
PCLA - Volume 3 - número
3: abril / maio / junho 2002
Mídia e publicidade:
impacto nos cinco sentidos
Elizabeth Moraes GONÇALVES
(Doutora em comunicação pela Umesp,
Programa de Pós-Graduação da Universidade Metodista de São Paulo
ALVAREZ DEBANS, Norberto. Impacto en los cinco sentidos: comunicación publicitaria y lenguaje de los medios. Buenos Aires: Valleta Ediciones, 2000. 495 p.
A publicidade é uma das áreas da comunicação que mais sente a falta de material bibliográfico acadêmico resultante de pesquisas, que possa subsidiar tanto o aluno quanto o professor na universidade ou o profissional no mercado. A obra de Norberto Alvarez Debans, apresentada pela editora argentina Valleta, vem colaborar com este campo, abordando especificamente a área de mídia.
O
autor articula sua experiência profissional de consultoria de marketing a
grandes empresas multinacionais com sua vivência universitária para compor uma
obra realmente aprofundada que deverá servir como referência para a área,
abordando desde a questão primeira da linguagem humana e do processo de
comunicação até questões muito específicas de planejamento de mídia, além
de expor sua teoria sobre o impacto total nos cinco sentidos por intermédio de
um plano envolvente de mix dos meios
utilizados pela publicidade.
Parte-se
do pressuposto de que é necessário conhecer o ser humano integralmente, no
processo de emissão e recepção de mensagens e de interação pela comunicação,
ou entender como suas funções sensoriais são estimuladas frente à
publicidade. Desta forma, o publicitário deve procurar entender a própria
natureza comunicativa do seu público-alvo, no sentido de atingir seus objetivos
de levar ao consumo ou uso de produtos ou serviços ou de assimilação de idéias,
pois “el comprador ha desarrollado
inteligencia sobre consumo y no es facil venderle productos” (p. 57).
O
preceito fundamental de McLuhan (1969) de que “o meio é a mensagem” é
interpretado por Alvarez Debans na perspectiva publicitária, preconizando a
importância de um plano de mídia bem elaborado, pois os sistemas de comunicação
do mundo globalizado têm exercido a função de prolongar a capacidade humana
de expressar-se: “el humano como una unidad penta-sentidos, nombre que define
su capacidad de emitir y asimilar mensajes a través de cinco sentidos, buscó
siempre la forma de lograr amplificar el poder de emitir y recibir mensajes a
través de esta vía” (p. 93).
O
cotidiano do profissional responsável pelo planejamento de mídia está
relacionado diretamente com a preocupação de expor sua mensagem ao público,
de administrar a verba publicitária destinada a certa campanha, levando-se em
consideração padrões já estipulados de custos de cada mídia e de sua abrangência.
Porém, mais do que isto, este profissional ocupa-se da observação do
comportamento da audiência em relação aos meios e aos seus conteúdos como
elemento fundamental para se atingir o público-alvo que deverá dar uma
resposta eficiente. Alvarez Debans tem clareza desta situação e reconhece o
poder midiático na determinação de costumes sociais e hábitos de consumo
entre outros; “las nuevas audiencias, los jóvenes, han variado los hábitos
de consumo y las preferencia de productos que no existían cuando los padres
eran consumidores activos” (p. 107). Desta maneira, cada nova geração,
influenciada pela linguagem do meio que mais está em evidência, reage
sensorialmente de forma distinta aos estímulos acionados. O autor alerta, por
exemplo, para o fato de nos últimos anos ter crescido muito a demanda por
equipamentos como VCR, DVD,
videogames, computadores e, através deles, inevitavelmente, pela internet, e a
publicidade procura ingressar nestes novos sistemas para atingir um público que
não pode ser mais persuadido com a mesma intensidade pelos meios tradicionais.
A
discussão sobre a função dos meios e sua interação com a publicidade é
rapidamente discutida pelo autor, deixando evidente que a publicidade está nos
meios de comunicação, dividindo o espaço destinado à informação, à notícia
e ao entretenimento simplesmente por questões econômicas; portanto, assim como
os meios sobrevivem em função da publicidade, esta não pode prescindir dos
diferentes meios para atingir os seus fins. Porém, além dos meios
convencionais que compõem qualquer plano de mídia, nele ocupam cada vez mais
espaço a mídia alternativa e o marketing direto como formas de a publicidade
se evidenciar independentemente da força dos meios tradicionais e de seus conteúdos.
Alvarez
Debans dedica um capítulo de sua obra para tratar do fato de os meios primários,
como ele chama a mídia impressa, o rádio e a televisão, estarem cada vez mais
buscando na internet uma nova possibilidade de atuação ou, melhor, de interação
com o público e, conseqüentemente, a busca da publicidade de se reestruturar
para atender às necessidades e demandas daqueles meios no novo suporte, ou
seja, além dos apelos e estímulos visuais e sonoros, buscam-se elementos que
garantam o dinamismo e a interatividade dos novos tempos.
Em
segundo plano na preferência das agências de publicidade e dos próprios
anunciantes estão o out-door (sistema de via pública, segundo o autor), a
publicidade no cinema e o marketing direto. Entre eles, o marketing direto é o
mais decisivo na tarefa de identificar, captar e fidelizar clientes; o cinema,
com som e imagem de grande qualidade, garante a atenção do público que
apreende a mensagem publicitária antes de assistir ao filme que escolheu.
Evidentemente, o autor situa o cenário de Buenos Aires e aponta, até mesmo
criticamente, no que se refere ao out-door,
a falta de um controle do governo que converte os grandes centros urbanos em
verdadeiros caos visual.
Como
elementos efetivos para atingir o público-alvo estão os eventos promocionais,
as promoções de vendas e o merchandising, que, com suas características
peculiares, situam-se como complementares a uma ação efetuada nos sistemas
primários e secundários, colaborando, portanto, para o sucesso da campanha ao
atingir seu público com eficiência.
Abordagem
interessante ainda é apresentada por Alvarez Debans sobre a questão do
“marketing dos meios”. O autor discute a importância de o próprio meio se
promover e se aperfeiçoar, aproximando sua linguagem dos formatos mais
apreciados pelo homem moderno, como instrumento para garantir boa fatia do bolo
da verba publicitária. Assim,
a publicidade busca os meios como suporte de veiculação de sua mensagem, bem
como os meios utilizam a publicidade para se fortalecer: “los medios masivos
de comunicación necesitan
de la publicidad y esta búsqueda los lleva a elevar la eficacia como soporte
publicitario, si logran este objetivo tendrán el apoyo económico de la
publicidad y al estar anunciando podrán seguir operando en el mercado con éxito”
(p. 238).
A
obra discorre sobre uma análise detalhada da linguagem dos meios, determinada
pela sua constituição técnica e tecnológica, responsável por imprimir na
mensagem também características diferenciadas que atingem o público por
intermédio dos sentidos, priorizados diferentemente em cada meio de comunicação.
O profissional responsável, portanto, pela área de mídia, no contexto
da propaganda, não deve desconsiderar este fato e necessita procurar
planejar-se para atingir a completude dos sentidos humanos.
Da
teoria para a prática o autor se transporta e completa a sua abordagem sobre o
planejamento de mídia. Analisa o processo de compra dos espaços publicitários,
na perspectiva de quem compra e de quem vende tais espaços, inserindo neste âmbito
também figura das “centrais dos
meios”, caracterizadas, no cenário mundial de propaganda, como novas
“jogadoras” que “se disputarán
contactos con los medios, con las agencias y con los anunciantes” (p. 274).
O
planejamento estratégico dos meios publicitários, com suas ferramentas e
linguagens específicas, é abordado na obra em todas as suas etapas e opções
de caminhos a serem seguidos, desde “o ataque”, ofensivo e rápido, passando
pela resistência e depois pela implementação da defesa. O autor
ressalta que muitos softwares
estão no mercado no sentido de simular planos de mídia, porém “el humano de
medios es quien debe dirimir entre las posibilidades estratégicas” (pág.
361).
O
departamento de mídia, na publicidade, é descrito e estudado na obra como o
mais importante para o sucesso do produto ou da marca e, conseqüentemente, pelo
benefício econômico da empresa. O autor detalha as funções e competências
deste departamento, apresentando simulações em forma de exemplos, aliando
sempre teoria e prática nas etapas do processo envolvido na atividade, no que
se refere tanto às estratégias quanto às táticas da ação.
No
final da obra, Alvarez Debans
apresenta e detalha sua “teoria dos cinco sentidos” que fundamenta e embasa
toda a análise proposta na obra. Parte-se
do pressuposto de que “todos los sistemas de medios actuales son incompletos,
ya que transfieren el mensaje a sus audiencias en forma desequilibrada de un
sentido al otro” (p. 462). Para
uma resposta eficiente e completa, o receptor da mensagem deve ser atingido de
maneira plena, devendo todos os seus sentidos ser envolvidos ou acionados pelos
mecanismos dos meios, ou seja, pelos estímulos que se completam por intermédio
de um plano multimidiático viável para a veiculação da mensagem publicitária.
Desta maneira, o profissional da área deve ter uma visão que vai além do
quantitativo e do qualitativo na administração da verba; deve procurar buscar
o conhecimento concreto da reação
do público no que se refere ao seu envolvimento com a mensagem.
Impacto en los cinco sentidos deverá ser obra obrigatória para os
alunos de marketing, de comunicação e de publicidade em especial, assim como
será base concreta para todas as pessoas que se interessam pela área de mídia
ou que nela atuam, seja no ambiente do mercado profissional seja na academia.
Trata-se de obra organizada em dezessete capítulos densos, com referências
bibliográficas no final de cada um deles, totalizando 495 páginas, nas quais
teoria e prática se mesclam em perfeita harmonia, com linguagem clara e
objetiva, prendendo o leitor ao utilizar a iconização na elaboração dos
quadros e nos exemplos comentados.