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PCLA - Volume 4 - número 1:outubro / novembro / dezembro 2002

 

As Imagens de Crianças Hispânicas e
Latino-americanas no Cinema de Hollywood




Federico Subervi-Vélez  
(Associate Professor & Graduate Advisor - Department of Radio-TV-Film, 
University of Texas, Austin, TEXAS)

Maria de los Ángeles
Flores-Gutiérrez 

(
Asistente de PosGrado - Department of Radio-TV-Film, University of Texas, Austin, TEXAS).


Principais links:

Prefácio do Primeiro autor

Prefácio do Segundo autor

Introdução

Os objetivos e os parâmetros da pesquisa

Analise dos resultados

Membros de famílias disfuncionais

Testemunhas silenciosas

Personagens violentas ou criminosas

Camponeses maltrapilhos

Subordinados aos brancos

Algumas Imagens Positivas

Discussão

Bibliografia

Referências


Prefácio do Primeiro autor

Meu interesse em crianças e mídia tem origem nos meus últimos anos na Universidade de Porto Rico, quando analisava—ainda que simplesmente—a ideologia de desenhos animados e outros programas transmitidos nos canais de televisão naquela ilha.

Anos mais tarde, quando estava apenas começando minha carreira acadêmica como professor de mídia, aquele interesse se fez novamente presente quando observei como minha filha, então com quatro anos de idade, ao brincar com suas bonecas, refletia uma hierarquia racial que definitivamente não era a que praticávamos em nossa família multirracial. Em suas encenações naquela idade tão jovem, as Barbies brancas eram geralmente as bonecas mais bem comportadas, enquanto as bonecas morenas se comportavam mal e exigiam disciplina.[i]  Enquanto tais julgamentos raciais poderiam ter sido aprendidos por ela a partir de diversas experiências na tenra infância, como professor de mídia eu me perguntei se a TV e os filmes que ela havia assistido poderiam ter desempenhado algum papel na construção de sua hierarquia racial. Também me perguntei se as imagens da mídia dominante haveriam lhe afetado ou se  estariam influenciando sua auto-estima enquanto uma criança porto-riquenha de pele morena clara. [ii]

Deixando de lado, por razões óbvias, os detalhes dos anos que se sucederam até aqui, algo que era evidente naquela época, e permanece assim até hoje, é a escassez de estudos sobre a relação entre mídia e crianças hispânicas nos Estados Unidos da América. Incluindo a ausência de análises das imagens de crianças hispânicas ou de latino-americanas em filmes do mercado geral e programas de  televisão. Isto nos traz então ao tema deste artigo, que advém de minha parceria profissional com o Instituto National de Crianças Latinas (National Latino Children’s Institute www.nlci@nlci.org). Em inúmeras conversas que tive com Becky Barrera e Bibi Lobo, discutíamos sobre a pobreza com que Hollywood tratava os membros mais jovens de nossa comunidade.[iii] Porém, nenhum de nós conseguia apontar alguma documentação sistemática daquele problema. Na primavera de 2000, definimos e lançamos as bases para uma investigação sobre as características das imagens de crianças hispânicas em filmes e na televisão. Para viabilizar tal projeto, eu recrutei estudantes de meu curso avançado de graduação sobre Latinos e a Mídia. Os estudantes responderam prontamente à tarefa, sob a supervisão da assistente de pós-graduação, María de los Ángeles Flores, naquele período mestranda do Departamento de Radio-Televisão-Filme na Universidade do Texas em Austin e interessada no estudo de mídia e crianças. Este artigo resume os frutos de nosso trabalho conjunto e em colaboração.

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Prefácio do Segundo autor

Meu interesse em pesquisa com crianças é motivado por duas experiências que tiveram um forte impacto em minha vida. Primeiro, a inspiração contínua dos exemplos de minha avó e de minha mãe, ambas trabalham em prol das crianças no México. Minha avó recebeu reconhecimento nacional no México por um programa educacional infantil criado por ela em 1975. A princípio ela elaborou um currículo escolar para ser utilizado a nível estadual. Depois que pesquisas avaliaram a eficácia do programa, o presidente da Secretaria Nacional de Desenvolvimento Familiar (posição geralmente ocupada pela esposa do presidente do México) decidiu implementar o programa a nível nacional. Um novo espaço na educação foi então aberto. O programa, Educación Especial, continua em vigor, promovendo apoio educacional a muitas crianças, especialmente àquelas com dificuldades de aprendizagem. Minha mãe, por sua vez, também se especializou em pedagogia e ensino básico no México. No ano 2000, ganhou dois prêmios internacionais por um programa educacional-curricular que desenvolveu para crianças de zero a quatro anos de idade.[iv] Este programa está sendo implementado a nível nacional para crianças de todas as origens econômicas e lingüísticas. Atualmente ela é a diretora nacional do programa, conhecido como Un Abrazo Completo: Educación Inicial.

Segundo, em 1994 fui abençoada com o nascimento de meu filho e fui prontamente imersa no mundo das crianças, como nunca havia sido. Logo comecei a observar como ele descobria sua identidade cultural e seu papel social a partir das interações com a família e amigos íntimos, e também através de sua exposição à mídia de massa. Embora sua exposição à mídia tenha sido limitada, os estereótipos, categorias de representação, e tipologia dos hispânicos/latinos e não-latinos já estão definidos em sua mente. Filmes, vídeos e estórias infantis constantemente repetem mensagens com valores sociais que influenciam sua relação com o mundo. Ao observar este fenômeno, iniciei uma jornada pessoal e comecei a estudar o conteúdo e o significado das mensagens verbais e não-verbais da mídia de massa dirigida às crianças. Conduzir a pesquisa em questão neste artigo, me propiciou a oportunidade de avaliar a ideologia que está sendo passada para a próxima geração de crianças hispânicas, latino-americanas e as não-latinas também.

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Introdução

Nos últimos anos o estudo das imagens e participação de hispânicos nos filmes de  Hollywood têm recebido mais atenção. Isto é evidente no crescimento exponencial de livros e artigos acadêmicos dedicados a este tópico (Berg 1990, 2002; Fregoso 1993; Keller 1985, 1994, 1997; Noriega 1992, 2000; Noriega and López 1996; Pettit 1980; Rodríguez 1997; and Woll 1980—somente para citar alguns nomes).

Até mesmo os críticos da construção da imagem das crianças hispânicas/latinas nos filmes infantis da Disney tem recebido atenção recente (Gutiérrez 2000, Martín-Rodríguez 2000). Organizações comunitárias e centros de diretrizes políticas sociais não reconhecidos como pesquisadores de mídia, também vem desenvolvendo interesse na imagem e uso de hispânicos, especialmente nos programas de entretenimento (National Council of La Raza 1994, 1996; Tomás Rivera Policy Institute 1999, 2000). E os estudos focalizando hispânicos nos noticiários tem crescido, conforme recentemente documentado por Subervi-Vélez, Puente, e Hernández (2000). O crescente interesse com a inter-relação  entre a mídia e questões hispânicas e ainda mais evidente na criação de cursos focados no assunto e sua incorporação como componentes de cursos que lidam com diversidade e multiculturalismo.[v]

Por mais fascinante que estes avanços possam ser, ainda não existem avaliações sistemáticas e estudos longitudinais consistentes neste tema. Portanto, os estudos sobre a representação das crianças hispânicas e latino-americanas na TV  (Blosser 1986, 1988a, 1988b; Cortés 2000; Subervi-Vélez 1995, 1996, 1999; Subervi-Vélez and Colsant 1993; Subervi-Vélez and Necochea 1990) encontram-se praticamente isolados.

Alguns desses trabalhos (como exemplo, Cortés 2000, Subervi-Vélez e Colsant 1993) também dirigem-se a necessidade imperativa e fundamental de estudar a representação das crianças hispânicas/latinas em todas mídias, ou seja, mais amplamente e não só na televisão. Conforme apontado neste e em outros trabalhos (Berry and Mitchell-Kernan 1982, Wilson e Gutiérrez 1995), sob certas condições, a mídia de massa—especialmente a televisão, em função de sua penetração—pode ter impacto significativo na auto-estima infantil. A representação de hispânicos na mídia, além de outras minorias, tem o potencial de afetar não somente como estas crianças vêem a si mesmas mas também como outros as vêem.  Estas representações, por sua vez, afetam as expectativas que os outros têm acerca do comportamento e das atitudes das crianças hispânicas e latino-americanas.

Evidencias de tais efeitos foram encontradas em um estudo financiado pelo Children Now (1998), uma organização norte-americana sem fins lucrativos em defesa das crianças. Neste estudo, que foi baseado em um levantamento nacional e em uma serie de grupos focais, as crianças apontaram não somente a falta de personagens asiáticos e hispânicos e latino-americanos na televisão, mas também a difusão de personagens negros e hispânicos/latinos em papeis de criminosos.  Conforme podemos deduzir, “crianças de todas as raças associaram características positivas com os personagens brancos que eles viam na TV e características negativas com os personagens das minorias” (p. 9).  Quando o foco foi, especificamente, na representação nos programas jornalísticos, o estudo encontrou que “um terço ou mais de cada raça acredita que latinos e afro-americanos  são principalmente apresentados fazendo “coisas ruins, como crimes ou drogas ou algum outro problema” (p. 12).

Crianças hispânicas/latinas que não vêem imagens positivas de si mesmas na mídia podem experimentar uma grave declínio em sua auto-estima, porque esta falta de representação positiva nega a importância de suas existências. Da mesma forma, as exposições repetidas de imagens negativas de pessoas como elas mesmas na mídia podem facilmente contribuir no desenvolvimento de  sentimentos de vergonha e ressentimento em relação a sua identidade hispânica e latino-americana. As crianças podem portanto desenvolver uma tendência (ou desejo) de negar suas conexões com a sua herança cultural que normalmente os definem como pessoas. Em outras palavras, a associação de crianças hispânicas/latinas com as pessoas, os valores, as tradições, e outros fatores culturais ligados com sua herança cultural podem ser prejudicadas e potencialmente perdidas.

Diante da ausência de uma auto-estima positiva e um senso de identidade com seu povo e sua cultura, a alienação e suas conseqüências podem influenciar o desenvolvimento psicológico e social das crianças. Isto pode afetar as relações não somente consigo mesma e com os membros de sua origem cultural, mas também com os membros de outras culturas.

Da mesma forma, as imagens da mídia influenciam crianças de outras origens étnicas e raciais na definição de suas impressões de quem são os hispânicos/latinos e estabelece as normas sociais sobre o que pensar a respeito e como se relacionar com eles. A ausência de imagens positivas certamente não ajuda no processo de socialização de crianças não-latinas e nos seus relacionamentos interpessoais com os hispânicos/latinos.

Conforme Cortés afirma, a mídia “contribui para a construção de crenças e atitudes sobre diversidade” (p. 23). Nós propomos portanto, que o estudo sobre como as crianças hispânicas/latinas são representadas na mídia poderia auxiliar na compreensão de seu desenvolvimento e relacionamento com outros membros da sociedade. Infelizmente, o que tem sido documentado sobre a representação de hispânicos adultos no cinema e televisão, mesmo no jornalismo, não tem investigado a contento o que se refere às crianças hispânicas/latinas. Como um primeiro passo para preencher esta lacuna, este trabalho apresenta o resultado da exploração e analise das imagens das crianças hispânicas e latino-americanas em filmes de Hollywood selecionados.

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Os objetivos e os parâmetros da pesquisa

Um dos objetivos do projeto da classe foi identificar todo o tipo de imagens de crianças hispânicas dos Estados Unidos nos programas de televisão levados ao ar durante os meses de fevereiro e marco de 2000.

Com esta meta, as principais redes de tv , alem de alguns canais independentes e redes a cabo, foram gravadas e monitoradas para encontrar quais, se alguma, imagens de crianças hispânicas estavam sendo apresentadas pela televisão habitualmente, isto é, enquanto personagens comuns, nos programas dirigidos às crianças.  Para os propósitos deste estudo, foram definidas como crianças, garotos e garotas com aproximadamente a idade de ate 12 anos. Um objetivo paralelo foi encontrar imagens de crianças hispânicas em filmes de Hollywood, do passado e do presente. Fundamentalmente, nossos objetivos foram analisar e classificar as imagens coletadas, e subseqüentemente escrever um roteiro para o piloto de um vídeo documentário no assunto.

Não levou muito tempo para confirmarmos nossas observações pessoais e o que tinha sido apresentado nos trabalhos dos estudantes nos semestres anteriores[vi]—que normalmente poucas crianças hispânicas são vistas nos programas televisivos em geral.  De fato, não havia o suficiente para analisar em profundidade e sobre o que nos poderíamos desenvolver do vídeo piloto projetado.

Uma descoberta inesperada, mas sem surpresas, foi a escassez de crianças de origem hispânica nos principais filmes que fomos capaz de revisar durante o semestre.[vii]  Dada a insuficiência de material, baseados nos primeiros parâmetros da pesquisa, o projeto foi expandido para incluir imagens de crianças latino-americanas.  E para tornar o trabalho mais viável, considerando as limitações de tempo e recurso, o estudo adotou como foco, exclusivamente os filmes de Hollywood produzidos a partir de meados dos anos quarenta.[viii]  Portanto, os achados apresentados logo a seguir, baseiam-se no que foi encontrado na observação de crianças hispânicas e de origem latino-americano em 23 filmes.

Os critérios usados para selecionar os filmes foram os seguintes: primeiro, todos filmes “blockbuster” de 1990 a 1999 foram analisados por um de nossos estudantes. Segundo, as informações de filmes na internet, localizadas no www.imdb.com, foram buscadas usando palavras chaves, tais como “criança hispânica”, “crianças latino-americanas”, “filmes hispânicos”, “cinema mexico-americano”, “cinema latino”, “produtores hispânicos” e “estrelas de cinema hispânico”. Todo filme identificado através destas buscas foram analisados.  Terceiro, pedimos a três especialistas em filmes hispânicos (Berg, Keller, and Noriega), títulos de filmes que acreditassem conter imagens de crianças hispânicas ou de origem latino-americana.  Todos os titulos sugeridos por eles foram também avaliados.  Quarto, estudantes, muitos deles hispânicos, pediram para seus familiares e amigos que lembrassem dos filmes com imagens de crianças hispânicas e de origem latino-americano.  Novamente, estas contribuicoes foram checadas.  E, por ultimo, os filmes produzidos pela Disney, Warner Brothers, Lucas Films, e Hanna-Barbera, que tradicionalmente tem como publico alvo as crianças, também foram analisados.  Na conclusão do período de busca, os estudantes analisaram cada cena contendo imagens relevantes e então propuseram categorias nas quais este artigo foi desenvolvido. Alguns filmes identificados como tendo imagens relevantes (por exemplo, Popi, 1969) não estavam disponível para aluguel nas locadas de vídeo, ou para serem vistos nas bibliotecas.  Esses filmes serão buscados para analises subseqüentes.  Filmes independentes, assim como filmes latino-americanos e filmes produzidos por latino-americanos, principalmente para serem distribuídos na América Latina, foram excluídos desta analise.[ix]

Usando o método de pesquisa de analise textual, os estudantes no grupo de pesquisa assistiram—com freqüência repetidamente—os filmes selecionados, buscando personagens de crianças hispânicas ou latino-americanas. Eles foram instruídos para observar padrões em cenas, quadros, e papeis que pudessem ser usados para classificar a apresentação das crianças hispânicas/latinas. Foram observados a localização geográfica e os ambientes, assim como as roupas usadas pelas crianças, suas linguagens e suas relações com adultos e outras crianças. Observamos também se as crianças estavam representando papeis principais, de apoio, ou de figurantes.

Uma ressalva adicional merece atenção antes da apresentação dos resultados. Este trabalho explora e analisa a imagem de crianças de dois contextos diferentes. Entretanto, devemos considerar que as representações destes contextos, assim como as identidades correspondentes projetadas nos atores escolhidos para desempenhar tais papeis, não são sempre claramente delineados nos filmes, muito menos na mente dos produtores.

Para este estudo, crianças hispânicas inclui todas aquelas que são apresentadas residindo nos Estados Unidos de norte-america, tanto as nascidas de origem hispânico nos Estados Unidos, quanto as que imigraram para para os Estados Unidos de um pais da América Latina, incluindo Porto Rico. Esta categoria inclui crianças representadas como descendentes de famílias residindo nas regiões mexicanas que foram incorporadas pelos Estados Unidos durante o século XIX (Califórnia, Nevada, Texas, Colorado, Novo México). Crianças hispânicas podem ser caracterizadas como sendo identificadas essencialmente como hispânicas ou pertencente a cultura norte-americana, ou em ambas situações, o que pode de fato refletir a realidade de muitos segmentos desta população. Em contraste, crianças latino-americanas são aquelas representadas vivendo em algum pais latino-americano, incluindo Porto Rico, e são caracterizadas essencialmente como parte desta cultura ou como pertencendo ao pais e sua cultura.

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Analise dos resultados

Os resultados desta pesquisa, e sua analise, revelam que crianças hispânicas e crianças latino-americanas normalmente representadas pelos filmes de Hollywood podem ser classificas dentro de cinco categorias negativas, que são distintas mas não necessariamente excludentes: (1) membros de famílias disfuncionais, (2) testemunhas silenciosas (tipicamente problematicas) de eventos, (3) personagens violentas ou criminosas, (4) camponeses maltrapilhos (pobres, sujos, desatendidos) e (5) subordinados aos brancos.  As poucas imagens positivas de crianças hispânicas ou latino-americanas que foram encontradas nos filmes de Hollywood, e as características destas representações, são também analisadas e debatidas.

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Membros de famílias disfuncionais

Crianças hispânicas e latino-americanas retratadas dentro deste estereotipo são apresentadas em situações onde um dos pais, ou ambos, estão ausentes e, ocasionalmente, a criança precisa ajudar a sustentar sua família.  Em tais situações, o pai esta ausente, geralmente porque ele esta preso ou morto, entretanto, algumas vezes, ele simplesmente não aparece, com pouca ou nenhuma justificativa para sua ausência.

A criança latina, membro de uma família disfuncional, esta claramente ilustrada em Dance with Me (1998), um filme que combina elementos culturais dos hispânicos e dos latino-americanos. Ruby Sinclair (representada pela atriz negra norte-americana Vanessa Williams) é uma mãe solteira criando seu filho, uma criança mestiça, que teve com um homem latino de quem se separou. Ela inicia uma nova relação amorosa com Rafael Infante, um hispânico, (interpretado pelo ídolo pop porto-riquenho, Cheyenne). A ausência do pai da criança hispânica recebe pouca explicação, mas a falta de um modelo masculino positivo esta implicitamente ligada ao mau comportamento ocasional do jovem.

Outro exemplo de uma criança cujo pai é ausente pode ser observado em Mi Familia (1995), onde Carlitos (representado pelo ator branco Paul Robert Langdon) é representado como uma criança hispânico com problemas de comportamento. Este filme sugere que a prisão do pai de Carlitos, e portanto a falta de um modelo masculino positivo, tem efeitos diretos em seu comportamento.

Outra família disfuncional típica foi identificada em Lone Star (1996). Uma das linhas da historia deste filme revela que o pai da criança hispânica morreu recentemente, deixando implícito que o comportamento problemático da criança poderia ser resultado de uma família dirigida por uma mãe solteira. As conseqüências de um pai ausente são também apresentadas em Fame (1980), onde o filho hispânico tenta preencher o papel de seu pai, porem com resultados desastrosos. Em uma cena, ele descobre que sua irmã mais jovem sofreu abuso sexual na igreja. Em função das fortes e rígidas crenças religiosas de sua mãe, ele não consegue levar a irmã ao hospital para tratamento. A ausência do pai é responsabilizada pelo estado de confusão da família, atuando evidentemente em detrimento das crianças. O mesmo acontece  em Mi Vida Loca (1993). Neste filme, dois bebês são retratados com suas mães hispânicas brigando, Mousie e Sad Girl (Seidy López e Ángel Aviles), mas o pai dos dois bebês, Ernesto (Jacob Vargas), é misteriosamente ausente. Mais tarde, no filme, ele é baleado e morto.

Mesmo nos filmes que mostram um lar hispânico com pai e mãe, como em I Like It like That (1994), a família hispânica é representada como condenada pela pobreza e pelos efeitos de morar em uma área de alta criminalidade. As crianças hispânicas são retratadas como sofrendo as conseqüências de um ambiente tenso e de famílias que brigam com amargor sobre assuntos corriqueiros. I Like It like That também mostra crianças sem pai envolvidas em atividades criminosas, incluindo drogas.

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Testemunhas silenciosas

Nesta categoria, agrupamos as imagens de crianças que, apesar de aparecer em cena, raramente falam. Em seus breves papeis como testemunhas de algum evento problemático, elas são, na melhor das hipóteses, personagens secundários sem nenhuma historia especifica. Um exemplo nítido pode ser observado mesmo em um filme que apresenta muito atributos positivos da cultura hispânica/mexico-americana. Em Mi Familia, Jimmy (Jonathan Hernández) assiste seu irmão Chuco (Esai Morales) sendo perseguido e morto sem piedade pela policia. De uma certa distancia, Jimmy chora aterrorizado enquanto assiste os policiais parabenizando uns aos outros pela pontaria. Esta criança hispânica fica certamente marcada por toda vida por essa horrível experiência.

O retrato de uma criança hispânica como testemunha do assassinato insensível de um membro da família e repetida em Colors (1988), quando o pai da criança é esfaqueado por um de seus amigos em frente do filho e da mãe. A tragédia da cena do estaqueamento tem continuidade quando a criança e sua mãe acompanham a vitima em uma ambulância, onde o pai morre. Assim, outra criança hispânica que testemunha uma tragédia em sua família e também marcada por toda vida.

Em outro filme que tem os hispânicos como tema, Mi Vida Loca, uma criança não somente é uma testemunha silenciosa da violência como também é vitima. Em uma determinada cena, uma garotinha é assassinada inocentemente enquanto andava em seu velocípede durante um fuzilamento vindo de dentro de um carro que tinha como objetivo matar um homem que estava perto dela. A tragédia ocorre novamente em uma cena de Bound by Honor (1993) que traz uma cena de um jovem assistindo seu irmão mais velho, o protagonista, injetando heroína. O garoto mais velho não sabe que seu jovem irmão esta testemunhando silenciosamente o uso da droga. Na seqüência, ele será imitado pelo mais jovem com conseqüências fatais.

Entretanto, nem todos os papeis de testemunhas silenciosas são trágicos. Em uma cena de Born in East L.A. (1987), duas crianças mexicanas são cúmplices silenciosas do protagonista, Rudy (Cheech Marin), quando ele tenta escapar de uma situação perigosa. Embora estas crianças latino-americanas sejam caracterizadas como pobres e maltrapilhas, ao menos dão uma contribuição positiva em sua breve aparição, ajudando o protagonista a escapar dos vilões atirando laranjas neles – laranjas que Rudy havia lhes dado por pena na cena anterior. Em outra cena, crianças mexicanas assistem Rudy “ensinar” homens chineses que desejam imigrar ilegalmente para os Estados Unidos. Os ensinamentos consistem em mostrar aos chineses como “passar” pela fronteira andando e falando como se fossem chicanos; a gíria “spanglish” e os movimentos que ele ensina são imediatamente imitados pelas crianças mexicanas.

Outro exemplo que embora não seja trágico é negativo, foi observado no filme da Disney Bad News Bears (1976).  Em uma cena, duas crianças latinas que tinham imigrado recentemente aos Estados Unidos são mostradas na periferia da trama em papéis sem fala. Como a criança inglesa protagonista do filme explica para um adulto do mesmo grupo racial, as crianças latinas estão silenciosas porque têm um inglês limitado, o que lhes torna sem atrativos enquanto companheiros de brincadeiras.

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Personagens violentas ou criminosas

Não somente as crianças hispânicas/latinas são apresentadas como testemunhas silenciosas do infortúnio, mas também são caracterizadas como personagens ou causas da violência e do crime. Em I Like It like That varias crianças hispânicas são retratadas levando uma vida de crime e conspirando para vender drogas. Em uma cena que ocorre em uma quadra de esportes, os membros de uma gang de jovens traficantes incomodam Little C (Thomas Melly), a criança mais jovem, e falam que se ele quer ganhar algum dinheiro eles permitirão que Little C trabalhe para a gang. Ele é pressionado a participar desta gang de jovens mais velhos como olheiro, enquanto eles estão vendendo drogas. Esta criança hispânica sente que é forcada a trabalhar tão cedo em função da pressão da gang.  Mas isto também acontece porque seu pai esta preso e, de acordo com os valores tradicionais de famílias hispânicas, ele se tornou “o homem da casa” e precisa assumir a responsabilidade econômica por sua família. Nesta situação, a atividade criminal torna-se o método encontrado pela criança hispânica para trazer dinheiro para casa.

Outro exemplo foi observado em Colors, que apresenta crianças hispânicas como membros de gangues. Em uma cena, um menino hispânico esta pichando uma parede quando é preso por um policial que então pinta o rosto da criança para humilha-lo. E no filme Lone Star, Amado (Gonzalo Castillo), um jovem hispânico, tem conflitos com a lei e é caracterizado como uma criança chata, que incomoda.  Ele termina o filme sob a custodia policial.

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Camponeses maltrapilhos

O camponês maltrapilho é uma das imagens mais comuns de crianças latino-americanas nos filmes de Hollywood. Esta categoria também se aplica à caracterização de algumas crianças hispânicas. Elas são apresentadas como desleixadas, vestidas pobremente, com pouca ou nenhuma educação, possivelmente com falta de motivação pela vida, e com problemas que poderiam leva-las à comportamentos negativos. Esta imagem é muito presente no gênero faroeste,  e tem se tornado comum também em filmes modernos de aventura.

Em inumeráveis faroestes,  crianças camponesas maltrapilhas são figurantes que atravessam as ruas ou observam do canto os heróis e os vilões cavalgando e duelando. Então, muitas crianças camponesas também atuam no papel duplo de camponeses e testemunhas silenciosas do destino do seu vilarejo ou do seu  ambiente.

Um caso recente neste gênero é Mask of Zorro (1998), estrelado por  Antonio Banderas como Alejandro Murrieta e Catharine Zeta-Jones como Elena Montero. Neste filme, que se passa no século XIX, quando a Califórnia ainda era parte do México, duas crianças (Alejandro Murrieta, interpretada por Jose Maria de Tavira, e Joaquim Murrieta, interpretada por Diego Sieres) são apresentadas como descuidados, tendentes à travessura órfãos que vivem nas ruas da Califórnia, e que mais tarde se tornam os homens mais procurados pela policia mexicana na região. Um exemplo em um filme moderno de aventuras pode ser visto em Romancing the Stone (1984), rodado em locações na Colômbia. Em uma cena, um menino é não somente uma criança camponesa pobre mas também um cúmplice do criminoso que seqüestra a heroína do filme, Joan Wilder (Kathleen Turner), e a entrega para os vilões traficantes.

Crianças hispânicas também são retratadas em papeis de camponeses, como no clássico filme Giant (1956), em que crianças são mostradas próximas de barracos sem condições de moradia. Essas crianças, cujas vidas parecem ser dominadas pela miséria, imundice e pobreza, são a máxima representação do desespero e da falta de esperança tão comumente relacionadas aos hispânicos em geral.  Em uma versão mais moderna do camponês maltrapilho, ainda que em um cenário urbano, é observada em The Pérez Family (1995), em que uma criança cubana-americana empobrecida corre nas ruas vendendo sapatos. Neste filme, a criança é recriminado por seu desejo sexual precoce. Em outras palavras, ele é também estereotipado como um amante hispânico jovem e fora de controle.

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Subordinados aos brancos

A classificação de subordinados aos brancos se aplica bem à maioria dos personagens hispânicos apresentados em quase todos filmes americanos, como também se encaixa na maioria das crianças hispânicas e latino-americanas representadas por Hollywood.  No caso de nosso estudo, esta é a categoria de crianças apresentadas como incapazes de resolver seus próprios problemas. Então, eles procuram ajuda e dependem do herói branco, de quem tornam-se fãs e amigos leais.

Este relacionamento é exemplificado em The Magnificent Seven (1960). Neste faroeste clássico, três crianças mexicanas tornam se aliados de um grupo de cowboys brancos—os heróis que estão ajudando o vilarejo camponês a derrotar os vilões mexicanos. Em uma cena, os garotos ate mesmo dizem a um dos cawboys brancos que eles colocarão flores em seu tumulo se ele morrer na batalha por trazer-lhes um futuro melhor. Estas relações se repetem em outro filme clássico Three Amigos (1986), onde uma criança mexicana coloca sua esperança em três amigos brancos. Eles são Lucky Day (Steve Martin), Dusty Bottoms (Chevy Chase), e Ned Nederlander (Martin Short), e irão salvar o vilarejo do vilão mexicano assassino El Guapo (Alfonso Arau). Embora os três amigos sejam somente atores trapalhões, são capazes de derrotar o mexicano malvado e ganhar a adoração da criança. Aos olhos da criança—e enquanto uma mensagem sutil do filme—ate mesmo gringos trapalhões podem derrotar um mexicano.

Em Giant, a relação de subordinação é evidente no roteiro, onde a protagonista inglesa, Leslie Lynnton Benedict (Elizabeth Taylor), se opõe às maneiras dominantes e exploradoras de seu marido fazendeiro Jordan “Bick” Benedict (Rock Hudson). Com isso ela ganha a adoração das crianças hispânicas/latinas e de suas famílias, que vivem em situação de pobreza, doença, e falta de infra-estrutura básica.

Personagens de animação negativos

Antes de fechar esta parte sobre os papeis negativos em que as crianças hispânicas/latinas tem sido representadas, é importante mencionar, mesmo que rapidamente, outra representação negativa em filmes. Nos referimos aos filmes em que personagens de animação apresentam traços evidentemente negativos de hispânicos ou de latino-americanos. A importância destes filmes é que sua principal audiência são crianças que podem inocentemente construir incorretamente as representações de hispânicos ou de latino-americanos.

Um exemplo disto é o filme da Disney Olivier and Company (1988). Este filme apresenta o personagem de um cachorro Chihuahua, Tito, que fala com uma voz alta, cheio de floreios, tem uma moral questionável, canta e dança no ritmo latino, e tem pavio curto e um temperamento explosivo. Em essência, ele representa o estereotipo do bandido latino e do bobão (veja Berg, 1990, 2002). Ironicamente, sua voz é do ator hispânico Cheech Marín. Sem duvida, os produtores do filme tiveram a intenção de apresentar este personagem em particular como hispânico, ou latino-americano. Mas não é um personagem simpático, muito menos um modelo positivo para as crianças hispânicas ou latino-americanas. The Lion King (1994), outro filme da Disney, apresenta uma situação semelhante com Banzai, um dos vilões caracterizados como hienas, cuja voz é novamente de Marín e cujos maneirismos são os estereótipos do bandido hispânico/latino. Infelizmente, o personagem mais uma vez projeta uma imagem negativa dos hispânicos/latinos que atinge uma audiência de todas idades.

Da mesma forma, no popular Dr. Dolittle (1998), estrelado por Eddie Murphy como Dr. John Dolittle, que da voz e atributos humanos a uma variedade de animais, os personagens que são evidentemente latinos são dois ratos mesquinhos. Eles apresentam repetidamente comportamentos desagradáveis, brigando constantemente e xingando com vozes claramente de sotaque latino. (o rato número 1 tem a voz de Reni Santoni; o rato número 2 tem a voz de  John Leguizamo). A mensagem que estes ratos oferecem é de que mesmo neste mundo do faz de conta, os traços que caracterizam os personagens hispânico/latinos são de segunda classe e sem moral.

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Algumas Imagens Positivas

Apesar da maioria das imagens de hispânico/latinos no cinema de Hollywood serem negativas, existem representações positivas ocasionais.[x] Os dois temas positivos observados foram crianças em ambientes estáveis e felizes, e refletindo alguma forma de assimilação do pluralismo na sociedade americana.

Um exemplo do primeiro tipo é evidente em partes de La Bamba (1987), em que o jovem Ritchie Valens, protagonista e herói do filme (representado por Lou Diamond Phillips nascido nas Filipinas), é apresentado cantando uma música de aniversario para sua irmã e amigos. As crianças hispânicas a sua volta estão felizes e limpas, e moram em uma vizinhança de boas famílias. Selena (1997) é outro filme que apresenta crianças hispânicas saudáveis e felizes, pelo menos durante uma parte do filme. Em uma cena, um grupo de crianças hispânicas saudáveis, limpas e bem vestidas são apresentados jogando futebol enquanto suas mães os assistem. É claro que a historia principal é a vida da cantora Selena Quintanilla, que na maior parte do filme é apresentada morando em uma comunidade positiva e de apoio social. Além disso, Selena (como criança representada por Becky Lee Meza, e como adulta por Jennifer López) mora em uma casa com ambos os pais e tem uma vida familiar estável e feliz.

Algumas das imagens da criança latina (Michael Malota) atuando em Don Juan de Marco (1995) também são positivas. O começo do filme mostra o jovem Don Juan como angelical, limpo e charmoso e adorado por muitas garotas latinas pré-adolescente, que são apresentadas bonitas e bem vestidas. Entretanto, a criança é mostrada somente no começo do filme e estas imagens positivas simplesmente anteciparam a transformação do jovem Don Juan em um amante latino adulto estereotipado.

Duas outras representações positivas dizem respeito à assimilação cultural. Um exemplo refere-se ao pluralismo—a afirmação da identidade latina/hispânica dentro do contexto da dominante cultura norte-americana—observado em Selena quando seu pai, Abraham Quintanilla (Edward James Olmos), explica ao jovem cantor que sua origem mexicana é uma parte muito importante de sua identidade. Ele a motiva e ensina-lhe a cantar em espanhol a partir de seu coração, o que lhe ajuda a manter uma identidade mexicana, mesmo falando inglês e gostando de estrelas americanas do rock-and-roll, como qualquer outra criança na sua idade. O pai de Selena lhe ajuda a acreditar que ela pode preservar valores importantes, guardando-os em seu coração. Em outra cena, a mãe de Selena lhe ensina a dançar ritmos de cumbia, que mais uma vez não a impedem de gostar das danças americanas mais populares. Estas são excelentes ilustrações de imagens positivas que envolvem a passagem da cultura de uma geração à outra, adicionando à dupla identidade de uma criança que é tanto mexicana quanto americana.

Muitas vezes a identidade da personagem é construída ou como hispânica ou como americana, sendo tratados como categorias excedentes. Uma exceção foi encontrada em Lone Star, onde irmãos discutem sobre este assunto. Ele acredita que ela assimilou demais a cultura americana e ela acredita que ele está exagerando no assunto de sua etnia mexicana-americana. Nenhum dos dois consegue ver que ambas as identidades podem co-existir na mesma pessoa. O filme, entretanto, apresenta as duas identidades de uma forma positiva.

Em outro filme que apresenta uma criança latina no processo de assimilação Sandlot (1993), atuam garotos de diversas origens étnicas, como italianos, irlandeses, afro-americanos e hispânicos/latinos entre outros. Nesta rara jóia de representações positivas, Benjamin Franklin Rodríguez representa Mike (cujo nome de nascença é Miguel Antonio Vitar), um líder, o melhor jogador de baseball e a criança mais equilibrada de todas. Ele é hispânico, mas sua etnia não é tema importante. Entretanto, apesar de ser o lider  de seu grupo, esta criança hispânica não é o protagonista nem a estrela do filme.

Para encontrar um filme com uma imagem positiva consistente de uma criança hispânica/latina como ator principal, temos que voltar quase meio século ao filme The Brave One (1956). Este filme conta a história de um jovem rapaz mexicano, Leonardo, que cria um boi e luta para protege-lo do matador quando os problemas econômicos de sua família lhe forçam a venda de seu “animal de estimação”. Entretanto, um ator britânico (Michel Ray) faz o papel de Leonardo, e outras crianças latinas no filme não são representadas positivamente. Ainda assim, este filme é a exceção notável no que é praticamente um vácuo de crianças hispânicas/latino-americanas como personagens do cinema de Hollywood. Considerando o reconhecimento deste filme, com um premio da Academia de historia original, pensaríamos que durante as últimas quatro décadas cineastas de Hollywood procurariam mais histórias que apresentassem—ou pelo menos precisassem de elenco—crianças hispânicas e latino-americanas em papeis positivos e significativos. Mas ao que parece, não foi o caso.

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Discussão

A representação de crianças hispânicas e latino-americanas nos filmes de Hollywood é uma área que definitivamente exige muito mais atenção. Este projeto de pesquisa exploratória—e o vídeo Little Eyes Are Always Watching, que os estudante produziram em conjunto com este pesquisa, revela claramente como os filmes de Hollywood negligenciaram ou representaram erroneamente crianças hispânicas e latino-americanas.

O cinema holywoodiano é parte de uma industria de entretenimento que por mais de um século tem lucrado milhões de dólares através da exploração cinemática do charme, fantasias e aventuras das crianças.  É quase inconcebível que somente um filme—produzido a quase meio século atrás—tenha apresentado uma criança latino-americana como herói (ainda que representada por um ator britânico). Nenhum filme, no passado ou presente (alem de Sky Kids e Spy Kids 2, mencionados na nota 11), apresentou positivamente e estrelou uma criança hispânica.

Nos filmes que revisamos fomos incapazes de encontrar uma criança hispânica ou latino-americana como herói ou heroína, os maiores filmes de sucesso de Hollywood. Nem mesmo com com seu premio da Academia, The Brave One chegou perto de tal distinção. Selena, que não foi um grande sucesso, mas foi pelo de lucro certo em regiões onde muitos hispânicos residem, inclui imagens positivas da estrela quando criança.  Todavia, tais imagens são rápidas e servem somente como fundo para seu triunfo como um ícone da musica Tejano. Além disso, o filme não foi o resultado criativo típico da industria do cinema, mas produto de produtores e diretores hispânicos que pressionaram Hollywood a contribuir para a realização do filme.

Não há duvidas de que o que encontramos nos filmes analisados, é extremamente negativo e representa uma lacuna, com resultados potencialmente prejudiciais. Porem, uma vez que há um vácuo de pesquisas empíricas sobre os efeitos das imagens de crianças hispânicas/latinas, nos absteremos de interpretar ou especular sobre as potenciais conseqüências que tais imagens podem ter para este crescente segmento de nossa sociedade. Nos absteremos também de especular sobre o que tais imagens negativas, ou sua ausência, poderiam fazer à construção da imagem de não-latinos sobre os hispânicos/latinos nos Estados Unidos e outros lugares.

Ainda assim, poderíamos levantar a proposição de que, sob certas condições, crianças hispânicas e latino-americanas podem ser afetadas em termos de sua auto-estima, senso de lugar na sociedade, relações familiares, motivação social e educacional e muitas outras áreas cognitivas e comportamentais (Cortés 2000). Da mesma forma, é também bastante possível que crianças não-latinas (assim como adultos) que tenham tido poucas experiências pessoais positivas com hispânicos ou latino-americanos tornem-se predispostas, por tais imagens negativas, a não compreendê-los bem e a desenvolver relações empobrecidas com os mesmos. É claro, que proposições como estas exigem pesquisas mais extensivas.

A partir do que aprendemos desta fase exploratória do projeto, podemos resumir alguns dos próximos caminhos que pretendemos desenvolver no futuro. Primeiramente gostaríamos de ser mais abrangentes em nossa busca e analise de imagens de crianças hispânicas e latino-americanas nos filmes de Hollywood. O fato de que nós e as pessoas que consultamos não conseguimos identificar outros filmes que incluam crianças hispânicas ou latino-americanas não significa que não hajam mais imagens dignas de analise. O mesmo se aplica à necessidade de maior analise sobre as crianças latinas em programas de televisão.[xi]

Em segundo lugar, o próximo passo da pesquisa deveria incluir perspectivas teóricas que possam auxiliar na categorização, interpretação e analise das representações e imagens das crianças hispânicas e latino-americanas. Certamente muitas teorias da semiótica, sociologia, psicologia, economia política, e relacionadas à mídia, poderiam ser utilizadas para a compreensão das representações. Pesquisas futuras poderiam aprofundar-se na gênese estrutural de tais imagens e seu efeito potencial ou real.

Além disso, tais analises deveriam avaliar cuidadosamente as semelhanças e diferenças nas representações de crianças hispânicas em comparação às de crianças latino-americanas. Os dois grupos foram combinados nesta pesquisa por conveniência, dado o numero limitado de filmes que foram avaliados. Entretanto, com um corpo maior de trabalhos a ser pesquisado, uma atenção mais cuidadosa deveria ser direcionada às representações das crianças das duas regiões e também aos contextos social, econômico, e cultural em que as mesmas são apresentadas. Discutir categorias de representações e seus exemplos não é suficiente para melhorar nossa compreensão de como hispânicos e latino-americanos, alem de suas culturas inter-relacionadas porem distintas, são mostrados em filmes hollywoodianos, assim como nos programas de televisão de vários paises.

Com recursos adequados, também valeria a pena analisar como crianças são apresentadas em filmes e programas de TV produzidos primeiramente por e para latino-americanos. As imagens contrastadas poderiam revelar muito sobre como as pessoas latinas são construídas no imaginário e apresentadas em distintos círculos de cinema e TV.

Uma tarefa adicional que eu e meus estudantes já estamos desenvolvendo em colaboração  com o National Latino Children’s Institute é de produzir um vídeo documentário educacional. O objetivo é de apresentar de uma forma critica, a historia e tipologia de imagens de crianças hispânicas e latino-americanas nos filmes de Hollywood (e possivelmente na televisão também). O documentário também objetiva oferecer coordenadas que auxiliem crianças e adultos, especialmente hispânicos/latinos, a interpretar e lidar de maneira construtiva com as conseqüências potencialmente danosas das imagens dominantes que as industrias de entretenimento disseminam no mercado geral, sobre crianças hispânicas e latino-americanas e suas culturas.

Concluindo, o tratamento de crianças hispânicas e latino-americanas nos filmes de Hollywood tem sido negligente tanto em qualidade quanto em quantidade em suas representações do mais jovem segmento de nossas comunidades hispânicas e latino-americanas. As dinâmicas políticas, econômicas, e culturais geradas pela mudança demográfica hispânica (e também latino-americana) nos Estados Unidos neste novo século, devem trazer alguns melhoramentos necessários no tratamento que filmes e outras industrias de entretenimento dão a minorias em geral, mas especialmente crianças hispânicas. Esperamos que nossa pesquisa e projetos complementares canalizem a conscientização sobre o problema e contribuam para sua mudança.

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Referências

[i]. Como recentemente me foi apontado por um de meus colegas, Prof. Neal Burns, professor do Departamento de Publicidade e Propaganda da UT-Austin, o comportamento de minha filha correspondia ao comportamento observado em crianças negras que preferiam brincar com bonecas brancas. O efeito psicológico do racismo foi discutido  décadas atrás em Brown v. Board of Education, o caso julgado na Suprema Corte norte-americana que contribuiu para a construção da subseqüente legislação anti-racista. Outros estudos seguiram-se, buscando apontar os efeitos psicológicos do racismo presente na media em crianças brancas e não-brancas (ver Berry and Mitchell-Kernan 1982). Nosso agradecimento especial ao Professor Burns pelo feedback a este manuscrito.

[ii]. E certo que as imagens da media já havia desempenhado um papel importante em sua visão sobre hierarquia racial, assim como contribuiu para um conceito negativo de si mesma como uma criança hispânica. Em nossas conversas, procurei conscientemente incluir assuntos relacionados ao papel da comunicação de massa, o que nos levou a saídas positivas em ambos sentidos—sua visão sobre a hierarquia racial e seu auto-conceito e identidade.

[iii]. Becky Barrera e o presidente e Bibi Lobo e o vice-presidente do Instituto Nacional da Criança Latina (National Latino Children’s Institute) localizado em Santo Antonio, Texas.

[iv]. Este programa e parte do Conselho Nacional de Fomento Educativo (CONAFE), o qual esta sob os auspícios da Secretaria de Educação.

[v]. Em adição ao priimiero autor deste trabalho, os seguintes professores da Universidade do Texas ministram cursos que focam primariamente hispânicos e de latino-americanos e mídia : Charles Ramírez Berg e América Rodríguez (Departamento de Radio, Television, e Filme), e Mercedes de Uriarte e Maggie Rivas-Rodríguez (departamento de Jornalismo). Outros professores que oferecerem cursos neste assunto sao: Ana López (Tulane University), Tomás López-Pumarejo and Juan González (Brooklyn College), Chon Noriega (University of California, Los Angeles), Diana Ríos (University of Connecticut at Storrs), Clemencia Rodríguez (University of Oklahoma), Clara Rodríguez (Fordham University), e Lucila Vargas (University of North Carolina–Chapel Hill). Para uma listagem parcial de professores hispânicos ou não que ensinam ou conduzem pesquisa no assunto ver o site do projeto “Latinos and Media” no endereço www.latinosandmedia.org.

[vi]. No segundo semestre de 1997, tres estudantes nesta classe (Pablo Castro, Elizabeth Hernández, e Rachel Strain) que pesquisaram o as imagens das crianças latino-americanas na media chegaram a conclusões similares.

[vii]. Na verdade, para nos dar assistência na pesquisa de tais imagens, nos contatamos alguns dos autores mencionados (Noriega, Keller, Berg por exemplo) quem haviam escrito sobre a caracterização de hispânicos em filmes. Ate mesmo as sugestões de tais autores foram limitadas, entretanto, e não contribuíram para adicionar significantes mudanças nas conclusões que já havíamos encontrado.

[viii]. No processo da pesquisa, nos observamos alguns imagens na TV validas para analises subseqüentes. Também pesquisamos antigos programas de TV que apresentavam crianças hispânicas como personagens, mesmo se somente por breve episódios. O primeiro será objeto para estudos futuros e o ultimo será incluído se/quando obtermos acesso aos arquivos históricos do programa.

[ix]. Tais poderiam ser incluídos em estudos subseqüentes e quase certamente seria revelador sobre a construção da imagem da criança hispânica no cinema latino-americano. Eles foram excluídos nesse momento devido a limitações de tempo e recursos humanos, assim como devido a sua restrita disponibilidade e circulação entre a típica audiência norte-americana (sejam expectadores hispânicos o não-latinos).

[x]. Indiscutivelmente, as películas que melhor têm representado as crianças hispânicas sâo Spy Kids (2000) e Spy Kids 2 (2002)—aventuras cômicas produzidas e dirigidas por Robert Rodríguez.  Em ambas as películas, repletas de efeitos especiais, os protagonistas e heróis são duas crianças hispânicas Carmen (Alex Vega, uma jovem atriz de origem hispânica) e Juni (Daryl Sabara, um jovem ator norte-americano).  O primeiro filme, sucesso de bilheteria por três semanas consecutivas, foi lançado logo após a conclusão da versão original em inglês deste artigo, na primavera do ano de 2000. O segundo filme tem estréia marcada para o meio do ano de 2002.  Estas películas claramente rompem os esquemas de negatividade e exclusão discutidos nas páginas anteriores. São merecedoras de estudos particulares que incorporem as análises críticas das outras películas de Hollywood que têm continuado a representar negativamente e de forma estereotipada as crianças hispânicas  e latino-americanas.

[xi]. No verão de 2000, o canal a cabo Nickelodeon anunciou que no segundo semestre de 2000 seria exibido Dora the Explorer (voltado para crianças em idade pré-escolar), Taina (visando atingir adolescentes) e The Brothers García (uma comedia ao estilo de The Wonder Years, estrelando três irmãos hispânicos; dois meninos e uma menina). Todos os três programas ultrapassaram as expectativas de sucesso entre o publico hispânico e não- hispânico.

 

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