Uma nova sociedade diante dos meios de comunicação
Entrevista de Cicilia Peruzzo Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação - INTERCOM) a Edgard Rebouças A democratização dos meios de comunicação no Brasil e na América Latina sempre foi a principal bandeira defendida pela nova presidente da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação ( http://www.intercom.org.br ), a Profª Drª Cicilia Krohling Peruzzo. Nesta entrevista à Revista do PCLA, ela comenta sobre o atual estágios dos movimentos populares e fala de suas expectativas em relação ao próximo Congresso da Intercom, a ser realizado em Manaus, em setembro. Cicilia Peruzzo é doutora em Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), mestre pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP) e relações públicas formada pela Faculdade Anhembi-Morumbi. Autora de livros como "Comunicação nos Movimentos Populares", "Comunicação e Culturas Populares" e "Relações Públicas no Modo de Produção Capitalista", ela atualmente é professora da Pós-Graduação da UMESP, tendo passado pelas Faculdades Associadas do Espírito Santo (FAESA) e Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em seu estado natal. PCLA - Quais os projetos da senhora à frente da entidade que reúne a maior parte dos pesquisadores de Comunicação do Brasil? Cicilia Peruzzo - A gestão da Intercom está sob a responsabilidade de uma diretoria eleita pelos sócios, uma equipe formada por dez pessoas, voluntárias, que dedicam parte de seu tempo livre à vida de uma entidade que vem contribuindo de maneira estupenda para o desenvolvimento das ciências da comunicação. Fazem parte dos objetivos do nosso programa de trabalho: fortalecer o caráter científico da entidade; dar continuidade a publicação da Revista Brasileira de Ciências da Comunicação e das demais publicações; realizar o Congresso Anual e os Simpósios Regionais de Pesquisa; fortalecer os Grupos de Trabalho; continuar incentivando a realização/divulgação da pesquisa através da abertura de espaços para novos investigadores (e também para pesquisadores já renomados) e premiando as de maior mérito; dar continuidade ao inter-relacionamento da Intercom com outras entidades e fóruns científicos e acadêmicas nacionais e internacionais das ciências da Comunicação; além de melhorar a comunicação com os sócios e investir em infra-estrutura básica, a fim de atender as necessidades básicas de uma entidade que vem crescendo constantemente, para melhor atender as demandas de seus associados. Porém, uma equipe tão pequena não consegue realizar tantas coisas sozinha. Vários associados já estão contribuindo de muitas maneiras para a realização dos objetivos da entidade. Novas colaborações são bem vindas.
PCLA - Qual a expectativa para a realização do XXXIII Congresso da Intercom, em Manaus? Cicilia Peruzzo - Como diz o pessoal de Manaus... "como Deus quer, será um grande evento". Todos os preparativos estão acontecendo a pleno vapor. As equipes de Manaus e de São Paulo estão se dedicando muito para oferecerem aos congressistas um evento com muitas atividades de alto cunho científico e acadêmico. Aos pesquisadores será oferecido o espaço dos Grupos de Trabalhos para apresentação e debates entre seus pares das pesquisas que vêm realizando, aos estudantes serão oferecidos oficinas, painéis, simpósios, seminários etc., nos quais poderão aprender e discutir não apenas sobre o tema central do evento mas também vários outros assuntos de interesse e atualidade. Aos acompanhantes Manaus oferece sua beleza e a magia da floresta.
PCLA - O fato de a Intercom ter escolhido uma cidade tão distante de onde está a maioria dos pesquisadores e estudantes não pode fazer com que seja registrada uma pequena participação no Congresso? Cicilia Peruzzo - Estamos acostumados a realizar o Congresso da Intercom em cidades geograficamente mais centrais justamente porque facilita a participação dos congressistas. Porém, a Intercom precisa, pelo menos algumas vezes, levar o seu Congresso para regiões menos favorecidas em termos de acesso aos eventos nacionais de Comunicação. Chegou a vez da região Norte. Por outro lado, estamos viabilizando contratos para o oferecimento de pacotes de viagem altamente vantajosos. Preços que, incluindo hospedagem, ficarão mais baratos do que aqueles normalmente cobrados pelas companhias aéreas só para a passagem. O congressista da Intercom terá uma ótima oportunidade de conhecer (ou rever) a Amazônia.
PCLA - A diretoria da Intercom está realizando uma análise sobre a atuação dos Grupos de Trabalho, que mudanças ocorrerão nesse sentido a partir do Congresso de setembro? Cicilia Peruzzo - A mudança fundamental é que estamos incentivando os nossos coordenadores de GTs para que passemos, cada vez mais, a tornar os GTs fóruns de alto nível para a apresentação de debates de investigações realizadas por membros da Intercom. Não que os atuais GTs não tenham se ocupado disso. Claro que têm, mas é preciso aperfeiçoar os processos e criar melhores condições para o avanço da pesquisa em Comunicação.
PCLA - Graças às pesquisas que vem realizando nas áreas da comunicação popular e de Relações Públicas a senhora acabou sendo listada como fazendo parte de uma geração de "renovadores" do Pensamento Comunicacional Latino Americano. Na mesma categoria estão, entre outros, Guillermo Orozco, Jorge Gonzales, Anibal Ford, Anamaria Fadul, Ciro Marcondes Filho, Carlos Eduardo Lins da Silva, Renato Ortiz, Sérgio Mattos, Sérgio Caparelli e sua irmã Margarida Kunsch, atual presidente da Alaic. Que posicionamentos defendidos em sua postura acadêmica a senhora acredita terem contribuído para que fosse colocada em um lista tão seleta? Cicilia Peruzzo - Que resposta difícil... Sinto-me muito feliz por estar nessa lista ao lado de pesquisadores que respeito muito. Mas a resposta eu gostaria que fosse dada pelos proponentes de tal classificação e por meus leitores. Porém, imagino que os critérios que serviram de base para tal indicação tenham levado em conta a consistência dos trabalhos em termos do manejo de instrumental teórico e métodos científicos, além das contribuições trazidas ao desenvolvimento do pensamento científico dos objetos estudados. Na a área de Relações Públicas introduzimos, além de uma abordagem crítica, procurando desvendar sua essência nos meandros do modo de produção capitalista, a discussão sobre sua aplicabilidade nos movimentos sociais e organizações sem fins lucrativos da sociedade civil. O que foi um passo para o estudo da comunicação popular participativa e suas inter-relações com a ampliação da cidadania e o desenvolvimento social. A ciência faz sentido quando esta a serviço dos interesses da sociedade no seu conjunto, e não apenas dos setores dominantes.
PCLA - A senhora acredita que os pesquisadores brasileiros estão conscientes do papel que têm como potenciais participantes do estabelecimento de uma abordagem metodológica já utilizada por vários colegas latino-americanos? Cicilia Peruzzo Provavelmente. Tal consciência existe até porque participam de um sistema de troca de conhecimento, porém não saberia dizer o grau de importância de tal fenômeno.
PCLA - Mais especificamente dentro da área que a senhora vem trabalhando. Há no momento uma grande discussão nacional em torno do uso das rádios sem licença, chamas pelos empresários da comunicação de "rádios piratas". Qual o seu posicionamento em relação ao uso dessas rádios? Cicilia Peruzzo - É uma discussão que tende a ficar incompleta numa breve resposta como esta. Preferimos chamar as emissoras de rádio que transmitem sem licença de rádios livres e não de rádios piratas. Existem vários tipos de rádio de baixa potência funcionando sem licença, desde as tradicionais rádios livres até emissoras comerciais, religiosas e comunitárias. Temos estudado mais especificamente o fenômeno das rádios livres comunitárias. Elas não "estão atrás do ouro". Estão sim é preenchendo um vazio deixado pelo poder público e emissoras convencionais, fazendo um trabalho educativo e cultural visando o desenvolvimento social. Por outro lado, se muitas delas continuam ilegais é porque o próprio governo tem dificultado a aplicação da lei de radiodifusão de baixa potência já em vigor. A democratização dos meios de comunicação de massa é de fundamental importância. Está até chegando tarde em nosso país, mas felizmente começa a acontecer.
PCLA - A senhora defende uma participação efetiva da sociedade nos meios de comunicação, mas como acredita que isso possa acontecer de uma forma mais ampla, não só no Brasil, como em toda a América Latina, diante de uma sociedade que tem dificuldades até em reconhecer seus direitos à cidadania? Cicilia Peruzzo - Tudo muda constantemente. Percebe-se as mudanças pelas quais temos vivenciado. Há uma visível alteração nos valores no tocante ao reconhecimento dos direitos de cidadania, apesar de ainda não englobar a todos, nem em toda a plenitude. Conhecemos as dificuldades de uma participação efetiva da população nos meios de comunicação de massa na forma como estão configurados e até por suas caraterísticas enquanto mídias. Mas, com a democratização dos meios de comunicação e da sociedade novos espaços e demandas vão surgindo. A própria sociedade vai se colocando os problemas que é capaz de resolver através de um processo que tende a ser lento devido as dificuldades que têm a ver com nossa história, marcada pela opressão e domínio pelos mais fortes.
PCLA - Para finalizar, quais são os projetos integrados que existem hoje na América Latina para as discussões e ações em torno da comunicação popular? Cicilia Peruzzo - Projetos integrados... Enumerar alguns significaria deixar outros de fora, o que não seria justo. Proporia a abertura de um fórum de comunicações on-line onde as pessoas pudessem estar comunicando sobre tais projetos. Que tal? Meu e-mail é kperuzzo@uol.com.br. |