Luiz Beltrão: Pioneiro dos estudos de Folkcomunicação no Brasil
José Marques de Melo

Aporte Brasileño a la Teoría de la Comunicación - El Estudio de Folkcomunicación según Luiz Beltrão - José Marques de Melo

A trajetória de um pioneiro - Nicolau José Carvalho Maranini

Luiz Beltrão - Vida e Obra - Paulo Rogério Tarsitano - (Arquivo em formato PDF)

Jornalista Luiz Beltrão, pioneiro em várias áreas - Jorge Duarte

Luiz Beltrão - Um novo rumo para o jornalismo - Neanis Lutzer

Livro: Itinerário de Luiz Beltrão - Roberto Benjamin (organizador) - Pernambuco: Fasa, 1998

Luiz Beltrão: Pioneiro dos estudos de Folkcomunicação no Brasil

José Marques de Melo, UMESP
(Titular da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação para o Desenvolvimento Regional)

Se vivo estivesse, o comunicólogo latino-americano Luiz BELTRÃO de Andrade de Lima teria completado 81 anos no dia 8 de agosto de 1999. Antes disso, teria celebrado, no mês de março, os 36 anos de fundação do primeiro periódico científico brasileiro do campo das ciências da comunicação, a revista Comunicações & Problemas. Foi uma das iniciativas ousadas do Instituto de Ciências da Informação (ICINFORM), que ele criou e dirigiu como entidade inicialmente associada à Universidade Católica de Pernambuco e depois à Universidade de Brasília.

Justamente no primeiro número da revista Comunicações & Problemas Beltrão lançou a plataforma de uma nova disciplina no âmbito das ciências da comunicação e da informação, a Folkcomunicação. Seu artigo sobre o "ex-voto" suscitava o olhar dos pesquisadores da comunicação para um tipo de objeto que já vinha sendo competentemente estudado pelos antropólogos, sociólogos e folcloristas, mas negligenciado pelo comunicólogos.

Seu argumento implícito era o de que as manifestações populares, acionadas por agentes de " informação de fatos e expressão de idéias", tinham tanta importância comunicacional quanto aquelas difundidas pelos mass media . Por isso mesmo ele recorria ao arsenal metodológico já testado e aperfeiçoado no estudo das manifestações convencionais do mass-journalism (formatadas de acordo com os canais pós-gutenbergianos) e as transportava para analisar as ricas expressões daquilo que ele sugeria como integrantes do folk-journalism (veiculadas em canais pré-gutenbergianos ou usando tecnologias tão rudimentares quanto a prensa de Mogúncia).

Na verdade, Beltrão descobrira que os processos modernos de comunicação massiva coexistiam, no espaço brasileiro-nordestino, com fenômenos de comunicação pré-moderna. Eram reminiscências do período medieval-europeu, transportadas pelos colonizadores lusitanos e historicamente aculturadas, aparentando uma espécie de continuum simbólico. Tais veículos de comunicação popular ou de folkcomunicação, como ele preferiu denominar, mesmo primitivos ou artesanais, atuavam como meros retransmissores ou decodificadores de mensagens desencadeadas pela indústria da comunicação de massa (jornais, revistas, rádio, televisão).

Mais do que isso: ele identificou teoricamente uma semelhança entre tais processos e aqueles que Lazarsfed e seus discípulos haviam observado na sociedade norte-americana, mais conhecido como o paradigma do "two-step-flow-of-communication" . No entanto, as hipóteses de Luiz Beltrão davam um passo adiante em relação aos postulados de Paul Lazarsfeld e Elihu Katz. Enquanto aqueles cientistas atribuíam um caráter linear e individualista ao fluxo comunicacional em duas etapas, porque dependente da ação persuasiva dos "líderes de opinião", o pesquisador pernambucano tinha a premonição de que o fenômeno era mais complexo, comportando uma interação bi-polar (pois incluía o " feed-back" protagonizado pelos "agentes populares" no contato com os " meios massivos") e revelando natureza coletiva. A re-intrepretação das mensagens não se fazia apenas em função da "leitura" individual e diferenciada das lideranças comunitárias. Mesmo sintonizadas com as "normas de conduta" do grupo social, ela continha fortemente o sentido da "coesão" grupal, captando os signos da "mudança social", típico de sociedades que sofrem as agruras do meio ambiente e necessitam transformar-se para sobreviver.

Em certo sentido, Luiz Beltrão antecipava observações empíricas que embalsariam a teoria das "mediações culturais", o cerne da contribuição de Jesus Martin Barbero e dos culturalistas ao pensamento comunicacional latino-americano. Dessa corrente, o mexicano Jorge González já fizera referência explícita aos estudos seminais do cientista pernambucano sobre as classes subalternas brasileiras, pioneirismo que seria enfatizado pelo próprio Martin Barbero em sua análise sobre os "aportes" brasileiros para as ciências sociais da América Latina durante o congresso INTERCOM’97. Beltrão reconhecia nos agentes de folk-comunicação, nas sociedades rurais ou periféricas, um caráter nitidamente institucional, semelhante àquele que Martin Barbero atribuiria mais tarde aos agentes educativos, religiosos ou políticos nas sociedades urbanas metropolitanas.

Mas, antes disso, a originalidade dos estudos de Luiz Beltrão havia merecido aplausos do maior folclorista brasileiro, que foi Luís da Câmara Cascudo. Depois de ler o artigo sobre o " ex-voto" publicado na revista do ICINFORM, Mestre Cascudo endereçou uma carta estimuladora, destinada a elevar o astral do seu autor. Beltrão a transcreveria na edição seguinte do periódico.

"O seu artigo-de-abertura (...) é um magnífico master-plan. Valorizará o cotidiano, o vulgar, o realmente popular de feição, origem e função. Não espere que venha um nome de fora, um livro de longe, ensinando a amar o que temos ao alcance dos olhos. Teime, como está fazendo, em valorizar o Homem do Brasil em sua normalidade. E não apenas os produtos do esforço desse Homem. Acredite na força pessoal do seu afeto no plano da penetração analítica. Acima de tudo, veja com seus olhos. Ande com seus pés. Depois compare com as conclusões de outros olhos e com as pegadas de outros pés. (...) Desconfie dos mentores integrais, nada permitindo às alegrias do seu livre trânsito. O papagaio, que tanto fala, não sabe fazer um ninho. E os Pássaros cantadores aprenderam na gaiola essa habilidade de prisioneiros profissionais."

O incentivo de Câmara Cascudo foi decisivo. Tanto assim que Luiz Beltrão sistematizou e ordenou suas observações sobre as manifestações da comunicação popular nordestina, ancorando-as nas teorias do folk-lore e confrontando-as com os paradigmas da mass-communication. Dois anos depois resgatou as evidências empíricas e interpretou-as segundo as teorias da comunicação de massa e da cultura popular, enfeixando-as na tese de doutoramento que inscreveu na Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. O julgamento foi feito por uma banca de alto nível, composta do comunicólogo espanhol Juan Beneyto, do midiólogo norte-americano Hod Horton e do sociólogo brasileiro Roberto Lyra Filho.

Ao aprovar a tese sob o título " Folkcomunicação, um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias" (1967), a comissão julgadora outorgou também a Luiz Beltrão o primeiro grau de Doutor em Comunicação conquistado em universidade brasileira. Nesse sentido, vale registrar a ousadia de Darcy Ribeiro que, ao criar a UnB, institucionalizou a titulação doutoral em todas as áreas do conhecimento e não apenas naquelas disciplinas já legitimadas academicamente. Foi através dessa inovação que Luiz Beltrão, não obstante tivesse o status de Professor-Titular, deu um exemplo de humildade intelectual aos seus discípulos e colaboradores, submetendo-se a um exame de mérito para ostentar legalmente uma condição acadêmica que já desfrutava por competência.

Naquele mesmo ano, a Universidade de São Paulo abriria inscrições na recém criada Escola de Comunicações Culturais para o Doutorado por Defesa de Tese (de acordo com o sistema europeu então vigente nas universidades brasileiras). Essa leva de doutores paulistas somente completaria o doutorado em 1973, tendo os títulos outorgados nas disciplinas que integravam o elenco curricular dos cursos ali ministrados (Jornalismo, Relações Públicas, Rádio e Televisão, Cinema, Teoria da Comunicação). Coube-lhes naturalmente robustecer o curso de Mestrado em Ciências da Comunicação que fora criado no ano anterior, naquela instituição, contando exclusivamente com doutores oriundos de outras áreas do conhecimento.

Mas os primeiros doutores e os mestrandos em comunicação da USP tiveram o privilégio de contar com o estoque de conhecimentos já sedimentado por Luiz Beltrão e por outros estudiosos da área. Minha tese de doutorado em Jornalismo (defendida em 1973) fundamentou-se em muitas idéias desenvolvidas por Luiz Beltrão. Ele atuou na verdade como meu co-orientador acadêmico, situação idêntica àquela compartilhada com o antropólogo Egon Schaden e com o meu orientador de fato, Prof. Dr. Rolando Morel Pinto. Minha experiência foi semelhante à de vários outros colegas que se doutoraram na mesma conjuntura histórica. Virgílio Noya Pinto, Freitas Nobre, Thomas Farkas, Gaudencio Torquato, Cândido Teobaldo, Sara Chucid da Viá, Anamaria Fadul também dialogaram com Luiz Beltrão durante os colóquios para os quais foi convidado na USP, no início dos anos 70.

Sua tese de doutorado virou livro em 1971, intitulado "Comunicação e Folclore", ampliando a difusão das idéias que construíra sobre a Folkcomunicação. No entanto, os seus fundamentos teóricos ficaram opacos, uma vez que a Editora Melhoramentos, que acolheu a tese, optou por amputar-lhe o capítulo introdutório, substituindo-o por uma breve introdução ao tema. Em parte, isso se explica por razões mercadológicas (poupar o leitor comum dos prolegômenos típicos das teses universitárias). Mas a explicação verdadeira está no parecer feito pelo consultor editorial, Prof. Lourenço Filho, fascinado pela originalidade do autor, mas perplexo ante a sua ousadia teórica.

Além de fundamentar-se em teorias norte-americanas da mass communication , Beltrão buscou amparo nas teses da "dinâmica do folclore" defendidas pelo folclorista (de esquerda) Edison Carneiro. Aqueles eram tempos de obscurantismo cultural, mantidos pela legislação extra-constitucional decretada pelo AI-5. Assim sendo, a teoria da folkcomunicação de Luiz Beltrão circulou incompleta até 1980, quando sopraram os ventos da abertura "lenta, gradual e segura" do General Geisel.

Ao publicar seu segundo livro sobre essa temática - "Folkcomunicação, a comunicação dos marginalizados" (São Paulo, Cortez, 1980), Beltrão corrige de algum modo essa lacuna, sintetizando e sem dúvida atualizando sua teoria da folkcomunicação. Ela já se apresentava, nesse momento, bem mais rica e estruturada, fruto das pesquisas empíricas que ele realizou em outras regiões brasileiras, especialmente em Brasília (síntese cultural do país), e dos confrontos feitos com pesquisas semelhantes desenvolvidas em outros países. Nesse sentido, ele tomou ao pé da letra a proposta de Câmara Cascudo: ande primeiro com os próprios pés e veja com os próprios olhos para depois comparar com as pegadas e os olhares dos outros.

De qualquer maneira, o pensamento de Luiz Beltrão disseminou-se em todo o território nacional, conquistando seguidores que deram andamento a algumas de suas idéias ou discípulos que avançaram nas trilhas empíricas por ele abertas. Considero-me um deles, ainda que não o mais conseqüente, nessa área, como sem dúvida tem sido Roberto Benjamin, Oswaldo Trigueiro ou Joseph Luyten. Dos escritos desse grupo resultou um corpo conceitual que trata de explicitar (ou reinterpretar) a teoria da folkcomunicação.

Apesar disso, a Folkcomunicação de Luiz Beltrão encontrou dupla resistência: a dos folcloristas conservadores (que pretendiam defender a cultura popular das investidas midiáticas modernizantes) e a dos comunicólogos libertadores (que pretendiam fazer da cultura popular o cavalo de tróia das suas batalhas políticas em lugar de apreender nessas manifestações genuínas o limite da resistência possível de comunidades empobrecidas cuja meta é a superação da marginalidade social).
 
Explica-se, desta maneira, o desconhecimento das novas gerações de comunicadores em relação às idéias de Luiz Beltrão. Elas permanecem estocadas nas prateleiras das bibliotecas, sendo indispensável propiciar aos midiólogos que vão atuar no próximo século o acesso a idéias, conceitos, teorias e metodologias construídos por um dos mais profícuos cientistas brasileiros da comunicação. Trata-se de um arsenal acadêmico que ficou de certo modo encoberto, para não dizer marginalizado, numa conjuntura marcada pela crença quase cega na obsolescência e morte das tradições populares, que se acreditava seriam sepultadas pelas correntes culturais pós-modernas e semi-eruditas.

Mas a História tem suas armadilhas imprevisíveis. Ao contrário das suposições modernosas, na verdade estribadas em sentimentos profundamente elitistas, o que observamos hoje é justamente um movimento em sentido contrário. A globalização permite vislumbrar o cenário de um mundo polifacético e multicultural. Ele sugere que qualquer inserção pro-ativa no seu universo depende basicamente do capital simbólico acumulado nas mega, macro ou micro-regiões, potencialmente convertíveis em imagens e sons capazes de sensibilizar a aldeia global. Vale dizer, ancorados em dimensão universalizante. Ou, em outras palavras, enraizados na cultura popular, mas traduzidos para a linguagem da cultura de massa.

Daí a atualidade do pensamento comunicacional de Luiz Beltrão, que pensou na era de McLuhan sobre as interações entre a aldeia local e a aldeia global. Ao construir um referencial teórico consistente lançou pontes entre a folk-mídia e a mass-mídia. Ele reconheceu o universal que subsiste na produção simbólica dos grupos populares, percebendo ao mesmo tempo que os dois sistemas comunicacionais continuarão a se articular numa espécie de feed-back dialético, contínuo, criativo.

Suas idéias estão sendo resgatadas, atualizadas e aprofundadas no Brasil pela Rede FOLKCOM, constituída com o apoio da Cátedra UNESCO/UMESP de Comunicação para o Desenvolvimento Regional. Trata-se de um coletivo de pesquisadores das interfaces entre comunicação massiva e cultura popular que vem se reunindo anualmente nas Conferências Brasileiras de Folkcomunicação. A primeira foi realizada em 1998 no campus da Universidade Metodista de São Paulo, na cidade industrial de São Bernardo do Campo. A segunda ocorreu em 1999 no campus da FUNREI - Fundação Universidade de São João del Rei, localizada na cidade mineira de São João del Rei. As próximas conferências estão agendas pela Universidade Federal da Paraíba, em João Pessoa/PB (ano 2001) e Universidade de Passo Fundo, Rio Grande do Sul (2001).

Em plano latino-americano, o pensamento de Luiz Beltrão tem inspirado as produções científicas do Grupo de Estudios de Folk-Comunicación, criado pela ALAIC (Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación) e confiado à coordenação de um dos seus discípulos mais atuantes, o Prof. Dr. Roberto Emerson da Câmara Benjamin. O primeiro encontro dos estudiosos latino-americanos da FolkComunicação ocorreu no 4o. Congresso da ALAIC, promvido na cidade do Recife, ocasião em que foi lançada uma obra coletiva sobre a vida e a obra do mestre pernambucano - "Itinerário de Luiz Beltrão" (Recife, AIP/UNICAP, 1998). O segundo encontro está previsto para a cidade de Santiago do Chile, no campus da Universidade Diego Portales, onde se realizará o V Congresso da ALAIC, em abril do ano 2000.

A memória desses eventos e o conjunto da obra de Luiz Beltrão - um pensador polifacético que também produziu estudos e reflexões sobre Teoria da Comunicação e Teoria do Jornalismo, além de textos literários e jornalísticos - estão sendo reunidos e futuramente disponibilizados para consulta pública no Acervo do Pensamento Comunicacional Latino-Americano (APCL), uma iniciativa em processo, lançada pela Cátedra UNESCO de Comunicação do Brasil, sediada no campus Rudge Ramos da Universidade Metodista de São Paulo (email: unesco@umesp.com.br).

As fontes de referência para esse trabalho de registro documental são os ensaios de autoria do Prof. Dr. Paulo Rogério Tarsitano - "Luiz Beltrão: vida e obra" (originalmente apresentado à 48a. Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência - PUC, São Paulo, 1996, depois publicado na revista Comunicação & Sociedade, n. 25, POSCOM/UMESP, 1996, p. 165-182) e do Prof. Dr. Roberto Benjamin - "Folkcomunicação: contribuição brasileira à escola latino-americana de comunicação" (originalmetne apresentado à 21. Conferência Científica da International Association for Mass Communication Research - University of Starthclyde, Glasgow, Escócia, 1998, depois publicado no Anuário Unesco/Umesp de Comunicação Regional, São Bernardo do Campo, 1998, p. 133-138).

Para os que se interessarem pelo trabalho pioneiro de Luiz Beltrão os referidos estudos constituem um convite à leitura e à reflexão crítica.

- Apêndice

> PERFIL DE LUIZ BELTRÃO

Nascido em Olinda (Pernambuco), Brasil, no dia 8 de agosto de 1918, Luiz Beltrão realizou seus estudos humanísticos no Seminário de Olinda e no Ginásio Pernambucano, em Recife, graduando-se em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito da antiga Universidade do Recife, hoje Universidade Federal de Pernambuco.

Mas sua vida profissional foi inteiramente dedicada ao Jornalismo, atividade que iniciou em 1936, na reportagem do Diário de Pernambuco. Como jornalista, atuou em vários órgãos da imprensa pernambucana e tornou-se líder sindical da categoria, alcançando projeção nacional. Ao participar de congressos jornalísticos no país e no exterior, escreveu ensaios e monografias em que refletiu criticamente sua profissão e seu impacto na sociedade.

Essas reflexões geraram o livro ‘Iniciação à Filosofia do Jornalismo", que lhe garantiu o Prêmio Orlando Dantas - 1959, patrocinado pela Editora Agir (Rio de Janeiro), que o lançou nacionalmente no ano seguinte. Tal lançamento representou uma virada na sua carreira. A atividade profissional colocou-se em segundo plano, na medida em que avançava seu engajamento acadêmico.

Preocupado com a formação universitária dos jovens jornalistas, Beltrão aceita convite para ensinar Ética e Técnica do Jornalismo na Faculdade de Filosofia Nossa Senhora de Lourdes, em João Pessoa - Paraíba. Ao mesmo tempo, havia apresentado projeto para a criação de um Curso Superior de Jornalismo na Universidade Católica de Pernambuco, iniciativa acolhida pela congregação dos jesuítas e implementada a partir de 1961.

Suas aulas de Jornalismo são previamente escritas, antes de expostas em sala de aula, acumulando conhecimento que lhe permitiria publicar quatro livros sobre o processo de produção jornalística e seus gêneros fundamentais. Da mesma forma, ele anotaria as experiências pedagógicas que vivenciou na preparação de jornalistas profissionais, convertendo-as em livro publicado pelo CIESPAL - Centro Internacional de Estudios Superiores de Periodismo para América Latina - sob o título "Métodos de Enseñanza de la Técnica del Periodismo" (Quito, 1963).

Sua aproximação ao CIESPAL e às idéias comunicacionais ali difundidas por cientistas europeus e norte-americanos o influenciam a criar, em 1963, o primeiro centro brasileiro de estudos acadêmicos sobre os fenômenos midiáticos. Trata-se do Instituto de Ciências da Informação (ICINFORM), mantido mediante convênio com a Universidade Católica de Pernambuco. Esse núcleo foi responsável pela formação da primeira equipe de pesquisadores dedicados sistematicamente aos fenômenos comunicacionais no Brasil e pelo lançamento da primeira revista científica da área - Comunicações & Problemas -, publicada a partir de 1965, tomando como modelo sua congênere norte-americana Journalism Quartely.

A repercussão nacional e internacional do trabalho inovador realizado por Luiz Beltrão no Nordeste Brasileiro, formando jornalistas e pesquisando os fenômenos da comunicação pública, foi o fator decisivo para que o Governo Castelo Branco o convidasse a assumir a direção da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, onde atua durante o período 1965-1969. É ali que defende sua tese de doutoramento sobre Folkcomunicação, convertendo-se no primeiro Doutor em Ciências da Comunicação do Brasil. Esse trabalho, parcialmente publicado em livro - "Comunicação e Folclore"(São Paulo, Melhoramentos, 1971), tem caráter seminal, gerando inúmeros estudos e pesquisas que produziu nos anos seguintes, alguns sob a forma de livros, outros sob a forma de artigos para revista especializadas e comunicações apresentadas em reuniões científicas no país e no exterior.

Convidado a trabalhar na Fundação Nacional do Índio - FUNAI - ele se dedica a avaliar o comportamento da imprensa brasileira diante da questão indígena, cujas principais evidências foram reunidas no livro "O índio, um mito brasileiro"(Petrópolis, Vozes, 1977).

Após sua passagem pela Universidade de Brasília, Beltrão atua como docente e pesquisador no CEUB - Centro de Estudos Universitários de Brasília -, trabalho compartilhado com intensa atividade internacional, convidado para cursos, seminários, palestras e conferências, principalmente na América Latina. O resultado dessa profícua vida intelectual é a publicação de uma trilogia sobre Teoria da Comunicação: Fundamentos Científicos da Comunicação (1973), Teoria Geral da Comunicação (1977) e Teoria da Comunicação de Massa (1986).

Paralelamente à produção científica sobre os fenômenos sociais da comunicação e do jornalismo, ele se dedicou à literatura, escrevendo contos, novelas e romances. Seu primeiro livro literário foi o romance "Os senhores do mundo"(Recife, 1950). Depois, surgiram: "Quilometro Zero" (Recife, 1958), "A serpente no atalho"(Brasília, 1974), "A greve dos desempregados"(São Paulo, 1984). A consagração dessa atividade como ficcionista ocorre com a sua eleição para a Academia Brasiliense de Letras, onde atuou destacamente até sua morte, no dia 24 de outubro de 1986. Sua última fase intelectual foi marcada pelo memorialismo, dela resultando dois livros póstumos: "Contos de Olanda" (Recife, 1989) e "Memórias de Olinda"(Recife, 1996).

Reconhecido pela comunidade acadêmica como o pioneiro dos estudos científicos sobre comunicação no Brasil, Luiz Beltrão foi escolhido pela XX Assembléia Geral da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação (INTERCOM) para ter o seu nome perpetuado no prêmio nacional que distingue os principais produtores científicos da área. Anualmente a INTERCOM confere o Prêmio LUZ BELTRÃO de Ciências da Comunicação a personalidades e instituições que se destacaram por relevantes contribuições ao nosso campo do conhecimento.

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Aporte Brasileño a la Teoría de la Comunicación - El Estudio de Folkcomunicación según Luiz Beltrão

José Marques de Melo

Texto extraído do site da revista Razón y Palabra, n.º27.  http://www.cem.itesm.mx/dacs/publicaciones/logos/anteriores/n27/index.html

Luiz Beltrão de Andrade Lima (1918-1986) se destaca en el panorama intelectual brasileño como figura paradigmática2. Su nombre está inmediatamente asociado a la Folkcomunicación, disciplina que integra el universo de las Ciencias de la Comunicación3.

Se consultamos dos obras de referencia de la literatura comunicacional brasileña veremos que Luiz Beltrão es sinónimo de Folkcomunicación4:

BELTRÃO - Periodista y profesor de comunicación... (...) el término folkcomunicación, creado por él, delimita la basta área a la cual dedicó gran parte de sus investigaciones. Designa el 'conjunto de procedimientos de intercambio de informaciones, ideas, opiniones y actitudes de los públicos marginalizados urbanos y rurales, a través de agentes y medios directa o indirectamente ligados al folklore' (RABAÇA & BARBOSA)5

FOLKCOMUNICACIÓN - En términos generales, se puede decir que folkcomunicación es comunicación en nivel popular. Por popular se debe entender todo lo que se refiere al pueblo, aquello que no se utiliza de los medios formales de comunicación. Más específicamente: folkcomunicación es la comunicación a través del folklore. (...) El origen del término folkcomunicación se dió en 1967, con la tesis de doctorado del Prof. Luiz Beltrão... (LUYTEN)6

Al crear en 1997 el "Premio Luiz Beltrão de Ciencias de la Comunicación", atribuído anualmente a las personalidades o instituciones que prestaron relevantes servicios a nuestro campo de conocimiento, la INTERCOM - Sociedad Brasileña de Estudios Interdisciplinares de la Comunicación - pretendió homenajearlo como pionero de los estudios científicos de la comunicación en el Brasil7.

Su pionerismo es multifacetado8. Él fundó el primer centro nacional de investigaciones académicas sobre comunicación - el ICINFORM (Instituto de Ciencias de la Información) - en la Universidad Católica de Pernambuco, en Recife, 1963. Creó aún la primera revista científica brasileña dedicada a temas comunicacionales - Comunicaciones & Problemas, también en la ciudad de Recife, 1965. Se tornó, finalmente, el primer Doctor en Comunicación diplomado por universidad brasileña, al defender en la Universidad de Brasília, en 1967, la tesis Folkcomunicación - Un estudio de los Agentes y de los Medios Populares de la Información de Hechos y Expresión de Ideas.

Esa tesis doctoral representó, en su biografía, una especie de odisea: "serie de complicaciones, peripecias u ocurrencias singulares, variadas e inesperadas" (Aurélio, 1975, p. 999). Habiendo permanecido inédita, ella alcanza su happy-end en este primer año del nuevo milenio, publicada integralmente por la Editorial de la Pontificia Universidad Católica de Río del Sur, por iniciativa del Prof. Dr. Antonio Hohlfeld, coordinador del Programa de Pos-Graduación en Comunicación. En esta entidad universitaria, su autor colaboró como Profesor-Visitante en varias ocasiones . Se trata, por lo tanto, de un servicio inestimable, este que la PUC-RS presta al campo de las ciencias de la comunicación, posibilitando las nuevas generaciones de investigadores de la área el contacto directo con este documento histórico.

No obstante consolidados en 1967, los dados y reflexiones recopilados por Luiz Beltrão para su tesis de doctorado comenzaron a germinar mucho más antes. Ellos son contemporáneos de su iniciación en el terreno periodístico. La temática privilegiada en la tesis es la misma que él escogió para el primer reportaje. Difundida en el Diario de Pernambuco, el 18 de dezembro de 1936, esa materia "trataba de devociones y romerías, a la Iglesia del Monte, en Olinda, en ese tiempo habitada por un viejo monje benedictino"10.

La pasión por la cultura popular, el interés por las clases trabajadoras, la sensibilidad para entender lo cotidiano de las camadas empobrecidas de la sociedad, todo eso él heredó del padre, el dentista Dr. Andrade11. Se inspiró también en la doctrina social de la iglesia católica12, inspirado por las enseñanzas de León XIII, el papa que sútilmente dialogó con las tesis revolucionarias de Karl Marx. Pero también fue influenciado por el ambiente socialista que impregnaba, desde los tiempos de Tobias Barreto, las lideranzas forjadas en la tradicional Facultad de Derecho de Recife13. Allí y en otras partes, Beltrão trabaría coloquios enriquecedores, sin comprometerse necesariamente, con las ideas marxistas propugnados por Francisco Julião, Paulo Cavalcanti, Clodomir Bezerra, Abelardo da Hora, entre otros compañeros de la generación.

Por eso mismo, él personalmente quería dejar claro su distanciamiento en relación a la lucha de clases. "Algunas veces me viene la idea de que la persona puede confundir la folkcomunicación con una comunicación clasista. Sin embargo ella no es exactamente una comunicación clasista. (...) ...yo estudié algunos grupos que utilizan la folkcomunicación, esto es, medios no-formales de comunicación ligados directa o indirectamente al folklore. Entonces yo vi que algunos de esos grupos tienen capacidad de integración en la sociedad, apenas no concuerdan con esa sociedad. Los grupos a los que me refiero son los culturalmente marginalizados, contestan la cultura dominante. Ellos contestan, por ejemplo, las creencias dominantes en la sociedad y las religiones establecidas. El grupo erótico-pornográfico no acepta, por ejemplo, la moral dominante."14

En el fondo, su fundamentación se insere en aquella concepción socio-psicológica y transclasista que Gilberto Freyre sagazmente denominaría "ánimo folklórico", entronizándola como variable esencial a la comprensión del comportamiento cultural de los brasileños15. Tal filiación teórica queda sobre-entendida en varios trechos de esta obra, especialmente en aquellos en que analiza el sentido contestatorio inherente a las piezas producidas por los artesanos del barro o a la crítica social implícita en las diversiones populares.

No es sin justificativa que Beltrão convidaría a Gilberto Freyre para ser uno de los principales conferencistas del I Curso Nacional de Ciencias de la Información, promovido en el periodo del 16 de enero al 4 de marzo de 1964, en el Recife, una de las primeras iniciativas del recién-fundado ICINFORM16.

En ese momento, sus preocupaciones folkcomunicacionales aún no habían ultrapasado las fronteras de la observación periodística. Tanto así que el programa de aquel evento académico incluía varios "trabajos de campo", entre ellos "participación y asistencia a (...) fiestas folklóricas y carnavalezcas ocurridas en el periodo de duración del Curso"17

No obstante, él destaca el impacto que le causaría la lectura del libro de Edson Carneiro -La dinámica del folklore (Rio de Janeiro, Civilización Brasileña, 1965), despuntando en el escenario nacional como una especie de "obra maldita". Ella desagrada a los folkloristas ortodoxos, que la consideran avanzada, izquierdizante. Pero también no entusiasma a los cientistas sociales, encastillados en las cátedras universitarias, que evalúan el folklore como un objeto menor, signo de la alienación de las clases subalternas18.

Viviendo en la provincia, ajeno a las querellas académicas que animaban los principales centros culturales del país (Río - San Paulo), Luiz Beltrão supervaloriza la contribuición de aquél folklorista de vanguardia. "Edson Carneiro fue el único hombre que percibió que el folklore no era estático, el folklore no era una cosa parada en el tiempo, sinó una cosa dinámica. (...) Este libro tuvo una gran influencia en mí, pues verifiqué que cualquier manifestación popular estaba ligada al pueblo, porque el puebo no tenía medios, él utilizaba esos medios que le daban"19.

Beltrão se siente estimulado para hacer la primera incursión investigativa fuera del campo específicamente peridístico. Su ensayo Iniciación a la filosofía del peridiosmo (Río de Janeiro, Agir, 1960), fue bien recibido por la crítica nacional e internacional20, credenciándolo a vuelos académicamente más osados.

En la primera edición de la revista Comunicaciones & Problemas (Recife, ICINFORM, 1965) publica un ensayo monográfico - "El ex-voto como vehículo periodístico" (p. 9 a 15). Estribado teóricamente en Gilberto Freyre21 y ancorado metodológicamente en Alceu Maynard Araújo y Luiz Saya22, él formula su embrionaria teoría de la folkcomunicación:

"No es solamente por los medios ortodoxos - la prensa, la radio, la televisión, el cine, el arte erudito y la ciencia académica - que, en países como el nuestro, de elevado índice de analfabetos e incultos, o en determinadas circunstancias sociales y políticas, así como en las naciones de mayor desenvolvimiento cultural, no es solamente por tales medios y vehículos que la masa se comunica y la opinión se manifiesta. Uno de los grandes canales de comunicación colectiva es, sin duda, el folklore.
De las conversaciones de boca de noche, en las ciudades del interior, en la farmacia o en la barbería; del intercambio de impresiones provocada por las noticias traídas por el chofer del camión, por el representante comercial o el 'lotero'(bichero); o, aún, por los versos del poeta distante, impresos en el folleto que se compra en la feria, y por los 'martillos' del cantor ambulante; por los inflamados artículos del periodista rústico o por las severas amoestaciones de los misioneros; del raciocinio del hombre solitario en su trabajo en la floresta, en la cantina o en la loma - es que surgen, van tomando forma, cristalizándose las ideas-motrices, capaces en un momento dado bajo cierto estímulo, llevar aquella masa aparentemente disociada y apática a una acción uniforme y eficaz".

Su manifiesto folkcomunicacional encuentra buena receptividad. Luiz Beltrão recibe cartas entusiastas de dos eminentes representantes de las comunidades nacionales del periodismo y del folklore. El entonces secretario-general de la ABI - Asociación Brasileña de la Prensa, Fernando Segismundo, que le hace ademanes generales:

"El artículo - El ex-voto como vehículo periodístico es de los mas curiosos"23.

Mientras que, el patriarca del folklore brasileño, Luis de la Câmara Cascudo, se pronuncia de modo mas enfático, preciso, desafiador:

"Su artículo-de-abertura (...) es um magnífico master-plan. Valorizará lo cotidiano, lo vulgar, lo realmente popular defectuoso, de origen y función. No espera que venga un nombre de fuera, un libro de lejos, enseñando a amar lo que tenemos al alcance de los ojos. Incista, como está haciendo, en valorizar al Hombre del Brasil en su normalidad. (...) Sobretodo, vea con sus ojos. Ande con sus pies. Después compare con las conclusiones de otros ojos y con las pegadas de otros pies"23.

Entusiasmado, él continuó las observaciones respecto a los otros fenómenos de la comunicación tradicional.

"Yo todavía estaba impresionado con la información puramente. Ahí llamé a eso de folkcomunicación periodística"25.

Ese trabajo embasaría empíricamente la tesis con que se inscribió en la Universidad de Brasília, en 1967, para conquistar el título de Doctor en Comunicación.

El volumen se compone de tres partes. La primera, concisa, presenta sus fundamentos teóricos y metodológicos, esbozando una teoría de la folkcomunicación. La segunda está constituída por dos segmentos: un documental, historicizando la comunicación brasileña, del periodo pre-cabralino al dominio colonial portugués; otro empírico, inventariando las manifestaciones folkcomunicacionales del Brasil contemporáneo. La tercera contiene las conclusiones, la bibliografía consultada y un breve curriculum-vitae del investigador.

¿Cuál es la tesis defendida por Luiz Beltrão ? Ella constituye un desdobramiento de la hipótesis construída por Lazarsfeld y Katz -two-setp-flow of communication- para refutar la idea dominante de la omnipotencia mediática26. Las evidencias empíricas colectadas en los Estados Unidos permiten concluir que los medios masivos consiguen movilizar la atención colectiva de los usuarios, pero sus efectos son intermediados por líderes de opinión que filtran los mensajes segundo los padrones consensuados en los grupos primarios. En el caso brasileño, Luiz Beltrão verificó que el papel de las lideranzas grupales es ejercido, en el campo, ciudades del interior o en las periferias metropolitanas, por agentes folkcomunicacionales. Estos recodifican los mensajes mediáticos, reinterpretándolos de acuerdo con los valores comunitarios.

El tribunal designado por la Universidad de Brasília para evaluar la tesis está compuesto de tres eminentes investigadores: el español Juan Beneyto, el norte-americano Hod Horton y el brasileño Roberto Lyra Filho. Ellos se manifestan favorablemente a la aprobación del trabajo y recomiendan la concesión del título de doctor al candidato.

Hasta aquel momento, la trayectoria intelectual de Luiz Beltrão había sido un "mar de rosas". Al ingresar en la vida universitaria poseía "notorio saber" en el campo periodístico, lo que lo eximía, según las reglas vigentes, de disputar títulos académicos. Tanto así que fuera reconocido como Catedrático por el CIESPAL - Centro Internacional de Estudios Superiores de Periodismo para América Latina, mantenido por la UNESCO en Quito, Ecuador, donde asumiera en 1963 la regencia de la cátedra de "Pedagogía del Periodismo"27. En la Universidad Católica de Pernambuco él ya ocupaba desde 1961 la Cátedra de Técnica de Diario y Periódico , habiendo sido designado por el Rector Padre Aloisio Mosca de Carvalho para implantar y coordinar el Curso de Periodismo.

Convocado, en 1965, por el Presidente Castelo Branco, a través de su Asesor de Prensa, José Vamberto, para dirigir la Facultad de Comunicación de la Universidad de Brasília en el lastre de la crisis allí desencadenada en el inicio del régimen militar, Beltrão quizo valorizar la propuesta del idealizador de aquella universidad, Darcy Ribeiro. Él pretendía que todos sus docentes maduros se alistasen en programas de doctorado y los docentes jóvenes en programas de maestría, en el sentido de fortalecer la investigación, estimulando la producción de nuevos conocimientos.

Siendo así, Luiz Beltrão dió el buen ejemplo, inscribiéndose en el programa de Doctorado en Comunicación, y con eso obtuvo la adhesión de varios otros colegas. Las reglas del doctorado seguían, en aquella conyuntura, el modelo europeo, caracterizado por la realización de una investigación original, finalmente sometido al juicio de un tribunal académico. Se trataba de una evaluación de mérito, sin la intervención de factores políticos. Con todo, la turbulencia que estremeció los cimientos de la UnB después del golpe militar de 1964 terminaría por radicalizar la convivencia dentro del campus, politizando todas sus actividades.

Cuando el profesor Beltrão se presentó para la lectura de la tesis de doctorado ante el tribunal académico constituido por la Rectoría, la Facultad de Comunicación se encontraba conflagrada29, culminando con su demisión del cargo ejecutivo para el cual fuera invitado por la administración anterior. Después del juicio, cada examinador emitió su parecer, siendo que los dos extrangeros protocolaran inmediatamente el boletín de aprobación.

El sociólogo Juan Beneyto, Catedrático de la Universidad de Madrid, recomendó que fuese concedida la máxima distinción al candidato: "A juicio del abajo firmante, el estudio que se dictamina muestra desde luego valor científico sobrado para aspirar a la máxima calificación que el procedimiento académico autoriza, por lo que estima que es obra merecedora de Distinción con Honor"30.

A su vez, el diplomático Hod Horton, Catedrático de la Universidad de Denver, Colorado, EUA, emitó el siguiente punto de vista: "Obra de alta categoría, plenamente documentada, bien dirigida, escrita con el mayor apuro literario y, por su entereza, consagrando el autor como un investigador serio".

Nadie dudaba de la lisura del proceso. Aprobado por el grupo examinador, el candidato hacía jus al grado correspondiente. Pero el entonces Rector Laerte Ramos de Carvalho, que demitiera a Luiz Beltrão del cargo ejecutivo, quizo perjudicar al nuevo doctor, dificultando a entrega del título conquistado con brillantez. Por tanto, convenció al miembro brasileño del grupo, integrante del cuerpo docente de la propia universidad, en el sentido de retardar la entrega de su boletín de evaluación. La ausencia de ese documento fue usada como justificativa para impedir el otorgamiento del diploma correspondiente. Todo eso, apesar de haber sido incorporado en el proceso los pareceres de los dos otros examinadores, evidenciando la aprobación del candidato por la mayoría de sus miembros titulares.

Pero, estábamos en pleno gobierno Costa y Silva, cuando el régimen militar endureció, culminando con el golpe-dentro-del-golpe engendrado por el Acto Institucional N. 5. La apariencia de normalidad jurídica, perseguida inicialmente por el gobierno Castelo Branco, quedaría totalmente prejudicada. Por eso, la concesión del título solamente se efectuaría a través de la demanda administrativa instaurada formalmente, mucho tiempo después de la defensa de la tesis31.

El calvario de Luiz Beltrão no terminó ahí. Su tesis repercutió intensamente en la comunidad académica nacional e internacional, siendo considerada la más original de las contribuiciones brasileñas a la teoría de la comunicación. Umberto Eco, por ejemplo, le dedica un simpático comentario en el jornal L'Espresso de Milán (30/10/1966).

Con todo, ella encontró barreras para su publicación integral. La Editora Mejoramientos se mostró interesada por la edición, sometiéndola al cribo del Prof. Lourenço Filho, su consultor para la área de humanidades. Éste emite parecer favorable, argumentando sobre la inconveniencia política de publicar el capítulo teórico, en aquella coyuntura represiva. Percíbese que él discordaba de la ancoraje del autor en las premisas "subversivas" de Edson Carneiro. Se temía represalias del sistema autoritario, por tratarse de literatura puesta en cuarentena por los nuevos "dueños del poder"32.

No quedó otra alternativa a Luiz Beltrão sino la de aceptar la mutilación de su obra. Ella circula bajo el título Comunicación y Folklore (San Paulo, Mejoramentos, 1971), respaldada por una irónica "presentación" de Alceu Maynar Araújo, miembro de la Academia Paulista de Letras:

"Encuanto los 'folkloristas' (entre aspas) se quedan participando de reuniones y cónclaves para definir lo que ya está definido, para projectar sólo en el papel, o para relatar lo que fue visto en una demostración por los 'sabios de palanque', viene ese periodista (...) con un trabajo espléndido sobre lo que haya de más moderno, que es la vieja comunicación. (...)
"Soy un estudioso de nuestro folklore y confieso que aprendí mucho con ese ensayo. Vale la pena comunicarnos con nuestra realidad folklórica a través de la obra de Luiz Beltrão

A pesar se ser censurado e impedido de hazer jus al título de doctor, el patrono de la Folkcomunicación no se intimidaría, continuando sus investigaciones. Él asimiló positivamente algunas de las críticas que le fueron dirigidas, inclusive aquella sobre el reduccionismo periodístico de su teoría. Más tarde, él iría a reconocer esa laguna:

"Sucedió que yo vi que la función de la Comunicación no estaba tan solamente en informar u orientar, estaba también en educar, había una función promocional. Entonces yo comenzé a profundizar esos estudios y el resultado es que el concepto de folkcomunicación fue ampliado no para dar solamente la idea de que el pueblo utiliza la folkcomunicación para trocar noticias, mas sí para educarse. Decir lo que él quiere decir, promoverse y entretenerse también, divertirse del mismo modo que nosotros usamos el sistema establecido, que lo llamé de comunicación social para una diferenciación de la comunicación folklórica"33.

Cuando publica su nuevo libro sobre el tema -Folkcomunicación, la comunicación de los marginalizados (San Paulo, Cortez, 1980)- no apenas rescata sus raízes teóricas, explicitando las ideas seminales en que se fundamenta, sino que formula un modelo para describir el sistema de folkcomunicación. Eso le permite construir con mayor seguridad el concepto de esa nueva disciplina34:

"La folkcomunicación es, por naturaleza y estructura, un proceso artesanal y horizontal, semejante en esencia a los tipos de comunicación interpersonal ya que sus mensajes son elaboradas, codificadas y transmitidas en lenguajes y canales familiares a la audiencia, a su vez conocida psicológica y vivencialmente por el comunicador, todavía dispersa"

Al fallecer, en 1986, Luiz Beltrão dejó un legado intelectual fértil, instigante y provocativo35. Vale la pena rescatar las palabras que escogió para dialogar con los lectores de su tesis de doctorado, no obstante incompleta36:

"Entregando al lector éste estudio, el Autor reserva apenas, para sí, la convicción de que intentó abrir una picada para la estrada larga que otros más autorizados y más seguros irán percorrer en el sentido de investigar los agentes y canales de folkcomunicación y, así, penetrar en la médula de las directrices reales que conducen la acción política del hombre brasileño en su compleja integridad".

Al iniciarse el nuevo milenio, verificamos que la Folkcomunicación concebida como disciplina científica por Luiz Beltrão dejó de ser una mera "picada" para convertirse en la "estrada larga" que él preconizara. Quien lo atesta es su principal discípulo y sucesor, Roberto Benjamín, que inventarió recentemente los avances de esas investigaciones en todo el territorio nacional.

"La Folkcomunicación enseñada e investigada en la Universidad brasileña ha dado como resultado la publicación de estudios originados en trabajos de campo, reflexiones teóricas y en las aplicaciones metodológicas propias de la investigación. Sus continuadores procuran expandir la conceptuación y establecer la relación entre las manifestaciones de la cultura popular y la comunicación de masa, incluyendo en sus estudios la mediación realizada por las manifestaciones populares en la recepción de la comunicación de masa, la apropriación de la tradición popular por lo mass media y la apropriación por la cultura popular de aspectos de la cultura de masa.
"Así, los estudios de Roberto Benjamín sobre maracatu, las tesis de Joseph Luyten sobre literatura de cordel, la de Edval Marinho de Araújo sobre el holgorio caballo-marino, la de Rute Almeida sobre almanaques son ejemplos de documentación y análisis de canales populares y sus mensajes; 'Folletos Populares intermediarios en el proceso de comunicación', de Roberto Benjamín es el primer estudio monográfico sobre la mediación de los canales populares en el proceso de la comunicación de masa; 'La influencia de la radio en la dinámica cultural de las canturías en Paraíba' es una investigación de Luis Custódio sobre los efectos de la comunicación de masa sobre un canal popular; la disertación de Osvaldo Meira Trigueiro, 'La TV Globo en dos comunidades rurales de Paraíba: un estudio sobre la audiencia de la televisión en determinados grupos sociales "es un estudio sobre la audiencia de la televisión en grupos de cultura folk interligados a este mass medium; el estudio comparativo sobre la temática de la Navidad, promovido por José Marques de Melo, analiza el impacto de la globalización y la permanencia de las tradiciones populares en los mensajes vehiculados por los diarios brasileños."37

BENJAMÍN reitera, finalmente, que "la divulgación de la teoría fue perjudicada por la no-publicación de la tesis defendida en la Universidad de Brasília"38.

Esa deficiencia deja de existir, ahora, con el lanzamiento del libro que contiene la versión original de aquella tesis- Folkcomunicación - Un estudio de los Agentes y de los Medios Populares de la Información de Hechos y Expresión de Ideas, publicada integralmente por la Editora de la PUC-RS (Puerto Alegre, 2001), por iniciativa del Prof. Dr. António Holfeldt39. Su circulación en territorio nacional ciertamente va aumentar el contingente de los investigadores de los fenómenos folkcomunicacionales. Va fortalecer también la corriente de los jóvenes investigadores que acuden, anualmente, a las Conferencias Brasileñas de Folkcomunicación40, promovidas por la Cátedra UNESCO/UMESP, bien como a eventos similares organizados por sociedades científicas como la INTERCOM - Sociedade Brasileña de Estudios Interdisciplinares de la Comunicación41, la LUSOCOM - Federación Lusófona de Ciencias de la Comunicación, FELAFACS - Federación Latinoamericana de Facultades de Comunicación Social, ALAIC - Asociación Latinoamericana de Investigadores de la Comunicación, etc.42

Las nuevas corrientes de estudiosos de la folkcomunicación percorren flujo inverso aquel originalmente concebido por Luiz Beltrão43. El fundador de la disciplina privilegió los auténticos procesos folkcomunicacionales, bien como la folkmedia encuanto recodificadora de los mensajes previamente vehiculadas por los mass media. Sus jóvenes discípulos procuran desvendar de que manera la Folkcomunicación actúa como retroalimentadora de las industrias culturales. Sea pautando materias periodísticas, generando productos ficcionales, embasando campañas publicitarias y de RP o invadiendo los espacios de entretenimiento44.

Se trata de un conjunto de tendencias que están bien delineadas en el último libro de Roberto Benjamín45 o en la edición monográfica de la revista Comunicación & Sociedad, n. 34 46. Esas publicaciones reflejan claramente el avigoramiento académico de la Folkcomunicación, tanto cuanto su destaque como campo de estudios que ultrapasa las fronteras del Brasil para alcanzar a todos los Países Lusófonos y la América Latina.

Notas:

2 El perfil biográfico de Luiz Beltrão está contenido en el libro organizado por Roberto Benjamín - Itinerario de Luiz Beltrão, Recife, AIP/UNICAP, 1998. Allí fueron coadjuntados dados y testimonios que confirman todo su pioneirismo académico, además de su actuación de vanguardia como periodista y de sus incursiones singulares por la vida literaria.
3 La presencia de la Folkcomunicación como disciplina integrante del segmento de las ciencias de la información individual o grupal está justificada en mi libro lanzado recientemente en la vida académica. Vide: MARQUES DE MELO, José - Comunicação Social: Teoria e Pesquisa , Petrópolis, Vozes, 1970, p. 62-64. Esta también fue incluída en la coletánea que abriga textos marcantes de mi trajectoria intelectual - MARQUES DE MELO, José - Teoria da Comunicação: paradigmas latino-americanos, Petrópolis, Vozes, 1998, p. 69-70
4 Esa asociación entre la palabra y su creador se dio naturalmente cuando ella fue diccionarizada. Su incorporación al léxico mediático se hizo por iniciativa del Profesor Mário ERBOLATO - Dicionário de Propaganda e Jornalismo, Campinas, Papirus, 1985, p. 154 Solamente más tarde ella sería asimilada por los estudiosos del folklore, cuando Mário SOUTO MAIOR publica su Dicionário de Folcloristas Brasileiros, Recife, 20-20 Comunicación y Editora, 1999, dedicando un verbete a Luiz Beltrão, identificado como el personaje polivalente: "romanticista, cuentista, periodista, abogado, profesor, folklorista" (p. 116)
5 RABAÇA, Carlos Alberto & BARBOSA, Gustavo - Dicionário de Comunicação, São Paulo, Ática, 1987, p. 611
6 LUYTEN, Joseph - Folkcomunicación, In: UEIROZ E SILVA, Roberto P. de, coord. - Temas Básicos em Comunicação, São Paulo, Paulinas/INTERCOM, 1983, p. 32-34
7 KUNSCH, Waldemar - Premio Luiz Beltrão: un reconocimiento a la investigación en comunicación, Comunicación & Sociedad, n. 32, São Bernardo do Campo, UMESP, 1999, p. 226-229
8 Esas diferentes facetas del maestro olindense merecieron la atención de los participantes de CELACOM'1999 - III Coloquio Internacional sobre la Escuela Latino-Americana de Comunicación, a través de las contribuiciones de Maria Luiz Nóbrega - Icinform: una experiencia pionera; Maria das Graças Targino - La contribuición del Instituto de Ciencias de la Información (Icinform) en el génesis del pensamiento comunicacional brasileño; Rosa Maria Nava - Comunicaciones & Problemas: el primer periódico de estudios e investigaciones de la Comunicación del Brasil; Samantha Viana Castelo Branco Rocha Carvalho - Luiz Beltrão: de la creación del Icinforma la teoría de la Folkcomunicación; Tereza Halliday y Roberto Benjamín - "Pernambuco hablando para el mundo": contribuición de la Unicap y del Icinform para las Ciencias de la Comunicación. Vide: MARQUES DE MELO, José y GOBBI, Maria Cristina. Orgs. - Génesis del Pensamiento Comunicacional Latino-Americano: el protagonismo de las instituiciones pioneras (Ciespal, Icinform, Ininco), São Bernardo do Campo, UMESP, 2000, p. 155-217
9 Evidencias de esa estrecha colaboración quedaron registradas en los libros Periodismo Interpretativo (1976) y Periodismo Opinativo (1980), publicados en Puerto Alegre por la Editora Sulina, integrando la Estante de Comunicación Social, editada en convenio con la ARI - Asociación Riograndense de la Prensa - y dirigida por el entonces director de la FAMECOS - Facultad de los Medios de Comunicación Social -, Profesor Antonio Firmo de Oliveira González.
10 BENJAMÍN, Roberto - Itinerário de Luiz Beltrão, Recife, AIP/UNICAP, 1998, p. 59
11 Él así reconstituye la memoria de su padre: "Dr. Andrade era, por naturaleza, un participante. (...) En Olinda, tomaba posición en todas las iniciativas y campañas que tenían en mira para llevar beneficios a la población. Orador fluente, su palabra, al servicio de las buenas causas olindenses, estimulaba la acción constructiva de la audiencia..." BELTRÃO, Luiz - Memoria de Olinda, Recife, FIAM/ Olinda, Prefectura Municipal, 1996, p. 81-82
12 "Mi formación cultural tuvo inicio efectivamente en el Seminario de Olinda. Allí comencé a estudiar y a escribir." Luiz Beltrão: la folkcomunicación no es una comunicación clasista (entrevista), Revista Brasileña de Comunicación, Año X, n. 57, São Paulo, INTERCOM, 1987, p.6
13 "La Facultad de Derecho no eran las aulas. La Facultad de Derecho de Recife no eran los profesores. La Facultad de Derecho do Recife, para mí, eran los corredores..." Luiz Beltrão: la folkcomunicación no es una comunicación clasista (entrevista), Revista Brasileña de Comunicación, Año X, n. 57, São Paulo, INTERCOM, 1987, p.6
14 Luiz Beltrão: la folkcomunicación no es una comunicación clasista (entrevista), Revista Brasileña de Comunicación, Año X, n. 57, São Paulo, INTERCOM, 1987, p. 5-15
15 FREYRE, Gilberto - El ánimo folklórico en el comportamiento y en la cultura del brasileño, inclusive en la literatura, Alhos & Bugalhos, Rio de Janeiro, Nueva Frontera, 1978, p. 135-145
16 I Curso Nacional de Ciencias de la Información, Comunicaciones & Problemas, vol. I, n. 2, Recife, ICINFORM, julio de 1965, p. 109-120
17 BENJAMIN, Roberto - Itinerário de Luiz Beltrão, Recife, AIP/UNICAP, 1998, p.73
18 Esa contienda entre folkloristas y científicos sociales está bien documentada en el libro póstumo de Luis Rodolfo VILHENA - Proyecto y Misión: el movimiento folklórico brasileño, 1947-1964, Rio de Janeiro, Funarte, 1997 De cierto modo, la cuestión fue rescatada, en una perspectiva internacional, por el libro de Renato ORTIZ - Cultura Popular - Románticos y Folkloristas, São Paulo, Olho d''Agua, 1992
19 Luiz Beltrão: la folkcomunicación no es una comunicación clasista (entrevista), Revista Brasileña de Comunicación, Año X, n. 57, São Paulo, INTERCOM, 1987, p. 13
20 LEAL, César - Luiz Beltrão, teórico del periodismo, In: BENJAMIN, Roberto - Itinerário de Luiz Beltrão, Recife, AIP/UNICAP, 1998, p.133-136
21 El no cita expresamente ninguna obra del Maestro de Apipucos, transpareciendo, com todo, el conocimiento de su trilogia sobre la sociedad brasileña (Casa Grande & Senxala., Sobrados e Mocambos, Ordem e Progresso), donde los elementos de la cultura popular están valorizados en cuanto procesos comunicacionales típicos (sátira, crítica, caricatura etc.)
22 Folkloristas paulistanos. Alceu Maynard de ARAÚJO es autor de la consagrada obra, en tres volúmenes, Folklore Nacional, São Paulo, Mejoramentos, 1964 y Luiz SAYA escribiera el libro Escultura Popular Brasileña, São Paulo, Editora Gaxeta, 1944.
23 Aún sobre C&P - N. 1 , Comunicaciones & Problemas, v. 1, n. 2, Recife, ICINFORM, 1965, p. 136
24 CÂMARA CASCUDO, Luis da - Carta a Luiz Beltrão sobre el "Ex-Voto", Comunicacioness & Problemas, v. 1, n. 2, Recife, ICINFORM, 1965, p.135
25 Luiz Beltrão: la folkcomunicación no es una comunicación clasista (entrevista), Revista Brasileña de Comunicación, Año X, n. 57, São Paulo, INTERCOM, 1987, p.13
26 Vide: KATZ, Elihu and LAZARSFELD, Paul F. - Personal Influence - The part played by people in the flow of mass communication, New Yoirk, Free Press, 1955
27 Sus clases fueron reunidas en el libro: BELTRÃO, Luiz - Métodos en la Enseñanza de la Técnica del Periodismo, Quito, CIESPAL, 1963, 169 p.
28 Su experiencia didáctica en Pernambuco fue sistematizada y difundida nacionalmente. Ella dio origen al libro : BELTRÃO, Luiz - La prensa Informativa, São Paulo, Folco Masucci, 1969
29 Vale la pena leer el relato dejado sobre ese episodio por el propio Luiz Beltrão. Se encuentra transcrito en el libro organizado por BENJAMIN, Roberto - Itinerário de Luiz Beltrão, Recife, AIP/UNICAP, 1998, p.82-93
30 BENEYTO, Juan - Juicio de la Tesis de Doctorado, In: BENJAMIN, Roberto - Itinerário de Luiz Beltrão, Recife, AIP/UNICAP, 1998, p.310-311
31 Vide, a propósito de ese hecho, mi testimonio, como testigo ocular de ese y de otros acontecimientos de la época. MARQUES DE MELO, José - En los tiempos de la gloriosa, Revista Brasileña de Comunicación, v. XX, n. 2, São Paulo, INTERCOM,1997, p. 13-28
32 MARQUES DE MELO, José - Folkcomunicación, la comunicación del pueblo, In: Telemania, anestésico social, São Paulo, Loyola, 1981, p. 79-84
33 Luiz Beltrão: la folkcomunicación no es una comunicación clasista (entrevista), Revista Brasileña de Comunicación, Año X, n. 57, São Paulo, INTERCOM, 1987, p. 13-14
34 BELTRÃO, Luiz - Folkcomunicación, la comunicación de los marginalizados, São Paulo, Cortez, 1980, p. 28
35 Ese legado incluye también su trilogía sobre Teoría de la Comunicación. Vide: BELTRÃO, Luiz - Sociedad Masa: Comunicación & Literatura, Petrópolis, Vozes, 1972; Fundamentos Científicos de la Comunicación, Brasília, Thesaurus, 1973; Teoría Genera de la Comunicación, Brasília, Thesaurus, 1977, bien como el manual que escribió en sociedad con Newton de Oliveira QUIRINO - Subsidios para una Teoría de la Comunicación de Masa, São Paulo, Summus, 1986.
36 BELTRÃO, Luiz - Comunicación y folklore, São Paulo, Mejoramientos, 1971, contra-capa
37 BENJAMIN, Roberto - Folkcomunicación: contribución de Luiz Beltrão para la Escuela Latino-Americana de Comunicación, Anuario Unesco/Umesp de Comunicación Regional, n. 2, São Bernardo do Campo, UMESP, 1998, p. 136
38 BENJAMIN, Roberto - Folkcomunicación: contribución de Luiz Beltrão para la Escuela Latino-Americana de Comunicación, Anuario Unesco/Umesp de Comunicación Regional, n. 2, São Bernardo do Campo, UMESP, 1998, p. 136 BENJAMIN, Roberto - Folkcomunicación: contribución de Luiz Beltrão para la Escuela Latino-Americana de Comunicación, Anuario Unesco/Umesp de Comunicación Regional, n. 2, São Bernardo do Campo, UMESP, 1998, p. 134
39 A EDIPUCRS está situada en la Av. Ipiranga, 6681 - prédio 33, Puerto Alegre, cep: 90619-900, RS. Caixa Postal: 1429. Telefax: (051) 339-1511 r: 3323. Endereço eletrônico: edipucrs@music.pucrs.br
40 Fueron realizadas 3 FOLKCOM al finalizar el siglo XX: 1998 (UMESP, São Bermardo do Campo, São Paulo); 1999 (FUNREI, São João del Rei, Minas Gerais), 2000 (UFPB, João Pessoa, Paraíba).
El primer encuentro del nuevo milenio fue agendado para el campus de la UFMS, en la ciudad de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, en junio de 2001. El evento ha hecho un inventario nacional de las fiestas populares. Vide: MARQUES DE MELO, José - Las fiestas populares como procesos comunicacionales, Neon - Arte, Cultura y Entretenimiento, Año 2, n. 22, Salvador, octubre de 2000, p. 34-39
41 Esa entidad acaba de crear un Núcleo de Pesquisas exclusivamente dedicado a los fenómenos folkcomunicacionales, cuya instalación fue confiada al Prof. Dr. Sebastião Breguez (Centro Universitario del Sur de Minas), responsable por la organización del I Seminario de Folkcomunicación (Belo Horizonte, abril de 2001)
42 Esas asociaciones internacionales crean Grupos de Estudios de Folkcomunicación, que se reúnen periódicamente, durante sus congresos bienales o trienales, para discutir los resultados de las mas recientes investigaciones hechas en diferentes países.
43 Para mejor comprender las ideas seminales el maestro olindense, vale la pena consultar a la antología: MARQUES DE MELO, José, org. - Midia y Folklore - el estudio de la Folkcomunicación según Luiz Beltrão, Maringá, Faculdades Maringá/Cátedra UNESCO/UMESP, 2001.
44 MARQUES DE MELO, José - Folkcomunicación entre media y cultura popular, Imprensa, n. 151, São Paulo, agosto/ 2000, p. 76-77
45 BENJAMIN, Roberto - Folkcomunicacióno en el contexto de masa, João Pessoa, Editora de la Universidad Federal de Paraíba, 2000
46 Ese volumen contiene un dossier sobre Folkcomunicación, coordinado por Waldemar Kunsch (São Bernardo do Campo, UMESP, diciembre/ 2000).

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A trajetória de um pioneiro

Nicolau José Carvalho Maranini
(Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro / Brasil)

- Introdução

Este trabalho foi desenvolvido para o cumprimento de créditos para a disciplina Pensamento Comunicacional Latino Americano e tem como objetivo demostrar a importância de Luiz Beltrão para a produção de conhecimento no campo de Teoria da Comunicação no Brasil .

Luiz Beltrão é considerado um dos pioneiros da Escola Latino Americana de Comunicação - ELACOM - pelas suas características , "elaborações científicas e o hibridismo teórico e a superposição metodológica" conforme revela José Marques de Melo. Beltrão é multidisciplinar: jornalista, sindicalista, professor, pesquisador, diretor de curso universitários, autor de várias publicações , relações públicas.

A análise procurou dividir sua atuação em diversas fases de vida: estudantil , profissional ,acadêmica e sindical , sabendo que para cada época existiram variáveis dentro de um contexto, que em muitas das vezes não conseguiremos reproduzir.

- Os Primeiros Estudos

A vida estudantil de Luis Beltrão iniciou-se no Seminário de Olinda, em consequência da forte influência da religião católica em sua família. Foi no seminário que começou a estudar e a escrever: "Lembro-me, ainda, do seminarista tímido que eu fui aos doze anos, metido na minha batina negra com a faixa azul à cintura, visitando quem me parecia o temido prelado no seu palácio arquiepiscopal de Olinda. E verificando que, diante daqueles dos quais ele esperava serem seus pescadores de almas, toda aquela austeridade, todo aquele ar de grão senhor, toda aquela ironia, todos os traços fisionômicos que marcavam a sua diferença e a posição superior que desfrutava pelo oposto ocupado na hierarquia eclesial, desapareciam, quando, feita a genuflexão protocolar e osculado o seu anel, ele punha a mão no ombro do jovem e começava, como um parente mais idoso que vivesse distante dos seus, a indagar-lhe sobre os pais, a família, preferências, estudos, fatos da história, noções de geografia, se conhecíamos a sua Bahia, o São Francisco, o Sertão...(Benjamin, 1998,p.41)

Saindo do Seminário, seguiu para o Colégio Estadual de Pernambuco e durante a frequência do ginásio começou a participar ativamente dos Grêmios Literários que teve uma grande influência em sua vida literária:

O Centro funcionava no amplo salão do 1º andar, com suas cinco varandas, no mesmo aposento em que, ainda antes dos Nunes da Silva, o maestro Euclides da Fonseca recebia os amigos e proporcionava-lhes momentos de encantamento em concertos de piano, realizava suas sessões nos domingos e feriados. Durante a semana, o salão era utilizado pelos seus locatários, estudantes e improvisados professores: Francisco Julião Arruda de Paula, que depois se tornaria nome nacional pela sua liderança das Ligas Camponesas, e seus primos Sindulfo e José Hugo. Proferiram conferências e palestras no Humberto de Campos nomes do relevo de Mário Sette, Geraldo de Andrade e Gilberto Freyre; ali, tive como companheiros de aventuras intelectuais, entre muitos outros, Lêdo Ivo e seu irmão Floriano, Lauro Gusmão, Vanildo Bezerra Cavalcanti, Lauriston e Dustan Monteiro, Luiz Guedes da Luz, Adeth Leite, Eurico Costa, Jorge de Medeiros de Sousa, que teriam atuação destacada em diferentes setores da vida cultural de Pernambuco e do País; ali, também, repercutiam e faziam prosélitos as idéias políticas e filosóficas, alimentavam-se as aspirações por um Brasil maior, acompanhavam-se campanhas cívicas e movimentos de ação social como a cruzada nacional de educação, a criação de universidades populares."(Op. Cit. p 39)

Depois do ginásio, Luiz Beltrão seguiu para a Faculdade de Direito de Pernambuco.

- A Entrada para o Jornalismo

A vida profissional como jornalista começa em 15 de dezembro de 1936, no Diário de Pernambuco, onde começou a trabalhar como um "gancho" - como nós o chamavámos. A pessoa tinha um emprego e trabalhava no jornal. Muitas vezes trabalhava no jornal para melhorar o nome no emprego. No meu caso, por exemplo, eu tinha entrado no Instituto de Previdência dos Serviços do Estado de Pernambuco - (Op.Cit.p 60)

Entrou como revisor e em dois dias foi promovido para a arquivista de clichê. Algum tempo depois passou a tradutor de telegrama e depois para repórter. Durante 25 anos atuou no jornalismo de Pernambuco e passou pelo Diário da Manhã, onde chegou a redator-chefe com passagens pelas agências noticiosas France Press e Asa Press. , além de ser correspondente de agências jornalísticas nacionais e internacionais em Recife.Foi dentro de uma redação de jornal que surge o interesse pelo estudo e ensino do jornalismo:Um belo dia, o Aníbal Fernandes, diretor do jornal, apareceu na redação com um livro de cor cinza, francês, que se chamava Como fazer um jornal. Eu nunca tinha imaginado na minha vida que se pudesse aprender fazer Jornalismo de outro modo senão fazendo o próprio jornal. Este momento marcou demais a minha porque daí em diante eu passei a querer organizar uma biblioteca também. Eu comecei a perceber que era preciso estudar Jornalismo para poder fazer Jornalismo. Esse foi o princípio do meu interesse pelo ensino do Jornalismo.(Intercom n 57)

Beltrão verifica na prática as dificuldades encontradas pelos veículos com pessoas não qualificadas para o exercício do jornalismo começa a defender a "necessidade de formação específica de um indivíduo numa profissão de comunicação. Eu acho que o indivíduo deve ter curso superior, porque na universidade é onde se pesquisa, é onde se faz experiência.".(Benjamin, 1998, p.65)

- Participação Sindical

Três anos após ter começado sua carreira profissional , filiou-se à Associação de Imprensa de Pernambuco e onze anos depois é eleito presidente em três mandatos consecutivos, nos anos de 1951, 1953 e 1955. Ajudou na época a criar o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco.

- O desafio de montar um curso universitário

A campanha para a criação do curso superior de jornalismo da realização de cursos livres que defendia trouxe para Luiz beltrão um importante aliado : O Padre Aloysio Mosca de Carvalho, reitor da Universidade Católica, que era um poeta e colaborador assíduo dos jornais locais. No final do ano de 1960 a Universidade obteve autorização para o funcionamento do Curso de Jornalismo, como curso autônomo e realização de vestibular para início de funcionamento em 1961.Uma das principais barreiras contra a implantação do curso foi atitude corporativista da grande imprensa que se posicionou contra a sua criação e nomes importantes do jornalismo local, tanto cronistas profissionais, como articulistas colaboradores se pronunciavam, considerando que o "jornalismo era vocação" e que "jornalista se forjava no batente".

Além das batalhas externas, existiam as lutas internas para a implantação do curso que teve que superar falta de recursos ,"vaidades" e posicionamentos contrários de diversas autoridades universitárias. O novo coordenador, Luiz Beltrão, do Curso de Jornalismo teve pouca autonomia acadêmica e limitações administrativas e enfrentou falta recursos disponíveis . "A vivência de administração acadêmica, em uma universidade particular em implantação, mostrou a necessidade de construir canais próprios que permitissem a concretização de sonhos de vida universitária semelhante à que se praticava nos Estados Unidos e na Europa, a que Beltrão havia conhecido em suas viagens ". Beltrão trouxe para o ensino de comunicação no Brasil a experiência norte-americana da Escola de Missouri , da produção de um jornal experimental diário junto com os seus alunos, aliando a prática a teoria. É o experimentalismo dentro de sala.

- A Estrutura do Pensamento Teórico da Comunicação

Beltrão começou a estruturar a teoria e de orientação de ensino ao Jornalismo, com o primeiro livro Iniciação do Jornalismo, surgido em 1959,, expressa o conhecimento do Jornalismo em profundidade e recebeu o Prêmio Orlando Dantas. O segundo, A Imprensa Informativa, publicado em 1964, e depois O Jornalismo Interpretativo e o Jornalismo Opinativo.Em O jornalismo Interpretativo retoma a prática de associar o ensino à pesquisa, voltando às técnicas de jornalismo comparado (análise morfológica e de conteúdo), para revelar os aspectos do jornalismo interpretativo que estava sendo praticado na ocasião. José Marques de Melo destaca : "Na atividade pioneira de Luiz Beltrão, talvez tenha tido tanat importância a sua preocupação de formar equipes de pesquisadores, quanto as pesquisadores, quanto as pesquisas realizadas sob a sua orientação. Ele compreendia, já naquela ocasião, que as tarefas de investigação científica não poderiam ser levadas a termo, sem contar com a participação de vários especialistas. Era uma visão em certo sentido avançada, considerando a tradição brasileira de pesquisadores isolados realizando sozinhos trabalhamos muitas vezes descomunais".

- Teresa Halliday aponta como aspectos relevantes do Trabalho de Beltrão:

"1. A postura científica, ao escrever Iniciação à Filosofia Do Jornalismo, elaborando um estudo pioneiro da comunicação jornalística, ao definir conceitos e descrever varáveis.
2. A indução à prática da investigação científica, ao formar uma mentalidade voltada para a pesquisa da comunicação, através do treinamento de seus alunos e colabodores.
3. O uso da pesquisa para um melhor desempenho das profissões de Relações Públicas e de Jornalista.
4. A pesquisa dos meios informais de comunicação popular como base para uma teoria da Folkcomunicação".( Op. Cit.p 102)

- O reconhecimento Internacional: Atuação no Ciespal

Fundado em Quito, Equador, em 1959, mediante convênio assinado entre a UNESCO e o Governo do Equador, o CIESPAL (Centro Internacional de Estudiosos Superiores de Periodismo para a América Latina), dirigido por Jorge Fernandez, teve suas atividades iniciadas em 1960, com a realização do I Curso Internacional de Aperfeiçoamento em Ciências na Informação Coletiva.

Tinha por objetivo formar pessoal docente, organizar estágios de aperfeiçoamento para os professores de jornalismo e para os jornalista profissionais, bem como realizar estudo sobe os métodos de ensino e as técnicas de comunicação.

Em 1962 o Professor Gonzalo Córdoba realizou uma série de visitas aos cursos de jornalismo, em diferentes cidades da América Latina, para conhecer de perto a realidade e as propostas de funcionamento das instituições.

O trabalho desenvolvido por Luiz Beltrão empolgou o Prof. Córdoba, e da visita à Universidade Católica de Pernambuco resultou o convite para que ele ministrasse um dos módulos do 4º Curso Internacional de Aperfeiçoamento em Ciências da Informação.

Em 1963, antes de concluir a implantação da sua proposta no Recife, Luiz Beltrão ministrou a disciplina Metodos de la enseñanza de la tecnica del periodismo, tendo a direção do CIESPAL providenciando e imediata edição em livro, das aulas proferidas.

Além de projeção internacional, na área do ensino do jornalismo, o contato com o contacto com o CIESPAL viabilizou a indicação de aluno bolsistas para os cursos seguintes, abrindo a perspectiva para a formação de pesquisadores. Luiz Beltrão indicou não apenas professores do curso da Universidade Católica, como também de outros estados, de cujos projetos acadêmicos ele havia participado.

Dessa forma contribuiu para que a proposta do CIESPAL fosse mais rapidamente absorvida pelos cursos de jornalismo, especialmente os do Nordeste.

- A criação do ICINFORM

O Instituto de Ciências da Informação (ICINFORM) foi instalado em 13 de dezembro de 1963, na Universidade Católica de Pernambuco com a finalidade de oferecer um suporte ao Curso de Jornalismo de Pernambuco e também estabelecer uma estratégia de aproximação com os órgãos da grande impresa local que continuavam a resistir à formação universitária de jornalista. Criado por iniciativa do Professor Luiz Beltrão, depois do seu trabalho no CIESPAL , onde conheceu novas tendências dos estudos de jornalismo, em nível internacional, que se ampliavam para a análise do fenômeno mais abrangente da comunicação de massa. O Instituto reunia estudiosos e interessados na área, proporcionando a oportunidade de discutir o fenômeno da comunicação a partir de perspectivas interdisciplinares e participar de atividades de pesquisa e extensão.

Além do pioneirismo, o ICINFORM representava uma proposta ousada e inovadora para a época. O INCIFORM oferecia bolsas-prêmio para os alunos de melhor desempenho acadêmico e prêmios para reportagens, conseguidas por causa do prestígio de Luiz Beltrão junto a grandes empresas, entre elas o Moinho Recife e a SANBRA.

Nos moldes do Curso de Aperfeiçoamento do CIESPAL e dos cursos de verão das universidades americanas e européias, foi promovido pelo ICINFORM entre 16 de janeiro e 4 de março, no Recife, o I Curso de Ciências da Informação, tendo por finalidade: proporcionar a jornalistas, bacharéis e estudantes de jornalismo, ciências sociais, políticas e economia, publicitários, especialistas em Relações Públicas, em audio-visuais e outros interessados, com nível de educação média ou superior, melhores conhecimentos sobre:
a) - teoria e prática de pesquisa social e comunicação coletiva;
b) - atualidade e importância dos veículos jornalísticos no Brasil;
c) - desenvolvimento sócio-econômico do Nordeste brasileiro e
d) - problemas internacionais da atualidade relacionados com a região e o país.

O curso se desenvolveu através de três tipos de atividades:
a) série de conferências, a cargo de professores especialmente convidados de diversos centros universitários do país;
b) - seminários;
c) - trabalhos de campo, com excursões e visitas de observações e estudo a serviços governamentais, instituições culturais e assistenciais, entidades de economia mista, parque industrial e pontos históricos e pitorescos do Recife e do Estado, além de participação e assistência a espetáculos artísticos, festas folclóricas e carnavalesca ocorridas no período de duração do Curso.

Enquanto amplia suas bases locais, o INCIFORM mantém contatos com universidades e centros de estudos estrangeiros, tais como: Universidade de Concepción (Chile), Católica do Peru (Lima), Vera Cruz (México) e Guayaquil (Equador). Estabelece um intercâmbio com instituições de ensino do país: Escola de Jornalismo Cásper Libero, Fundação José Augusto (Natal - RN), Universidade de Jiuz de Fora (MG), Curso de Jornalismo da PUC do Rio de Janeiro, Universidade de Minas Gerais, Curso de Jornalismo do Instituto Nossa Senhora de Lourdes (João Pessoa - PB). Desse contatos permanentes, surgem articulações acadêmicas que repercutem no curso de Jornalismo e fortalecem politicamente o INCIFORM. (Comunicações & Problemas, v. 1, n 1, p. 8 ).

Na sua estratégia de ampliação e reconhecimento, estabelece laços de cooperação com a CIESPAL, na época um recomendado centro de estudos em comunicação por onde circulavam catedráticos de renome dos principais centros de investigação da Europa, Estados Unidos e América Latina. Vários docentes vinculados ao INCIFORM foram enviados aos cursos de aperfeiçoamento ministrados no CIESPAL. Nestes cursos discutiam-se estratégias de desenvolvimento econômico, ética, pedagogia do ensino, função social do jornalismo, sociologia da informação, metodologias de investigação mas sobretudo tratava-se a comunicação como ferramenta importante para a promoção do desenvolvimento e se aprofundava a discussão sobre a participação popular nesse processo. As modernas técnicas de comunicação coletiva seriam instrumentos a serviço desse projeto participativo.

Segundo Marques de Melo, o INCINFORM constituiu a primeira entidade, dentro da estrutura universitária brasileira, a se dedicar aos problemas de comunicação em termos mais amplos, não limitados ao Jornalismo. Seu papel renovador se fez sentir não apenas no Nordeste (onde passou a orientar novas iniciativas de ensino Jornalismo surgidas na Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará), mas em todo o país, realizando pesquisas, dinamizando a metodologia de ensino das disciplinas. Surge como veículo para sua divulgação a revista Comunicações & Problemas, considerada a primeira revista acadêmica de comunicação editada no Brasil. O primeiro número é publicado em março de 1965. A revista teve 12 edições e saiu de circulação em 1969.

A transferência do Prof. Marques de Melo para São Paulo e ainda os problemas internos do Curso de Jornalismo favorecem o enfraquecimento do ICINFORM, apesar da criação do ICINFORM - seção Brasília. Centrado no prestígio e no trabalho das pessoas que o levavam adiante, o ICINFORM não conseguiu sobreviver às ausências.

O mais importante legado do INCIFORM na área de pesquisa está no efeito multiplicador do seu investimento. Sua atuação fundamental para formar uma geração de pesquisadores. Investigando diferentes aspectos da comunicação e distribuídos por várias Instituições de Ensino Superior, os discípulos de Beltrão ampliaram os propósitos do mestre e influenciaram diretamente a formação de novas gerações de pesquisadores.

Entre outros, José Marques de Melo, Roberto Benjamin, Tereza Lúcia Halliday, Torquato Gaudêncio e Zita Andrade Lima foram fundamentais para a implantação do espírito investigativo e para a consolidação da pesquisa em comunicação no Brasil.

- Revista Comunicações e Problemas

A revista Comunicações & Problemas é considerada a primeira revista acadêmica de comunicação editada no Brasil e representa uma estratégia de divulgação do Instituto entre o meio acadêmico e uma via de integração com a comunidade local, um espaço de intercâmbio e registro de produções acadêmicas e jornalísticas. A sua estrutura e o seu projeto gráfico foram inspirados na revista norte-americana Journalismo Quarterly. Trazia uma breve indicação sobre o autor do artigo e um resumo em inglês, preparados pela editoria. Entre os artigos eram veiculadas pequenas notícias sobre inovações tecnológicas, ou sobre estudos realizados no Exterior. Mantinha uma seção para o registro das ocorrências principais verificadas nas pequenas empresas pernambucanas de comunicação, tais como substituição de articulistas, artigos e reportagens sobre temas relevantes da comunicação ou de problemas da região, falecimentos de jornalistas e outros.Nomes importantes na área do ensino e jornalistas de renome participaram desse empreendimento.

O primeiro número publicado em março de 1965 traz uma ampla cobertura do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, registro de pesquisas realizadas pelo INCIFORM, depoimentos, eventos jornalísticos e alguns artigos sobre comunicação. A revista tem uma excelente receptividade e o editorial do segundo número expressa sua euforia: "A receptividade aludida não está, apenas, nas cartas recebidas, nas contribuições aos debates dos temas focalizados na primeira edição, na publicação de artigos na imprensa local e nacional; está igualmente na elevação surpreendente do número de assinantes, que já à casa dos 300, e na espontânea cooperação de firmas comerciais e industriais que trazem a sua propaganda a veículo especializado, com o campo limitado para temas publicitários". (Comunicações & Problemas, 1965, v.1, n.2, p. 73).

No número dois além das secções permanentes _ Depoimentos, Eventos jornalístico, Histórias e Conceitos, Problemas Regionais _ são acrescentadas: Atividades do INCIFORM, Temas de Comunicação Coletiva na Imprensa Pernambucana e Resenhas Bibliográficas. Além do pioneirismo, a revista uma importante fonte histórica onde encontram-se registradas as discussões da época, informações que podem subsidiar pesquisas em áreas específicas e um conjunto de informações valiosas condensadas pelo Departamento de Documentação e Pesquisa do INCIFORM.

Ao se transferir para Brasília, Luiz Beltrão optou pela Continuação da edição da revista, ao invés de editar outra. Com sua ausência, sabia ele das dificuldades que o vice-presidente do ICINFORM enfrentaria para levar adiante a revista. Assim, engendrou um convênio entre o ICINFORM e a Universidade de Brasília, para continuidade do periódico, que teve 12 edições, deixando de circular em 1969.

- A viagem para Brasília

A sua transferência para a Universidade de Brasília( UnB) foi em 1965, depois que 265 professores foram demitidos por razões políticas. Beltrão conta que o secretário de Imprensa do governo Castelo Branco, José Vamberto Assunção, seu amigo, o convidou para reorganizar a Faculdade de Comunicação de Massa da Universidade de Brasília, mas estipulou uma condição " não se falar em comunicação de massa porque era subversivo". O convite foi uma oportunidade, na visão de Beltrão, para ampliar as bases de seu trabalho. "Lá eu verifiquei que o plano da Faculdade de Comunicação de Massa feito por Pompeu de Souza era realmente muito bom." Beltrão apresentou ao Reitor Laerte Ramos de Carvalho uma exposição de motivos propondo a reorganização da Faculdade de Comunicação e a proposta enfrentou grandes dificuldades por parte dos docentes, que não aceitavam a indicação de um coordenador imposto pela Reitoria. Além disso era difícil encontrar professores com titulação disponível em Brasília e a distância ainda era um fator negativo para transferência de profissionais.Luiz Beltrão permaneceu como diretor da Faculdade de Comunicação da UnB por três períodos letivos, cerca de 18 meses.

- O primeiro doutor em Comunicação no Brasil

Luis Beltrão tornou-se em 26 de Junho de 1967 o primeiro Doutor em Comunicação Social no Brasil ao defender na Universidade de Brasília a tese sobre Flokcomunicação.

Seu interesse pelo tema já tinha sido percebido há muitos anos: Durante esse tempo eu militei muito em congresso jornalísticos e congresso promovidos pela União Brasileira de Escritores. Em 1950 eu tinha estreado nas estrelas com a publicação do meu romance chamado Os Senhores do Mundo. Nesta época eu era repórter, não policial, mas de informações gerais. Eu convivia muito com o povo das chamadas classes subalternas e Os Senhores do Mundo eram aquelas pessoas que viviam marginalizadas da sociedade e que eram de fato marginais. O livro se ocupa dessas pessoas. O romance regional era o estilo da época. Mais do que regional, local. Foi editado pelo meu jornal em 1950.(Intercom n 57)

A folkcomunicação é, por natureza e estrutura, um processo artesanal e horizontal, semelhante em essência aos tipos de comunicação interpessoal já que suas mensagens são elaboradas, codificadas e transmitidas em linguagens e canais familiares à audiência, por sua vez conhecida psicológicamente e vivencialmente pelo comunicador, ainda que dispersa.

Exemplo desse processo pode ser detectado com facilidade na produção de mensagens através de literatura de cordel. O comunicador de folk é um dos incontáveis assistentes da película cinematográfica Farrapo Humano, produzido em Hollywood, que focalizou alcoolismo. Como sua audiência não frequenta cinema, cuja linguagem pelo menos não lhe é familiar, ele _ poeta do povo _ transforma a história na trama de um folheto em verso, travestindo os personagens em gentes do seu mundo e às vezes editando-os em tipografias e prelos manuais e, não raro, com colaboração de xilogravadores populares ainda existente no mundo do cordel brasileiro.

O comunicador de folk tem a personalidade características dos líderes de opinião identificada (e nele, talvez, ainda mais aguçada) nos seus colegas do sistema de comunicação social: 1) prestígio na comunidade, independentemente da posição social ou da situação econômica, graças ao nível de conhecimentos que possui sobre de terminado(s) temas(s) e à aguda percepção de seus reflexos na vida e costumes de sua gente; 2) exposição às mensagens do sistema de comunicação social, participando da audiência dos meios de massa, mas submetendo os conteúdos ao crivo de idéias, princípios e normas do seu grupo: 3) frequentemente contato com fontes externas autorizadas de informação, com as quais discute ou complementa as informações recolhidas; 4) mobilidade, pondo-se em contato com diferentes grupos, com os quais intercambia conhecimentos e recolhe preciosos subsídios; e, finalmente, 5) arraigadas da convicção filosóficas, à base de suas crenças e costumes tradicionais, da cultura do grupo a que pertence, às quais submete idéias e inovações antes de acatá-las e difundi-las, com vistas a alterações que considere benéficas ao procedimento existencial de sua comunidade.

Enquanto no sistema de comunicação social é muito frequente a coincidência entre os líderes e as autoridades políticas, científicas, artísticas ou econômicas, na folkcomnunicação há maior elasticidade em sua identificação: os líderes agentes-comunicadores de folk, aparentemente, nem sempre são "autoridades" reconhecidas, mas possuem uma espécie de carisma, atraindo ouvintes, leitores, admiradores e seguidores, e, em geral, alcançando a posição de conselheiros ou orientadores da audiência sem uma consciência integral do papel que desempenham.(Revista comunicação & Sociedade,tarsitano,p.167- 176)

- Bibliografia Comentada

Os senhores do mundo - romance. Recife: Folha da manhã.1950. 175 p. Como afirma o próprio autor, é "o romance dos que nada possuem mas sempre tem para dar"; da gente pobre do Recife, ambientado entre a Praça do Mercado de São José e os mocambos então existentes na área de mangue do Cabanga.

Anais de jornalismo (ensaio). Recife, 1951.

Itinerário da China [ um repórter visita o milenar e novo país do Extremo Oriente. Recife. 1959. 127 p. il. O livro reúne reportagens e comentários publicados no Diário da Noite, Folha do Povo, Jornal do Comércio e Revista do Nordeste, do Recife, no período set-dez de 19588, relativos à viagem do autor à China, incluindo notas sobre sua permanência em Bucareste, Praga e Moscou. As ilustrações são reproduções das découpures de papier, composições de arte popular em recorte de papel , típicas da China. O autor manifesta o seu entusiasmo pelas medidas adotadas nas reformas econômicas e sociais implantadas na China em decorrência do Regime comunista, que ele pôde observar como repórter na sua visita de quase um mês. Trata-se da única coletânia em livro da produção jornalística de Luiz Beltrão.

Iniciação à filosofia do jornalismo. 1a. ed. Prefácio de Waldemar Lopes. Rio de Janeiro: Agir, 1960.229 p. A primeira parte apresenta as manifestações do jornalismo a partir de uma abordagem histórica. Jornalismo escrito, rádio e jornalismo oral, o desenho e o jornalismo por imagem. A segunda parte é dedicada aos caracteres do jornalismo (público, editor, técnico, jornalista). A quarta parte aborda os problemas da liberdade e da responsabilidade. A obra é resultado de observações em viagens ao exterior como líder de classe, aproveitamento e ampliação das teses de congresso que vinha desenvolvendo a nível nacional e internacional e na rica bibliografia levantada (então, praticamente desconhecida no Brasil). Mereceu o Prêmio Orlando Dantas - 1959 e a 2a. edição é o resultado do seu conhecimento como uma das obras consideradas "clássico do jornalismo".

Reestruturação de emergência para os cursos de Jornalismo. Indicador dos profissionais de imprensa. a. V. n. 9. Rio de Janeiro:1960. p. 15-51. Comunicação apresentada à IX Conferência Nacional de Jornalismo, realizada em Manaus, em jul./1960. Faz crítica ao currículo e à estrutura vigente nos cursos de jornalismo.

Quilômetro zero - contos. Recife: Imprensa Oficial, 1961. Narrativas ficcionais enfocando a vida da população pobre que habitava a praia do Chupa (hoje, proximidades do Cabanga Iate clube) e circulava nas cercanias do mercado de São José. Recebeu o prêmio da Secretaria de Educação e Cultura, de 1958.

Métodos de ensenanza de la tecnica del periodismo. Quito (Ecuador): CIESPAL. 1963 169 p. Reúne as conferências preferidas pelo autor no IV Curso Internacional do CIESPAL, 1963. Apresenta e busca teorizar a sua experiência como professor de Técnica de Jornal, na Universidade Católica de Pernambuco. A obra não tem edição brasileira.

Técnica de jornal - I parte - Teoria do Jornalismo. O jornal e sua indústria. Recife: ICINFORM, 1964.30 p. Apostila destinada aos alunos do curso de Jornalismo, da Universidade Católica de Pernambuco.

Discurso de abertura do I Curso Nacional de Ciências da Informação. Recife: ICINFORM//UCP. 1965 .17 p.

Aspectos básicosda problemática do jornal interioriano no Nordeste. Revista Comunicações & problemas. v.II, n. 1, mar. 1966, p. 5-22. Texto de conferência proferida em Caruaru-PE, em 1962, durante o I seminário de Jornalistas do interior.

Periodismo en el Paraguay. Revista Comunicações & problemas. v. II, n.3, nov.1966,p. 192-201 [ organizador ]. O artigo reúne contribuições de alunos paraguaios do curso ministrado por Luiz Beltrão, na Universidade de Assunción, sobre a origem e desenvolvimento da comunicação social naquele país.

Folkcomunicação - um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias. Tese de doutoramento. Brasília: Universidade de Brasília. 1967.184 p. Tese apresentada em concurso ao doutoramento.

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Jornalista Luiz Beltrão, pioneiro em várias áreas

Jorge Duarte
Mestre e doutorando em Comunicação Social 
pela Umesp, Técnico em Comunicação Social 
da Embrapa, Professor do UniCEUB
.

O pernambucano Luiz Beltrão é referência brasileira em jornalismo e comunicação. Trabalhou em redações, no ensino, na pesquisa, na divulgação, em relações públicas. Criou a primeira revista e o primeiro centro de pesquisa acadêmicos em Comunicação no País. Escreveu ensaios e manuais, romances, contos, livros de memórias, fundou cursos e deixou discípulos. Mesmo autodidata e perseguido durante o regime militar, tornou-se o primeiro Doutor em Comunicação no Brasil com tese em que forjou o termo Folkcomunicação, ainda hoje um dos principais temas da pesquisa acadêmica no País. Publicou 20 livros. Em várias áreas, foi pioneiro. Seu principal objetivo era entender o processo de comunicação e torná-lo instrumento de compreensão da realidade e de desenvolvimento.

Luiz Beltrão de Andrade Lima nasceu em 1918, na Olinda, e em 1936, ainda no Ginásio, ingressou no Diário de Pernambuco como revisor, chegando rapidamente a repórter. Na época, jornalismo era atividade diletante de muitos, às vezes ajudava a ser conhecido na sociedade mas não garantia o sustento de nenhuma família. Era "um gancho", no dizer de Beltrão e por isso tornou-se também funcionário público enquanto não concluía o curso de Direito.

Durante o período em que trabalhou no Diário de Pernambuco, descobriu, por meio de um livro francês, que era possível estudar para aprender a atuar em uma redação e dedicou o resto da vida a compreender e ensinar o jornalismo. Tornou-se jornalista profissional em 1940 e dois anos transfere-se para o concorrente Folha da Manhã onde iniciaria uma regular contribuição literária e chegaria a redator-secretário. Também atuou em rádio, revistas, agências e assessoria de imprensa, acumulando experiência que incluiu passagem no DIP, presidência da Associação de Imprensa de Pernambuco e criação do Sindicato dos Jornalistas Profissionais.

Luiz Beltrão se considerava um "abridor de picadas". Fez incursões em várias áreas do jornalismo e da comunicação, criando cursos, escrevendo um consistente conjunto de obras, incentivando alunos, pesquisadores e professores, formulando teorias, aventurando, expondo-se. Muito do que produziu foi questionado, embora seja injusto analisar sua obra fora do contexto da época em que foi gerada. Seu grande desafio pessoal era a incomunicação, que notava, particularmente, entre pessoas dos centros ditos desenvolvidos e o homem excluído, marginalizado. Para vencê-la, buscava a ajuda de todos. É improvável que um estudante de jornalismo brasileiro do século XX não tenha consultado uma obra sua. Suas idéias e ações ajudaram a formar mais de uma geração de profissionais em todo Brasil. Hoje existe uma produção acadêmica consistente em folkcomunicação, tema freqüente em trabalhos acadêmicos e congressos nacionais e internacionais. Luiz Beltrão é assunto de tese de doutorado, verbete de Dicionário de Comunicação, empresta seu nome para ruas, biblioteca e para o Prêmio da Intercom (foi sócio-fundador) que destaca personalidades e instituições pela contribuição no campo da comunicação.

- Professor, formou gerações de jornalistas e pesquisadores

Beltrão gostava mesmo era de discutir jornalismo e logo que pode abandonou a redação para dedicar-se ao ensino. Seus alunos da Paraíba formaram a primeira turma a concluir um curso superior de Jornalismo no Nordeste. Graças à campanha feroz por ele liderada, Pernambuco ganhou um curso superior em Jornalismo, mesmo contra os jornalistas da época. Com duração de três anos, deveria formar profissionais, promover pesquisas e renovar os processos jornalísticos, embora não houvesse espaço físico, experiência, corpo docente, literatura. Entrevistava e convencia os candidatos a alunos, alguns, colegas profissionais. Um deles foi José Marques de Melo, então repórter recém-chegado de Alagoas. Tornou-se um fomentador de vocações, não apenas para jovens recifenses. Por iniciava de Beltrão, foram oferecidos cursos de verão e bolsas de estudos obtidas com o patrocínio de grandes empresas para estudantes até de outros Estados.

Estabilizado o curso de Jornalismo e entusiasmado com as possibilidades no campo da comunicação, criou, quando da formatura da primeira turma, em dezembro de 1963, o Icinform (Instituto de Ciências da Informação), entidade que atuaria com treinamento de pessoal, pesquisa, e divulgação de pesquisas no âmbito universitário. Ali promoveu cursos, pesquisas, excursão, visitas. Motivou alunos como José Marques de Melo, Roberto Benjamin, Tereza Lúcia Halliday, Gaudêncio Torquato e Zita de Andrade Lima a executar investigações com as possibilidades metodológicas da época e teorizar sobre o campo da comunicação. O Icinform daria origem à primeira revista acadêmica brasileira no campo da comunicação: a Comunicações & Problemas. No primeiro número, um artigo do próprio Beltrão seria o germe de sua principal contribuição na comunicação brasileira. Com o título de O Ex-voto como veículo jornalístico, apresentava a noção de folclore e suas práticas como "canal de comunicação coletiva", tanto de informação como de opinião, uma nascente que desaguaria na tese de doutorado. No segundo número da revista, carta de entusiasmo e incentivo a respeito do texto, enviada por Luís da Câmara Cascudo.

Em Pernambuco, já havia esgotado seu potencial e por isso aceitou convite de um amigo para assumir o curso de jornalismo da Universidade de Brasília, em crise naquele momento, efeito direto do golpe de 64. O próprio Pompeu de Sousa, criador do projeto inovador e diretor da faculdade, era o primeiro na lista de 15 professores, de vários cursos, a serem afastados pelo regime militar. Como forma de pressão, 233 professores encaminharam pedido de demissão. O governo, surpreendentemente, aceitou, gerando caos no meio acadêmico, com desarticulação administrativa e pedagógica de praticamente todos os cursos. Beltrão aceitou o papel de administrar o descalabro no curso de Comunicação, tentar se manter acima das disputas políticas e iniciar seus próprios planos de faculdade, realizando do projeto inicial o que fosse possível nas condições impostas pelo regime militar.

O novo coordenador ficou três semestres organizando a Faculdade de Comunicação, mas não conseguiu contornar o clima de disputa interna, conflito com professores e alunos e estremecimento nas relações com o reitor da UnB, o que se juntou à acusação de comunista junto ao Serviço Nacional de Informações. Oficialmente, a justificativa da saída foi incompatibilidade com os demais professores. Para José Marques de Melo, "ele enfrentou uma direita mau-caráter e uma esquerda pouco tolerante e foi triturado, mas o próprio Pompeu de Sousa reconheceu seu mérito, anos mais tarde". Mesmo em permanente crise, implantou um centro de pesquisa, editou jornal laboratório e livros, promoveu eventos e mobilizou alunos para tarefas de campo, implantou a primeira faculdade de comunicação coletiva do Brasil.

Apesar dos convites para fixar residência em outras regiões, Beltrão havia apaixonado-se por Brasília. Após deixar a UnB, tornou-se professor-fundador do curso de Comunicação do Centro Universitário de Brasília (atual UniCEUB), onde ficou por 15 anos, viajando com freqüência para ministrar cursos, palestras e participar de eventos. Seus ex-alunos o consideram um tipo de professor inesquecível. Incentivava a pesquisa, mobilizava a turma para realizar trabalhos, muitos deles apresentados no auditório lotado. Usava várias apostilas, mas gostava mesmo era de provocar debates. E as conversas geralmente transformavam-se em discussão. Enviou os alunos para diversos lugares de Brasília para recolher inscrições nas portas de banheiros públicos (rodoviárias e faculdades, principalmente) e avaliá-los como mensagens dos grupos "erótico-pornográficos", material que, sob espanto de muitos, publicou, inclusive com ilustrações, no livro Folkcomunicação. Os trabalhos da disciplina realizados pelos alunos deveriam gerar publicações e muitos ainda estão à disposição na biblioteca. Uma de suas apostas foi um curso de especialização que reuniu professores como Michel Thiollent, Adísia Sá, Juan Diaz Bordenave, Roberto Benjamin, José Marques de Melo, Anamaria Fadul. Também investiu na pesquisa em turismo e propôs um evento "religioso e profano" reunindo atividades de cunho artístico, religioso e folclórico para representar a Paixão de Cristo, utilizando o ambiente mais famoso da capital, a Esplanada dos Ministérios, como cenário integrado à apresentação. Chamado de Drama da Paixão Ano 2000, seria um musical tipicamente brasileiro incluindo dança e teatro.

- Defensor da formação acadêmica em Jornalismo

Desde a década de 1950 Luiz Beltrão defendia a formação acadêmica para o jornalista. Mesmo contra a grande maioria de seus colegas de profissão, acreditava que deveria haver formação de nível superior, mesmo que não fosse exatamente em jornalismo. Para a época, em que a profissão era um "bico", a proposta era inovadora demais. Por isso a polêmica inesperada, em 1953. O local, Curitiba, 5º Congresso Nacional de Jornalistas,. Ele apresentou a tese Liberdade de imprensa e formação profissional, defendendo a exigência de curso superior, qualquer curso, para jornalistas, como condição básica para a existência liberdade de imprensa e para permitir o desenvolvimento da profissão. Achava que a proposta passaria desapercebida, "mas o tema seria tão explosivo quanto o biquíni, que acabava de ser lançado nas praias brasileiras". Uns o chamavam de traidor da classe, outros "queriam erguer uma estátua". Também surgia o embrião do professor e pesquisador: "o indivíduo deve ter curso superior, porque na universidade é onde se pesquisa, é onde se faz experiência". Naquele momento, a televisão brasileira mal havia surgido, o lead era uma técnica recém importada e ainda incompreendida; os cursos de jornalismo, raros, recentes, precários. Bibibliografia? Quase inexistente. E a partir deste congresso, Beltrão passaria a sistematizar suas idéias que iriam se formalizar em Iniciação à filosofia do jornalismo, publicado em 1960 e clássico imediato, com tiragem de 5.000 exemplares e repercussão até no exterior. Com o livro, Beltrão abriu caminho para uma literatura jornalística especializada, didática, que adotava como referência os principais conceitos da bibliografia internacional, adaptados à realidade nacional. Numa época em que o jornalismo como profissão era desacreditado, preocupava-se em sistematizar informações e disseminá-las de maneira a tornar a informação dos meios de comunicação de massa mais próxima da sociedade. Iniciação foi reeditado em 1992, como clássico do jornalismo brasileiro, ao lado de títulos de Barbosa Lima Sobrinho, Rui Barbosa, Alceu Amoroso Lima, Carlos Lacerda e Danton Jobim.

- "Inventor" da Folkcomunicação

Para muitos, no Brasil e no exterior, Beltrão lembra folkcomunicação. Apesar da simplificação, faz sentido. Beltrão inventou o termo, definiu-o e deixou formada uma até hoje prolífica linha de pesquisa. A tese sobre folkcomunicação, defendida em 1967, o tornou o primeiro doutor em Comunicação no Brasil, mesmo que a UnB levasse 14 anos para emitir o reconhecimento do título. Ninguém havia defendido doutorado na área, ainda desprezada por muitos do meio acadêmico, mas a partir deste texto Beltrão ganharia reconhecimento internacional como pesquisador.

Na tese, debruça-se nas teorias sobre comunicação da época, seu próprio conceito de jornalismo, a comunicação no Brasil desde antes de Cabral, as tradições populares, os ritos, os processos de relacionamento nas comunidades, o fazer, o interpretar o mundo, o anunciar, as formas cênicas, a expressão da vivência e da informação, a estética como comunicação, artes visuais, os espetáculos, as manifestações pictóricas. Beltrão analisa folclore, vida comunitária no Brasil e comunicação e formula uma teoria tão simples quanto surpreendente. Um dos grandes méritos foi mudar a maneira de se interpretar a comunicação popular. Em vez de analisá-la a partir da confrontação dos meios massivos ou do referencial do observador, é percebida como manifestação própria dentro de um determinado grupo cultural. Tem como pressuposto que os veículos de comunicação de massa sequer não influenciam muitas comunidades como não as alcançam. Estes grupos têm suas próprias formas de comunicação em processos e produtos culturais percebidos de fora apenas como manifestações tradicionais, conservadas por gerações, muitas vezes com algumas modificações. E identifica nos meios informais - símbolos, ritos, manifestações populares, na linguagem, nas imagens - mecanismos tão rotineiros para obtenção de informação e transmissão de opinião como o de um cidadão de uma capital ler seu jornal favorito. Assim, o cordel, o artesanato, deixam de ser apenas produtos artísticos para transformarem-se em veículos de comunicação, de transmissão de informações intragrupal e interpessoal. Seu conceito de folkcomunicação torna-se seminal em toda literatura nacional sobre temas relacionados à comunicação popular: "é o processo de intercâmbio de informação e manifestação de opiniões, idéias e atitudes da massa, através de agentes e meios ligados direta ou indiretamente ao folclore".

A noção deste tipo de comunicação leva, ainda, à descoberta, no cantador popular, no artista, não apenas de um produtor cultural, mas informante referencial, que se caracteriza inclusive como realizador da ação jornalística. Vê na presença de personagens como o poeta popular, o motorista de caminhão, o ceramista, em almanaques, aspectos relacionados à comunicação de massa, limitada no contexto da região ou de sua caminhada, mas ainda assim, comunicação informativa ou opinativa. O artesão, por exemplo, seria uma espécie de folkjornalista, ao selecionar informações do ambiente em que vive e retransmitir aquilo que faz sentido para seu público, mantendo uma unidade no grupo. Exemplo: Mestre Vitalino, ao modelar um bêbado apanhando de porrete da polícia, estaria relatando um fato e fazendo uma denúncia. São informações típicas da comunidade, ainda não contaminados pela influência dos meios de comunicação.

Beltrão via na folkcomunicação um potencial estratégico para o diálogo com as classes marginalizadas e não apenas como "objeto de curiosidade, de análise mais ou menos romântica e literária". A tese foi defendida na UnB durante um período em que Beltrão não era bem visto e, apesar da aprovação de dois integrantes da banca, que recomendam "distinção e louvor", somente receberia o título em 1981, após processo administrativo em que o requeria, sob o burocrático argumento de sua necessidade para poder coordenar o curso de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação no UniCEUB que estava organizando. No Catálogo de Dissertações e Teses da UnB, o título de Beltrão é registrado como obtido em 1967, o que também oficialmente o torna o primeiro doutor em Comunicação do Brasil.

Apesar da limitada divulgação inicial da tese, cópias circularam por todo País e o estudo da folkcomunicação começa a ser incluído nos currículos de Comunicação como tema ou disciplina. O trabalho de Beltrão chegou ao exterior e seu objeto de estudo foi apropriado por organizações de todo tipo que lidam com camadas populares. O livro com o texto da tese foi censurado na edição e publicado apenas parcialmente quatro anos depois, sob o título Comunicação e folclore. Beltrão fez grande esforço para aprofundar o tema e, em 1980, publica Folkcomunicação: a comunicação dos marginalizados, em que discute a separação e até confronto entre dois sistemas de comunicação: o da elite, aquele do qual fazemos parte, os com acesso ao livro, aos meios de comunicação, à informação; e, o outro, dos abandonados, os sem-livros, sem vez, sem voz, os excluídos.

- Inovador também em relações públicas

Na área de relações públicas, trabalhou na Funai a partir de 1969 elaborando um sistema de informação e orientação que talvez tenha sido o mais completo e sistemático dirigido para um único tema já realizado no Brasil, um bom exemplo das possibilidades do uso do chamado clipping. Foi um minucioso e amplo trabalho de leitura da imprensa brasileira para apoiar a formulação de políticas públicas na área indígena, não apenas no relacionamento com a imprensa e a sociedade, mas também com os próprios índios. Identificava diariamente nos principais jornais brasileiros todas as matérias sobre índios e a cada três meses elaborava um detalhado relatório para a direção da Funai.

Lúcia Passos, que trabalhou na Funai no período, explica que "o mérito maior era apontar à Presidência da Funai e ao Ministério as probabilidades de conflito, o que daria certo ou não. Ele analisava, projetava situações e indicava onde iria estourar um problema. Naquela época, o relações públicas era apenas um atendente de luxo nos órgãos públicos, que fazia festas. O conceito de Beltrão era diferente". Beltrão sempre enfatizou a necessidade de pesquisa para a atuação do relações públicas, de avaliação, caso contrário seria "desperdiçar trabalho, mutilar um processo e malbaratar o dinheiro...". O trabalho renderia o livro O índio, um mito brasileiro, talvez a mais interessante análise morfológica e de conteúdo publicada na língua portuguesa. Nele, apresenta estudo detalhado realizado durante 25 meses sobre o índio na imprensa brasileira. Na época, segundo o próprio Beltrão, talvez apenas o futebol fosse assunto mais freqüente nas páginas dos diários. O total dos textos analisados foi equivalente a 603 páginas de jornal Standard. Uma das conclusões é "o despertar da consciência do aborígine de seus direitos naturais, reconhecidos – embora nem sempre respeitados – pela civilização branca".

- Produção literária em várias áreas

Paralelo a seu trabalho na Funai e à docência no UniCEUB, a carreira de Beltrão segue em várias frentes. Entre 1968 e 1980 publicaria dez livros. Foi co-presidente da Federação Católica Latino-Americana de Escolas de Jornalismo, em 1967, e presidente da Union Latinoamericana de Prensa Católica, em 1969. Passa a ministrar cursos para órgãos públicos, estudantes, professores em todo Brasil; elabora currículos de cursos superiores de jornalismo e relações públicas. Prepara cursos e textos (nunca publicados) sobre abordagens teológicas da comunicação para a Igreja Católica. Também realiza pesquisa em escolas de jornalismo da América Latina e publica artigos em diversas revistas científicas.

Beltrão deixou uma vasta produção acadêmica e literária. Organizou currículos de diversas faculdades por todo Brasil, ministrou cursos em várias áreas: jornalismo, relações públicas, opinião pública, ensino de comunicação; elaborou apostilas e escreveu 20 livros. Conheceu todo Brasil, Europa e América Latina ensinando, aprendendo e discutindo jornalismo. Chegou a entrar na Cortina de Ferro sem visto, mas nunca teve problemas, devido à intermediação de colegas. Viajou à China e na volta publicou textos em jornais que viraram livro sobre o país. Ao longo da vida também publicou ficção, uma atividade que praticava por diletantismo, embora nunca tenha pago para imprimir um livro, o que era comum. O primeiro, Os Senhores do mundo, de 1950, venceu o prêmio principal da Academia Pernambucana de Letras, o Oton Bezerra de Melo. Como repórter "convivia muito com o povo das chamadas classes subalternas" e o romance tratava daquelas pessoas, próximas a ele. Em 1960, como resultado de suas reflexões sobre o jornalismo, publicou Iniciação à filosofia do jornalismo, início de uma série de vários livros de sua autoria que passaram a ser imediatamente adotado nos cursos superiores.

Em 1963, já reconhecido por sua capacidade, suas conferências na disciplina Métodos en la enseñanza de la tecnica del periodismo, no Ciespal, onde sucedeu Danton Jobim, transformaram-se num conjunto de apostilas que, infelizmente, não tiveram edição em português. Nele, propõe-se a mostrar como e o que ensinar em jornalismo, sugere currículo, métodos de ensino e teoriza sobre jornalismo, material que aproveitaria parcialmente em A Imprensa informativa: técnica da notícia e da reportagem no jornal diário, de 1969, considerado pelo editor o primeiro livro didático de técnica de jornal do Brasil: É um manual que trata desde a questão do ensino de jornalismo até a técnica de produção da notícia, da fotografia, com ênfase nos tipos de reportagem. Durante a década de 1960, os livros de jornalismo, exceção dos trabalhos históricos de Carlos Rizzini, Luis do Nascimento e Nelson Werneck Sodré, em geral, ressentiam-se de dois problemas básicos: eram traduzidos ou escritos a partir de experiências pessoais, do tipo memórias ou depoimentos, com sabor pitoresco ou saudosista, como explica José Marques de Melo. Inclusive por isso o torna-se essencial no ensino da técnica de produção jornalística durante toda década de 1970. E seria a base de uma trilogia na área, integrada posteriormente por Jornalismo interpretativo e Jornalismo opinativo. Estes dois, editados no Rio Grande do Sul, foram produzidos a partir de cursos que costumava ministrar.

A partir da experiência como professor de Teorias da comunicação, Luiz Beltrão passou a produzir livros-texto também para a área. O primeiro surge em 1973, Fundamentos científicos da comunicação, mesmo nome da disciplina que ministrava. Depois lança Teoria geral da comunicação que trata da comunicação entre os seres vivos, inclusive animais, plantas, expõe uma tipologia, discute as linguagens e o processo de comunicação e teoriza sobre uma eventual comunicação com extraterrestres, que chama exobiocomunicação. O ciclo se encerra com sua obra mais importante na área e ainda hoje adotada em faculdades: Subsídios para uma teoria da comunicação de massas, de 1986. A autoria é dividida com Newton Quirino, ex-aluno, colega no Centro Universitário de Brasília e seu sucessor na disciplina Teoria da comunicação. Assim como a maior parte de seus livros, tinha objetivo de apresentar reflexões e servir de material didático para o ensino e a pesquisa em jornalismo e em comunicação.

Na década de 1980, teve fôlego para revisitar sua terra natal, e dedicar-lhe dois livros: Contos de Olanda, ambientados em Olinda, que transita entre a ficção e as memórias e Memória de Olinda, belo livro de reminiscências. Ficou paralítico das pernas devido a um acidente vascular cerebral ocorrido no palco, em 1985, quando dramatizava um conto para cerca de 40 pessoas na pequena sede da Associação Nacional de Escritores, em Brasília, da qual era diretor. Mesmo em cadeira de rodas e contra expressas ordens médicas, lançou Subsídios para uma teoria da comunicação de massa, com grande festa no auditório do Centro Universitário de Brasília. Em 24 de outubro de 1986, aos 68 anos, morre no Hospital das Forças Armadas, deixando um imenso legado.

Para saber mais sobre Luiz Beltrão:

BENJAMIN, Roberto Ernesto Câmara (org). Itinerário de Luiz Beltrão. Recife: Associação da Imprensa de Pernambuco/Fundação Antonio dos Santos Abranches-Fasa, (Perfis Pernambucanos; 9) 1998. 311 p.

FELICIANO, Fátima Aparecida. Luiz Beltrão, um senhor do mundo. São Paulo: ECA/USP, 1993. (Tese de Doutoramento)

MARQUES DE MELO, José. Trajetória pedagógica de Luiz Beltrão. In: Revista Brasileira de Comunicação. v. 53. São Paulo: Intercom. 1985. p. 65-70,

MARQUES DE MELO, José & DUARTE, Jorge (orgs). Memória da Comunicação no Brasil: os grupos do Centro-Oeste. Brasília: UniCEUB/Unesco/Rideel, 2001.

MARQUES DE MELO, José & GOBBI, Maria Cristina (orgs.). Gênese do Pensamento Comunicacional Latino-americano: o protagonismo das instituições pioneiras Ciespal, Icinform, Ininco. São Bernardo do Campo, Umesp, Unesco. 1999.

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Luiz Beltrão - Um novo rumo para o jornalismo

Neanis Lutzer

Texto extraído do site http://www.canaldaimprensa.com.br/perfil/vint4/identidade1.htm

Podemos considerar Luiz Beltrão como o tipo de pessoa que pronuncia a frase "Faça o que eu digo, mas não o que fiz" no início de sua carreira jornalística. Este, que é considerado o primeiro teórico de Comunicação Social no Brasil, deu seus primeiros passos no jornalismo bem longe das universidades. Foi na prática que ele percebeu a importância da teoria na formação do jornalista.

Luiz Beltrão de Andrade Lima nasceu em 8 de agosto de 1918, em Olinda, Pernambuco. Concluiu o curso de Direito, mas a vida lhe proporcionou outros rumos.

Em 15 de dezembro de 1936, ele começou a trabalhar no Diário de Pernambuco como "gancho" (assim o chamavam). A princípio, entrou como revisor, mas em dois dias foi promovido para arquivista de clichê. Mais tarde, tornou-se tradutor de telegrama e, em seguida, repórter.

Por 25 anos, Beltrão permaneceu em Pernambuco, também atuando no Diário da Manhã. Neste impresso atuou como redator-chefe e correspondente de agências jornalísticas nacionais e internacionais em Recife.

Foi neste ambiente, entre o lapidar da máquina de escrever e o cheiro da tinta de jornal, que Beltrão sentiu a necessidade de um estudo e ensino do jornalismo. Essa percepção ocorreu quando o diretor do Diário de Pernambuco, Aníbal Fernandes, lhe trouxe um livro francês chamado Como Fazer um Jornal. Assim, se deu conta de que para aprender o jornalismo, ele teria que fazer seu próprio jornal e que era preciso estudar para exercer a profissão.

Na prática, Beltrão descobriu que os veículos de comunicação apresentavam certas carências porque trabalhavam com pessoas não qualificadas para este exercício. Com a formação superior, essas necessidades seriam supridas. Diz ele que o "indivíduo deve ter curso superior, porque a universidade é onde se pesquisa, é onde se faz experiência".

- Em busca do diploma

Beltrão mobilizou-se então a fazer uma campanha para a criação do curso superior de Jornalismo em Pernambuco. Conseguiu. Primeiro lançou o livro Iniciação ao Jornalismo, em 1959, no qual aplaudia o conhecimento do jornalismo em profundidade. Em 1961, instituiu o primeiro vestibular para o curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).

Entretanto, houve uma certa repulsa quanto à criação do curso pela grande imprensa. Renomados jornalistas da época se pronunciaram contra, dizendo que jornalismo era vocação. Havia também muita dificuldade em relação aos recursos disponíveis para a formação do universitário. Assim, Beltrão viu a necessidade de construir canais próprios, como a produção de um jornal experimental diário feito por alunos, aliando prática e teoria.

O jornalista escreve mais dois livros. Em 1964, trouxe para as livrarias o Jornalismo Opinativo e Jornalismo Interpretativo. Neste último, Beltrão enfoca a prática de associar o ensino à pesquisa, com técnicas de jornalismo comparado, moda à época.

- Ciência do jornalismo

Mas a história de Beltrão não termina neste ponto. Para estabelecer uma aproximação com os órgãos da grande imprensa local, que ainda resistia quanto à formação universitária do jornalista, Beltrão criou o Instituto de Ciências da Informação (Icinform), em 13 de dezembro de 1963. Este seria o primeiro centro acadêmico de estudo de mídia no Brasil.

No ano seguinte, entre 16 de janeiro e 4 de março, ainda na Unicap, Beltrão promoveu o I Curso de Ciências da Informação. O evento proporcionou a profissionais e estudantes melhores conhecimentos relacionados à importância dos veículos jornalísticos no Brasil.

Para que as notícias sobre o Icinform fossem divulgadas, surge a revista Comunicações & Problemas, a primeira revista acadêmica de comunicação editada no Brasil, iniciada em março de 1965. Ela foi um espaço de intercâmbio e registro de produções acadêmicas e jornalísticas, o que na verdade se tornou uma estratégia entre o meio acadêmico e a comunidade local.

Mas o trabalho de Luiz Beltrão não restringiria a Unicap. Em 1965, ele foi transferido para a Universidade de Brasília (UnB), a fim de reorganizar a faculdade de Comunicação. Com sua ausência, a Comunicações & Problemas parou de circular em 1969, em sua 12.ª edição.

Em Brasília, Beltrão viu a oportunidade para ampliar as bases de seu trabalho. Permaneceu como diretor da faculdade de Comunicação da UnB por cerca de 18 meses. Em 26 de junho de 1967, tornou-se o primeiro doutor em Comunicação Social no Brasil ao defender sua tese na área do folclore "Folkcomunicação", um estudo de fatos e expressão de idéias.

O teórico ainda trabalharia como docente e pesquisador do Centro de Estudos Universitários de Brasília (Ceub) e publicaria outros livros na área de teoria da comunicação. Nem por isso deixou de lado o romantismo do jornalismo, publicando contos e romances. Faleceu em 24 de outubro de 1986, em Brasília.

Luiz Beltrão foi em suma, um romancista, contista, jornalista, advogado, professor e folclorista. Eclético, por assim dizer. Sua importância foi essencial para conscientizar estudantes e profissionais sobre sua qualificação no mercado de trabalho. Pode não ter entrado no ramo jornalístico com um diploma, mas, sabiamente, exigiu o uso dele.

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