anonyma).

Fonte: A TARDE, jornal de Salvador, BA, 11/05/2002 (Suplemento Cultural)

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5 - Sentinela da Liberdade volta a circular em Salvador

O jornal Sentinela da Liberdade voltou a circular em Salvador no mês de maio, por iniciativa da livraria Sabor dos Saberes, localizada no Pelourinho. O número zero informa que,  a partir do número 1, será encartado o fac-simile do número correspondente dda série original do Sentinela da Liberdade lançada pelo jornalista baiano Cipriano Barata no início do século XIX. O projeto conta com o auxílio qualificado da consultora  do Ministério da Cultura e coordenadora do Projeto Resgate, professora Esther Caldas Bertoletti.

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6 - Cinema, fator de integração na Bahia dos anos 20

O que significou o advento do cinema na Bahia? Como a nova tecnologia de linguagem influiu nos costumes, nas tradições, no gosto artístico, na vida do povo da província da Bahia? Que mudanças provocou no movimento intelectual e na cultura baiana? Como se deu o “diálogo” teatro/cinema nos hábitos culturais da cidade? E mais ainda, qual o significado do cinema como nova arte? Com que categorias trabalha? Quais suas raízes conceituais? É o que procura analisar Angeluccia Bernardes Habert, doutora em Ciências da Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, mestre em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, bacharel em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia, em seu recente livro A Bahia de outr’ora, agora. Leitura de Artes & Artistas, uma revista de cinema da década de 20 (Salvador, co-edição: Academia de Letras da Bahia/Assembléia Legislativa do Estado da Bahia, 2002, 207 págs.).
 
Com este sugestivo título, a autora recria a atmosfera cultural e o imaginário da Bahia do início da década de 20 sob o forte impacto causado pela introdução do cinema na vida provinciana de uma cidade de profundo sentimento religioso, com grande apego às tradições, e que vivenciara (e perdera) o esplendor de ser a capital da colônia, em um momento em que o desenvolvimento das forças produtivas e a irrupção da grande indústria no país desbravavam a passagem das representações culturais antigas para modernas, condições históricas que propiciariam o surgimento de movimentos revolucionários como a Semana de 22.

É um momento de transição cultural, onde se misturam elementos, como em toda transição, mas que, no entanto, toma ainda “como referência a cultura clássica - branca, européia e civilizada”. Um momento em que a cidade passa por transformações que a deslocam de uma “Bahia heróica - antiga e religiosa - para a Bahia moderna (elegante e chique)”. Um momento em que o cinema aparece como um novo veículo, modificador de relações sociais e das formas de interação dos indivíduos com a cidade, uma nova linguagem, introdutora de representações modernas, com poder decodificador e capaz de, veloz e simultaneamente, atingir as “grandes massas”.

O registro histórico dessa transição e dessas mudanças, feito pela primeira revista de cinema da Bahia, Artes & Artistas, editada entre 1920 e 1924 por força da intrepidez e da capacidade de vislumbrar o futuro de Arthur Arezio da Fonseca, “tipógrafo, gravador, jornalista, autor” - visto pelo arguto olhar de Angeluccia em seu livro (originariamente, tese de doutorado, defendida em 1993, na USP) - ganha vida e movimento, luz e cores, cortes e continuidade, ação e pausa, construído quase como um “processo de montagem cinematográfica” (reflexo da própria estrutura da revista), formando um texto ágil, coerente e harmônico.

Das páginas do livro vemos emergir mudanças na estrutura da cidade, o alargamento das ruas, a urbanização de praças, a construção de avenidas. Há uma evocação da Bahia, no livro, encantadora e viva ao mesmo tempo, que nos traz as imagens da antiga Igreja da Sé (e os prenúncios da polêmica que acabaria por levar à sua demolição em 1933), da construção e inauguração da estátua de Castro Alves, na praça, (1921), da Avenida 7 e seu papel integrador, do movimento da rua Chile, do Largo do Pelourinho. Registram-se os pontos da cidade mais conhecidos e vemos surgir uma nítida divisão social da cidade, com seu espaço do Centro, urbano e elegante, e os bairros interiores “camuflados por uma sucessão de roças e chácaras.... onde moravam.... os ausentes da praça”. Destacam-se elementos constitutivos da vida noturna da cidade, a formação do gosto e dos hábitos culturais, as diferenças entre o teatro e o cinema e o processo que leva ao predomínio deste último. Podemos quase visualizar os grandes teatros - o antigo São João, o Polytheama, o Guarany - e sua luta pela renovação e sobrevivência. Aparecem, também, o Olympia, o Jandaia, o Lyceu.

Através da leitura que Angeluccia faz da revista Artes & Artistas, podemos seguir o movimento dos espetáculos teatrais e a apresentação de filmes nos principais cine-teatros da Bahia nos primórdios dos anos 20. Cuidadosa escolha de críticas a alguns espetáculos teatrais e de cinema, com suas programações, descrição dos enredos e temas, biografias dos artistas e diretores etc., permite-nos obter mecanismos para acompanhar a intensidade da vida cultural, a ebulição provocada pelo cinema, as repercussões no imaginário.

Mas não se trata somente de um resgate histórico documental visto através de um meio, o cinema, nem o ponto de vista historiográfico de uma Bahia em movimento de transição cultural. Isto, por si só, já daria dimensão de valor ao livro. No entanto, Angeluccia, em seu livro, vai muito além: discute conceitos como “indústria de consciência”, “cultura de massa”, “produto cultural”, “cultura moderna”, analisa as relações universal/particular no processo de criação literária e artística à luz do desenvolvimento das forças produtivas. Tal exercício, em um esforço quase epistemológico, é feito sob a ótica da dialética do cinema como arte e novo ramo de conhecimento técnico.

Este olhar atualiza o passado e aproxima o futuro, desvendando uma Bahia de outr’ora, agora, que nos situa no presente e revitaliza a memória do passado confrontando o futuro. Irrompem lembranças que nos identificam com tempos e lugares, rostos e figuras, fatos e casos. Particularmente, para mim, foi gratificante reconhecer-me em recordações da autora - amigas que fomos de infância - quando, com amigos, brincávamos “nas ruínas do Polytheama”, “de ser artista de cinema”... “recontando e representando os filmes” e assistindo às “projeções” (idéia de dois amigos da nossa rua) “feitas com rolos de papel desenhados, caixas de madeira e lentes emprestadas”.

Como diz Angeluccia: “todo passado confrontado ganha integridade, encanto, harmonia pacificadora, uma idéia de vida melhor”... e permite “a revelação do passado no presente e do presente no passado”. E nada melhor para ilustrar esta dialética do que as palavras de Marx, nos Grundrisse, sobre a arte grega e a sociedade moderna, fazendo uma brilhante relação entre o universal e o histórico: “um homem não pode voltar a ser criança sem se tornar infantil. Mas, acaso não desfruta da ingenuidade da infância, e não deve aspirar reproduzir, em um nível mais elevado, sua verdade? Por que a infância histórica da humanidade, no momento mais belo de seu desenvolvimento, não deveria exercer um encanto eterno, como uma fase que não voltará jamais?”.
 
Fonte: A TARDE, jornal de Salvador, BA, 11/5/2002 (Suplemento Cultural)

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7 - Livros prestam tributo à grande reportagem


Um desafio à imprensa, em tempos de escassez de grandes reportagens. Assim o escritor, jornalista e editor Luiz Fernando Emediato, da  Geração Editorial, definiu a coleção “Vida de Repórter”, lançada semana passada em Belo Horizonte e reunindo matérias especiais produzidas pelos repórteres  José Maria Mayrinki, Klester Cavalcanti, Lourival Sant’Anna e Marcelo Abreu. A iniciativa destina-se a suprir uma lacuna evidente na imprensa brasileira , que consiste na escassez das grandes reportagens. Quatro livros formam a coleção : “Vida de Repórter”, de José Maria Mayrinki, mineiro radicado em São Paulo, “Viagem ao mundo dos Taleban”, de Lourival Sant ‘Anna, “Direto da Selva”, de Klester Cavalcanti e “Viva o grande líder”, de Marcelo Abreu.

Emediato revela que todas as obras, escritas na primeira pessoa, são relatos de aventuras vividas pelos jornalistas, através da cobertura de uma grande história ou recordando experiências pessoais em décadas de profissão. “Vários profissionais estão procurando a Geração Editorial depois que leram estas publicações, oferecendo seus depoimentos”, diz o editor, que tem 30 anos de experiência na área. Ele ressalta que este projeto editorial funciona ainda como  “uma provocação” às chefias de Redação dos grandes jornais brasileiros, pois mostra que “a grande reportagem esta viva e precisa de um maior espaço”. Dentre os próximos lançamentos, anuncia o livro “Bye Bye, Brejnev”, de Geneton Moraes Neto, que foi correspondente na ex- URSS à época em que o líder soviético faleceu. Joel Silveira também está preparando originais para enviá-los à editora, sobre assuntos que Emediato prefere manter ainda sob sigilo.

Os livros são cativantes tanto para jornalistas como para o leitor comum. “Vida de repórter”, de José Maria Mayrinki, escrito originalmente sob o titulo “3 vezes 30”, em 1992 ( parceria com Carmo Chagas e Luiz Adolfo Pinheiro) trata dos 40 anos de vida profissional do autor.  São analisadas as relações com a Igreja Católica, lembranças dos nove anos em que foi repórter da sucursal paulista do ‘Jornal do Brasil’ e detalhes sobre seu retorno ao ‘O Estado de São Paulo’, onde é hoje repórter especial. Relembra também a década em que prestou serviços à revista católica “Família Cristã’. Mayrinki foi seminarista e estudou Teologia.

Em “Viagem ao mundo dos Taleban”, Lourival Sant’Anna aborda os atentados de 11 de setembro em Nova Iorque, “quando a Humanidade ainda não sabia que alguém seria capaz de jogar um Boeing contra um prédio cheio de gente”, conforme comenta o autor. Quatro horas depois da primeira explosão, Lourival já estava no aeroporto de Cumbica, embarcando para Telavive. Ele fornece, sob uma ótica humanista, uma visão do confronto que se seguiu, viajando de Israel até a fronteira entre Paquistão e Afeganistão.

Marcelo Abreu centra seu “Viva o grande líder” em cobertura que fez na Coréia do Norte, como único jornalista brasileiro a entrar naquele país, onde foi permanentemente vigiado por dois guias indicados pelo governo comunista. O trabalho aborda principalmente o culto fanático ao presidente Kim Il Sung, morto há seis anos. Fotografias foram proibidas e as poucas publicadas mostram apenas a capital, Pyong Yong, sempre quase deserta.

Klester Cavalcanti relata, em “Direto da Selva – as aventuras de um repórter na Amazônia”, alguns casos até dramáticos, como quando ficou durante horas amarrado a uma árvore, para evitar que publicasse determinado material. Há ainda episódios engraçados : em certa ocasião, teve que experimentar o ‘paricá’, bebida alucinógena dos índios Yanomani. Klester viveu durante dois anos na região, como correspondente da revista ‘Veja’, ao lado do fotógrafo Jandurari Simões.

Fonte: Portal Comunique-se, 13/5/2002

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8 - Herbert Levy: a biografia do revolucionário perplexo

O jornalista Claudio Lachini lança este mês a biografia autorizada de Hebert Levy, dono da Gazeta Mercantil. Morto em janeiro deste ano aos 91 anos, Levy foi responsável pelo reerguimento do jornal, que comprou em 1934 por apenas 60 contos de réis. Aos poucos, a GZM se tornou uma referência no mercado. Dentro desse universo Lachini trabalhou por 28 anos, convivendo de perto com o empresário e político (Levy foi deputado federal por 40 anos). Pela defesa de ideais liberalistas e de seus pontos de vista, sempre coerentes, Levy é chamado por Lachini de "Um Revolucionário Perplexo", alcunha que dá nome ao livro. Editado com patrocínio do Banco Safra, o livro tem 256 páginas e será vendido por R$ 20.

Lachini levou um ano para escrever a biografia, baseada em entrevistas com colegas de profissão, empresários e familiares de Levy, além de pesquisa em recortes de jornais e revistas. O objetivo do autor - que escreveu o livro após sugestão dos filhos de Levy -foi apresentar um perfil correto, a seu ver, de quem foi o dono da GZM: um liberal com tendências próximas do trabalhismo inglês.

Eleito deputado federal pela primeira vez em 1947 pela UDN, Levy participou das Marchas da Família com Deus pela Liberdade, movimento conservador que pedia a deposição do presidente João Goulart. Visto isoladamente, este fato poderia confiná-lo ao território da ultra-direita. Mas Levy apoiou Jango no momento de sua posse, em 1961. A convite de Nelson Rockfeller, foi aos EUA para assessorar o novo presidente, atitude que resultou em crítica dos udenistas. Durante a ditadura militar, Levy defendeu a abertura política e a revogação do AI-5. 

Sua atuação no jornalismo começou quando tinha apenas 16 anos, quando foi redator esportivo do São Paulo Jornal. Em 1928 foi redator do Diário Nacional. Durante a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929, Levy farejou a boa recepção que uma publicação direcionada à comunidade empresarial teria. Lançou a Revista Financeira Levy,que depois se fundiu com o Boletim Comercial Levy. Alguns anos depois seria a vez da Gazeta Mercantil.  

Fonte: Portal Comunique-se, 12/4/2002

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9 - Imprensa do povo: cordel remoçado

Esta é uma história  
De natureza bahiana
Que envolve o recôncavo
O massapê e a cana
O engenho, a usina,
O candeeiro de manga,
O carreiro que conduz
A junta de boi de canga
(...)
Ela envolve uma cidade
Bem antiga da Bahia
Um de seus protagonistas
A ela é que pertencia
Me refiro a Santo Amaro
A cidade de Besouro
Negro valente, danado
Que não levava desaforo
(...)
Besouro Cordão de Ouro
Valente de profissão
Que muitas vezes usara
A mesma provocação
Diante daquela ordem
Arretou-se e então
Respondeu pro forasteiro
- Não pedi cachaça, não!
Normalmente os valentões
Para mostrar valentia
Onde não era conhecido
Onde seu nome não ia
Sempre achava um pretexto
Pegava um e batia
Surrava alguém do trecho
Brigava e sempre vencia.

Antônio Vieira
 
Não fosse a carpintaria solitária e exaustiva de alguns artistas, o cordel, uma das mais autênticas formas de expressão da cultura popular do Nordeste, estaria fadado à morte. Veículo de massa no passado, assim como o rádio, meio de propagação de notícias em incrível velocidade, alfabetização, humanização e fixação de conhecimento, vem encontrando fôlego e dedicação entre poetas mais jovens, caso de um santamarense com nome de jesuíta português, Antônio Vieira. Sem qualquer ajuda financeira, ele já fabricou um número razoável de livretos, ricos em histórias e “causos” da cidade em que nasceu e de um Brasil distante, que percorreu nos últimos 20 anos como voluntário de uma comunidade espírita e, depois, como técnico do INCRA.

O contato com o campo e situações envolvendo disputa de terras no Amazonas, Tocantins e Pará foi, aliás, uma das razões que impulsionaram Antônio Vieira a trilhar o caminho da literatura e da música. A opção pelo cordel foi um passo. Sem descuidar-se do formato tradicional, mas inovando nos ritmos (rock, axé e outros, sem preconceitos), ele desenvolve temas ligados ao garimpo, fatos que tiveram repercussão na história e personagens reais, como Manoel Faustino, um dos “cabeças” da Revolução dos Alfaiates (1798), barbaramente assassinado com os companheiros do movimento na Praça da Piedade. Para Felícia, uma prostituta de Santo Amaro que “ensinou uma geração inteira”, também fez poesia. Muitos eventos foram presenciados pelo cordelista na infância, pois o pai possuía uma venda que era parada obrigatória para lendárias figuras. Apesar do tempo, ele conseguiu reter com detalhes o que viu e ouviu.


Foi através do tio Propércio, um funcionário da Prefeitura de Santo Amaro e ex-tenente do Exército, que Antônio Vieira passou a cultuar Besouro Mangangá ou Besouro Cordão de Ouro, capoeirista cuja bravura foi enaltecida por Jorge Amado em Mar Morto, além de ter sido tema de música de Baden Powell, sucesso na voz de Elis Regina (Lapinha, 1968). Mistura de marginal e justiceiro, morreu aos 27 anos, em 1920, após uma luta sangrenta. Três cordéis de Vieira são dedicados ao personagem, entre eles O Encontro de Besouro com o Valentão Doze Homens. O farmacêutico, protético, compositor, caixeiro, desenhista e, acima de tudo, patriota Assis Valente, um dos mais célebres conterrâneos, também foi homenageado. O artista tem como mestres incontestáveis Cuíca de Santo Amaro e Rodolfo Coelho Cavalcante, glória na Bahia entre os anos 40 e 60, e os paraibanos Romano da Mãe D’Água e Inácio da Catingueira, que, entre outros feitos, protagonizaram um debate em 1870, no Mercado de Patos, com uma semana de duração.


O poeta, músico, cantor e compositor Antônio Vieira é autor de mais de 30 trabalhos, entre eles A Praça, Templo da Liberdade e do Poder do Povo, Assis Valente, o Santamarense que Queria Ver Tio Sam Tocar Pandeiro e A Peleja da Ciência com a Sabedoria Popular (o mais volumoso e o mais denso, do seu ponto de vista). Desse total, 12 fazem parte da coleção “Histórias do Recôncavo”. O maior problema do cordelista é divulgar e editar as obras. Seu público cresce em razão dos recitais que realiza, acompanhado de um violão e dois músicos, em hotéis, bares, livrarias, colégios e universidades. Um dos sonhos que alimenta é ver a sua arte tão aceita quanto a música popular brasileira. “O cordel é muito mais profundo do que a gente pensa”, afirma.

Em setembro de 1976, em entrevista ao Jornal do Brasil, Carlos Drummond de Andrade foi fundo no preconceito a que se refere Vieira. Ele saiu em defesa do cordelista Leandro Gomes de Barros, a quem achava que se deveria conceder, em 1913, o título de príncipe dos poetas brasileiros, promovido pela revista Fon-Fon, do Rio de Janeiro, e não ao poeta parnasiano Olavo Bilac. “Um é poeta erudito, produto da cultura urbana e burguesa média; o outro, planta sertaneja vicejando à margem do cangaço, da seca e da pobreza. Aquele tinha livros admirados nas rodas sociais, e os salões o recebiam com flores. Este, espalhava seus versos em folhetos de cordel, de papel ordinário, com xilogravuras toscas, vendidos nas feiras a um público de alpercatas ou de pé no chão”.

Fonte: Jornal A TARDE, Salvador, BA, 13/04/2002

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10 - História das Histórias em Quadrinhos: o acervo da USP

O que para muitos pode significar coisa de criança, para um professor-doutor da Universidade de São Paulo (USP) é fonte permanente de estudo: as histórias em quadrinhos. Coordenador do Núcleo de Pesquisas de Histórias em Quadrinhos (NPHQ) na USP, Waldomiro Vergueiro, professor da Faculdade de Biblioteconomia, quer instituir o Diretório Geral de HQs no Brasil. Para tanto, vai dar início, em parceria com professores e alunos, a um projeto de organização e disponibilização de todos os títulos de quadrinhos já publicados, nacionais ou traduzidos para o português.

Até agora, o núcleo tem uma base de 270 títulos catalogados. A previsão é de que, quando o NPHQ chegar a 400 títulos, o conteúdo já possa ser pesquisado na Internet, ainda no segundo semestre. O passo seguinte será partir para materiais reunidos em gibitecas e acervos pessoais de colecionadores. O próprio professor possui uma expressiva coleção, com pelo menos 15 mil revistas.

"A princípio, vamos fazer um levantamento de títulos, para depois registrarmos autores e desenhistas", explica Vergueiro. O banco de dados concentrará informações desde 1905, quando foi publicada a primeira edição da revista Tico-Tico. O exemplar serve de referência por ser considerado pioneiro na linha de HQs. "O Tico-Tico foi muito popular, baseado no modelo europeu de revistas para crianças. Tinha quadrinhos, histórias infantis, contos, curiosidades, desenhos."

Antes do lançamento da revista, o Brasil já 'flertava' com os comics por meio de sua imprensa humorística. Segundo o coordenador do NPHQ, chegou a ser editado em São Paulo um jornal chamado Diabo Coxo, o primeiro ilustrado no País, feito pelo italiano Angelo Agostini. A carreira de Agostini foi pontuada por passagens em diversos jornais brasileiros, no Império e no período republicano. "Agostini tinha um traçado que se assemelhava muito com o das HQs e, por isso, vários autores o consideram precursor do gênero", explica. "Inclusive o logotipo da Tico-Tico foi criado por ele."

Na década de 30, houve a publicação de um suplemento juvenil nos moldes norte-americanos, no jornal A Nação. Algum tempo depois, passou a ser vendido separadamente, diante do sucesso que fazia entre as crianças. Suas páginas esboçavam as aventuras de super-heróis, como Flash Gordon e Mandrake. As editoras Globo Juvenil, Ebal e Abril tiveram papel importante no fortalecimento da indústria de quadrinhos no Brasil.

Na linha de nacionais, os gibis de Mauricio de Sousa são imbatíveis no quesito popularidade. Mauricio de Sousa idealizou seu primeiro personagem, o Bidu, em 1959, mas a revista Mônica só surgiu mesmo na década de 70. "São histórias que são muito próximas das crianças brasileiras", analisa Vergueiro.

Nos anos 90, foi a vez dos anti-heróis, criaturas violentas, com vícios, imperfeitas, no estilo de Volverine, do X-Men, e O Justiceiro. Na mesma década, surgiram os mangás, comics japoneses que fazem sucesso no mundo todo. Com a nova tendência, chegou a febre Pokémon, Dragon Ball e tantos outros, cujos quadrinhos deram origem a desenhos animados - e vice-versa.

Hoje, o perfil predominante do leitor de HQs é o do jovem de sexo masculino, entre 13 e 25 anos, que encontra nos super-heróis uma espécie de válvula de escape, para extravasar sua agressividade.

Para o professor, falta no Brasil um registro preciso desse material histórico, diferente do que acontece nos Estados Unidos e na Europa. "O crescente interesse por quadrinhos nas universidades me supreendem cada vez mais. Recebo uma média de cinco a dez e-mails por mês de estudantes que querem desenvolver trabalhos relacionados ao assunto, mas não encontram orientadores nem material de pesquisa."

Fundado em 1990, o NPHQ promove reuniões mensais, nos quais são discutidos textos de comics, atraindo uma média de 20 pessoas. Há ainda grupos de debates virtuais, aberto a qualquer interessado, por meio do e-mail agaque-l@listas.usp.br. Outras informações podem ser obtidas no site www.eca.usp.br/nucleos/nphqeca.

Fonte: Jornal “O Estado de S. Paulo”, Cadernos 2, 16/5/2002

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11 -José Reis, paradigma brasileiro do jornalismo científico (1907-2002)

O cientista e jornalista José Reis morreu hoje de manhã em São Paulo em decorrência de pneumonia. Ele tinha 94 anos. O enterro será amanhã, às 10h, no Cemitério São Paulo (em Pinheiros, zona oeste de São Paulo).

Reis é sem dúvida alguma o brasileiro que mais fez pela divulgação da ciência no país. Conseguiu aliar uma importante carreira de pesquisador com reputação internacional ao trabalho de explicar a ciência de modo didático através da imprensa. Escreveu na Folha de S.Paulo desde 1947, quando o jornal se chamava ainda "Folha da Manhã".

Reis conseguiu fazer um trabalho de qualidade em quantidades assombrosas: seus textos de divulgação científica são contados aos milhares. Escrevia uma vez por semana na Folha, aos domingos. Tornou-se nome de prêmio ainda em vida. O CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) concede anualmente o Prêmio José Reis de Divulgação Científica a instituições, jornalistas e cientistas.

Ele também ganhou prêmios por seu trabalho de divulgação, como o Kalinga, entregue pela Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura). Entre outros ganhadores do Kalinga estão o filósofo britânico Bertrand Russell e a antropóloga Margaret Mead.

Nascido no Rio de Janeiro em 12 de junho de 1907, foi o antepenúltimo dos treze filhos de Alfredo de Souza Reis e Maria Paula Soares Reis. Sua formação científica foi feita na Faculdade Nacional de Medicina (1925-30) e Instituto Oswaldo Cruz (1928-29). Foi em seguida ao Rockefeller Institute, Nova York, se especializar em virologia, em 1935-36. Conheceu cientistas famosos e foi influenciado por eles, no Brasil ou no exterior. Já nessa época se preocupava com a disseminação do conhecimento: trabalhou no Rio também como professor secundário.

Seu excelente currículo no Instituto Oswaldo Cruz fez com que fosse convidado para trabalhar como bacteriologista no Instituto Biológico de São Paulo, onde fez carreira por muitos anos. Aposentou-se do instituto em 1958.

Reis começou a pesquisar interessado basicamente no que se costuma chamar de "ciência pura", sem aplicações práticas imediatas. Mas passou a se interessar também pela ciência aplicada, quando notou os problemas práticos que a avicultura no país tinha com doenças. Tornou-se um especialista em doenças de aves respeitado internacionalmente. Entre seus assistentes nessas pesquisas estava sua mulher, Annita Swenssen Reis. Seu Tratado de Ornipatologia, com participação de Annita e Paulo Nóbrega, foi um bom exemplo dessa repercussão internacional.

Envolvido com a administração do Instituto Biológico, acabou adicionando a administração pública na sua lista de conhecimentos, publicações e serviços prestados _colaborou com reformas administrativas no governo paulista. Foi diretor geral do Departamento do Serviço Público durante cinco anos, nos governos de Fernando Costa e Macedo Soares.

Também foi o organizador e primeiro diretor da Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas, atual Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade, da Universidade de São Paulo.

Reis foi um dos fundadores da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) em 1948, junto com intelectuais e cientistas como Maurício Rocha e Silva, Paulo Sawaya e Gastão Rosenfeld. Foi o primeiro secretário-geral da entidade, da qual continuou como presidente de honra. Foi de novo eleito para presidir a SBPC em 1979, mas problemas de saúde impediram que exercesse o cargo.

Seu trabalho na Folha foi além da divulgação de ciência. Foi diretor de redação do jornal de 1962 a 1967, quando pediu para deixar o cargo. Foi um período delicado. Após o movimento de 64 começaram perseguições políticas a cientistas, notadamente "as caças às bruxas" na Universidade de São Paulo. Reis se engajou pessoalmente na luta pela liberdade de expressão e na defesa dos perseguidos na USP.

É difícil escolher uma obra mais representativa entre seus livros, dada a amplitude de seus interesses. Há desde o já citado "Tratado de Ornitopatologia", um clássico sobre doenças de aves, ou um "Methoden der Virusforschung", um resumo em alemão do que de mais moderno havia sobre os vírus em 1939, escrito com H. da Rocha Lima e Karl M. Silberschmidt.

Mas há também "A Cigarra e a Formiga", uma adaptação da fábula em que duas formigas de espécies brasileiras entram na história.

Reis também fez traduções de livros variados _livros sobre a criatividade, a teoria da relatividade de Albert Einstein, os animais da América do Sul ou obras técnicas em agricultura ou didáticas.

A carreira de José Reis parece à primeira vista uma coleção de atividades muito diferentes entre si, uma "aparente falta de unidade", como ele disse de si próprio certa vez. "Essa unidade, porém, eu sinto que ela existe. Não é a unidade de uma linha reta de quem segue sempre a mesma trilha de pesquisa do começo ao fim, mas é a unidade dos círculos crescentes que me leva a procurar implicações cada vez maiores para o próprio conhecimento que vou adquirindo."

* O jornalista Ricardo Bonalume Neto escreve sobre ciência e tecnologia desde 1985. Recebeu o Prêmio José Reis de Jornalismo Científico para o ano de 1990, concedido pelo CNPq, em 1991.

Fonte: Folha de S. Paulo, 16/05/2002 - 17h28

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12 - José Reis: o semeador, o cientista e o poeta

O professor José Reis faleceu poucos dias antes de completar 95 anos. Quase um século de vida, mais de 70 anos de dedicação à ciência e às formas de sua divulgação, se se considerar que José Reis, em 1932, já, então, contratado pelo Instituto Biológico, em São Paulo, para onde veio em 1929, publica na revista Chácara e Quintais um texto intitulado "No início da Estação Avícola de 1932. Algumas sugestões aos avicultores brasileiros", preocupado em dar aplicabilidade aos conhecimentos da área de sua especialidade e em desenvolver uma forma de comunicação simples e direta, capaz de levá-los ao avicultor e à sociedade, em geral.

  José Reis iniciava, assim, o que viria a ser uma das marcas mais características de suas atividades como cientista, como cidadão e como jornalista divulgador da ciência:

  "Pois foi aí que eu comecei de fato minha carreira de divulgador da ciência. Eu trabalhava ao lado do grande cientista Hermann von Ihering, que um dia entrou na minha sala com o seguinte problema: um modesto sitiante procurara o Instituto para esclarecer qual era o problema que atacava suas galinhas que eram dizimadas por uma ‘peste’.

O Dr. Von Ihering me perguntou: Que peste é essa? Aí está uma coisa que você pode descobrir para ajudar esse pessoal.

Aceitei o desafio e, resolvido esse, outros foram se apresentando. Mas para desimcumbir-me bem dessa missão de aconselhar, informar os sitiantes, tornava-se importante estabelecer contato com eles e aprender a falar-lhes e escrever-lhes com a maior simplicidade. Ao fim de pouco tempo, eu estava escrevendo artigos em revistas agrícolas, como Chácaras e Quintais.”[José Reis. Entrevista na Ciência Hoje, nº 1, julho/agosto de 1982]

Em 1936, em co-autoria com Paulo Nóbrega e Annita Swenson Reis, publica o livro Tratado de Ornipatologia, consolidando sua reputação científica na área, a ponto de os colegas e admiradores se referirem a ele como o "famoso médico das galinhas" [ver, por exemplo, o texto de Crodowaldo Pavan "O Guerreiro da Ciência", in Kreins, G. & Pavan, C. (orgs.), A Espiral em Busca do Infinito, NJR, ECA/USP, p. 117].

Daí para frente, o divulgador foi tomando fôlego e crescendo tanto sobre a mesma base poética e humanista do amigo da ciência e do conhecimento, em geral, que, em 1947, no dia 6 de abril, na então Folha da Manhã, inicia a colaboração, primeiro sobre temas administrativos, logo depois, científicos, que se estenderia por mais de meio século, até a sua morte no último dia 16, e mesmo depois dela, já que deixou, como era de seu feitio, artigos preparados com antecedência para publicação posterior.

Em 1948, segundo suas próprias palavras e por sua iniciativa, reúne os professores e pesquisadores Paulo Sawaya, Maurício Rocha e Silva e Gastão Rosenfeld e juntos fundam a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), de que foi o primeiro secretário-geral, passando também a dirigir a revista Ciência e Cultura, lançada no ano seguinte e da qual seguiria como editor até 1954, numa primeira fase e, depois novamente, num segundo momento, de 1972 a 1985.

Aposentado do Instituto Biológico, em 1958 funda, com outros colegas, a Editora Ibrasa – Instituição Brasileira de Difusão Cultural S.A., com o objetivo claro de ampliar os instrumentos e as formas de ação de sua militância científica, cultural, humanista e institucional. Em 1968, por essa editora publicaria, com prefácio de Alceu de Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, o livro Educação é Investimento, um marco de referência do papel da educação e do conhecimento no desenvolvimento social, político, econômico e cultural dos países e das nações.

Antes disso, em 1962, o professor José Reis assume, como diretor de redação da Folha de S.Paulo, a responsabilidade pela "orientação e pelo preparo de editoriais" com o cuidado, como ele próprio observa, de não prejudicar o seu trabalho de divulgação científica. Fica na função até 1967.

CONHECIMENTO COMPARTILHADO

  Em 1975, recebe o prêmio Kalinga, da Unesco, a maior honraria internacional para a atividade de divulgador da ciência e vai, ao longo do tempo, acumulando homenagens e deferências institucionais e acadêmicas que, honrosas sempre e merecidas, pelo muito mais que realizou, foram inscrevendo, em sua história de vida, os rituais de sua consagração e do reconhecimento da excepcionalidade de seu caráter, de sua dedicação aos estudos e de seu despreendimento em relação às coisas materiais.

Assim, em 1979, o CNPq institui o Prêmio José Reis de Divulgação Científica; em 1997, quando José Reis completava 90 anos, a Fapesp criou o Mídia Ciência – Programa José Reis de Bolsas de Jornalismo Científico; poucos anos antes, em 1992, a USP, na Escola de Comunicações e Artes (ECA), funda o Núcleo José Reis de Divulgação Científica (NJR); o Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor), da Unicamp, institui, com o Laboratório de Estudos Urbanos (Labeurb), ambos do Núcleo de Desenvolvimento de Criatividade (Nudecri), o Núcleo de Jornalismo Científico (NJC), com o apoio do Pronex/CNPq e da Fapesp, implantando, em seguida, em 1999, o primeiro Curso de Pós-Graduação, lato sensu, de Jornalismo Científico no país.

A publicação da revista eletrônica ComCiência, em parceria com a SBPC e o relançamento da revista Ciência e Cultura, em sua terceira fase, previsto para julho deste ano, durante a 54ª Reunião da SBPC, em Goiânia, contribuem também para dar medida do quanto tem frutificado a sementeira espalhada por José Reis nos campos e encostas das instituições acadêmicas, científicas e culturais do país.

Como diz a nota enviada pela diretoria da SBPC ao Jornal da Ciência, não há, no Brasil, um fato importante no domínio da ciência e de suas relações com a sociedade, através da atividade cotidiana da divulgação científica - quase uma militância , que não tenha a marca da presença inteligente e criativa de José Reis.  

Difícil também é identificar uma iniciativa institucional que seja, que não traga em sua relevância para a ciência brasileira a participação decisiva de José Reis.

Assim foi com a criação da SBPC, em 1948, tendo como parceiros Maurício Rocha e Silva, Paulo Sawaya e Gastão Rosenfeld; assim foi com a revista Ciência e Cultura; assim foi com a luta pela criação da Fapesp; assim foi com a implantação do tempo integral em São Paulo; assim foi com o estabelecimento de uma cultura de aproximação entre o cientista e a sociedade, através de sua atuação, desde 1947, na então Folha da Manhã, depois Folha de S.Paulo; assim é e assim será para sempre na sua presença indelével, na poesia de seus textos sobre ciência, na ciência de quem sabe contemplar a beleza estética do conhecimento e por ele propugnar pelo prazer generoso de compartilhá-lo com todos.

Fonte: Off Jor Ciência, Observatório da Imprensa, Labor/Unicamp, 22.5.2002

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13 - Revisando a Trajetória de Historiadores Brasileiros

Eles passam a vida perscrutando o passado de países e civilizações, às vezes muito distantes no tempo e no espaço. Desta vez, entretanto, foram obrigados a desviar a atenção da vida de pessoas já mortas há muitos anos para olhar para as próprias trajetórias, assim como deixaram de pensar em séculos para limitar-se às décadas que sucederam o dia de seus nascimentos.
"Conversas com Historiadores Brasileiros" reúne o depoimento de 15 intelectuais da área, em entrevistas ao também historiador José Geraldo Vinci de Moraes e ao economista José Marcio Rego. Os bate-papos abordaram quatro temas principais: a trajetória pessoal de cada um, sua produção acadêmica, opiniões sobre teoria da história e o o papel do historiador na sociedade brasileira.

Os entrevistadores procuraram ouvir historiadores de diferentes gerações e filiações historiográficas. O time ficou assim: Maria Yedda Linhares, Edgar Carone, Emilia Viotti da Costa, Boris Fausto, Fernando Novais, Evaldo Cabral de Mello, José Murilo de Carvalho, Maria Odila da Silva Dias, Ciro Flamarion Cardoso, Luiz Felipe de Alencastro, Edgard de Decca, Angela de Castro Gomes, João José Reis, Nicolau Sevcenko e Laura de Mello e Souza.

No ano em que se comemora o centenário de nascimento de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), os historiadores foram instados a falar sobre seu legado, ao lado de Gilberto Freyre (1900-1987) e Caio Prado Júnior (1907-1990), para a história do Brasil que se fez nos últimos 50 anos e a que se produz hoje nas universidades em que eles atuam.

A tríade foi, em geral, reverenciada, mas houve ressalvas. O baiano João José Reis ("A Morte É uma Festa") alertou: "As deficiências dessa geração continuarão a pairar sobre suas obras, sobretudo os excessos generalizantes que se encontram em todos eles. A historiografia atual demanda mais rigor empírico e nenhum deles resistirá a esse teste em suas obras consideradas "clássicas'".

Já o paulista Nicolau Sevcenko ("Orfeu Extático na Metrópole") ressaltou o fato de que os três intelectuais se completam. "Temos a combinação de três bases fundamentais para entender o país. O elemento da estabilidade, da permanência, do sedentarismo [no caso de Gilberto Freyre"; o elemento da errância, da itinerância, da fluidez, da flutuação [no de Sérgio Buarque"; e o elemento do conflito, do choque, da luta de classes [no de Prado Jr."."

A falta de estudos mais abrangentes sobre o Brasil hoje, muitas vezes relacionada à crescente especialização exigida pela academia, foi outro tema em debate. Para Vinci de Moraes, co-autor do volume, os historiadores hoje concordam que, principalmente depois da institucionalização da pós-graduação nos anos 70, ficou mais difícil fazer análises amplas como as realizadas por Prado Jr./ Buarque de Holanda/Freyre.

"É melhor que a situação seja assim hoje, pois o que se ganhou com a regularização do ofício e com a profissionalização da pesquisa é valioso para a história do Brasil", disse Moraes à Folha.

A relação entre os historiadores e a mídia foi outro dos temas abordados. Para Luiz Felipe de Alencastro, por exemplo, há um risco que vale a pena ser assumido numa relação mais próxima entre os intelectuais e o jornalismo. "É verdade que, se o historiador escreve patacoadas nos jornais, errando redondamente sobre o presente, ele compromete sua reputação como estudioso do passado. Também é certo que artigos com opiniões fortes, politicamente engajadas, podem ser considerados prejudiciais para a reputação do historiador. Mas, como o Brasil é um escândalo social permanente, minha decisão é clara: prefiro tomar posição sobre a atualidade, e eventualmente comprometer minha reputação de historiador, a ficar quieto."

  Moraes também acredita que as conversas permitem perceber, entre outras coisas, que já não existe uma divisão tão rigorosa entre os que trabalham com história marxista e os adeptos à corrente filiada à escola francesa mais voltada ao estudo das mentalidades. "Acho que a discussão entre marxismo e nova história está superada. Pelo menos para boa parte da nova geração, os espíritos estão mais abertos, não no sentido de juntar tudo num liquidificador, mas de buscar convergências entre diferentes correntes de pensamento", disse.

Um segundo volume de "Conversas com Historiadores Brasileiros" está nos planos. O livro faz parte de série idealizada pela editora 34 para mapear a intelectualidade brasileira. Já foram lançados "Conversas com Economistas Brasileiros" (vols.1 e 2) e "Conversas com Filósofos Brasileiros".

CONVERSAS COM HISTORIADORES BRASILEIROS. Autores: José Geraldo Vinci de Moraes e José Marcio Rego. Editora: 34. Preço R$ 34 (400 págs.).

Fonte: Folha de S. Paulo, Ilustrada, 18/5/2002

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14 - Barão de Itararé, renovador do texto humorístico brasileiro

O jornal A Manha, do Barão de Itararé, é o bisavô, como diz o humorista Jaguar, do Pasquim - e de todo o humor moderno brasileiro de irreverência e crítica: dos textos de Sérgio Porto e dos absurdos em tom sério de Ivan Lessa às fábulas e invenções de Millôr Fernandes e às patacoadas do Planeta Diário, depois programa televisivo Casseta & Planeta.

  Depois que A Manha deixou de circular, o Barão lançou três "almanhaques" (de A Manha), com textos tirados das edições do jornal mais o material que produziu para outras publicações e algum escrito novo. Foram eles:

  Almanhaque para 1949, Almanhaque para 1955 - Primeiro Semestre e Almanhaque para 1955 - Segundo Semestre.

  A Edusp, em colaboração com a Imprensa Oficial e a Studioma, está relançando (houve uma edição em 1991) a edição fac-similar do Almanhaque para 1949. O livro tem 280 páginas e custa R$ 40,00. Nas livrarias da USP, tem abatimento de 20%. Para saber os endereços das livrarias, ligue para 0--11-3091-4008 ou 3091-4151.

  Barão de Itararé era o nome artístico do quase médico e sempre jornalista gaúcho Aparício Torelly. Na versão do próprio, Aparício Fernando de Brinkerhoff Torelly nasceu, de pai brasileiro e mãe uruguaia, em localidade incerta, no fundo do Rio Grande do Sul, perto da fronteira com o Uruguai, numa carroça, depois de um susto do cavalo e conseqüente solavanco que apressou o parto. Sabe-se, com certeza, que o nascimento se deu no dia 29 de janeiro de 1895 e que a localidade incerta era a cidade de São Leopoldo.

  Largou os estudos pelo meio, no secundário, mas voltou atrás e fez faculdade de Medicina, em Porto Alegre, ainda que à contra vontade. Um professor convenceu os pais de que o rapaz não tinha vocação para ser médico. Publicou um livro de poemas aos 21 anos, Pontas de Cigarro. Era de poemas, era livro de humor. Falava da falta de dinheiro. Aparício Torelly, ou Aporelly como assinava, culpava Deus, que não teve a idéia de fazer Adão e Eva ricos.

  Opção - Consta que o humor foi desde sempre a vocação e que a decisão de ser humorista chegou numa aula de francês, quando o professor citou Jesus Cristo: "Tu es Pierre et sur cette pierre je batirai mon église." Aparício resolveu: "Vou seguir os passos do Nazareno. Vou ser trocadilhista." E assim foi. No Seminário Nossa Senhora da Conceição, em São Leopoldo, editava o jornal manuscrito Capim Seco. Criticando o Seminário Nossa Senhora da Conceição.

  Em fins dos anos 1910, publicou artigos humorísticos e também sonetos em jornais gaúchos. Abandonada a faculdade, dedicou-se ao jornalismo. Fundou (e afundou, depoimento do empresário) quatro jornais, ainda naqueles anos: A Noite, A Reação, A Tradição e O Chico, esse último humorístico. Casou, teve três filhos, separou-se. Dinheiro pouco, foi tentar a sorte no Rio.

  Apresentou-se a Irineu Marinho, disse que sabia fazer de tudo - até ser diretor do jornal - e começou a trabalhar n'O Globo.

  Mário Rodrigues, pai de Nelson Rodrigues, brigou com Edmundo Bittencourt, dono do Correio da Manhã, onde trabalhava, e fundou A Manhã. Convidou o muito bem pago jovem gaúcho para trabalhar no novo jornal. Nasceu a coluna A Manhã Tem Mais. Dois meses depois, transformou a coluna em jornal independente. Nascia, no dia 23 de maio de 1925, o humorístico A Manha.

  O novo jornal bateu os tradicionais de humor e crítica - Fon-Fon, A Careta, O Malho. Trazia um tipo de humor novo, que combinava a crítica incisiva à política e à sociedade ao mais absoluto nonsense. Trazia novidades gráficas, com montagens fotográficas e fotos retocadas para servir ao texto. E tinha um personagem presente em todos os assuntos, em qualquer lugar do mundo: o Barão de Itararé.

  No começo, Aparício Torelly referia-se a si - diretor e único redator da primeira fase de A Manha - como "nosso querido diretor", "nosso adorado chefe", "generalíssimo de terra, mar e ar". A coisa evoluiu para o baronato.

  De Itararé - uma alusão "à maior batalha da América Latina, que, aliás, nunca houve".

  O jornal teve duas fases, da fundação até 1936, com o Barão escrevendo tudo, ele mesmo, e de 1945 a 1947, com colaboradores do peso de José Lins do Rego, Sérgio Milliet, Rubem Braga, Raimundo Magalhães Jr., Álvaro Lins, ocasionalmente Monteiro Lobato e outros ilustres da escrita.

  Candidato - No último ano de existência do jornal, o Barão de Itararé candidatou-se a deputado do Distrito Federal, pelo Partido Comunista. O slogan da campanha era: "Mais leite, mais água, menos água no leite - vote no Barão de Itararé, Aparício Torelly." Enquanto isso, a convite de Luís Carlos Prestes, escrevia na Folha do Povo, em que também militavam Carlos Drummond de Andrade, Jorge Amado, Di Cavalcanti e um jovem engraçado, um dos herdeiros do humor do Barão, certo Sérgio Porto, dito Stanislaw Ponte Preta.

  A Manha, como jornal, ainda havia mercido sobrevida, curta, editada em São Paulo, entre 1950 e setembro de 1952, período em que o Barão morou na capital paulista; os Almanhaques foram editados originalmente em São Paulo.

Em 1955, de volta ao Rio, Aparício Torelly casou-se pela quarta vez e foi-se afastando da imprensa.

  Viajou à China, em 1963, a convite do governo de Pequim; como bom comunista, visitou Praga e Pequim, embora suas poucas incursões jornalísticas desde então nada tivessem de realismo socialista. Foi um besteirento de carteirinha - no sentido que a boneca Emília, personagem de Monteiro Lobato, dá ao qualificativo besteirento.

  Falador de bobagens. "Quantos rins nós temos?", perguntou o professor.

"Quatro", respondeu o aluno Aparício. "Como quatro?", espantou-se o mestre.

"Dois meus e dois seus", matou a charada o aluno - está na biografia escrita em 1987 por Cláudio Figueiredo, As Duas Vidas de Aparício Torelly, o Barão de Itararé.

  Duas vidas porque, engraçadíssimo, tinha, no convívio próximo, gênio difícil, que a velhice agravou. No fim da vida, estava sozinho. Morava num apartamento grande, no Flamengo, zona sul do Rio, cercado por jornais velhos, meio propício para a proliferação de baratas e formigas.

  Rabiscava horóscopos (os Horóscopos Biônicos e os Quadrados Mágicos) e observava as formigas. Tinha a pretensão de domesticá-las. Achava-as, como achava as baratas, inofensivas e úteis. E não permitia que um dos raros visitantes importunasse os insetos.

  De acordo com uma de suas poucas amigas dos últimos anos, a socióloga Moema Toscano, o Barão velho era um ecologista radical - o que não combina com outra denominação que dá a ele, a de anarquista. Em todo caso, inimigo do regime militar, achou boa a indicação do general Emílio Garrastazu Médici para a Presidência, em 1969, por ser gaúcho, como ele, de quem conhecia parentes.

  Gostava de Juscelino, do papa João XXIII, de Kennedy. Mas não da política norte-americana. Da direita - fora episódio Médici - foi inimigo eterno.

  Perguntaram-lhe uma vez qual era a posição política do integralista Filinto Muller. Respondeu: "Três dedos abaixo do rabo do cachorro." E brincou de simpatizar com Plínio Salgado, fingindo ter interpretado o slogan "Deus, Pátria e Família" como "Adeus, pátria e família."

  Alguns de seus aforismos são repetidos sem que se mencione a autoria:

  "Quando pobre come frango, um dos dois está doente"; "Há alguma coisa no ar além dos aviões de carreira". Definiu: "A adolescência é aquela idade em que o garoto se recusa a acreditar que ficará tão cretino como o pai." Homem de muitas mulheres, morreu sozinho, aos 76 anos, em 27 de novembro de 1971 (e não em 1972, como está no prefácio do Almanhaque para 1949). O corpo foi encontrado por um vizinho.

  A Edusp, em colaboração com a Imprensa Oficial e a Studioma, relança, em edição fac-similar, o 'Almanhaque para 1949', de Aparício Torelly, o Barão, renovador do texto humorístico brasileiro e criador, em 1926, do jornal 'A Manha'

  Fonte: Jornal “O Estado de S. Paulo”, Caderno 2, 26/5/2002

 

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