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PCLA - Volume 3 - número 4: julho / agosto / setembro 2002

 

A IGREJA CATÓLICA, A MÍDIA  E A EDUCAÇÃO POPULAR:
O MEB: a
utopia destruída

Aparecida Ribeiro dos Santos
(Mestre em Comunicação Social pela Universidad
 Metodista de São Paulo e professora da Faenac, Brasil)


Principais links

Resumo

Introdução

Aspectos históricos

A educação à distância no Brasil: MEB - pioneirismo

A estrutura do MEB

Objetivos

O radio – a serviço da alfabetização de adultos

O povo da MEB

As relações do MEB e seus efeitos

O MEB e suas relações externas

O MEB e o sistema de Paulo Friere

O fim da utopia

Considerações finais

Referências bibliográficas


Resumo

Objetiva-se, neste trabalho, evidenciar-se o papel relevante que o Movimento de Educação de Base, com o apoio da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros desempenhou no âmbito educacional, mais precisamente no programa de  alfabetização de adultos.
Havia como propósito máximo além da educação, abrir-se caminhos para a libertação de milhares de homens e mulheres que ao viverem na ignorância tornavam-se vulneráveis aos desmandos ditatoriais.
A mídia desempenhará um significativo papel na difusão da Educação de Base. O rádio de pilha será o meio mais utilizado neste período e as redes de rádio ligadas à igreja católica desde o início serão utilizadas pelo MEB-  no fim da década de 50- a fim de chegar-se com o programa de alfabetização aos lugares mais recônditos do país. No entanto, o Movimento de Educação de Base foi vítima e sucumbiu em 1964 à ditadura militar que destruiu a Utopia de levar educação e liberdade de expressão à população dos campos, dos cerrados e do sertão tão sedenta da sede do saber.
 
Palavras Chaves: MEB,  Igreja Católica, Ação Católica, Sistema Radioeducativo.


Introdução 

“Considerando as dimensões totais do homem, entende-se como Educação de Base o processo de autoconscientização das massas, para uma valorização plena do homem e uma consciência crítica da realidade. Esta educação deverá partir das necessidades e dos meios populares de libertação, integrados em uma autêntica cultura popular, que leve a uma ação transformadora. Concomitantemente, propiciar todos os elementos necessários para capacitar cada homem a participar do desenvolvimento integral de suas comunidades e de todo o povo brasileiro”.

(MEB- Nacional- Relatório do I Encontro de Coordenadores, Recife, 1962).

No século XV, um humanista, Grande Chanceler do Reino de Inglaterra, Tomas Morus sonhou com um pais –  que é uma ilha - onde todos seriam iguais; onde ninguém iria passar fome. Onde todos iriam receber educação. Essa ilha chama-se Utopia. Tomas Morus acabou sendo assassinado pelo rei Henrique VIII. Antônio Conselheiro, no Sertão da Bahia, criou esta ilha,  Canudo, que foi destruída pelo exército da República. O Movimento de Educação de Base com apoio  da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB) elaborou um plano  de educação nacional com objetivo de abrir caminhos para a libertação de milhares de homens  e mulheres, de jovens e adolescentes, pela Educação de Base. Mais uma vez,  a Utopia foi destruída pelo movimento militar de 1964. A Utopia  promove o crescimento de cada pessoa dentro da comunidade. Por estas razões, ela  incomoda e precisa ser afogada .

A fim de analisarmos concretamente o que significou o MEB no seio da sociedade brasileira utilizaremos a pesquisa bibliográfica centrada na obra Educar para Transformar de Luiz Eduardo W. Wanderley e outras que julgamos relevantes em nosso processo de análise.

A escolha pela pesquisa bibliográfica qualitativa pareceu-nos adequada a fim de entendermos o estudo do fenômeno que envolve o homem e suas diversas articulações no meio social. Este tipo de pesquisa caracteriza-se pela integração que se estabelece entre o fenômeno- no caso o MEB-  e o meio em que este ocorre e do qual é parte.

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Aspectos historicos

O MEB nasceu  da visão humana, utópica e apostólica do Episcopado Brasileiro  através da CNBB.   Em 1958, numa carta de princípios, a Igreja Católica do Brasil  afirma: “O nosso drama não é só alfabetizar. Junto a isto há urgência de muito mais: urgência gritante  de se abrirem aos nossos camponeses, operários  e suas famílias, as riquezas da educação de base, fundamental, educação que chamaríamos  de cultura popular, a qual tende a fazer  o homem despertar para seus próprios problemas, encontrar suas soluções, aprender a comer bem, a defender sua saúde, a manter boas relações  com seus semelhantes, a andar com seus próprios pés, a decidir  seus  destinos, buscar sua  elevação cívica, moral, econômica, social e espiritual. É esta a escola que temos de jogar no seio das populações camponesas e operárias, através de seus métodos  próprios já experimentados e vitoriosos” (Apud Wanderley, 1984, p. 59).

A filosofia  do MEB enraíza-se  na doutrina social da Igreja desenvolvida em vários textos desde a Encíclica  “Rerum Novarum” do Papa Leão XIII, até a mais  recente “Mater et Magistra” de Paulo VI. Mas também o MEB soube aproveitar o trabalho desenvolvido pela Ação Católica particularmente JUC,  JOC e JAC. Adaptou  a pedagogia do “Ver, Julgar e Agir” à educação de base. Não se pode também negligenciar a influência determinante  de duas correntes filosóficas humanistas  nascidas  nos anos 30 e 40 da resistência as diversas formas de totalitarismo,  falamos do Existencialismo Cristão  de Gabriel Marcel  e do Personalismo de Renouvier, Mounier,  Lacroix et Ricoeur. Estes pensamentos tiveram grande impacto com certos intelectuais brasileiros. Para o Personalismo ,  quando se fala de pessoa trata-se sempre de uma pessoa intimamente ligada a uma comunidade. Basta para se convencer  fazer o levantamento das palavras chaves do MEB: pessoa, conscientização, cultura, consciência histórica, comunidade, povo, animação popular, desenvolvimento.

O MEB acredita muito no uso da Mídia “O teatro o cinema, assim como o rádio, podem ser valiosos  meios de desenvolver  a cultura e politizar o povo. A televisão é um valioso  instrumento para motivar e orientar a cultura popular, principalmente em uma civilização  que conquista mais horas de lazer”. ( Apud Wanderley 1984, P. 329) Aproveitando a popularização do rádio de pilha, o MEB desenvolve toda uma didática baseada no rádio.  Desde o início das suas atividades o MEB utiliza a rede das emissoras  católicas para  as áreas  do Norte,  Nordeste e Centro- Oeste do Pais.

O relatório de 1963 do MEB Nacional descreve  de maneira bastante clara  as caraterísticas  do Sistema Radioeducativo: “O Sistema Rádio educativo é constituído por uma rede de núcleos com recepção organizada de programas educativos especialmente elaborados , com supervisão periódica, com trabalho de comunidade  e escola. Para o funcionamento desses sistemas  são necessários: - um estudo prévio da área em que vai atuar, - a escolha e o treinamento  de pessoal das próprias comunidades para a direção das atividades, - a realização de uma supervisão periódica que acompanhe o desenvolvimento das escolas e comunidades e a eficácia da programação. Teoricamente cada Sistema deveria realizar o trabalho de produção e emissão de programas, mas há Sistemas em que as equipes utilizam a programação de um Sistema próximo por não disporem de emissora para elaborar seu programa de atuação, a Equipe Local empreende  um levantamento da área a ser atingida, usando técnicas de estudo de área. Durante este trabalho, as comunidades  são, ao mesmo tempo, motivadas para participarem de ação educativa do MEB, enquanto a equipe colhe dados para seleção de futuros animadores voluntários das comunidades. Delimitadas a área de atuação, a Equipe Local treina os futuros animadores e planeja com eles, o trabalho a ser executado. Iniciada a ação,  a Equipe mantém contatos constantes com as comunidades em que  se desenvolve o programa, supervisionando e coordenando todo o trabalho” (Apud Wanderley, 1984, p.58).

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A educação à distância no Brasil
MEB – pioneirismo

No Brasil, várias experiências foram realizadas na área de Educação a Distância . As primeiras experiências relatadas e que tiveram êxito foram a do Instituto Rádio- Monitor em 1939 e, após, o Instituto Universal Brasileiro, em 1941. Um outro importante projeto relatado na Educação a Distância Brasileira, e que será objeto de nosso estudo, foi o do MEB- Movimento de Educação de Base- em que o principal objetivo era fornecer alfabetização para jovens e adultos. A instrução era oferecida por meio de programas de rádio sendo disponibilizados principalmente nas regiões norte e nordeste do Brasil.

O Movimento de Educação de Base desenvolveu-se a partir das atividades educacionais veiculas pelo rádio, que contavam com o apoio do episcopado nas arquidioceses de Natal e Aracaju.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) incentivada pelo apoio recebido neste projeto educacional objetivou expandi-lo em todo território nacional. O projeto, então, torna-se oficial com o Decreto 50370 de 21 março de 1961, no qual   "O Governo Federal forneceria recursos através de convênios com órgãos da administração federal- para serem aplicados no programa da CNBB , através do MEB e utilizando a rede de emissoras católicas, para as áreas do norte, nordeste, centro- oeste do país". ( Wanderley, 1984, p.48)

Tal ação educacional estendeu-se para as áreas mais subdesenvolvidas do país e " O Governo Federal acordava em conceder canais radiofônicos aos bispos a fim de difundirem a educação de base, assim como requeria funcionários federais e autárquicos para ingressarem no MEB".

Há de ressaltar-se o importante papel da UNESCO  que fomentava a criação de projetos educacionais- visando sobretudo aos de alfabetização de adultos.

Muitas são as versões a respeito dos objetivos do Governo e Da Igreja na participação desse  projeto educativo.

Segundo D. Távora- presidente do MEB- no texto apresentado ao episcopado reunido em Roma, em novembro de 1963, por ocasião do Concílio.

 “A idéias da Igreja a serviço dos pobres,  inspira totalmente, a linha de pensamento e ação  do MEB...O MEB não nasceu para ser uma campanha contra o analfabetismo. Chegaremos lá, para destruir essa contigência de nossa história andamos abrindo caminhos para libertação de milhares de homens e mulheres, jovens e adolescentes, pela Educação de Base... A sua validade está em que cada homem a quem ele ajudou a abrir os olhos descubra os seus problemas, usando sua iniciativa e andando com os próprios pés, conscientemente. ( Wanderley, 1984, p. 220)  

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A estrutura do MEB

Havia um Conselho Diretor Nacional ( CDN), composto de sete bispos e arcebispos e dois leigos, sendo um representante do presidente da República. Em cada  estado havia um Conselho Diretor Estadual (CDE) congregando os bispos das áreas onde funcionava o MEB em âmbito estadual.

Cada sistema local era de responsabilidade de um bispo diocesano. Os leigos contavam com a Comissão Executiva nacional (CEN), dependente do CDN, que orientava e coordenava as atividades das Equipes Estaduais (EE), das quais dependiam as Equipes Locais (EL).

A direção do MEB compunha-se pela Diretoria Executiva - um presidente, vice-presidente do CDN e por um secretário. A unidade nuclear do Movimento era o Sistema de Educação de Base, o Sistema Radioeducativo, que atingia uma área determinada.

Era de competência de cada Sistema  selecionar e treinar as comunidades em seu raio de ação.

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Objetivos

Adequar o trabalho à realidade e acompanhar realmente as comunidades; efetuar-se um levantamento da situação local e regional de uma dada área geográfica. Tal conhecimento - in loco - permitia  um conhecimento do todo, ou seja, da real situação das comunidades, partindo-se da observação concreta de seus valores, recursos, problemas, o que propiciava uma interação que se mostrou fundamental entre a intelectualidade que compunha o MEB e os cidadãos simples- por vezes- analfabetos das comunidades estudadas.  

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O radio – a serviço da alfabetização de adultos
O rádio foi o veículo de difusão do projeto educacional de alfabetização idealizado pelo MEB. Havia 6.218 escolas radiofônicas. O MEB devido a precariedade das comunidades rurais fornecia os receptores transistorizados, com freqüência cativa, a primeira carga de pilhas, ficha de matrícula e de freqüência- colaborando, ainda  na instalação do receptor de antenas, fios e pessoal especializado.

Segundo Wanderley (1884, p. 55): " As rádios escolas radiofônicas eram instaladas nas residências dos monitores, localizadas em zonas rurais e atingindo pequenos agrupamentos demográficos, onde nunca houvera antes uma iniciativa educacional. As escolas radiofônicas pertenciam às comunidades e não ao MEB".

A programação das aulas radiofônicas objetivava atingir à massa camponesa. A princípio de  adultos, mas que segundo dados de 1963 a 1964- 655 dos alunos tinham entre 15 e 30 anos e 20% tinham menos de 15, e 15% mais de 30 anos.

A linguagem utilizada no programa de alfabetização visava muito mais que o aspecto educacional- ou seja- o ato de ler e escrever. Pretendeu-se acima de tudo, ser uma fonte de inspiração para o homem do campo no que tange à conscientização deste da importância da liberdade do pensamento- e que o camponês pensava- e deveria ser ouvido no âmbito de sua comunidade e além dela.

"A alfabetização foi compreendida desde logo no movimento como integrada à conscientização... Procurando dar uma visão transcendental do homem e despertando –o para os engajamentos concretos em organizações profissionais , organizações de classes e grupos que visem ao desenvolvimento das comunidades". ( MEB- Nacional O Conjunto Didático “Viver e Lutar”, 1964 apud Wanderley, 1984, p. 54)

O conteúdo programático das aulas priorizava a realidade concreta do homem do campo a fim de que pudesse desenvolver habilidades de cálculo, lingüística, assim como conhecimento sobre saúde, trabalho agrícola, esses conhecimentos , revertidos para o seio da própria comunidade.

No MEB, o grande projeto a ser desenvolvido era o da pessoa humana. Relevava-se a pessoa colocando-a como o cerne de todos os seus objetivos educacionais.

O conceito de pessoa nas palavras de Wanderley( 1984,p.334) surge na antigüidade e valoriza-se nos documentos pontifícios.
Em uma convivência humana bem constituída e eficiente, é fundamental o principio de que cada ser humano é pessoa, isto é, é natureza dotada de inteligência de vontade livre... A pessoa humana é e deve ser o principio , o sujeito e o fim de todas as instituições sociais...

Para a Igreja sendo todo o homem a “imagem de Deus” passa a defender a dignidade humana como um direito natural. A Igreja no mundo de hoje, proclamada no Concilio Vaticano II confirma o  eixo diretivo do homem como imagem de Deus na perspectiva bíblica.

Lembrando que o homem é constituído de corpo e alma. Portanto, pautada nessas diretrizes da pessoa humana a Educação de Base transcendeu o aspecto puramente educacional de difundir às pessoas conhecimentos básicos que lhe seriam úteis em seu dia a dia no interior de sua comunidade.  Transcendeu, porque passou a relevar a pessoa humana, o sujeito como construtor de sentidos a partir da sua conscientização, de sua natureza histórica, do social e do político que o norteava.. Assim sendo, estabeleceram formas de mobilização populares que produziram ações de mudanças da sociedade capazes de estabeleceram as bases sociais de afirmação e da realização e dignidade da pessoa humana.( Wanderley, 1984, p.336)

Entenda-se nesse processo que toda emancipação triunfal do sujeito- do cidadão passa pela educação que liberta . A Educação  de Base  pretendia, portanto educar o homem  para que esse se emancipasse com dignidade. Segundo Brandão ( 1977, p. 34,35) a Educação de Base procurava desenvolver uma consciência critica, com pelo menos 3 atributos:
a) que ela seja um reconhecimento de dimensões  da  pessoa, comunidades, etc. A partir dos próprios valores dados e existentes na cultura do povo;
b) que ela seja um ponto de partida crítica de valorização desta própria cultura e do conjunto de relações sociais que a conserva como é;
c) que ela seja o princípio de uma integração do aluno - agente  conscientizado em grupos e em situações de trabalhos comunitários e de classe em vista a uma ação política ao mesmo tempo crítica e eficaz.

Abaixo reproduziremos alguns textos do patrimônio do MEB :

“A educação de base tem como finalidade tornar o homem consciente do que ele é, isto é, das exigências de sua natureza de homem, e de que de acordo com a época e lugar, deve ser feito para que essas exigências sejam atendidas.
Assim , hoje, cabe à Educação de base formar o homem brasileiro, tornado-o consciente do que ele é, do seu valor de pessoa dentro do subdesenvolvimento em que vive.
Tornar esse homem capaz de colocar a realidade de modo a atender a todas as exigências de sua pessoa.
(...) O homem está colocado na natureza , isto é, no mundo. Pelo seu corpo ele também faz parte do mundo, pois seu corpo é matéria, como o mundo. Porém o homem não e só corpo, só matéria. Ele tem em si alguma coisa completamente diferente da matéria, o que faz com que ele seja superior, que ultrapasse a tudo que é do mundo: é a consciência.
Por causa de  sua consciência é que ele é capaz de dar um sentido, um significado àquilo que ele está fazendo. E esse significado dado pela consciência de um deve servir a todos os outros.
O homem, além de parte material, possui uma outra espiritual que o torna superior a tudo no mundo e que tem uma porção de exigências.
O homem pelo seu corpo, é matéria por isso ele precisa de condições materiais para viver; alimentação,, moradia, assistência médica, roupa, instrumentos de trabalho, etc.
Mas não basta apenas isso não se pode parar ai. O homem é também consciência, tem também uma parte espiritual. Portanto, é preciso levar em conta as exigências da consciência do homem: respeito a sua pessoa, à dignidade, ao valor que cada um tem: liberdade de escolher, de resolver pensando não só nele, mas em todos; direito de escolher,e possibilidade de cada um participar das decisões da vida política do pais “
 (MEB- Escolas Radiofônicas, I Congresso Estadual de Monitores- Goiás, Tema II- Cultura e Educação de base, pontos para debates com os monitores, dezembro de 1963).
Segundo Wanderley ( 1984, p. 342) há nestas idéias uma aproximação com a concepção gransciana, cujo pressuposto é efetuar a existência de uma natureza humana abstrata, fixa e imutável. Inserindo-se numa amostra de Marx  de que a natureza humana é o conjunto de relações sociais historicamente determinadas, que o homem é o processo de seus atos.
Gransci segundo Wanderley observa que se a síntese é individual , o processo de formação e de desenvolvimento pressupõe uma atividade dirigida ao exterior, para outros homens e o ambiente. Por isso poder-se dizer que o homem é essencialmente político, porque na atividade de transformar e dirigir conscientemente aos outros homens realiza sua humanidade e sua natureza humana
Toda essa relevância do papel do homem consigo próprio e com o mundo passava a ser conflitante com as doutrinas da igreja que norteavam o Movimento e a práxis utilizada por ela.
Segundo Wanderley (1984, p. 342) tudo isso era feito dialeticamente, variando de intensidade e de ritmo segundo as condições concretas das regiões e das equipes.
Ainda que nas suas práticas o Movimento se centrasse nas relações sociais, o prisma privilegiado era sempre o das relações intraindividuais, na consciência histórica. Segundo Vaz : "
Para a consciência cristã, o fundamento de toda a ação histórica é a referência a Cristo como centro absolutamente pessoal e concretamente universal da História." (1966, P. 346)
Brandão (1977, p. 34, 35) afirma que foi o MEB por meio da visão cerista do homem e do mundo- personalista- que introduziu a história na educação popular. Sendo que as mudanças que eram as de espaço, como região, nação seriam as das passagens de um tempo histórico para “outro de um mundo sem justiça, para um mundo regido pela justiça”( 1977, p. 34)

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O povo da MEB

O povo dentro do MEB assume um papel e um significado muito mais amplo do que o indivíduo ou classe em especial. O povo no MEB era sobretudo aquele pertencente às classes exploradas e desfavorecidas - os  oprimidos-  representados principalmente pelos trabalhadores rurais- que secularmente estiveram marginalizados da e na sociedade brasileira.
Segundo Wanderley ( 1984, p 348)  era um povo situado numa realidade nacional e latino-americana, dependente da realidade internacional, vivendo sob estruturas impostas que o marginalizavam e impediam a sua participação no processo histórico de mudança social e de desenvolvimento do país.

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As relações do MEB e seus efeitos

Se a educação é uma comunicação entre sujeitos- e não mera transposição – ela terá de se ocupar da construção de condições para que o educando recrie a cultura. Consistirá, sobretudo em armar problemas, em cuja solução o educando exercitará o seu papel de sujeito criador.
Uma tal educação rejeitará as exposições dogmáticas para exercer o seu papel legitimo de causa instrumental de aprendizagem, através da qual o educando reconstrói  a cultura, pondo-se em condições de poder inovar. Portanto, só assim participará efetivamente das tarefas de elaboração e significação da cultura , que lhe são inerentes por sua condição humana.      

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O MEB e suas relações externas

Houve algumas idéias e elementos vindos de fora que provocaram reflexões e modificaram o dinamismo interno do movimento.
Destacam-se entre elas:
a)   a experiência de Sutileza, realizada na Colômbia pela “Accion Popular Cultural”com escolas radiofônicas, que serviu de marco para as primeiras atividades em Natal;
b)  alguns elementos metodológicos vistos na França, cabendo referência aos contatos com O Institut des Recherches et d’ Applications des Méthodes de Développement;
c)  as experiências de animação popular realizadas no Senegal e Marrocos;
d)  com menor força , a literatura sobre educação de adultos da UNESCO e outras agências especializadas de várias partes do mundo;
e)  a experiência de “Missiones Culturales Mexicanas” que serviram como idéia para as “Caravanas de Cultura popular”;

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O MEB e o sistema de Paulo Freire

Uma referência externa, mas de dentro do país faz-se necessário mencionar: O Sistema Paulo Freire.  No MEB havia duas correntes discordantes a respeito da utilização do Sistema de Paulo Freire pelo Movimento. A primeira dizia que não houve qualquer influência, outra de que certas influências seguidas por Paulo Freire foram assimiladas, ainda que modificadas no contexto e na dinâmica do MEB, tais como, o não-diretivismo, o conceito antropológico de cultura, a força do dialogismo em contraposição ao monólogo do professor - locutor.- que tinham em comum o fato de ambos serem renovadores e não tradicionalistas, quererem as mudanças necessárias, feitas com o povo e priorizavam  a idéia de que não havia homem objeto, mas tão somente homem sujeito., que cada pessoa descubra seus problemas, os problemas de sua comunidade, conheça seus direitos , deveres, saiba tomar iniciativas a agir conscientemente.

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O fim da utopia

À medida que o movimento tornava-se expressivo no exterior; a cordialidade e a amizade existentes  nos primeiros anos esvanecia-se . Em certas equipes iniciou-se um processo de restrições a pessoas determinadas, por suas posições e opções políticas, restrições essas que vinham de dentro e de fora  da Igreja e que foram acirradas depois de abril de 64. Quando membros foram pressionados a abandonar o Movimento.

Outro fator predominante para o fim da utopia foi o de que gradativamnete o MEB ia de encontro aos interesses estabelecidos pelos grupos e classes dominantes, pois fortalecia um ideal contra hegemônico tendo à frente as classes populares . Desencadeou-se, portanto, conflitos e reações.

Alguns setores da opinião pública ligados aos grupos de interesses hegemônicos passaram a criticar abertamente e veladamente o MEB . Esses grupos representavam ora a defesa das classes dominantes ora o medo dessas classes de uma tomada de posição do homem do campo, secularmente servil, ora o medo que a “ordem e o progresso” da nação fossem imaculados por meio da programação radiofônica, dos textos e dos discursos dos animadores do MEB.  A forma de reagir e aos conflitos surgiam de acordo com os interesses pessoais desse setores da sociedade. Segundo Wanderley ( 1984, p. 435) a reação desses grupos centrava-se na atividade dos programas radiofônicos e das práticas variadas dos monitores e animadores de comunidade que pregavam uma práxis destoante das normas e comportamentos vigentes dos proprietários.

Ainda, citando Wanderley o combate se dava contra tudo  aquilo que as autoridades e os políticos que os representavam percebiam com ou menor sensibilidade como conflitantes aos seus interesses de classes ou individuais. Por exemplo eram rechaçadas quaisquer iniciativas ou campanhas em prol de reforma agrária; da propriedade social; do voto do analfabeto; da reforma de base; do sindicalismo rural; qualquer processo educativo que questionasse o sistema vigente ou as causas de miséria, etc...

O MEB posicionava-se contra essa investida reagindo internamente procurando demonstrar aos bispos os princípios morais de sua práxis. No entanto, um acontecimento, em 1964 fez com que a reação tomasse proporções  externas . Foram apreendidos 3.000 exemplares do livro
Viver e Lutar  por ordem do Governador da Guanabara , Carlos Lacerda devido a denúncias quanto ao seu teor comunista. As reações que se seguiram foram desde o radicalismo dos grupos antagônicos ao MEB que creditavam à obra uma propaganda panfletária comunista aos defensores do MEB que combatiam a ilegalidade da atitude do governador e seu governo e elogiavam a identificação da mensagem cristã com os menos favorecidos.

Houve também reação da esquerda posicionando-se a principio contrária ao MEB, pois acreditavam que sua práxis pedagógica levava a uma modernização e ao reformismo. Posteriormente, reconhecem a importância do MEB pelas causas libertárias, principalmente depois do episódio da apreensão da obra Viver e Lutar. A partir disso  conjugam esforços para que um diálogo aberto se estabeleça e possam construir um trabalho coletivo em certas atividades.

Depois de 1964 a repressão atinge em cheio o MEB com invasão de escolas, destruição e confisco de material,  prisão de monitores e de integrantes das equipes. A CNBB assume uma postura contraditória; primeiro repele as acusações feitas ao MEB e a outros grupos da Igreja, mas pressionados por tradicionalistas abre o flanco a repressões personalizadas.

Segundo Wanderley (1984, p444) todo período posterior será pleno de ambigüidades,  tensões com os bispos locais e alguns representantes do CDN que pouco a pouco vão descaracterizando os objetivos iniciais e a orientação assumida no passado recente, ainda que as equipes dos Sistema fizessem, de tudo para manter a perspectiva anterior . Concomitantemente, o Movimento que sempre enfrentou uma dura realidade financeira terá sua situação exacerbada em 1964 quando recebeu somente 42% da receita, em 1965 com corte substancial, e em 1966 com apenas 20% da verba solicitada. O que ocasionou a falência de programas primordiais.

Todo movimento que depende de recursos estatais em grande escala, exclusivamente como naquele período, em grande porcentagem do orçamento como no atual, vê-se tolhido no sentido e nas práticas para criticar o sistema, efetuar denúncias, exigir reformas estruturais. E com maior razão depois de 1964, quando o governo via com dúvidas a ação do MEB e quando progressivamente o Estado foi se transformando num regime excludente de participação popular.

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Considerações finais

O MEB tinha como propósito, uma práxis pedagógica diferenciada das tradicionais quanto a alfabetização de adultos, pois por meio de seus agentes intelectuais, do conteúdo das aulas veiculadas no programas radiofônicos, dos locutores e dos animadores das comunidades buscou e priorizou uma educação que estivesse sintonizada com a realidade nua e crua do homem do campo.

O MEB, ainda foi o responsável pelo afloramento da cultura popular- o saber popular tão negligenciado pela sociedade intelectual- urbana. Que via qualquer manifestação popular como algo burlesco e  sem sentido num país que pretendia ser uma nação industrializada.

Mas, talvez a maior contribuição do movimento tenha sido o de centrar seu projeto educacional na pessoa, de colocar-se o homem como sujeito de seu destino, um sujeito crítico, construtor de sentidos, com uma consciência libertária que o fazia encontrar dignidade em seu trabalho no campo e na comunidade em que vivia.

Quando a educação releva o sujeito, quando este se torna o cerne do processo de edificação do conhecimento há a possibilidade   da construção individual tornar-se autônoma, dialógica, polifônica, não egocêntrica do ser em direção ao coletivo- fazendo com que cada um envolvido no processo abra caminho para a gênese de um novo homem.

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Referências bibliográficas
Brandão, C. R. Os deuses do povo. São Paulo, Brasiliense, 1980.
Wanderley, Luiz Eduardo. Educar para transformar. Igreja Católica e Política no Movimento de Educação de Base. Petrópolis. Vozes, 1984.

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