banperfis.jpg (13527 bytes)
PCLA - Volume 3 - número 3: abril / maio / junho 2002




AS FESTAS POPULARES COMO PROCESSOS COMUNICACIONAIS:

ROTEIRO PARA O SEU INVENTÁRIO, NO BRASIL, 
NO LIMIAR DO SÉCULO XXI

José MARQUES DE MELO 
(
Titular da Cátedra Unesco/Umesp de Comunicação para o Desenvolvimento Regional)


1. Antecedentes

Os encontros anuais da Rede FOLKCOM, integrada por estudiosos das interfaces da comunicação com a cultura popular, vem se caracterizando pela escolha prévia de um “mote”. Trata-se de uma epígrafe ou lema que mobiliza o interesse dos estudiosos da área, motivando-os a preparar contribuições a sedrem apresentadas durante evento. Em 1998 (São Bernardo - SP) privilegiou-se a “folkcomunicação segundo Beltrão” e em 1999 (São João del Rei - MG) o interesse foi canalizado para o “diálogo entre Luiz Beltrão e Câmara Cascudo”. Já no encontro do ano 2000 (João Pessoa - PB) houve uma despersonalização temática, predominando a busca de correlações fenomenológicas. Os participantes foram convocados para discutir as relações entre “mídia, folclore e turismo”.

Para a IV FOLKCOM - Conferência Brasileira de Folkcomunicação, programada para junho de 2001, em Campo Grande (MS) foi escolhido o “mote” das festas populares. Mas ao mesmo tempo fixou-se uma “meta” acadêmica, qual seja, sua compreensão como processos comunicacionais.  A intenção é explorar o dinamismo que constitui a marca registrada do folclore, projetando-o no futuro como “expressão das aspirações e expectativas populares” (Carneiro, 1965: 22). Mas, ao mesmo tempo, entendendo-o como “ processo de intercâmbio de informações e manifestação de opiniões, idéias e atitudes da massa” (Beltrão, 1971: 15).

Na convocatória para o encontro de Campo Grande, diz-se textualmente que seu objetivo é estudar a natureza das festas populares vigentes no limiar do século XXI, identificando os processos comunicacionais que as configuram enquanto espaços de diversão cultural e celebração cívica, além de  analisar criticamente como a indústria midiática cataliza tais modos de pensar, sentir e agir dos grupos sociais e das comunidades.

2. O conceito de festa

Fenômeno de natureza sócio-cultural, a festa permeia toda a sociedade, significando uma trégua no cotidiano rotineiro e na atividade produtiva. Sua natureza é intrínsecamente diversional, comemorativa, pautando-se pela alegria e pela celebração.

A festa é uma necessidade social em que se opera uma superação das condições normais de vida. (...) É um acontecimento que se espera, criando-se assim uma tensão coletiva agradável, na esperança de momentos excepcionais. (...) A festa é a expressão de uma expansividade coletiva, uma válvula de escape ao constrangimento da vida quotidiana. Da economia passa-se à prodigalidade; da discrição à exuberância. Surgem as manifestações de excesso, nos mais ricos por ostentação, nos mais pobres por compensação (Birou, 1966: 166)  

Alceu Maynard Araújo identifica o aparecimento da festa na gênese da própria sociabilidade humana, atribuindo-lhe sentido duplamente mágico e comunitário.

Dentre as manifestações da vida social nos agrupamentos humanos podemos destacar a festa, cujo aparecimento data das mais remotas eras, certamente quando o homo faber, deixando de ser mero coletor de alimentos, praticante da técnica da subsistência da catança, passou a produzí-los, plantando. Há na aurora das festas aquela preocupação mágica de agradecer a natureza ou suplicar para que ela, entidades supraterrenas ou divindades, não permitam as pragas, danos ou malefícios nas plantações, praticando, portanto ritos protetivos e produtivos. A festa interrelaciona-se não só com a produção mas também com os meios de trabalho, exploração e distribuição, ela é portanto consequência das próprias forças produtivas da sociedade, por outro lado é uma poderosa força de coesão grupal, reforçadora da solidariedade vicinal cujas raízes estão no instinto biológico da ajuda, nos grupos familiares (Araujo, 1973: 11).

O estudo das festas não pode ser feito de modo estanque, sem correlacioná-las com a vida quotidiana, suas rotinas, especialmente com o mundo do trabalho. Elas fazem parte daquele universo do “lazer”, no qual as classes populares ingressam de modo mais intenso quando conquistam o direito ao “ócio”, privilégio historicamente desfrutado pelas classes abastadas.

Algumas questões permanecem opacas no que concerne à função social e à evolução cultural das festas na sociedade contemporânea. Birou (1966: 167) destaca as seguintes:

Assistir-se-á, na sociedade da abundância, à integração progressiva da festa na vida diária, na qual ela tenderá a diluir-se? Qual a influência do universo técnico e dos meios de comunicação de massa sobre a natureza e expressão da festividade ? (Transformação e aparecimento de novas formas de festa). Continuará ainda a festa a marcar a ruptura com o quotidiano, ou não será antes a aglutinadora desse quotidiano disperso ? Continuará ainda a representar a procura de um sentido para a vida ?

Qual o significado da festa na cultura popular brasileira ? Câmara Cascudo (1954:  311) busca suas origens no passado colonial, destacando as “três festas do ano (...) Natal, Páscoa e São João”.

Tinhorão (200: 7) contesta ao mesmo tempo a “popularidade” e a “ludicidade” das festas do Brasil Colonial, caracterizando-as como manifestações elitistas, frutos de uma dupla determinação - oficialista e religiosa.

Assim, o que durante mais de duzentos anos se registra como aproveitamento coletivo do lazer na colônia americana de Portugal não seriam propriamente festas dedicadas à fruição do impulso individual para o lúdico, mas momentos de sociabilidade festiva, propiciados ora por efemérides ligadas ao poder do Estado, ora pelo calendário religioso estabelecido pelo poder espiritual da Igreja.

Tais festas se projetariam no Brasil independente, tendo continuidade na Monarquia e na República. A elas Roberto da Matta se refere como “festas da ordem”, atribuindo-lhes a função de sedimentar as diferenças e gradações sociais, conservando hierarquias e poderes. Elas incluem as paradas militares, as efemérides cívicas, as procissões, os festejos dos santos padroeiros e tantas outras da mesma natureza.

Em geral, todas essas festas comemoram ou celebram alguma coisa que, supomos, realmente aconteceu. A vida de um santo é uma história exemplar a ser imitada pelos homens, e a procissão que ao santo se dedica diz um pouco dessa caminhada terrena para o Céu, reproduzindo-a numa espécie de teatro cristão que é o ritual religioso. (...) As festas patrocinadas pelo Estado, como as comemorações da Independência, também celebram uma ocorrência real, o nascimento de uma nação, e por isso são eventos paradigmáticos que justificam a importância da data (Da Matta, 1984:  89).

Não obstante as origens elitistas das principais festas brasileiras, tal determinação não impediu que elas fossem apropriadas pelas classes populares, convertendo-se em espaços de celebração festiva quase à margem dos ritos oficiais ou sagrados. As comunidades periféricas ou contingentes subalternos introduziram paulatinamente ritos oficiosos ou profanos, contando com a tolerância das autoridades constituídas.

É o que exemplifica Alceu Maynard Araújo no caso das festas de padroeiros.

Nas festas de padroeiro estão inscritos os muitos santos do hagiológico católico romano. Uns mais populares, outros menos. É claro que a eles são celebradas festas religiosas promovidas pelo líder religioso das comuniades brasileiras, isto é, o padre. (...) Em muitas festas de padroeiros pode-se ainda encontrar as manifestações tradicionais que se poderiam chamar a parte folclórica dessas comemorações, tal qual a cortada-do-mastro, a puxada e fincada, como acontece em algumas cidades capixabas (Araújo, 1973: 13)

Fora das igrejas ou dos salões governamentais, o povo celebra à sua maneira os santos católicos e os patronos civis ou militares, dando caráter coletivo às festas do calendário cívico-religioso, o que significa deselitizá-las. Em certas circunstâncias tais iniciativas se caracterizam como atos de resistência cultural.  

Luiz Beltrão explica como tais fatos acontecem nas festas religiosas realizadas nos santuários famosos.

Anualmente, em tais localidades, celebram-se festas que, embora de origem e fundo religioso, se revestem de exteriorizações profanas, constituindo-se desse modo em uma parte interna (a missa, o sermão, a benção), sob o controle da autoridade eclesiástica; a outra, fora do templo, de iniciativa de grupos autônomos (ou quase) de devotos, incluindo procissões e cortejos, representações de autos folclóricos, música, danças, fogos de artifício, quermesses, jogos e brincadeiras, comidas típicas - tudo de acordo com rituais tradicionais, fundados em prescrições e superstições, totalmente fora do controle, do consentimento e, às vezes mesmo, um desafio à liturgia e à autoridade da Igreja  (Beltrão, 1980:  63).

Mas o povo também promove as chamadas “festas da desordem”, das quais a mais representativa é o carnaval.

Penso que o carnaval é basicamente uma inversão do mundo. (...) Nele, conforme sabemos, trocamos a noite pelo dia, ou, o que é ainda mais inverossímel: fazemos uma noite em pleno dia, substituindo movimentos da rotina diária pela dança e pelas harmonias dos movimentos coletivos que desfilam num conjunto ritmado, como uma coletividade indestrutível e corporificada na música e no canto. (...) Carnaval, pois, é inversão porque é competição numa sociedade marcada pela hierarquia. É movimento numa sociedade que tem horror à mobilidade, sobretudo à mobilidade que permite trocar efetivamente de posição social. É exibição numa ordem social marcada pelo falso recato de ‘quem conhece o seu lugar’ - algo sempre usado para o mais forte controlar o mais fraco em todas as situações (Da Matta, 1984:  74-78).

Fazendo um balanço das festas brasileiras no último quartel do século XX, Alceu Maynard Araújo argumenta que muitas tradições aqui chegadas na bagagem cultural dos colonizadores foram tragadas pelo tempo. “Muitas festas desapareceram, outra estão desaparecendo; entretanto, nas regiões das novas culturas, alguma estão aparecendo. Não só as festas de produção (vinho, trigo, laranja, maça, etc.), mas as que rememoram aquelas que existiam na terra donde se originaram”. (Araújo, 1973, p. 14)

As festas brasileiras se renovam como espaços típicos de lazer, preservando sua natureza diversional e ao mesmo tempo permanecendo hibridamente fincadas nas suas raízes populares.

Hoje, como ontem e anteontem, o povo se diverte a seu modo, motivando e modificando seus folguedos, mas guardando, invariavelmente, o prestígio da tradição , a evocação dos seus heróis e dos grande feitos, mesclando as crenças religiosas com o espírito cívico, aglutinando os vários elementos folclóricos com a realidade e produzindo esse quadro imenso, irregular e variado da sua diversão, na qual se mescla a ternura, a hilariedade, a bravura  (Almeida, 1973:  212-213).

Nesta conjuntura de transição secular chega-se até mesmo a falar de “clima de festas” dominante em todas as regiões brasileiras. “E este clima de festa, em última análise, é o responsável pela ocorrência de imenso número de eventos festivos que se sucedem no país, sob designações variadas, como festas, festivais, rodeios, feitas, exposições concursos, todos voltados para um público massivo” (Teixeira, 1988:  25).

O desaparecimento da fronteira entre Brasil urbano e rural alterou profundamente a dinâmica das festas populares. As festas tradicionais sobreviveram adaptando-se aos novos tempos. 

Fazendo um recorte nas festas populares pude verificar que elas incorporaram outros códigos - códigos compatíveis - em sua organização estrutural resultante de vários fatores... (...) As festas não podem ser consideradas nem urbanas, nem rurais, pois são estruturadas através da coexistência desses dois universos. E também a quantidade de festas e suas formas há muito não representam sua origem. (...) As alterações se processam durante um longo tempo e, quando manifestadas, representam aquele momento em que se dá a manifestação; ou seja, os códigos dessa época predominam e trazem novos significados para a festa. O povo se renova e renasce. A festa reconvertida traz novas dimensões (Schmidt,  2000: 13-14).

3. As festas como processos comunicacionais

Para melhor compreensão da natureza complexa e polivalente das festas populares, vamos recorrer ao conceito de “frentes culturais” proposto pelo mexicano Jorge González. Trata-se de observá-las como “espaços sociais, entrecuzamentos e formas de relações relações sociais não especializadas, onde luta ou se vem lutando pelo monopólio legítimo da construção e reconstrução semiótica (modulação e modelação) de determinados elementos culturais transclassistas” (Gonzalez,1994: 82).

Nas festas populares, as classes sociais interagem dialeticamente, coexistindo de forma aparente, mas na verdade enfrentando-se, ora sutil, ora de modo ostensivo, na tentativa de conquistar a hegemonia cultural. Por isso mesmo, elas se caracterizam como processos comunicacionais, na medida em que agentes socialmente desnivelados operam intercâmbios sígnicos, negociam significados e produzem mensagens coletivas, cujo conteúdo vai se alterando conjunturalmente, sempre de acordo com a correlação de forças em movimento.

Como inventariar as festas brasileiras deste início do século XXI? Como descrevê-las e interpretá-las enquanto processos comunicacionais?

Vamos partir do pressuposto de que o “clima de festa” vigente no Brasil é em grande parte construído pelos meios de comunicação de massa. Eles não apenas divulgam as festas populares, mas se convertem em seus principais.fomentadores

As festas passam a ter valor conteudístico, preenchendo espaços na programação das emissoras de rádio ou TV, bem como motivando reportagens e coberturas especiais nos jornais diários ou revistas semanais. Ao mesmo tempo, funcionam como alavancas para o acionamento da engrenagem econômica, mobilizando produtores industriais, entrepostos comerciais e prestadores de serviços. Nesse sentido, viabilizam comercialmente os veículos difusores, através da captação de anúncios, além de estimular as empresas ao patrocínio das festas propriamente ditas. Trata-se daquele fenômeno que Jesus Martin Barbero denomina “popular folclorizado” (Barbero, 1987:  81).

Cria-se uma teia complexa de relações e interesses, da qual participam também o Estado e o aparato político, responsáveis pela normatização do uso daqueles espaços públicos onde as festas se realizam.

Contudo, o cerne das festas populares está localizado no interior da sociedade civil, cujas instituições desencadeiam os processos de celebração que as nutre e fortalece, mas também pode fazê-las definhar e desaparecer. Sem a iniciativa dos grupos sociais organizados, que dão sentido, codificam, difundem e retro-alimentam as mensagens contidas nas festas, elas não se configuram como atos culturais, dotados de implicações políticas e econômicas.

Resgatando a identidade comunicacional das festas populares, podemos dizer que ela se caracteriza como um processo determinado por três fluxos convergentes:

a) A festa enquanto ativadora das relações humanas, produzindo comunhão grupal ou comunitária em torno de motivações socialmente relevantes. Trata-se de um fluxo de comunicação interpessoal.

b) A festa enquanto mobilizadora das relações entre os grupos primários e a coletividade, através das mediações tecnológicas propiciadas pelas indústrias midiáticas, em espaços geograficamente delimitados - locais, regionais, nacionais. Trata-se de um fluxo de comunicação massiva.

c) A festa enquanto articuladora de relações institucionais, desencadeando iniciativas de entidades enraizadas comunitariamente e antenadas coletivamente, que decidem o que celebrar, em que circunstâncias, com que parceiros. Trata-se de um fluxo de intermediação comunicativa, produzindo a interação das comunicações interpessoais e massivas.

São três fluxos interdependentes, gerando um processo tipicamente comunicacional, organicamente estruturado em torno de variáveis culturais, políticas ou econômicas. (Marques de Melo, 1970: 31-32) A gênese da festa localiza-se no imaginário coletivo, sendo resgatada periodicamente através dos fluxos de comunicação interpessoal (grupos de parentesco, vizinhança, trabalho) que desencadeiam iniciativas de celebração por parte das instituições sociais (escola, igreja, partido, empresa, governo), cuja intermediação comunicativa suscita o interesse dos veículos de difusão coletiva, que a elas se associam, desencadeando fluxos de comunicação massiva, responsáveis pela mobilização dos indivíduos para participar desses atos comemorativos. (Beltrão, 1980: 2-7) Ao assimilar o “clima de festa” e nele se integrar ou dele se apartar, as pessoas naturalmente introjetam imagens, que irão nutrir o imaginário da sociedade a que pertencem e que se reativa periodicamente.

4. Roteiro do inventário

A pesquisa destinada a inventariar as festas populares brasileiras vigentes nesta conjuntura de transição secular pretende combinar o método da observação e o método comparativo. (Marques de Melo, 1970:  96-98)

O uso do primeiro destina-se a registrar as festas populares,  descrevendo-as e analisando-as monograficamente enquanto processos comunicacionais. Para tanto, tomaremos como fonte de referência os procedimentos usuais na pesquisa etnográfica (Mauss, 1967), valendo-nos também das anotações metodológicas peculiares à folkcomunicação (Beltrão, 1980; González, 1994 e Benjamin, 2000).

O emprego do segundo destina-se a correlacionar os registros das diferentes festas analisadas em função das variáveis que as configuram como fenômenos comunicacionais no espaço brasileiro. Vamos recorrer, para tanto, aos postulados recolhidos e discutidos por Holt & Turner (1970), Sartori & Morlino (1991).

Não pretendemos, aqui, estabelecer uma metodologia para os estudos das festas como processos comunicacionais. Esta vai emergir naturalmente, a partir das aproximações feitas ao objeto e dos testes realizados com instrumentos construídos para a análise de objetos semelhantes.

O roteiro proposto compõe-se de quatro elementos: a memória, o perfil , a mensagem e as mediações.

1) Memória

O que existe na memória coletiva sobre a festa? Trata-se de registrar a festa enquanto fato histórico. Fontes bibliográficas, hmerográficas ou coleta de dados através de entrevistas podem reconstituir a trajetória do evento, suas permanências, suas mutações.

2) Perfil

Como se desenvolve a festa nesta conjuntura? Trata-se de descrevê-la estruturalmente, sua dinâmica social, seus agentes culturais, suas fontes de sustenatação econômica. Pretende-se sobretudo que a festa seja caracterizada enquanto processo comunicacional: quem são as agentes comunicadores, quais os seus canais de expressão, a que audiência se destina e como ela se comporta ?

3) Mensagem

Qual o conteúdo peculiar à festa? Que significado ela possui no entorno social? Trata-se de resgatar sua programação, suas manifestações explícitas. Existe homogeneidade nos discursos veiculados ou é possível detectar a interveniência de diferentes classes sociais, grupos étnicos, faixas etárias ou segmentos educacionais? O que é hegemônico? O que é subalterno?

4) Mediações

Quais as relações da festa com instituições externas? Que vínculos estabelece com a mídia (jornais, revistas, rádio, televisão) ou com os serviços midiáticos (agências de publicidade, marketing, relações pública)? Como a mídia se apropria de sua mensagens e as retransmite ou interfere no seu conteúdo? Quais as outras instituições que participam da sua organização (escolas, igrejas, partidos, empresas, sindicatos)? Quais as interferências de natureza econômica? Como elas se fazem atuar?

5. Conclusão

O roteiro aqui proposto tem abertura suficiente para permitir que cada pesquisador possa agregar outros elementos que considere importantes na descrição da festa popular escolhida para análise. Nossa intenção foi a de construir um instrumento de trabalho que possa unificar a ação investigativa em diferentes regiões e em distintas cronologias. Desta maneira, será possível dar concretude à segunda etapa, qual seja, a da comparação desses processos comunicacionais.

Por isso mesmo, existe a expectativa de que cada monografia busque resposta para todas as questões esboçadas. É possível que algumas delas conduzam a lacunas, em vista da inexistência de fontes ou das condições de trabalho desfrutadas pelos pesquisadores, inseridas na alínea do voluntariado intelectual. Apela-se, contudo, para que os relatórios finais contenham não apenas os registros factuais dos dados coletados, mas incluam elementos conclusivos, expressando desta maneira a autonomia de cada pesquisador diante do objeto estudado.

Recomenda-se, finalmente, que em apêndice, sejam incluídas anotações de natureza metodológica. Trata-se de uma espécie de “diário de campo”, em que será possível registrar os procedimentos adotados, as dificuldades enfrentadas, as descobertas feitas, as pistas a serem exploradas mais adiante.

O estudo das festas populares tem marcado significativamente a produção cultural brasileira . Há evidências repertoriadas desde o século XVIII, como o clássico estudo de Calmón (1762). Poucas, no entanto, são as que privilegiam a ótica comunicacional. Uma dessas exceções é a pesquisa de Leal (1992), que reconstitui a Festa das Neves em João Pessoa, embora se restrinja ao universo da festa tal como registrado pela imprensa local. Trata-se, agora, de ampliar esse horizonte, entendendo cada festa como processo comnunicacional estruturante e compreendendo ao mesmo tempo suas projeções midiáticas.

Este é o desafio que lançamos aos integrantes da Rede FOLKCOM como um convite para o nosso próximo encontro em junho de 2001, na cidade de Campo Grande (MS).

Bibliografia utilizada

ALMEIDA, Renato. A recreação popular, suas formas e expressões, IN: DIÉGUES JÚNIOR, Manuel, coord. História da Cultura Brasileira. Vol. 1. Rio de Janeiro: MEC, 1972 , pág. 201-213

BARBERO, Jesus Martin. Procesos de comunicación y matrices de cultura. México: Gustavo Gili, 1987.

BELTRÃO, Luiz. Comunicação e Folclore. São Paulo, Melhoramentos, 1971.

BELTRÃO, Luiz. Folkcomunicação, a comunicação dos marginalizados, São Paulo: Cortez, 1980.

BENJAMIN, Roberto. Folkcomunicação no contexto de massa. João Pessoa: Editora da Universidade Federal da Paraíba, 2000.

BIROU, A. Vocabulaire Pratique des Sciences Sociales, Paris: Editions Ouvriéres (Edição portuguesa - Dicionário das Ciências Sociais, Lisboa, Dom Quixote, 2a. ed., 1976), 1966.

CALMÓN, Francisco. Relação das Faustíssimas Festas. Lisboa, Real Biblioteca da Ajuda (2a. edição, fac-similar, Rio de Janeiro, Funarte, 1982), 1962.

CÂMARA CASCUDO. Dicionário do Folclore Brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro (2a. edição, 1962), 1954.

CARNEIRO, Edison. Dinâmica do Folclore. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965.

DA MATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco (7a. ed., 1994), 1984.

GONZÁLEZ, Jorge.  Más(+)Cultura(s). ensayos sobre realidades plurales. México: Consejo Nacional para la Cultura y las Artes, 1994.

HOLT, Roberto & TURNER, John. The Methodology of Comparative Research. New York: Macmillan, 1970.

LEAL, Wills. Memorial da Festa das Neves. A História do Tradicional Festejo Sacro e Religioso Paraibano. João Pessoa:  Gráfica Santa Marta, 1992.

MARQUES DE MELO, José. Comunicação Social: Teoria e Pesquisa. Petrópolis: Vozes, 1970.

MAUSS, Marcel. Manuel d’Ethnographie, 2a. ed. Paris: Payot (Tradução portuguesa, Editoril Pórtico, Porto, 1972), 1967.

SARTORI, Giovanni y MORLINO, Leonardo. La comparazione  nelle scienze sociali, Bologna, Il Mulino (tradução espanhola, Madrid: Alianza Editorial, 1994), 1991.

SCHMIDT SILVA, Cristina. Viva São Benedito! - Festa popular e turismo religioso em tempo de globalização. Aparecida: Editora Santuário, 2000.

TEIXIERA, Sérgio Alves. Os recados das festas. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1988.

VOLTAR