
PCLA - Volume 4 - número
2: janeiro / fevereiro/ março 2003
Globo e Lula, perguntas e respostas
Claudio
Julio TOGNOLLI
Consultor de
Jornalismo Investigativo da Unesco no
Brasil
(Professor do Centro Universitário UniFiam/FAAM, Brasil)
Na
edição da semana passada deste Observatório, Nelson Hoineff chamava a
atenção para as disquisições e desdobramentos do estado concordatário da
Globopar [veja remissão abaixo]. Os apontamentos de Hoineff, com rico
numerário, fornecem um singular lastro para uma discussão bem outra: a hoje tão
incensada imparcialidade da Globo em relação a Lula e ao PT merece esse nome
ou seria apenas um deslavado puxa-saquismo desbundado em relação ao novo
presidente do Brasil?
Lula
ganhou mais de uma hora no Jornal Nacional. Ok, foi o presidente mais
votado do mundo. A equipe do JN, tão logo Lula disse o clássico
"boa noite" em nome de William Bonner, prorrompeu em aplausos
candentes, segundos após as imagens terem sido encerradas. Ok, era um
direito de manifestação de simpatizantes do Lula. Mas, falando do viés
estrutural da Globo, volta a pergunta: tudo isso em nome de imparcialidade
instrumental ou de imparcialidade instrumentalizada?
Se
cremos sincera essa indagação, temos de expôr aqui as duas possíveis
respostas. Tratemos, em primeiro, da resposta vindicante de que a Globo,
finalmente, acordou para a idéia de que, no quesito venda de produto, a
imparcialidade cai bem ao produto jornalístico.
Essa
resposta ganha créditos visceralmente válidos e pertinentes quando
da análise de um caso recente: na quinta-feira, 26 de setembro de 2002, o
empresário Antônio Ermírio de Moraes, num ato falho ou pura cidadania
consentida, admitiu à Folha de S. Paulo, au grand complet, alguns
pontos daquilo que o populacho convencionou chamar de "Comado Delta"
– que até letra da banda Planet Hemp virou. Eis o que disse Ermírio de
Moraes:
"Eu
acho que a grande chance é essa. A saída do ex-presidente da Petrobras
Philippe Reichstul da Globo é um mau sintoma para a campanha do Serra.
Desmontou a máquina. Eu entendi que estava montado um esquema macro de apoio a
Serra. O ex-presidente da Petrobras é amigo íntimo do Serra. É muito difícil
o Serra se eleger. Com a saída de Reichstul da TV Globo, Serra perde um
parceiro importante."
A
reação dos Marinho é o mais forte argumento para a nossa primeira resposta: a
Globo ungiu Lula e ao PT porque não quis abjurar da fé na democracia – e,
portanto, não abjurou da nova fé no imparcial. Vejamos o que disse João
Roberto Marinho, no Painel do Leitor da Folha, em 27 de setembro
passado:
"Em
novembro do ano passado, o Conselho Editorial das Organizações Globo deu início
a uma série de reuniões para preparar a cobertura das eleições gerais de
2002. Com base nos princípios editoriais que sempre nortearam o grupo –
informação com isenção, imparcialidade e credibilidade –, a idéia era
fazer uma cobertura que privilegiasse o debate de idéias, e não a troca estéril
de acusações, que verificasse sempre se as promessas dos candidatos são
realizáveis e que procurasse mostrar aos eleitores um diagnóstico do país com
base em números. Ficou desde sempre estabelecido que os principais candidatos
teriam espaços iguais, tratamento equânime e que nenhum estaria imune a críticas
procedentes. Nestas eleições, graças à liberalização da legislação
eleitoral no que diz respeito à mídia eletrônica, a TV Globo pôde fazer uma
cobertura mais abrangente do que a realizada em anos anteriores – com
entrevistas em seus telejornais e reportagens especiais amplas e esclarecedoras.
Todos os setores da sociedade – imprensa, partidos políticos, leitores,
ouvintes e telespectadores – aplaudiram essa nossa postura. E o reconhecimento
de nossa isenção e imparcialidade é motivo de orgulho para todos nós. Por
essa razão, causaram-nos surpresa e indignação as declarações do empresário
Antônio Ermírio de Moraes em entrevista à Folha publicada em 26/9
(‘Lula está longe de ser estadista, diz Ermírio’, Eleições 2002, pág.
Especial 3). Nela, ele diz: ‘A saída do ex-presidente da Petrobras Philippe
Reichstul da Globo é um mau sintoma para a campanha do Serra. Desmontou a máquina.
Eu entendi que estava montado um esquema macro de apoio ao Serra’. Antônio
Ermírio, na verdade, não entendeu nada. Nem Philippe Reichstul deixou as
Organizações Globo (ele permanece em nosso Conselho de Administração), nem
jamais participaríamos de esquema nenhum – nem micro, nem macro – para
apoiar esta ou aquela candidatura. A maior parte do empresariado brasileiro já
é capaz de entender que um órgão de imprensa não tem chances de sobreviver
se não oferecer, sempre, informação de qualidade, o que pressupõe,
repetimos, isenção e imparcialidade. Alguns poucos ainda não entendem esse
princípio básico. A estes, só resta aprender com as lições cotidianas da
realidade. João Roberto Marinho, vice-presidente das Organizações Globo (Rio
de Janeiro, RJ)"
Postos
os argumentos da primeira resposta, passemos à segunda: a Globo "lulou"
ao osso porque vai precisar da ajuda do presidente para contornar a sua
caleidoscópica situação financeira. E, para sustentar essa resposta, nossa
fonte de consulta é uma dissertação de mestrado defendida há dois meses na
Escola de Comunicações e Artes da USP: chama-se A Média da Mídia,
e o autor é o veterano repórter João Wady Cury, orientado pelo
professor-doutor Carlos Marcos Avighi.
O
aposto da dissertação define assim as empresas dos Marinho:
"A
Globopar, Globo Comunicações e Participações S/A, reúne empresas que atuam
em setores como TV a cabo (operação e distribuição), TV por microondas,
produtora de filmes, computação gráfica e programas de televisão,
telecomunicações (Maxitel, Tele Nordeste Celular e Tele Celular Sul), fabricação
de equipamentos telefônicos (a multinacional japonesa NEC Corporation),
operadora de pagers (Teletrim), fazendas de gado de corte, construção e
administração de shopping centers (Botafogo Praia Shopping-RJ e Shopping
Interlagos-SP), hotéis, centros comerciais, prédios residenciais e comerciais,
instituições financeiras (sócia do Arab Banking Corporation no ABC-RoMa, e
Seguradora Roma), mineradoras entre outras atividades que constam nos balanços
pesquisados. É fundamental uma descrição de cada setor e suas principais
empresas"
Diz
a dissertação de João Wady Cury que o balanço consolidado da Globopar no ano
de 1998, além dessas informações, registra ainda o endividamento das empresas
que formam a Globo Comunicações e Participações S/A: cerca de 3,5 bilhões
de dólares, de acordo com o levantamento realizado e assinado pelos técnicos
da Ernest & Young Auditores Independentes S/C. Suas principais dívidas,
refere o trabalho de Cury, são decorrentes de emissão de eurobônus, commercial
papers e empréstimos adquiridos junto a seus principais credores. A curto e
longo prazo, seus credores são os bancos internacionais e o montante da dívida,
contraída em moeda estrangeira, é de aproximadamente US$ 2,9 bilhões. Estão
nesse grupo de credores o Bank of Boston, Banco Sumitomo, o Banco Mitsubishi, o
Banco BBA Creditanstalt S/A, o Banco Sogeral S/A, o Unibanco e o Banco de Tokyo.
Agora
sai também da dissertação de Wady Cury o argumento que habilitaria
tecnicamente a resposta segundo a qual é instrumentalizado o "lulismo"
da Globo: para instituições financeiras brasileiras, a dívida em reais soma
616,7 milhões de dólares e seu principal credor é o governo brasileiro, por
meio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), cujo
montante em 1998 era de 148,7 milhões de dólares.
A
pesquisa de Cury preocupou-se também, em relação à dimensão dessa dívida,
com as empresas mais oneradas dentre as que formam a Globopar. A principal dívida
é da própria holding Globopar, cuja valor é de aproximadamente 1,3 bilhão de
dólares. Seguem-se a ela a Globo Cabo S/A, com 650 milhões de dólares, a NEC
do Brasil com 645 milhões de dólares, a Net Sat S/A com dívida de 513 milhões
de dólares e a Globo Cabo Holding, com 127 milhões de dólares. Note-se que,
somadas as operações dessas dívidas maiores, a TV paga é a mais onerada,
devendo cerca de 1,29 bilhão de dólares, principalmente devido aos altos
custos de investimento em equipamentos de produção, transmissão e instalação.
O chamado perfil da dívida também é importante conhecer. Do total de 3,5 bilhões
de dólares, cerca de 2,1 bilhões de dólares referem-se a pagamentos que
deveriam ser feitos no curto prazo (um ou dois anos) e 1,1 bilhão de dólares a
longo prazo, que pode variar de três a 15 anos. No mesmo ano de 1998, o
investimento da Globopar com pagamento bruto de juros de suas dívidas foi de
463 milhões de dólares.
Agora,
ainda defendendo nossa segunda resposta, põe-se aqui também outro extrato da
tese de João Wady Cury. Dessa vez, pode-se intuir do que ele escreveu, o espaço
editorial do Globo dedicado à vitória de Lula seria uma recidiva do que fora
feito com FHC no seu processo de reeleição.
Cury
aponta que na edição do dia 31 de julho de 1998, O Globo destaca, nas
duas primeiras páginas do caderno de política (páginas 3 e 4), fatos do dia.
Na primeira, uma página dedicada a Fernando Henrique Cardoso, que critica o
Poder Judiciário, em discurso na Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), por
priorizar em seus investimentos a construção de sedes luxuosas. Na outra, 75%
da página é ocupada por reportagem sobre a pesquisa do Ibope que aponta o
presidente da República eleito no primeiro turno, caso a eleição fosse
naquela semana, dois meses antes do pleito. Na mesma edição, página 8, O
Globo confunde o leitor com uma série de informações contraditórias, da
forma como a página é editada, fazendo o deslocamento da atenção da leitura.
Uma grande foto, aberta em quatro colunas no alto da página, mostra Lula em
campanha pelo centro do Rio de Janeiro com aliados políticos. O título que
prevalece na página, no entanto, e que está imediatamente acima da fotografia
se refere a outro assunto e se sobrepõe à fotografia: "FH promete levar
metrô a Niterói e São Gonçalo", e a linha fina, "Para Ronaldo
Cesar Coelho, presidente disse que linha 3 será a obra prioritária de seu
segundo mandato como presidente". O texto ressalta claramente a promessa de
campanha, sem que haja amparo factual além da própria promessa – a não ser,
coincidentemente, que no exato dia seguinte, um sábado, Fernando Henrique
iniciaria sua campanha pelo país:
"Se
o presidente Fernando Henrique Cardoso for reeleito, até o final do seu segundo
mandato o Rio poderá ter ligação de metrô com Niterói, São Gonçalo e
Itaboraí. Um túnel subterrâneo, sob as águas da Baía de Guanabara, será
construído para o metrô, segundo prometeu ontem Fernando Henrique ao deputado
Ronaldo Cezar Coelho (PSDB-RJ). Ele disse ao deputado que essa será a sua obra
prioritária num segundo mandato. A obra custará R$ 1 bilhão. Fernando
Henrique disse a Ronaldo que esta semana foi publicado o edital de licitação
para a escolha da empresa que fará o estudo de viabilidade técnica da obra. Só
esse estudo deverá custar R$ 3,5 milhões e levar um ano para ser concluído."
Diz
Cury que "a confusão no texto aumenta quando a mesma reportagem passa a
discutir, com personagens do partido do presidente da República, o PSDB, como
ficará dividido o palanque durante a campanha, diante da possibilidade de um
eventual apoio de Fernando Henrique ao candidato Cesar Maia, do PFL.
Rapidamente, no entanto, a edição lança um subtítulo apaziguador:
"Coordenador da campanha de FH garante palanque para todos".
Dizer
que uma ou outra resposta é verdadeira seria incorrer num dos crimes lesa-pátria
do jornalismo: o do anacoluto, in illo tempore. A resposta virá com o
que, obviamente, a Globo produzir daqui para frente – o que, aliás, também não
deixará de ser um grande teste para a mais nova estrela do casting
global: Luis Inácio Lula da Silva, o presidente eleito.