
PCLA - Volume 3 - número
4: julho / agosto / setembro 2002
A IGREJA CATÓLICA,
A MÍDIA E A EDUCAÇÃO POPULAR:
O MEB: a utopia
destruída
Aparecida Ribeiro dos Santos
(Mestre
em Comunicação Social pela Universidad
Metodista de São Paulo e professora da Faenac, Brasil)
A educação à distância no Brasil: MEB - pioneirismo
O radio – a serviço da alfabetização de adultos
As relações do MEB e seus efeitos
O MEB e o sistema de Paulo Friere
Objetiva-se,
neste trabalho, evidenciar-se o papel relevante que o Movimento de Educação de
Base, com o apoio da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros desempenhou no
âmbito educacional, mais precisamente no programa de
alfabetização de adultos.
Havia como propósito máximo além da educação, abrir-se caminhos para a
libertação de milhares de homens e mulheres que ao viverem na ignorância
tornavam-se vulneráveis aos desmandos ditatoriais.
A mídia desempenhará um significativo papel na difusão da Educação de Base.
O rádio de pilha será o meio mais utilizado neste período e as redes de rádio
ligadas à igreja católica desde o início serão utilizadas pelo MEB-
no fim da década de 50- a fim de chegar-se com o programa de alfabetização
aos lugares mais recônditos do país. No entanto, o Movimento de Educação de
Base foi vítima e sucumbiu em 1964 à ditadura militar que destruiu a Utopia de
levar educação e liberdade de expressão à população dos campos, dos
cerrados e do sertão tão sedenta da sede do saber.
Palavras
Chaves: MEB, Igreja Católica, Ação
Católica, Sistema Radioeducativo.
“Considerando
as dimensões totais do homem, entende-se como Educação de Base o processo de
autoconscientização das massas, para uma valorização plena do homem e uma
consciência crítica da realidade. Esta educação deverá partir das
necessidades e dos meios populares de libertação, integrados em uma autêntica
cultura popular, que leve a uma ação transformadora. Concomitantemente,
propiciar todos os elementos necessários para capacitar cada homem a participar
do desenvolvimento integral de suas comunidades e de todo o povo brasileiro”.
(MEB- Nacional- Relatório do I Encontro de Coordenadores, Recife, 1962).
No século XV, um humanista, Grande Chanceler do Reino de Inglaterra, Tomas Morus sonhou com um pais – que é uma ilha - onde todos seriam iguais; onde ninguém iria passar fome. Onde todos iriam receber educação. Essa ilha chama-se Utopia. Tomas Morus acabou sendo assassinado pelo rei Henrique VIII. Antônio Conselheiro, no Sertão da Bahia, criou esta ilha, Canudo, que foi destruída pelo exército da República. O Movimento de Educação de Base com apoio da Conferência Nacional dos Bispos Brasileiros (CNBB) elaborou um plano de educação nacional com objetivo de abrir caminhos para a libertação de milhares de homens e mulheres, de jovens e adolescentes, pela Educação de Base. Mais uma vez, a Utopia foi destruída pelo movimento militar de 1964. A Utopia promove o crescimento de cada pessoa dentro da comunidade. Por estas razões, ela incomoda e precisa ser afogada .
A
fim de analisarmos concretamente o que significou o MEB no seio da sociedade
brasileira utilizaremos a pesquisa bibliográfica centrada na obra Educar
para Transformar de Luiz Eduardo W. Wanderley e outras que julgamos
relevantes em nosso processo de análise.
A escolha pela pesquisa bibliográfica qualitativa pareceu-nos adequada a fim de entendermos o estudo do fenômeno que envolve o homem e suas diversas articulações no meio social. Este tipo de pesquisa caracteriza-se pela integração que se estabelece entre o fenômeno- no caso o MEB- e o meio em que este ocorre e do qual é parte.
O
MEB nasceu da visão humana, utópica
e apostólica do Episcopado Brasileiro através
da CNBB. Em 1958, numa carta
de princípios, a Igreja Católica do Brasil afirma: “O nosso drama não é só alfabetizar. Junto a
isto há urgência de muito mais: urgência gritante
de se abrirem aos nossos camponeses, operários e suas famílias, as riquezas da educação de base,
fundamental, educação que chamaríamos de
cultura popular, a qual tende a fazer o
homem despertar para seus próprios problemas, encontrar suas soluções,
aprender a comer bem, a defender sua saúde, a manter boas relações
com seus semelhantes, a andar com seus próprios pés, a decidir
seus destinos, buscar sua
elevação cívica, moral, econômica, social e espiritual. É esta a
escola que temos de jogar no seio das populações camponesas e operárias,
através de seus métodos próprios já experimentados e vitoriosos” (Apud Wanderley,
1984, p. 59).
A
filosofia do MEB enraíza-se
na doutrina social da Igreja desenvolvida em vários textos desde a Encíclica “Rerum Novarum” do Papa Leão XIII, até a mais
recente “Mater et Magistra” de Paulo VI. Mas também o MEB soube
aproveitar o trabalho desenvolvido pela Ação Católica particularmente JUC,
JOC e JAC. Adaptou a
pedagogia do “Ver, Julgar e Agir” à educação de base. Não se pode também
negligenciar a influência determinante de
duas correntes filosóficas humanistas nascidas
nos anos 30 e 40 da resistência as diversas formas de totalitarismo,
falamos do Existencialismo Cristão
de Gabriel Marcel e do
Personalismo de Renouvier, Mounier, Lacroix
et Ricoeur. Estes pensamentos tiveram grande impacto com certos intelectuais
brasileiros. Para o Personalismo , quando
se fala de pessoa trata-se sempre de uma pessoa intimamente ligada a uma
comunidade. Basta para se convencer fazer
o levantamento das palavras chaves do MEB: pessoa, conscientização, cultura,
consciência histórica, comunidade, povo, animação popular, desenvolvimento.
O
MEB acredita muito no uso da Mídia “O teatro o cinema, assim como o rádio,
podem ser valiosos meios de
desenvolver a cultura e politizar o
povo. A televisão é um valioso instrumento
para motivar e orientar a cultura popular, principalmente em uma civilização
que conquista mais horas de lazer”. ( Apud Wanderley 1984, P. 329)
Aproveitando a popularização do rádio de pilha, o MEB desenvolve toda uma didática
baseada no rádio. Desde o início
das suas atividades o MEB utiliza a rede das emissoras
católicas para as áreas do Norte, Nordeste
e Centro- Oeste do Pais.
O relatório de 1963 do MEB Nacional descreve de maneira bastante clara as caraterísticas do Sistema Radioeducativo: “O Sistema Rádio educativo é constituído por uma rede de núcleos com recepção organizada de programas educativos especialmente elaborados , com supervisão periódica, com trabalho de comunidade e escola. Para o funcionamento desses sistemas são necessários: - um estudo prévio da área em que vai atuar, - a escolha e o treinamento de pessoal das próprias comunidades para a direção das atividades, - a realização de uma supervisão periódica que acompanhe o desenvolvimento das escolas e comunidades e a eficácia da programação. Teoricamente cada Sistema deveria realizar o trabalho de produção e emissão de programas, mas há Sistemas em que as equipes utilizam a programação de um Sistema próximo por não disporem de emissora para elaborar seu programa de atuação, a Equipe Local empreende um levantamento da área a ser atingida, usando técnicas de estudo de área. Durante este trabalho, as comunidades são, ao mesmo tempo, motivadas para participarem de ação educativa do MEB, enquanto a equipe colhe dados para seleção de futuros animadores voluntários das comunidades. Delimitadas a área de atuação, a Equipe Local treina os futuros animadores e planeja com eles, o trabalho a ser executado. Iniciada a ação, a Equipe mantém contatos constantes com as comunidades em que se desenvolve o programa, supervisionando e coordenando todo o trabalho” (Apud Wanderley, 1984, p.58).
A
educação à distância no Brasil
MEB
– pioneirismo
No
Brasil, várias experiências foram realizadas na área de Educação a Distância
. As primeiras experiências relatadas e que tiveram êxito foram a do Instituto
Rádio- Monitor em 1939 e, após, o Instituto Universal Brasileiro, em 1941. Um
outro importante projeto relatado na Educação a Distância Brasileira, e que
será objeto de nosso estudo, foi o do MEB- Movimento de Educação de Base- em
que o principal objetivo era fornecer alfabetização para jovens e adultos. A
instrução era oferecida por meio de programas de rádio sendo disponibilizados
principalmente nas regiões norte e nordeste do Brasil.
O
Movimento de Educação de Base desenvolveu-se a partir das atividades
educacionais veiculas pelo rádio, que contavam com o apoio do episcopado nas
arquidioceses de Natal e Aracaju.
A
Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) incentivada pelo apoio
recebido neste projeto educacional objetivou expandi-lo em todo território
nacional. O projeto, então, torna-se oficial com o Decreto 50370 de 21 março
de 1961, no qual
Tal
ação educacional estendeu-se para as áreas mais subdesenvolvidas do país e
Há
de ressaltar-se o importante papel da UNESCO
que fomentava a criação de projetos educacionais- visando sobretudo aos
de alfabetização de adultos.
Muitas
são as versões a respeito dos objetivos do Governo e Da Igreja na participação
desse projeto educativo.
Segundo
D. Távora- presidente do MEB- no texto apresentado ao episcopado reunido em
Roma, em novembro de 1963, por ocasião do Concílio.
“A
idéias da Igreja a serviço dos pobres, inspira
totalmente, a linha de pensamento e ação
do MEB...O MEB não nasceu para ser uma campanha contra o analfabetismo.
Chegaremos lá, para destruir essa contigência de nossa história andamos
abrindo caminhos para libertação de milhares de homens e mulheres, jovens e
adolescentes, pela Educação de Base... A sua validade está em que cada homem
a quem ele ajudou a abrir os olhos descubra os seus problemas, usando sua
iniciativa e andando com os próprios pés, conscientemente. ( Wanderley, 1984,
p. 220)
Havia
um Conselho Diretor Nacional ( CDN), composto de sete bispos e arcebispos e dois
leigos, sendo um representante do presidente da República. Em cada
estado havia um Conselho Diretor Estadual (CDE) congregando os bispos das
áreas onde funcionava o MEB em âmbito estadual.
Cada
sistema local era de responsabilidade de um bispo diocesano. Os leigos contavam
com a Comissão Executiva nacional (CEN), dependente do CDN, que orientava e
coordenava as atividades das Equipes Estaduais (EE), das quais dependiam as
Equipes Locais (EL).
A direção do MEB compunha-se pela Diretoria Executiva - um presidente, vice-presidente do CDN e por um secretário. A unidade nuclear do Movimento era o Sistema de Educação de Base, o Sistema Radioeducativo, que atingia uma área determinada.
Era de competência de cada Sistema selecionar e treinar as comunidades em seu raio de ação.
Adequar
o trabalho à realidade e acompanhar realmente as comunidades; efetuar-se um
levantamento da situação local e regional de uma dada área geográfica. Tal
conhecimento - in loco - permitia um
conhecimento do todo, ou seja, da real situação das comunidades, partindo-se
da observação concreta de seus valores, recursos, problemas, o que propiciava
uma interação que se mostrou fundamental entre a intelectualidade que compunha
o MEB e os cidadãos simples- por vezes- analfabetos das comunidades estudadas.
Segundo
Wanderley (1884, p. 55): "
A
programação das aulas radiofônicas objetivava atingir à massa camponesa. A
princípio de adultos, mas que
segundo dados de 1963 a 1964- 655 dos alunos tinham entre 15 e 30 anos e 20%
tinham menos de 15, e 15% mais de 30 anos.
A
linguagem utilizada no programa de alfabetização visava muito mais que o
aspecto educacional- ou seja- o ato de ler e escrever. Pretendeu-se acima de
tudo, ser uma fonte de inspiração para o homem do campo no que tange à
conscientização deste da importância da liberdade do pensamento- e que o
camponês pensava- e deveria ser ouvido no âmbito de sua comunidade e além
dela.
"A
alfabetização foi compreendida desde logo no movimento como integrada à
conscientização... Procurando dar uma visão transcendental do homem e
despertando –o para os engajamentos concretos em organizações profissionais
, organizações de classes e grupos que visem ao desenvolvimento das
comunidades". ( MEB- Nacional O Conjunto Didático “Viver e Lutar”,
1964 apud Wanderley, 1984, p. 54)
O
conteúdo programático das aulas priorizava a realidade concreta do homem do
campo a fim de que pudesse desenvolver habilidades de cálculo, lingüística,
assim como conhecimento sobre saúde, trabalho agrícola, esses conhecimentos ,
revertidos para o seio da própria comunidade.
No
MEB, o grande projeto a ser desenvolvido era o da pessoa humana. Relevava-se a
pessoa colocando-a como o cerne de todos os seus objetivos educacionais.
O
conceito de pessoa nas palavras de Wanderley( 1984,p.334) surge na antigüidade
e valoriza-se nos documentos pontifícios.
Em uma convivência
humana bem constituída e eficiente, é fundamental o principio de que cada ser
humano é pessoa, isto é, é natureza dotada de inteligência de vontade
livre... A pessoa humana é e deve ser o principio , o sujeito e o fim de todas
as instituições sociais...
Para
a Igreja sendo todo o homem a “imagem de Deus” passa a defender a dignidade
humana como um direito natural. A Igreja no mundo de hoje, proclamada no
Concilio Vaticano II confirma o eixo
diretivo do homem como imagem de Deus na perspectiva bíblica.
Lembrando
que o homem é constituído de corpo e alma. Portanto, pautada nessas diretrizes
Entenda-se
nesse processo que toda emancipação triunfal do sujeito- do cidadão passa
pela educação que liberta . A Educação
de Base pretendia, portanto
educar o homem para que esse se
emancipasse com dignidade. Segundo Brandão ( 1977, p. 34,35) a
Educação de Base procurava desenvolver uma consciência critica, com
pelo menos 3 atributos:
a) que ela seja um reconhecimento de dimensões
da pessoa, comunidades, etc.
A partir dos próprios valores dados e existentes na cultura do povo;
b) que ela seja um ponto de partida crítica de valorização desta própria
cultura e do conjunto de relações sociais que a conserva como é;
c) que ela seja o princípio de uma integração do aluno - agente
conscientizado em grupos e em situações de trabalhos comunitários e de
classe em vista a uma ação política ao mesmo tempo crítica e eficaz.
Abaixo
reproduziremos alguns textos do patrimônio do MEB :
“A educação de base tem como finalidade tornar o homem consciente do que ele
é, isto é, das exigências de sua natureza de homem, e de que de acordo com a
época e lugar, deve ser feito para que essas exigências sejam atendidas.
Assim , hoje, cabe à Educação de base formar o homem brasileiro, tornado-o
consciente do que ele é, do seu valor de pessoa dentro do subdesenvolvimento em
que vive.
Tornar esse homem capaz de colocar a realidade de modo a atender a todas as exigências
de sua pessoa.
(...) O homem está colocado na natureza , isto é, no mundo. Pelo seu corpo ele
também faz parte do mundo, pois seu corpo é matéria, como o mundo. Porém o
homem não e só corpo, só matéria. Ele tem em si alguma coisa completamente
diferente da matéria, o que faz com que ele seja superior, que ultrapasse a
tudo que é do mundo: é a consciência.
Por causa de sua consciência é
que ele é capaz de dar um sentido, um significado àquilo que ele está
fazendo. E esse significado dado pela consciência de um deve servir a todos os
outros.
O homem, além de parte material, possui uma outra espiritual que o torna
superior a tudo no mundo e que tem uma porção de exigências.
O homem pelo seu corpo, é matéria por isso ele precisa de condições
materiais para viver; alimentação,, moradia, assistência médica, roupa,
instrumentos de trabalho, etc.
Mas não basta apenas isso não se pode parar ai. O homem é também consciência,
tem também uma parte espiritual. Portanto, é preciso levar em conta as exigências
da consciência do homem: respeito a sua pessoa, à dignidade, ao valor que cada
um tem: liberdade de escolher, de resolver pensando não só nele, mas em todos;
direito de escolher,e possibilidade de cada um participar das decisões da vida
política do pais “
(MEB- Escolas Radiofônicas, I
Congresso Estadual de Monitores- Goiás, Tema II- Cultura e Educação de base,
pontos para debates com os monitores, dezembro de 1963).
Segundo Wanderley ( 1984, p. 342) há nestas idéias uma aproximação com a
concepção gransciana, cujo pressuposto é efetuar a existência de uma
natureza humana abstrata, fixa e imutável. Inserindo-se numa amostra de Marx
de que a natureza humana é o conjunto de relações sociais
historicamente determinadas, que o homem é o processo de seus atos.
Gransci segundo Wanderley observa que se a síntese é individual , o processo
de formação e de desenvolvimento pressupõe uma atividade dirigida ao
exterior, para outros homens e o ambiente. Por isso poder-se dizer que o homem
é essencialmente político, porque na atividade de transformar e dirigir
conscientemente aos outros homens realiza sua humanidade e sua natureza humana
Toda essa relevância do papel do homem consigo próprio e com o mundo passava a
ser conflitante com as doutrinas da igreja que norteavam o Movimento e a práxis
utilizada por ela.
Segundo Wanderley (1984, p. 342) tudo isso era feito dialeticamente, variando de
intensidade e de ritmo segundo as condições concretas das regiões e das
equipes.
Ainda que nas suas práticas o Movimento se centrasse nas relações sociais, o
prisma privilegiado era sempre o das relações intraindividuais, na consciência
histórica. Segundo Vaz
Brandão (1977, p. 34, 35) afirma que foi o MEB por meio da
visão cerista do homem e do mundo- personalista- que introduziu a história na
educação popular. Sendo que as mudanças que eram as de espaço, como região,
nação seriam as das passagens de um tempo histórico para “outro de um mundo
sem justiça, para um mundo regido pela justiça”( 1977, p. 34)
O povo dentro do MEB assume um papel e um significado muito
mais amplo do que o indivíduo ou classe em especial. O povo no MEB era
sobretudo aquele pertencente às classes exploradas e desfavorecidas - os
oprimidos- representados
principalmente pelos trabalhadores rurais- que secularmente estiveram
marginalizados da e na sociedade brasileira.
Segundo Wanderley ( 1984, p 348) era um povo situado numa realidade nacional e
latino-americana, dependente da realidade internacional, vivendo sob estruturas
impostas que o marginalizavam e impediam a sua participação no processo histórico
de mudança social e de desenvolvimento do país.
As
relações do MEB e seus efeitos
Se a educação é uma comunicação entre
sujeitos- e não mera transposição – ela terá de se ocupar da construção
de condições para que o educando recrie a cultura. Consistirá, sobretudo em
armar problemas, em cuja solução o educando exercitará o seu papel de sujeito
criador.
Uma tal educação rejeitará as exposições dogmáticas para exercer o seu
papel legitimo de causa instrumental de aprendizagem, através da qual o
educando reconstrói a cultura, pondo-se em condições de poder inovar. Portanto,
só assim participará efetivamente das tarefas de elaboração e significação
da cultura , que lhe são inerentes por sua condição humana.
O MEB e suas relações
externas
Houve algumas idéias e elementos vindos de fora que
provocaram reflexões e modificaram o dinamismo interno do movimento.
Destacam-se entre elas:
a)
a experiência de Sutileza, realizada na Colômbia pela
“Accion Popular Cultural”com escolas radiofônicas, que serviu de marco para
as primeiras atividades em Natal;
b)
alguns elementos metodológicos vistos na França, cabendo
referência aos contatos com O Institut des Recherches et d’ Applications des
Méthodes de Développement;
c) as experiências de animação popular realizadas no Senegal
e Marrocos;
d) com menor força , a literatura sobre educação de adultos
da UNESCO e outras agências especializadas de várias partes do mundo;
e) a experiência de “Missiones Culturales Mexicanas” que
serviram como idéia para as “Caravanas de Cultura popular”;
O
MEB
e o sistema de Paulo Freire
Uma referência externa, mas de dentro do país faz-se necessário
mencionar: O Sistema Paulo Freire. No
MEB havia duas correntes discordantes a respeito da utilização do Sistema de
Paulo Freire pelo Movimento. A primeira dizia que não houve qualquer influência,
outra de que certas influências seguidas por Paulo Freire foram assimiladas,
ainda que modificadas no contexto e na dinâmica do MEB, tais como, o não-diretivismo,
o conceito antropológico de cultura, a força do dialogismo em contraposição
ao monólogo do professor - locutor.- que tinham em comum o fato de ambos serem
renovadores e não tradicionalistas, quererem as mudanças necessárias, feitas
com o povo e priorizavam a idéia
de que não havia homem objeto, mas tão somente homem sujeito., que cada pessoa
descubra seus problemas, os problemas de sua comunidade, conheça seus direitos
, deveres, saiba tomar iniciativas a agir conscientemente.
O
fim da utopia
À medida que o movimento tornava-se expressivo no exterior;
a cordialidade e a amizade existentes nos
primeiros anos esvanecia-se . Em certas equipes iniciou-se um processo de restrições
a pessoas determinadas, por suas posições e opções políticas, restrições
essas que vinham de dentro e de fora da
Igreja e que foram acirradas depois de abril de 64. Quando membros foram
pressionados a abandonar o Movimento.
Outro fator predominante para o fim da utopia foi o de que gradativamnete o MEB
ia de encontro aos interesses estabelecidos pelos grupos e classes dominantes,
pois fortalecia um ideal contra hegemônico tendo à frente as classes populares
. Desencadeou-se, portanto, conflitos e reações.
Alguns setores da opinião pública ligados aos grupos de interesses hegemônicos
passaram a criticar abertamente e veladamente o MEB . Esses grupos representavam
ora a defesa das classes dominantes ora o medo dessas classes de uma tomada de
posição do homem do campo, secularmente servil, ora o medo que a “ordem e o
progresso” da nação fossem imaculados por meio da programação radiofônica,
dos textos e dos discursos dos animadores do MEB.
A forma de reagir e aos conflitos surgiam de acordo com os interesses
pessoais desse setores da sociedade. Segundo Wanderley ( 1984, p. 435) a reação
desses grupos centrava-se na atividade dos programas radiofônicos e das práticas
variadas dos monitores e animadores de comunidade que pregavam uma práxis
destoante das normas e comportamentos vigentes dos proprietários.
Ainda, citando Wanderley o combate se dava contra tudo
aquilo que as autoridades e os políticos que os representavam percebiam
com ou menor sensibilidade como conflitantes aos seus interesses de classes ou
individuais. Por exemplo eram rechaçadas quaisquer iniciativas ou campanhas em
prol de reforma agrária; da propriedade social; do voto do analfabeto; da
reforma de base; do sindicalismo rural; qualquer processo educativo que
questionasse o sistema vigente ou as causas de miséria, etc...
O MEB posicionava-se contra essa investida reagindo internamente procurando
demonstrar aos bispos os princípios morais de sua práxis. No entanto, um
acontecimento, em 1964 fez com que a reação tomasse proporções
externas . Foram apreendidos 3.000 exemplares do livro Viver e Lutar por ordem do
Governador da Guanabara , Carlos Lacerda devido a denúncias quanto ao seu teor
comunista. As reações que se seguiram foram desde o radicalismo dos grupos
antagônicos ao MEB que creditavam à obra uma propaganda panfletária comunista
aos defensores do MEB que combatiam a ilegalidade da atitude do governador e seu
governo e elogiavam a identificação da mensagem cristã com os menos
favorecidos.
Houve também reação da esquerda posicionando-se a
principio contrária ao MEB, pois acreditavam que sua práxis pedagógica levava
a uma modernização e ao reformismo. Posteriormente, reconhecem a importância
do MEB pelas causas libertárias, principalmente depois do episódio da apreensão
da obra Viver e Lutar. A
partir disso conjugam esforços
para que um diálogo aberto se estabeleça e possam construir um trabalho
coletivo em certas atividades.
Depois de 1964 a repressão atinge em cheio o MEB com invasão
de escolas, destruição e confisco de material,
prisão de monitores e de integrantes das equipes. A CNBB assume uma
postura contraditória; primeiro repele as acusações feitas ao MEB e a outros
grupos da Igreja, mas pressionados por tradicionalistas abre o flanco a repressões
personalizadas.
Segundo Wanderley (1984, p444) todo período posterior será
pleno de ambigüidades, tensões
com os bispos locais e alguns representantes do CDN que pouco a pouco vão
descaracterizando os objetivos iniciais e a orientação assumida no passado
recente, ainda que as equipes dos Sistema fizessem, de tudo para manter a
perspectiva anterior . Concomitantemente, o Movimento que sempre enfrentou uma
dura realidade financeira terá sua situação exacerbada em 1964 quando recebeu
somente 42% da receita, em 1965 com corte substancial, e em 1966 com apenas 20%
da verba solicitada. O que ocasionou a falência de programas primordiais.
Todo movimento que depende de recursos estatais em grande escala, exclusivamente como naquele período, em grande porcentagem do orçamento como no atual, vê-se tolhido no sentido e nas práticas para criticar o sistema, efetuar denúncias, exigir reformas estruturais. E com maior razão depois de 1964, quando o governo via com dúvidas a ação do MEB e quando progressivamente o Estado foi se transformando num regime excludente de participação popular.
O MEB tinha como propósito, uma práxis pedagógica
diferenciada das tradicionais quanto a alfabetização de adultos, pois por meio
de seus agentes intelectuais, do conteúdo das aulas veiculadas no programas
radiofônicos, dos locutores e dos animadores das comunidades buscou e priorizou
uma educação que estivesse sintonizada com a realidade nua e crua do homem do
campo.
O MEB, ainda foi o responsável pelo afloramento da cultura
popular- o saber popular tão negligenciado pela sociedade intelectual- urbana.
Que via qualquer manifestação popular como algo burlesco e
sem sentido num país que pretendia ser uma nação industrializada.
Mas, talvez a maior contribuição do movimento tenha sido o
de centrar seu projeto educacional na pessoa, de colocar-se o homem como sujeito
de seu destino, um sujeito crítico, construtor de sentidos, com uma consciência
libertária que o fazia encontrar dignidade em seu trabalho no campo e na
comunidade em que vivia.
Quando a educação releva o sujeito, quando este se torna o cerne do processo de edificação do conhecimento há a possibilidade da construção individual tornar-se autônoma, dialógica, polifônica, não egocêntrica do ser em direção ao coletivo- fazendo com que cada um envolvido no processo abra caminho para a gênese de um novo homem.
Referências
bibliográficas
Brandão, C. R. Os deuses do povo. São Paulo, Brasiliense, 1980.
Wanderley,
Luiz Eduardo. Educar
para transformar. Igreja Católica e Política no Movimento de
Educação de Base. Petrópolis. Vozes, 1984.