Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional

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Carta à redação

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PCLA - Volume 1 - número 4:  julho / agosto / setembro 2000

                                       

 As idéias de“MARIO KAPLÚN:

fenômeno latino da comunicação educativa”

 

Maria de Fátima A . Caracristi
(Universidade Metodista de São Paulo/ Brasil)

 

 “Comunicación es una calle ancha  y abierta que amo transitar” 
(Mario Kaplún - Montevideo -1992)


Principais links

Introdução

Biobibliografia de Mario Kaplún

Comunicador prático

Argentina - Uruguai / 1942-1961

Experiências de Kaplún na televisão

Kaplún: de prático a mestre

Análise sucinta de três obras de Kaplún:
Producción del programas de rádio. El guión la realización

Comunicação entre grupos: El método del cassette-foro

A la educación por la comunicación  - la práctica de la comunicación educativa

A busca de um canal ideal de comunicação

Síntese geral das mais importantes experiências:
Na Venezuela

No Equador

Na Colômbia

Na Bolívia

No Peru

Considerações finais

Bibliografia específica


INTRODUÇÃO                                                                                                                      Pensamento Comunicacional Latinoamericano:uma voz repercutindo no ar

Estamos muito próximos do ano 2000. A era tecnológica que vai zerar os últimos dígitos de todos os computadores do mundo e defrontar o homem cibernético com novos e mais possantes aparatos tecnológicos.

Neste ano, a América estará comemorando 508 anos, mas contrariando a muitas teorias e evidenciando outras, os setores da comunicação e da educação têm sido preponderantes para que o continente, conquistado pela violência e posicionado pertinente em cinco séculos de “realismo mágico” vislumbre um horizonte mais otimista para as gerações futuras.

Consciente da importância das comunicações e da educação nesse processo acelerado de comércio internacional, e ciente das vicissitudes trilhadas pela América Latina nessa caminha rumo ao novo milênio, na tentativa sempre atual de estabelecer-se como continente independente é que a disciplina “Pensamento Comunicacional Latinoamericano”, ministrada pelo professor José Marques de Melo, traz à superfície, da academia, as teorias e as práticas pedagógicas de pensadores do quilate do educador   brasileiro, Paulo Freire; o pioneirismo do venezuelano,  Antonio Pasquali; a polifonia do mexicano, Jorge González, o pensamento sistêmico de Luís Beltrão e estratégico de Ramiro Beltrán bem como o mediacional de Martin Barbero e daquele que valeu este trabalho, o pensamento participacional de “Mario Kaplún”

Nesses estudos, onde foram reavaliados os registros históricos que culminaram com o atual pensamento comunicacional Latino Americano, a Universidade Metodista, a partir do curso de Doutorado em Comunicação Social, estabelece uma matriz de conhecimento, que embora não tenha a intenção de varrer os domínios coloniais tradicionais dos anos 80, reestabelece gestos em direção aos interesses do Terceiro Mundo, estimulando a consciência de uma nova ordem mundial que, tendo como base a sociedade global, acena com perspectivas futuras otimistas para a América Latina e para os estudos de Comunicação e Educação no Brasil, uma voz propagando pensamentos no ar.

A partir dai, poderemos traçar pontes com outros segmentos e vislumbrar um conjunto de conceitos que nos permita decifrar não a realidade mágica, proposta por Garcia Márquez, mas num conceito menos gnosiológico, estruturando razões, para definirmos as noções que fundamentam a educação popular e as propostas de uma educação comunicativa.

O avanço do continente latino em direção de maior liberdade, justiça e eqüidade, embora sempre movido pela utopia não vai, agora, diante do apogeu linear que estabeleceu-se nas sociedades, após a queda do muro de Berlim, seja através de perspectivas culturais, política ou ideológicas sucumbir, é o que acena a disciplina “Pensamento comunicacional Latinoamericano” traduz à luz da modernidade, através da fala de todos esses pensadores e como buscarei introduzir, agora, divulgando o realce da comunicação grupal, popular e emancipadora de Mário Kaplún.

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Biobibliografia de Mario Kaplún

Mario Kaplún nasceu em Buenos Aires, Argentina em 1923. Cursou o magistério mas nunca chegou a exercer a profissão, como professor primário ou do ensino básico. Um pouco antes de graduar-se descobriu outra maneira de, segundo ele, “fazer educação”: através dos meios de comunicação.

A partir dessa descoberta a vida de Kaplún mudou sensivelmente. De início, abandonou os estudos superiores em Filosofia e Psicologia e deixa bem claro que naquela época, início dos anos 40, não existia em Buenos Aires, nem na América Latina, segundo depoimento do próprio autor, numa pequena biografia escrita a pedido do amigo José Marques de Melo, cursos universitários de comunicação: “ los comunicadores nos formábamos en la praxis”.

Aos 21 anos, casou-se com Ana e tiveram três filhos, um argentino e dois uruguaios. Um deles é sociólogo e vive na Espanha, o outro é Geógrafo e vive na Venezuela e o educador e comunicador como o pai, que reside no Uruguai.

Apesar da nacionalidade, Argentina foi no Uruguai que Kaplún iniciou sua metodologia de educação e comunicação, depois, do exílio na Venezuela em meados de 1978.

Para seus amigos, Kaplún tem uma trajetória “polifacética”,  em síntese , o comunicador-educador  é um faz de tudo. Ao longo dos seus 56 anos de profissão, Kaplún pode ser considerado um teórico que preconiza a “praxis”. Foi comunicador prático (rádio, televisão, meios grupais), publicitário, docente, investigador, autor de obras de comunicação, “y unas cuantas cosas más”

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Comunicador prático

Aos 19 anos, no dia 1º de setembro de 1942,  Mario Kaplún põe no ar pela Rádio del Estado (emissora oficial) e a Red Splendid (cadeia privada de cobertura nacional) seu primeiro programa de rádio educativa. “Me llamaron y me invitaron a hacer una prueba. Com la temeridad de mis 18 años, acepté en el acto. Escribí unos guiones piloto y se los lléve. Tan pronto la plana mayor del servicio los leyó, quedé contratado” .

Montar programas de rádio naqueles dias foi para Kaplún uma aventura fascinante, mas a tecnologia usada ainda não punha nas mãos do profissional o gravador de fita magnética, de maneira que as montagens eram feitas  quase que artesanalmente e os programas eram ao vivo. Ao mesmo tempo, Kaplún, também dirigia os atores que ficaram sob a sua responsabilidade.

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Argentina - Uruguai / 1942-1961

Durante três anos a programação educativa foi veiculada até que o governo militar, não mais mostrou interesse pelo serviço e este morreu. “Lástima,  esta fue una época creativa, fecunda en aprendizaje”. 

Em 1951 a Argentina fervia sob o populismo de Perón e Kaplún reconhece que ele era o único jornalista radical e independente que o governo tolerava, mas o comunicador não se rendeu à direção da imprensa e propaganda do peronismo e não converteu-se num escritor mercenário. “Acorralado, opté por emigrar en busca de aires más libres y más dignos”.

Vai para o Uruguai e continua escrevendo e dirigindo programas de rádio, mas a remuneração no ofício não era suficiente para manter a família e então opta pela publicidade, o que foi uma experiência salutar, uma vez que possibilitou ao comunicador, um conhecimento mais detalhado dos meios, de seus modos de produção, da lógica comercial das agências, que foi, posteriormente, refletido na sua metodologia de trabalho.. “Quizá por eso tengo de los medios una visión menos ingenua e idealizadora que algunos colegas investigadores que nunca los han vivido desde adentro”.

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Experiências de Kaplún na televisão

          No ano de 1962 a televisão começa a despontar no Uruguai e Kaplún incursiona no meio através do recém inaugurado Canal 12 de Montevideo. Produzindo e apresentando um programa semanal de opinião: “Mi sala de audiencias”, um formato de programa polêmico, de debates políticos, sociais, com cerca de duas horas.

O programa teve grande êxito, “atribuyo el éxito del programa al hecho de haberlo dotado de una estructura televisual”.

Depois em 1968, Kaplún  mudou com o programa para o canal 10, modificando um pouco a estrutura e dando o nome de “Las dos campanas”.

O ano de 68 foi para o Uruguai um período de grandes convulsões políticas e sociais, o presidente  Pacheco Areco, implantava as medidas antidemocráticas de suspensão das garantias constitucionais, instaurando a censura na imprensa. Fue una especie de pre-dictadura mal disimulada”.

Assim, Kaplún deixa a televisão e retorna ao rádio, onde desenvolveu a maior parte da sua metodologia e da técnica da educação comunicacional.

Através da  fundação européia, Humanum, que organizou um concurso latino americano de projetos de programas de rádio, Kaplún recebe o primeiro prêmio com o programa “Jurado 13” , uma proposta de rádio-educativa para os setores populares.

O êxito do programa “jurado 13” assegurou a Kaplún reconhecer na intimidade os problemas cruciais da América Latina, uma vez que lhe foi possibilitado emitir a programação em série, por dois anos. “Para escribirla, hice, junto com mi compañera Ana, un inolvidable viaje de documentación que comprendió siete países de América Latina. Toqué a fondo la realidad de nuestra América pobre”.

O programa “Jurado 13” foi sem dúvida um grande impulso no método de educação e comunicação proposto por Kaplún, bem como o que mais reconhecimento lhe proporcionou. Foi traduzido em muitas línguas, inclusive o aymara e lhe concedeu o prêmio Mundial UNDA-Sevilla y com este o “Tulipán de Plata” no certame “Kom Over de Brug”, na Holanda, para produções do Terceiro Mundo.

Dentre muitas experiências deixadas pelo programa, duas o autor menciona como elementares: “que es posible hacer radio educativa de una manera atrayente y que llegue a las audiencias populares. Dos: que es más posible  de lo que se cree, penetrar en las emisoras comerciales com un programa educativo e incluso de contenido social crítico si se lo hace de una manera atractiva y com un buen nivel técnico y profesional”.

O programa Jurado 13 foi o que mais recompensa trouxe a Kaplún, foram produzidos um total de cinco séries, compreendendo 200 programas para o Serviço Radiofônico para América Latina (SERPAL) até o exílio na Venezuela, que conduziu o autor por outros caminhos.

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Kaplún: de prático a mestre

Foi no Perú em 1974, a convite de Darcy Ribeiro, que na época dirigia em Lima um programa   das Nações Unidas de apoio ao governo peruano, nos tempos da revolução peruanista de Velasco Alvarado, que Mario Kaplún viveu sua primeira experiência como docente.

“Darcy habia sabido de mí  y me invitó a impartir un curso de radio a nivel nacional para comunicadores de distintos servicios  estatales. ... Alli empecé  a sistematizar una pedagogia de la radio - sus géneros, su lemguaje - que más tarde volqué en mi libro Producción de programas de rádio (Quito:Ciespal, 1978).

Sempre como comunicador, aprimorando e sistematizando uma fórmula de educação através da comunicação, Kaplún expressa no livro “El comunicador popular (Quito: CIESPAL, 1985; 2ª ed. Buenos Aires, Humanitas, 1987) as idéias, metodologias e incursões na teoria e na prática de promover a educação através dos meios de comunicação.

As sementes soltas na Venezuela não tardaram a germinar. Assim é com muito entusiasmo que Kaplún recebe a notícia de que na região andina venezuelana, alguns dos comunicadores formados por ele haviam fundado a Escuela de Comunicadores populares e esta levava o seu nome. “La Escuela de Comunicadores Mario Kaplún  existe, tiene su sede central en la ciudad de Mérida y, por todas las muestras de periódicos populares que desde entonces me llegan cada tanto tiempo, está trabajando a todo vapor”.

Dando prosseguimento ao método de educação foi convidado pelo governo do Quito a desenvolver um trabalho de oficinas de rádio para alunos do curso superior. O mais importante das produções foi a oficina de Produção de Radiodramas para jovens escritores de rádio de toda a América Latina , realizada entre 1983-1984.

Através deste experimento, Kaplún teve possibilidades de inovar em termos metodológicos o que foi posteriormente registrado no livro publicado pelo CIESPAL y pela Rádio Nederland Trainning Centre (RNTC): Um taller de radiodramas: su metodologia, su processo (Quito: 1985).

           Outras atividades também como docentes que foram representativas para o autor são:

a)       Um curso em Recife, Brasil, sobre comunicação rural participativa, realizado em 1979 pela Universidade Federal de Pernambuco dentro do Programa de Mestrado em Comunicação Rural de Pernambuco Social;

b)      A assinatura dentro do Mestrado em Políticas y Planificación de la Comunicación Social Latino Americana na Universidade Central da Venezuela (1981)

c)       O curso sobre Comunicação e Educação para docentes universitários do Valle, Cali, Colombia (1984)

Por volta de 1985 quando regressa à Colômbia foi desafiado a reformular o curso de Ciências da Comunicação, criado pela Universidade Nacional, durante o regime de governo militar. A instituição mantinha um plano de estudos de corte estreitamente funcionalista  e “deplorablemente anacrónico, como cabía esperar de un régimen militar”.

No ano seguinte se inscreveu no concurso  e ingressou na carreira de docente da universidade como cátedro de Pedagogia de la Comunicación Educativa. O autor está convicto da validade da sua proposta, uma vez que  a comunicação aplicada ao campo do ensino, converge em dimensões sociais novas e não convencionais da comunicação. comunicación comunitaria y popular, comunicación para el desarrolo...inlcuimos también educación para los medios”.

Após o exílio, de retorno ao Uruguai, o Consejo de Educación de Adultos de América Latina (CEAAL), convida Kaplún para organizar e coordenar o Programa Latino Americano de Comunicação Popular, onde esteve até o ano de 1988, tendo fundado o boletim Latino Americano de Comunicação Popular.

No ano de 1987 esteve outra vez no Brasil, a convite Centro Pastoral Vergueiro em São Paulo para dirigir uma oficina Nacional de Prensa Popular.

No ano de 1988, organizou em Montevidéo o Encuentro Latinoamericano de MonteVideo 88 sobre “El video en la educación popular”, com participação de videoastas e comunicadores de toda América Latina.

Outras participações como docente são enumeradas pelo autor e dentre elas destacam-se:

a)       Curso de Metodologia Integral de Oficina de Produção (laboratório) , para professores das oficinas de laboratório, a convite do professor Dr. José Marques de Melo, ocorrido na Escola de Comunicações e Artes da universidade de São Paulo em 1987

b)      Curso de laboratório de Radio Participativa para diretores de emissoras em Nicarágua

c)       Seis cursos regionais sobre Rádio e Participação junto com a sua esposa Ana, em Cuba, na ocasião do XII Festival Nacional de la Radio Cubana (1990), com o intuito de problematizar o rígido sistema de comunicação cubano com perspectiva de implementar o “vírus de la participación”.

De toda trajetória de Mario Kaplún podemos extrair dois feitos que foram de importância singular para a comunicação e a Educação: o método da leitura crítica e o método do cassete-foro.

       Essas duas metodologias serão abordadas com mais detalhe a partir da análise de três obras do autor :

1ª obra: Producción de Programas de Radio. El guión - la realización - 1ª ed. Junho - 1978 - Ediciones CIESPAL. 459 p.

2ª obra:Comunicación entre grupos - El Método del Cassete-Foro  - Ottawa, Ont., CIID, 1984. 111 p.

3ª obra: A la educación por la comunicación. La práctica de la comunicación educativa - UNESCO/OREALC, Chile, 1992. 234 p.

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Análise sucinta de três obras de Kaplún

Producción del programas de rádio. El guión la realización

Foi a  partir do curso - oficina implementado em Lima que Mario Kaplún  teve condições de sistematizar uma pedagogia da rádio, identificando seus gêneros e linguagens e que mais tarde veio a ser convertido num livro. A obra tem a finalidade de citar regras lógicas e práticas para roteiros de programas de rádio populares e foi dividida em quatro partes.

           A primeira, especifica a pedagogia através do rádio, mostra o rádio como instrumento de educação popular, detalhando a natureza do meio, a linguagem e os fatores básicos de comunicação.

A segunda parte é técnica e elucida os formatos e a prática desses formatos, a importância dos efeitos sonoros , da música e dos recursos técnicos. Ensina a redigir, selecionar informações, entrevistas e produzir um programa.

A terceira parte é o roteiro propriamente dito. Nele Kaplún enumera os princípios básicos da elaboração de um roteiro, o bate-papo, o tratamento radiofônico, o monólogo, apresentando vários roteiros de radiodramas.

Na quarta parte o livro traduz as maneiras ideais para realização da programação, os processos de produção, musicalização e direção, além da execução propriamente dita.

Nesta obra, Kaplún traduz todo o seu sentimento sobre o meio, enfatiza o papel do rádio no contexto de uma América Latina de alfabetos e analfabetos, pobres e ricos, populações urbanas e rurais mas, principalmente, enfoca o rádio como propulsor e difusor da educação à população que não tem acesso a outros meios.

Kaplún é enfático quando mostra o pensamento central do livro, um manual de produção de programas de rádio que se incorpore, para todos quantos estejam interessados em transformar a radiodifusão em um meio útil e eficaz para a comunidade, a região e o país.

Abrir canais para que possam ser ouvidas as vozes das camadas populares da América Latina, externadas as suas reais necessidades, carências, de maneira que seja revertido o processo de opressão dessa população, usando como arma o rádio é o objetivo central de  Kaplún nesta obra:

“Lo ideal en radio sería lograr, no solamente que hable el pueblo, a travé de sus micrófonos, sino especialmente que deje de ser instrumento de alienación”. [i]

O problema de fundo é perceber que a popularização do rádio é feita sem ser levada em conta os conteúdos, a qual público é dirigido, com influência de quem e para apoio de qual interesse. A constatação de que uma altíssima porcentagem das horas transmitidas estão dedicadas a programas estereotipados, estrangeirizantes,  banais e simplórios, aliado ao esforço dos empresários em produzir suas próprias programações, determinam, segundo o autor, uma política generalizada em favor dos objetivos publicitários e comerciais e de posições doutrinárias e políticas, comprometidas com os interesses criados.

A proposta da obra de Kaplún, que materializa-se no fazer, é exatamente a de encarar o objetivo de, partindo de um conhecimento prévio e global da situação social da América Latina, desde o ponto de vista econômico, político e cultural, usar a radiodifusão para estabelecer trocas, motivar inovações que venham em benefício da comunidade e do seu desenvolvimento.

Vale ressaltar que outros autores  e estudiosos da comunicação como Juan Diaz Bordenave, na América Latina já haviam refletido sobre a tendência do rádio em manter uma programação alienadora. A proposta trazida por Kaplún  vai além, pois identifica o problema e aponta um resultado final. A resposta de Kaplún é contrariar esta programação alienadora, presente nas rádios,  através da produção de programas de boa qualidade técnica que enfoquem os autênticos interesses sociais local e regional.

Kaplún coloca o rádio como um instrumento de educação popular de alto valor. Embora seja uma obra técnica, onde o leitor encontra recursos instrumentais para escrever e produzir bons programas, “Producción de Programas de Radio” traz, ao mesmo tempo uma perspectiva ideológica bem definida, no que toca à situação de dominação e de isolamento das classes populares da América Latina.

Kaplún acena com uma proposta pedagógica ampliada, que procura o domínio das técnicas radiofônicas em função de respostas satisfatórias à educação, especialmente preocupado em propor algo mais que teoria mas estudar soluções viáveis para o contexto de uma América Latina de iletrados.

O rádio é colocado por Kaplún como uma ferramenta útil nas mãos daqueles que, sentindo a comunicação como uma vocação, não vê a rádio somente, como um meio profissional, “sino que la conciben como una promotora de auténtico desarrolo; que piensan que éste, como todo medio de comunicación colectiva, tiene una función social que cumplir, un aporte que hacer frente a las urgentes necesidades de las masas populares de nuestra región”.[ii]

Para sedimentar o arcabouço teórico, o autor recorre a análise da educação tomando como foco conceitos de desenvolvimentos  difundidos pela CEPAL  onde são apontados o número de latino americanos, em torno de cem milhões, terceira parte da população total da região em 1977, que subsistem em condições de pobreza extrema, socialmente inaceitáveis.

Frente a la dramática encrucijada a que está enfrentada América Latina, ya nadie niega la urgente necesidade de incrementar y acelerar el proceso de desarollo integral de nuestro países. Pero muchos planes de desarrolo, acaso bien concebidos desde el punto de vista físico y económico, no han dado y siguen sin dar los resultados apetecidos por no tener debidamente en cuenta “el factor humano”.[iii]

            Seduzido pela idéia de promover a educação através do rádio, Kaplún recorre a teoria de BORDENAVE[iv]que aponta em três as formas de opções educativas:

1.       Educação que põe ênfase nos conteúdos

2.       Educação que põe ênfase nos resultados

3.       educação que põe ênfase no processo

O primeiro tipo de educação, corresponde àquela tradicional, baseada essencialmente na transmissão de conhecimentos e valores de uma geração a outra, do professor ao aluno, da elite à massa. Tende a ser vertical, geralmente autoritária e muitas vezes paternalista. O professor, o instruído, o que sabe, recorre ensinar ao ignorante, ao que não sabe.

Este tipo de educação, segundo o autor foi reconhecido por um dos mais críticos educadores brasileiros, Paulo Freire, como de bancária:

El educador deposita conocimientos en la mente del educando. Se trata de “inculcar”conocimientos, de introducirlos en la memoria del alumno, el que es visto como receptáculo y depositario de informaciones. Repetidamente se há reprochado a la esculea tradicional su tendencia a confundir la suténtica educación com lo cual - se há dicho también - ella informa más que forma”.

O segundo tipo de educação , que põe ênfase nos resultados, é a que mais tem influenciado a comunicação, segundo análise de Kaplún, e  requer uma abordagem mais ampla, uma vez que é a mais utilizada como textos de estudos nos países latinos. “Os estudiantes encuentran, explícita o implicitamenente, los principios rectores de este tipo de educación.”

Kaplún explica que este modelo de educação surgiu na América Latina como uma primeira resposta ao problema de subdesenvolvimento. Se pensava que a solução para a pobreza em que se encontravam nossos países era a “modernização”, isto é a adoção das características e métodos de produção dos países chamadas desenvolvidos.

Era necessário multiplicar aceleradamente a produção e obter um rápido aumento nos índices de produtividade e para isso era imprescindível a introdução de novas e modernas tecnologias. As inovações tecnológicas eram vistas como uma saída para todos os nossos males.

A educação devia servir para potencializar a alcançarmos essas metas. Por exemplo, ela deveria ser aplicada para persuadir aos camponeses “atrasados” a abandonar seus métodos agrícolas primitivos e adotar novas técnicas.

       “Los medios de comunicación debían ser utilizados para instrumentar este cambio y cumplir esta función permanente y penetrante de persuasión. De ahí la importancia que este modelo de desarrollo asignó a las técnicas de comunicación”

Baseados nesta teoria, a comunicação passa a exercer uma função maior, como ilustra Kaplún, passando a ser uma arte de provocar significados e produzir comportamentos, suscitando trocas no pensamento, no sentimento e na ação das pessoas, da mesma maneira que há a intenção de obter das pessoas, um certo tipo de comportamento através da produção e a emissão das mensagens.

A obra aponta para teóricos como David Berlo,  norte americano difusor desses conceitos, segundo Kaplún, bem próximos da teoria dos reflexos condicionados de Pávlov.

Em consonancia com estos preceptos, Berlo recomienda a los comunicadores ofrecer siempre a su público un incentivo, una recompensa en cada mensaje; y una recompensa rápida, prontamente alcanzable. “Estudie qué es lo que puede mover a la acción  a su público”.[v]

Outro aspecto, ainda analisado pelo autor, diz respeito aos reforços de valores mercantis e utilitários, como critério de realização pessoal, êxito material, consumismo e individualismo, “La obtención de ganancias económicas personales como objetivo básico en la vida”...”en cambio, se dejan de lado la actividad cooperativa y los valores solidarios y comunitarios, tan indispensables para un continente subdesarrollado, cuya fuerza se basa en la unión de los débiles”.

A crítica mais relevante é feita quando o autor mostra que o método, não dá atenção ao desenvolvimento da inteligência que é vista, apenas, como uma conseqüência subsidiária. Finalizando o pensamento, Kaplún mostra que nenhum desenvolvimento é possível, se for levado em consideração, apenas o crescimento econômico, sem a participação ativa das pessoas, sem iniciativa da população, sem espírito de luta e sacrifício, livremente assumido, sem a cooperação comunitária, não há como a América Latina se desenvolver.

O terceiro tipo, ou “Educação que põe ênfase no processo”, destaca a importância do processo de transformação das pessoas e das comunidades. Não existe uma preocupação nem na matéria a ser comunicada, nem no resultados em termos de comportamento, mas é levado em conta, a interação dialética entre as pessoas e suas realidades, e o desenvolvimento da capacidade intelectual e da consciência social.

Resumindo o autor pondera que esquematicamente, o primeiro tipo de educação, propõe que o sujeito aprenda e o segundo, que o sujeito faça, e o terceiro, que o sujeito pense.

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Comunicação entre grupos: El método del cassette-foro

O método Cassete-foro é um sistema de comunicação para a promoção comunitária da educação de adultos, posto a serviço de organizações populares, rurais e urbanos, centrais cooperativas e centros de educação popular, desenvolvido por Mario Kaplún em vários países da América Latina.

O modelo, combina a comunicação coletiva com a interpessoal, através das mensagens coletivas gravadas em cassetes que são posteriormente escutados e discutidos por cada integrante dos grupos participantes, que gravam as respostas e considerações, no outro lado da fita e as devolvem ao centro emissor.

A primeira experiência, descrita por Kaplún foi realizada na Organização Cooperativa de Calforu, central agrícola de Montevidéo, mas a metodologia do C-F tomou como forma referencial as experiências de rádios com foruns nascidos na Inglaterra, desenvolvidos no Canadá e aplicados na Índia e em Ghana, como já atestaram autores como Beltrán e Grenholm.

Os Estados Unidos e a França  conhecem a metodologia e na América Latina também, inclusive no Brasil, Argentina, Peru e Venezuela, mas o problema da unilateralidade da comunicação, só foi rompido com a introdução dos cassetes, proposta por Mario Kaplún.

A proposta era que o método de comunicação popular permitisse reduzir o isolamento, a falta de interação entre os grupos rurais divididos por fatores geográficos e limitados pela falta de meio adequados de comunicação.

Para chegar ao Cassete-foro, Kaplún debruça-se sobre os problemas instrumentais da comunicação. Analisando o modelo emissor -receptor, vertical, o autor contesta o efeito da comunicação, mostrando que tal modelo serve apenas para ilustrar o processo de informação, mas não é capaz de atender às exigências da comunicação.

“... Es así como se comunica el jefe com su subordinado, el patrón com el obrero, el oficial com el soldado, el ;rofesor com el alumno, el gobernante com los gobernados, el gran periódico com sus lectores, la radio y la televisión com sus usuarios, la clase dominante com la dominada

Adotando os conceitos de PASQUALI:

“Comunicación es la relación comunitaria humana consistente en la emisión-recepción de mensajes entre interlocutores en estado de total reciprocidad...”

E de BELTRÁN:

“Comunicación es el proceso de interacción social democrática, basado en el intercambio de signos, por cual los seres humanos comparten voluntariamente experiencias bajo condiciones de acceso, diálogo y participación libre igualitarios”

Sobre esta problematização, Kaplún propõe um modelo de comunicação que em lugar de partir do emissor como fonte, parta do destinatário, de suas necessidades e aspirações, e que em lugar de legitimar-se como um hipotético feedback, seja valorizado a “feed-forward” ou prealimentação, num  modelo de comunicação dialogal.

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A la educación por la comunicación  - la práctica de la comunicación educativa                                                                                                                                                                           “Tú me puede enseñar a escribir la palabra arado; yo te puedo enseñar a arar”

           Este exemplo, citado por Kaplún, dito por um camponês a seu alfabetizador traz a  cerne daquilo que ao longo de suas experiências de comunicador-educador  propôs oferecer, em termos educativos aos grupos populares dos vários países latinos.

Mário Kaplún, na obra “Comunicação entre grupos- el método del cassette-foro”, relata a experiência com este sistema de comunicação, idealizado para promover a educação de adultos em organizações populares rurais e urbanas e núcleos cooperados.

Neste livro, Kaplún, expõe, detalhadamente, o método do Cassete-foro e resenha as experiências aplicadas em distintos países latinos.  Kaplún, buscou nas experiências realizadas pelo francês Célestim Frenet., nos anos 20, no Sul da França inspiração, para o projeto, na sua intenção de disseminar com o analfabetismo na América Latina através do uso dos meios de comunicação e de novas tecnologias .

No caso de Frenet, um educador de classes pobres dos Alpes em Bar-sur-Loup, a solução para o problema da falta de retorno dos alunos e da apatia estagnada das classes foi solucionada através do uso de uma mini imprensa manual:

“sencilla, elemental, relativamente barata, manejable por los niños - le lleva a vislumbrar y ensayar una salida: introducir en la clase un medio de comunicación”[vi]

A experiência participativa a partir da inclusão da imprensa na sala de aula, como elemento motriz e estimulador da produção educativa fez-se tão surpreendente que logo outras localidades da França  sentiram a necessidade e a curiosidade de adotar o mecanismo proposto por Frenet.

Em pouco tempo as redações das crianças tomaram dimensões tais de comunicação que transportaram-se para outros horizontes : “los niños montañeses se familiarizaran com el mar, com los barcos, com las redes pesqueras, com los peces y las aves marinas”.

Poucas vezes na história da educação houve uma aprendizagem tão fácil, despertando tanto interesse e entusiasmo dos alunos e dos professores. O resultado da experiência de Frenet possibilitou aos filhos de camponeses e operários, tradicionalmente inseridos no sistema de escola de segunda classe, superar o clássico sistema cultural e desenvolver a sua própria consciência social.

A concepção pedagógica de Frenet, imbuída de uma correlata opção política que inseriu nos seus escritos terminologias como “educação para a classe trabalhadora”, “educação libertadora”; desusada na literatura européia da época e devido a sua busca  de métodos educativos de baixo custo, que puderam ser alcançados pelas escolas pobres serviu de estímulo para Kaplún.

           O autor pensava reproduzir o efeito dado por Frenet na França, nas comunidades isoladas e iletradas da América Latina, e  ainda está tentando através de novos e antigos métodos.

A inspiração adquirida por Frenet tomou uma dimensão tal, que ainda hoje se expande, uma vez que no conceito de uma educação comunicativa, as experiências estão sempre se inovando, Kaplún passou a experimentar trabalhos usando o vídeo.

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A busca de um canal ideal de comunicação

Kaplún, quando redigia o livro “A la educación por la comunicación”, publicado em 92, no Chile vivia as novidades do vídeo e das possibilidades que o equipamento poderia desempenhar , dando força no âmbito da educação a distância e na comunicação educativa.

O autor reconhece, entretanto que as inversões entre as potencialidades do meio e o seu uso, efetivo, são frustrantes. Tomando declaração de Luiz Santoro, na ocasião, presidente da Associação Brasileira de Vídeo no Movimento Popular, Kaplún mostra, que o Brasil foi uma das nações da América Latina que mais subutilizou o equipamento.

Darcy Ribeiro, reconheceu o fenômeno, inicial, do uso indiscriminado do vídeo no Brasil e aponta o país como o “cemitério tecnológico da América Latina”. De qualquer forma, Kaplún aponta algumas experiências  mais orgânicas e completas desenvolvidas na América Latina.

Em Lima a “Asociación de Comunicadores Sociales - “Calandria” - um centro que trabalha acompanhando e apoiando as organizações populares produziu vídeos informativos “Como nosotros”, que pela qualidade comunitária do material produzido e pela execução de uma rede social de distribuição, que assegurou a efetiva circulação e uso, dos mesmos.

Como Nosotros é exemplo de como o uso do vídeo pode contribuir para abrir e ampliar horizontes aos comunicadores-educadores. Em síntese, os comunicadores de Calandria delinearam o projeto de vídeo a serviço  das organizações populares femininas da urbe limenha, identificando três núcleos - problemas: o comunicativo, o educativo e o político.

Para Kaplún este exemplo é salutar uma vez que, apesar de todos os obstáculos impostos numa comunicação popular , efetivou-se a motivação nas pessoas envolvidas e as mensagens foram suficiente para ajudar à comunidade a resolver muitos problemas.

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Síntese geral das mais importantes experiências

Tanto como forma de ampliar a ação da proposta dos cassetes fóruns como para um conhecimento mais detalhado do programas, vamos esboçar sinteticamente as experiências desenvolvidas pelo sistema na Venezuela, no Equador na Colômbia, na Bolívia, no Peru e a projeção deste sistema na América Latina.

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Na Venezuela

Na Venezuela o programa foi chamado de Foruco e contemplou 16 centros de educação Popular afiliados a União Venezuelana de Centros de Educação Popular (UVECEP) e localizados geograficamente em oito estados do país; o trabalho foi também assessorado pelo Centro de Serviço de Ação Popular (CESAP).

O objetivo do programa era abordar temas que solicitassem dos ouvintes a maneira mais eficaz de se obter maior participação popular na comunidade.

Os resultados foram positivos e consistiu em:

·        Aumento de participação e do sentido em pertencer à Organização Nacional

·        Os temas discutidos suscitaram trocas e progressos na forma de realizar o trabalho

·        A prática nos foros desenvolveu destreza para a discussão grupal, a capacidade de análise e elaboração de conclusões e sínteses, a claridade de expressão e concretização das idéias

·        A experiência comprovou do ponto de vista da produção a viabilidade de realizar um C-F dentro de uma organização popular que só conta com limitados e modestos recursos técnicos e humanos

No que se refere à  realização dos cassetes coletivos, se comprovou:

·        A importância que o C-F se realize com uma programação flexível e aberta

·        A eficácia do recurso do sociodrama

·        O valor da discussão livre

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No Equador

C-F foi iniciado no equador em 1980 para intercomunicar grupos de camponeses (predominantemente indígenas)  pertencentes às organizações da província do Cañar, no sul do país, para obter um fluxo de comunicação em prol da organização e capacitação dos camponeses de áreas distantes.

Simultaneamente, com assessoramento da FAO outro programa se iniciou entre professores e técnicos agrícolas que prestam serviçso as zonas distantes, com os seguintes objetivos:

·        Fomentar um maior fluxo de informacão desde a sede, no caso a Direção zonal do Ministério da Agricultura, com sede em Quito e as oficinas regionais

·        Possibilitar as respostas, críticas  em forma de comentários

·        Iniciar a comunicação entre os escritórios regionais mediante o intercâmbio dos cassetes.

       Resultado: As experiências foram positivas e continuaram usando o C-F tanto para a intercomunicação entre os grupos de organização camponesa como para ao diálogo a distância e com os técnicos agrícolas

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Na Colômbia

Em Bogotá o programa foi iniciado em 1983 para atender uma população urbana e suburbana, com grupos de mulheres das classes popular.

·        O objetivo era de promover a intercomunicação entre grupos femininos de bairros e comunidades populares, residentes em torno de pequenas cooperativas de produção.

·        O Resultado mostra que os primeiros cassetes e foros suscitaram um forte impacto e já há resultado na tomada de decisão dos grupos de formar uma organização feminina popular que os potencialize

·        Há também notícias de três novos projetos que se iniciariam em 1994.

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Na Bolívia

Na Bolívia a necessidade e carências educativas são tão marcadas que fez-se eminente o início do Plano Nacional e Alfabetização e Educação Popular sob a coordenação do Serviço Nacional de Alfabetização e Educação Popular (SENALEP) criado pelo governo democrático, como uma entidade descentralizada do Ministério da Educação.

A finalidade do C-F é a de fortalecer a organização nacional de camponeses. Se busca   que através do do intercâmbio e do diálogo, as comunidades rurais superem a reduzida visão localista e adquiram uma percepção mais global; que desenvolvam e reforcem seu sentido de pertencer a organização nacional que são seus núcleos.

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No Peru

No Peru o projeto não atende especificamente à metodologia do C-F  são como variantes do proejto. Sem dúvida , parece pertinente   mencionar porque tem muito em comum com ele: constitui canais de comunicação de duas vias e utilizam como meio o vídeo cassete.

O programa peruano “Palavra de Mulher” deveria ser iniciado até 1984 pela Associação de Comunicadores Sociales “Calandia” de Lima.

O programa tem como centro um espaço diário do rádio dirigido às mulheres das classes populares da capital peruana. A maior parte dessas mulheres são do camponesas e estão chegando à Lima em datas mais ou menos recentes como conseqüência da intensa migração do campo para cidade.

Do ponto de vista dos meios de comunicação que empregam, o projeto contempla  a transmissão  por rádio e as expressões grupais que são devolvidas em forma de comunicação por meio do vídeo cassete.

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Na América Latina

·        Escritório Regional de Educação para América Latina e Caribe (OREALC) pôs em prática outra aplicação do vídeo cassete para uma comunicação de duas vias, através do “Projeto Principal de Educação na América Latina e Caribe”.

·         Este projeto, aprovado por todos os governos da região estabelece o mútuo compromisso de realizar o “esforço renovado , intenso e sustentado para atender carências e necessidades educativas fundamentais” de nossos países, dando a máxima prioridade a atenção dos grupos populacionais mas desfavorecidos, localizados nas zonas rurais e áreas suburbanas . Os estados membros têm encomendado para Unesco a realização dos estudos necessários para execução do projeto.

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Considerações Finais

Não é difícil entender os pressupostos teóricos e a concepção que fundamentam a obra de Mario Kaplún. Difícil é tornar em prática diária, aquilo que Kaplún não apenas teorizou mas teve o criterioso trabalho de desenvolver um método, propor uma técnica, apontar falhas, perseguindo um modelo de educação comunicante que desperte o continente sulamericano para ouvir-se a si mesmo, sendo o consciente portador de sua história e da sua cultura, mesmo que esta seja apenas oral.

Porque é a partir da história oral do camponês no chaco boliviano, do agricultor sem terra, sem água mas com esperança do cadinho mais interiorano do Nordeste brasileiro, da marginalidade desafiadora dos favelados urbanos das metrópoles latinas, que Kaplún centra seu método de estudo, seu campo de pesquisa. É para este povo, aparentemente indefeso que o autor se debruçou, buscando uma saída neste emaranhado mundo de dominantes e dominados, teorizando e experimentando através do uso da oralidade, principalmente, um recurso para que as vozes latinas não sejam apenas ouvidas, mas portadoras de uma idéia, um código que represente um compromisso com a liberdade.

Nesses cinqüenta anos de trabalho, apontando os erros como quem pede desculpas, Mario Kaplún percebe no seu “A la educación por la comunicación”, que a América Latina não é mais a mesma, que as práticas educacionais desenvolveram novos aportes e que ele mesmo não é mais o mesmo roteirista de 18 anos:

“Hoy creo posible y necesario ir más lejos que en aquella reflexión liminar y, superando resueltamente la reductora visión instrumentalista, atreverse a pensar/repensar globalmente la educacón desde a óptica de la comunicación”.

Kaplún também acredita que “anteriormente, las habilidaddes comunicativas habían sido consideradas sólo como un aspecto del dessarrolo. Ahora es claro que son una condición previa”..

            Terá realmente mudado a América Latina ? E se mudou, o autor não deixou transparecer para que norte de mudança. Nem tampouco parece ter alterados as suas convicções de que uma democracia orgânica e participativa deve construir-se  desde abaixo, com o povo como protagonista central.

O que deve ter sentido é que a participação organizada não é meta fácil de se atingir, principalmente quando nos utilizamos de aparatos transmissores concebidos e desenhados  para uma emissão em um só sentido:

“Lo percibió com visionaria lucidez Bertold Brecht (1932), cuando, hace medio siglo, en los albores de la difusión electrónica, observó:

La radio tiene una cara donde debiera tener dos. Es un simple aparato distribuidor: simplesmente reparte..Hay que transformar la radio, convertila de instrumento de distribución en instrumento de comunicación. La radio sería el más fabuloso medio de comunicación pública imaginable, un sistema de interconexión fantastico, si no sólo supiera trasmitir sino también recibir; permitir por tanto al radioescucha no solamente oír sino también hablar y, en lugar de aislarlo, comunicarlo. La radiodifusión debiera, en consecuencia apartarse de quienes la alimentan y convertir a los receptores en alimentadores”.

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Bibliografia Específica

KAPLÚN, Mario. Producción de programas de rádio. El guión - la realización. CIESPAL; 1978

______________. A la educación por la comunicación. UNESCO: Chile, 1992

______________. Comunicación entre grupos: el método del cassette-foro. Otawa,   

MELO, J. M. de (Coord.). Mis primeros cincuenta anõs de aprendiz de comunicador. Mini-autobiografia profesional. Mario Kaplún. BOLETIM ALAIC. Nº 7 - 8 : São Paulo, 1992

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Notas

[i]KAPLÚN, M. Producción de programas de radio. Quito: CIESPAL, 1978. P. 10

[ii] KAPLÚN, op.cit. p.18

[iii] op.cit. p. 23

[iv] JUAN DIAZ BORDENAVE; Las nuevas pedagogias y tecnologías de comunicacíon: sus implicaciones para la investigación.

[v] Op.cit. p. 30

[vi] op.cit. P. 24

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