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Asfalto, doce asfalto

Estresse e congestionamento mexem com a cabeça da gente, mas não posso exagerar: Existem, sim, muitas coisas piores que a Avenida dos Bandeirantes às sete da noite. A morte, por exemplo.

O problema é que a morte pelo menos é misericordiosa. Acontece uma vez, e pronto. O congestionamento acontece todos os dias, e com uma precisão invejável: sempre no meio do meu caminho, na hora em que volto para casa. E todos os dias eu morro de tédio.

Não queria exagerar, mas acho que acabei exagerando – desculpe. Melhor ligar o rádio para me distrair. Ouço um pouco de MPB. A locutora interrompe para dar o resumo das notícias da hora. Entre mensaleiros e sanguessugas, cuidadosamente colocada, escuto uma frase um tanto quanto surreal:

“Pesquisa revela que homens desanimados correm risco de morte súbita”.

Nenhuma explicação, nada: só a frase. Olho para o som do carro e não sei se rio ou se choro. Na dúvida, desligo. Com minha vida em jogo, ouvir Jota Quest poderia ser fatal. Melhor não correr riscos. Olho para frente e vejo uma constelação de luzes de freio. Respiro fundo e viro à esquerda na Berrini, já sentindo a foice no pescoço.

Mais congestionamento na Berrini. Olho para frente de novo e vejo um vendedor de balas. Em circunstâncias normais não abriria o vidro, mas, risco por risco, melhor comer jujuba. Abro o vidro para comprar um pacote. O vendedor parece ser gente boa, então compro logo dois.

Abro um pacote e continuo observando o vendedor, que caminha por entre os carros. Há quem sinta pena de quem trabalha nos semáforos. Acho bobagem. É preciso ser ou muito sortudo ou muito orgulhoso para sentir pena do trabalho dos outros; não sou nenhum dos dois. O vendedor está bem-humorado. Pode esticar as pernas quando quiser. Se fosse para sentir alguma coisa, seria inveja.

O semáforo abre, mas a fila de carros não anda. Suspiro, pego mais uma bala e continuo minhas observações. Dois carros à minha frente, um motorista manda o vendedor tomar no cu. Aí, sinto pena.

Não do vendedor, que dá risada e passa para o próximo carro, mas do motorista, que terá de enfrentar o trânsito de São Paulo com mau-humor e sem jujuba. E também dos outros milhares de motoristas ao meu redor, todos correndo risco de morte súbita. E da cidade de São Paulo, que consegue desanimar seus habitantes mesmo em uma noite tão bonita.

O semáforo abre, e desta vez a fila anda. Viro à direita na Ponte do Morumbi e deixo o congestionamento para trás, junto com o risco de morte. Sinto-me bem-humorado como o vendedor de balas, com um gosto doce na boca e uma idéia na cabeça.