JORNAL DA REDE ALCAR
Ano 1, Nº12 17 de setembro de 2001
Editores: José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) e Francisco Karam
(FENAJ/UFSC)
realcar@metodista.br
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Rede Alfredo de Carvalho para o
resgate da memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Colaboradores
desta edição:
Luis Guilherme Pontes Tavares (Neib) / Fátima Feliciano (FIAM) / Valdenizio
Petrolli (UMESP) / Antonio Brasil (UERJ)
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Manchetes:
1 Inaugurado em Salvador o Museu da Comunicação Jorge Calmon
2 A crise da leitura entre os jovens brasileiros
3 História Digital da Televisão Brasileira
4 80 anos do Rádio no Brasil
5 Rede Alfredo de Carvalho no Rio de Janeiro
6 Biografia do repórter David Nasser e da revista "O Cruzeiro"
7 Rede Alfredo de Carvalho no ABC Paulista
8 Jornalista Alberto Dines homenageado pela UERJ
9 Nos Tempos do Rádio: lembranças de Tico-Tico
10 O Preço da Leitura ou o livro como mercadoria cultural
11 - 150 anos do colunismo social de Ibrahim Sued
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1
INAUGURADO EM SALVADOR O MUSEU DA COMUNICAÇÃO JORGE CALMON*
Foi solene e concorrido o ato de instalação do Museu da Comunicação Jorge Calmon no Forte de São Diogo, em Salvador, no final da manhã do último três de dezembro. A solenidade consistiu da assinatura do compromisso de manutenção e cessão firmado pela Petrobrás, através do seu coordenador regional de Comunicação Social, professor Walter Brito, pelo comando da VI Região Militar, através do general de divisão José Benedito de Barros Moreira, e pelo representante da Fundação Cultural Exército Brasileiro, coronel Anézio Leite.
O Forte de São Diogo, localizado no Porto da Barra, foi construído no século XVIII. É pequeno para atender a proposta da idealizadora do Museu, jornalista Sandra Régis, de modo que mais adiante será construído anexo (já projetado) para o acervo, liberando assim o velho forte para exposições temporárias e eventos. O Museu exibirá objetos e documentos afins com a história da imprensa, do rádio, da televisão, da publicidade e da informática baianas. Sandra Régis, presidente do Museu, previu que em fevereiro próximo ele estará aberto ao público.
O patrono do Museu, jornalista Jorge Calmon, professor emérito da UFBA e membro da Academia de Letras da Bahia, agradeceu a homenagem e desejou que o novo equipamento não seja apenas depósito de coisas do passado mas centro dinâmico de debate e animação cultural da cidade. A solenidade contou com a presença do governador César Borges, do presidente da Assembléia Legislativa, deputado Reinaldo Braga, do prefeito de Salvador, Antonio Impassahy, do ex-governadores Antonio Carlos Magalhães e Roberto Santos, autoridades, parlamentares, jornalistas, amigos e parentes do homenageado.
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2 A
CRISE DA LEITURA ENTRE OS JOVENS BRASILEIROS*
Luciano Pires ("Jornal do Brasil")
O
estudante brasileiro tirou nota baixa em pesquisa mundial para avaliar a capacidade de
leitura, assimilação e interpretação de textos. O Programa Internacional de
Avaliação de Alunos (Pisa) testou mais de 265 mil estudantes com 15 e 16 anos em 32
países e o Brasil amargou a ultima colocação.
Na média que leva em conta o número de anos de estudo, o pais foi o pior classificado. O
melhor colocado, a Finlândia, atingiu o nível quatro. O Pisa dividiu as nações em
cinco grupos, de acordo com o rendimento alcançado no exame por cada uma delas.
No Brasil, 4.893 alunos de escolas públicas e privadas fizeram a prova. O péssimo desempenho recebeu tratamento especial por parte do Ministério da Educação, que culpou os altos índices de repetência.
''Não ha' nenhuma surpresa nos resultados. Estamos atrasados porque historicamente sempre fomos. O Pisa aponta os caminhos para corrigirmos as escolas, mesmo as melhores escolas'', justifica o ministro Paulo Renato Souza.
O MEC afirma que as reprovações causam uma enorme distorção na relação entre idade e serie. Melhorar a posição do Brasil nesse ranking dependeria, segundo Paulo Renato, de uma mudança de cultura nas escolas, que a cada ano reprovam mais e mais alunos.
''Comparar os nossos com os alunos de países ricos e' errado. Quando os jovens do Brasil estão na idade correta eles ficam na media de nações desenvolvidas'', afirma o ministro.
De fato, na tabela que separa cada pais segundo o tempo de estudo, 35% dos estudantes brasileiros com nove ou mais anos na escola passam a integrar o nível dois ao lado de Grécia e Polônia, por exemplo.
''Eu esperava um resultado pior'', confessa Maria Helena Guimarães, secretaria de Ensino Superior do Ministério da Educação. O consenso entre os técnicos que acompanharam a aplicação das provas e' o de que o estudante brasileiro não sabe ler. Pior: o jovem interpreta uma realidade diferente daquela diante dele. ''A escola brasileira não sabe ensinar a ler e ponto'', completa o ministro Paulo Renato.
Em uma das questões da prova do Programa Internacional de Avaliação de Alunos ha' um texto sobre um programa de vacinação voluntária contra gripe. Apesar de o enunciado informar claramente que ''uma enfermeira vira' ministrar a vacina na empresa'', nada menos do que 27,24% dos brasileiros assinalaram a alternativa: ''um medico aplicara' a vacina''.
''Houve um erro grave de interpretação, porque o estudante ignorou o que estava escrito e respondeu segundo o que ele acreditava estar certo'', explica o ministro da Educação, Paulo Renato Souza. Mais de 53% dos estudantes brasileiros acertaram a questão. (Fonte: Jornal do Brasil, 4/12)
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3 HISTÓRIA
DIGITAL DA TELEVISÃO BRASILEIRA
A História da TV Brasileira começa a ser divulgada através da web. Dois portais podem ser acessados pelos que desejam conhecer episódios, cenários e personagens marcantes da trajetória da nossa indústria televisiva. Um deles é o Canal 1 e o outro o Janela Mágica.
Transcrevemos, a seguir, as apresentações escritas pelos organizadores desses projetos digitais:
Canal 1
"Quem somos nós? Esta é uma pergunta muito comum ao público de nosso site.
Pois o Canal 1 oferece qualidade no seu visual e até mesmo no próprio conteúdo, fator que resultou em perguntas dos internautas à nossa equipe, procurando saber se tinhamos algum vínculo com emissoras de televisão. E a nossa resposta é não.
O Canal 1 é baseado somente na equipe formada através da TeleRede Brasil-Internet. Já o conteúdo, por certo, não está vinculado apenas a esta equipe, que executa assim uma papel de fonte de informação e pesquisa. Mas como somos um site sério, atribuímos os créditos aos verdadeiros donos das imagens e dos textos, sendo que alguns até pertencem a parte histórica dos sites das emissoras, que por muitos passa despercebida nestes. E é por esta razão que estamos recolocando-os no ar através do Canal 1, para que os internautas notem a importância de cada um dos canais no nosso contexto de vida, na nossa história e no processo em que a televisão passou durante estes mais de 50 anos decorridos.
O nome Canal 1 veio justamente do nome de um jogo da Empresas de Brinquedos Grow, que era baseado na disputa pela audiência e pela qualidade de programação das emissoras daquela época: Rede Tupi de Televisão, Rede Globo, TV Gazeta, RTB (Rádio e Televisão Bandeirantes), TV Cultura e TV Record; sem canal 9, sem SBT, sem tv a cabo, sem nada. Apenas estes aí citados. Seria muito legal se a Grow relançasse o Canal 1, depois de quase 30 anos.
E outra causa de termos dado nome de Canal 1 ao site é a de ser o primeiro de todos, uma espécie de pioneiro, que contaria a história dos que vieram depois... E conforme a Anatel, "canal 1" é impossível de existir, já que a faixa de transmissão mínima é a freqüência de número 2 (veja que o primeiro sempre é este, como a TV Cultura em São Paulo e a TVE no Rio, antigo canal da Rede Excelsior carioca). Assim brincamos que você está acessando um canal que jamais você poderia ver na verdade, da mesma forma que não podemos rever em tempo real o nosso passado junto ao passado televisivo."
Seu endereço na web é o seguinte: http://br.geocities.com/memorialdatv/introducao.htm
Recomendamos, especialmente, o acesso a dois itens de natureza histórica: cronologia e pioneiros.
Janela Mágica
Produzido pela agência LEIDE MOREIRA Planejamento e Comunicação homepage: www.leidemoreira.com.br - , o projeto compõe-se de uma Mostra, que pretende ser exibida em várias cidades brasileiras, e de um Portal, disponível para consulta na internet.
"A Mostra reúne 200 fotos e depoimentos de 30 VIPs do meio, retratando os momentos mais marcantes da TV por meio de 200 fotos; reúne, ainda, depoimentos de 30 famosos do meio de Lolita Rodrigues a Faustão sobre o futuro dessa mídia.
A curadora Vida Alves já conta com o apoio da Rede Globo em sua luta pela criação do Museu da Televisão Brasileira , o 1º do gênero no país.
A mostra Janela Mágica (exibida inicialmente no período de 06 a 24/11/2001 no Conjunto Nacional Av. Paulista, 2073, Jardins, na cidade de São Paulo) é um passeio pela história da televisão brasileira, que está completando 51 anos.
São 72 painéis, com um total de 200 fotos, que retratam a trajetória desta mídia, desde a época em que a programação acontecia ao vivo com direito a muito improviso até os dias de hoje.
A exposição reúne depoimentos de 30 personalidades do meio de Lolita Rodrigues a Faustão , que foram convidadas a opinar sobre a verdadeira vocação da televisão. Afinal, quando ela é "do bem" e quando é "do mal"?
"A televisão é do mal quando ela deixa de lado as suas obrigações sociais e parte para ganhar a audiência a qualquer custo. Isto acontece quando a disputa vira uma neurose, uma guerra, no pior sentido da palavra, puxando para baixo, sem nenhum nível de qualidade", constata o apresentador Fausto Silva, da Rede Globo.
"A TV é do bem quando ensina as pessoas a cuidarem de seu país, de sua casa e de sua família. Quando trata de assuntos como educação, cuidando das crianças, jovens e velhos", opina o cantor e compositor Milton Nascimento.
"Menos ganância", desabafa Lima Duarte.
E como é que os protagonistas da televisão de ontem e hoje antevêem o futuro?
"O que eu gostaria que fosse, mesmo, a televisão no futuro é uma televisão que informasse e se informasse, com menos cupidez, menos ganância e que servisse menos aos eternos ditadores de plantão, sempre dispostos a dominar a nossa alma", desabafa o ator Lima Duarte.
Os painéis reúnem opiniões de nomes como Lolita Rodrigues, Hebe Camargo, Irene Ravache, Raul Gil, Milton Neves, Goulart de Andrade, Maitê Proença e Silvio Luís.
1º museu do gênero, Janela Mágica tem curadoria de Vida Alves, protagonista do primeiro beijo transmitido ao vivo pela televisão, em 1951, na extinta TV Tupi. Vida, que além de atriz é a fundadora do Pró- TV, Associação dos Pioneiros Profissionais e Incentivadores da Televisão Brasileira, é categórica ao afirmar a importância desta mídia no cotidiano de todo o mundo.
"A televisão tem uma obrigação maior, a de instruir. O povo precisa de educação, e ama a televisão. Foi ela quem ensinou grande parte da população a preparar o soro fisiológico, por exemplo, e esclareceu a importância da amamentação infantil. É este papel que deve cumprir".
Vida vem batalhando há alguns anos pela criação do Museu da Televisão Brasileira iniciativa inédita no país e que já conta com o apoio da Rede Globo.
Parte das imagens exibidas em Janela Mágica integra o acervo da entidade, que já conta com 1.500 fotos históricas de atores e atrizes em diversos programas televisivos. Vida também tem gravados depoimentos inéditos de mais de 140 personalidades, entre elas Dias Gomes, Fernanda Montenegro, Daniel Filho e Boni."
Para
acessar o portal na internet, basta clicar:
http://www.dana.com.br/cultura/janelamagica/pgs/projeto.htm
Recomendamos a consulta ao item Depoimentos, onde vários protagonistas da nossa televisão (atores, produtores, criadores, empresários) contam episódios que vivenciaram na "janela mágica" ou nos seus bastidores, entre eles Abelardo Figueiredo, Lima Duarte, Tonia Carrero, Marisa Orth ou Marco Caruso.
Ao explicar o projeto aos usuários da internet, Luciano Dias Pires Filho, Diretor de Marketing da empresa patrocinadora, DANA CULTURAL, vale-se da metáfora do beijo, lembrando que a trajetória da televisão brasileira ancora-se em dois beijos (o primeiro em 1951 e o mais recente em 2001).
"Um beijo.
Era 1951, na primeira novela brasileira: "Sua Vida me Pertence". ?Walter Forster e Vida Alves, ao vivo, em preto-e-branco, fazem o grande acontecimento daquele veículo que nascia para transformar a cultura brasileira. O que esperar de algo ?que começa com um beijo?
Paixão.
Pois foi exatamente o que encontramos durante o desenvolvimento desta exposição: paixão.
A idéia da montagem da Janela Mágica, nasceu em 2000, quando a televisão comemorou 50 anos de fundação.
Sabíamos que muitas homenagens seriam feitas. Exposições, artigos, retrospectivas, programas... Não queríamos contar a história da TV no Brasil. Para isso, tem gente com mais recursos, competência e paciência.
Queríamos algo com vida. E fomos literalmente convidá-la...
Vida Alves confunde-se com a TV brasileira. ?Esteve presente desde o primeiro momento. ?Aliás, antes do primeiro momento.
Viveu, interpretou, escreveu, dirigiu, comentou e ajudou a construir a TV dos primeiros anos. E dos seguintes também. Quando parou, não parou realmente. Tornou-se a Presidente da Associação dos Pioneiros da Televisão Pró TV, onde batalha para a preservação da memória da TV e das pessoas que a construíram. Criaram, talvez seja mais apropriado.
Pedimos à Vida que registrasse suas memórias. ?Não queríamos a história, queríamos a memória. ?A única exigência foi a de que ela se restringisse à produção nacional. Não pensem que foi fácil deixar ?de fora Nacional Kid, Viagem ao Fundo do Mar, ?Perdidos no Espaço, Batman...
Também colocamos uma linha de corte imaginária, por volta dos anos 70 e 80. Queríamos as raízes.
Tampouco foi fácil deixar de fora a Fábrica do Som, TV Pirata, MTV e vários programas e movimentos que revolucionaram a linguagem da TV. E, aos poucos, fomos vendo ressurgir, em momentos de alegria, tristeza, emoção, saudades, indignação e energia, ?a história de uma vida. A Alves.
Impossível falar de tudo, de todos, de detalhes. Não fomos atrás das estrelas, dos medalhões apenas. Fomos buscando aquilo que a memória de Vida Alves alcançava, ajudada pelos arquivos da Pró-TV.
Também convidamos dezenas de personalidades a manifestar sua opinião sobre o bem, o mal e o futuro da TV. São depoimentos importantes, singelos, instigantes e lúcidos, que revelam uma demanda por qualidade e uma luta surda entre os interesses comerciais e o papel moral, social ?e educativo da TV.
Muita gente, muita coisa, muita, muita, ficou de fora. Por falta de espaço, de imagens, de memória, de tempo. Jamais por injustiça ou má fé. Por vezes, precisamos lidar com a preocupação de Vida Alves em imaginar que certamente estaria magoando, ofendendo ou esquecendo alguém.
Mas é assim que funciona a memória: fragmentada, seletiva, falha. Fosse diferente, esta exposição se chamaria História, e não Memórias, da Televisão Brasileira.
De qualquer forma, memórias todos temos. E, memórias da TV brasileira, talvez seja o que mais temos. Portanto, não se prenda à sua memória, ao buscar este ou aquele momento, fato ou pessoa. Prenda-se ao espírito desta exposição, à energia, criatividade e paixão dos pioneiros, que formaram as raízes de tudo o que vemos hoje no ar.
Outro beijo.
Em 2001, no programa Fica Comigo, na MTV. Dois homens beijam-se ao vivo e em cores, fazendo o grande acontecimento daquele veículo que nasceu para transformar a cultura brasileira. Passaram-se 50 anos entre os dois beijos, e tudo mudou.
Hoje, no primeiro ano do novo milênio, numa manhã de setembro, mesmo mês em que nasceu no Brasil, mais uma vez a TV transmite ao mundo, ao vivo, momentos que nos deixaram atônitos, agoniados, indignados, desesperados. A TV deixou de apenas registrar. Passou a participar. É arma de guerra, de paz. Está dentro dos conflitos, ficou agressiva, cega, focada nos lucros, pressionada pela urgência, multiplicada pela tecnologia. Não é mais aquela TV do primeiro beijo. É maior, mais abrangente, mais perigosa, mais... desumana.
É do bem. E é do mal.
Só uma coisa não mudou. É impossível ignorar a janela mágica que nos transporta para o mundo e gera a dúvida: somos nós mesmos... ou somos a própria Televisão?
São Paulo, novembro de 2001"
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4 80 ANOS DO RÁDIO NO
BRASIL
O próximo Simpósio da Pesquisa em Comunicação da Região Sudeste IX SIPEC-SUDESTE está agendado para a cidade de Campos, Estado do Rio de Janeiro, nos dias 4-6 de abril de 2002. O encontro é promovido pela INTERCOM Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, em parceria com a Faculdade de Filosofia de Campos.
Um dos eventos programados para o IX SIPEC-SUDESTE é o simpósio "RÁDIO NO BRASIL: PIONEIRISMO E PERSPECTIVAS /Homenagem a Mário Sampaio Ferraz", dedicado à memória do fundador daquele faculdade e um dos pioneiros do rádio brasileiro, no ano em que esse veículo de comunicação massiva celebra 80 anos de sua implantação em nosso país.
Quando publicou seu livro "História do Rádio e da Televisão no Brasil e no Mundo Memórias de um Pioneiro" (Rio de Janeiro, Achiamé, 1984), o Prof. Mário Sampaio Ferraz fez questão de transcrever, na contra-capa, o depoimento solicitado ao então chefe do Departamento de Jornalismo e Editoração da ECA-USP, Prof. Dr. José Marques de Melo, a quem o autor previamente enviou os originais da obra.
Transcrevemos aqui trechos desse posfácio:
"Atendo, com demora é verdade, ao seu pedido de manifestação sobre o livro História do Rádio e da TV no Brasil.
Primeiro, quero dizer que sua iniciativa é meritória. Afinal de contas, são poucos os professores universitários de comunicação, neste país, que se preocupam em oferecer contribuições para o seu campo de estudos. Os salários são baixos, as condições de trabalho são precárias, mas não se justifica que os mestres deixem de oferecer testemunhos, reflexões, observações aos seus discípulos.
Segundo, gostaria de ressaltar a importância do seu trabalho pelo que ele certamente contém de percepção pessoal. Quando uma história é contada por alguém que protagonizou alguns dos acontecimentos, sem dúvida ela ganha em intensidade e riqueza de detalhes. Sua trajetória profissional como jornalista confunde-se quase com os passos iniciais dados pela radiodifusão brasileira. Daí a significação do seu relato, que combina a vivência profissional, a argúcia do pesquisador e a maturidade do professor.
Terceiro, congratulo-me com a diretriz adotada na obra, que, sem perder o caráter de relato de um observador participante, mostra-se didaticamente ordenada. Está aí a compreensão do docente, que resgata um objeto da história da comunicação, mas imprime um tom pedagógico, facilitando o acesso das novas gerações àquele campo e pesquisa e análise.
Aguardo a publicação do livro, desejando que encontre o sucesso merecido."
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5 REDE
ALFREDO DE CARVALHO NO RIO DE JANEIRO*
O Conselho, órgão de divulgação do Conselho de Cultura do Estado do Rio de Janeiro, publica em sua edição n. 48, correspondente a julho/agosto de 2001, artigo da Profa. Dra. Marialva Barbosa (UFF) que explica a motivação e as metas da Rede Alfredo de Carvalho, bem como as principais atividades realizadas durante este ano.
O Conselho de Cultura do Rio de Janeiro tem como vice-presidente a Profa. Dra. Ana Arruda Callado, também vice-presidente da ABI, uma das fundadoras e membro da equipe intelectual que vem liderando a Rede Alfredo de Carvalho.
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6
BIOGRAFIA DO REPÓRTER DAVID NASSER E DA REVISTA "O CRUZEIRO"*
*Carlos Eduardo Lins da Silva
Diretor-adjunto de Redação do jornal "Valor"
A leitura de "Cobras Criadas" (Editora Senac, São Paulo, 600 p.), biografia do repórter David Nasser e da revista em que ele se projetou, "O Cruzeiro", em princípio oferece ao jornalista brasileiro e a seu público uma sensação de alívio e orgulho: a prática da atividade no país melhorou muito de qualidade ao longo da segunda metade do século 20.
É impensável nos dias atuais um profissional de imprensa agir como Nasser durante as décadas de 1940 a 1970 e ganhar, em troca, respeito e prestígio entre colegas, fontes e a sociedade como um todo. Veículos honrados não admitem mais a prática da extorsão ostensiva; o consumidor de informação sofisticado não aceita a ficção disfarçada de reportagem, que, como demonstra sem deixar dúvidas o autor do livro, Luiz Maklouf Carvalho, marcou a trajetória de Nasser em "O Cruzeiro".
No entanto, o jornalismo brasileiro não está definitivamente livre do estilo pouco ético do autor de "Portugal, Meu Avozinho". Ele é visível quase com a mesma desfaçatez em regiões do país onde a atividade econômica não é ainda suficiente para garantir a independência da mídia, na forma de colunistas sociais que cobram para colocar personagens em suas notas, repórteres que ganham salários adicionais em órgãos de governos ou assessorias de empresas privadas, colunistas políticos que comercializam informações.
Em São Paulo e no Rio, ele ainda está presente em jornais, revistas e programas de TV sensacionalistas, em que a troca de favores entre fontes da polícia e jornalistas lembra a associação que David Nasser tinha com os integrantes da Escuderia Le Cocq, nome fantasia do Esquadrão da Morte, cuja bandeira cobriu o caixão do repórter no seu enterro, em 1975.
Pode ser também que o jornalismo mercantil tenha se tornado discreto, cuidadoso, mas ainda ocorra. Exemplos recentes, até em nações desenvolvidas, com consolidada tradição de controle ético da sociedade sobre veículos de informação, são notáveis.
Para não ir longe, basta recordar o episódio de 1999, em que o jornal "The Los Angeles Times" publicou uma edição especial de sua revista de domingo dedicada a um ginásio para eventos esportivos que se inaugurava na cidade sem avisar aos leitores que a publicação havia sido paga pela empresa que havia construído e iria explorar o empreendimento.
O caso provocou a queda dos diretores da Redação e ajudou a enterrar a experiência em que o jornal tentou derrubar um dos pilares do jornalismo, o muro entre Redação e publicidade.
O livro de Maklouf Carvalho pode, portanto, servir não só para o jornalista brasileiro se autocongratular pelos avanços de sua profissão, reflexo, aliás, dos progressos que toda a sociedade tem obtido na área da ética, como também para alertá-lo sobre o que ainda se faz de nefasto nesta atividade e para os riscos de recaídas.
"Cobras Criadas" é, em si mesmo, bom jornalismo. Maklouf Carvalho entrevistou quase todos os sobreviventes da era "O Cruzeiro", consultou de modo meticuloso a coleção da revista, pesquisou o arquivo pessoal de Nasser, leu a bibliografia relevante correlata ao tema. Escreve o que apurou com elegância e correção.
Do ponto
de vista acadêmico, o trabalho poderia ser mais preciso em termos de citações e notas.
Às vezes incorre no perigo de reconstituir conversas e descrever situações sem
especificar com exatidão as fontes usadas. Sente-se, também, a tendência do autor de
induzir o leitor à conclusão de que Nasser forjou determinados episódios, mesmo quando
as evidências são apenas indicativas da fraude, como, por exemplo, o caso da suposta
fotografia da sra. Chiang Kai-shek no Rio que, sugerem Maklouf de Carvalho e alguns
contemporâneos do fato, era do repórter fantasiado de mulher.
A edição, competente, com muitas fotos, boa diagramação, ganharia se tivessem sido
incluídos recursos simples como cronologia e índice remissivo. Trata-se de obra de
referência, em que a facilidade da consulta é vital.
No conjunto, "Cobras Criadas" é uma contribuição relevante para a bibliografia sobre o jornalismo, importante como documento e instigante como fonte de reflexões para quem o pratica.
* Reproduzido da Folha de S. Paulo, Caderno Ilustrada, edição de 10/11/2001
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7 REDE
ALFREDO DE CARVALHO NO ABC PAULISTA
O Núcleo da REDE ALFREDO DE CARVALHO GRANDE ABC, liderada pelo Prof. Dr. Valdenizio Petrolli (UMESP) realizou durante o ano de 2001 uma série de eventos preparatórios às comemorações do Bicentenário da Imprensa Brasileira 1808 2008 e do Centenário da Imprensa no Grande ABC 1904 2004.
Reuniões preparatórias
1.ª
Reunião (15/05/2001) - realizada no dia, na Associação Comercial de Santo André
ACISA
2.ª Reunião (18/06/2001) - realizada na Casa da Cultura e Museu Barão de Mauá, em
Mauá.}
3.ª Reunião ( 06/08/2001) - realizada no Museu Histórico Municipal de São Caetano do
Sul
Atividades culturais
SANTO ANDRÉ
Museu de Santo André 10 a 29/09/2001
- Primeiras Páginas
Exposição do acervo de reproduções das primeiras páginas de jornais do ABC
Universidade do Grande ABC UniABC - 17 a 30/09/2001
- A Propaganda na Folha do Povo
Primeiro jornal de circulação diária no ABC. Exposição de jornais, fotos, propagandas e publicidade da época (décadas de 50 e 60).
Alpharrabio Lvraria Espaço-Cultura 10 a 30/09/2001
- Exposição de jornais e revistas, como as coleções completas das revistas A Cigarra e Livrespaço, do fanzine Jornal da Taturana e do Jornal Tribuna do Povo, entre outros. Todos veículos de divulgação da produção literária e da cultura regional.
- Lançamento do livro "Arquivo em Imagens", dos números 1 ao 5 (coleção completa), da série "Última Hora", com apoio do Arquivo do Estado.
SÃO BERNARDO DO CAMPO
Serviço de Memória e Acervo Municipal 10 a 28/09/2001
- Um mergulho no jornalismo local
Exposição dos primeiros semanários do O Imparcial, de 1933, dirigido pelo comerciante português João Domingues Tavares, documentos pessoais que retrataram esta época, matérias e crônicas de sua autoria.
- Exposição de outros periódicos da época.
Universidade Metodista de São Paulo UMESP 18 a 20/10/2001
- Exposição de Jornais Laboratoriais do curso de Jornalismo
- Encontro de Jornalismo
SÃO CAETANO DO SUL
Museu História Municipal de São Caetano do Sul 10 a 30/09/2001
- Os primórdios da Imprensa em São Caetano
Exposição das primeiras páginas dos antigos exemplares.
Fundação Pró-Memória de São Caetano do Sul 17 a 28/09/2001
Lançamento do livro "Cirurgia em Campo Aberto" (Editora Brasiliense), do jornalista Aureliano Biancarelli
Abertura da exposição sobre o mesmo tema, pelos fotógrafos: Adriana Zehbrauskas, Cleo Velleda, Eduardo Knapp, Evelson de Freitas, João Bittar, João Wainer, Juca Varella, Lalo de Almeida, Luís Carlos Murauskas, Marlene Bergamo e Eder Chiodetto.
Canal 45 TV São Caetano
Programa ABC Brasil. Tema: Qual o papel da Imprensa? Apresentador: Jornalista Glenir Santarnecchi. Participantes: Daniel Lima (Revista Livre Mercado) e Valdenizio Petrolli (Revista Raízes e Rede Alfredo de Carvalho).
MAUÁ
Casa da Cultura e Museu Barão de Mauá 10/09 a 31/10/2001
Mostra de Colagem "A História da Imprensa no Brasil" Da AAPC Associação dos Artistas Plásticos de Colagem.
Artistas de colagem participantes: Aldo Del Rio, Eliomar Tesbita , Ezídio dos Santos, Fernando Calvoso, João Generoso, Juliana Pavanelli, Monique Allain, Paulo Azevedo, Renato Brancatelli, Rhonnam, Vera Panavelli, Francisco Ferreira, Juliana Veronezi, Susana Prinzedt e Sonia Rosa. Curadoria de Robert Richard e Deni Saez.
Oficinas de Colagem de Jornais com o sentido de preservação da memória, ministrado pela arte educadora Derli Escudeiro Godoy, para professores de arte.
Biblioteca Municipal Cecilia Meirelles 11 de outubro de 2001
Palestra "A influência do jornal Última Hora nos jornais da região do Grande ABC", pelo jornalista Valdenizio Petrolli, na Biblioteca Cecilia Meirelles, de Mauá.
Lançamento do livro "Arquivo em Imagens", com apoio do Arquivo do Estado.
Mauá Net Vox 11 de outubro de 2001
Entrevista com o Jornalista Valdenizio Petrolli sobre a Rede Alfredo de Carvalho.
RIO GRANDE DA SERRA
Espaço Cultural Sergiu´s Restaurante 10/09 a 10/10/2201
A História e a Memória da Imprensa.
Exposição de jornais e revistas do Grande ABC
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8 JORNALISTA
ALBERTO DINES HOMENAGEADO PELA UERJ
Alberto Dines completa 70 anos de idade e 50 anos de jornalismo em 2002.
Jornalista desde 1952, ele foi editor-chefe do Jornal do Brasil, recebeu o prêmio Maria Moors Cabot, da Universidade de Columbia em 1970, e escreveu livros como "Morte no Paraíso - a tragédia de Stefan Zweig", em 1981.
Criador do Observatório da Imprensa, site lançado há seis anos e programa de televisão produzido pela TVE há quatro. Ele começou sua carreira de grande crítico regular da imprensa em 1975, quando fundou o Jornal dos Jornais, primeiro periódico para análise da mídia.
Reconhecendo a importância desse jornalista, a Faculdade de Comunicação Social da UERJ homenageia Alberto Dines dando o seu nome ao novo estúdio do Laboratório de Televisão e Vídeo. O Estúdio Jornalista Alberto Dines será um novo ambiente para o exercício do telejornalismo e da criatividade dos alunos de comunicação da universidade.
Além de novos programas, que já estão sendo estudados, o espaço será uma extensão do
TJ UERJ Online - telejornal diário na internet <www.telejornalismo.com/tjuerj>,
coordenado pelo Prof. Antonio Brasil - possibilitando grandes entrevistas, debates e
apresentações culturais.
"A idéia de dar ao estúdio o nome do jornalista apresenta um desafio saudável para os futuros jornalistas: exercer a profissão com ética e responsabilidade, lições tantas vezes ensinadas pelo mestre Alberto Dines" explica Antonio Brasil.
Através
da parceria firmada entre a UERJ e o Observatório da Imprensa, desde 1998, toda
terça-feira às 22h30, alunos participam do Observatório, propondo, ao vivo, do posto
avançado da UERJ, questões aos convidados da noite. Atualmente, a Equipe TJ UERJ Online
produz matérias que são exibidas no programa. A inauguração do estúdio será ainda
uma boa oportunidade para comemorar
o êxito alcançado pelo jovem grupo de jornalistas.
Em pouco mais de seis meses, o TJ UERJ Online alcançou repercussão mundial: o pioneirismo na área já rendeu frutos como a parceria com a rede norte-americana CNN através do CNN Student Bureau, que divulga reportagens de estudantes do mundo inteiro.
E como não poderia deixar de ser, para comemorar a inauguração, a equipe vai gravar um programa especial com o jornalista que será transmitido pelo TJ UERJ Online.
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9 NO
TEMPO DO RÁDIO: LEMBRANÇAS DE TICO-TICO
Gisela Swetlana Ortriwano é jornalista, doutora em Ciências da Comunicação e professora de radiojornalismo na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Autora de A informação no rádio (Summus). E-mail: gsortriw@usp.br
Em depoimento )que transcrevemos na íntegra) originalmente concedido ao site Reescrita, coordenado pelo Prof. Dr. Manoel Carlos Chaparro (ECA-USP) ela rememora episódios da trajetória profissional de José Carlos de Moraes, repórter mais conhecido pelo apelido Tico-Tico que marcou época no Rádio Paulistano.
"José Carlos de Moraes, com e, como fazia questão de ressaltar, é parte da história do jornalismo eletrônico brasileiro, referencial inquestionável no tempo em que repórter de rádio era obrigado a carregar uma tralha pesada para conseguir os furos, a exclusividade. Cantador de emboladas, era miúdo, sempre agitado, elétrico, saltitante. Não deu outra e, muito jovem, acabou ganhando o apelido que marcaria sua vida: Tico-Tico.
Locutor, com esse sotaque? Caipirinha, esses erres.... Não tem jeito!
Nascido em Angatuba, interior de São Paulo, ainda garoto mudou para a capital com a família. A avó tinha uma pensão na rua Amaral Gurgel e ali ele foi conhecendo gente do meio jornalístico. Como Freitas Nobre, amigo de toda vida, que sempre considerou seu padrinho artístico, seu professor. Freitas ia corrigindo os meus erros, o meu sotaque, aperfeiçoando o Tico-Tico. A faculdade de direito cursou apenas para agradar a mãe. A paixão, o desejo desde criança, sempre foi ser locutor, speaker como se dizia.
As negativas iniciais que enfrentou não o desanimaram e, com menos de 17 anos, já convivia com a notícia, a redação, os microfones, o jornalismo. O primeiro emprego, pelas mãos de Freitas Nobre, foi o de mensageiro (depois noticiarista e locutor) da Agência Nacional do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) da época de Getúlio Vargas. A seguir, na Folha de São Paulo, foi setorista de política, cobrindo a Assembléia Legislativa. Tico-Tico contava que a concretização do sonho de ser locutor começou assim:
Freitas Nobre e eu queríamos arrumar trabalho na Rádio Educadora, hoje Gazeta. A gente queria fazer a Hora da Ave Maria. O gerente aceitou, mas disse que a gente ia trabalhar de graça... Como, trabalhar sem ganhar? Isso é comum, diz o homem. Vocês começam na Hora da Ave Maria, saem arranjando anúncio. Quando tiverem uma boa carteira, a rádio dá uma comissão prá vocês...
Era essa, na verdade, a forma típica como jornalistas conseguiam emprego antigamente. E também os locutores, os artistas todos do rádio brasileiro... A terceirização, nem sempre no melhor sentido, vem de longe. E jabá nunca foi novidade, tem pedigree.
Dr. Tico-Tico, 54 anos falando alguma coisa
O diploma de advogado guardou a vida toda com muito cuidado. Persistente, insistente, desembaraçado, nunca aceitou um não como resposta. Acabou tendo seu primeiro horário, só seu, como locutor de estúdio: Programa Despertador, na Rádio São Paulo. A reportagem foi o passo seguinte em sua vida e começou a virar realidade quando, em 1947, Murilo Antunes Alves, já famoso e trabalhando na Rádio Record, precisou de alguém para ficar falando alguma coisa enquanto ele se deslocava de um lugar para outro durante a cobertura da posse de Adhemar de Barros como governador de São Paulo.
Já na minha primeira aparição como repórter de rádio, o jornal criticou, dizendo que eu falava mais que o entrevistado...
Quando a Bandeirantes precisou de um repórter, contratou Tico-Tico. Finalmente, um microfone na mão, um gravador de fio (coisa complicada: quando aquilo embaraçava, era preciso a noite toda e um pouco mais para desfazer o emaranhado) e uma emissora que já flertava com o jornalismo. Record e Bandeirantes passaram a disputar para ver quem conseguia a notícia primeiro e fazia a melhor cobertura. Murilo chegou a admitir que Tico-Tico levava vantagem... mas só porque a Bandeirantes podia entrar a qualquer hora com noticiário.
A carreira profissional foi longa, movimentada, inovadora, controvertida. Carlos Spera e Tico-Tico formaram uma dupla memorável na reportagem radiofônica. Muitos furos, grandes coberturas, inúmeras peripécias. Na televisão, também foi um dos primeiros repórteres, na Bandeirantes. Com Maurício Loureiro Gama fez a dobradinha inesquecível na apresentação de programas.
Nem só no rádio ele deixou marca registrada: foi o introdutor do videoteipe no telejornalismo. Em 1967 viu a novidade durante uma viagem ao Japão e, como não tinha o dinheiro na hora, encomendou. Um mês depois, em São Paulo, saiu experimentando e descobriu que o equipamento que comprara era amador, sem qualidade técnica para ir ao ar. Mas não seria de uma máquina que aceitaria um não. Tratou de conseguir quem fizesse uma adaptação e... videoteipe na televisão brasileira!
Tico-Tico foi um fenômeno da reportagem radiofônica e teve participação importante na TV. O declínio da carreira e o ostracismo chegaram cedo em função da simpatia que mostrou pelos militares e o regime que assumiram os destinos do País a partir de 1964. Essa, com certeza, a razão pela qual sua contribuição é pouco valorizada. Só nos últimos anos, timidamente, a participação nessa história fascinante e mal divulgada voltou a ser assunto de conversa e ele convidado a dar a sua versão dos fatos. Mas já era um pouco tarde, muito ficou sem contar...
Taico-Taico, Mr. President!
As histórias que se contam de Tico-Tico e suas façanhas na reportagem radiofônica são muitas. Difícil separar o fato do boato. Dizem que, no ímpeto de não perder nenhuma boa entrevista, quebrou os dentes de um deputado com o microfone, tamanha a ansiedade de chegar na frente, em primeiríssima mão...
No exterior, sem falar inglês, nunca se intimidou. Entrevistou personalidades como Eisenhower, John Wayne, Truman, Barnard, Eva Perón, Sophia Loren, o Papa... O comportamento era o mesmo que exibia por aqui, atropelando os que estivessem na frente, falando sem parar, repetindo a todo instante: dá licença, é só um minuto. Decorou uma frase em inglês, que usava sempre que necessário: please, quickly speech for my country... brazilian press... E ia em frente, sem dó nem piedade!
Charme, simpatia, educação, conhecia e empregava quando possível. Abrir caminho a cotoveladas, empurrões, safanões, sempre que necessário. Entre fatos e suas versões, sobraram muitas histórias, saborosas todas, que divertem as rodas de jornalistas ainda hoje.
O encontro dos presidentes João Goulart e John Kennedy nos Estados Unidos está entre as que viraram folclore. Tico-Tico não se intimidou com a segurança americana reforçada para a ocasião e não teve dúvidas: na saída do aeroporto, era hora de atacar para uma exclusiva. Ele se gabava da façanha contando:
Parti para cima do Kennedy, microfone na mão, dizendo Mr. President, Mr. President.... Senti o pessoal da segurança se mexendo, nem liguei. Mas o Jango pressentiu o perigo, viu a segurança já sacando arma, gritou, em inglês: No, no. Its my reporter, Taico-Taico!...
Passando por jornalista excêntrico, para não dizer meio louco, conseguiu o quickly speech exclusivo. E contam mais: no jantar daquela noite na Casa Branca, Kennedy quis saber de Jango os detalhes sobre quem era Taico-Taico. Si non è vero... #
Fonte:
www.reescrita.jor.br
Endereço: Escola de Comunicações e Artes/USP - Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, 443,
Cidade Universitária, CEP 05508-900, São Paulo, SP * Tel.: (011) 818-4059 *
E-mail: reescrita@reescrita.jor.br
Professor responsável: Prof. Dr. Manuel Carlos Chaparro
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O PREÇO DA LEITURA OU O LIVRO COMO MERCADORIA CULTURAL
CASSIANO ELEK MACHADO
Agência Folha (8.12.2001)
Tem produto fresquinho no mercado das letras. Tem 204 páginas, custa R$ 29 e é de autoria de Marisa Lajolo e Regina Zilberman.
E por que esses detalhes antes da apresentação do conteúdo do livro em questão? Porque são exatamente esses os elementos que ele traz para as prateleiras.
O Preço da Leitura
O Preço da Leitura, que a dupla de pesquisadoras acaba de lançar, vai por um caminho muito pouco trilhado nos estudos literários, a idéia de que o autor de um livro é também o produtor de uma mercadoria.
"Literatura
é mercadoria e, como mercadoria, tem um preço e está sujeita a leis de mercado, como
vários outros produtos", explica Marisa Lajolo, professora da Unicamp e
"produtora" de uma dezena de livros.
Para esmiuçar a dimensão econômica da criação literária, as autoras percorrem toda a
trajetória da escrita, desde os tempos do pergaminho até a Internet.
Nessa viagem, as principais escalas são feitas em questões como os diferentes modos como o autor foi remunerado pelo que criou, com destaque para a revolução representada pela criação de mecanismos legais para demarcar a propriedade literária.
Direito autoral
O chamado direito autoral só nasce em 1710, quando o parlamento inglês promulga o documento conhecido como "Estatuto de Ana", que define que: "...O autor de qualquer livro ou livros já impressos (...) terá o direito exclusivo e liberdade de imprimi-los pelo prazo de 21 anos". "A Inglaterra foi a pioneira na questão dos direitos autorais. Portugal, e por consequência também o Brasil, foi dos mais atrasados", diz Lajolo.
Se O Preço da Leitura parte das questões envolvendo autor, propriedade e valor em âmbito mundial, o Brasil é sempre o foco final da pesquisa. As autoras trabalham detalhadamente, por exemplo, a relação entre brasileiros e portugueses nas demarcações do território literário e editorial, enfatizando o momento (tardio, diga-se) em que Portugal autoriza a impressão na colônia, com a vinda da família real ao Brasil, em 1808.
Pesquisa
"Uma das nossas grandes descobertas foi a do caráter conflitivo das relações culturais entre Brasil e Portugal no século 19. Encontramos uma série de evidências de que o Brasil era o grande mercado do autor português", conta Lajolo. "Isso permite que se possa reequacionar as discussões de influências entre a literatura produzida no Brasil e em Portugal".
Entre os achados do livro também está a pesquisa sobre a formação de associações de escritores no Brasil para conseguir implementar leis que os favorecessem. "Poucos sabem, mas a criação da Academia Brasileira de Letras, hoje tida como conservadora e honorífica, é ligada a esse ideal".
SERVIÇO
O PREÇO DA LEITURA
De Marisa Lajolo e Regina Zilberman São Paulo - Editora: Ática 204 p
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11 - 50 ANOS DO
COLUNISMO SOCIAL DE IBRAHIM SUED
Há 50 anos, o jornalista Ibrahim Sued iniciava sua atuação como colunista social na imprensa carioca. Sua trajetória profissional e a repercussão social do seu trabalho foram resgatadas pela Profa. Dra. Isabel Travancas (UERJ) em artigo hoje incorporado ao acervo da BOCC Biblioteca On Line de Ciências da Comunicação - http://www.bocc.ubi.pt dirigida pelo Prof. Dr. Antonio Fidalgo Universidade da Beira Interior, Portugal. Para registrar essa efeméride, reproduzimos a seguir o texto de Isabel Travancas, pesquisadora integrante da Rede Alfredo de Carvalho.
A coluna de Ibrahim Sued - um gênero jornalístico
Isabel Travancas - Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Resumo
Este artigo procura analisar a coluna do jornalista Ibrahim Sued, publicada ao longo de 45 anos na imprensa carioca. Esta começa a circular em 1951 e apresenta um estilo pessoal, franco e agressivo. Sua notas não retratam apenas as "fofocas" e a vida mundana, mas trazem notícias de política, economia, internacional, comportamento, moda e cultura em geral. Dentro da discussão sobre a linguagem jornalística e gênero literário, situo a coluna social de Ibrahim Sued dentro do gênero jornalístico e faço uma análise desta vasta produção - mais de 15 mil colunas - a partir de cinco temas-chave: política, acontecimentos internacionais, Rio de Janeiro, bailes e festas e comportamento.
Estes assuntos permitem que se avalie o lugar da informação e da opinião nas notas de Ibrahim e que se reflita sobre o papel da subjetividade no jornalismo brasileiro atual.
Introdução
O jornalista Ibrahim Sued foi durante muitos anos sinônimo de colunista social no Rio de Janeiro. Escrevendo uma coluna diária - Zum-Zum - que começa a circular em 1951 no jornal Vanguarda, o jornalista cria um estilo próprio de noticiar o mundo e a elite carioca através de suas notas. Filho de imigrante árabe, nascido em Botafogo, Rio de Janeiro, a 23 de junho de 1924, Ibrahim ganhou fama e notoriedade dentro e fora da profissão escrevendo suas colunas com muita personalidade, inventando termos, lançando personagens, criando modismos, elogiando e criticando à vontade. No início da década de 50 eram poucos os chamados "colunistas sociais" e mais raro ainda aqueles que não retratavam apenas as "fofocas" e festas da classe alta.
Desde o começo, Ibrahim se destaca por seu estilo pessoal, franco e agressivo. E seu texto apresenta notas curtas e diretas, mesclando informações sobre a vida mundana com notícias sobre política e economia ou eventos internacionais. Para muitos, ele é o "pai" do colunismo social e criou a "Escola Turco de Jornalismo"(1999: 478) como ficou conhecida sua coluna, por onde passaram entre outros o atual responsável pela Coluna do Swan de O Globo - Ricardo Boechat - e o também colunista do jornal, Élio Gaspari. Segundo Conti(1999:101), Ibrahim ensinou muito a eles. "Ensinou que reescrever notícias de outros jornais, 'cozinhar' matérias, era bobagem. Ensinou a ir na notícia, a procurar. Que agenda telefônica é um instrumento de trabalho. A fazer sempre o melhor. Não foi um aprendizado suave." Isto porque o colunista gostava de ser repórter e sua coluna(1972: 15) refletia a transformação pela qual o jornalismo brasileiro estava passando e produzia "informação curta, direta, informativa por excelência, muitas vezes agressiva, quase sempre anti-romântica".
Embora tenha entrado no jornalismo como fotógrafo - uma foto sua, tirada em 1946, na qual o político Otávio Mangabeira beija a mão do general e futuro Presidente norte-americano Dwigt Eisenhower causou furor e foi publicada na primeira página de O Globo - sua coluna logo conquistou o leitor. Depois do jornal Vanguarda, foi publicada na revista Manchete, no Diário Carioca, na Gazeta de Notícias e no Diário da Noite. Ela teve títulos diversos como Crônica social, Jornal de Ibrahim Sued e A semana de Ibrahim Sued, além de Zum-Zum em sua fase inicial.
A partir de agosto de 1954 sua coluna, então intitulada Reportagem social de Ibrahim Sued, passa a ocupar diariamente as páginas de O Globo, onde permaneceu -exceto em um pequeno intervalo - até sua morte em 1º de outubro de 1995.
A coluna foi publicada diariamente de 1951 até 1993, quando passou a circular somente aos domingos. Durante estes 45 anos de trabalho jornalístico Ibrahim Sued redigiu mais de 15 mil colunas, o que expressa o trabalho incansável do jornalista em produzir notas sobre os mais diversos temas. No início ela ficava em torno de 20 cm, tendo dobrado de tamanho com o tempo, chegando em sua etapa final a ocupar meia página de jornal. Seu crescimento expressa também o crescimento de influência de seu autor e o alcance de seu sucesso. Ao longo de sua vida, Ibrahim escreveu seis livros: 000 contra Moscou, 20 anos de caviar, O segredo do meu su... sucesso, Aprenda a receber e Etiqueta. Todos obtiveram grande sucesso de vendas, sendo suas edições rapidamente esgotadas, algumas delas com uma tiragem de 100 mil exemplares.
Ibrahim cresce tanto em prestígio e destaque na imprensa escrita que seu criador ganha, em 1965, um programa na TV Globo, o qual reproduz, durante nove anos, ao vivo, o estilo, tom e os assuntos de suas colunas.
Em 1988 a revista Imprensa publicou uma pesquisa que aponta Ibrahim Sued como o jornalista mais lido no Rio de Janeiro. Seu sucesso é resultado do esforço e da personalidade do autor. Sua coluna não ganha força nem passa a ser veiculada em diferentes jornais do Brasil por acaso. Ibrahim tem consciência da importância da coluna social na imprensa brasileira e não se preocupa em ser modesto. "Ninguém pode negar que o colunismo na imprensa brasileira é uma especialidade imprescindível nos tempos atuais. E para este colunista isto constitui uma vitória que agora é reconhecida por todos, inclusive por aqueles que tanto nos combatiam. Contribuímos para transformar esse gênero do jornalismo, que até então era um simples 'bico' para aqueles que o praticavam em uma profissão honesta, honrada e valiosa dentro da nossa imprensa."
Os gêneros jornalísticos
A conquista de Ibrahim para si próprio e para o jornalismo brasileiro é fruto de uma percepção da importância da notícia. E neste sentido, gostaria de discutir se o jornalismo pode ser entendido como um gênero e, em que medida estas colunas sociais podem ou não ser chamadas de "crônicas".
Penso que a coluna social de Ibrahim Sued pode ser analisada como um gênero de texto jornalístico. Estas colunas podem ser denominadas crônicas, nos dois sentidos que lhe são conferidos por Aurélio Buarque de Holanda(1999: 584) "texto jornalístico redigido de forma livre e pessoal, e que tem como temas fatos ou idéias da atualidade, de teor artístico, político, esportivo, etc, ou simplesmente relativos à vida cotidiana." E "seção ou coluna de revista ou de jornal consagrada a um assunto especializado." Não acredito que a produção jornalística de Ibrahim Sued, possa, entretanto, ser vista como crônica no seu aspecto literário, como "pequeno conto de enredo indeterminado", assim definido pelo dicionário Aurélio. Para José Marques de Melo(1994:159)afirmar "que a crônica é um gênero jornalístico constitui uma questão pacífica. Produto do jornal, porque dele depende para a sua expressão pública, vinculada à atualidade, porque se nutre dos fatos do cotidiano, a crônica preenche as três condições essenciais de qualquer manifestação jornalística: atualidade, oportunidade e difusão coletiva."
Entretanto, Melo(1994:136) ressalta que o tipo de texto que Ibrahim Sued apresenta nas páginas de jornal deve ser entendido como coluna, definido como:
"um mosaico, estruturado por unidades curtíssimas de informação e opinião, caracterizando-se pela agilidade e pela abrangência. Na verdade, a coluna cumpre hoje uma função que foi peculiar ao jornalismo impresso antes do aparecimento do rádio e da televisão: o furo. Procura trazer fatos, idéias e julgamentos em primeira mão, antecipando-se à sua apropriação pelas outras seções dos jornais, quando não funciona como fonte de informação."
E a coluna de Ibrahim Sued segue isto à risca. Ao longo de seus 45 anos de existência publicou vários furos como a notícia de que Emílio Garrastazu Médici seria o próximo presidente, a nota sobre uma doença ainda desconhecida que estava atingindo principalmente homossexuais e denominava-se AIDS, entre outras.
Além da busca do furo, as colunas têm também a função de descobrir fatos dos bastidores do mundo político, econômico e social, e trazer à tona opiniões que não chegaram ao leitor, assim como ser uma seção onde é permitido a utilização de adjetivos, a expressão de pontos de vistas pessoais além da veiculação de informações com intuito de persuadir seu leitor. Características estas presentes no dia-a-dia do colunismo assinado por Ibrahim Sued.
Por outro lado, a leitura destas cinco décadas de colunas demonstra que esta é o retrato de uma época, de uma cidade, de uma classe do ponto de vista de um jornalista. Ela representa um tipo de jornalismo considerado pessoal ou subjetivo, onde a opinião e a personalidade de seu autor estão presentes. As notas são resultado de uma combinação constante de informação e opinião, quesitos característicos da crônica jornalística. Espaço "nobre" do jornal em que o seu autor sai do anonimato, seu nome ganha destaque e ele, ainda que submetido as premissas básicas do jornalismo - clareza, objetividade e concisão -, pode se dar ao luxo de opinar, elogiar, criticar e sugerir, atitudes nem sempre permitidas ou louváveis na prática da reportagem, por exemplo. E Ibrahim defendeu suas posições políticas, elogiou personalidades políticas, criticou outras tantas, sempre com alarde e franqueza. O que despertou amores e ódios. Nunca foi uma unanimidade. Suas notas muitas vezes provocaram polêmica, assim como sua postura política de amplo apoio aos governos militares. Nada disso impediu que, ao longo de todos estes anos de colunismo, Ibrahim fosse imitado, copiado, servisse de exemplo e de modelo para muitos outros colunistas no Brasil. Creio que é possível afirmar que o jornalista Ibrahim Sued tornou-se uma figura paradigmática dentro do campo jornalístico, particularmente do colunismo social.
Temas e tempos
A coluna de Ibrahim Sued nasce nos anos 50, num momento em que o Brasil e o mundo ocidental viveram a prosperidade e a distância do pesadelo da Segunda Guerra Mundial. São nestes "anos dourados" que o jornalista constrói sua carreira e sua fama, momento em que as colunas sociais em especial, florescem. Nesta década havia outro colunista além de Ibrahim, Jacinto de Thormes, que dividia e disputava com ele os "furos" e os leitores. Até este momento o colunismo não tinha nem o brilho nem a importância que teria a partir de então. E Ibrahim Sued teve um papel de destaque neste momento de mudanças. Sua coluna privilegiava a informação, os fatos políticos, ao mesmo tempo que cobria as festas da alta sociedade com charme e criatividade. Ainda que seu texto não fosse muito cuidado, - pelo qual foi muito criticado durante toda sua trajetória profissional- , suas notas eram objetivas e leves. Não é à toa que as colunas dos jornais e revistas dos anos 50 para cá cresceram muito em prestígio, tamanho e quantidade. Hoje os colunistas são o "charme" do jornal, a atração a mais que um veículo oferece ao seu leitor. Naturalmente que este fato está relacionado à necessidade que o leitor tem de obter o maior número de informações possível no menor tempo e com a leitura mais agradável. Atualmente nenhum jornal pode se dar ao luxo de não ter ao menos um colunista. E a coluna social não pode mais ser apenas uma cobertura de festas e eventos sociais da elite. Ela precisa informar, dar "furos", transmitir notícias de bastidores, em estilo mais pessoal e informal, não exigindo de seu leitor um grande esforço para acompanhá-la.
Ao longo desses 45 anos de jornalismo, a coluna de Ibrahim Sued retratou a sociedade carioca, o Brasil e o mundo. Ela foi um reflexo da sociedade e a sociedade se refletiu nela também. Podemos acompanhar através dela alguns fatos marcantes de todos esses anos. As mudanças da moda e dos comportamentos, as festas e viagens, os personagens criados pelo colunista como a Dama de Preto, das gírias e expressões como "bonecas e deslumbradas", "vagões e locomotivas", "su", "ademã", "kar", "shangay", "cavalo não desce escada", " em sociedade tudo se sabe", "sorry periferia", "padres de passeata"; as campanhas que incentivou, os astros internacionais que convidou para participar do Carnaval carioca, os desfiles de moda que promoveu e a cidade que tanto defendeu.
Nas suas mais de 15 mil colunas, Ibrahim sempre selecionou temas e notas segundo um critério jornalístico e pessoal. Seus textos tratavam de assuntos como política, políticos, acontecimentos internacionais, cidade do Rio de Janeiro, boites e restaurantes, modas e desfiles, comportamento, fins de semana e viagens, carnaval, cultura de um modo geral, astros e pessoas famosas, economia, saúde, esportes, bailes e festas, jogos e etiqueta. Para este trabalho selecionei cinco temas que estiveram presentes em sua coluna desde Zum-Zum até a última publicada em 24 de setembro de 1995. São eles: Política, Acontecimentos, Rio de Janeiro, Bailes e festas e Comportamento. Os três primeiros seriam representantes da vertente jornalística da coluna e os outros dois do lado mais mundano de suas notas. Dentro de cada um destes temas selecionados a partir de uma escolha anterior do colunista, está presente o estilo do jornalista e sua opinião pessoal.
Um exemplo do jornalismo pessoal de Ibrahim Sued são as notas agressivas de sua fase inicial, que não poupavam personalidades ilustres nem políticos. O PTB, assim como sua opção de não votar neste partido mereceu nota, a transferência da capital para Brasília - fato do qual discorda com veemência - , e a crítica feroz ao regime implantado em Cuba por Fidel Castro foram destaque em seus textos. Se analisarmos suas notas dos anos 90, veremos que embora a veiculação da coluna tenha diminuído, seu estilo não mudou. Ibrahim Sued não hesita em apoiar enfaticamente a candidatura de Fernando Collor de Melo para Presidente da República, a quem chama de "demolidor" ou em criticar a UNE pelas suas passeatas e pelo estímulo aos estudantes a não comparecerem às salas de aulas. O mesmo se deu nas décadas de 60, 70 e 80, quando podemos acompanhar - através de suas colunas - os personagens do cenário político brasileiro. Ibrahim Sued informa o leitor sobre o que está ocorrendo e juntamente com a informação fornece sua opinião sobre o fato. Em todos os temas - essa é a marca do colunista - Ibrahim é franco e direto em suas posturas. Não esconde o jogo do leitor e dá a sua versão dos fatos.
Em relação aos Acontecimentos internacionais é marcante o recorte escolhido pelo jornalista. De maneira geral suas colunas não se furtam a comentar ou noticiar os chamados "grandes eventos" como a eleição de Peron na Argentina, a coroação da Rainha Elizabeth da Inglaterra, o início da guerra do Vietnã, as mortes de John e Bob Kennedy, Salazar, de Gaulle e do Papa Pio XII, o caso Watergate e a guerra das Malvinas. Em primeiro lugar há uma ênfase na sua pessoa. Em geral o colunista conta que esteve presente a determinada cerimônia, que cumprimentou a personalidade citada ou acrescenta ao fato algum aspecto particular e muitas vezes inusitado. No caso da guerra do Vietnã, junto com a informação sobre a guerra, ele cita dois brasileiros, filhos do pianista Djalma Ferreira, residentes nos EUA os quais poderão ser convocados. Outro aspecto presente em suas notas são os elogios ao presidente português Salazar denominando-o grande estadista, assim como aos Kennedy e ao presidente francês morto. Em relação a este último ele afirma, por exemplo, que uma das primeiras pessoas a enviar condolências foi o embaixador brasileiro e cita um trecho de sua mensagem. Creio que estes exemplos ilustram a maneira como Ibrahim tratava os acontecimentos internacionais que noticiava, relacionando-os muitas vezes com sua própria pessoa, misturando-os com sua opinião sobre o mesmo ou associando o fato a outra pessoa ilustre ou a um detalhe que personalizasse a notícia.
No que diz respeito à cidade do Rio de Janeiro há muitos comentários a fazer. Antes de mais nada, ressaltar que Ibrahim sempre foi um apaixonado pela "cidade maravilhosa" que defendeu através de sua coluna. Por isso foi tão difícil para o jornalista aceitar a mudança da capital para Brasília. Ele reclamou até o fim desta decisão, embora elogiasse a capital e sua arquitetura, nunca deixou de chamar de "Belacap" a sua cidade.
Outro dado relevante em relação ao Rio de Janeiro é que este tema reúne os dois eixos da sua coluna: notícias gerais e informações sobre a vida mundana da cidade. Ibrahim é capaz de: reclamar da falta d'água, criticar a fusão Rio-Niterói, comentar o centenário de Copacabana, sugerir a remoção da favela que se forma em cima do túnel Velho, promover a Feira da Providência e falar da sua praia e do seu programa carioca no fim de semana. Em cada um deles está presente a sua marca. Na nota sobre a falta d'água Ibrahim ocupa o papel do jornalista que luta pelos seus direitos e os de seu leitor, defendendo-o dos absurdos impostos pela ineficiência do Estado. Ao criticar a fusão, exprimindo sua opinião, afirma que o carioca está contra este acontecimento, dando mais força a sua posição. Na sugestão de remoção da Favela, o jornalista apresenta um alerta e aponta para dois aspectos da questão. A sua preocupação com a cidade e a necessidade de se solucionar um "problema", e a visão da elite de como a favela "estraga" a vista do turista, dado citado na nota para enfatizar a sua perspectiva e a importãncia da medida. A nota sobre a Feira da Providência,- feira organizada por senhoras da alta sociedade em benefício dos pobres -, demonstra a perspectiva assistencialista desta classe em relação ao problema social da cidade do Rio de Janeiro. Comentar seu fim de semana reforça novamente o aspecto "egocêntrico" de sua coluna. Ele destaca a praia do Castelinho como "sua" praia e reafirma o seu pertencimento a uma elite carioca que nos anos 70 frequentava aquele trecho da praia de Ipanema. Outra nota mais contundente, que deixa claro para o leitor de que lugar da sociedade ele fala, é o comentário sobre a dificuldade de circular na cidade com a sua Mercedes porque o trânsito anda ruim. Este fato me faz lembrar o texto do antropólogo Néstor Garcia Canclini((1996:55) sobre consumo. A seu ver, nas sociedades contemporâneas há uma disputa pela apropriação dos meios de distinção simbólica. E os locais que os membros de uma classe freqüentam, passam férias, estudam e se divertem, assim como os livros que lêem fazem parte de uma lógica que se baseia na escassez dos mesmos. Eles "funcionam" principalmente como objetos de distinção entre indivíduos e classes mais do que como objetos de satisfação pessoal.
Agora estamos entrando em um mundo particular o da elite financeira, política e cultural do Rio de Janeiro e também do Brasil. Falar de Bailes e festas é falar de uma das principais atividades deste segmento. E sem dúvida este é um dos temas importantes na coluna de Ibrahim. É onde a própria elite se vê e se reconhece e é através dela que as outras classes podem conhecê-la e identificá-la. E dentro desse assunto a variedade é grande e o principal aspecto é o descritivo. É fundamental que o colunista possa contar os detalhes da decoração do ambiente, das roupas dos convidados, dos itens do cardápio, das personalidades presentes, das "fofocas" ocorridas, além de descrever o "clima" do evento.
As festas de debutantes durante duas décadas foram as mais noticiadas, sendo que algumas delas eram organizadas pelo próprio colunista, misturando notícia e noticiado, em uma interferência direta do jornalista no evento. Outros bailes noticiados eram internacionais, demonstrando a amplitude da circulação de Ibrahim Sued e trazem para o leitor uma amostra do high society internacinal. É o caso da festa organizada pelo Xá e sua esposa Farah Diba para comemorar os 2500 anos da Pérsia e para a qual construiram 60 tendas para receber os convidados, contrataram 150 maîtres e estavam previstos 60 reis coroados e gastos em torno de 10 milhões de dólares. Notas como esta vêm satisfazer a curiosidade do leitor também em relação à vida e à intimidade desta classe social. Nestas notícias sobre as festas estaria marcada a própria identidade da coluna social, interessando portanto aos leitores que são notícia - os que pertencem à elite - , e também aos que sonham em um dia ser notícia.
É Marques de Melo(1994:140) quem destaca o papel do público leitor de colunas sociais.
"O colunismo atende a uma necessidade de satisfação substutiva existente no público leitor. Já que a maioria das pessoas está excluída do reduzido círculo dos colunáveis(poder/estrelato), dá-se-lhe a sensação de participar desse mundo, através dos colunistas. Trata-se de uma forma de participação artificial, abstrata. Participam sem fazer parte. Acompanham à distância."
Em relação ao tratamento dado pelo colunista ao tema Comportamento, creio que valeria a pena destacar as notas que dizem respeito à mulher, e pensarmos de que mulher ele fala e para qual mulher. Há uma construção de uma imagem feminina presente em suas cinco décadas de coluna. Nos anos 50 Ibrahim comenta o fato de a mulher que trai o marido ser criticada pela sociedade e chamada de "mulher que não presta", salientando o preconceito nesta atitude, diferente em relação aos homens. É inevitável lembrar do caso Angela Diniz e sua morte trágica, que gerou muita polêmica. Angela Diniz foi presença constante nas colunas sociais de Belo Horizonte desde seu casamento até sua morte, e é pesquisadora Maria Céres Castro(1997: 117) quem comenta a construção pela mídia de uma personagem que nasce com seu casamento em estilo "conto de fadas" até chegar a posição de mulher "feita e decidida", "locomotiva" da sociedade, para usar um termo de Ibrahim.
"No jogo de luz e sombra produzido pelos relatos das colunas configura-se uma visão fantasmática do social, um mundo de poucos, na maioria bem-nascidos, sempre bem sucedidos, que atuam sob os holofotes da mídia, consentem no devassamento de sua privacidade - afinal, são personagens públicas - e se sabem ou se desejam objetos de atenção da multidão. É para ela que a 'sociedade' se representa, ou melhor se apresenta. E, mais do que uma representação, vê-se aí uma a-presentação do social, o qual se encontra, enquanto construção simbólica, sempre eludido no discurso, mas se constrói somente pela alusão."
Angela Diniz é o símbolo da mulher que trai e é morta, mas que seu assassino é "perdoado" pela sociedade numa expressão de seu machismo. Mais tarde, Doca Street, o autor do crime é condenado como resultado de uma mudança de mentalidade na sociedade brasileira e da campanha empunhada pelo Movimento Feminista.
Já na década de 60, Ibrahim apresenta um modelo para a mulher de 1967. "Antes de mais nada, a 'mulher 67' tem que agradar aos homens. Agradar às mulheres ou às amigas não resolve...É burrice Ser discreta. Isto é feminina: nada de masculinidade, como essa palhaçada de terninho. Falar alto, dar gargalhadas estrondosas, são outros detalhes que os homens detestam. Eu, no meu caso tenho horror..." O colunista não está neste caso noticiando um fato, ou descrevendo aspectos da vida do high society, mas ajudando a construir um ideal de mulher, com a qual as mulheres da elite possam se identificar e as das outras classes se espelhar.
Nos anos 90, a mulher esboçada pelo colunista tem um perfil físico estabelecido. Ele mesmo afirma que "as mulheres ligeiramente musculosas são os novos modelos de beleza e saúde". São mulheres que podem se dar ao luxo de freqüentar duas horas diárias de uma academia de ginástica e dispor de muitos outros cuidados com o corpo, uma vez que esta década também aparece nas colunas de Ibrahim, com uma grande preocupação com a saúde, expressa em dicas de dieta, exercícios, alimentação e outros cuidados com o corpo.
É interessante notar como dentro de Comportamento, há por parte do colunista a intenção de estabelecer um padrão de atitudes muitas vezes inacessível para o resto das "mortais", como o ideal de mulher bonita que se comporta dentro dos moldes pré- estabelecidos pela sociedade e pela coluna.
CONCLUSÃO
A leitura das colunas sociais elaboradas pelo jornalista Ibrahim Sued durante cinco décadas permite algumas conclusões. No início de sua carreira as colunas sociais não eram frequëntes nem tinham o formato e o conteúdo que apresentam hoje com enorme sucesso e grande número de leitores. Por um lado, podemos observar que houve uma grande transformação em sua feição e Ibrahim Sued, sem dúvida nenhuma, teve um papel relevante neste contexto. Deu um novo fôlego às colunas, misturou informação com opinião, inventou um estilo. Por outro, o que se pode notar nesta "demanda" de colunas e procura dos jornais de novos e atraentes colunistas é o quanto a sociedade contemporãnea está cada vez mais ávida de informações curtas e rápidas. Em minha minha tese de doutorado(1998: 10) pude discutir um pouco a relação do leitor moderno com o texto jornalístico.
"O homem moderno tem pressa, tem pouco tempo, quer receber o máximo de informações no menor tempo possível. É a corrida da sociedade moderna, da vida na metrópole. E o jornal e o jornalista seriam a expressão deste novo estilo de vida. Vai longe o tempo em que o próprio texto de jornal estava mais próximo da literatura e de um leitor menos apressado."
E Ibrahim Sued é um jornalista atento às necessidades de seu leitor, consciente e "orgulhoso" de seu papel de repórter. O colunista sempre declarou que sua linhagem começava com ele mesmo e que tudo o que conseguiu na vida foi graças à profissão. Ao pesquisar os jornalistas(1993), pude perceber o quanto a profissão ocupa um lugar central em suas vidas, definidor de uma identidade, bem mais do que uma atividade ou emprego na vida de seus profissionais. Ela exige uma adesão de quem a escolhe que resultará em um estilo de vida e uma visão de mundo particulares. A profissão surge como expressão de suas individualidades. E Ibrahim de maneira alguma é exceção dentro deste universo. Seu papel fundamental é ser jornalista e mais especificamente colunista social, e esta função será definidora do seu estilo de vida e de sua visâo de mundo. Pierre Bourdieu (1997) afirma que "os jornalistas têm óculos especiais a partir dos quais vêem as coisas". Seguindo nesta direção, poderia afirmar que Ibrahim usa não apenas o "óculos" de jornalista, mas de um jornalista específico - o colunista social -, e a sua perspectiva da sociedade brasileira, dos fatos, do mundo está impregnada desta identidade. Ibrahim escreve a sua coluna de um lugar muito particular -da elite-, analisa as notícias sob este prisma. Sua coluna pode ser lida como um processo de entrada neste outro "mundo" social, na medida em que sua origem é humilde. Ele conquista um espaço social e jornalístico. E é compreensível o sucesso de sua coluna. O leitor quer, por um lado, textos curtos e tem cada vez menos tempo para se dedicar à leitura do jornal, por outro, os espaços reservados à subjetividade dentro da imprensa diária estão cada vez mais restritos. A imprensa busca a objetividade acima de tudo, a isenção diante dos fatos. E uma coluna social ainda é um território preservado onde as subjetividades, opiniões e personalidades podem se manifestar livremente. Para o prazer do leitor e com o consentimento do jornal.
BIBLIOGRAFIA
- AMOROSO LIMA, Alceu. O jornalismo como gênero literário. SP, Edusp, 1990.
- BOURDIEU, Pierre. Sobre a televisão. RJ, Zahar, 1997.
- CANCLINI, Néstor Garcia. Consumidores e cidadãos. RJ, UFRJ, 1996.
- CASTRO, Maria Céres Pimenta Spínola. Na tessitura da cena, vida. BH, Ed. UFMG, 1997.
- CONTI, Mário Sérgio. Notícias do Planalto. SP, Companhia das Letras, 1999.
- DARNTON, Robert. O beijo de Lamourette. SP, Companhia das Letras, 1990.
- HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo Aurélio. RJ, Nova Fronteira, 1999.
- LAGE, Nilson. Ideologia e técnica da notícia. Petrópolis, Vozes, 1982.
- MELO, José Marques de. A opinião no jornalismo. Petrópolis, Vozes, 1994.
- OLINTO, Antonio. Jornalismo e literatura. RJ, Edições de Ouro, 1968.
- SALLES, Mauro. " A hora é dos colunistas" . IN: Imprensa, novembro, 1998, p.20-24
- SUED, Ibrahim. 20 anos de caviar. RJ, Bloch, 1972.
- ____________. 30 anos de reportagem. RJ, Nova Fronteira, 1983.
- TRAVANCAS, Isabel S. O mundo dos jornalistas. SP, Summus, 1993.
- ___________________. O livro no jornal. Instituto de Letras/UERJ, 1998, tese de doutorado. (mimeo).
- Uma versão deste artigo foi apresentada no GT Gênero e Cultura de Massa, coordenado pela professora Maria Celeste Mira, no XXIII Congresso da Intercom, realizado em Manaus, em setembro de 2000.
- Ele foi produzido após um trabalho de pesquisa no arquivo pessoal de Ibrahim Sued realizado durante seis meses por encomenda da editora Rocco para um livro sobre o colunista que deverá ser lançado em 2001.
- Isabel Travancas é jornalista, mestre em Antropologia Social pelo Museu Nacional/UFRJ e doutora em Literatura Comparada pela UERJ. Sua dissertação de mestrado O mundo dos jornalistas foi publicada pela Summus Editorial. Atualmente é professora nas Faculdades de Comunicação Social da UERJ e Estácio.
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