JORNAL DA REDE ALCAR
Ano 1, Nº6 – 22 de junho de 2001

Editores: José Marques de Melo (UNESCO/UMESP) e Francisco Karam (FENAJ/UFSC)
realcar@metodista.br

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Rede Alfredo de Carvalho para o resgate da memória e a construção da história da imprensa no Brasil
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Manchetes:

1 - Selo da Realcar : Bicentenário da Imprensa no Brasil

2 - Bibliografia de Hipólito da Costa

3 - Cinzas de Hipólito da Costa ganham Herma em Brasília

4 - Na trilha de Alfredo de Carvalho

5 - Oto Lara Resende: encarte da Revista Imprensa

6 - Realcar : encontro no Rio de Janeiro

7 - 100 Anos do "Correio da Manhã"

8 - Realcar no Grande ABC Paulista

9 - Primórdios da Imprensa na Bahia segundo o espanhol Ventín Pereira

10 - Maranhão: 50 Anos do "Jornal Pequeno"

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1 - SELO DA REALCAR : BICENTENÁRIO DA IMPRENSA NO BRASIL

A Rede Alfredo Carvalho para o Resgate da Memória e a Construção da História da Imprensa no Brasil já possui um selo comemorativo, que deverá figurar em todas as suas peças de divulgação, bem como nos produtos editoriais que mereceram o seu respaldo institucional. O selo foi elaborado pela equipe da EDUFBA - Editora da Universidade Federal da Bahia, sob a liderança de Flávia di Garcia Rosa. Ele já está adotado pelo Jornal da Realcar, da mesma forma que será incorporado ao nosso sítio digital, sob a égide da Cátedra FENAJ de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina.

Par uso do selo em publicações respaldadas pela Realcar, torna-se necessário prévia solicitação ao nosso comitê editorial, coordenado pelo Prof. Dr. Luis Guilherme Pontes Tavares (NEHIB), email: grupoeditorial@alba.ba.gov.br

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2 - BIBLIOGRAFIA DE HIPÓLITO DA COSTA

O Presidente da ABI - Associação Brasileira de Imprensa, Jornalista Fernando Segismundo, publicou artigo sob o título "Hipólito da Costa: alguma bibiliografia", na edição de 2/6/2001 no "Jornal do Commércio" do Rio de Janeiro.

Nesse inventário, Segismundo faz anotações sobre os livros escritos por Mecenas Fourado (1957), Carlos Rizzini ( 1957), Therezinha de Castro (1973), Francisco Riopardense de Macedo (1975), Jannice Monte Mor e José Honório Rodrigues (1976) e Barbosa Lima Sobrinho (1977).

Trata-se de roteiro bibliográfico muito útil aos jovens pesquisadores da imprensa, que será incorporado ao sítio digital da Realcar para consulta de todos os interessados.

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3 - CINZAS DE HIPÓLITO DA COSTA GANHAM HERMA EM BRASÍLIA

A edição de junho da revista IMPRENSA publica reportagem de capa, anunciando a cerimônia agendada para Brasília, no dia 4 de julho, quando as cinzas de Hipólito José da Costa serão depositas em Herma especialmente construída nos jardins da Imprensa Nacional.

A iniciativa de resgate das cinzas do patrono da imprensa brasileira foi tomada, há 40 anos, por Assis Chateaubriand, quando ocupava o cargo de Embaixador do Brasil na Inglaterra. A finalização do processo coube à Fundação Assis Chateaubriand, presidida por Paulo Cabral e coordenada por Paulo Cotrim.

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4 - NA TRILHA DE ALFREDO DE CARVALHO

A equipe responsável pelo inventário crítico da imprensa brasileira no período 1808-2008 reuniu-se na sede da ABI, no Rio de Janeiro, na tarde do dia 1 de junho. O encontro foi coordenado pelo idealizador da REALCAR, Prof. Dr. José Marques de Melo (USP/UMESP), contando com a presença de representantes de três equipes: UERJ - Profs. Drs. Marco Morel, Lucia Bastos e Tania Bessone; UFF - Profa. Dra. Marialva Barbosa e MINC/Projeto Resgate - Profa. Mirane Albuquerque.

Deliberou-se, na ocasião, que o projeto de pesquisa será desenvolvido em duas etapas simultâneas:

a) Inventário crítico da imprensa dos séculos XIX e XX, ampliando e aprofundando os registros feitos por Alfredo de Carvalho sobre jornais e revistas das cidades brasileiras. Para tanto, foi analisada a proposta de uma ficha histórica, cujo modelo está sendo testado simultaneamente pelas equipes da UERJ (século XIX) e da UFF (século XX).

b) Inventário crítico do conhecimento histórico sobre a imprensa brasileira, uma espécie de "estado da arte" da bibliografia sobre imprensa e jornalismo, tomando como ponto de referência a "Bibliografia da Imprensa" editada por Esther Bertoletti ( Catálogo Coletivo "Periódicos Brasileiros em Microformas", Biblioteca Nacional, 1985). O roteiro dessa etapa será elaborado conjuntamente pela Dra. Esther Bertoletti e pelo Dr. Marques de Melo.

A equipe voltará a se reunir no Rio de Janeiro, na sede da ABI, durante o dia 16 de julho, com a finalidade de concluir o projeto inicial do inventário, a ser apresentado ao I Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho, agendada para os dias 5-6 de setembro, durante o XIV Congresso da INTERCOM, em Campo Grande (MS).

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5 - OTO LARA RESENDE: ENCARTE DA REVISTA IMPRENSA

A revista IMPRENSA do mês de junho, disponível nas bancas de todo o país, publica o 13o. encarte da série "200 anos da imprensa no Brasil". Trata-se de matéria escrita pelo Prof. Dr. Guilherme Jorge de Rezende (FUNREI-MG), contendo o perfil biográfico do cronista Oto Lara Resende.

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6 - REALCAR : ENCONTRO NO RIO DE JANEIRO

No próximo dia 13 de agosto (segunda-feira), às 14 horas, na Sala Barbosa Lima Sobrinho da ABI - Associação Brasileira de Imprensa, rua Araújo Porto Alegre, 71 - Cinelândia, na cidade do Rio de Janeiro, será realizado um encontro das pessoas e representantes institucionais que pretendem participar do mutirão acadêmico proposto pela Rede Alfredo de Carvalho. A reunião está sendo organizada pela Profa. Dra. Marialva Barbosa (UFF), que está convidando diretores de faculdades, coordenadores de cursos, professores de comunicação, pesquisadores e profissionais interessados em participar do inventário crítico sobre a imprensa brasileira.

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7 - 100 ANOS DO "CORREIO DA MANHÃ"

Jornal que teve presença marcante no panorama republicano brasileiro do século XX, o "Correio da Manhã" não resistiu ao combate travado contra o regime militar pós-64. Circulando pela primeira vez no dia 15 de junho de 1901, o diário carioca conquistou espaço de prestígio no cenário político brasileiro, graças ao tirocínio dos seus proprietários Edmundo e Paulo Bittencourt e à competência profissional do seu editor Costa Rego.

Como os antigos jornais de amplitude nacional, o "Correio" converteu-se em escola prática de jornalismo, formando toda uma geração de repórteres, redatores e editores. Por sua redação passaram jornalistas do porte de José Veríssimo, Aurélio Buarque de Holanda,. Graciliano Ramos, Antonio Callado, Oto Maria Carpeaux, Osvaldo Peralva, Paulo Francis, Márcio Moreira Alves, Janio de Freitas etc.

Seu maior embate deu-se no período entre os dois golpes militares dos anos 60 - o golpe de 1964, quando o jornal se converteu em porta-voz da resistência ao militarismo; e o golpe-dentro-do-golpe de 1968, quando o jornal começou a ser perseguido pelo governo, vindo a fechar as portas em 1974.

Dois livros resgatam a trajetória histórica desse legendário jornal. O romance de Lima Barreto "Recordações do escritor Isaías Caminha" (reconstituindo seu período inicial) e o ensaio de Jeffreson de Andrade - "Um jornal assassinado" (Rio de Janeiro, José Olympio, 1991) (documentando sua "última batalha").

Ruy Castro, que iniciou sua carreira jornalística naquele matutino carioca, a ele dedica reportagem especial - "Para o Correio de Manhã, com uma lágrima", publicada no Caderno 2 do jornal O Estado de São Paulo (9/6/2001).

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8 - REALCAR NO GRANDE ABC PAULISTA

Reuniu-se na cidade de Mauá, o segmento da Rede Alfredo de Carvalho organizado na micro-região denominada Grande ABC Paulista, na tarde do último dia 18 de junho, sob a coordenação do Prof. Dr. Valdenizio Petrolli. Uma das decisões tomadas pelo grupo foi a realização da Semana Freitas Nobre de Imprensa, destinada a celebrar os 80 anos de nascimento do historiador da imprensa paulista. O certame será realizado simultaneamente em várias cidades da micro-região, através de exposições em museus, ciclos de palestras, seminários etc.

Do encontro participaram também representantes de várias universidades locais, que se comprometeram a engajar equipes de iniciação científica em projetos vinculados à história da imprensa regional. Na próximo edição deste jornal publicaremos mais detalhes sobre a Realcar no Grande ABC Paulista.

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ARTIGOS

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9 - PRIMÓRDIOS DA IMPRENSA NA BAHIA SEGUNDO O ESPANHOL VENTÍN PEREIRA

Luís Guilherme Pontes Tavares*

*Jornalista e produtor editorial.
Coordenador do NEHIB e representante
da Rede Alfredo de Carvalho na Bahia.

Los primeros cien años de la empresa informativa en Bahía é um livro raro. O próprio autor, professor José Augusto Ventín Pereira, da Faculdade de Ciências da Informação da Universidade Complutense de Madri, possui um ou dois dos 300 exemplares que a editora Fragua (espanhola) imprimiu. Foi por isso que ele remeteu para o Núcleo de Estudos da História dos Impressos da Bahia – NEHIB – apenas uma prova de revisão. São 356 páginas agrupadas em sete capítulos.

O professor Ventín Pereira é diretor do Instituto Universitário de Comunicação Radiofônica da Complutense e autor do livro Empresa informativa. Introducción a la teoria de la decisión, publicado em 1994 pela Fragua. Descende, segundo informa, do primeiro donatário da capitania da Bahia, Francisco Pereira Coutinho. Na ascendência mais recente, seu avô, José Augusto Ventín Duran, e seu pai, Daniel Ventin Cabadas, viveram na Bahia e levaram para a Espanha oublicações que ele utilizou para escrever o livro que nos propomos apresentar.

Na dedicatória de Los primeros cien años..., o professor Ventín Pereira esclarece que "con este trabajo, estoy intentando devolver una mínima parte de lo que Bahia dio a mi familia, a los Ventín, a los Cabadas, los Montes, los Duran, los Corujeira etc. Estoy intentando demostrar mi mi agradecimento a una tierra y a unas personas que ricibieron sin ningún tipo de reparos a mis ancestros". Seu avô colaborou no periódico humorístico A Rolha, editado na Bahia nos primeiros anos do século XX, assinando com o pseudônimo Fuenteantela. Lamentavelmente não o localizei na Biblioteca do Estado, no Arquivo Público ou na Fundação Clemente Mariani.

Por esta cópia de Los primeros cien años... é lamentável o engano que está na apresentação, assinada pelo então embaixador do Brasil na Espanha, Luiz Felipe de Seixas Corrêa, ao substituir o nome de A Idade d’Ouro do Brazil por A Cidade d’Ouro e datar sua circulação até 1920. Quanto ao professor Ventín Pereira, ele sabe, como demonstra, que o segundo jornal brasileiro, criado por Manoel Antonio da Silva Serva e publicado na Bahia em 1811, deixou de circular em 1823 com a derrota do general Madeira de Melo, a quem ele apoiou.

O estudo do professor Ventín Pereira é baseado em grande parte nos valiosos trabalhos do pesquisador pernambucano Alfredo de Carvalho publicados em números alternados das revistas do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, depois reunidos no livro Annaes da Imprensa da Bahia, obra com a qual Carvalho e João Nepomuceno Torres inventariaram os periódicos baianos de 1811 a 1911 (primeiro centenário). O professor Ventín Pereira utilizou também a Memória sobre o Estado da Bahia, de Francisco Vicente Vianna e José Carlos Ferreira, A Imprensa e o dever da verdade, de Ruy Barbosa, a História do Brasil Reino, de Mello Moraes, e outras fontes.

O autor ocupa as primeiras páginas com a sustentação teórica do que é empresa informativa e em seguida aplica o conceito ao caso baiano. São estes os capítulos: "La comericialización de la información", "El nascimento de la empresa informativa en Bahía", "Origines políticos del periodismo en Bahía", "Desarrollo de la empresa informativa en Bahía", "Estructura socioeconomica y empresa periodística", "Clasificación de los periódicos bahianos" e "Los profesionales de la empresa informativa na Bahia".

O professor Ventín Pereira lamentou não ter vindo à Bahia antes de escrever o seu livro. No entanto, os equívocos cometidos não desmerecem o valor do seu trabalho, sobretudo quanto à reorganização que deu aos dados do inventário de Carvalho e Torres. Ele adotou 13 classes para os 1413 periódicos da capital e do interior baianos, de modo que constatou o predomínio daqueles de natureza política (597), literária (324) e humorística (181). Também vinculou jornalista e periódico e obteve a informação de que alguns profissionais estiveram ligados a mais de um jornal e/ou revista.

Entre os méritos do trabalho do professor Ventín Pereira acentuo a periodização que sugeriu para a história da Imprensa brasileira. É a seguinte: "uma primeira fase que podriamos denominar de Oscurantismo Colonial"; "uma segunda fase que podríamos denominar de Implantación"; e "uma tercera fase que podríamos denominar como plebiscitaria, que se inicia com la Segunda Revolución Industrial, que potencia el desarrollo de la industrialización técnica de la empresa informativa al servicio de la lucha por la supresión de las desigualdades para conseguir la implantación de un sistema de representación democrática".

O professor Ventín Pereira prossegue refletindo sobre os dados que divulgou no Los primeiros cien años... Sua aspiração foi "apenas orientar futuros investigadores, en cuanto al camino a seguir marcando el tosco esbozo de la obra perfecta que les cabe realizar". Seus próximos passos, por ele anunciados em recente e-mail, é pesquisar os primeiros designers gráficos da imprensa brasileira.

Benvinda foi a colaboração que ofertou ao NEHIB e benvindas são todas as demais anunciadas!

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10 - MARANHÃO: 50 ANOS DO "JORNAL PEQUENO"

Ed Wilson Araújo**

**Jornalista (DRT-MA 949)
Artigo transcrito da edição de 10/6/2001
do "Jornal Pequeno"(São Luis - Maranhão)

Há uma grande movimentação no meio acadêmico e jornalístico, em várias regiões do país, em torno da preparação do bicentenário da Imprensa Brasileira, em 2008. Um dos idealizadores desse projeto é o Prof. José Marques de Melo, titular da Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional da Universidade Metodista de São Paulo (Umesp), autor de vários estudos sobre comunicação no Brasil e no exterior.

As ações desencadeadas para comemorar os 200 anos começaram a tomar força com a instalação da Rede Alfredo de Carvalho (Realcar), que já recebeu adesão da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares em Comunicação (Intercom), Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e do Núcleo de Estudos da História dos Impressos da Bahia (Nehib). A escolha do nome do pernambucano Alfredo de Carvalho (1870 – 1916) para batizar a rede faz justiça à dedicação do pesquisador pelo levantamento rigoroso dos jornais que fizeram os primeiros 100 anos da Imprensa Brasileira.

A Realcar vem recebendo adesões e o reconhecimento de várias instituições acadêmicas, grupos de estudo em Comunicação, publicações, organizações não governamentais e populares pelo Brasil. Trata-se de uma iniciativa importante para agendar o debate sobre um dos mais significativos fenômenos da humanidade – a Imprensa e suas especificidades no Brasil. Uma primeira demarcação para entender as circunstâncias que proporcionaram o surgimento da Imprensa no mundo é situar o fato no contexto do desenvolvimento histórico e econômico do mercantilismo, a partir das trocas de mercadorias e informações nas cidades originárias do capitalismo (burgos). Importante ressaltar que estas práticas comerciais incipientes tiveram impulso com o surgimento dos Correios e da Imprensa, esta última concebendo a notícia como uma mercadoria que atraiu primeiramente quem se dedicava ao comércio e ao transporte marítimo. Os primeiros "jornais" interessavam somente a quem comercializava, traziam informações sobre preços de mercadorias, abastecimento, pólos de produção etc. A imprensa surge portanto como uma necessidade de suporte ao capitalismo e não deixou de sê-lo até hoje.

No Brasil, a Imprensa surge em 1808, quando passou a circular, em 1º de junho, o "Correio Braziliense", editado em Londres por Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça. Até 1999 o Dia da Imprensa era comemorado em 10 de setembro, em referência ao jornal "Gazeta do Rio de Janeiro", que também passou a circular em 1808, com a chegada da Família Real ao Brasil, fugida da invasão napoleônica na Península Ibérica. D. João VI aporta na Bahia e assina a Carta Régia abrindo os portos brasileiros às nações amigas, criando também o jornal oficial da Corte.

Até 1808 eram proibidas a impressão e a circulação de qualquer tipo de jornal ou livro no Brasil. O "Correio Braziliense" entrava clandestinamente, nos porões dos navios que transportavam mercadorias e escravos. Todo o cerco da Coroa Portuguesa ao incipiente jornalismo brasileiro temia a propagação de ideais de liberdade, igualdade e fraternidade que fervilhavam na Europa, especialmente na França, com os quais Hipólito mantinha uma certa identidade.

Os dois jornais tinham posições ideológicas antagônicas. Fugindo da Inquisição, Hipólito pregava a libertação do Brasil dos domínios de Portugal; enquanto a Gazeta, dirigida por Frei Tibúrcio José da Costa, funcionava como um diário oficial da Corte. Quando nasce, 308 anos após o "descobrimento", a Imprensa tupiniquim já vem cerceada, fato que vai marcá-la em vários períodos históricos, culminando com a Lei da Mordaça, quase 200 anos depois. A iniciativa de mudar o Dia da Imprensa de 10 de setembro para 1º de junho partiu do deputado Nelson Marchezan (PSDB-RS). Não que ele queira fazer justiça à coragem de Hipólito José da Costa, ou que reconheça o papel importante que o Correio Braziliense desempenhou no Brasil. Afinal, o deputado gaúcho foi líder da Arena (1979 - 80) e do governo Figueiredo (1983-84), quando ainda havia muita repressão e censura aos meios de comunicação. O motivo de Marchezan é puramente paroquial, já que Hipólito era gaúcho de Ganguçu.

Em breve retrospectiva histórica, pode-se perceber que a Imprensa brasileira funcionou muito tempo sob pressão e censura em vários períodos, desde os primeiros generais da República, passando pela Era Vargas com o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), desaguando nos absurdos da ditadura militar.

Mas nem sempre todos se curvaram e se mantiveram subservientes a estas regras. No Maranhão, um exemplo de resistência vem do jornalista José Ribamar Bogéa, fundador do Jornal Pequeno, que completou 50 anos em 29 de maio. Ribamar Bogéa, o Zé Pequeno, é um ícone do jornalismo no Maranhão e uma referência para o Brasil. Tintureiro de lavanderia e comerciário, Ribamar Bogéa iniciou ainda adolescente a vida em jornal, sem ganhar nada, espiando os revisores, até ser profissionalizado nos Diários Associados, trabalhando 16 horas por dia, em reportagens de esporte, polícia, na paginação, observando todos os setores, desde a captação da notícia até a impressão. "Jornalista tem que ser polivalente, saber tudo de jornal", dizia.

Depois de oito anos de dedicação aos Diários Associados, um episódio marcaria profundamente sua vida e mudaria o rumo de sua trajetória de jornalista. Em 1947, ao fazer a cobertura do jogo Moto x Fluminense (RJ), o repórter teceu críticas à atuação do juiz Élvio Furtado, um oficial do Exército do Ceará, que teria beneficiado o Fluminense. Censurado, Bogéa foi reclamar ao diretor do jornal, José Pires de Sabóia Filho, e recebeu como resposta: "Quando você tiver seu jornal, poderá escrever como entender. Por enquanto não". A demissão de Bogéa foi a senha para reconstruir forças e criar seu próprio jornal "O Esporte", evoluindo para o Jornal Pequeno, cuja primeira edição saiu em 29 de maio de 1951.

Desde os primeiros números o Jornal Pequeno manteve marcas fundamentais para o exercício do jornalismo - independência e liberdade – características mantidas até hoje pelos seus sucessores. Mesmo nos tempos mais difíceis, quando praticamente mendigava anúncios, Bogéa nunca se rendeu às propostas indecorosas dos mais diversos grupos políticos que o procuravam tentando comprar sua pena. O Jornal Pequeno resistiu às pressões e às agressões ao diretor, como no episódio do quebra-quebra na redação, supostamente atribuído aos capangas do governador Eugênio Barros. Bogéa apanhou, o maquinário foi danificado mas em nenhum dia sequer o jornal deixou de circular.

Nos anos 60 uma nova investida tentou calar o "órgão das multidões", como era chamado o Jornal Pequeno. Desta vez a perseguição foi orquestrada pelo então governador José Sarney, irritado com uma matéria do deputado Freitas Diniz sobre atos administrativos do governo. A crítica gerou um processo contra Bogéa, revelando a fúria do governador que apoiou o golpe militar, deu sustentação à ditadura e agora é proclamado poeta defensor da liberdade. Nem as ameaças, nem as pressões intimidaram e conseguiram calar Zé Pequeno. Bogéa venceu a batalha judicial por unanimidade nas instâncias superiores, derrubando os planos do governador de fechar o Jornal Pequeno e prendê-lo.

Em meio século de existência e resistência, o Jornal Pequeno provou que é possível exercer um jornalismo de forma democrática, sempre abrindo espaço aos dois lados. Nem precisava o governador Sarney interpelá-lo judicialmente, já que o direito de resposta era natural, uma instituição no jornal. Durante a cobertura da Greve de 51, o Jornal Pequeno veiculava no mesmo dia tanto os artigos das Oposições Coligadas quanto os da ala governista-vitorinista.

Agora, passados quase dois séculos de criação da Imprensa no Brasil, cabe uma reflexão sobre o lugar de atuação da mídia no mundo moderno, já denominado pelos teóricos de sociedade midiática ou Idade Mídia, tal a influência dos meios de comunicação em todos os setores da sociedade. É hora de refletir sobre o tipo de Imprensa que queremos. Com certeza não é o modelo vigente: concentrador, monopolizado, à mercê de interesses dos grupos econômicos e políticos proprietários de redes de rádio, jornal e TV.

Os mídia hoje ocupam posição estratégica nos diversos campos sociais por onde transitam. Mas é no campo da política que exercem mais influência, publicizando ou ocultando fatos de acordo com os interesses dos proprietários. Sutil, a construção de cenários e imagens se processa nos bastidores das redações, ocultando e silenciando fatos de relevância social e interesse público, portanto com critérios de noticiabilidade.

Monopolizada, a Imprensa cala quando convém aos donos. Sem a democratização da comunicação não haverá democratização da sociedade. É urgente rediscutir os critérios de distribuição das concessões de rádio e TV, garantir mecanismos de controle social sobre os mídia e criar meios alternativos capazes de ocupar os espaços "grilados" pelos que se autoproclamam donos da comunicação e que controlam, ou tentam controlar, tudo que se fala, escreve e vê no Brasil.

A criação da Rede Alfredo de Carvalho é uma iniciativa de grande importância para pautar o debate sobre o papel da Imprensa. Fica como sugestão à Universidade, através dos cursos de Comunicação, e também ao Sindicato dos Jornalistas, trazer a São Luís os idealizadores da Rede e estendê-la ao Maranhão.

Nos 50 anos do Jornal Pequeno, a coragem e a resistência de Ribamar Bogéa deixaram um legado fundamental para reescrever a história da Imprensa no Maranhão. O que seria dos leitores maranhenses se não houvesse o Jornal Pequeno? Jamais tomariam conhecimento do golpe da Fábrica Kao-I, do escândalo da estrada Paulo Ramos-Arame, do projeto Salangô, do caso Reis Pacheco, do Fundo de Pensão Parlamentar, da privatização do Banco do Estado, da lista dos fiéis depositários, do acompanhamento e das denúncias sobre o crime organizado, dos escândalos nos assentamentos da "reforma agrária" oficial e tantos outras pautas proibidas e silenciadas na mídia oficial. Não há também a pretensão de eleger o Jornal Pequeno como modelo de perfeição e de excelência. Da mesma forma que não podemos negar o impulso que o JP vem dando a uma nova forma de fazer jornalismo, seja revelando o que os outros ocultam, seja destoando da cobertura bajulatória que lambe as botas da corte.

Assim o Jornal Pequeno é mais que um meio de comunicação impresso. É uma tribuna. Vida longa e que novas pautas instigantes ajudem a registrar os próximos 50 anos. Um brinde a Hipólito José da Costa, a Ribamar Bogéa e ao Jornal Pequeno! E que os seus sucessores não deixem morrer a chama da resistência e da coragem, marcas da grandeza de caráter do fundador do JP.

As informações sobre a vida de Ribamar Bogéa foram retiradas da revista "Jornal Pequeno: meio século de luta e resistência", editada pelo Prof.: Alberico Carneiro

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