
PCLA - Volume 3 - número 1: outubro
/ novembro / dezembro 2001
FÓRUNS, POLÍTICA E VIRTUALIDADE NO HORIZONTE DA COMUNICAÇÃO
Ada
Cristina Machado SILVEIRA
(Universidade Federal
de Santa Maria - RS, Brasil)
Mídia e virtualidade - uma nova política
Esfera pública e esfera privada nos
meios de comunicação
A democracia e a esfera social
Resumo
A conexão entre real e virtual propõe interações cujas inovadoras características, aliadas ao advento da sociedade da informação, pretendem produzir novas formas de comunicação. Trata-se de um processo que também implica numa nova forma de fazer política, ou numa crescente especialização das açães políticas, com o aperfeiçoamento das atividades de jornalismo, relações públicas e marketing político. O artigo reflete sobre a questão de se a expansão destas novas posibilidades técnicas implicará em mais democracia.
Os fóruns
virtuais, possibilitados pela difusão tecnológica de redes telemáticas, estão pondo em
questão os fundamentos da democracia. Este artigo sistematiza opiniões de diferentes
teóricos de distintas procedências (Tomás Maldonado, Phillipe Quéau e Armand
Mattelart), aprofundando o aspecto referente à atualização do debate sobre a esfera
pública (desde J. Habermas e seus críticos, J. B.Thompson e N. Garnham), chamando a
atenção para a rejeição à colonização do mundo da vida pelos imperativos
sistêmicos e sua prevalência sobre fórmulas advindas do poder econômico e
administrativo, em detrimento dos preceitos comunicativos.
Ao
deslocar a espacialidade do debate consagrado pela mídia, ao difundir aparatos
tecnológicos de mediação e participação, até então historicamente congregados nas
praças públicas e depois nos meios de comunicação, surge a indagação se a
expansão destas novas possibilidades técnicas implicará em mais democracia. Para
tentar direcionar uma reflexão sobre tal tema, desenvolvem-se algumas reflexões sobre a
democracia e os processos de comunicação virtual. Nossa reflexão começa com a teoria
sobre espaço público e espaço privado; desenvolvemos nossa argumentação tratando de
algumas características do fórum virtual e a esfera pública e finalizamos apontando
algumas possibilidades utópicas vislumbradas no horizonte facilitado pelas novas
tecnologias.
Mídia e virtualidade - uma nova política
A conexão
entre real e virtual propõe interações de características inovadoras que, aliadas ao
advento da sociedade da informação, pretendem produzir novas formas de comunicação.[1] Trata-se de um processo
que também implica numa nova forma de fazer política, ou numa crescente especialização
das açães políticas, com o aperfeiçoamento das atividades de jornalismo, relações
públicas e marketing político.
Isto ocorre porque, como argumenta
Quéau ( 1995:51): Mientras que las técnicas clásicas de representación nos
sitúan delante de pantallas, las técnicas virtuales nos sumergen en la imagen y nos
permiten movernos, actuar y trabajar en este universo de síntesis. Quéau fundamenta a nova comunicação proporcionada pela
emergência da realidade virtual e sua linguagem não em termos essencialistas, senão
pelo uso social que seu potencial produz, como o deflagrado pela estruturação das
comunidades virtuais, entendidas como comunidades de leitura ou de escritura. O
compromisso coletivo que estes novos grupos sociais abarcam se estabelece desde suas
escrituras virtuais e permite pôr em comum sinais privilegiados de reconhecimento para
facilitar a constituição de um corpo social, resolvendo, na medida do possível, suas
contradições. O ubíquo e metafórico poder das técnicas de digitalização e de
simulação permitirá às escrituras
virtuais desempenhar o papel de argamassa social, de vínculo. Quéau
extasia-se com a possibilidade de que as novas comunidades virtuais possam implementar a
utopia de uma comunicação que promova a união e a coesão. Ainda que surjam dúvidas
sobre a efetiva direção que o uso da digitalização poderá tomar na sociedade, ele
afirma acreditar que as tecnologias da virtualidade podem facilitar-nos a tarefa de
comunicar-nos. As vantagens da comunicação por esta nova via serão as de poupar-nos os
rodeios do real suprimiendo el peso de los temores y atenuando la rigidez de las
costumbres ligadas a la materialidad de los entornos reales.
Em um contexto que começa a produzir a junção entre esfera
pública e âmbito privado, vale perguntar se os fóruns virtuais possibilitariam um novo
espaço no qual as condições originais da democracia novamente se plasmariam.
Os cafés, tabernas, pubs e clubes de Londres e Paris
aparecem como os sucedâneos modernos da
antiga Grécia. No contexto da revolução industrial, a imprensa estaria ocupada de
estimular e fixar conteúdos estabelecidos nos clubes e cafés, numa produção
informativa e opinativa entretecida neste círculo de debate. Desde esta referencia
histórica, as comunidades virtuais, as redes, os chats, os cibercafés, os grupos
de discussão, ou simplesmente a vida em conexão repropõem as complexidades
atuais da esfera pública. A atualização das ágoras, zocos e mercados abertos estão providas de recursos
técnicos como o Internet Relay Chat - IRC (conversações contínuas em Internet),
newsgroups - grupos de notícias, os bulletin boards - painéis de
anúncios, os serviços comerciais eletrônicos, publicações eletrônicas, bases de
dados, networks de comunicação, as quais são algumas das tecnologias que
transformam a natureza do crescimento do conhecimento e sua difusão. Produz-se um
deslocamento da consagração pelas vias do massivo em direção às redes eletrônicas e
à criação de comunidades de interesse, locais e globais.
Os fóruns virtuais agudizam as diferenças que a imprensa já
havia estabelecido com outros meios de comunicação que lhe são posteriores, como o
cinema, a rádio ou a televisão. O fato de não prescindir da interação face a face,
característica de todos eles, é reapresentado agora, com a possibilidade técnica de seu
retorno sob o amparo da mediação dos simulacros.[2]
Trata-se de um retorno que avança sobre condições anteriores
de des-espacialização e não-diálogo. O que vem a dar sustenção a várias
indagações como, por exemplo, se será possível revogar as relações face a face no
debate político (Cf. Maldonado, 1998), ou ainda se as chamadas novas mídias seriam
apenas um recondicionamento das antigas.
Um fórum virtual, como a mercantilização da ágora, enfrenta
a despolitização dos conteúdos e suas decisões, num contexto de desigualdade de
intercâmbio de fluxos de comunicação. Cabe indagar se com tal se estaria promovendo a
inserção de novos atores nos fóruns e se, efetivamente, isto vai representar uma vacina
contra o temor dos totalitarismos ou autoritarismos políticos.
Em nosso continente americano existe um elemento comum e
distinto da Europa que é a condição de aqui haver algumas sociedades, como a
brasileira, que se estruturam debaixo de um regime do estado colonial. Nelas, os meios de
comunicação passaram a deter um poder de impacto estruturante na vida social e
política. Existe, portanto, uma característica constitutiva na vida social e política
atribuída aos meios que não costuma ser aceita com facilidade nas sociedades do Velho
Mundo. Decorre desta realidade, ademais, a importância da divisão entre esfera pública
e privada para os estudos de comunicação e as atividades profissionais, as quais não
podem mais ser analisadas como distanciadas destas categorias.
Esfera pública e esfera privada nos meios de
comunicação
Uma posição crítica a considerar no tema da modernização
das relações de comunicação midiáticas é a de J.B. Thompson (1995). Chamamos
atenção especialmente para sua referência a Jürgen Habermas quando este sustenta a
importância da imprensa na esfera pública tendo em conta sua participação nos contatos
face a face. Como diz
Thompson: la transformación estructural de Habermas ofrece la narración
histórica de las formas cambiantes de la vida pública. O aparecimento da esfera burguesa teria fomentado o âmbito de
intercâmbio de preferências e opiniões num contexto efêmero e artificial,
influenciado decisivamente pela indústria cultural [3] É o que Thompson denomina de
concepção dialógica da esfera pública habermasiana. Uma outra característica sua
estaria na busca do consenso racional, aspecto fortemente desconsiderado por outros
teóricos, inclusive os mais favoráveis a Habermas. Este seria o cariz fundamental da
esfera pública com base concreta na Londres do século XVIII, depois confirmada por Baker
(apud Calhoun, 1992), com respeito a Paris.
Entretanto, Thompson desacredita a possibilidade de analisar o
atual contexto de redes mundiais sob o amparo da obra de Habermas, ainda que há mais de
trinta anos sua interpretação de tais fenômenos se tenha fixado em termos fundamentais
para o debate. Thompson
(1995) afirma que: No obstante, no
llegaremos a una comprensión satisfactoria de la naturaleza de la vida pública en el
mundo moderno si permanecermos presos a una concepción de la publicidade (publicness)
de caráter esencialmente dialógico y que nos fuerza a interpretar el papel cresciente de
la comunicación mediada como una especie de desgracia histórica(Thompson,
1995:95).
Um outro britânico, Nicholas Garnham (1992), assinalaria como
grande virtude de Habermas o recurso de enfocar o nexo indissolúvel entre as
instituições e práticas de comunicação pública por via massiva e as instituições e
práticas de política democrática, enquanto a maioria dos estudos sobre os meios
massivos está centrada simplesmente no desempenho dos próprios meios, num enfoque um
tanto autorreferente e circular. Ainda assim, a crítica de Garnham à proposição de
Habermas fixa-se na consideração de que o segundo descuidaria a importância do
desenvolvimento contemporâneo de uma esfera pública plebéia ao lado e em oposição à
esfera pública burguesa, uma esfera que estaria construída sobre diferentes formas
institucionais, conforme costumam ser as uniões comerciais e com base em interesses
econômicos diferentes, ou as formas de solidariedade para além do individualismo
competitivo.
Incide sobre este ponto a análise de Garnham que, ao estudar a
proposta de Habermas, aponta o desenvolvimento técnico da comunicação e afirma ser
legitimável a intenção de aperfeiçoar as formas de comunicação massivas e promover o
retorno de aspectos da comunicação interpessoal que, se considerados a partir da
proposição da esfera pública, podem vir a ser entendidos como libertadores e
desejáveis.
Acredita-se ser pertinente uma tal proposição, baseada na
consideração de que a noção de esfera pública estabelecida por Habermas não estima
importante certas características tidas por próprias dos meios de comunicação e que,
nas suas formas mais expressivas e nas sociedades do continente americano, eles teriam
contribuído a criar.
Ressalvamos, evidentemente, que não se pode atribuir aos
fóruns virtuais o impacto estruturante que os meios de comunicação massiva
contribuíram a estabelecer na vida social e política, como ocorre nas sociedades do
continente americano, tanto as do norte como as do sul. Nossa proposição consiste
simplesmente em esboçar alguns pontos sobre os elementos aparentes e, até o momento,
mais salientes com a emergência dos fóruns
virtuais.
Sobre este aspecto, faz-se de grande interesse apontar que
Garnham argumenta que Habermas é descuidado com os aspectos retóricos, jocosos e
lúdicos da ação comunicativa, numa posição que o conduziria a fazer uma distinção
muito brusca entre a informação e a diversão, bem como a negligenciar seus nexos, como
por exemplo, em relação à noção rousseauniana que vincula festivais públicos e
cidadania. Isto pode ser comprovado facilmente entre os recursos que a televisão se
utiliza na sua programação, os quais em sua maioria resguardam um caráter nitidamente
de entretenimento. É este um ponto de particular importância ao pensar-se sobre o papel
dos meios massivos nas democracias contemporânea.[4] O entretenimento é uma
tendência crescente, principalmente com a influência do modelo de televisão orientado
pelo mercado, em contraponto ao modelo de serviço público, muito usual na Europa[5]
A democracia e a esfera social
No Ocidente, considera-se que desde os gregos já se estabelecia
a correspondência entre o privado e o familiar. A correspondência entre o político e o
público estava estruturada em suas cidades-estado. A delimitação entre esfera pública
e privada, entre eles, portanto, era nítida e tácita[6] Entretanto, quando Hannah
Arendt (1993) recompõe a historicidade da identificação entre as esferas, ela assinala
o surgimento de uma esfera social.
Na sociedade medieval, argumenta Arendt, deu-se o fortalecimento
de uma esfera social, que não é nem privada, nem pública. Como se
constituiu esta esfera?
Arendt a identifica como fruto de um profundo mal-entendido,
cujas origens estariam em Santo Tomás e a comparação que estabelece ele entre o governo
familiar e o político, à diferença dos gregos, onde a natural companhia dos homens era
considerada como um fato natural e, portanto, não político. A concepção grega se devia
a que a convivência entre os homens em família estava estabelecida pela necessidade, e
não pela liberdade; a liberdade era uma aspiração de todo homem que desejava viver
entre pares e não estar submetido à necessidade da vida, expressa na enfermidade e no
jugo a alguém. Na esfera pública conviveriam os homens livres e nela o discurso
significou parte expressiva da ação política, excluindo-se a violência em favor do uso
da persuasão, específica forma humana de contestação[7]
Arendt alerta que a confusão entre estas duas esferas é maior
no emprego de seus conceitos na sociedade moderna; as duas estariam mais próximas e isto
não seria uma descoberta de Marx, senão anterior a ele, proveniente dos economistas
políticos da Idade Moderna.
O que nos importa reter do debate é que, frente a uma
concepção de comunicação proveniente dos países anglo-saxões, talvez a questão
esteja em que o uso do termo social, no lugar de massivo, propõe uma
inserção das práticas de comunicação de forma a reconhecer a pertinência do nível
social como o protagonista destas práticas. Já
a acepção massivo, propondo práticas de comunicação como fruto da cultura
de massas, faria subsumir as características interpessoais, as articulações entre
grupos sociais primários e secundários e entre os públicos. Estas práticas de
comunicação ficariam suspensas ou desconsideradas com a adoção da denominação mass
communication [8]
Foi nesta mesma linha de Arendt que Habermas (1981) estabeleceu
a diferenciação entre a esfera privada e pública. Frente ao poder público do Estado
apresentaria-se a esfera privada, subdividida entre o âmbito íntimo da família e as
relações econômicas e de trabalho social. E seria no contexto das relações
econômicas e de trabalho social que se incluiriam as práticas habitualmente atribuídas
aos meios de comunicação de massas. Portanto, tais meios, suas atividades específicas,
seus públicos e a interação social que deles se origina, tudo seria parte
constitutiva da esfera pública contemporânea [9]
Recuperando a indagação que nos orienta neste artigo, a qual
diz respeito às características dos espaços público e privado no contexto específico
dos mundos virtuais, onde a percepção de nós mesmos, nossa personalidade privada, e o
uso público que dela se fará, reconfiguram-se sob condições de controle muito mais
precárias do que tivemos até hoje [10]
Na teoria crítica se tomava a noção de contexto como restrito
a certos grupos e à comunicação profissional, baseada na concepção de serviço
público e como entretecida, fundamentalmente, nos intercâmbios face a face. Se é
efetivada a proposição habermasiana de desintegração da esfera pública, o uso das
técnicas de comunicação se insere como uma nova concepção da política em si. Na
sociedade e cultura de massa, a comunicação política, matizada por estas novas
práticas de aproximação de seus públicos está desintegrada ou descentrada de seu eixo
pela ação alienante da atividade publicitária (advertising). Os organismos sociais não
mais compreendem sua articulação com a sociedade sem a intervenção profissional de uma
comunicação voltada para o mercado. Para os fins da comunicação política, se afirma a
pergunta se o uso dessas técnicas aprofunda o distanciamento e a complexidade vigentes
ou, pelo contrário, os diminui. É precisamente tentando esclarecer aspectos vinculados a
este enquadre que se faz notar a potencialidade das chamadas novas tecnologias de
comunicação. Ou seja, desde uma crescente mercantilização dos processos e técnicas de
comunicação, estruturadores da chamada sociedade da informação.
As conseqüências deste novo patamar de comunicação,
inobstante, conduzem a uma grande incerteza. O simulacro produzido, suas imagens
inéditas, combinando a numerização com as representações antigas, quiçá venham a
proporcionar-nos novas percepções da realidade. Daí, proporcionam-se novos direitos e
deveres, novas formas de marginalidade e criminalidade. Os vírus, o vandalismo nas redes,
as ameaças encadeadas são novos desafios que exigirão uma proposta ética específica.
Alguns como P. Quéau argumentam que os mundos virtuais são ferramentas de
representação revolucionárias, enquanto outros, como Tomás Maldonado, o que se faz
pode ser uma confirmação do caminho para a alienação do homem, com uma comunicação
sem rosto, escondida atrás de aparatos eletrônicos.
O
principal risco antecipado por Quéau está na possibilidade de que o deslocamento físico
das comunidades virtuais produza a perda do precioso senso comum que até agora tem
orientado a vida social [11] É um cenário que tem
sempre a lembrança do totalitarismo, uma reação à sociedade de massas do capitalismo
monopolista que construiu o nacionalismo como expressão da convergência no
estado-nação.
Em suma, o problema está em como construir sistemas de responsabilidade democrática integrados com os sistemas de meios que ocupem o mesmo espaço e sobre quais decisões econômicas ou políticas incidirão. Se o impacto é universal, então o nível político e os sistemas midiáticos devem ter alcance universal. Neste sentido, uma série de esferas públicas autônomas não é suficiente e se acusa a possibilidade de uma esfera pública unificada, ainda quando utopicamente pudéssemos concebê-la constituída de uma série de esferas públicas subsidiárias, organizadas ao redor de sua estrutura política própria, seu sistema de meios e o conjunto de normas e interesses.
ARENDT,
Hannah. La condición humana. Barcelona: Paidós, 1993.
GARNHAM,
Nicholas. The
media and the public sphere, in Habermas and the Public Sphere, Craig
CALHOUN (ed.), Cambrdige: MIT, 1992. p. 359-376.
HABERMAS, Jürgen. Historia y crítica de la opinión pública.
La transformación estructural de la vida pública. 4ª. ed. Barcelona: Gustavo Gili, 1981.
_____ Mudança estrutural da esfera pública. Investigaçäo a cerca de uma categoria burguesa.
Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1982.
MALDONADO, Tomás. Crítica de la
razón informática. Barcelona: Paidós, 1998.
MATTELART, Armand. Los nuevos
escenarios de la comunicación internacional, Barcelona: Centre de Investigació de la
Comunicació, 1994.
QUÉAU, Phillipe. Lo virtual. Virtudes
y vértigos. Barcelona: Paidós, 1995.
THOMPSON, John B.The media and the
modernity. Cambridge: Polity, 1995.
Notas
[3]A esfera pública burguesa seria composta por um setor privado, representado na sociedade civil, e haveria uma outra esfera, pública e representada no Estado. Na sociedade civil estão localizadas as atividades de intercâmbio de mercadorias e de trabalho social, contendo ainda estritamente o espaço íntimo da família. O Estado estaria num outro extremo, com seu poder de polícia e com a aristocracia da corte. É na intermediação entre o setor privado e o público que se situaria a esfera pública política e a esfera pública literária, com seus clubes, imprensa e mercado de bens culturais. Esclarecemos que não nos ocupamos aqui de aplicar aos fóruns virtuais a rejeitada tese de refeudalização da esfera pública, proposta por J. Habermas no contexto de desestruturação da esfera pública burguesa.
[4]Neste contexto também se mostra valiosa a concepção de Habermas, pois escapa da simples dicotomia de livre mercado versus controle estatal, esquema dominante nos estudos sobre política de meios. Habermas distingue a esfera pública desde ambos os níveis, estado e mercado.
[5]Com as transformações e a emergência da sociedade da informação, a globalização da economia e a mundialização da cultura desagrega-se a unidade que possibilitava a manutenção do estado-nação. As estruturas do nacionalismo recompõem-se num tribalismo que não se assenta no estado. As representações nacionalistas reconvertem-se desde as comunidades ou tribos, intermediárias entre o indivíduo e o estado. O conceito de indivíduo como detentor de subjetividade, o propulsor antagônico nas formas capitalistas anteriores, artífice do Iluminismo, está em crise e é quando lhe sobrevêm as comunidades.
[6]Os dois parâmetros da democracia ateniense apresentavam-se desta forma: a politike techne - a arte do juízo político - a qual supõe todos membros de uma mesma comunidade, e a isegoria - o direito igual para todos de falar numa assembléia.
[7] A diferenciação entre esfera pública e privada se dilui nos romanos e é absorvida pelo conceito de societas. A societas é uma esfera que compreende da mesma maneira tanto o pater familias como a atividade do estado. A atuação política passa a absorver também a esfera privada, não sendo, portanto, essencialmente política, mas social.
[8]Muito provavelmente seja um legado da tradição medieval antes referida a estruturação das práticas de comunicação nas línguas neolatinas como comunicação social, enquanto os anglo-saxônicos a denominam communication o mass communication. Foi a Igreja Católica que consagrou o termino propaganda, no Concílio de Trento de 1622, no sentido de propagare, ou difundir seus preceitos religiosos. Daí provém a tradição de empreender ações, num conjunto de esforços intensificados e direcionados para a promoção de idéias. A concepção de comunicação social contemporânea nos países de línguas neolatinas teria sido, portanto, concebida nesta tradição proveniente do contexto das ações da Igreja Católica.
[9] Adverte-se para o equívoco freqüente de tomar ao conjunto de ações referido anteriormente como sendo, ele sozinho, a esfera pública. Segundo Habermas (1978), o material de pesquisas de opinião realizadas empiricamente não se qualificaria já por si próprio como sendo uma expressão direta da opinião pública. Quaisquer opiniões de grupos populacionais não podem conduzir imediatamente a reflexões, decisões ou medidas politicamente relevantes. Habermas coloca-se contra ao que chama de ficção do direito público e a dissolução sócio-psicológica do conceito produzida pela psicologia social. Um meio mais fidedigno, para este autor, estaria na verificação empírica da opinião pública num sentido comparativo dos seus três sistemas (público, não público e quase público).
[10]Armand Mattelart (1994) historia alguns momentos fundamentais na constituição do que geralmente quer dizer globalização. Ele faz notar que, desde a perspectiva que efetivamente reconhece a formação de um market place global, surge ao mesmo tempo em que as novas tecnologias intensificam transformações no campo da informação e da comunicação. Isso quer dizer que a globalização dos mercados contempla uma forte dose de participação de um modelo empresarial de comunicação, no qual a comunicação é um espaço que se profissionalizou vigorosamente. Entre outras características, foi imposto um modelo empresarial como referência generalizada, em detrimento de outras concepções anteriores, como a que tem os meios de comunicação de massas como um serviço público.
[11]Afirma Quéau (1995: 67): Las comunidades virtuales van a trastocar nuestras nociones de vecindad; los vecindarios simbólicos y virtuales irán sustituyendo cada vez más a los vecindarios geográficos reales, basados en la proximidad física. El concepto de visibilidad dejará de obedecer a la lógica de un centro controlando lo que merece ser visto por el espectador, como era el caso con los medios de comunicación del pasado, la televisión, sobre todo. [....] Se darán imágenes de sí más abundantes, mejor ajustadas, pero también más abstractas, menos carnales.