INTERNET E
COMUNICAÇÃO
1. Em busca de um
referencial teórico1.1
Primeiras Vinculações
Teóricas
Até
recentemente, a Internet
havia sido observada
pelos pesquisadores de
comunicação somente
pela inextricável
relação com o
suporte-máquina
original, o computador, e
pela capacidade de
proporcionar a
comunicação remota
entre indivíduos e
grupos. MORRIS; OGAN
(1996) dizem que as
conseqüências dessa
visão acadêmica da
Internet acabaram
privilegiando nas
abordagens pesquisas no
campo que os estudiosos
americanos denominaram de
computer-mediated
communication
(comunicação mediada
por computador), ou
simplesmente CMC, que
excluiu durante muito
tempo as redes do
contexto dos mass
media.
Na
Europa, as pesquisas
relativas à
comunicação através de
redes de computadores
concentraram-se em
estudos ao redor do
conceito de telemática,
designação concebida
para este tipo de
comunicação em função
de utilizar conjuntamente
recursos de
telecomunicações e
informática. NORA (1995)
define o termo
telemática como sendo o
tratamento automático da
informação à
distância. A palavra é
sobretudo utilizada na
França para designar os
serviços da rede
Minitel, como mostram
Feenberg (1992), que
rastreou o sucesso do
Teletel, do Minitel e do
sistema de videotexto na
França, e Thomas; Miles
(1989), ao descreveram o
desenvolvimento da
telemática no Reino
unido.
Na
linha da CMC, desde a
década de 70 são
realizadas pesquisas
sobre o elemento humano
nas comunicações
através dos
computadores, enfatizando
os aspectos sociais e
psicológicos. Assim são
os estudos de Kling;
Gerson (1977), Johansen
(1977), Hiltz; Turoff
(1978), Kiesler; Siegel;
McGuire (1984), Chesebro
(1985), Feenberg (1989),
Kiesler (1986), RAFAELI
(1986) e (1988), SWIFT
(1989), Lea; Spears
(1991a) e (1991b), e
Matheson (1991).
Concomitantemente, foram
construídas reflexões
que englobam teoria e
conceituação da CMC ,
realizadas por Rice
(1989) e (1992), Hacker;
Monge (1988), Johnston
(1989), Mccreary (1990),
Kuehn (1990), e do
computador, lideradas por
Mowshowitz (1981), Turkle
(1982) e Hirschheim
(1985).
Pesquisas
realizadas por SPROULL;
KIESLER (1991), WALTHER
(1992), OGAN (1993),
RHEIINGOLD (1994) e
CHEUNG (1996), mesmo não
enfocando necessariamente
a Internet na totalidade
como se conhece hoje,
pois as aplicações mais
comuns até pouco tempo
eram o e-mail e
newsgroups, e tratando
exclusivamente da
comunicação
interpessoal ou de grupo,
demonstram que a linha
tradicional da CMC
continuou sendo forte nas
décadas de 90. Porém,
DENNIS; GALLUPE (1993)
observam que o momento
mais marcante do viés da
CMC parece ter sido mesmo
a fase correspondente ao
período acadêmico do
desenvolvimento da rede,
que compreende mais ou
menos as décadas de 70 e
80. Durante esse tempo,
uma representativa parte
dos estudos estava
relacionada ao potencial
das redes para os campos
da educação e da
biblioteconomia.
Reflexões
sobre aspectos da
linguagem e da retórica
na CMC são encontradas
nos textos de Murray
(1991), ao descrever a
constituição do
processo de conversação
no computador, SHANK
(1993), que argumenta que
a comunicação na rede
não é oral ou escrita
mas semiótica, DECEMBER
(1993a), que compara o
discurso em redes nos
serviços de Usenet e
newsgroups com as
características de
oralidade definidas por
ONG. Mais tarde, DECEMBER
(1994) discute e analisa
as estratégias que os
comunicadores (usuários) podem
usar para trocar
informação em redes de
computadores, incluindo
considerações da
natureza da
distribuição de meio,
acesso à informação,
práticas e contextos
sociais. Recentemente,
DOWNES (1996), ao abordar
a Internet, investigou a
retórica do ciberespaço
e conclui que se trata de
um conjunto de
estratégias narrativas
que resultam na
promoção das novas
tecnologias de
comunicação.
1.1.1
CMC e Internet: a
importância dos aspectos
técnicos da rede
Para
que se possa avançar na
compreensão da Internet
no campo de estudos do computer-mediated
communication, alerta
DECEMBER (1996), é
preciso apreender os
princípios do
funcionamento das redes.
Neste aspecto, apesar da
Internet estar se
transformando na rede de
maior importância sob
todos os ângulos, ela
não compreende a
totalidade dos estudos
possíveis neste campo.
Redes e serviços nos
moldes da America
Online, Microsoft
Network, Prodigy
e Delphi, entre
outras, são da mesma
forma suscetíveis de
experimentarem análises
e pesquisas utilizando
esta abordagem.
Do
ponto de vista
estritamente técnico, a
Internet comporta um
conjunto de protocolos
que possibilita, em
princípio, a
comunicação de dados.
Protocolo é um conjunto
de regras para troca de
informações. Redes de
computadores usam
protocolos para habilitar
computadores e
conectá-los para enviar
e receber mensagens. O
conjunto de protocolos
chamado TCP/IP (Transmission
Control Protocol/Internet
Protocol) define
as regras para a troca de
dados na Internet. Este
conjunto de protocolos
integra um conjunto de
serviços (correio
eletrônico,
transferência de
arquivos etc) que pode
ocorrer entre muitos
computadores em redes
locais ou remotas.
O
processo de transporte
dos dados numa rede
baseada em TCP/IP ocorre
da seguinte forma: o TCP
"quebra" os
dados em pacotes da
informação. Depois,
estes pacotes são
enviados para a rede,
possivelmente através de
rotas ou caminhos
diferentes, de acordo com
o IP. Finalmente, estes
pacotes são reagrupados
ao chegarem a seus
destinos. Através de
conexões compartilhadas,
as redes baseadas no
TCP/IP podem estar
conectadas em sistemas
maiores. Organizações e
indivíduos podem possuir
uma rede TCP/IP e
conectá-la a outra
local, regional,
nacional, ou mesmo
global. Sendo um conjunto
de redes integradas, a
Internet compartilha o
protocolo TCP/IP.
Entretanto, ela não é
uma rede individual, mas
uma organização
cooperativa de redes,
globalmente distribuída
como sistema para troca
de informações. Os
dados que a atravessam
formam a comunicação na
Internet.
Enquanto
suporte-máquina, o
computador no contexto da
Internet e do computer-mediated
communication significa
muito mais que
simplesmente um
dispositivo para cálculo
(DECEMBER, 1996). De
fato, a função saliente
do computador não é a
de oferecer capacidade
computacional, mas
oferecer uma plataforma
para as aplicações de software
de sistema operacional e
para suportar
aplicações de
transmissão de dados da
rede para o usuário.
Na
Internet, os
relacionamentos entres
computadores comumente
seguem o modelo de
Cliente/Servidor. Da
mesma maneira que o
protocolo TCP/IP, o
modelo Cliente/Servidor
unifica características
da comunicação na
Internet. Um servidor é
um computador que se
associa a aplicações de
software e que age
como um repositório de
outros softwares,
de arquivos e de
informação. O Servidor
envia estas informação
a pedido através da rede
para usuários do software
Cliente. Do Cliente segue
um conjunto de
protocolos. Estes
protocolos definem a
aplicação particular
que o Servidor e o
Cliente estão usando.
A
forma de distribuição
requisitadas nas
aplicações
Cliente/Servidor permitem
muita eficiência. Desde
que o software
Cliente esteja
interagindo com o
Servidor, de acordo com
dados padrões de troca
entre protocolos, o software
de Cliente pode estar
personalizado pelos
usuários particulares de
computador. Isto
significa que o Servidor
não tem que se
"preocupar"
acerca das
particularidades do software
de sistema operacional ou
do software
Cliente que se encontra
no computador dos
usuários da rede. Da
mesma forma, o software
de Cliente não tem de se
"preocupar" a
respeito do tipo de
Servidor particular ao
qual ele requisita
informação.
Para
DECEMBER (1996), embora a
comunicação de dados
sirva de base para
transmissão de mensagens
em redes de computadores,
o pesquisador de
comunicação, a menos
que esteja envolvido no
exame detalhado técnico
da transmissão de dados,
deve estar preocupado com
a comunicação humana,
isto é, de que maneira
as pessoas se comunicam
na Internet. Entretanto,
a descrição do
conteúdo da
comunicação na Internet
pode se transformar em um
trabalho complexo,
dependendo do tipo de
mídia, pois há a
possibilidade de ser
codificado e decifrado
usando uma variedade de
formas (texto, gráficos,
som, vídeo, arquivo
executável etc.).
A
interpretação destes
artefatos dependem das
metas do pesquisador.
Igualmente, os símbolos
de interesse para o
pesquisador irão variar.
Para exemplificar sua
posição, DECEMBER
(1996) cita a
comunicação na Internet
usando vídeo e áudio
numa conferência em
tempo real com uma
aplicação chamada
CU-See-Me. Esta
aplicação permite aos
participantes transmitir
som e imagens, exibindo
muito mais caracteres
não-verbais e
paralingüísticos não
presentes em aplicações
que comportam somente
texto, a exemplo do
correio eletrônico.
Assim, a comunicação na
Internet pode estar
representada por uma
extensão das
possibilidades para
criação de símbolos, e
algum destes símbolos
podem ser parecidos com
aqueles examinados na
comunicação humana não
mediada por suportes
técnicos.
Fundamentado
nestes princípios,
DECEMBER (1996) conclui
que a Internet no
contexto do computer-mediated
communication envolve
a troca de informações
em nível global,
através de uma
cooperativa de redes
usando o protocolo TCP
/IP e o modelo
Cliente/Servidor para
comunicação de dados.
As mensagens podem
suportar uma extensão
das manipulações de
distribuição, de tempo
e serem codificadas numa
variedade de tipos de
mídia. O conteúdo
resultante da troca de
informações pode
envolver uma larga
extensão de pessoas e de
símbolos usados para a
comunicação. Sua
definição, portanto,
captura essencialmente
qualidades da tecnologia
para que pesquisadores
possam usar esta
estrutura como base,
identificando outros
fatores de unidades para
pesquisa em particular.
1.1.2
Da CMC para os Mass Media
Com
a emergência da Internet
como rede mundial de
caráter comercial, e
acima de tudo após o
aparecimento da WWW,
outras possibilidades de
estudo começaram a se
abrir, além das linhas
tradicionais da CMC.
Tentativas de associá-la
teoricamente aos modelos
de comunicação de massa
tradicionais, antes quase
inexistentes, tornaram-se
são mais freqüentes.
Enfocando a comunicação
tecnológica no contexto
das mudanças
organizacionais, Markus
(1990) já alertava para
alguns aspectos da teoria
de massa que poderiam se
adequar à mídia
interativa, numa
referência direta às
redes de computadores.
MORRIS; OGAN (1996)
aplicaram essa tese para
a Internet, argumentando
que as novas tecnologias
de comunicação oferecem
a oportunidade de
repensar os conceitos e
idéias sobre os
tradicionais mass
media, enfocando a
audiência de massa e a
mediação tecnológica.
A
razão para esse
imperativo estaria
pautada em dois pontos.
Inicialmente, porque a
Internet utiliza o modelo
de envio e recepção de
mensagens que caracteriza
o modelo tradicional de
comunicação de massa,
às vezes ressaltando
estes modelos, às vezes
colocando-os em
configurações
completamente novas. O
outro fundamento seria o
irreversível processo
dinâmico das
tecnologias, que se
modificam e se
transformam a todo
instante. Para acompanhar
tais modificações, as
teorias e categorias da
comunicação de massa
devem ser flexíveis.
Trata-se
de um problema conceitual
e teórico. O maior
desafio para
solucioná-lo, de acordo
com MORRIS; OGAN (1996),
é redefinir a própria
divisão do estudo da
comunicação e de suas
categorias. O apoio a
esta determinação está
ancorado na opinião de
Cathcart; Gumpert, quando
afirmam estarem
inteiramente convencidos
que a divisão
tradicional do estudo da
comunicação em
interpessoal, de grupo e
público, e de massa é
inadequada porque ignora
a o caráter difuso e
dinâmico da mídia.
Analisando
comparativamente diversos
serviços da Internet com
os media
tradicionais, MORRIS;
OGAN (1996) chegam a
formatar um quadro
resumido da possibilidade
de classificar a rede
mundial de computadores
como um meio de
comunicação de massa:
Cada
um destes serviços
específicos da Internet
[newsgroups, e-mail,
chat, WWW] pode ser
visualizado por nós como
estações específicas
de televisão, pequenos
jornais de cidade, ou
revistas de interesses
especiais. Nenhum destes
meios pode alcançar uma
audiência estritamente
de massa, mas
conjuntamente com todas
as outras estações,
jornais e revistas,
constituem categorias de
mídias de massa. Assim a
própria Internet seria
considerada um meio de
massa, enquanto os sites
individuais e serviços
são os componentes que
compreendem estes meios.
DECEMBER
(1996) também nota que a
Internet fornece um uma
série de ferramentas
para as pessoas usarem na
recuperação de
informações e
comunicação individual,
grupal e de massa.
Contudo, o diferencial
mais significativo entre
as mídias tradicionais e
as redes de computadores
do tipo da Internet
talvez esteja centrado na
possibilidade desta
última produzir
experiências
interativas, criando
novas configurações
entre fontes, mensagens e
receptores dessas novas
tecnologias digitais de
comunicação. Segundo
NORA (1995, 333),
interatividade é o:
(...)
tipo de relação que faz
com que o comportamento
de um sistema modifique o
comportamento do outro.
Por extensão, um
equipamento ou um
programa é interativo
quando seu utilizador lhe
pode modificar os
comportamentos ou
desenvolvimento. Enquanto
o software informático e
os jogos de vídeo são,
por construção,
interactivos, os
programas audiovisuais e
os filmes clássicos
implicam um comportamento
passivo do utilizador.
MORRIS;
OGAN (1996) recorrem a
Rafaeli quando assinalam
que o conceito de
interatividade assumiu
uma atribuição natural
para a comunicação
interpessoal, mas ele vem
sendo recentemente
aplicado para toda nova
mídia, das redes de cabo
à Internet. Na
perspectiva de Rafaeli, a
definição de
interatividade deve
reconhecer três níveis
apropriados:
comunicação não
interativa, comunicação
reativa (ou quase
interativa) e a
comunicação
completamente interativa.
Tal concepção é capaz
de se aplicar em diversas
situações de
comunicação, da
interpessoal à de massa.
Por sua vez, Kuehn (1990)
acredita que as teorias
da CMC em si já são
suficientes para explicar
de que forma o contato
com as novas tecnologias
de comunicação podem
alterar a interação de
usuários de redes.
MORAES (1997, 38-39)
comenta que as altas
tecnologias, das quais a
Internet faz parte,
"tenderiam a
alicerçar uma
transição no âmbito
informativo, com a
possibilidade de
ambientes midiáticos
(forjados numa relação
de mão única entre
emissor e receptor)
cederem espaços a
ambientes interativos
(propícios a uma maior
participação do
público)".
Como
explica PALÁCIOS (1995):
(...)
a telemática está, pela
primeira vez, fazendo a
junção entre
comunicação massiva e
interatividade. Há até
pouco tempo atrás, a
dissociação entre
massivo e interativo era
clara, no âmbito da
comunicação. Uma coisa
ou outra. O telefone é
interativo, mas não
massivo, na medida em que
é apenas uma extensão
tecnológica de um
diálogo entre dois
interlocutores; a
televisão, o rádio, as
mídias impressas etc.,
são massivas, porém
não interativas. A
comunicação telemática
é massiva e interativa.
PALÁCIOS
(1995) vê a questão da
interatividade sob o
ângulo do progresso dos
próprios meios
tradicionais:
Nas
abordagens que
predominaram na chamada
Teoria da Comunicação,
nas últimas décadas, a
mídia sempre foi acusada
de reduzir os indivíduos
a situações passivas,
tornando-os isolados, sem
iniciativa, rompendo com
a vida relacional,
atrofiando o gosto pela
troca e pela conversa.
Se
tais acusações e seus
pretensos efeitos já
eram discutíveis, com as
novas formas de
comunicação e com a
interatividade nelas
embutidas, perdem-se os
últimos argumentos a
favor de tais críticas.
Inclusive é fácil
perceber-se que até
mesmo as formas
tradicionais dos mídia,
como o jornal ou a
revista, adquirem uma
dimensão de
interatividade, quando
transportados para o novo
meio eletrônico.
Na
realidade, apesar de não
se poder afirmar com
precisão que esta seja a
conceituação adequada
para a Internet, pode-se
arriscar defini-la em seu
atual estágio como um
meio de massa
multifacetado, baseado na
troca de mensagens
através de redes globais
de computadores, e que
contempla em seu processo
de comunicação
diferentes traços de
modelos comunicacionais.
Sua forma variada exibe
conexões entre
comunicação
interpessoal,
comunicação grupal e
comunicação de massa,
salientando
possibilidades de
interatividade entre os
usuários.
Em
função da amplitude
destas características,
é possível ainda
argumentar que a Internet
deva ser compreendida sob
outro prisma,
delineando-a como um
ambiente comunicacional
multimídia, termo ao
qual se referem PALÁCIOS
(1996) e MANTA (1997).
Primeiro por ser
concebida fora do modelo
de rede única, e sim de
um agrupamento de
sub-redes, que
constituiriam o suporte
ou o ambiente
tecnológico da Internet.
E depois, a própria
diversidade de códigos
utilizados na troca de
mensagens (textual,
visual e sonoro),
denominada por GONÇALVES
(1996) de síntese
discursiva, somada às
potencialidades
tecnológicas, remetem à
idéia de multimídia.
1.1.3
Predominância do
jornalismo
A
despeito das discussões
sobre o enquadramento ou
não da Internet no
conceito de comunicação
de massa, presencia-se o
surgimento de reflexões
que tratam das
experiências de produtos
de comunicação na
Internet. Em sua maioria,
as pesquisas mais
avançadas estão
relacionadas às
mudanças que a Internet
tem causado no
jornalismo,
principalmente nos
Estados Unidos, onde o
primeiro periódico a
utilizar a rede foi San
Jose Mercuy, em 1993.
GONÇALVES (1996, 3)
explica que, em sua etapa
preliminar, "a
transposição da
produção jornalística
para Internet estava
resumida aos serviços de
notícias personalizadas,
autodenominadas de
"notícias em tempo
real, oferecidos pelos
servidores como a American
Online".
A
razão do predomínio de
trabalhos acadêmicos
sobre temas do
jornalismo, explica-se
primordialmente pelo
grande potencial da
Internet para a difusão
de mensagens textuais e
fotos atualizadas
instantaneamente. Depois,
pelas limitações na
estrutura de
telecomunicações que
prejudicam a transmissão
de sons e imagens em
grande escala, impedindo
experiências mais
ousadas com produtos
audiovisuais. Outro
agravante é o dissenso
entre as empresas que
desenvolvem softwares
em relação a padrões
de produção,
transmissão e recepção
de sons e imagens em
tempo real.
Os
passos iniciais do
jornalismo na Internet
americana estão
retratados nos textos de
Dizard (1994), Gordon
(1995), Reddick; Elliot
(1995) e Hickey (1995)
que chamam a atenção
para as potencialidades
da rede como instrumento
de apoio para os órgãos
de imprensa. Outro estudo
foi realizado por
Cameron; Curtin (1996),
relatando os aspectos
históricos do
desenvolvimento dos
jornais on line
desde a década de 80 e
analisando suas formas
para discutir os impactos
das primeiras versões
eletrônicas disponíveis
na rede no futuro das
empresas jornalísticas.
A
partir da segunda metade
da década de 90, com a
popularização da rede e
o rápido crescimento do
número de jornais que
passaram a disponibilizar
edições eletrônicas no
ciberespaço, são
iniciadas tentativas de
pesquisadores
latino-americanos no
sentido de compreender o
fenômeno do jornalismo
na Internet. MANTA (1996)
analisou as versões on
line de quatro
jornais brasileiros e
notou que, apesar dos
empresários do setor
jornalístico terem
descoberto "que os
melhores serviços
levarão vantagem na
disputa pela
audiência", os
produtos até então
disponíveis conservavam
a maioria das
características do
modelo impresso.
Associando
a constatação de MANTA
às conclusões de MORFIN
(1997), realizador de um
estudo acerca das
motivações, formas e
alcance dos jornais
digitais na América
Latina, as razões dessa
transposição do modelo
impresso para o digital
podem se explicadas em
virtude da
experimentação e da
constante incorporação
de novas tecnologias na
Internet, o que dificulta
a existência de um
modelo sólido de
jornalismo on line.
Para MORFIN, desse
ambiente de constante
experimentação e
mudanças surgem dezenas
de publicações, cuja
diversidade é refletida
no estilo, no conteúdo,
nas inovações
tecnológicas, na
cobertura e nos recursos
disponíveis por cada
empresa jornalística.
Do
ponto de vista
conceitual, nas
abordagens do fenômeno
do jornalismo na rede,
freqüentemente tem-se
adotado a terminologia
"jornalismo
digital" ou
"jornalismo
eletrônico" para
designar a atividade
jornalística
desempenhada
institucionalmente no
ambiente da Internet.
Gonçalves (1996, 1) diz
ser necessário que se
faça uma distinção
entre jornalismo enquanto
modo específico de
conhecimento da realidade
e os serviços
informativos
disponibilizados na
Internet, tomando cuidado
sobretudo com o emprego
do termo on line,
freqüentemente usado na
denominação de jornais
e revistas encontrados na
rede.
Numa
definição sumária o
jornalismo digital
envolve toda a produção
discursiva que recorte a
realidade pelo viés da
singularidade dos
eventos, que tenha como
suporte de circulação a
Internet, o que demarca
suas particularidades em
relação aos demais
serviços informativos,
sem qualquer natureza
jornalística como o
viva-voz, oferecidos aos
usuários da Internet
(...) Na tradução
literal online quer dizer
em tempo real. Além da
complexa discussão que o
conceito implica - até
pode ser admitido em
jornalismo, caso tempo
real seja sinônimo de
tempo de produção da
notícia e não do
acontecimento, o que são
variáveis distintas,
cremos que o termo online
se distancia do novo
formato jornalístico, a
tecnologia digital.
Dentre
os inúmeros benefícios
resultantes da relação
entre Internet e
jornalismo, nota-se que a
descoberta deste novo
campo oferece a
oportunidade de colocar
em prática pela primeira
vez mecanismos de
interatividade e oferece
alternativas reais de
participação do
público no processo de
transformação do fato
em notícia
(LAPHAM,1995). Em um
depoimento concedido a
AGUIAR (1996), PALÁCIOS
destaca as vantagens da
jornalismo digital em
relação aos suportes
tradicionais:
Trata-se
de um jornalismo
multimídia que usa como
suporte as redes
informáticas e que tem
como característica
essencial o fato de ser
massivo e interativo,
simultaneamente, ao
contrário da TV, que é
massiva mas não
interativa, ou do
telefone, que é
interativo porém não
massivo. Outra importante
característica do J.D.
[jornal digital], que o
distingue do jornalismo
tradicional, é o fato de
que as notícias, neste
novo formato, não são
"circuladas"
mas sim
"disponibilizadas".
Isso implica que tem que
haver um "movimento
ativo" do consumidor
potencial em acessar
aquela informação.
Some-se a tudo isso a
característica da
personalização (o
consumidor pode
"formatar" seu
jornal de acordo com seus
interesses e
preferências) e teremos
um perfil básico do J.D.
Além
de considerar que os
problemas específicos da
atividade jornalística
na Internet são de
extrema importância, a
constatação de que em
1997 existem mais de
2.560 jornais online no
mundo, dos quais uma
parcela significativa é
responsabilidade de
empresas brasileiras,
levanta uma série de
indagações sobre o que
passa a representar essa
mídia no conjunto das
indústrias que atuam no
setor. Afinal, a Internet
é um organismo
descentralizado e, por
estar em processo de
formação e crescimento,
abre caminho não somente
para a atuação de
instituições
tradicionalmente
envolvidas com produtos
de mídia, mas contribui
para o aparecimento de
novos atores, com
habilidades e
competência para
explorar suas
oportunidades. O debate
sobre o futuro do
jornalismo é apenas mais
um passo de uma
discussão muito mais
complexa e ampla sobre as
relações entre mídia e
Internet, incluindo todas
as implicações
referentes a forma e
conteúdo, que começam
com o jornalismo, passam
pelo rádio, telelvisão,
publicidade e culminam em
produtos e serviços
interativos oferecidos
através das novas
tecnologias de
informação.
1.2
Tendências da Mídia nos
Anos 90 e a Internet
Dada
estas características, e
por envolver uma gama de
processos vinculados com
a produção, seleção,
armazenamento,
transmissão,
distribuição e consumo
de mensagens em escala
mundial, acredita-se que
a Internet apresenta,
entre outras possíveis
associações e
vinculações teóricas
já vistas, um forte
relacionamento com uma
área bastante definida
dos estudos da
Comunicação, o da
comunicação
internacional, que
abrange aspectos
relevantes como o
desenvolvimento das
indústrias de mídia,
processos de
globalização e novas
tecnologias de
comunicação/informação.
Tal aproximação torna
possível uma visão
global do fenômeno e
proporciona uma melhor
compreensão de suas
implicações e
influências nos
ambientes locais e
regionais, pois as
ações resultantes dos
processos midiáticos
ocorrem em tempos e
espaços determinados. No
horizonte da
comunicação
internacional, as ações
são historicamente
orquestradas por
instituições, sejam de
caráter público ou
privado, a exemplo das
empresas de mídia, o que
concede à Internet mais
um motivo para firmar-se
como objeto a ser
considerado neste campo
de estudos.
A
tentativa de visualizar
com clareza o fenômeno
da Internet dentro desta
perspectiva da
comunicação
internacional passa
necessariamente pela
identificação dos
processos que resultaram
na construção do perfil
do mercado e das
indústrias de mídia
neste final de século.
Não é novidade para
ninguém que o
extraordinário
desenvolvimento
experimentado pelos meios
de comunicação a partir
do século XIX
transformou a vida de
nações, pessoas e
instituições em todo
planeta. Muito menos
tem-se dúvida de que se
trata de um negócio
altamente rentável sob
todos os aspectos de sua
cadeia produtiva. Porém,
em meio ao aumento de sua
capacidade de produção,
seleção, armazenamento,
transmissão,
distribuição e consumo
de mensagens, o conjunto
destes meios foi
gradativamente se
constituindo em um
instrumento de vital
importância para a
própria sobrevivência
do capitalismo moderno.
Considerada
um mercado estratégico e
essencial para o pleno
desenvolvimento dos mais
variados setores da
economia, desempenhando
funções de mecanismo de
transporte de
informações, dados e
difundindo práticas
socioculturais, a mídia
tornou-se uma atividade
multifacetada. Em
função do avanço das
novas tecnologias, seus
tentáculos se expandiram
ao ponto de ignorarem os
limites do que a teoria
da comunicação
convencionou chamar de
comunicação de massa.
Na década de 90,
incorporando
equipamentos, produtos e
serviços de outros
setores (entretenimento,
telecomunicações e
informática), as
indústrias de mídia
redefinem seus objetivos,
metas e multiplicam suas
possibilidades de
atuação.
1.2.1
Da concentração à
desregulamentação
Os
novos atores que lideram
a guinada da mídia rumo
ao alargamento dos
horizontes são, em sua
maioria, grandes empresas
transnacionais sediadas
nos centros financeiros
mundiais, com interesses
econômicos
diversificados, às quais
DREIFUSS (1997, 168)
chama de corporações
estratégicas,
"orientadas por
matrizes científicas e
por corações
tecnológicos". Na
realidade, este processo
de mudanças no ambiente
do mercado de mídia faz
parte de um complexo de
transformações que vêm
ocorrendo nas bases da
produção material, com
reflexos em todos os
setores da vida da
sociedade ocidental,
denominado pela
literatura corrente de
globalização.
A
despeito da freqüente
generalização, DREIFUSS
(1996) argumenta que tais
transformações abrangem
três processos distintos
e essencialmente
diferentes, sendo a
globalização apenas um
deles. Neste caso,
ter-se-ia a
globalização, permeando
aspectos da tecnologia,
economia e comércio; a
mundialização, que
envolve aspectos do
social, de estilos, usos
e costumes; e a
planetarização, dando
conta do espaço
político-institucional,
militar e de gestão. Com
certeza, o discernimento
necessário para esses
três termos leva uma
melhor compreensão da
importância das
corporações
estratégicas que atuam
no campo da mídia, pois
suas investidas e
estratégias de
consolidação e
expansão afetam e são
afetadas por todos estes
processos-fenômenos
concomitantemente.
Cada
um dos três
processos-fenômenos
pertencentes às
transformações
transnacionalizantes
desempenha funções
específicas em cada
setor determinado da vida
da sociedade. Observadas
sob a perspectiva dos
mercados de mídia,
globalização,
mundialização e
planetarização
representam a síntese de
uma realidade em
construção há algum
tempo. Uma realidade cada
vez mais baseada em
atividades midiáticas
sem fronteiras,
estimulada pela ação
irrefutável da
tecnologia, determinada
por investimentos
privados e legitimada
pelo Estado.
O
que Dreifuss chama
genericamente de
corporações
estratégicas, no campo
da mídia tem sido
normalmente classificado
por outros autores de
grupos ou conglomerados
de comunicação e/ou
mídia (BARNOUW, 1997)
e/ou multimídia (MIGUEL,
1993; LA BAUME E
BERTALUS, 1995). Em
virtude do grande
destaque e da
importância que seus
conglomerados adquirem na
vida política e
econômica dos países
onde atuam, os
proprietários desses
impérios de
comunicação aparecem na
literatura especializada
como "Barões da
Imprensa",
"Moguls" ou
"Barões do
Céu".
O
termo
"multimídia"
proposto por MIGUEL
(1993) e BERTALUS; LA
BAUME (1994) não é
apenas uma alusão às
novas tecnologias, que
tanto seduzem empresas e
consumidores de bens
simbólicos. É acima de
tudo um conceito através
do qual torna-se
possível identificar o
caráter integrado das
corporações que hoje
dominam a mídia no
planeta: multimídia em
oposição à monomídia.
Este recurso conceitual
permite compreender
melhor grupos do porte de
Time-Warner, Disney e
Microsoft, de
abrangência planetária,
e ainda conglomerados
nacionais como o Grupo
Folha.
THOMPSON
(1995) descreve quatro
características no
mercado de mídia que
contribuem para a
formação destes
conglomerados. São elas:
a crescente
concentração das
indústrias do setor,
diversificação,
globalização e a
tendência para a
desregulamentação. Para
ele, concentração é o
conjunto de
circunstâncias que leva
a acumulação dos meios
de produção nas mãos
de um número
relativamente reduzido de
grandes corporações,
tendência essa
verificada nas
indústrias de mídia e
em diversos campos da
atividade econômica. Já
diversificação
representa o processo
pelo qual corporações
da mídia expandem seu
eixo de atuação,
incorporando companhias
do mesmo campo ou
investindo volumes de
capital em novos
desenvolvimentos.
Globalização abarcaria
o caráter transnacional
da atividades de mídia,
exportação, produção
de bens para o mercado
internacional e difusão
de informação e
comunicação. Por sua
vez, a
desregulamentação
engloba o conjunto de
ações dos governos para
modificar as
legislações restritivas
às atividades de mídia,
impedindo a
competitividade dos
mercados.
Na
perspectiva de MIGUEL
(1993, 96-97),
estruturada na Economia
das Comunicações, estes
fenômenos estão
diretamente ligados às
formas de crescimento
adotadas pelas empresas
capitalistas no mundo da
mídia, que podem ser
classificadas
fundamentalmente como
crescimento interno e
externo. O vetor interno
corresponde à criação
de novas capacidades
econômicas e de
distribuição a partir
do desenvolvimento das
potencialidades internas
da empresa. Por sua vez,
o crescimento externo é
caracterizado mediante a
fusão, a absorção,
participação em outras
empresas e formação de
alianças. A diferença
em relação ao
crescimento interno é
que não se criam novas
potencialidades mas se
adquirem outras já
existentes. "O
crescimento externo se
define como aquele
processo mediante ao qual
uma unidade econômica
cresce através da
aquisição da
propriedade e do controle
da capacidade de
produção de outras
unidades preexistentes
que estão em
funcionamento".
Quanto
à direção do
crescimento, MIGUEL
(1993, 99-100) assinala
que a escolha pode ser
feita entre horizontal,
vertical, conglomeral e
concêntrica. O
crescimento horizontal se
caracteriza por reforçar
o poder das unidades
situadas dentro de um
mesmo ramo. O crescimento
vertical, chamado também
de integração vertical,
avança no sentido de
controlar unidades
situadas em estágios
anteriores ou posteriores
do processo
econômico-produtivo. A
direção conglomeral é
o crescimento que ocorre
não só fora da campo
mas também fora do
setor. Por fim, a
direção concêntrica,
que se faz apoiando-se em
uma atividade destacada,
"guarda relação
com a idéia de
diversificação
multimídia. Com este
termo, quer-se indicar a
direção de crescimento
dentro de um setor, mas
inter-ramos, buscando
explorar algum tipo de
sinergia". O autor
ainda alerta para a
estreita relação entre
os termos concentração
e centralização. Se por
concentração entende-se
o processo ou resultado
de processo pelo qual um
determinado conjunto
tende a aumentar suas
dimensões relativas e
absolutas nele presente,
a centralização implica
no aumento de poder de um
número restrito de
empresas ou grupos em um
determinado mercado.
As
coordenadas que levaram a
mídia a formar um quadro
incomparavelmente
diferente do que se
estava acostumado a
conviver até agora, no
qual os conglomerados ou
grupos multimídia
assumem a liderança,
começaram a ser
traçadas desde o
nascimento das
indústrias de mídia,
sofrendo no decurso fases
de progressão e
contração. Ao descrever
a trajetória das
indústrias de mídia
até os anos 80, THOMPSON
(1995, 236) indica que a
concentração e
diversificação dos
mercados tem seus
antecedentes com a
mudança da base
econômica dos jornais
ingleses no século XIX.
...
os jornais se tornaram
cada vez mais
empreendimentos
comerciais de grande
porte que exigiam
relativamente grandes
quantidades de capital
para começar a se manter
devido à intensa
competição crescente.
Por conseguinte o
tradicional
proprietário-comunicador,
que possuía um ou dois
jornais como um negócio
familiar, deu lugar, de
forma sempre crescente,
ao desenvolvimento de
organizações de grande
porte de muitos jornais e
muitos meios.
A
concentração da mídia
no decorrer do século XX
esteve estreitamente
atrelada à
diversificação. Ao
analisar as políticas
federais de
comunicações e as
políticas de propriedade
diversificadas nos
Estados Unidos, entre
1977 e 1993, WILSO (1994)
identificou um forte
relacionamento entre a
legislação americana e
o crescimento da
concentração dos meios
de comunicação nas
mãos de uma minoria de
empresas do setor. Na
Europa, PEREZ LATRE
(1993), ao retratar o
setor publicitário,
enfocou o alto grau de
concentração do mercado
publicitário europeu na
década de 90.
Não
obstante o que se chama
hodiernamente de
globalização na
comunicação seja uma
peculiaridade atribuída
ao desenrolar dos fatos
nas últimas três
décadas, THOMPSON (1995,
239) localiza suas
origens no século XVI,
com o comércio de livros
entre os países
europeus, e mais tarde no
século XIX, com o
aparecimento das
primeiras agências
internacionais de
notícias.
As
primeiras folhas
noticiosas e jornais
estiveram sempre
interessados com a
transmissão da
informação de um centro
comercial a outro; até
certo ponto, eles
transportavam a
informação através dos
limites que foram se
configurando com o
surgimento do sistema de
estado-nação no início
da Europa moderna. Mas o
fluxo internacional da
comunicação assumiu uma
nova forma institucional
no curso do século XIX:
foram criadas as
agências noticiosas dos
principais centros
comerciais da Europa, e
essas agências se
tornaram cada vez
responsáveis pelo
suprimento de
informação estrangeira
para os clientes de
jornais.
O
domínio exercido pelas
quatro grandes agências
de notícias logo ao fim
da Segunda Guerra
Mundial, Reuters
(Inglaterra), AP (Estados
Unidos), UPI (Estados
Unidos) e AFP (França),
despertou o interesse dos
pesquisadores para a
questão do fluxo de
internacional da
informação e da
comunicação, com grande
ênfase ao aspecto
cultural desse fenômeno.
Um dos primeiros estudos
foi realizado em 1967 com
14 periódicos
latino-americanos e
descobriu que 73% do
noticiário internacional
era dominado pelas
agências americanas AP e
UPI. Outra pesquisa mais
abrangente, realizada
pelo Ciespal, agora em
toda a América Latina,
detectou que este número
chegava a 93% quando
incluía-se a AFP. Desde
então, uma série de
outros estudos foram
desenvolvidos nos anos
seguintes, em várias
partes do mundo,
denunciando a enorme
desigualdade no fluxo de
informação entre os
países desenvolvidos e
subdesenvolvidos.
A
discussão sobre o fluxo
seria agravada no início
da década de 70, com a
publicação de uma
pesquisa sobre as
tendências
internacionais da
estrutura e dos canais de
circulação dos
programas de televisão,
realizada pelos
pesquisadores finlandeses
Kaarle Nordenstreng e
Tapio Varis , entre 1971
e 1973. Encontra-se aí,
a preocupação com um
segundo aspecto da
globalização da mídia,
o qual THOMPSON (1995)
denomina de o crescente
papel das exportações e
da produção de bens da
mídia para o mercado
internacional. Mais
adiante, diversas
pesquisas comprovariam
esta tendência nos
demais produtos
audiovisuais, que,
juntamente com os
levantamentos sobre o
fluxo informativo,
serviram de pano de fundo
para as discussões sobre
o imperialismo cultural.
Quanto
aos debates sobre a
amplitude da
globalização das
indústrias de mídia,
eles estão, de certa
forma porém não
exclusivamente, mais
explícitos em pesquisas
sobre a guinada
transnacional da
televisão. ZHA (1995)
pesquisou o
relacionamento entre as
redes (broadcasting)
transnacionais e a mídia
asiática, com destaque o
impacto da globalização
da mídia nas redes
locais da China.
GUREVITCH (1994) fez um
estudo comparativo da
globalização das
televisões americanas,
britânica, israelense,
alemã e francesa,
enfocando a questão da
audiência dos
noticiários televisivos.
Dentro
do conjunto das
indústrias de mídia, a
atividade publicitária
obtém razoável destaque
no contexto da
globalização. GUO
(1995) discute algumas
implicações do
desenvolvimento das
organizações
transnacionais da mídia
na publicidade e no
marketing, trabalhando as
dimensões do global e o
regional nos produtos de
comunicação. Além
deste estudo, KIM (1995)
abordou a globalização
da indústria de
publicidade na Corea,
examinando a expansão
das agências
transnacionais no mercado
coreano, principalmente
as originárias dos
Estados Unidos. Apesar
desta tendência de
enfocar a globalização
sob um ponto de vista de
cada mercado de mídia
separadamente, obras mais
abrangentes, que
pretendem apreendê-la em
sua complexidade, são
cada vez mais
freqüentes, como LA
BAUME; BERTOLUS (1995) e
BARNOUW (1997),
relacionando-a com
setores de
entretenimento,
telecomunicações e
informática.
Certamente,
dentre as
características
levantadas por Thompson,
a desregulamentação dos
mercados é o elemento
mais recente. Mesmo
assim, pode-se considerar
que antecede e muito o
atual estágio.
"Embora os
monopólios estatais na
difusão fossem rompidos
em alguns países
europeus bem cedo, o
termo
desregulamentação
é usado,
costumeiramente, para se
referir a uma série de
iniciativas políticas
que caracterizam muitas
sociedades ocidentais nas
décadas de 70 e 80"
(THOMPSON, 1995, 265).
Seguindo
as trilhas de Thompson e
Dreifuss, MORAES (1997)
afirma que as
transformações ora em
andamento no mercado de
mídia inserem-se no
painel geral de forte
concentração de
comandos estratégicos de
megamercados e de
mundialização de
conteúdos, bens e
serviços, facilitada,
sobremaneira pela
desregulamentação. REED
(1994) chama atenção
para o movimento de
mundialização ao
relatar que, com a
aceleração da
desregulamentação e o
desenvolvimento da
tecnologia, os
conglomerados de mídia
pretendem conseguir
modificar a vida das
pessoas fornecendo
conteúdos diversificados
e em quantidades
extraordinárias.
A
tendência de fazer
associações entre
concentração,
diversificação,
globalização e
desregulamentação dos
setores de mídia têm se
acentuado nas últimas
décadas em todas as
partes do planeta. Nos
Estados Unidos, por
exemplo, MONTANYE (1996)
e HAGINS (1996) discutem
as recentes
modificações na
política nacional de
telecomunicações como
um sustentáculo para a
formação de uma nova
infra-estrutura de
informação, a qual
elimina as distinções
convencionais entre as
mídias e modifica o
papel do governo e das
empresas nas tomadas de
decisão em relação ao
funcionamento do mercado.
1.2.2
O processo de
convergência: o papel da
Internet
Todas
as movimentações
presenciadas e
registradas no mercado
apontam para a
incorporação de uma
nova característica das
indústrias de mídia: a
convergência. Numa
velocidade antes
inimaginável,
testemunha-se a
dissolução das
fronteiras entre as
atividades de
comunicação,
informática,
entretenimento e
telecomunicações. No
ambiente planetário da
economia globalizada e de
cultura mundializada, o
avanço das tecnologias
de mídia/informação
propiciam ao campo da
mídia um dinamismo
absolutamente sem
precedentes.
O
salto que proporcionou a
integração das mais
diversas formas e
modalidades de mídia com
a indústria do
entretenimento, das
telecomunicações e da
informática está
condensada numa só
palavra: bits.
Abreviação do termo Digital
Binary (dígito
binário), os bits
representam hoje o que a
palavra escrita
representou durante
séculos para a
humanidade (NEGROPONTE,
1995). Não por acaso o
termo "digital"
é tão comum no
cotidiano de pessoas e
instituições. Os
horizontes do mercado
digital se expandem de
tal forma que sua
associação exclusiva
com os computadores
pessoais passa a ser cada
vez menos freqüente.
MORAES (1997) acredita
que a convergência dos
artefatos que compõem os
sistemas técnicos de
transmissão baseados em
linguagens digitais
(satélite, computador,
fax, modem, telefonia
celular, telefonia comum,
microondas, cabos de
fibras ópticas, banco de
dados eletrônicos, pagers,
videofones etc) efetivam
a comunicação à
distância e estimulam
ousadas estratégias
mercadológicas e
práticas
comunicacionais.
Para
os conglomerados
multimídia, as
potencialidades geradas
pelas linguagens digitais
significam bem mais do
que apenas uma boa
oportunidade de expandir
lucros e ampliar a faixa
de consumidores. LA
BAUME; BERTOLUS (1995) e
NORA (1995) demonstram
através de analises
histórico-descritivas a
importância estratégica
das linguagens digitais
para os mercados de
mídia, entretenimento,
telecomunicações e
informática e evidenciam
que as grandes empresas
do setor já descobriram
que o seu desenvolvimento
(digital) está ligado à
própria sobrevivência
no mercado. Quase a mesma
conclusão a que chegou
NEGROPONTE (1995), ao
projetar sua visão
futurista do que chamou
de "vida
digital".
O
posicionamento de
DREIFUSS (1997) coincide
com as posições
anteriores, chamando a
atenção para o detalhe
da convergência
propiciar uma elevação
do nível dos movimentos
globais dos conglomerados
de mídia:
(...)
a convergência da
tecnologia de
telecomunicações e do infotainment
[interface das
indústrias de
comunicação e do
entretenimento] - outro
sustentáculo da
mundialização -
estimula mais um processo
globalizante de
alianças, associações
e fusões, que se
organizam em torno de um
leque de circunstâncias
sinérgicas e
de fatores estruturantes
básicos, incluindo a
possibilidade de embutir
a competência crucial de
uma empresa numa rede de
corporações, de
sistemas e de produtos.
(DREIFUSS, 1997, 199)
Para
ele, as redes de
computadores desempenham
um papel fundamental no
conjunto das
transformações em
curso.
A
mundialização se
realiza também por vias
de macrosistemas de
infotelecom [interface
entre informática,
telecomunicações e
comunicação], cada vez
mais diversificados em
instrumental e
complexificados,
permitindo a difusão
instantânea da
informação (atuação
transnacional de mídia
visual e transmissão e
disseminação cultural
transfronteiras em tempo
real), potencializada
pelas diversas redes
comerciais e de pesquisa
- incluindo os operadores
de redes de compra,
consultas, notícias,
entretenimento,
intercâmbio social e
acadêmico (DREIFUSS,
1997, 207).
Na
visão de MORAES (1997),
a convergência instaura
uma nova ordem
comunicacional na
interseção de dois
vetores, que salientam o
papel da Internet na
construção do painel da
mídia moderna. Um é a
contínua absorção,
pelos grandes
conglomerados, de
dispositivos de última
geração, interligados
em redes e geradores de
informações on line
e/ou em tempo real de
amplíssimo alcance. O
segundo é o ciberespaço
como um âmbito
desterritorializado de
bases cooperativas, de
trocas interativas e de
acessos instantâneos e
uma multiplicidade
infinita de saberes.
Localizada
exatamente na
encruzilhada dos caminhos
que levam à
convergência digital da
comunicação,
entretenimento e
telecomunicações e
informática, a Internet
representa a antevisão
do que o vice-presidente
americano Al Gore chamou
de Superestrada da
Informação ou Information
Superhighway (LA
BAUME; BERTOLUS, 1995;
REED, 1994; NEGROPONTE,
1995). O passo inicial
para realizar este sonho
foi dado com a
apresentação, em 1993,
da nova lei de
telecomunicações dos
Estados Unidos, "The
National Information
Infrastruture (II)",
aprovada em 1997. A lei
contém os princípios
básicos que determinam a
construção da
superestrada.
Como
assinalam LA BAUME;
BERTOLUS (1995), Al Gore
acredita que ano 2000 a
integração destes
setores representará o
principal produto de
exportação do seu país
e sobretudo a primeira
indústria do mundo. Ken
AULETTA (1997),
jornalista americano
especializado em
indústrias de mídia,
interpreta a importância
da Information
Superhighway do ponto
de vista dos
conglomerados, propondo a
instauração de um novo
conceito: o de highwaymen,
o qual teria origem
devido a agressividade
estratégica dos grandes
conglomerados multimídia
e principalmente dos
homens os comandam.
Se
depender dos highwaymen,
o sonho de Gore não
está longe de se
transformar em realidade.
A Internet certamente
está na linha de frente
da construção das
superestradas. Muito mais
do que possibilitar a
comunicação entre
milhões de pessoas ao
redor do planeta, a
Internet como protótipo
da superestrada, começa
a ser vista pelo complexo
de empresas multimídia
sob o prisma de um
mercado de projeções
extremamente positivas.
Isto
explica por que
institutos de pesquisa
especializados em novas
mídias como International
Data Corporation, Forrester
Research e Jupter
Communications
realizam estudos de
maneira tão constante
objetivando mensurar a
capacidade destes
mercados. O que não
ocorre com tanta
freqüência no campo
acadêmico, onde o volume
de estudos a esse
respeito é muito
reduzido, quase sempre
disperso em tentativas
como a de Mings e White
(1997), da Universidade
de Latrobe, na
Austrália, que estudaram
as estratégias de
obtenção de receitas
dos sites de informação
na Internet.
Próximo
capítulo
Notas
Ong,
W. J. (1982). Orality and
Literacy: The
Technologizing of the
Word. New Accents Series.
London: Methuen.
Software
de videoconferência que
permite ao usuário ver e
ouvir outros usuários na
Internet, e em alguns
casos, digitar mensagens,
desenhar em um quadro e
compartilhar aplicativos.
Foi desenvolvido
originalmente pela
Universidade Cornell, que
o distribui como
freeware, mas a empresa
White Pine disponibiliza
uma versão comercial,
chamada "Enhanced
CU-See-Me".
Cathcart,
R.; Gumpert, G. Mediated
interpersonal
communication: Toward a
new typology.
Quarterly Journal of
Speech, 1983. p. 267-268.
RAFAELI,
S. Interactivity; From
new media to
communication. In R.
Hawkins et al. (Eds.), Advancing
communication science:
Merging mass and
interpersonal processes
(16). Newbury Park, CA,
Sage, 1988. p. 110-134.
Como
uma espécie de
contraste, a mesma
fascinação que as
aplicações audiovisuais
causam na comunicação
interpessoal ou de grupo
através da Internet,
reverte-se em
frustração quando se
trata de broadcasting
na rede.
De
forma geral, as
discussões sobre
jornalismo digital e
serviços on line
tem como marco histórico
o desenvolvimento dos
sistemas de
distribuição
eletrônica de notícias,
iniciando com a
tecnologia de videotexto
criado na Inglaterra, em
1974.
EDITOR
& PUBLISHER
INTERACTIVE. Editor
& Publisher's
database directory of the
world's online
newspapers, 21 de
novembro de 1997
<http://www.mediainfo.com/ephome/npaper/nphtm/online.htm>
(26/11/97).
Em
razão do caráter
incipiente do capitalismo
no caso do comércio
livros, e até da
escassez de dados da
época, considera-se mais
relevante o surgimento
das agências de
notícias como ponto de
referência da origem dos
processos globalizantes
no campo da
comunicação, pois
desemboca em um sistema
global de espaços
transnacionais para a
coleta e divulgação de
notícias.
DIAZ
RANGEL, Eleazar. Pueblos
Subinformados; las
agências de notícias y
América Latina.
Cuadernos de Nuestro
Tiempo, Caracas, Num. 3
1967. p.1-82.
CIESPAL.
Dos Semanas en la
prensa de América Latina.
Ciespal, Quito, 1967.
NORDENSTRENG, Kaarle e
VARIS, Tapio. Inventário
Internacional da
estrutura dos programas
de televisão e
circulação
internacional de
programas, 1974.
Sobre
o imperialismo cultural
ver SChiller, H. Mass
Communication and America
Empire. New York,
Augustus M. Kelly, 1969;
Boyd-Barret, Oliver. Media
Imperialism; Towards an
International Framework
for the Analysis of Media
System". In
Curran, James; Gurevitch,
Michael; Woollacott,
Janet (eds.). Mass
Communication Society.
Londres, Edward Arnold,
1977. p.116-135.
O
processo de
desregulamentação na
Inglaterra ocorreu na
década de 50.
|