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O Grupo Folha na Internet

INTERNET E COMUNICAÇÃO
1. Em busca de um referencial teórico

1.1 Primeiras Vinculações Teóricas

Até recentemente, a Internet havia sido observada pelos pesquisadores de comunicação somente pela inextricável relação com o suporte-máquina original, o computador, e pela capacidade de proporcionar a comunicação remota entre indivíduos e grupos. MORRIS; OGAN (1996) dizem que as conseqüências dessa visão acadêmica da Internet acabaram privilegiando nas abordagens pesquisas no campo que os estudiosos americanos denominaram de computer-mediated communication (comunicação mediada por computador), ou simplesmente CMC, que excluiu durante muito tempo as redes do contexto dos mass media.

Na Europa, as pesquisas relativas à comunicação através de redes de computadores concentraram-se em estudos ao redor do conceito de telemática, designação concebida para este tipo de comunicação em função de utilizar conjuntamente recursos de telecomunicações e informática. NORA (1995) define o termo telemática como sendo o tratamento automático da informação à distância. A palavra é sobretudo utilizada na França para designar os serviços da rede Minitel, como mostram Feenberg (1992), que rastreou o sucesso do Teletel, do Minitel e do sistema de videotexto na França, e Thomas; Miles (1989), ao descreveram o desenvolvimento da telemática no Reino unido.

Na linha da CMC, desde a década de 70 são realizadas pesquisas sobre o elemento humano nas comunicações através dos computadores, enfatizando os aspectos sociais e psicológicos. Assim são os estudos de Kling; Gerson (1977), Johansen (1977), Hiltz; Turoff (1978), Kiesler; Siegel; McGuire (1984), Chesebro (1985), Feenberg (1989), Kiesler (1986), RAFAELI (1986) e (1988), SWIFT (1989), Lea; Spears (1991a) e (1991b), e Matheson (1991). Concomitantemente, foram construídas reflexões que englobam teoria e conceituação da CMC , realizadas por Rice (1989) e (1992), Hacker; Monge (1988), Johnston (1989), Mccreary (1990), Kuehn (1990), e do computador, lideradas por Mowshowitz (1981), Turkle (1982) e Hirschheim (1985).

Pesquisas realizadas por SPROULL; KIESLER (1991), WALTHER (1992), OGAN (1993), RHEIINGOLD (1994) e CHEUNG (1996), mesmo não enfocando necessariamente a Internet na totalidade como se conhece hoje, pois as aplicações mais comuns até pouco tempo eram o e-mail e newsgroups, e tratando exclusivamente da comunicação interpessoal ou de grupo, demonstram que a linha tradicional da CMC continuou sendo forte nas décadas de 90. Porém, DENNIS; GALLUPE (1993) observam que o momento mais marcante do viés da CMC parece ter sido mesmo a fase correspondente ao período acadêmico do desenvolvimento da rede, que compreende mais ou menos as décadas de 70 e 80. Durante esse tempo, uma representativa parte dos estudos estava relacionada ao potencial das redes para os campos da educação e da biblioteconomia.

Reflexões sobre aspectos da linguagem e da retórica na CMC são encontradas nos textos de Murray (1991), ao descrever a constituição do processo de conversação no computador, SHANK (1993), que argumenta que a comunicação na rede não é oral ou escrita mas semiótica, DECEMBER (1993a), que compara o discurso em redes nos serviços de Usenet e newsgroups com as características de oralidade definidas por ONG. Mais tarde, DECEMBER (1994) discute e analisa as estratégias que os comunicadores (usuários) podem usar para trocar informação em redes de computadores, incluindo considerações da natureza da distribuição de meio, acesso à informação, práticas e contextos sociais. Recentemente, DOWNES (1996), ao abordar a Internet, investigou a retórica do ciberespaço e conclui que se trata de um conjunto de estratégias narrativas que resultam na promoção das novas tecnologias de comunicação.

1.1.1 CMC e Internet: a importância dos aspectos técnicos da rede

Para que se possa avançar na compreensão da Internet no campo de estudos do computer-mediated communication, alerta DECEMBER (1996), é preciso apreender os princípios do funcionamento das redes. Neste aspecto, apesar da Internet estar se transformando na rede de maior importância sob todos os ângulos, ela não compreende a totalidade dos estudos possíveis neste campo. Redes e serviços nos moldes da America Online, Microsoft Network, Prodigy e Delphi, entre outras, são da mesma forma suscetíveis de experimentarem análises e pesquisas utilizando esta abordagem.

Do ponto de vista estritamente técnico, a Internet comporta um conjunto de protocolos que possibilita, em princípio, a comunicação de dados. Protocolo é um conjunto de regras para troca de informações. Redes de computadores usam protocolos para habilitar computadores e conectá-los para enviar e receber mensagens. O conjunto de protocolos chamado TCP/IP (Transmission Control Protocol/Internet Protocol) define as regras para a troca de dados na Internet. Este conjunto de protocolos integra um conjunto de serviços (correio eletrônico, transferência de arquivos etc) que pode ocorrer entre muitos computadores em redes locais ou remotas.

O processo de transporte dos dados numa rede baseada em TCP/IP ocorre da seguinte forma: o TCP "quebra" os dados em pacotes da informação. Depois, estes pacotes são enviados para a rede, possivelmente através de rotas ou caminhos diferentes, de acordo com o IP. Finalmente, estes pacotes são reagrupados ao chegarem a seus destinos. Através de conexões compartilhadas, as redes baseadas no TCP/IP podem estar conectadas em sistemas maiores. Organizações e indivíduos podem possuir uma rede TCP/IP e conectá-la a outra local, regional, nacional, ou mesmo global. Sendo um conjunto de redes integradas, a Internet compartilha o protocolo TCP/IP. Entretanto, ela não é uma rede individual, mas uma organização cooperativa de redes, globalmente distribuída como sistema para troca de informações. Os dados que a atravessam formam a comunicação na Internet.

Enquanto suporte-máquina, o computador no contexto da Internet e do computer-mediated communication significa muito mais que simplesmente um dispositivo para cálculo (DECEMBER, 1996). De fato, a função saliente do computador não é a de oferecer capacidade computacional, mas oferecer uma plataforma para as aplicações de software de sistema operacional e para suportar aplicações de transmissão de dados da rede para o usuário.

Na Internet, os relacionamentos entres computadores comumente seguem o modelo de Cliente/Servidor. Da mesma maneira que o protocolo TCP/IP, o modelo Cliente/Servidor unifica características da comunicação na Internet. Um servidor é um computador que se associa a aplicações de software e que age como um repositório de outros softwares, de arquivos e de informação. O Servidor envia estas informação a pedido através da rede para usuários do software Cliente. Do Cliente segue um conjunto de protocolos. Estes protocolos definem a aplicação particular que o Servidor e o Cliente estão usando.

A forma de distribuição requisitadas nas aplicações Cliente/Servidor permitem muita eficiência. Desde que o software Cliente esteja interagindo com o Servidor, de acordo com dados padrões de troca entre protocolos, o software de Cliente pode estar personalizado pelos usuários particulares de computador. Isto significa que o Servidor não tem que se "preocupar" acerca das particularidades do software de sistema operacional ou do software Cliente que se encontra no computador dos usuários da rede. Da mesma forma, o software de Cliente não tem de se "preocupar" a respeito do tipo de Servidor particular ao qual ele requisita informação.

Para DECEMBER (1996), embora a comunicação de dados sirva de base para transmissão de mensagens em redes de computadores, o pesquisador de comunicação, a menos que esteja envolvido no exame detalhado técnico da transmissão de dados, deve estar preocupado com a comunicação humana, isto é, de que maneira as pessoas se comunicam na Internet. Entretanto, a descrição do conteúdo da comunicação na Internet pode se transformar em um trabalho complexo, dependendo do tipo de mídia, pois há a possibilidade de ser codificado e decifrado usando uma variedade de formas (texto, gráficos, som, vídeo, arquivo executável etc.).

A interpretação destes artefatos dependem das metas do pesquisador. Igualmente, os símbolos de interesse para o pesquisador irão variar. Para exemplificar sua posição, DECEMBER (1996) cita a comunicação na Internet usando vídeo e áudio numa conferência em tempo real com uma aplicação chamada CU-See-Me. Esta aplicação permite aos participantes transmitir som e imagens, exibindo muito mais caracteres não-verbais e paralingüísticos não presentes em aplicações que comportam somente texto, a exemplo do correio eletrônico. Assim, a comunicação na Internet pode estar representada por uma extensão das possibilidades para criação de símbolos, e algum destes símbolos podem ser parecidos com aqueles examinados na comunicação humana não mediada por suportes técnicos.

Fundamentado nestes princípios, DECEMBER (1996) conclui que a Internet no contexto do computer-mediated communication envolve a troca de informações em nível global, através de uma cooperativa de redes usando o protocolo TCP /IP e o modelo Cliente/Servidor para comunicação de dados. As mensagens podem suportar uma extensão das manipulações de distribuição, de tempo e serem codificadas numa variedade de tipos de mídia. O conteúdo resultante da troca de informações pode envolver uma larga extensão de pessoas e de símbolos usados para a comunicação. Sua definição, portanto, captura essencialmente qualidades da tecnologia para que pesquisadores possam usar esta estrutura como base, identificando outros fatores de unidades para pesquisa em particular.

1.1.2 Da CMC para os Mass Media

Com a emergência da Internet como rede mundial de caráter comercial, e acima de tudo após o aparecimento da WWW, outras possibilidades de estudo começaram a se abrir, além das linhas tradicionais da CMC. Tentativas de associá-la teoricamente aos modelos de comunicação de massa tradicionais, antes quase inexistentes, tornaram-se são mais freqüentes. Enfocando a comunicação tecnológica no contexto das mudanças organizacionais, Markus (1990) já alertava para alguns aspectos da teoria de massa que poderiam se adequar à mídia interativa, numa referência direta às redes de computadores. MORRIS; OGAN (1996) aplicaram essa tese para a Internet, argumentando que as novas tecnologias de comunicação oferecem a oportunidade de repensar os conceitos e idéias sobre os tradicionais mass media, enfocando a audiência de massa e a mediação tecnológica.

A razão para esse imperativo estaria pautada em dois pontos. Inicialmente, porque a Internet utiliza o modelo de envio e recepção de mensagens que caracteriza o modelo tradicional de comunicação de massa, às vezes ressaltando estes modelos, às vezes colocando-os em configurações completamente novas. O outro fundamento seria o irreversível processo dinâmico das tecnologias, que se modificam e se transformam a todo instante. Para acompanhar tais modificações, as teorias e categorias da comunicação de massa devem ser flexíveis.

Trata-se de um problema conceitual e teórico. O maior desafio para solucioná-lo, de acordo com MORRIS; OGAN (1996), é redefinir a própria divisão do estudo da comunicação e de suas categorias. O apoio a esta determinação está ancorado na opinião de Cathcart; Gumpert, quando afirmam estarem inteiramente convencidos que a divisão tradicional do estudo da comunicação em interpessoal, de grupo e público, e de massa é inadequada porque ignora a o caráter difuso e dinâmico da mídia.

Analisando comparativamente diversos serviços da Internet com os media tradicionais, MORRIS; OGAN (1996) chegam a formatar um quadro resumido da possibilidade de classificar a rede mundial de computadores como um meio de comunicação de massa:

  • Cada um destes serviços específicos da Internet [newsgroups, e-mail, chat, WWW] pode ser visualizado por nós como estações específicas de televisão, pequenos jornais de cidade, ou revistas de interesses especiais. Nenhum destes meios pode alcançar uma audiência estritamente de massa, mas conjuntamente com todas as outras estações, jornais e revistas, constituem categorias de mídias de massa. Assim a própria Internet seria considerada um meio de massa, enquanto os sites individuais e serviços são os componentes que compreendem estes meios.

  • DECEMBER (1996) também nota que a Internet fornece um uma série de ferramentas para as pessoas usarem na recuperação de informações e comunicação individual, grupal e de massa. Contudo, o diferencial mais significativo entre as mídias tradicionais e as redes de computadores do tipo da Internet talvez esteja centrado na possibilidade desta última produzir experiências interativas, criando novas configurações entre fontes, mensagens e receptores dessas novas tecnologias digitais de comunicação. Segundo NORA (1995, 333), interatividade é o:

  • (...) tipo de relação que faz com que o comportamento de um sistema modifique o comportamento do outro. Por extensão, um equipamento ou um programa é interativo quando seu utilizador lhe pode modificar os comportamentos ou desenvolvimento. Enquanto o software informático e os jogos de vídeo são, por construção, interactivos, os programas audiovisuais e os filmes clássicos implicam um comportamento passivo do utilizador.

  • MORRIS; OGAN (1996) recorrem a Rafaeli quando assinalam que o conceito de interatividade assumiu uma atribuição natural para a comunicação interpessoal, mas ele vem sendo recentemente aplicado para toda nova mídia, das redes de cabo à Internet. Na perspectiva de Rafaeli, a definição de interatividade deve reconhecer três níveis apropriados: comunicação não interativa, comunicação reativa (ou quase interativa) e a comunicação completamente interativa. Tal concepção é capaz de se aplicar em diversas situações de comunicação, da interpessoal à de massa. Por sua vez, Kuehn (1990) acredita que as teorias da CMC em si já são suficientes para explicar de que forma o contato com as novas tecnologias de comunicação podem alterar a interação de usuários de redes. MORAES (1997, 38-39) comenta que as altas tecnologias, das quais a Internet faz parte, "tenderiam a alicerçar uma transição no âmbito informativo, com a possibilidade de ambientes midiáticos (forjados numa relação de mão única entre emissor e receptor) cederem espaços a ambientes interativos (propícios a uma maior participação do público)".

    Como explica PALÁCIOS (1995):

  • (...) a telemática está, pela primeira vez, fazendo a junção entre comunicação massiva e interatividade. Há até pouco tempo atrás, a dissociação entre massivo e interativo era clara, no âmbito da comunicação. Uma coisa ou outra. O telefone é interativo, mas não massivo, na medida em que é apenas uma extensão tecnológica de um diálogo entre dois interlocutores; a televisão, o rádio, as mídias impressas etc., são massivas, porém não interativas. A comunicação telemática é massiva e interativa.

  • PALÁCIOS (1995) vê a questão da interatividade sob o ângulo do progresso dos próprios meios tradicionais:

  • Nas abordagens que predominaram na chamada Teoria da Comunicação, nas últimas décadas, a mídia sempre foi acusada de reduzir os indivíduos a situações passivas, tornando-os isolados, sem iniciativa, rompendo com a vida relacional, atrofiando o gosto pela troca e pela conversa.

    Se tais acusações e seus pretensos efeitos já eram discutíveis, com as novas formas de comunicação e com a interatividade nelas embutidas, perdem-se os últimos argumentos a favor de tais críticas. Inclusive é fácil perceber-se que até mesmo as formas tradicionais dos mídia, como o jornal ou a revista, adquirem uma dimensão de interatividade, quando transportados para o novo meio eletrônico.

  • Na realidade, apesar de não se poder afirmar com precisão que esta seja a conceituação adequada para a Internet, pode-se arriscar defini-la em seu atual estágio como um meio de massa multifacetado, baseado na troca de mensagens através de redes globais de computadores, e que contempla em seu processo de comunicação diferentes traços de modelos comunicacionais. Sua forma variada exibe conexões entre comunicação interpessoal, comunicação grupal e comunicação de massa, salientando possibilidades de interatividade entre os usuários.

    Em função da amplitude destas características, é possível ainda argumentar que a Internet deva ser compreendida sob outro prisma, delineando-a como um ambiente comunicacional multimídia, termo ao qual se referem PALÁCIOS (1996) e MANTA (1997). Primeiro por ser concebida fora do modelo de rede única, e sim de um agrupamento de sub-redes, que constituiriam o suporte ou o ambiente tecnológico da Internet. E depois, a própria diversidade de códigos utilizados na troca de mensagens (textual, visual e sonoro), denominada por GONÇALVES (1996) de síntese discursiva, somada às potencialidades tecnológicas, remetem à idéia de multimídia.

    1.1.3 Predominância do jornalismo

    A despeito das discussões sobre o enquadramento ou não da Internet no conceito de comunicação de massa, presencia-se o surgimento de reflexões que tratam das experiências de produtos de comunicação na Internet. Em sua maioria, as pesquisas mais avançadas estão relacionadas às mudanças que a Internet tem causado no jornalismo, principalmente nos Estados Unidos, onde o primeiro periódico a utilizar a rede foi San Jose Mercuy, em 1993. GONÇALVES (1996, 3) explica que, em sua etapa preliminar, "a transposição da produção jornalística para Internet estava resumida aos serviços de notícias personalizadas, autodenominadas de "notícias em tempo real, oferecidos pelos servidores como a American Online".

    A razão do predomínio de trabalhos acadêmicos sobre temas do jornalismo, explica-se primordialmente pelo grande potencial da Internet para a difusão de mensagens textuais e fotos atualizadas instantaneamente. Depois, pelas limitações na estrutura de telecomunicações que prejudicam a transmissão de sons e imagens em grande escala, impedindo experiências mais ousadas com produtos audiovisuais. Outro agravante é o dissenso entre as empresas que desenvolvem softwares em relação a padrões de produção, transmissão e recepção de sons e imagens em tempo real.

    Os passos iniciais do jornalismo na Internet americana estão retratados nos textos de Dizard (1994), Gordon (1995), Reddick; Elliot (1995) e Hickey (1995) que chamam a atenção para as potencialidades da rede como instrumento de apoio para os órgãos de imprensa. Outro estudo foi realizado por Cameron; Curtin (1996), relatando os aspectos históricos do desenvolvimento dos jornais on line desde a década de 80 e analisando suas formas para discutir os impactos das primeiras versões eletrônicas disponíveis na rede no futuro das empresas jornalísticas.

    A partir da segunda metade da década de 90, com a popularização da rede e o rápido crescimento do número de jornais que passaram a disponibilizar edições eletrônicas no ciberespaço, são iniciadas tentativas de pesquisadores latino-americanos no sentido de compreender o fenômeno do jornalismo na Internet. MANTA (1996) analisou as versões on line de quatro jornais brasileiros e notou que, apesar dos empresários do setor jornalístico terem descoberto "que os melhores serviços levarão vantagem na disputa pela audiência", os produtos até então disponíveis conservavam a maioria das características do modelo impresso.

    Associando a constatação de MANTA às conclusões de MORFIN (1997), realizador de um estudo acerca das motivações, formas e alcance dos jornais digitais na América Latina, as razões dessa transposição do modelo impresso para o digital podem se explicadas em virtude da experimentação e da constante incorporação de novas tecnologias na Internet, o que dificulta a existência de um modelo sólido de jornalismo on line. Para MORFIN, desse ambiente de constante experimentação e mudanças surgem dezenas de publicações, cuja diversidade é refletida no estilo, no conteúdo, nas inovações tecnológicas, na cobertura e nos recursos disponíveis por cada empresa jornalística.

    Do ponto de vista conceitual, nas abordagens do fenômeno do jornalismo na rede, freqüentemente tem-se adotado a terminologia "jornalismo digital" ou "jornalismo eletrônico" para designar a atividade jornalística desempenhada institucionalmente no ambiente da Internet. Gonçalves (1996, 1) diz ser necessário que se faça uma distinção entre jornalismo enquanto modo específico de conhecimento da realidade e os serviços informativos disponibilizados na Internet, tomando cuidado sobretudo com o emprego do termo on line, freqüentemente usado na denominação de jornais e revistas encontrados na rede.

  • Numa definição sumária o jornalismo digital envolve toda a produção discursiva que recorte a realidade pelo viés da singularidade dos eventos, que tenha como suporte de circulação a Internet, o que demarca suas particularidades em relação aos demais serviços informativos, sem qualquer natureza jornalística como o viva-voz, oferecidos aos usuários da Internet (...) Na tradução literal online quer dizer em tempo real. Além da complexa discussão que o conceito implica - até pode ser admitido em jornalismo, caso tempo real seja sinônimo de tempo de produção da notícia e não do acontecimento, o que são variáveis distintas, cremos que o termo online se distancia do novo formato jornalístico, a tecnologia digital.

  • Dentre os inúmeros benefícios resultantes da relação entre Internet e jornalismo, nota-se que a descoberta deste novo campo oferece a oportunidade de colocar em prática pela primeira vez mecanismos de interatividade e oferece alternativas reais de participação do público no processo de transformação do fato em notícia (LAPHAM,1995). Em um depoimento concedido a AGUIAR (1996), PALÁCIOS destaca as vantagens da jornalismo digital em relação aos suportes tradicionais:

  • Trata-se de um jornalismo multimídia que usa como suporte as redes informáticas e que tem como característica essencial o fato de ser massivo e interativo, simultaneamente, ao contrário da TV, que é massiva mas não interativa, ou do telefone, que é interativo porém não massivo. Outra importante característica do J.D. [jornal digital], que o distingue do jornalismo tradicional, é o fato de que as notícias, neste novo formato, não são "circuladas" mas sim "disponibilizadas". Isso implica que tem que haver um "movimento ativo" do consumidor potencial em acessar aquela informação. Some-se a tudo isso a característica da personalização (o consumidor pode "formatar" seu jornal de acordo com seus interesses e preferências) e teremos um perfil básico do J.D.

  • Além de considerar que os problemas específicos da atividade jornalística na Internet são de extrema importância, a constatação de que em 1997 existem mais de 2.560 jornais online no mundo, dos quais uma parcela significativa é responsabilidade de empresas brasileiras, levanta uma série de indagações sobre o que passa a representar essa mídia no conjunto das indústrias que atuam no setor. Afinal, a Internet é um organismo descentralizado e, por estar em processo de formação e crescimento, abre caminho não somente para a atuação de instituições tradicionalmente envolvidas com produtos de mídia, mas contribui para o aparecimento de novos atores, com habilidades e competência para explorar suas oportunidades. O debate sobre o futuro do jornalismo é apenas mais um passo de uma discussão muito mais complexa e ampla sobre as relações entre mídia e Internet, incluindo todas as implicações referentes a forma e conteúdo, que começam com o jornalismo, passam pelo rádio, telelvisão, publicidade e culminam em produtos e serviços interativos oferecidos através das novas tecnologias de informação.

    1.2 Tendências da Mídia nos Anos 90 e a Internet

    Dada estas características, e por envolver uma gama de processos vinculados com a produção, seleção, armazenamento, transmissão, distribuição e consumo de mensagens em escala mundial, acredita-se que a Internet apresenta, entre outras possíveis associações e vinculações teóricas já vistas, um forte relacionamento com uma área bastante definida dos estudos da Comunicação, o da comunicação internacional, que abrange aspectos relevantes como o desenvolvimento das indústrias de mídia, processos de globalização e novas tecnologias de comunicação/informação. Tal aproximação torna possível uma visão global do fenômeno e proporciona uma melhor compreensão de suas implicações e influências nos ambientes locais e regionais, pois as ações resultantes dos processos midiáticos ocorrem em tempos e espaços determinados. No horizonte da comunicação internacional, as ações são historicamente orquestradas por instituições, sejam de caráter público ou privado, a exemplo das empresas de mídia, o que concede à Internet mais um motivo para firmar-se como objeto a ser considerado neste campo de estudos.

    A tentativa de visualizar com clareza o fenômeno da Internet dentro desta perspectiva da comunicação internacional passa necessariamente pela identificação dos processos que resultaram na construção do perfil do mercado e das indústrias de mídia neste final de século. Não é novidade para ninguém que o extraordinário desenvolvimento experimentado pelos meios de comunicação a partir do século XIX transformou a vida de nações, pessoas e instituições em todo planeta. Muito menos tem-se dúvida de que se trata de um negócio altamente rentável sob todos os aspectos de sua cadeia produtiva. Porém, em meio ao aumento de sua capacidade de produção, seleção, armazenamento, transmissão, distribuição e consumo de mensagens, o conjunto destes meios foi gradativamente se constituindo em um instrumento de vital importância para a própria sobrevivência do capitalismo moderno.

    Considerada um mercado estratégico e essencial para o pleno desenvolvimento dos mais variados setores da economia, desempenhando funções de mecanismo de transporte de informações, dados e difundindo práticas socioculturais, a mídia tornou-se uma atividade multifacetada. Em função do avanço das novas tecnologias, seus tentáculos se expandiram ao ponto de ignorarem os limites do que a teoria da comunicação convencionou chamar de comunicação de massa. Na década de 90, incorporando equipamentos, produtos e serviços de outros setores (entretenimento, telecomunicações e informática), as indústrias de mídia redefinem seus objetivos, metas e multiplicam suas possibilidades de atuação.

    1.2.1 Da concentração à desregulamentação

    Os novos atores que lideram a guinada da mídia rumo ao alargamento dos horizontes são, em sua maioria, grandes empresas transnacionais sediadas nos centros financeiros mundiais, com interesses econômicos diversificados, às quais DREIFUSS (1997, 168) chama de corporações estratégicas, "orientadas por matrizes científicas e por corações tecnológicos". Na realidade, este processo de mudanças no ambiente do mercado de mídia faz parte de um complexo de transformações que vêm ocorrendo nas bases da produção material, com reflexos em todos os setores da vida da sociedade ocidental, denominado pela literatura corrente de globalização.

    A despeito da freqüente generalização, DREIFUSS (1996) argumenta que tais transformações abrangem três processos distintos e essencialmente diferentes, sendo a globalização apenas um deles. Neste caso, ter-se-ia a globalização, permeando aspectos da tecnologia, economia e comércio; a mundialização, que envolve aspectos do social, de estilos, usos e costumes; e a planetarização, dando conta do espaço político-institucional, militar e de gestão. Com certeza, o discernimento necessário para esses três termos leva uma melhor compreensão da importância das corporações estratégicas que atuam no campo da mídia, pois suas investidas e estratégias de consolidação e expansão afetam e são afetadas por todos estes processos-fenômenos concomitantemente.

    Cada um dos três processos-fenômenos pertencentes às transformações transnacionalizantes desempenha funções específicas em cada setor determinado da vida da sociedade. Observadas sob a perspectiva dos mercados de mídia, globalização, mundialização e planetarização representam a síntese de uma realidade em construção há algum tempo. Uma realidade cada vez mais baseada em atividades midiáticas sem fronteiras, estimulada pela ação irrefutável da tecnologia, determinada por investimentos privados e legitimada pelo Estado.

    O que Dreifuss chama genericamente de corporações estratégicas, no campo da mídia tem sido normalmente classificado por outros autores de grupos ou conglomerados de comunicação e/ou mídia (BARNOUW, 1997) e/ou multimídia (MIGUEL, 1993; LA BAUME E BERTALUS, 1995). Em virtude do grande destaque e da importância que seus conglomerados adquirem na vida política e econômica dos países onde atuam, os proprietários desses impérios de comunicação aparecem na literatura especializada como "Barões da Imprensa", "Moguls" ou "Barões do Céu".

    O termo "multimídia" proposto por MIGUEL (1993) e BERTALUS; LA BAUME (1994) não é apenas uma alusão às novas tecnologias, que tanto seduzem empresas e consumidores de bens simbólicos. É acima de tudo um conceito através do qual torna-se possível identificar o caráter integrado das corporações que hoje dominam a mídia no planeta: multimídia em oposição à monomídia. Este recurso conceitual permite compreender melhor grupos do porte de Time-Warner, Disney e Microsoft, de abrangência planetária, e ainda conglomerados nacionais como o Grupo Folha.

    THOMPSON (1995) descreve quatro características no mercado de mídia que contribuem para a formação destes conglomerados. São elas: a crescente concentração das indústrias do setor, diversificação, globalização e a tendência para a desregulamentação. Para ele, concentração é o conjunto de circunstâncias que leva a acumulação dos meios de produção nas mãos de um número relativamente reduzido de grandes corporações, tendência essa verificada nas indústrias de mídia e em diversos campos da atividade econômica. Já diversificação representa o processo pelo qual corporações da mídia expandem seu eixo de atuação, incorporando companhias do mesmo campo ou investindo volumes de capital em novos desenvolvimentos. Globalização abarcaria o caráter transnacional da atividades de mídia, exportação, produção de bens para o mercado internacional e difusão de informação e comunicação. Por sua vez, a desregulamentação engloba o conjunto de ações dos governos para modificar as legislações restritivas às atividades de mídia, impedindo a competitividade dos mercados.

    Na perspectiva de MIGUEL (1993, 96-97), estruturada na Economia das Comunicações, estes fenômenos estão diretamente ligados às formas de crescimento adotadas pelas empresas capitalistas no mundo da mídia, que podem ser classificadas fundamentalmente como crescimento interno e externo. O vetor interno corresponde à criação de novas capacidades econômicas e de distribuição a partir do desenvolvimento das potencialidades internas da empresa. Por sua vez, o crescimento externo é caracterizado mediante a fusão, a absorção, participação em outras empresas e formação de alianças. A diferença em relação ao crescimento interno é que não se criam novas potencialidades mas se adquirem outras já existentes. "O crescimento externo se define como aquele processo mediante ao qual uma unidade econômica cresce através da aquisição da propriedade e do controle da capacidade de produção de outras unidades preexistentes que estão em funcionamento".

    Quanto à direção do crescimento, MIGUEL (1993, 99-100) assinala que a escolha pode ser feita entre horizontal, vertical, conglomeral e concêntrica. O crescimento horizontal se caracteriza por reforçar o poder das unidades situadas dentro de um mesmo ramo. O crescimento vertical, chamado também de integração vertical, avança no sentido de controlar unidades situadas em estágios anteriores ou posteriores do processo econômico-produtivo. A direção conglomeral é o crescimento que ocorre não só fora da campo mas também fora do setor. Por fim, a direção concêntrica, que se faz apoiando-se em uma atividade destacada, "guarda relação com a idéia de diversificação multimídia. Com este termo, quer-se indicar a direção de crescimento dentro de um setor, mas inter-ramos, buscando explorar algum tipo de sinergia". O autor ainda alerta para a estreita relação entre os termos concentração e centralização. Se por concentração entende-se o processo ou resultado de processo pelo qual um determinado conjunto tende a aumentar suas dimensões relativas e absolutas nele presente, a centralização implica no aumento de poder de um número restrito de empresas ou grupos em um determinado mercado.

    As coordenadas que levaram a mídia a formar um quadro incomparavelmente diferente do que se estava acostumado a conviver até agora, no qual os conglomerados ou grupos multimídia assumem a liderança, começaram a ser traçadas desde o nascimento das indústrias de mídia, sofrendo no decurso fases de progressão e contração. Ao descrever a trajetória das indústrias de mídia até os anos 80, THOMPSON (1995, 236) indica que a concentração e diversificação dos mercados tem seus antecedentes com a mudança da base econômica dos jornais ingleses no século XIX.

  • ... os jornais se tornaram cada vez mais empreendimentos comerciais de grande porte que exigiam relativamente grandes quantidades de capital para começar a se manter devido à intensa competição crescente. Por conseguinte o tradicional proprietário-comunicador, que possuía um ou dois jornais como um negócio familiar, deu lugar, de forma sempre crescente, ao desenvolvimento de organizações de grande porte de muitos jornais e muitos meios.

  • A concentração da mídia no decorrer do século XX esteve estreitamente atrelada à diversificação. Ao analisar as políticas federais de comunicações e as políticas de propriedade diversificadas nos Estados Unidos, entre 1977 e 1993, WILSO (1994) identificou um forte relacionamento entre a legislação americana e o crescimento da concentração dos meios de comunicação nas mãos de uma minoria de empresas do setor. Na Europa, PEREZ LATRE (1993), ao retratar o setor publicitário, enfocou o alto grau de concentração do mercado publicitário europeu na década de 90.

    Não obstante o que se chama hodiernamente de globalização na comunicação seja uma peculiaridade atribuída ao desenrolar dos fatos nas últimas três décadas, THOMPSON (1995, 239) localiza suas origens no século XVI, com o comércio de livros entre os países europeus, e mais tarde no século XIX, com o aparecimento das primeiras agências internacionais de notícias.

  • As primeiras folhas noticiosas e jornais estiveram sempre interessados com a transmissão da informação de um centro comercial a outro; até certo ponto, eles transportavam a informação através dos limites que foram se configurando com o surgimento do sistema de estado-nação no início da Europa moderna. Mas o fluxo internacional da comunicação assumiu uma nova forma institucional no curso do século XIX: foram criadas as agências noticiosas dos principais centros comerciais da Europa, e essas agências se tornaram cada vez responsáveis pelo suprimento de informação estrangeira para os clientes de jornais.

  • O domínio exercido pelas quatro grandes agências de notícias logo ao fim da Segunda Guerra Mundial, Reuters (Inglaterra), AP (Estados Unidos), UPI (Estados Unidos) e AFP (França), despertou o interesse dos pesquisadores para a questão do fluxo de internacional da informação e da comunicação, com grande ênfase ao aspecto cultural desse fenômeno. Um dos primeiros estudos foi realizado em 1967 com 14 periódicos latino-americanos e descobriu que 73% do noticiário internacional era dominado pelas agências americanas AP e UPI. Outra pesquisa mais abrangente, realizada pelo Ciespal, agora em toda a América Latina, detectou que este número chegava a 93% quando incluía-se a AFP. Desde então, uma série de outros estudos foram desenvolvidos nos anos seguintes, em várias partes do mundo, denunciando a enorme desigualdade no fluxo de informação entre os países desenvolvidos e subdesenvolvidos.

    A discussão sobre o fluxo seria agravada no início da década de 70, com a publicação de uma pesquisa sobre as tendências internacionais da estrutura e dos canais de circulação dos programas de televisão, realizada pelos pesquisadores finlandeses Kaarle Nordenstreng e Tapio Varis , entre 1971 e 1973. Encontra-se aí, a preocupação com um segundo aspecto da globalização da mídia, o qual THOMPSON (1995) denomina de o crescente papel das exportações e da produção de bens da mídia para o mercado internacional. Mais adiante, diversas pesquisas comprovariam esta tendência nos demais produtos audiovisuais, que, juntamente com os levantamentos sobre o fluxo informativo, serviram de pano de fundo para as discussões sobre o imperialismo cultural.

    Quanto aos debates sobre a amplitude da globalização das indústrias de mídia, eles estão, de certa forma porém não exclusivamente, mais explícitos em pesquisas sobre a guinada transnacional da televisão. ZHA (1995) pesquisou o relacionamento entre as redes (broadcasting) transnacionais e a mídia asiática, com destaque o impacto da globalização da mídia nas redes locais da China. GUREVITCH (1994) fez um estudo comparativo da globalização das televisões americanas, britânica, israelense, alemã e francesa, enfocando a questão da audiência dos noticiários televisivos.

    Dentro do conjunto das indústrias de mídia, a atividade publicitária obtém razoável destaque no contexto da globalização. GUO (1995) discute algumas implicações do desenvolvimento das organizações transnacionais da mídia na publicidade e no marketing, trabalhando as dimensões do global e o regional nos produtos de comunicação. Além deste estudo, KIM (1995) abordou a globalização da indústria de publicidade na Corea, examinando a expansão das agências transnacionais no mercado coreano, principalmente as originárias dos Estados Unidos. Apesar desta tendência de enfocar a globalização sob um ponto de vista de cada mercado de mídia separadamente, obras mais abrangentes, que pretendem apreendê-la em sua complexidade, são cada vez mais freqüentes, como LA BAUME; BERTOLUS (1995) e BARNOUW (1997), relacionando-a com setores de entretenimento, telecomunicações e informática.

    Certamente, dentre as características levantadas por Thompson, a desregulamentação dos mercados é o elemento mais recente. Mesmo assim, pode-se considerar que antecede e muito o atual estágio. "Embora os monopólios estatais na difusão fossem rompidos em alguns países europeus bem cedo, o termo ‘desregulamentação’ é usado, costumeiramente, para se referir a uma série de iniciativas políticas que caracterizam muitas sociedades ocidentais nas décadas de 70 e 80" (THOMPSON, 1995, 265).

    Seguindo as trilhas de Thompson e Dreifuss, MORAES (1997) afirma que as transformações ora em andamento no mercado de mídia inserem-se no painel geral de forte concentração de comandos estratégicos de megamercados e de mundialização de conteúdos, bens e serviços, facilitada, sobremaneira pela desregulamentação. REED (1994) chama atenção para o movimento de mundialização ao relatar que, com a aceleração da desregulamentação e o desenvolvimento da tecnologia, os conglomerados de mídia pretendem conseguir modificar a vida das pessoas fornecendo conteúdos diversificados e em quantidades extraordinárias.

    A tendência de fazer associações entre concentração, diversificação, globalização e desregulamentação dos setores de mídia têm se acentuado nas últimas décadas em todas as partes do planeta. Nos Estados Unidos, por exemplo, MONTANYE (1996) e HAGINS (1996) discutem as recentes modificações na política nacional de telecomunicações como um sustentáculo para a formação de uma nova infra-estrutura de informação, a qual elimina as distinções convencionais entre as mídias e modifica o papel do governo e das empresas nas tomadas de decisão em relação ao funcionamento do mercado.

    1.2.2 O processo de convergência: o papel da Internet

    Todas as movimentações presenciadas e registradas no mercado apontam para a incorporação de uma nova característica das indústrias de mídia: a convergência. Numa velocidade antes inimaginável, testemunha-se a dissolução das fronteiras entre as atividades de comunicação, informática, entretenimento e telecomunicações. No ambiente planetário da economia globalizada e de cultura mundializada, o avanço das tecnologias de mídia/informação propiciam ao campo da mídia um dinamismo absolutamente sem precedentes.

    O salto que proporcionou a integração das mais diversas formas e modalidades de mídia com a indústria do entretenimento, das telecomunicações e da informática está condensada numa só palavra: bits. Abreviação do termo Digital Binary (dígito binário), os bits representam hoje o que a palavra escrita representou durante séculos para a humanidade (NEGROPONTE, 1995). Não por acaso o termo "digital" é tão comum no cotidiano de pessoas e instituições. Os horizontes do mercado digital se expandem de tal forma que sua associação exclusiva com os computadores pessoais passa a ser cada vez menos freqüente. MORAES (1997) acredita que a convergência dos artefatos que compõem os sistemas técnicos de transmissão baseados em linguagens digitais (satélite, computador, fax, modem, telefonia celular, telefonia comum, microondas, cabos de fibras ópticas, banco de dados eletrônicos, pagers, videofones etc) efetivam a comunicação à distância e estimulam ousadas estratégias mercadológicas e práticas comunicacionais.

    Para os conglomerados multimídia, as potencialidades geradas pelas linguagens digitais significam bem mais do que apenas uma boa oportunidade de expandir lucros e ampliar a faixa de consumidores. LA BAUME; BERTOLUS (1995) e NORA (1995) demonstram através de analises histórico-descritivas a importância estratégica das linguagens digitais para os mercados de mídia, entretenimento, telecomunicações e informática e evidenciam que as grandes empresas do setor já descobriram que o seu desenvolvimento (digital) está ligado à própria sobrevivência no mercado. Quase a mesma conclusão a que chegou NEGROPONTE (1995), ao projetar sua visão futurista do que chamou de "vida digital".

    O posicionamento de DREIFUSS (1997) coincide com as posições anteriores, chamando a atenção para o detalhe da convergência propiciar uma elevação do nível dos movimentos globais dos conglomerados de mídia:

     

  • (...) a convergência da tecnologia de telecomunicações e do infotainment [interface das indústrias de comunicação e do entretenimento] - outro sustentáculo da mundialização - estimula mais um processo globalizante de alianças, associações e fusões, que se organizam em torno de um leque de circunstâncias ‘sinérgicas’ e de fatores estruturantes básicos, incluindo a possibilidade de embutir a competência crucial de uma empresa numa rede de corporações, de sistemas e de produtos. (DREIFUSS, 1997, 199)

  • Para ele, as redes de computadores desempenham um papel fundamental no conjunto das transformações em curso.

  • A mundialização se realiza também por vias de macrosistemas de infotelecom [interface entre informática, telecomunicações e comunicação], cada vez mais diversificados em instrumental e complexificados, permitindo a difusão instantânea da informação (atuação transnacional de mídia visual e transmissão e disseminação cultural transfronteiras em tempo real), potencializada pelas diversas redes comerciais e de pesquisa - incluindo os operadores de redes de compra, consultas, notícias, entretenimento, intercâmbio social e acadêmico (DREIFUSS, 1997, 207).

  • Na visão de MORAES (1997), a convergência instaura uma nova ordem comunicacional na interseção de dois vetores, que salientam o papel da Internet na construção do painel da mídia moderna. Um é a contínua absorção, pelos grandes conglomerados, de dispositivos de última geração, interligados em redes e geradores de informações on line e/ou em tempo real de amplíssimo alcance. O segundo é o ciberespaço como um âmbito desterritorializado de bases cooperativas, de trocas interativas e de acessos instantâneos e uma multiplicidade infinita de saberes.

    Localizada exatamente na encruzilhada dos caminhos que levam à convergência digital da comunicação, entretenimento e telecomunicações e informática, a Internet representa a antevisão do que o vice-presidente americano Al Gore chamou de Superestrada da Informação ou Information Superhighway (LA BAUME; BERTOLUS, 1995; REED, 1994; NEGROPONTE, 1995). O passo inicial para realizar este sonho foi dado com a apresentação, em 1993, da nova lei de telecomunicações dos Estados Unidos, "The National Information Infrastruture (II)", aprovada em 1997. A lei contém os princípios básicos que determinam a construção da superestrada.

    Como assinalam LA BAUME; BERTOLUS (1995), Al Gore acredita que ano 2000 a integração destes setores representará o principal produto de exportação do seu país e sobretudo a primeira indústria do mundo. Ken AULETTA (1997), jornalista americano especializado em indústrias de mídia, interpreta a importância da Information Superhighway do ponto de vista dos conglomerados, propondo a instauração de um novo conceito: o de highwaymen, o qual teria origem devido a agressividade estratégica dos grandes conglomerados multimídia e principalmente dos homens os comandam.

    Se depender dos highwaymen, o sonho de Gore não está longe de se transformar em realidade. A Internet certamente está na linha de frente da construção das superestradas. Muito mais do que possibilitar a comunicação entre milhões de pessoas ao redor do planeta, a Internet como protótipo da superestrada, começa a ser vista pelo complexo de empresas multimídia sob o prisma de um mercado de projeções extremamente positivas.

    Isto explica por que institutos de pesquisa especializados em novas mídias como International Data Corporation, Forrester Research e Jupter Communications realizam estudos de maneira tão constante objetivando mensurar a capacidade destes mercados. O que não ocorre com tanta freqüência no campo acadêmico, onde o volume de estudos a esse respeito é muito reduzido, quase sempre disperso em tentativas como a de Mings e White (1997), da Universidade de Latrobe, na Austrália, que estudaram as estratégias de obtenção de receitas dos sites de informação na Internet.

    Próximo capítulo

    Notas

    1. Ong, W. J. (1982). Orality and Literacy: The Technologizing of the Word. New Accents Series. London: Methuen.

    2. Software de videoconferência que permite ao usuário ver e ouvir outros usuários na Internet, e em alguns casos, digitar mensagens, desenhar em um quadro e compartilhar aplicativos. Foi desenvolvido originalmente pela Universidade Cornell, que o distribui como freeware, mas a empresa White Pine disponibiliza uma versão comercial, chamada "Enhanced CU-See-Me".

    3. Cathcart, R.; Gumpert, G. Mediated interpersonal communication: Toward a new typology. Quarterly Journal of Speech, 1983. p. 267-268.

    4. RAFAELI, S. Interactivity; From new media to communication. In R. Hawkins et al. (Eds.), Advancing communication science: Merging mass and interpersonal processes (16). Newbury Park, CA, Sage, 1988. p. 110-134.

    5. Como uma espécie de contraste, a mesma fascinação que as aplicações audiovisuais causam na comunicação interpessoal ou de grupo através da Internet, reverte-se em frustração quando se trata de broadcasting na rede.

    6. De forma geral, as discussões sobre jornalismo digital e serviços on line tem como marco histórico o desenvolvimento dos sistemas de distribuição eletrônica de notícias, iniciando com a tecnologia de videotexto criado na Inglaterra, em 1974.

    7. EDITOR & PUBLISHER INTERACTIVE. Editor & Publisher's database directory of the world's online newspapers, 21 de novembro de 1997 <http://www.mediainfo.com/ephome/npaper/nphtm/online.htm> (26/11/97).

    8. Em razão do caráter incipiente do capitalismo no caso do comércio livros, e até da escassez de dados da época, considera-se mais relevante o surgimento das agências de notícias como ponto de referência da origem dos processos globalizantes no campo da comunicação, pois desemboca em um sistema global de espaços transnacionais para a coleta e divulgação de notícias.

    9. DIAZ RANGEL, Eleazar. Pueblos Subinformados; las agências de notícias y América Latina. Cuadernos de Nuestro Tiempo, Caracas, Num. 3 1967. p.1-82.

    10. CIESPAL. Dos Semanas en la prensa de América Latina. Ciespal, Quito, 1967.

      NORDENSTRENG, Kaarle e VARIS, Tapio. Inventário Internacional da estrutura dos programas de televisão e circulação internacional de programas, 1974.

    11. Sobre o imperialismo cultural ver SChiller, H. Mass Communication and America Empire. New York, Augustus M. Kelly, 1969; Boyd-Barret, Oliver. Media Imperialism; Towards an International Framework for the Analysis of Media System". In Curran, James; Gurevitch, Michael; Woollacott, Janet (eds.). Mass Communication Society. Londres, Edward Arnold, 1977. p.116-135.

    12. O processo de desregulamentação na Inglaterra ocorreu na década de 50.