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Filhos do Silêncio

Mais um dia começa na cidade de São Bernardo do Campo (SP). O Sol ainda nem apareceu, mas Alice* já está de pé. São 5h30 da manhã. Ela levanta, toma o seu café e se arruma para ir ao trabalho, numa empresa que fabrica autopeças em Diadema (SP). Mas antes de sair, não esquece de ir até o quarto da mãe:

- Bom dia, mamãe, Deus te abençoe.

Sua mãe sofreu um derrame e não pode se comunicar. Mas houve um período em que era Alice que não podia conversar com a mãe, pois seu mundo é o do silêncio. Ela é surda desde que nasceu.

A vida de Alice nunca fora fácil desde os primeiros momentos de vida. Sua mãe biológica a deu para a adoção aos cinco meses e nem sabia da perda auditiva da filha. Provavelmente, contraiu rubéola na gestação, uma das causas da surdez pré-natal. A mulher que a adotou também não sabia, mas começou a perceber algo de estranho: Alice não respondia a nenhum estímulo sonoro. Sempre que os outros filhos faziam bagunça, vinha com a voz branda e serena:

- Psiuu! Vocês vão acordar o bebê! – sussurrava.

Até o dia em que ela derrubou uma panela na cozinha e foi correndo para ver se tinha assustado a filha. Silêncio. Alice dormia como se nada tivesse acontecido. Assustada, a mãe e o marido foram até o pediatra para saber qual o problema da filha. Diagnóstico: perda auditiva bilateral profunda. E agora, o que fazer? O que será da pequena? Como irá falar? Como irá trabalhar?

- Calma. – disse o doutor – Há instituições que são especialistas em surdez e irão dar assistência à sua filha.

Sorte desta família. Geralmente, a maioria dos médicos dizia na época que os pais teriam um grande problema pela frente. Segundo eles, seus filhos jamais trabalhariam ou teriam um relacionamento normal com a maioria ouvinte. Não falariam direito, sofreriam preconceito por sua condição, não se casariam. Mal concluiriam o Ensino Fundamental, que dirá o superior.

Alice está no ônibus a caminho do trabalho. Está com sono, queria dormir, mas a noite terá prova de Lógica na faculdade. O curso que escolheu foi Sistemas de Informação. Está no primeiro semestre ainda, porque reprovou no anterior. Em todas as matérias. Segundo ela, o intérprete de língua de sinais, que tinha a responsabilidade de transmitir o conteúdo de sala de aula, não havia cumprido com o seu dever. Brincava muito e não tinha responsabilidade. Mas outro fator que também pode ter causado a repetência foi a falta de bagagem acadêmica que ela necessitava. Os surdos até o início dos anos 80 eram proibidos de usar dentro de sala de aula a sua língua, a Libras (Língua Brasileira de Sinais). Os educadores perdiam mais tempo ensinando seus alunos surdos a falarem do que matemática, história ou geografia.

O intérprete de Libras em sala de aula é o profissional que atua junto ao professor. Enquanto está sendo ministrada a matéria, todo o conteúdo é passado para o aluno surdo em língua de sinais. A responsabilidade desta nova modalidade de trabalho é de apenas transmitir o que está sendo dito na aula, ficando isento do bom ou mau desempenho do aluno. Alice possui um em sua sala:

- Agora eu entendo o professor! - disse

Antes que a lei da Libras (10.436 de 24 de abril de 2002) obrigasse as instituições a trabalhar com a língua de sinais e a contratar intérpretes, os alunos surdos tinham grandes dificuldades para entender a matéria das aulas. Mesmo para aqueles que tem boa leitura labial (método de olhar para os lábios e decifrar o que está sendo dito) ficava difícil compreender, pois os professores ficavam de costas ou caminhavam pela sala.

O expediente da fábrica encerrou e Alice caminha até o ponto de ônibus. Por sorte, ele vem logo e a deixa na porta da faculdade, em São Paulo. Desta vez ela nem quis saber, encostou a cabeça na janela e dormiu. Prova de Lógica a deixa nervosa.

Denis, seu colega de classe não se importa tanto. Também é surdo, mas diferentemente de Alice teve uma vida mais fácil. Nascido numa família de classe média, dirige seu próprio carro. Trabalha numa empresa de informática e sempre estudou em escolas particulares. Quando estava no ensino médio, havia um intérprete em sua sala. Morava no mesmo prédio que o atual presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, quando vivia em São Bernardo. Até curso de mergulho o garoto fez.

Na Faculdade

Alice entra na faculdade e vai até a cantina. São 18h00.

- Uma coxinha, por favor. – diz de forma compreensível. Foram anos de terapia fonoaudiológica. Ela sobe as escadas e se encontra com Ana Lídia, que lhe cumprimenta com um abraço.

Ana Lídia é formada em pedagogia e coordena os intérpretes da instituição em que trabalha, a mesma que Alice estuda. Como a aluna, também é surda. Perdeu a audição ainda pequena. Como fala muito bem, apenas dá a impressão de um leve sotaque.

- Sou brasileira, sim! - diz.

Alice sobe até a sua sala no quinto andar. Senta na primeira carteira, pois dali pode observar melhor o intérprete. Ele fora substituído pelo outro do semestre passado, que foi demitido (não porque a aluna foi reprovada, e sim por outros motivos). Denis e Fernando, os outros alunos surdos entram na sala e a cumprimentam. Em seguida, entra o intérprete e a professora com as provas.

- Só um minuto, que eu vou perguntar para a professora – sinaliza o intérprete.

Antes de começar a prova, Alice se vira para um colega ouvinte e pergunta se ele estudou. O rapaz, com um pouco de dificuldade, compreende o que ela disse e responde falando de forma pausada que “um pouco”. Enquanto isso, Denis se virá para o amigo Flávio (ouvinte) e diz que trabalhou no último final de semana. Mesmo sendo surdos, o relacionamento deles com o resto da sala é normal, e até rolam paqueras por parte de Alice com o rapaz mais bonito da sala.

- O único problema é que ele é metido – diz virando-se para o intérprete

Denis pergunta em sinais para Alice se as provas foram traduzidas. Ela responde que não sabe e pergunta, em sinais, para o intérprete a mesma coisa. A tradução de provas escritas para os surdos consiste na troca de vocabulário, de forma a ser mais acessível para os alunos. Os professores enviam a prova escrita com antecedência para a coordenadora, que faz a troca de palavras e a imprime, devolvendo-a para o professor. Por exemplo, se na prova possuir o termo “frango resfriado” pode significar que o frango está congelado ou que ele está com gripe. Essa troca de palavras é feita para os alunos não se confundirem na hora de responder as questões.

Segundo dados do MEC (Ministério da Educação), cerca de 46 mil surdos são matriculados em escolas de ensino fundamental e médio todos os anos. Já no ensino superior, o número cai para menos de mil. As dificuldades enfrentadas são a falta de intérprete nas instituições escolares e a escassez no conhecimento de Libras na sociedade.

Alice sempre é a uma das últimas pessoas a entregar a prova. Ela olha para o intérprete com cara de que “acho que não fui bem”. Ele responde para ela ter calma, pois irá conseguir se houver esforço. Ela lhe devolve o olhar com um sorriso, caminha até a mesa da professora e lhe entrega a prova respondida. Despede-se de todos e sai da faculdade. São 22h30.

Ao chegar em casa, a primeira coisa que faz é ir até o quarto da mãe adotiva. Alice só soube que era adotada aos dez anos de idade. Não se importou. Afinal, para ela, sua mãe é a melhor do mundo. Ela caminha até o quarto, abre a porta com cuidado e se debruça na cama, e, bem pertinho do ouvido da mãe, diz sussurrando:

- Boa noite, mamãe. Deus te abençoe.

“Ouça a música das vozes, o canto dos pássaros, os possantes acordes de uma orquestra, como se amanhã fossem ficar surdos. Toquem cada objeto como se amanhã perdessem o tacto. Sintam o perfume das flores, saboreiem cada bocado, como se amanhã não mais sentissem aromas nem gostos. Usem ao máximo todos os sentidos; goze de todas as facetas do prazer e da beleza que o mundo lhes revela pelos vários meios de contacto fornecidos pela natureza”.

Hellen Keller, surda-cega.

*O nome foi alterado a pedido da entrevistada.