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PCLA - Volume 3 - número 4: julho / agosto / setembro 2002

 

A Cultura Popular Fabricada em Laranjeiras

 

Osvaldo Meira Trigueiro
(Professor e pesquisador do DECOM/UFPB e
Membro da Rede Brasileira de Folkcomunicação, Brasil)


Laranjeiras não é só importante para a cultura nordestina e brasileira pela beleza do seu patrimônio de bens materiais mas também pela diversidade de suas manifestações folclóricas. A cidade que tem a maior concentração de grupos folclóricos do Estado de Sergipe realiza há 27 anos um dos mais importantes encontros Culturais do Brasil. Trata-se do Encontro Cultural de Laranjeiras.

O XXVII Encontro Cultural de Laranjeiras, sob a coordenação do pesquisador Luiz Sotelo, e realizado no período de 10 a 12 de janeiro de 2002, teve como tema central A fabricação da cultura: apropriação e expropriação.

O evento se divide em duas partes: uma festiva com as apresentações dos grupos folclóricos, exposições de artesanato, fotografias e oficinas culturais; a outra é a realização do simpósio com conferências e mesas redondas sobre a cultura popular na atualidade, com a participação de pesquisadores, estudantes e pessoas da comunidade interessadas nos estudos do folclore de várias partes do país e do exterior.

Este ano participaram como conferencistas e palestrantes: o pesquisador e presidente da Comissão Nacional de Folclore, Roberto Benjamim (PE); Luiz Antônio Barreto, pesquisador de Sergipe; Alberto Antunes Abreu, de Portugal; Aglaé Alencar (SE); José Maria Tenório (SE); Osvaldo Trigueiro, professor do DECOM/UFPB e membro da Comissão Paraibana de Folclore; Jerusa Pires Ferreira (BA); Jackson Lima (SE); Beatriz Góes (SE); Jorge Carvalho (SE); e Fernando Lins (SE) entre outros que se destacaram pelas suas participações no evento.

O evento acontece no mesmo período da realização da Festa de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito e dos Santos Reis. No domingo, em cortejo, os grupos folclóricos desfilam pelas principais ruas histórias da cidade em direção à igreja de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito para participar da celebração da Missa. Durante a missa solene os grupos folclóricos cantam e dançam no interior da Igreja de São Benedito cheia de devotos que também cantam, dançam e fazem as suas orações. Aqui a Missa de Reis além de ser um ato religioso é, também, um espetáculo popular.

O ponto alto da celebração da missa é a coroação do Rei e da Rainha da Taieira. A Taieira, é um grupo de dança de caráter religioso-folclórico, que sai em cortejo pelas ruas de Laranjeiras e que dança em homenagem ao São Benedito e Nossa Senhora do Rosário. Fazem parte do grupo a Rainha, reminiscência dos antigos reis de Congo, acompanhada dos seus ministros, capacetes e dançarinas, em direção à igreja onde é celebrada a grande Missa de dia de Reis. A coroação da Rainha da Taieira é uma cerimônia que se repete há várias décadas seguindo  o mesmo ritual. No final da missa o padre celebrante retira a coroa da imagem de Nossa Senhora do Rosário e coloca na cabeça da Rainha da Taieira. Nesse momento os sinos da igreja tocam, fogos estouram e os grupos folclóricos dançam e cantam louvores para os Santos e para a Rainha da Taieira. Os Cacumbis, a Chegança, o São Gonçalo, o Reisado e tantos outros grupos folclóricos se apresentam diante do altar principal da igreja para prestar  homenagens aos santos de sua devoção. É uma festa de muitas cores, músicas e danças. É uma hibridização do sagrado e do profano bem marcante da cultura afro-brasileira manifestada no catolicismo popular  nordestino.

Logo no início do ano (o último dia do encontro sempre acontece no dia 6 de janeiro) Laranjeiras concentra talvez o maior número de grupos folclóricos por metro quadrado na região nordestina. É uma oportunidade singular para quem gosta de ver um espetáculo organizado pelo povo e também para quem tem interesse em pesquisar a cultura popular do Nordeste. 

Quem desejar conhecer a cidade de Laranjeiras, principalmente na época da realização do Encontro Cultural, não terá dificuldades de hospedagem e de fazer boas refeições nos restaurantes típicos. Fica próximo de Aracaju, tem várias opções de restaurantes, do churrasco a moda gaúcha e do tradicional amarradinho de bode, aos apetitosos peixes, camarões, pitus, caranguejos, ensopadinho de aratu e, para acompanhar todas essas iguarias, um bom aperitivo de cachaça com caju. Para encerrar o almoço ou jantar uma sobremesa de doce de caju, de leite, de banana ou o famoso doce de queijo.

A cidade sergipana de Laranjeiras, localizada a 23 km de Aracaju, teve a sua colonização iniciada no século XVII e tornou-se o berço da economia da Província. Essa cidade histórica foi um importante centro de produção da cana-de-açúcar e do comércio de escravos na região nordestina. Até hoje as marcas culturais dos brancos colonizadores e dos negros escravos estão presentes como resultado da produção dos derivados da cana-de-açúcar e da grande concentração de negros no município.

A cidade guarda em seus monumentos traços marcantes dos jesuítas e dos africanos que tiveram grande influência na cultura e religiosidade da região. É a segunda cidade histórica mais importante do Estado de Sergipe e abriga no seu território importantes monumentos arquitetônicos do período colonial.

  A igreja de Nossa Senhora da Conceição da Comandoroba, de 1734, a do Sagrado Coração de Jesus, do século XVIII, a de Nossa Senhora da Conceição dos Pardos, do século XIX, Igreja Nossa Senhora do Rosário e São Benedito da primeira metade do século XIX e tantos outros prédios que contam a história do seu povo.

  É interessante visitar o Museu de Arte Sacra, o Museu Afro-Brasileiro, a Casa de Cultura João Ribeiro, a Gruta da Pedra Furada – que serviu de refúgio para os escravos fugitivos e posteriormente para as meditações dos jesuítas –, os arcos da Ponte Nova construída em 1882 e os da Ponte do Cangaleicho. Outra pedida é visitar o Mercado Municipal (uma construção do século XIX em estilo gótico) de preferência no dia da feira. A feira é um verdadeiro museu a céu aberto que acontece aos sábados e ainda tem fortes características das feiras medievais. Também se deve conhecer o Porto do Trapiche que na época colonial foi utilizado para desembarque dos escravos e embarque da produção açucareira dos engenhos da região. Atualmente no Trapiche funciona o Centro de Tradições Culturais.

 

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