Ano 2 - Nº 10 - São Bernardo do Campo, 30 de dezembro de 2000 Vlado, um marco da imprensa brasileira PROFISSÃO
E FÉ Vlado, um marco da imprensa brasileira Rodrigo Savazoni
PROFISSÃO
E FÉ Rodolfo C. Martino Cena 1 O
jornalista não deve temer chegar ao fundo do poço na busca dos fatos, da verdade. É
preciso encarar de frente todos os sacrifícios que esta verdade impõe. Não é muito
fácil. Mas, se não for assim, é melhor procurar outra profissão... A voz
convicta do professor de jornalismo não deixa transparecer qualquer ameaça. Fala
naturalmente ao exigir mais seriedade. Um grupo de alunos tentou reclamar. Todos estão
convocados a trocar um provável fim-de-semana ensolarado pela presença obrigatória na
elaboração de um noticiário sobre os problemas de transporte na cidade universitária.
Não há formalismo, nem pose de dono da verdade. Apenas deixa bem nítido que
ele não está ali só de passagem... Se
não for assim, é melhor procurar outra profissão... Cena 2 Semanas
depois, ao assistir ao espetáculo Brasileiro Profissão Esperança,
percebe-se os atores em cena - Paulo Gracindo e a cantora Clara Nunes - claramente
emocionados. Há um clima de profunda tristeza e indignação. Fim da sessão, aplausos.
Clara não contém o choro. Gracindo dá a notícia... Domingo,
25 de outubro de 1975. O jornalista e professor Wladimir Herzog morreu tragicamente nas
dependências do DOI-CODI de São Paulo. Silêncio. Tristeza e Indignação. E a História
deste país começou a mudar... É
preciso encarar de frente todos os sacrifícios... São os
tempos negros do arbítrio. O Governo Médici fez escola nas Forças Armadas..
E mesmo o general-presidente Ernesto Geisel, de uma linha, digamos, mais branda, encontra
sérias dificuldades para conter os abusos em São Paulo. Organismos militares
e para--militares agem descaradamente em nome do que entendem segurança nacional.
A morte de Wlado é a primeira arbitrariedade a escapulir da ação dos censores oficiais,
a primeira notícia a passar ao brasileiro médio a noção exata de que o
País está subjugado à nefasta ditadura. Apesar da aparente tranqüilidade. Apesar da
propaganda massificadora. Apesar da conivência da mídia. Apesar do tal milagre
econômico. Apesar de tudo, há muito o que ser feito. Cena 3 Os dias
que seguem à morte do jornalista são de muita movimentação e apreensão. Políticos do
MDB, alguns notáveis jornalistas, artistas, estudantes, líderes sindicais e
representantes de entidades civis reúnem-se na Praça da Sé para um culto litúrgico em
memória de Wlado. O arcebispo de São Paulo, dom Paulo Evaristo Arns, recebe ameaças e
recomendações para os riscos da manifestação. São Paulo é tomada por
comandos que, espalhados em pontos estratégicos, interceptam a quem bem entendem.
Milhares chegam à Catedral e participam do ato (e são filmados pelos agentes da
repressão). Cena 4 O tempo
passa e atravessa a avenida. O fruto cresce... Dez anos depois, o sonho da
redemocratização transforma-se na expectativa da Nova República. A Nação ainda não
tem tudo o que merece. Os desmandos dos donos do Poder foram devastadores, implacáveis.
Mas, há que se reconhecer, conseguimos avanços indiscutíveis. As greves do ABC em
78, a eleição dos governadores em 82, as Diretas-já em 84, a vitória de Tancredo
Neves... O resto é História e, apesar dos sonhos e sacrifícios, apesar de toda a luta,
uma triste História... Cena 5
Permito-me,
aqui, fazer um retrocesso no tempo. Voltar aos anos 70 e 80 quando os novos sonhos de toda
a gente pôs abaixo o Muro de Berlim e nós, sob os trópicos, acalentávamos a esperança
da consolidação democrática. O fim
da muralha que dividia a Alemanha representaria o fim de todo e qualquer preconceito, de
toda e qualquer discriminação; o horizonte aberto para a almejada paz universal. Aqui,
em terra pátria, o óbvio era que com a democracia bendita também viria, automática e
espontaneamente, a justiça social, a igualdade, o fim de todos os males que afligiam os
brasileiros. Era por isso que saíamos, ruas e praças afora, caminhando e cantando e
seguindo a canção que nos unia e nos fazia melhor. Parecia
tão simples, repito. Havia um nítido divisor de águas. Havia o bem e o mal. Quem não
era por nós era contra nós. Simples e prático. O fim do muro e o comunismo, que dava
sinais de exaustão por toda a Europa, não redimiam os governos ocidentais de suas
mazelas e fragilidade. Mas, projetavam uma nova ordem mundial, embasada na valorização
do homem como cidadão. No Brasil, a ditadura era símbolo de todas aflições sociais --
e também, aqui, havia claras evidências que não resistiria por muito tempo. Portanto,
fazia-se a luz... Cena
final A debaclée que hoje presenciamos - econômica,
social, moral; dos escândalos políticos aos conflitos na Europa e no Oriente - comprovam
que, em algum lugar desse passado recente, perdemos o fio da meada da reconstrução
social. Trocamos a universalização (que traria embutida a preservação de uma sociedade
humanista) pela globalização que privilegia única e exclusivamente o inarredável
lucro pelo lucro. Trocamos também - e principalmente - a noção de que para se
construir esse mundo novo é preciso muito mais do que um sonho, muito mais do que
palavras. Precisamos de uma atitude cidadã e um imensurável sentimento de fraternidade e
justiça social. Caso contrário, outros 25 anos vão se passar e ainda mais
constrangedora será a lembrança da morte de Wladimir Herzog. Que exporá a
mediocridade de nossas pseudo conquistas e o enorme vazio de nossas vidas. Comentários
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