Ano 3 Número 1 São Bernardo do Campo - dezembro de 2003
Editorial
ÉTICA NA IMPRENSA: UMA QUESTÃO DE CIDADANIA
Prof. Dra. Graça Caldas
(Jornalista e professora do Programa de Pós Graduação em Comunicação Social da Umesp)
O relançamento do Mídia Fórum no Programa de Pós-Graduação em Comunicação Social da UMESP, agora em sua terceira versão, chega em boa hora. Mostra a inquietude e preocupação de alunos e professores em manterem vivo o debate e a reflexão sobre temas da atualidade. O exercício crítico sobre o processo de produção na mídia e sua repercussão na formação ou deformação da opinião pública deve pautar o cotidiano dos profissionais da mídia e pesquisadores de Comunicação.
A idéia original deste projeto, assim como a escolha acertada de seu nome é do prof. Dr. José Marques de Melo. Da primeira edição do Mídia Fórum, em papel, em 1997, no Pós-Com da Metodista, passando pela rica experiência no jornal regional Diário do Grande ABC, projetos dos quais participei ao lado de Rosemary Bars e Maria Cristina Gobbi, ao atual, todos eles revelam a disposição ao debate, o que por si só é animador.
A proposta desta edição, em discutir a Ética na Imprensa, a partir de dois artigos dos jornalistas Bia Abramo (FSP), "Celebridade, Fama e o jornalismo bizarro" e Luis Nassif "O seqüestro na Santa Casa", é oportuna. A questão da Ética na Imprensa não é nova e nem por isso menos importante. Estudiosos do tema como os jornalistas Carlos Alberto Di Franco, Perseu Abramo, Eugênio Bucci, Francisco Karan, José Arbex, Clóvis de Barros Filho, entre tantos outros, têm sido incansáveis em clamar pela responsabilidade social dos profissionais da mídia. Não menos importante tem sido o papel do Instituto Gutenberg e do Observatório da Imprensa.
Rotineiramente confundimos a ética profissional (normas de conduta) com a ética do cidadão, esta sim, que deve permear desde sempre o comportamento de todos os indivíduos e principalmente dos jornalistas, pelo poder que detêm ao veicularam na mídia, independente do suporte (rádio, TV, Internet, jornal ou revista) qualquer informação ou comentário.
Nos artigos que inauguram esta nova edição do Mídia Fórum, o tema reveste-se de singular relevância. Ao irem além da discussão anacrônica sobre o objetividade da informação e abordarem a confusão que a própria mídia estabelece entre ficção e realidade, ou na irresponsabilidade de julgamento sumário, (quem não se lembra da Escola Base?), os dois autores. Abramo e Nassif tocam em "feridas" ainda abertas, que vêm maculando a imagem da imprensa e demonstrando que temos um longo caminho a percorrer para nos tornarmos dignos da profissão que escolhemos.
Ao se arvorar ora como justiceira e ora como manipuladora das informações, ao confundir o imaginário popular, misturando ficção com realidade, o desserviço da imprensa é imensurável. É imprescindível, portanto, recuperar o papel ético e de responsabilidade social que a imprensa defende, em seus princípios, mas que nem sempre coloca em prática, para que possamos, de fato, formar cidadãos críticos, capazes de se tornarem sujeitos de sua própria história.
- Ética da imprensa, imprensa da ética - Patrícia Ozores Polacow
- A culpa dos inocentes - Missila Loures Cardozo
- Virtù Jornalística - Victor Kraide Corte Real
- Gilberto Braga será o candidato da Globo à Presidência da República - Wilson Corrêa da Fonseca Júnior
- O caso "celebridades" e a ética: estamos mirando o alvo certo? - Milton Pimentel Martins
- Controles de mídia: em busca de soluções - Lina Moreira
- O marketing refinado: a fantasia jornalística e a lógica do mercado - Lívio Sakai
- Ética e cultura: a lógica da
indulgência - Amyris
Fernandez
O SEQÜESTRO NA SANTA CASA
Luís Nassif
(publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, em 27 de outubro de 2003)
No primeiro semestre, duas mulheres apareceram na Santa Casa de Misericórdia de São Paulo atrás de informações sobre adoção de crianças. Foram atendidas pela assistente social Bernadete Pires Pacheco, 37 anos, 11 de Santa Casa. No mês de junho as mesmas mulheres entraram no hospital com uniforme de enfermeira. No corredor, encontraram uma menina de 15 anos com uma filha no colo. A menina tinha acabado de chegar de um abrigo para menores infratores, acompanhada da assistente social do abrigo, para um atendimento de emergência. Portanto ninguém da Santa Casa poderia saber previamente que estaria lá naquele momento. As moças viram a menor, pediram à criança que fizesse um exame de raio-X e desapareceram. O seqüestro foi às 9h45. Naquela hora, Bernadete estava fora da Santa Casa, em atendimento médico.Meses de investigações depois e após um volumoso inquérito de mais de 300 páginas, o delegado Fernando Gomes, da 77ª DP, chegou às seqüestradoras e, por meio delas, à família que ficou com a criança -uma ex-patroa das moças, que queria ser mãe. Detidas, as seqüestradoras afirmaram que Bernadete as tinha orientado sobre como proceder no seqüestro. Nenhuma prova, nenhuma evidência, provavelmente apenas um caso típico de suspeito que, preso, acha que pode reduzir a culpa dividindo responsabilidades com terceiros. Foi o que bastou para o delegado Gomes incrementar sua história. Na noite de sexta-feira, duas semanas atrás, mandou um camburão à casa de Bernadete a fim de conduzi-la à delegacia para reconhecimento das suspeitas. A assistente social foi, desarmada, acompanhada apenas de seu pai, de 67 anos. Lá, sem orientação do advogado, a moça ingenuamente caiu na armadilha de Gomes. O delegado indagou se ela reconhecia as seqüestradoras. Bernadete disse que sim, que se lembrava delas no hospital pedindo informações sobre adoção. Foi o que bastou para sair direto dali para a cela. Não havia nenhuma evidência a mais contra ela, nenhum dado, como não houve depois que vasculharam sua conta telefônica e bancária. O delegado instruiu o inquérito, foi pessoalmente ao juiz pedir a prisão temporária de cinco dias, renovada por mais cinco. Depois de dez dias, prisão preventiva por mais 30 dias em uma cela da 77ª DP. Há 12 dias a moça está presa. Aí começou o grande show da mídia, com o delegado podendo exibir sua presa. Foi programada uma reconstituição do crime. Mesmo não estando presente na Santa Casa no momento do seqüestro, Bernadete foi levada para lá, e o apresentador José Luiz Datena pode reverberar e sugerir que talvez ela tivesse participado de outros seqüestros. A Santa Casa inteira se insurgiu em defesa da sua funcionária. Foi feito abaixo-assinado com todos os médicos e funcionários avalizando o seu caráter. A moça continua presa, aguardando agora o julgamento do pedido de hábeas corpus. A moça está presa. Confirmada a sua inocência, não se venha com essa história de que o Estado é culpado e deve pagar. Se a moça for de fato inocente, o culpado tem nome e RG e é delegado titular da 77 DP.Patrícia Ozores Polacow
(Doutoranda em Comunicação Social na UMESP)
A dissecação dos casos de falhas éticas cometidas pela imprensa é um dos desafios para a superação do jornalismo que hoje nos serve. Isso implica em alguma sistematização, pois há elementos constantes em todos os casos. Um modelo para análise deve dar conta de compreender fatores respeitantes à natureza dessas notícias, ao público que as recebe e aos meios e profissionais que as produzem. Socialmente, esse modelo só terá proveito se for também capaz de pensar e seguir caminhos que estejam na contra-mão do processo.
Quando faz a resenha do novo livro de Luis Nassif, "O jornalismo dos anos 90", Francisco Viana (2003) aponta aquilo que os olhos do público receptor desse jornalismo enxergam de maneira turva.
Por público receptor entende-se o cidadão comum, integrante de um grupo secundário, como colocaria Paul Lazarsfeld (Wright, 1968). Sua visão é turva porque não é capaz de identificar dois dos mais essenciais componentes do tipo de notícia que cotidianamente ilustra os exemplos de abusos da imprensa. Estes componentes são a notícia-espetáculo e o denuncismo. Estão amalgamados, pelo sentimento único, a sede de justiça, e encobertos pela ignorância ou, em outras palavras, pela crença de que a imprensa sempre julga os fatos com conhecimento de causa.
No tocante aos meios, pelo menos dois fatores devem ser considerados. Primeiramente está o processo pelo qual uma notícia veiculada por um meio de comunicação chega a ser presença constante em praticamente todos os outros meios, independentemente de seu suporte, o que Ignácio Ramonet (1999, p.20-1) chama de mimetismo midiático:
Esta imitação delirante, levada ao extremo, provoca um efeito bola-de-neve e funciona como uma espécie de auto-intoxicação: quanto mais os meios de comunicação falam de um assunto, mais se persuadem, coletivamente, de que este assunto é indispensável, central, capital, e que é preciso dar-lhe ainda mais cobertura, consagrando-lhe mais tempo, mais recursos, mais jornalistas. Assim os diferentes meios de comunicação se auto-estimulam, superexcitam uns aos outros, multiplicam cada vez mais as ofertas e se deixam arrastar para a superinformação numa espécie de espiral vertiginosa, inebriante, até a náusea.
Ramonet (1999, p.21) não inocenta nem os meios nem o público: "A mídia, sujeita à concorrência, é levada, quase apesar dela, a esta superoferta. Mas todo mundo é responsável, inclusive nós, leitores ou telespectadores, que corroboramos com nossa presença e com a ambigüidade de nossa curiosidade esta execução programada."
A concorrência que leva a mídia à superoferta não é, evidentemente, justificativa. Chega-se ao segundo fator, o profissional de imprensa e sua formação. E trata-se de algo óbvio: aqueles que atuam e aqueles que aspiram por uma vaga na mídia devem conhecer os processos pelos quais o jornalismo é capaz de destruir a vida das pessoas.
Entre os livros que tratam de analisar os episódios em que a imprensa agiu de maneira antiética (e não é pouco o material disponível para análise) está o recém-lançado "O jornalismo dos anos 90", de Luis Nassif (editora Futura), que relaciona 16 casos. Entre eles, o da Escola Base, um dos mais conhecidos, que já foi registrado em livro por Alex Ribeiro (2000).
Segundo Nassif (apud Viana, 2003), a imprensa tem o desafio de buscar "ser mais sofisticada e plural, capaz de julgar situações, não personagens, de ser contra ou a favor dos atos do governo não contra ou a favor de governos (...)."
Da mesma forma, a imprensa tem o dever de não apenas ser juíza de si própria, como também de potencializar a divulgação de trabalhos que contribuam para uma "educação para os meios". Como faz Luis Nassif na "Folha de S. Paulo", examinando e evidenciando tais abusos, caminhando no sentido de esclarecer tanto o cidadão comum quanto os estudantes e profissionais de jornalismo.
Referências Bibliográficas
RAMONET, Ignácio. A tirania da comunicação. Petrópolis: Vozes, 1999.
RIBEIRO, Alex. Caso Escola Base os abusos da imprensa. São Paulo: Ática, 2000.
VIANA, Francisco. O espetáculo não pode continuar. Gazeta Mercantil. São Paulo, 31 out., 1 e 2 nov. 2002. Fim de semana, p.3.
WRIGHT, Charles. Comunicação de massa. Rio de Janeiro: Bloch, 1968.
Missila Loures Cardozo
(Mestranda em Comunicação Social na UMESP)
O artigo de Luis Nassif nos coloca diante de um dilema ético. Um dilema com o qual nos deparamos diariamente, e com o qual convivemos como vítimas deste torpe circo chamado mídia. Crimes ocorrem todos os dias, e por mais que pareça impossível, demonstram-se mais sádicos e cruéis e evidenciam a face mais brutal da alma humana. Em contrapartida ao nosso senso de moral e ética, e mesmo às leis vigentes no país (por mais questionável que seja seu rigor), instaurou-se no país uma nova forma de justiça: a mídia. O Artigo XI da Declaração dos Direitos Humanos da ONU diz:
ARTIGO XI
Todo homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente, até que sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público, no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa. Ninguém será condenado por atos ou omissões que, no momento em que foram cometidos, não tenham sido delituosos segundo o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta penalidade mais grave do que a aplicável no momento em que foi cometido o delito.
Onde está a justiça, a verdadeira e instituída pela Constituição, quando um cidadão é acusado e arbitrariamente julgado pela mídia, que encontra nestes acontecimentos material para alavancar audiência de programas ditos jornalísticos? Andy Warhol disse que, um dia, todos teriam direito a seus 15 minutos de fama. Não tenho a ilusão catastrófica ou apocalíptica dos Frankfurtianos, vendo na indústria cultural a decadência de nossa sociedade. Mas por outro lado, a frase de Warhol representa o desejo do homem de se tornar público e reconhecido, faz com que os executores da lei sejam seduzidos pela fama rápida e certa, proporcionada pela resolução de crimes que chocam a sociedade como um todo.
Os meios de comunicação de massa, sobretudo a televisão e a Internet, proporcionam a proliferação rápida e indiscriminada de informação. Nem sempre o que é veiculado corresponde à verdade, ou melhor, corresponde à verdade julgada pela Justiça. No caso em questão, não é possível dizer que a assistente social tem ou não envolvimento no caso de rapto. A bem da verdade, esta não é a questão principal aqui, já que compete à justiça considerar os fatos, provas e argumentações para chegar a este veredicto. O que está em questão é como os meios de comunicação de massa têm proporcionado o julgamento de casos que deveriam competir única e exclusivamente ao judiciário.
A origem da palavra ética vem do grego "ethos", que quer dizer o modo de ser, o caráter. Os romanos traduziram o "ethos" grego, para o latim "mos" (ou no plural "mores"), que quer dizer costume, de onde vem a palavra moral. Tanto "ethos" (caráter) como "mos" (costume) indicam um tipo de comportamento propriamente humano que não é natural, o homem não nasce com ele como se fosse um instinto, mas que é "adquirido ou conquistado por hábito" (VÁZQUEZ). Portanto, ética e moral, pela própria etimologia, dizem respeito a uma realidade humana que é construída histórica e socialmente a partir das relações coletivas dos seres humanos nas sociedades onde nascem e vivem.
Desta maneira estamos vivendo a era da impunidade, não da lei, e sim dos poderes da imprensa, que conclama a sociedade a julgar pessoas baseada apenas justificativas tênues e sem comprovação. O texto de Luis Nassif, nos faz refletir sobre o poder que a imprensa tem em suas mãos e tem usado diariamente para alavancar audiência e novas "estrelas".
O mais triste é saber que a grande maioria não tem condições de compreender este abuso e que continuaremos a ser os culpados inocentes.
Victor Kraide Corte Real
(Mestrando em Comunicação Social na UMESP)
A questão da ética permeia freqüentemente os meios de comunicação, apresentando-se como elemento mediador da análise sobre a própria conduta humana, manifestada neste caso, através da mídia.
Tomando a ética como referencial, é possível elaborar juízos de valores que podem ser comprovados ou contestados à luz da discussão crítica sobre um determinado acontecimento midiático, ou midiatizado. O levantamento deste debate sobre a ética nas mensagens jornalísticas, não pretende necessariamente discutir o fato ocorrido, apresentado no texto referência de Luís Nassif, mas sim tentar entender, do ponto de vista ético, a postura adotada pelo programa televisivo apresentado por José Luiz Datena. Portanto o acontecimento midiatizado é um mero pretexto, por mais representativo e lamentável que seja, para estudarmos o acontecimento midiático, como sendo um fato específico explorado pela mídia.
A preocupação dos meios de comunicação com algum referencial ético, está diretamente relacionada a implicações sociológicas, filosóficas e culturais que suas mensagens podem acarretar sobre seu público receptor.
O Congresso da Intercom 2003 foi um espaço amplamente dedicado a discussões sobre mídia e ética, a última frase de um dos textos apresentados sobre o assunto parece muito oportuna: Se os meios de comunicação refletem a vida contemporânea e dela fazem parte, criticá-los é focar a própria vitrine das atividades humanas (1). Devido a esta íntima relação com a sociedade é que, a maioria dos pesquisadores da comunicação, tendem a adotar uma postura crítica e rigorosa com relação a mídia e seu limiar ético.
Sobretudo, a relação existente entre mídia e sociedade, está alicerçada no conceito de oferta e procura, ou seja, nas relações mercantilistas. Beltrão e Quirino, citando Ciro Marcondes Filho, defendem a idéia da sociedade atual estar longe de ser coerente, lógica e racional, pois o que prima na sociedade industrial e, particularmente na capitalista ocidental, é a anarquia, a irracionalidade, a imprevisibilidade, em suma, as suas incríveis possibilidades de ruptura (2). Independentemente da ideologia adotada, o que a mídia em geral busca, como empresa jornalística, é o enriquecimento de seu capital. Sendo assim, ela está sujeita a cometer rupturas, inclusive com os padrões éticos.
Neste mesmo texto de Beltrão e Quirino, eles apresentam o termo Virtù como instrumento referencial de análise das questões sobre ética e política. A Virtú aplicada pelos autores, baseia-se na descrição de Maquiavel, não como a virtude da concepção cristã e medieval, mas sim como as qualidades necessárias a um líder político, as quais sejam: astúcia, audácia, crueldade e hipocrisia.
A partir do texto de Luís Nassif, algumas impressões devem ser apresentadas neste debate sobre a ética e a Virtù jornalística. As qualidades mencionadas por Maquiavel, também podem transparecer num formador de opinião, neste caso, um apresentador sensacionalista. Sustentado exclusivamente numa condenação prematura, toda astúcia, audácia, crueldade e hipocrisia foram demonstradas na busca por índices de audiência, expondo e difamando um cidadão sem preocupar-se com as conseqüências.
Referências Bibliográficas
1 CHRISTOFOLETTI, Rogério. Dez impasses para uma efetiva crítica de mídia no Brasil. In: CD-ROM com os Anais da Intercom 2003. Belo Horizonte: Intercom, 2003.
2 BELTRÃO, Luiz e QUIRINO, Newton de Oliveira. Subsídios para uma teoria da comunicação de massa. 3ª ed. São Paulo: Summus, 1986, p. 88
"CELEBRIDADE", "FAMA" E O JORNALISMO BIZARROBia Abramo
(publicado originalmente na Folha de S. Paulo, em 2 de novembro de 2003)
A revista da novela "Celebridade" em forma de realidade. Os trânsitos complexos e frenéticos entre o real e o virtual que marcam a modernidade encontraram sua tradução no slogan "genial" que lança o encarte "Fama".
Impressa na cartolina que separa "Fama" (nome do título "produzido" na novela) da revista "Quem", a frase publicitária consegue expressar em menos de um dezena de palavras e com espantosa clareza algo que sintetiza simultaneamente uma sofisticada operação de marketing, uma forma abusada de fazer ficção e uma maneira muito esquisita de fazer jornalismo.
Não é de hoje que confusão deliberada entre ficção e realidade cerca o universo da TV. O jornalismo tradicional de TV, aquele das revistas de fofocas, sempre manipulou essa confusão com grande eficiência, passando registro da vida pessoal do ator/atriz de sucesso na TV para o do personagem da novela muitas vezes sem qualquer mediação. As revistas de celebridades, que de certa forma evoluíram deste tipo de jornalismo, deram vários passos além: nelas, as vidas ditas privadas de famosos é que se tornam uma espécie de novela. Agora, esse imbróglio chega a uma espécie de paroxismo, com o lançamento de uma "revista" que trata como celebridades os personagens da novela que tem como tema justamente o mundo das celebridades.
Um leitor desavisado, que pegue o encarte "Fama" na sala de espera do dentista entre outras revistas do mesmo gênero, pode ter a desagradável sensação de estar numa realidade alucinatória, no mundo bizarro do super-homem, onde a kryptonita é vermelha, ou do outro lado do espelho, onde Alice encontra a lógica de pernas para o ar. Na capa, a manchete "Separados!" anuncia as brigas entre os principais protagonistas da novela com fotos dos atores caracterizados como seus personagens, ao mesmo tempo em que o casal da vida real Edson Celulari e Cláudia Raia aparecem como eles mesmos. A matéria sobre o cantor Mick Hucknall, que de fato fez shows no Brasil recentemente, tem um box com sua discografia e um parágrafo sobre seu encontro com a empresária Maria Clara Diniz, a personagem de Malu Mader na novela.
A coisa vai além, bem além daquilo que, no editorial de "Fama", é descrito como "um caso de amor entre os dois Brasis", o "de verdade" e o "de mentirinha", como a editora do encarte que assina o editorial chama o Brasil ficcional das novelas.
Diminutiva, mas ainda assim mentira: na palavra escolhida pela editora real do encarte (o divertido expediente lista os nomes e cargos da redação real e, logo abaixo, da ficcional), revela-se aquilo que se espera de nós, telespectadores e leitores: a tolerância com as mentiras e fingimentos que são a matéria comum das novelas, do marketing e desse tipo de jornalismo.
FÓRUM DE DEBATES
1- GILBERTO BRAGA SERÁ O CANDIDATO DA GLOBO À PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICAWilson Corrêa da Fonseca Júnior
(Doutorando em Comunicação Social na UMESP)
Não é nova a controvérsia sobre a relação entre imaginário e realidade no âmbito da comunicação de massa. Ela já estava presente, por exemplo, no debate entre os teóricos frankfurtianos e norte-americanos, na respectiva condenação e defesa da indústria cultural. A superação desse debate, segundo Martín-Barbero, se iniciou com o francês Edgar Morin, que nos anos de 1960 procurou combinar ambos os enfoques recorrendo às idéias de Freud sobre os mecanismos de identificação e projeção. Assim, para Morin, a verdadeira mediação da cultura de massa seria a de proporcionar apoios imaginários à vida prática e pontos de apoio prático à vida imaginária. Nos anos de 1980, Jean Baudrillard chegou à conclusão que, em nossa era de reprodução e simulação, os opostos começam a entrar em colapso e tudo se torna indecidível: o belo e o feio na moda, a esquerda e a direita na política, o verdadeiro e o falso na mídia todos se tornam intercambiáveis, numa hiper-realidade que ofusca a diferença entre o real e o imaginário.
A teledramaturgia brasileira, particularmente as novelas da rede Globo, possuem uma extensa lista de bons serviços no sentido de confirmar as teorias de Morin e Baudrillard. Em 1977 entrava no ar a novela Espelho Mágico, escrita por Lauro César Muniz e dirigida por Daniel Filho, retratando os bastidores da fictícia Coquetel de amor a novela dentro da novela. Entre 1992 e 1993, a novela de Glória Perez, De corpo e alma, sob a direção geral de Roberto Talma, promoveu intensa campanha a favor do resgate de crianças desaparecidas. Entre 2001 e 2002, a mesma Glória Perez, em O clone, sob a direção do núcleo Jaime Monjardim, abordou o problema das drogas, procurando estimular a recuperação de viciados. Com o tempo, esse procedimento passou a ser denominado "tecnicamente" de merchandising social, uma forma de naturalizar outro procedimento, eticamente questionável: o merchandising com finalidades comerciais.
Atualmente, a novela Celebridades, de Gilberto Braga, parece haver superado as iniciativas anteriores. A relação entre realidade e ficção já não ocorre apenas por meio da metalinguagem, como em Espelho Mágico, nem apenas pelo merchandiding, seja ele "social" ou "comercial". Celebridades parece estar inaugurando uma nova modalidade na teledramaturgia o merchandising da metalinguagem (ou merchandising metalingüístico) com o lançamento da revista Fama, produzida telenovela, como encarte da revista Quem.
Nestes tempos de hiper-realidade, não parece coincidência que o merchandising metalingüístico da novela Celebridades (concebida há, pelo menos, dois anos) e as gestões do governo Lula sejam fenômenos contemporâneos. Ambos partilham dessa indecisão de opostos (o verdadeiro e o falso na mídia; a direita e a esquerda na política) abordada por Baudrillard. Aliás, o próprio Baudrillard tornou-se objeto dessa indecisão com o aparecimento de seu livro Simulacros e simulações numa cena do filme Matrix, enquanto o Presidente Lula chegou a receber no Palácio do Planalto os personagens Acerola e Laranjinha, da série televisiva Cidade dos Homens, de Fernando Meireles. A diferença entre ambas as situações é que a primeira ocorreu, segundo Baudrillard, sem seu consentimento. Seguindo essa tendência, não seria absurdo o governo Lula contratar Maria Clara Diniz, a promoter de Celebridades, para melhorar a visibilidade do Programa Fome Zero e a rede Globo lançar Gilberto Braga como próximo candidato à presidência da República.
O que pode parecer, num primeiro momento, um divertido jogo de sombra e luz, sem grandes conseqüências, adquire matizes dramáticos com a inserção do jornalismo, ou da linguagem jornalística, nesse jogo. O tumulto causado, nos Estados Unidos, pela famosa transmissão radiofônica do livro A guerra dos mundos, de H. G. Wells, no início do século passado, narrando a invasão da Terra por marcianos, parece ser o exemplo remoto disso. Recentemente, no Brasil, a ameaça apareceu encapuzada, personificada na pele de integrantes do PCC, numa reportagem forjada dentro do Programa Domingo Legal.
A grande questão que se coloca diante dos problemas éticos, e mesmo sociais, causados pela indistinção entre o real e o imaginário (seja na forma de merchandisings ou de reportagens forjadas) é como intervir na hiper-realidade. Para Baudrillard, a resposta estaria em mover-se a extremos para neutralizar o equilíbrio do sistema. Algo como condenar aqueles que aviltam deliberadamente os princípios estabelecidos para as concessões públicas de rádio e televisão. Enquanto isso não acontece, só resta nos rendermos ao êxtase e ao fascínio do objeto televisivo, até que sejamos ameaçados por um rifle em nossa nuca, ou por uma faca em nossas costas, como ocorreu recentemente com o estudante Felipe Silva Caffé e sua namorada, Liana Friedenbach. Mas é bom que não morramos. Caso contrário, seremos duplamente reduzidos a objetos de consumo: primeiro, pelos nossos algozes; depois, pela hiper-realidade.
Milton Pimentel Martins
(Mestrando em Comunicação Social na UMESP)
Vivemos mergulhados num estado onírico. Com efeito, as atenções daquilo que se pode chamar de vigília dessa nova consciência que emerge, concentram-se sobretudo na detecção das manifestações dos objetos de desejo ou fascínio quais sejam; sexo, morte e progresso tecnológico - que induzem o tal mundo de sonhos no qual nossa realidade foi convertida. É justamente a dita Cultura de Massa, que se apropria destes impulsos e necessidades, tematiza-os nos produtos que confecciona e os disponibiliza para o consumo, o fenômeno vocacionado a saciar a demanda ávida do público por "entorpecer-se".
Até agora, estamos no inicio da década de 1950. As linhas acima tentam sintetizar algumas das reflexões de Marshall McLuhan na sua primeira incursão pelo universo das letras, a saber, o título "Mechanical Bride". Nele, o pensador canadense coloca em perspectiva aquilo que se denomina sociedade industrial. Atualmente, e isso é quase consensual para o establishment intelectual contemporâneo, embarcamos num período definido pelo neologismo "pós-industrial". Em face da utilização do prefixo "pós", depreende-se que se tratam de dois contextos cada qual com sua configuração particular, e que análises endereçadas a arranjos históricos superados já não são mais adequadas aos novos tempos, certo? É, mas estamos falando do extemporâneo McLuhan.
Um dos estopins que ensejaram o debate em tela, foi a crítica de Bia Abramo, publicada em sua coluna no jornal "Folha de São Paulo", na qual submete a estratégia de divulgação da novela "Celebridade" ao crivo da ética. A campanha estaria promovendo uma interação perigosa de pessoas fictícias personagens da novela com personalidades públicas cuja identidade é real. Prática que, segundo a colunista, poderia afetar o discernimento dos incautos espectadores e lançá-los numa realidade alucinatória. Ocorre que ela própria reconhece que a transformação da vida real em conto de fadas, e seu reverso, a tentativa de cingir a ficção com um verniz de verossimilhança, são um expediente antigo. Se puxarmos pela memória constataremos uma série de episódios nos quais se noticiou que romances entre personagens transcendiam as telas de Cinema e TV e se repetiam na vida real. Ou, nossas reminiscências nos revelarão o tratamento folhetinesco conferido ao relacionamento de um casal pertencente ao circuito dos ricos e famosos. Destarte, não é desatino afirmar que o nosso mundo conta com um enorme aparato engendrador de fantasias, com as quais centenas de milhares de pessoas diariamente acalentam seus sonhos, renovam suas esperanças, sublimam os desejos inexeqüíveis. Enfim, a supressão das fronteiras entre ficção e realidade edulcora a rigidez do nosso cotidiano. Daí ao que McLuhan preceituou em meados do século XX, a distância é mínima.
Um outro estudo revelador, cujo fulcro teórico-metodológico, todavia, é de matiz oposta ao viés analítico adotado pelo controverso comunicólogo canadense, e de âmbito menos abrangente, ou seja, mais circunscrito à estrutura orgânica dos mass media, é "A TV de Papel, a imprensa como instrumento de legitimação da televisão no Brasil, um estudo sobre o ano de 1985" de Adolpho Queiroz. No referido trabalho são cotejados os tratamentos dispensados a determinados fatos na cobertura televisiva e na dos grandes jornais brasileiros. Constata-se uma coincidência de enfoques, algo como uma espécie de ratificação do discurso do meio áudio visual pelo impresso. Queiroz conclui que o discurso da televisão não consegue por si só se afirmar junto à audiência. Para que tal veículo exerça a hegemonia que tão freqüentemente se lhe atribui, necessita de corroboração por parte dos suportes impressos.
Pois bem, onde entra a ética em meio a toda essa confusão? McLuhan e Queiroz, cada um a seu modo, demonstram que os meios de comunicação de massa, desde seu advento, têm obrigações a desempenhar tanto no macrocosmo dentro do qual estão inseridos a ordem social quanto para com o funcionamento da micro-sistema da qual são membros o complexo midiático. Portanto é inútil criticar os "rebentos" da imprensa incumbida de cobrir o universo "artístico". Uns são mais criativos e contundentes, como é o caso do marketing da novela "Celebridade", mas todos possuem a mesma tessitura, todos são igualmente questionáveis do ponto de vista ético. A razão de existir deste tipo de jornalismo é gerar ilusões. Esta é a função que lhe foi delegada. Ele sequer existiria sem essa incumbência Assim sendo, a discussão ética, se realmente for cabível, só tem sentido se o ponto de partida for este tipo de imprensa enquanto instituição.
3-
CONTROLES DE MÍDIA: EM BUSCA DE
SOLUÇÕES
Lina
Moreira
(Mestrando
em Comunicação Social na UMESP)
E não é preciso
refletir muito para se identificar tais problemas em nossos veículos de comunicação. Os
jornalistas brasileiros são tolerantes quanto a procedimentos éticos polêmicos, como se
apresentar por outra pessoa para conseguir informação. Este comportamento é aceito por
61,2% dos entrevistados de uma pesquisa feita por Heloíza Golbspan Herscovitz, em
1988.[2] O comportamento pode ser explicado porque 60% disse desconhecer o código de
ética da profissão, somados a 10% que conheciam mas não o utilizavam.
Não é só um caso de
falta de ética apenas do profissional. A forma de negócio da comunicação no Brasil
aponta sérios problemas de conceituação e a realidade dos fatos. Nossos empresários de
comunicação se escondem atrás de códigos de ética não compatíveis com o produto que
produzem e sua responsabilidade é transferida ao jornalista, que têm o mesmo dever de um
profissional liberal, que responde sozinho por suas ações morais e de uma categoria que
deu origem aos códigos de ética profissional. É o que afirma o professor Perseu
Abramo:[3] O código de ética dos jornalistas,
portanto, a priori e por exclusão, absolve os empresários de comunicação que, em
última análise, são exatamente os autores e proprietários do produto final, isto é,
da matéria jornalística.
Nesta discussão sobre
os jornalistas que desconhecem seus próprios códigos de ética, empresários de
comunicação que não respondem pelos serviços que vendem é que temos na mídia todos
os dias, programas que se intitulam prestadores de serviço à comunidade de forma,
linguagem e conteúdo questionáveis. E há quem aponte como uma saída para o fim desta
mediocridade um controle da mídia e de seus personagens.
Um exemplo deste controle pode ser encontrado em nosso país
vizinho, o Peru. O secretário executivo do Conselho da Imprensa Peruana, Gustavo Romero
Umlauff,[4] relata que foi criado o Conselho da Imprensa Peruana por
influentes meio de comunicação sendo uma das principais funções a de atender a
diversas solicitações do público como retificações de matérias e queixas de
transgressões de valores éticos dos
veículos associados. Para o secretário executivo, a novidade deste conselho é que
surgiu com a preocupação de evitar maior desgaste da credibilidade da mídia e evitar a possibilidade da legislação controlar a
difusão de informação.
Assim como nosso
vizinho Peru, no Brasil a idéia de controle da mídia faz eco. O Prof. MsC. Rogério
Christofoletti, da Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI) SC [5] sugere
monitores de mídia como uma forma do cidadão, governo, veículos e profissionais da
área avaliarem o que é produzido e veiculado. O professor vai além dos sistemas atuais
de regulamentação do setor de comunicação e propõe o conceito semelhante ao MARS
(Meios de Assegurar a Responsabilidade Social da Mídia), adotado por Claude Jean Bertrand
(1999) é todo meio não estatal usado para tornar
os meios de comunicação responsáveis perante o público. Compreende tanto indivíduos
ou grupos como reuniões regulares, documentos escritos, pequenos meios de comunicação
ou ainda um longo processo ou uma abordagem específica. Mas também alerta para o
fato de que, embora haja grande semelhança entre os MARS e os monitores, a segunda
noção não se presta a tornar os meios mais
responsáveis perante o público. Não se nega a necessidade disso, mas é preciso que
existam instrumentos para que a sociedade determine o que quer ver e ouvir, ler e receber
em termos de informação.
Os monitores e
controles de mídia não garantem que os profissionais e empresários da comunicação
serão mais conscientes e éticos, mas oferecem a possibilidade do cidadão ter mais
chance na discussão do que é produzido e ser menor vítima da indústria da informação
e entretenimento.
Referências Bibliográficas
1.CACUA PRADA, Antonio. Org. Etica y
Responsabilidad:Reflexiones para Periodistas. Editado Fundación Konrad Adenauer,
Argentina, 2000, pag. 5.
2.Pesquisa realizada em 1988 por Heloíza Golbspan Herscovitz em dissertação
de doutorado pela Universidade da Flórida, com jornalistas ouvidos de O Estadod e
S.Paulo, Folha de S.Paulo, Gazeta Mercantil, DCI, Veja, Isto é, Imprensa , Carta Capital,
TV Globo, TV Bandeirantes, TV Cultura, Agência Estado, Agência Folha e Universo Online.
3. http://www.fpabramo.org.br/perseu/etica_jornalismo.htm
4. CACUA PRADA, Antonio. Org. Etica y Responsabilidad:Reflexiones para Periodistas.
Editado Fundación Konrad Adenauer, Argentina, 2000,pag. 143.
5. CHRISTOFOLETTI, Rogério. Monitores de Mídia: como o jornalismo catarinense percebe seus deslizes éticos. Editora Univali/UFSC, 2002
4- O MARKETING
REFINADO: A FANTASIA JORNALÍSTICA E A LÓGICA DO MERCADO
Lívio Sakai
(Mestrando em Comunicação
Social na UMESP)
A crítica feita pela
jornalista Bia Abramo poderia, ao meu ver, tornar-se um provável exemplo na próxima
edição do livro Administração de Marketing
de Philip Kotler. A fusão de personagens da novela com notícias de uma revista, mesmo
que reconhecidamente de conteúdo patético e inútil, conferem uma intimidade
entre o leitor e o fictício, comparável aos encontros de crianças com o Pato Donald e o
Pateta na Disneylândia. São eventos na vida dos leitores desta classe de revistas e das
crianças que marcam suas vidas, que deixam vestígios reais na sua memória, porém,
causados por seres do mundo da imaginação. De certa maneira, essa estratégia, um pouco
mais sofisticada, é utilizada com freqüência pelas lojas: o papai Noel no shopping, os
encontros com os personagens de campanhas promocionais em supermercados...
A diferença é que neste caso a estratégia foi empregada num impresso
que em alguns aspectos pode ser considerado uma publicação jornalística. Se o leitor o
lê com os olhos de quem lê um gibi, não há nenhum mal novo, além da questão da
estética. Caso este atribua à ela status de cobertura jornalística séria, isso pode
ser perigoso.
Nesta relação dialética entre leitor e editor aqui se entende
por editor toda a redação da revista focaremos inicialmente as responsabilidades
sobre os atos deste jornalismo bizarro no segundo elemento. O leitor, de certa maneira,
considerado inimputável, pois é necessário que o sujeito seja capaz de entrar
numa ordem simbólica prática, isto é, capaz de reconhecer nas normas uma pretensão
legítima de regular as condutas[1] para poder participar da discussão da ética.
O editor, comumente
mais apto por outro lado, pode participar do julgamento da ética, porém, ele que deveria
estar prestando explicações no banco dos réus, terá a pretensão de atuar como
promotor. Esta dificuldade baseia-se na ética que se espera da imprensa jornalística em
contraste com a ética com a qual a revista pretende se revestir: a do mercado.
Uma discussão nestes termos não teria sentido. Não haveria diálogo, os
argumentos de um lado não seriam pertinentes aos do outro. A ética jornalística e a de
mercado são dois reinos de normas completamente diferentes e, em alguns casos
conflitantes.
Mergulhando ainda mais na questão da ética da comunicação,
encontraremos vários autores que defendem que a política do comentário
identifica-se à ética da comunicação e é o que melhor lhe preserva, por definição,
contra todo atentado possível à liberdade de expressão[2]. Mais um bom
argumento em defesa da ética de mercado.
Quem é então o culpado? A resposta talvez esteja no inocente,
inimputável leitor destas revistas. Para o mercado ele não é visto com tal
neutralidade. Ele pode comprar, se comunicar, influenciar: um target.
A solução ideal para este problema
situa-se muito além da massificação da educação, como prometem todos os políticos,
em todas as campanhas. É necessário formar uma população de mentes críticas, que
acabem por moldar a lógica de mercado, transformando um insight como o da revista Quem em uma
publicação empoeirada nas bancas; uma possibilidade um tanto que utópica.
Alternativamente poder-se-ia esperar uma regulação mais rigorosa dos meios de
comunicação, uma censura em forma de classificação que define claramente o que é
jornalismo e o que é ficção. A censura proposta neste caso é bem mais suave que a
exigência de um MTB para um jornalista. Uma classificação desta ordem não seria
conflitante com a liberdade da comunicação e seria um avanço na ética jornalística,
mesmo que, ainda assim, muitos leitores sequer percebessem a diferença.
[1] RICOEUR, Paul. Ética: da moral á ética e às éticas In: CANTO-SPERBER, Monique. (org.) Dicionário de ética e filosofia moral. Editora Unisinos: São Leopoldo, RS. 2003.
[2] SFEZ, Lucien. Comunicação: ética da comunicação e liberdade de expressão In: CANTO-SPERBER, Monique. (org.) Dicionário de ética e filosofia moral. Editora Unisinos: São Leopoldo, RS. 2003.
5 - ÉTICA E CULTURA: A LÓGICA DA
INDULGÊNCIA
Amyris Fernandez
(Mestranda
em Comunicação Social na UMESP)
Nós, consumidores do século 21, há tantos
anos consumimos a mídia e os produtos que ela entrega, que estamos pouco críticos sobre
seu papel na nossa sociedade e em cada cultura. Não nos manifestamos mais quando nossos
valores são deliberadamente alargados ou infringidos, refletimos pouco sobre a
dominação de nossa cultura por um processo lento de aliciamento de todos, pela
colonização feita através de sons, imagens e textos. Aprendemos a buscar o
entretenimento sem culpa, mas, para isso, deixamos de refletir, de discutir e de exigir o
respeito aos nossos valores e um comportamento ético da mídia. Este texto discorre sobre
o alargamento de limites morais e éticos que nossa cultura vigente cultua, em nome da auto-indulgência.
Adorno (1941) há
muito discursou sobre o perigo da cultura de massas, em que
a lógica da produção das mercadorias no capitalismo é a mesma que desde o fim
da primeira guerra passa a orientar a mídia e o entretenimento. Em primeiro lugar, existe
a questão das fórmulas. Se no princípio imperava o processo de empírico, após algumas
tentativas de abordar o mercado, as empresas encontraram fórmulas para conseguir atingir
seu público de forma mais rápida, mas simples e mais rentável. Uma vez que conseguiram
dominar esses processos, foram capazes de desenvolver mensagens padronizadas, capazes de
ser produzidas em escala, exatamente como carros ou latas de tomate.
A seguir e utilizando
essa lógica de mercado, entendemos que no início dessa indústria cada unidade de
produto era muito cara para ser produzida e
comercializada, e que, por isso mesmo, tinha um público restrito, a elite. Nada como essa lógica capitalista para nos dar a
visão do que viria a seguir, para diluir os custos de produção, uma vez conhecida a
fórmula, não só mais unidades passaram a ser produzidas, como o preço de cada unidade
diminuiu sensivelmente, dando ao cidadão médio a oportunidade de se entreter nas salas
de cinema ou com programas de rádio. Desde então, o homem médio passa a ser o alvo de
todos os concorrentes, de todos os tipos de produtos que as empresas de entretenimento
criam e de todos os veículos que as distribuem.
Diante de tão
acirrada concorrência, como imaginar que a ética e a responsabilidade iriam sobreviver
ou mesmo nortear essas empresas? Todas são empresas capitalistas, todas devem no mínimo
sobreviver, e têm como foco o lucro. Não importa que ao longo dos anos as mensagens
tenham feito um amálgama de classes, ainda que algumas tenham mais discernimento que
outras sobre o que é real e o que é fantasia. Não importa que cada objeto seja ele arte
ou produto de mídia, seja consumido sem reflexão, desde que seja consumido.
As empresas sabem que todos nós consumimos esses produtos nas nossas horas de lazer. Deliberadamente, elas monopolizam os espaços destinados à reflexão, pois a cultura de massas é a cultura de evasão. A publicidade nos dá exemplos disso. Por que razão, agência e cliente, criaram e aprovaram, respectivamente, uma propaganda na qual uma atriz famosa quase se afogava de tanto desperdiçar água, enquanto falava ao telefone, em pleno Ano Internacional da Água? Por qual razão, a modelo mais famosa do mundo aceitou desfilar peles de animais mortos na forma de casacos? Na minha visão, isso só aconteceu e só voltará a acontecer, porque nós nos calamos. E nos calamos porque as imagens nos divertem e nosso único compromisso é com a auto-indulgência.
O MÍDI@ FÓRUM é um espaço mensal de debate de temas propostos pela mídia. Desenvolvido pela Cátedra UNESCO de Comunicação da UMESP (Universidade Metodista de São Paulo), é coordenado pelos alunos do Programa de Pós Graduação Stricto Sensu em Comunicação Social da instituição.
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