Editores Responsáveis: Resgatando
a Memória da Imprensa e Construindo a História da Mídia no Brasil LINKS www.jornalismo.ufsc.br/redealcar
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Encontro Nacional
A
imprensa dos anos dourados
JORNAL DA REDE ALCAR
Encontro Nacional
O Centro Universitário FEEVALE
prepara-se para acolher nos dias 14-16 de abril de 2005 o III Encontro Nacional
de História da Mídia promovido pela Rede Alfredo de Carvalho, bem como o I Fórum
Nacional dos Professores de Relações Públicas. Os eventos serão realizados
no campus da FEEVALE, na cidade de Novo Hamburgo, situada na região gaúcha do
Vale dos Sinos. Uma simpática e eficiente equipe
liderada pelas professoras Paula Casari Cundari e Paula Puhl está mobilizando a
comunidade local para receber o contingente dos pesquisadores nucleados em torno
dos GTs mantidos pela Rede Alfredo de Carvalho para o Resgate da Memória da
Imprensa e a Construção da História da Mídia no Brasil. O evento será aberto em grande
estilo, tendo como conferencista convidado o Prof. Dr. Juan Gargurevich,
Coordenador do GT de História da Comunicação da ALAIC e docente da Pontifícia
Universidade Católica do Peru. As normas de apresentação dos
trabalhos, valores das inscrições e categorias dos participantes podem ser
conferidos no site www.feevale.br/redealcar,
onde se encontra também o formulário de inscrição que deve ser preenchido
por cada participante. A Rede A Rede Alfredo de Carvalho está
constituída atualmente por 12 Núcleos Regionais e 10 Grupos de Estudos: 1) Alagoas – coordenado pela Profa. Rossana Gaia (CEFET-AL) 2)
Bahia – coordenado pelo Prof. Dr. Luiz Guilherme Pontes
Tavares (NEHIB) 3)
Ceará – coordenado pela ONG Catavento, sob a liderança do
jornalista Edgard Patrício 4)
Espírito Santo – coordenado pela Profa. Dra. Juçara
Brittes (UFES) 5)
Maranhão – coordenado pela Associação Maranhense de
Imprensa (AMI), sob a liderança da jornalista Edvania Kátia e Roseane Pinheiro 6)
Mato Grosso do Sul – coordenado inicialmente pelo Prof. Dr.
Gerson Martins; em fase de reestruturação 7)
Minas Gerais – coordenado pela Profa. Dra. Sandra Freitas
(PUC Minas) 8)
Pernambuco – coordenado pela Profa. Maria Luiza Nóbrega
(UFPE) 9)
Rio
de Janeiro – coordenado pela Dra. Esther
Bertoletti (IHGB) 10)
Rio Grande do Sul – coordenado pelo Museu da Comunicação
Social Hipólito José da Costa, sob a liderança de Antonio Henriques 11)
Santa Catarina – coordenado pelo Prof. Dr. Francisco Karam
(UFSC) 12)
São Paulo – coordenado pela Profa. Dra. Fátima Feliciano e integrado
por diversos Grupos Locais: ABCD (liderado por Valdenizio Peterolli), Campinas
(liderado por Graça Caldas), Marília (liderado por Ciça Guirado), Morumbi-SP
(liderado por Gisely Hime) GT2 – História da Propaganda – Coordenador: Prof. Dr.
Adolpho Queiroz (UMESP) GT3 – História das Relações Públicas - Coordenadora:
Profa. Dra. Claudia Moura (PUCRS) GT4 – História da Mídia Impressa – Prof. Dr. Luis
Guilherme Pontes Tavares (NEHIB) GT5 – Hisstória da Mídia Sonora – Profa. Dra. Ana Baum
(UFF) GT6 – História da Mídia Visual – Profa. Dra. Sonia
Luyten (Unisantos) GT7 – História da Mídia Audiovisual – Profa. Dra. Ruth Vianna (UFMS) GT8 – História da Mídia Digital – Prof. Dr. Walter Lima
(UniFIAM) GT9 – História da Mídia Alternativa – Profa. Karina
Woitowicz (UEPG) GT10 – História da Midiologia – Coordenador: Prof. Dr.
José Marques de Melo (USP/UMESP)
Grupos
de Trabalho
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| Autor(es) | Título do Trabalho |
| Laura Maria Glüer (Faculdade Metodista - IPA/RS) | De Chapa Branca à Ibterlocutora Qualificada: a trajetória da atividade de assesssoria de imprensa no Brasil e no RS |
| Márcia Yukiko Matsuuchi (Relações Públicas - Senado Federal/ DF) | Central de Atendimento 0800 do Senado Federa: uma história de conquistas para o cidadão |
| Ediene do Amaral Ferreira (UNIVAL/SC) João Carissimi (UNIVALI/SC) |
A Trajetória do Projeto Experimental Estágio do Curso Relações Públicas da Universidade do Vale do Itajaí/SC |
| Odilon Sergio Santos de Jesus (Relações Públicas- Universidade Estadual de Feira de Santana/BA) | Relações Públicas e Modernização: o curso especial da EBAP |
No
final da última apresentação ocorreu uma avaliação das atividades do GT
pelos participantes, que possibilitou o registro de algumas observações: houve
uma discussão mais aprofundada dos trabalhos apresentados, em função de
poucos papers serem expostos, e os participantes ficaram satisfeitos com a
iniciativa de haver um GT direcionado à área de Relações Públicas inserido
em um evento dirigido ao Jornalismo.
Como avaliação geral, na condição de coordenadora, gostaria de salientar os
seguintes aspectos positivos:
a) participação de pesquisadores
representando várias regiões brasileiras, estados e instituições de ensino,
b) presença do debate entre os
pesquisadores e interessados na área em cada uma das exposições,
c) apresentação de papers com
reflexões variadas sobre o foco do GT;
d) exposição de resultados
concretos de pesquisas na área,
Dois aspectos merecem mais atenção
para o próximo encontro, pois alguns pesquisadores com trabalhos selecionados não
participaram do GT, e alguns interessados no GT não relacionam a História da Mídia
com Relações Públicas. Porém, isso poderá ser corrigido no futuro.
Para o próximo encontro foram consideradas as propostas feitas pelos
participantes, que indicaram a escolha de um assunto específico vinculado à
história, a ser desenvolvido em trabalhos para 2005. Em relação aos assuntos
específicos, os trabalhos poderiam abordar: a questão do ensino (construção
dos cursos / experiências), a questão das entidades representativas (processos
institucionais / ABRPs / Sindicatos / CONRERPs), a questão dos organismos públicos
(políticas de comunicação / uso de instrumentos), a questão dos autores de
Relações Públicas (suas idéias / personalidades). Também foi sugerida a
organização do 1º Encontro de Professores de Relações Públicas, que será
realizado na seqüência do evento da Rede Alçar. Ocorrerá no dia 16 de abril
de 2005, após as exposições dos trabalhos e as discussões das temáticas
abordadas no GT, o Primeiro Fórum Nacional de Professores de Relações Públicas,
enfocando as diretrizes curriculares e suas conseqüências nos Cursos de
Comunicação Social. O nome da profa. Dra. Sidinéia Gomes Freitas (ECA/USP) já
está confirmado como palestrante do evento, que abordará "Os Reflexos das
Diretrizes Curriculares no Ensino de Relações Públicas". A promoção de
um debate a respeito desta questão é importante para o fortalecimento do
ensino e prática de Relações Públicas.
Para
a divulgação do próximo encontro, uma mensagem contendo material informativo
do GT e a normatização para a inscrição de trabalhos foi enviada por e-mail
aos endereços virtuais de interessados na área. O Conselho Regional de
Profissionais de Relações Públicas – seção Rio Grande do Sul/Santa
Catarina, disponibilizou em seu site (www.conrerprssc.org.br)
as informações relativas ao GT, apoiando a iniciativa.
Calendário
2005: eventos no campo dos estudos midiáticos
Março
16-19
– II Congresso Luso-Brasileiro de Estudos de Jornalismo. Tema central:
Jornalismo, Ciência e Saúde. Local: Universidade Fernando Pessoa – Porto,
Portugal
6 -
Início do II Seminário de Divulgação das Pesquisas do Grupo
Comunicacional de São Bernardo - Unescom 2005 (Abril/Novembro). Tema central;
Processos Comunicacionais: Ampliando as Fronteiras do Conhecimento. Local: Universidade
Metodista de São Paulo – Campus Rudge Ramos-
São Bernardo do Campo –- SP
16
– I Fórum Nacional dos
Professores de Relações Públicas. Local: Centro Universitário FEEVALE –
Novo Hasmburgo – RS
Maio
9-11
– IX Colóquio Internacional sobre a Escola Latino-Americana de Comunicação
- Celacom 2005 – Tema central: Educomídia, alavanca da cidadania. O legado utópico
de Mario Kaplun. Local: Universidade Metodista de São Paulo – Campus Rudge
Ramos- São Bernardo do Campo –-
SP
12-14
– III Seminário Internacional da Associação Latinoamericana de
Investigadores de la Comunicación – Tema central: Democratizar la comunicación:
¿una tarea pendiente?. Local: Universidade de São Paulo – SP
20-21
- III
Congreso Internacional Comunicación y Realidad. Local: Universidad
Ramon Llull, Barcelona, Espanha
26-30 – 54ª.
Conferência Anual da International Communication Association. Local:
New York, USA
Junho
1-4
– XIV Encontro Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação –
Compós 2005 – Local: Universidade Federal Fluminense – Niterói - RJ
9-12
– VIII Conferência Brasileira de Folkcomunicação – FOLKCOM 2005 – Tema
central: A comunicação dos pagadores de promessas. Local: Centro de Estudos
Universitários de Teresina – CEUT. Teresina – PI
Julho
10-15 –
III Mutirão Brasileiro de Comunicação promovido pela União Cristã
Brasileira de Comunicação Social. Tema central: Comunicação e
Responsabilidade Social. Local:
Guararapi - ES
12-16
–
III Congresso Panamericano de Comunicação – PANAM 2005. Tema Central: Intgración
comercial o diálogo cultural ante el desafío de la Sociedad de la Información.
Local: Universidade de Buenos Aires – Argentina
Agosto
10-12
– IX Colóquio Internacional de Comunicação para o Desenvolvimento Regional.
REGIOCOM 2005 – Local: Universidade de Chapecó – Chapecó – SC
Setembro
Outubro
6-8
– VIII Conferência Brasileira de Comunicação
e Saúde – COMSAÚDE 2005 – Local: Universidade do Vale dos Sinos - São
Leopoldo – RS
Novembro
III
Encontro Nacional da Sociedade Brasileira dos Pesquisadores em Jornalismo –
Local: Universidade Federal de Santa Catarina – Florianópolis – SC
Dezembro
12-13
- IV Colóquio Intercom de Ciências da Comunicação – Local: a definir
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Núcleo
Baiano
1.
Edição do livro Marco Zero da
Rede Alfredo de Carvalho na Bahia, distribuído durante o II Encontro da
Rede, em Florianópolis. A obra resgata os pronunciamentos que foram gravados na
reunião de instalação da Rede em Salvador em abril de 2001;
2.
Coordenação, no 2º Encontro Nacional da Rede Alfredo de Carvalho,
realizado em Florianópolis, do GT dedicado à história da mídia impressa;
3.
Elaboração do projeto da Coleção Cipriano Barata apresentado à
Assembléia Legislativa do Estado da Bahia. O projeto, respaldado pela Academia
de Letras da Bahia, tem caráter interinstitucional e visa a publicação de
livros sobre a história da imprensa na Bahia. São, de início, seis títulos: Apontamentos para a história da imprensa na Bahia; A
Tipografia de Camillo de Lellis Masson; As
Servinas. Catálogo das obras das tipografias da família Serva, 1811-1843;
a segunda edição dos Anais da Imprensa
da Bahia; Los primeros cien años de la empresa informativa en Bahia; e A gazeta da Bahia: Idade d’Ouro do Brazil.
4.
Eleição do Coordenador do NEHIB como suplente da diretoria da Associação
Baiana de Imprensa – ABI – teve o propósito de estreitar as relações com
a entidade, de modo que ela empreste seu apoio ao Nehib/Rede Alfredo de Carvalho
nas ações que desenvolve em favor das comemorações do bicentenário da
imprensa no Brasil e na Bahia.
5. Contatos em Portugal e Espanha com instituições a fim de divulgar as ações da Rede Alfredo de Carvalho. Disso resultou a manifesta disposição do diretor do Centro de Estudos da História do Livro e da Edição – Cehle –, professor Manoel Cadafaz de Matos, de dedicar em 2008 os dois números da Revista Portuguesa de História do Livro ao bicentenário da imprensa no Brasil. A Rede Alfredo de Carvalho poderá apontar os colaborares.
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Luis Nassif / Fonte: Folha de S. Paulo, 21/11/2004
Nos anos 40 e 50 o país ainda era
uma grande cidade, onde quase toda a elite se conhecia. Na nação que se
formava não havia centro mais internacional, agitado e moderno que o Rio de
Janeiro.
Naquele início dos anos 50, dentre os jornais, o mais influente era o
"Correio da Manhã", de Paulo Bittencourt. Aristocrático, tinha
grande influência na política externa, fazendo e desfazendo embaixadores.
O "Diário de Notícias" era o que melhor representava a nova classe média.
O "Jornal do Commércio" era dirigido por dois jornalistas de peso: Félix
Pacheco, que foi Ministro das Relações Exteriores, e Elmano Cardim, da
Academia Brasileira de Letras.
O "Diário Carioca", de Horácio Carvalho e José Eduardo Macedo
Soares, ainda tinha grande influência política. A influência de "O
Globo" e do "Jornal do Brasil" ainda era relativa. Dirigido por
pessoas iminentes, o "JB" ainda era basicamente um jornal de
classificados. "O Globo", um vespertino que disputava o mercado com
"A Noite".
A vida social mais refinada da cidade tinha por cenário as embaixadas. A da
Inglaterra ainda gozava de grande prestígio, com o embaixador Claud Russel, de
uma família mais antiga que a própria família real inglesa. Na da França já
haviam brilhado Vladimir Domerson e o ministro Paul Claudel.
O grande guru da juventude dourada que começava a se preparar para o poder era
o deputado catarinense Edmundo da Luz Pinto, apelidado no início de carreira de
"o jovem Ruy Barbosa".
Embora sem influência política, era um grande "causer", tido como sábio
pelos contemporâneos. Seu escritório ficava em frente ao de Bulhões Pedreira,
grande criminalista da época, pai do jurista José Luiz Bulhões Pedreira. Em
geral as pessoas vinham buscar auxílio jurídico com Bulhões Pedreira e
conselhos com Edmundo.
Certa vez uma família em grave cizânia foi atrás dos conselhos de Edmundo.
Ele os recebeu um a um, enquanto os demais aguardavam na sala de espera. Quando
ouviu o último, os demais indagaram ansiosos:
Dr. Edmundo, agora que nos ouviu a todos, quem está certo?
E o sábio Edmundo:
- Vocês todos estão certos, meus
filhos. A vida é que por vezes está errada.
Edmundo morava em Laranjeiras numa casa pequena, correta, própria de um solteirão.
O poeta Augusto Frederico Schmidt o apelidou de "a viúva de
Laranjeiras".
Não gostava de receber. Quando completou 50 anos, os amigos Walther Moreira
Salles e Antonio Galotti resolveram organizar uma festa em sua homenagem. Os
Galotti haviam vindo de Santa Catarina pelas mãos de Edmundo.
Rumaram para lá todos os amigos,
Walther, Galotti, Aluisio Salles, Lulu Aranha e Schmidt. Levaram do Jockey sanduíches
e coxinhas de galinha. No caminho compraram vinho e uísque, e chegaram à casa
na hora do jantar.
A festa corria solta e já chegava meia-noite, todos bebendo, quando deram pela
falta do homenageado. Galotti e Walther foram procurá-lo. Ele estava na sala,
ao lado da porta onde ficava uma vitrine com todas suas condecorações.
- O que você tem? indagaram os amigos.
E ele, absolutamente desanimado:
- Já faz meia hora que não sai
ninguém.
Certa feita, Walther ofereceu almoço
em homenagem a Henry Ford. O prefeito era Negrão de Lima. Edmundo chegou um
pouco antes da hora, absolutamente esbaforido:
- Tive uma experiência extraordinária. Não sei como cheguei vivo. Imagine você
que o chofer que sempre me serve no Jockey não estava, e pedi para o Félix me
arrumar um bom chofer. Logo de saída vi que era um imprudente. Eu disse a ele:
meu filho, vá um pouco mais devagar que eu estou dentro do horário. Mas ele
corria cada vez mais. Pensei que jamais chegasse aqui. Pedi duas ou três vezes
para ele ir mais devagar, e ele corria mais ainda. Por isso cheguei fora da
hora. Mas preparei uma vingança: a corrida era de 100 mil réis e eu dei 500
mil.
- Então você o premiou,
surpreendeu-se Walther.
- Não, eu apenas o estimulei a ser malcriado. Da outra vez, ele vai encontrar
alguém menos medroso que eu, que vai lhe quebrar a cara.
E-mail - Luisnassif@uol.com.br
Matthew Shirts - Jornal do Brasil /
22/11/2004
Parece pouco provável que o Brasil tivesse qualquer papel de destaque na revolução
digital que assola o mundo, menos provável ainda que fosse liderá-la, mas foi
isso mesmo que eu li na edição deste mês da revista Wired.
Para quem não a conhece, Wired
pode ser descrita como a bíblia dos tecnófilos. Desconfio que ela própria
gosta de se ver como a revista do futuro.
É publicada, hoje, pela Condé Nast, a mesma empresa americana responsável por
títulos consagrados como a New Yorker, Vanity Fair e Glamour. É lida, imagino,
por nerds e geeks, ou seja, por aqueles intelectuais que gostam ou gostavam de
ficção científica e hoje mandam no mundo ou pelo menos têm uma "estação
de trabalho" (mesa) numa das filiais da Microsoft ou da Sun Systems. Embora
traga anúncios maravilhosos das maiores empresas de tecnologia do planeta, IBM,
Hitachi, AOL, Nokia e Microsoft, entre muitas outras, adota uma linha claramente
libertária em relação à tecnologia. Abaixo do próprio logotipo da revista
se lê a frase "compartilhe a riqueza" (share the wealth).
Entre as reportagens, notas e frases da edição de novembro da Wired, há
coisas do tipo "Como o videogame Pong inventou a internet", "Não
me odeie por ser digital", "A modificação genética da cocaína"
e uma grande seção especial dedicada ao futuro da música - e da própria
cultura - no mundo digital.
Nela se lê que o futuro será
definido pelo sampling, ou seja, pela recombinação criativa de obras que já
existem. Até aí nada de muito novo, é o que fazem os DJs hoje em dia e o que
faziam modernistas como Picasso ou John Coltrane, entre outros.
A novidade está no CD que vem grátis com a revista (numa embalagem fantástica).
Ele traz 16 músicas de artistas conhecidos, 13 dos quais podem ser utilizadas
para que se façam novas versões musicais, samples-comerciais mesmo. Ou seja,
você pode pegar esse CD da Wired, roubar dele o que quiser e lançar suas próprias
músicas no mercado, desde que sejam "altamente transformacionais".
Quem estiver interessado deve procurar os detalhes legais no site
creativecommons.org/wired (há uma série de restrições). Entre os artistas
que cederam obras para o projeto estão Le Tigre, Peter Westerberg, David Byrne
e o nosso ministro da Cultura, Gilberto Gil, que entra com a (ótima) Olodum.
A maior surpresa, no entanto, levei ao ler as reportagens que acompanham o CD.
Uma delas, de Julian Dibbell, é dedicada exclusivamente ao Brasil. Segundo o
jornalista, nosso país é um dos líderes do movimento para liberar obras de
arte e software das restrições de direitos autorais, tornando a cultura
digital mais acessível. A política de tecnologia do governo privilegia
software grátis através do Linux, o Brasil tem o primeiro sistema de caixas
eletrônicas de banco com código-fonte aberto (open source) e está na
vanguarda dos movimentos que visam a liberalização dos conceitos de
propriedade intelectual no mundo.
Por que o Brasil?, pergunta Dibbell a certa altura da sua reportagem. A resposta
passa, acredite, pelo bispo Sardinha, pelo conceito de antropofagia do
modernista Oswald de Andrade, pelo tropicalismo do Caetano e Gil e pela heróica
batalha do então ministro da Saúde José Serra contra os fabricantes de remédios
anti-HIV na década de 1990. A ordem do dia no planeta é tropicalizar, segundo
o jornalista especializado em economias virtuais. E explica, em inglês:
"To tropicalize. Verb form of the noun." Ou
seja: Tropicalizar. Forma verbal do substantivo.
No centro dessa discussão toda está
a questão de direitos autorais (copyright). Ou seja, como permitir que as
pessoas compartilhem livremente a cultura digital sem onerar os artistas e
engenheiros que escreveram as obras originais? A esperança, escreve Dibbell, é
que seja possível criar um sistema alternativo de compensação - semelhante ao
que existe hoje no rádio -, que quebre o impasse atual entre a indústria e os
fãs de uma vez por todas e possibilite que os artistas sejam pagos e que os
arquivos digitais possam ser trocados livremente. "Vai ser uma
batalha", conclui o jornalista na Wired, "mas até agora só o Brasil
demonstrou qualquer coisa parecida com a vontade política necessária para
tamanha façanha."
Fábio
Altman - IstoÉ Dinheiro / 24/11/2004
Pedro
Bial revela segredos da origem da TV Globo. Logo nas primeiras páginas, o
jornalista Pedro Bial avisa: "Não é uma biografia autorizada, em primeiro
lugar porque, na estante dos gêneros literários, este livro não deve ser
classificado como 'biografia'. (...) Você tem às mãos o que se pretende
chamar de 'grande reportagem', um 'perfil', no jargão das redações (...);
quanto ao chavão 'autorizada', que fique claro: a única pessoa que teria
autoridade para consentir nesta obra morreu". Roberto Marinho, de Bial, da
Jorge Zahar (400 págs., R$ 29,50), é, sim, uma biografia de um dos grandes
empresários brasileiros dos séculos XX e XXI - transformá-la num produto
menos ambicioso deve ficar na conta da modéstia do apresentador do Fantástico
e animador do Big Brother. Quanto à outra questão, a do risco de um texto
chapa-branca, o autor trata logo de desarmá-lo. Abre o volume com detalhes da
senilidade de Marinho em seus últimos anos, assunto tabu na mansão do Cosme
Velho e na sede da Rede Globo, no Rio.
VIGOR: Ele criou aGlobo aos 60 anos. Pode-se atravessar o livro com a emoção
dos depoimentos de parentes e amigos, colhidos em 4 mil documentos e 70
entrevistas. Ele tem o tom coloquial raro em obras desta família, como se Bial
conversasse com um telespectador do Big Brother. Mas o que o torna especial é o
relato de formação do empresário, o rito de passagem das rotativas aos
transistores. Há detalhes inéditos da gênese da emissora. "Roberto
Marinho tinha um extraordinário talento para descobrir o gosto médio",
diz Bial. "Pensava como um consumidor, e isso o fez pensar em abrir um
canal de TV já em 1950". Em 1951, a Rádio Globo encaminhara a Dutra o
pedido de concessão de uma transmissora de TV, acatado mas revogado em 1953 por
Getúlio Vargas. Ela viria, finalmente, com JK e, depois, com Jango, que lhe
outorgou um sinal em Brasília. "Esta informação é essencial para começarmos
a investigar algumas 'verdades absolutas' que o senso comum consagrou - entre
elas, a de que Roberto Marinho teria se fartado em benesses e facilidades da
ditadura militar", escreve Bial.
Na montagem da Globo e, portanto, do livro, há um capítulo fundamental, que
ajuda a entender o nascimento do poderio da empresa. Dá-se em 1966, quando uma
campanha liderada por Carlos Lacerda cria uma CPI para investigar a união da
Globo com o grupo americano Time-Life. A acusação: a TV Globo seria controlada
por estrangeiros. A defesa: a emissora apenas se beneficiara de um mecanismo
para captar recursos no exterior, criando uma sociedade de assistência técnica,
nada mais do que isso. A Globo perdeu a parada, porque recuou - mas Roberto Ma-
rinho soube transformá-la em vitória. Marinho virou o jogo, e fez da parceria
um mero acordo entre devedor e credor.
Pagou o equivalente a US$ 6 milhões, uma fortuna na época, e desmon-
tou-se a confusão. Esse período, salienta Bial, o fez mais duro - e,
evidentemente, sobraram mágoas. Na origem de todas as diatribes de Lacerda, ao
deflagrar a CPI, estava um empreendimento imobiliário no Parque Laje, antigo
sonho de Marinho. Ao perder a briga neste episódio (o Parque foi tombado por
Lacerda) perdeu também um sócio, Arnon de Mello, a partir dali considerado
traidor. Anos depois, quando o filho de Arnon, Fernando Collor, apresentou-se ao
empresário, ele foi objetivo. "Não lhe agradavam os olhos vidrados de
Collor, o jeito empertigado, não simpatizara com ele e implicara especialmente
com os punhos da camisa dobrados", diz João Roberto Marinho. A ótima
biografia escrita por Bial - sim, vale insistir, é disso que se trata - é obra
crucial para quem deseja conhecer um naco fundamental da indústria de
telecomunicações do Brasil por meio de seu grande e polêmico mito.
Homenagens
ao centenário de Roberto Marinho
Site Comunique-se, 3/12/2004
Dia
03/12/04. Nesta sexta-feira, o jornalista Roberto Marinho comemoraria 100 anos.
A data não poderia passar em branco tanto para as Organizações Globo quanto
para a família Marinho. As homenagens a um dos maiores empresários de comunicação
do país se resumem a uma exposição de arte no Rio, ao lançamento do
livro de Pedro Bial e à instituição de um prêmio.
A
exposição "Século de um Brasileiro - Coleção Roberto Marinho" é
o retrato da paixão do jornalista pela arte brasileira. Dividida em três
grandes módulos - "Terra", "Água" e "Ar", a
mostra reúne 240 obras de artistas conceituados como Portinari, Tarsila do
Amaral, Di Cavalcanti e Tomie Ohtake, das 1.324 peças de seu acervo particular.
Segundo José Roberto Marinho, um de seus filhos, o pai começou a comprar a
coleção ainda muito jovem, por achar que seria uma boa forma de aumentar seu
patrimônio. "Vocês vão ver o lado mais pessoal do papai. Ele adorava o
Brasil e, apesar de viajar muito, gostava mesmo era de ficar aqui", disse o
filho, durante o discurso de inauguração, na noite desta quinta-feira (02/12),
no Paço Imperial, no Rio. A exposição ficará no Rio até 13/02/05 e depois
segue para São Paulo.
Na
última quarta-feira (01/12), Pedro Bial, apresentador da TV Globo, lançou a
biografia "Roberto Marinho". A noite de autógrafos aconteceu na
Livraria da Travessa, de Ipanema, na Zona Sul do Rio. Bial garimpou e selecionou
quatro mil documentos, e contou com a ajuda de duas pesquisadoras. Durante um
ano, ele foi a campo e coletou entrevistas de amigos muito próximos a Roberto
Marinho, que nunca haviam falado sobre o empresário com a imprensa, como José
Luiz Magalhães Lins e Jorge Serpa, e conversou com outros, que desta vez deram
sua opinião após a morte do jornalista, como Boni e Armando Nogueira, além da
família Marinho, incluindo os três filhos e os netos do presidente da Globo,
morto em agosto de 2003. Em entrevista
à repórter Karla Siqueira, deste Comunique-se, o autor revelou
que saiu mudado dessa experiência. “Antes de começar a pesquisa, não sabia
muito sobre Roberto Marinho. Quer dizer, tinha muita admiração por ele, mas não
o conhecia de verdade. Só o vi algumas vezes no corredor. Não tinha muita
identificação com ele”. Segundo Bial, o fundador das Organizaçãos Globo
era um homem com capacidade de expressão e muito engraçado. “Essa não
é a história de um indivíduo, mas a história do que pode um indivíduo”,
comentou o jornalista.
O
Prêmio Roberto Marinho - Cultura de Paz foi lançado também nesta quinta na
Academia Brasileira de Letras. A idéia partiu de representantes da Unesco e tem
como objetivo reconhecer uma pessoa ou instituição que tenha projetos de
combate à violência. O primeiro prêmio vai entregar US$ 10 mil no primeiro
semestre do ano que vem. Para escolher o vencedor, serão realizadas várias
etapas. A Comissão Julgadora será formada pelo ministro Nilmário
Miranda, da Secretaria Especial de Direitos Humanos, pela coordenadora da
Pastoral da Criança, dona Zilda Arns, pelo rabino Henry Sobel, pelo diretor
executivo do Viva Rio, Rubem César Fernandes, e pela diretora técnica da
Unesco, Marlova Noleto. Quinze instituições serão convidadas para apontar um
concorrente cada. Cinco, então, serão selecionados para avaliação do júri.
(*)
Com informações do jornal O
Globo.
150
anos de Libânio e Mergenthaler, símbolos das artes gráficas
O
Museu Nacional da Imprensa inaugurou no dia 24 de novembro, na cidade do Porto,
Portugal, integrada na Semana da Ciência e da Tecnologia, a exposição “Libânio
e Mergenthaler: Símbolos da Imprensa, 150 anos”.
Trata-se
de uma exposição comemorativa dos 150 anos do nascimento de duas grandes
figuras das artes gráficas. Mergenthaler foi o inventor da linotype, máquina
de compor que revolucionou a imprensa e Libânio da Silva é um dos mais célebres
tipógrafos portugueses.
Nascidos em 1854, ambos marcaram,
de formas diferentes, a história da imprensa escrita. Com a invenção da máquina
de composição tipográfica, Mergenthaler (alemão emigrado nos E.U.A.) foi
considerado o “2º gutenberg” tendo a linotype dado um importante
contributo para a chamada época d´ouro da imprensa.
Libânio
da Silva ficou para a história como autor do “Manual do Tipógrafo”, obra
emblemática para o sector, mas na sua empresa - Imprensa Libânio da Silva -
foram editadas obras de grandes escritores portugueses.
Constituída por cerca de 50
documentos bibliográficos, a exposição do Museu Nacional da Imprensa integra
uma linotype que os visitantes poderão ver a funcionar, um original do
“Manual do Tipógrafo” e um “manual” que reproduz a própria linotype.
Vários livros e revistas da época
como “Teatro Magazine”, “Athena”, “Contemporânea”e a
“Variante”, impressos na tipografia “Imprensa Libânio da Silva” também
podem ser vistos na exposição.
Num dos prelos que constituem a
exposição permanente estará patente um texto alusivo aos autores, composto na
linotype e pronto para a impressão manual.
As pessoas que visitem o Museu
Nacional da Imprensa podem também apreciar as outras exposições patentes.
Duas alusivas ao 25 de Abril: uma documental e outra de desenho humorístico; e
a permanente da Galeria da Caricatura “PortoCartoon: o riso do mundo”.
A
exposição “Libânio e Mergenthaler: Símbolos
da Imprensa, 150 anos” ficou abeerta ao público até o dia 31 de Dezembro
de 2004, no horário habitual do museu: todos os dias das 15h às 20h. O Museu
Nacional da Imprensa fica situado na margem direita do Rio Douro, a montante da
Ponte do Freixo, na cidade do Porto em Portugal.
A
voz das esquinas nas revoluções
BORIS
FAUSTO
Fonte: Folha
de S. Paulo, suplemente Mais,
28/11/2004
Em artigo publicado no Mais! (25/1/2004, "As Revoluções da Revolução
Russa") lembrei as aproximações da Revolução Russa de 1917 com a
Francesa de 1789, tomada esta como um paradigma ideológico e mesmo em sentido
prático.
Trato agora de outra aproximação. A dessacralização das duas monarquias, que
contribuiu para a queda dos Bourbon na França e dos Romanov na Rússia,
utilizando-se, em ambos os casos, os rumores, o escândalo e as fantasias
pornográficas.
Tomemos, por exemplo, o livro de Robert Darnton -historiador de primeira linha
do século 18 francês- intitulado "Boemia Literária e Revolução"
(Cia. das Letras). Nele, Darnton analisa uma produção típica do que chama de
submundo das letras -os "libelos", textos clandestinos, muito comuns
nas últimas décadas do Antigo Regime e que divulgavam histórias maliciosas
sobre a corte.
Alguns motivos centrais desses textos colocavam em letra impressa a voz das
esquinas, pintando e bordando em torno da decadência do trono, roído pela
concupiscência da rainha, pelo adultério e, pior de tudo, pela simbólica
impotência de Luis 16.
Os "libelistas" transformaram em amante de Maria Antonieta, ao que
parece sem fundamento, um apaixonado cardeal -Edouard, príncipe de Rohan-,
envolvido numa rumorosa controvérsia, o "caso do colar da rainha",
que se prolongou entre 1784 e1786.
Mais ainda, apesar de aparentemente o rei ter gerado um filho, não obstante ter
levado anos para consumar o casamento, levantavam-se muitas dúvidas sobre a
verdadeira paternidade do delfim, em dezenas de panfletos que desvendavam, a seu
gosto, o nome de algum fecundo amante de Maria Antonieta.
A julgar pela contínua e quase sempre ineficaz ação da polícia, revelada
pelos arquivos, os "libelos" preocuparam seguidamente o poder. Embora
afirme ser difícil medir o impacto que esses "textos sujos" tiveram
na desmoralização da monarquia e na queda do trono, Robert Darnton considera
as histórias desse tipo mais perigosas do que obras eruditas, como "O
Contrato Social", de Rousseau; afinal de contas, elas rompiam o senso de
decência que unia o público a seus governantes.
O dissimulado caráter moralizante dos textos opunha a ética do povo miúdo à
ética dos grandes, um contraste acentuado em certos momentos. Darnton lembra,
por exemplo, o ano 2 da Revolução, quando estava no ar uma espécie de
puritanismo que os "sans-culottes" incorporavam acerca das tramas e
dos expurgos do Terror, assim como acerca das lendas e verdades dos
"libelos", já assimiladas antes de 1789.
Desmoralização
Mais de cem anos depois, em um contexto histórico certamente diverso,
encontramos grandes semelhanças na desmoralização de uma instituição monárquica
que, tal como a francesa, se autoproclamava instituída por direito.
Como mostram, escrevendo em colaboração, dois destacados historiadores
-Orlando Figes e Boris Kolonitskii- em "Interpreting the Russian Revolution
- The Language and Symbols of 1917" (Interpretando a Revolução Russa,
Yale University Press, 1999), nos anos que antecederam a revolução de
fevereiro de 1917, que destronou a monarquia, e, entre fevereiro e a revolução
bolchevique de outubro, circularam histórias antidinásticas, muitas vezes em
torno de temas sexuais, sob formas variadas: cartões-postais pornográficos,
versos, panfletos etc.
Por exemplo, algumas das mais picantes fantasiavam cenas eróticas em que
figuravam o czar, o debochado monge Rasputin, a imperatriz e sua dama de
companhia Ana Vyrubova, tida como lésbica.
Segundo voz corrente, quem governava de fato a Rússia não era Nicolau 2º -o
outrora "santo paizinho" dos camponeses-, mas a "mulher alemã",
mais precisamente a imperatriz Alexandra, filha do grão-duque de
Hesse-Darmstadt. Nas versões mais radicais, seu casamento com Nicolau 2º teria
sido arranjado por Bismarck para introduzir na corte uma espiã alemã. Quando a
Rússia entrou na Primeira Guerra Mundial contra os impérios -o alemão e o
austro-húngaro-, a czarina foi acusada de ser a líder da facção pró-Alemanha
na corte -facção que de fato existia- e de transmitir segredos ao inimigo.
Essa versão ganhou mais força na medida em que o Exército russo foi
acumulando derrotas na frente de batalha. Note-se que o tema da colaboração
com o inimigo pesou também literalmente sobre a cabeça de Maria Antonieta, a
detestada rainha austríaca, filha de Francisco 1º e Maria Teresa.
A comparação aqui esboçada não é apenas curiosa. Vai muito além disso. Ela
constitui um bom exemplo de uma história que não é material, mas nem por isso
deixa de ser significativa, na explicação do processo histórico, ou seja, a
história de símbolos, sentimentos e sensibilidades.
Não se trata de negar sentido à discussão sociológica sobre o caráter burguês
da Revolução Francesa, por exemplo, ou do terremoto provocado na hierarquia
social pela Revolução Russa, embora a etiqueta "proletária" que lhe
foi aplicada hoje não possa ser levada a sério. Trata-se de entender que, ao
lado dessa vertente, se construiu outra, mais atenta aos homens e mulheres
concretos, aqueles que fazem sua própria história, embora sujeita aos
constrangimentos.
Paixão e intriga
Nos exemplos citados, essas pessoas não são apenas "animais políticos"
-os "sans-culottes" imbuídos dos ideais de igualdade e fraternidade
ou os proletários socialistas, leitores de Marx, encarnação individual da
"classe para si". É também gente inspirada pelos rumores, pelas paixões,
pela sedução das intrigas, pela ansiedade e pelo medo.
Essa história de sensibilidades, tecida muitas vezes por pequenos episódios,
é uma história de longa duração, como mostram os paralelismos indicados, com
uma distância mais do que secular. Num registro bem atual, em outras condições,
ela está presente no fenômeno da ascensão da direita republicana e da reeleição
do presidente George W. Bush, em que o medo e o correspondente desejo de segurança
desempenharam um papel considerável.
Boris Fausto é historiador e preside o conselho acadêmico do Gacint
(Grupo de Conjuntura Internacional), da USP. É autor de "A Revolução de
1930" (Companhia das Letras). Ele escreve mensalmente na seção
"Autores", do Mais!.
O
pioneirismo brasileiro nas telecomunicações destacado na Alemanha
Fonte: Observatório da Imprensa, 30/11/2004
A editora Debras Verlag, da cidade de Konstanz, Alemanha, está
lançando o livro Pater und Wissenschaftler (Padre e cientista), de autoria do
jornalista brasileiro Hamilton Almeida, que relata a fascinante e dramática
história do cientista gaúcho Roberto Landell de Moura (1861-1928).
Padre Landell foi precursor do rádio, da televisão e do teletipo, entre outras
notáveis descobertas. Foi ele quem transmitiu, pela primeira vez no mundo, no
final do século 19, a voz humana à distância através de uma onda eletromagnética.
Apesar da sua genialidade, não recebeu apoio de ninguém, foi ignorado e
perseguido. Quis unir a religião à ciência e acabou acusado de ter pacto com
o diabo.
Patenteou seus inventos no Brasil e nos Estados Unidos, realizou experimentos e,
ainda assim, não foi reconhecido em sua época. No Brasil, chegaram a destruir
os seus aparelhos e impedir seus estudos. Para contar a história do Padre
Landell, Almeida pesquisou durante vários anos em diversas cidades brasileiras.
A documentação chamou a atenção do editor Heinz Prange, que tomou a
iniciativa de levar a obra para a Alemanha. Prange foi professor de física e
eletricidade no Instituto Cristiani, em Konstanz, e é radioamador.
História oficial.
Padre Landell também aperfeiçoou o sistema de telegrafia sem fio e transmitiu
pela primeira vez no mundo em ondas contínuas, que são superiores às ondas
amortecidas utilizadas nos primeiros tempos das radiocomunicações por outros
cientistas. Recomendou o emprego das ondas curtas para aumentar a distâncias
das transmissões quando elas não eram sequer cogitadas pelos outros
cientistas. Para a transmissão de mensagens, o padre e cientista também se
utilizava da luz, o mesmo princípio que aperfeiçoou as comunicações
modernas, empregando-se o laser e as fibras ópticas.
Numa época em que as telecomunicações eram precárias até mesmo entre
cidades vizinhas, ele já acreditava na possibilidade das comunicações
interplanetárias. Padre Landell morreu no anonimato e sua obra até hoje é
pouco conhecida. Com o tempo, as suas invenções acabaram sendo inventadas por
outros cientistas.
Na história oficial, o mérito da descoberta do rádio é concedido ao italiano
Guglielmo Marconi. É um equívoco: ele inventou o telégrafo sem fio e não o rádio
tal como o conhecemos. A história do Padre Landell derruba este e outros mitos
da história das telecomunicações.
Célio Romais, Jornalista e radioescuta (www.romais.jor.br)
Observatório da Imprensa
30/11/2004
A Rádio Globo, do Rio de Janeiro, completa 60 anos de atividades. Foi
inaugurada em 2 de dezembro de 1944, pelo jornalista Roberto Marinho. A emissora
passou pela Era de Ouro do rádio e pelos anos seguintes, quando o veículo teve
que atuar de forma diferenciada, com a chegada da televisão. As décadas de 70
e 80 marcaram o rádio, segmentado em programas de entretenimento popular e
grandes coberturas do futebol.
Motivado a sintonizar notícias do
futebol carioca, acabei acompanhando toda a programação diária da Rádio
Globo, a partir do fim dos anos 70 e início dos anos 80. Assim, com o receptor
analógico sintonizado nas ondas curtas de 49 e 25 metros, de uma cidade do
interior do Espírito Santo, era possível acordar ouvindo o programa do Luciano
Alves. Às 7h, ia ao ar a primeira edição do Correspondente Globo, logo depois
da vinheta "São sete horas em ponto". Após o noticiário, a Globo
dava espaço ao Paulo Giovanni Show.
Um cara tão legal
Na metade da manhã ia ao ar um
programa que fazia o ouvinte pensar: o Programa Haroldo de Andrade. O quadro
Debates Populares tinha a participação de comentaristas como Hélio Thyz e
Artur da Távola. Houve uma época em que Haroldo de Andrade acompanhava
diariamente todas as novidades das novelas da TV Globo. Jamais esqueci o nome da
repórter que ele chamava nos camarins da televisão: Eliete Beleza Dias. E quem
não se lembra da famosa "Pergunta do dia"?
Por volta do meio-dia, quando o
sinal em ondas curtas geralmente é ruim, ainda dava para acompanhar os esportes
e o programa do Roberto Figueiredo. Para quem não se lembra, Figueiredo foi o
locutor da última edição do Repórter Esso, pela própria Rádio Globo,
quando chegou às lágrimas. Acredito que, sem precisar datas, o espaço foi
ocupado, ainda, por um radioteatro que dramatizava casos de polícia da Cidade
Maravilhosa. Um dos nomes, nesta dramatização, era o de Afonso Soarez, que
também foi comentarista de futebol e integrante dos Debates Populares do
Haroldo de Andrade.
"Waldir Vieira é um cara tão legal! Na Rádio Globo ele é
sensacional!" Este era um dos slogans que apresentava o locutor das tardes:
Waldir Vieira. Ele comandava os microfones da Rádio Globo, das 13h às 17h, e
também nas manhãs de domingo. Como todo bom programa popular, Vieira
conversava com ouvintes, pelo telefone. Sempre trazia as famosas charadas que
começavam mais ou menos assim: "O que é o que é?". Waldir Vieira
teve um fim trágico: no auge do sucesso, foi encontrado morto, num motel, na
Zona Sul do Rio.
Bons sambistas
E os espaços comerciais? Bom,
sempre tinha um anúncio de supermercado oferecendo, na promoção, a geléia de
mocotó Inbasa, o iogurte Yoplait, o leite Vigor, os biscoitos Piraquê, as
batatas HBT, entre outros. Entre os anunciantes daquela época lembro do Disco
("o caminho certo!"), e Casas da Banha, Sendas, Mesbla, Casas
Huddersfield ("difícil de pronunciar, mas fácil de encontrar!"), A
Camélia Flores, Francisco Xavier Imóveis, entre outros.
Da programação do fim de tarde da
Rádio Globo, lembro pouco detalhes, apenas de Carlos Bianchini, que depois foi
o apresentador do Jornal da Manchete, na emissora do mesmo nome, já na metade
dos anos 80. Em seguida, após a saída de Bianchini, recordo que o horário foi
ocupado por Edmo Zarife, que ficou famoso por ser a voz que faz a vinheta "Brasiiil",
usada nas jornadas de futebol da Globo até os dias atuais.
E quais as músicas que a Rádio Globo tocava naquela época? Bom, felizmente, não
existiam os pagodes. Lembro que Luciano Alves gostava de tocar o grupo mineiro
14 Bis, principalmente a música Planeta Sonho. Bons sambistas também eram
valorizados: João Nogueira, Roberto Ribeiro, Clara Nunes, Agepê, Luiz Américo,
Paulinho da Viola, Martinho da Vila, entre outros.
O Globo no Ar
Antes da Voz do Brasil, a Globo
falava mais de futebol. Depois do programa, ainda havia mais meia-hora do
Projeto Minerva (quem lembra?) para, então, voltar à programação esportiva.
Após os esportes, um apresentador que tenho guardado na lembrança é Gilberto
Lima. Ele foi o narrador que antecedeu Dirceu Rabello no programa Fantástico, e
morreu no auge da carreira.
Nas manhãs de domingos, havia um
programa interessante: A preparada do Mário Luiz. Era um espaço onde cantores,
atores e outros convidados iam até os estúdios da emissora para medir forças
respondendo a perguntas "preparadas" pelo então gerente da emissora.
O método, depois, foi muito usado em programas de televisão.
De hora em hora, até os dias
atuais, a emissora apresenta as notícias no tradicional O Globo no Ar. Pelo
noticiário, passaram nomes como Dirceu Rabello, Léo Batista, Isaac Zaltman, César
Donery e Luís de França que, mais tarde, tornou-se comunicador popular da estação.
Já na unidade móvel da emissora, o famoso "amarelinho da Rádio
Globo", lembro o nome do repórter João Vitta.
Parabéns, Rádio Globo!
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As Primeiras Transmissões De Rádio na Paraíba
Moacir
Barbosa de Sousa -
moacir_sousa@uol.com.br
UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
A primeira estação de Rádio da
Paraíba surgiu entre 1930 e 1931, na mesma época em que a população
paraibana apresentava um movimento do campo para as cidades e do sertão para o
litoral ( MELLO, 1987). Para Newton Monteiro, filho de José Monteiro (um dos
fundadores da Rádio Clube da Paraíba), a penetração da Rádio Clube de
Pernambuco-PRA-8 na capital paraibana era muito forte. Isso favorecia o comércio
recifense, que tinha seus produtos como o sabonete Tabarra e os sabões da firma
Alimonda Irmãos disseminados entre os consumidores pessoenses. A fundação da Rádio Clube da Paraíba teria sido uma forma
de reagir à hegemonia econômica do vizinho Estado. Em depoimento a SANTOS
H.(1977, p. 60), Newton Monteiro deu detalhes técnicos acerca da emissora:
Meu pai foi quem montou o transmissor da estação. Ele, em
companhia de Jaime Seixas – também rádio-técnico – construíram com peças
adquiridas aqui e ali, um pequeno transmissor de 10 watts e colocaram no ar a
primeira estação de rádio da Paraíba ’RADIO CLUBE DA PARAÍBA’.
Naquele tempo as válvulas da difusora eram de aquecimento direto,
alimentadas, portanto, com corrente contínua de bateria para não dar o ruído
de corrente alternada em sua freqüência. Lembro-me que, os primeiros rádios-receptores
comercializados que na época se usavam, eram do tipo regenerativo e, só
depois, é que foram fabricados pela GE os rádios superterodinos, tipo GE K-8.
Como a lei permitindo a publicidade no Rádio só seria
promulgada por Getúlio Vargas em 1932, a Rádio Clube, seguindo o modelo de
algumas emissoras que surgiam pelo país afora, funcionou como uma sociedade
onde seus membros contribuíam financeiramente para sua manutenção.
Um ano depois de fundada, a associação já tinha mais de 200
participantes. Os sócios podiam
também levar os discos para serem tocados na emissora. A Rádio Clube da Paraíba
instalou-se na Avenida Gouveia Nóbrega, em frente ao Depósito da Prefeitura,
perto da Bica, Parque Arruda Câmara. Como ainda não havia aparelhos de Rádio para recepção dos
programas, eles eram irradiados por meio de alto-falantes instalados no centro
da capital.[1]
O transmissor da nova emissora não era potente e os poucos proprietários
de receptores precisavam de muita paciência para sintonizar o sinal da Rádio
Clube. Alguns desses donos de
aparelhos chegaram a destinar salas especiais onde as pessoas se reuniam ao
redor do Radiorreceptor. Na Rua Direita, hoje Rua Duque de Caixas, no centro de
João Pessoa, havia uma dessas salas. Um
alto-falante da Rádio Clube foi instalado na rua 13 de maio, em frente à casa
de Leonís Peixoto, um dos diretores da estação.
Integravam o primitivo grupo de sócios da nova rádio os irmãos
de José Monteiro (Manuel, João, Antônio e Pedro) e mais José Olinto, Rosil
Pedrosa, Hortência Peixe, Pedro Jaime, Ismael Jorge, Leonís Peixoto, Diógenes
Caldas, Maurício Furtado, Olegário de Luna Freire (maestro), Cláudio Lemos,
Ariel Farias (fotógrafo), Walfredo Rodriguez (escritor, fotógrafo e cineasta,
criador do logotipo ou escudo da
emissora), Cilaio Ribeiro e Orlando
Vasconcelos.
Escolhido para dirigir a emissora, Francisco de Sales
Cavalcanti procurou dinamizar a programação, tornando-a cultural, conforme
relata o jornal A União (30 mai.
1935, p. 3):
Promete grande animação a irradiação do Radio Club da
Parahyba, no próximo sabado, cuja noitada passou a obedecer a direcção do Sr.
Francisco Sales, um dos mais esforçados elementos daquella estação diffusora.
Sempre interessado pelo progresso do nosso ‘broadcasting’, aquele estimado
cavalheiro já está organizando um seleto programma de canto e musica em que
tomarão parte todos os radiofilos pessoenses. Para que a estação do Radio
Club preencha uma finalidade ainda mais proveitosa e utilitária, o Sr.
Francisco Sales conseguiu do professor Sizenando Costa, director interino da
Instrucção Primaria, e vindo de encontro ao programa daquele departamento, a
designação de professores para realizarem semanalmente, aos sabados, um quarto
de hora com palestras sobre assumptos educacionais. Completando essas
iniciativas de nobilitante alcance, o conhecido maestro Olegário de Luna
Freire, emprestará o seu concurso fazendo irradiar audições dos vários orfeãos
escolares da capital.
[1]
Na pesquisa não foi possível determinar a exatidão da data de chegada dos
aparelhos receptores à Paraíba. As informações dos entrevistados eram
vagas e divergiam muito. Em 1937, a Casa Monteiro, especializada em artigos
elétricos, fez publicar anúncio do Radiorreceptor Ericsson; é a data mais
precisa acerca do assunto.
Líderes políticos também ocuparam o microfone da Rádio
Clube, como Tancredo de Carvalho, que pertencia à Aliança Liberal.
A emissora permanecia no ar das 17 às 21 horas. A primeira transmissão
externa realizada na Paraíba e que a torna pioneira no Radiojornalismo local,
foi feita pela Rádio Clube quando cobriu a visita do Presidente Getúlio Vargas
ao Estado. Durante a visita foi inaugurada a Associação Paraibana de Imprensa;
acompanhado do Interventor Gratuliano de Brito e outras autoridades, Vargas
visitou o Parque Arruda Câmara, de onde ocorreu a transmissão graças aos
esforços do técnico José Monteiro.
Em dezembro de 1932 a Rádio Clube iniciou a transmissão de
aulas de inglês, fazendo publicar no jornal A
União o roteiro das palavras que
foram irradiadas na primeira aula. No dia 6 de janeiro de 1933 foi ao ar a
segunda aula. A iniciativa foi pioneira na Radiodifusão nacional e por isso Rádio
Clube ocupa a vanguarda na experiência do ensino de línguas pelo Rádio. A
experiência é creditada aos irmãos Oliver e Geraldo von Shosten, que foram
educados na Inglaterra.
Em 28 de março
de 1933 ocorreu um incêndio no prédio onde estava instalada a emissora e esta
se transfere, por iniciativa do prefeito Borja Peregrino, para as dependências
do Depósito Municipal, também na Avenida Gouveia da Nóbrega, “do outro lado da rua, perto do prédio sinistrado”.
A União (29 jan. 1934, p.8) publicava a seguinte convocação: “O
Dr. Claudio Lemos, vice-presidente do Radio Club, em exercicio, convida todos os
socio-diretores quites, de acordo com os estatutos, para comparecerem amanhã ás
9 horas, a fim de se procederem as eleições para os cargos de directores
Presidente e tesoureiro”.
O jornal oficial da Paraíba criou uma coluna para divulgar
“os acontecimento lançados ao éter” intitulada
Vida Radiofônica,[1]
comprovando a integração da Rádio Clube à vida cultural de João Pessoa que
tinha no irmão impresso um grande auxiliar para sua consolidação dentro da
sociedade. O jornal, por seu lado, não poupava linhas de notícias e elogios ao
novo meio, considerando-o “talvez a
maior força auxiliar do nosso sistema educativo”. Despertando a atenção
de uma elite que passou a ter como símbolo de status possuir um aparelho
receptor importado entronizado na sala de visitas, a Rádio Clube recebe a
colaboração de jovens que nela “exercitam
sua veia artística”. Outro símbolo
de destaque naquela década era apresentar a carteira de sócio da emissora.
EGYPTO (1987, p. 23) faz o seguinte comentário acerca da participação
dos jovens no cast da Rádio Clube:
Houve
época em que, na nossa juventude, a distância entre um bairro e o centro da
cidade, era mais longe do que viajar do
Ponto de Cem Réis para Roliude. Com
essa alegoria pode-se dizer, em troco miúdo, que a ânsia de muitos jovens, de
inclinação artística, na década de 40 ou 50 era ouvir a Rádio
[...]e, remotamente pertencer ao seu cast.
Com a nomeação de Francisco Sales para a direção da Imprensa Oficial,
em 1935, a Rádio Clube muda de instalações, passando a funcionar na Praça João
Pessoa, onde se instalariam mais tarde o jornal A
União e depois a Secretaria de Assuntos Extraordinários,
embrião da Secretaria de Comunicação do governo.
O jornal oficial do Estado (18 jun. 1935, p. 3) transcreve entrevista
realizada pelo Diário da Manhã, de
Recife, com o diretor Francisco Sales:
[...]
Estamos informados de que o Rádio
Clube vai passar por importante reforma.
Perfeitamente,
e terei muito gosto em transmitir-lhes alguma coisa para o Diário da Manhã,
quanto mais que, em Recife, vivem, atualmente, centenas de conterrâneos que
necessitam saber como vai a terrinha.
Em
que, então, consiste a reforma.
Em
melhorar a nossa estação transmissora organizando programas especiais e de
utilidade, como sejam, a propaganda comercial e divulgação do ensino, como
também estabelecer noticiário geral, inclusive atos do governo.
A esse respeito, já me entendi com algumas firmas de nossa praça e com
o diretor do Ensino Primário, tendo este último já organizado e divulgado o
primeiro programa, que obteve o mais franco sucesso.
[...]
[1]
A primeira coluna especializada em assuntos de Rádio apareceu na Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, em 1922.
A modificação anunciada consistiu na introdução de um
noticiário e a divulgação dos atos do governo; para isso, o diretor Francisco
Sales buscou apoio publicitário no comércio e conversou com altos funcionários
do governo para conseguir os protocolos dos atos. Como Vargas, ao estatizar as emissoras do Rio de Janeiro como
a Nacional e a Rádio do Trabalhador, o Interventor Argemiro de Figueiredo
recebeu de mão beijada a Rádio Clube da Paraíba. Depois de entendimentos
entre Oliver von Shosten, José Monteiro e Francisco de Sales, o acervo da Radio
Clube da Parahyba foi doado para o patrimônio do Estado, sem ônus para os
cofres públicos. Francisco de Sales Cavalcanti, último gerente da Rádio
Clube, acumula as funções de diretor da Imprensa Oficial e da nova emissora.
Argemiro de Figueiredo traça planos visando tornar a Rádio Clube “instrumento
de ação governamental voltado para a instrução pública”. Trata-se de
mais um reflexo dos tentáculos das forças estatizantes do governo central que
daria origem à criação da primeira estatal da Radiodifusão brasileira.
Quando foi inaugurada em 12 de setembro de 1936, quatro meses antes da
nova emissora paraibana, a Rádio Nacional do Rio de Janeiro fazia parte da
empresa A Noite. Em 1940 Vargas decidiu tornar a Rádio Nacional “um
instrumento de afirmação do regime” e promove a sua encampação (ORTRIWANO,
1985).
As intenções do Interventor
Argemiro para com o emergente veículo ficaram claras com os sucessivos anúncios
e matérias divulgadas no jornal oficial como, por exemplo, esta do dia 17 de
janeiro de 1937, p.3, de linguagem rebuscada, típica da época, já
demonstrando o caminho que deverá seguir a emissora estatal e a apropriação
que dela faz o Estado para vender a sua imagem:
Dentre
os melhoramentos de vulto de agora, na Parahyba, destaca-se a Estação Rádio-Diffusora
que, no próximo dia vinte e cinco, espalhará pelos países do Continente
Sul-Americano, a voz desta terra disciplinada e brava. A funcção do Rádio, de
indiscutível valor, trará para o nosso Estado, vantagens que somente os espíritos
progressistas podem, desde logo, aquilatar. E quaes serão estas vantagens?
Todas, responderiam, inclusive a maior delas, que é a de tornar público, além
das fronteiras do Estado, as iniciativas da administração parahybana que, de
João Pessoa para cá, tem produzido uma verdadeira revolução nos costumes,
nas atividades, no poder de iniciativa de cada cidadão nascido neste rincão
nordestino. Uma estação de radio para a Parahyba é,
apesar de não ter custado uma fortuna, o maior presente que se lhe
poderia ter dado, benefício comum que ajudará a centuplicar as energias do
nosso agricultor, do nosso commerciante, do nosso industrial, emfim, de todos
aquelles que constituem a força viva do progresso parahybano.
Outro anúncio publicado no jornal oficial (23 jan. 1937, p.
3):
|
PRI-4 Radio Diffusora da Parahyba Frequencia:
10.000 kilociclos, ondas de 277,7 metros. Realizando-se, no proximo dia
25, Segunda-feira, a inauguração official da nossa ‘broadcasting’,
devem os srs. Commerciantes, industriaes e interessados fazer logo o seu
annuncio para ser lido ao microfone da PRI-4, dirigindo-se á Secção
Economica, com o Sr. Francisco Salles. |
A ocasião propícia aconteceu na programação de dois anos
de governo de Argemiro de Figueiredo, em 25 de janeiro de 1937. Juntamente com o
Pavilhão Clifford Beer, no Hospital Colônia Juliano Moreira e mais a Casa do
Estudante da Paraíba, dez grupos escolares e o novo município de Serra do Cuité,
foram inauguradas as instalações da Radio
Diffusora da Parahyba na Fazenda São Rafael, onde se encontrava o
transmissor. Durante o dia houve
desfile de tropas da Polícia Militar da Paraíba, do Esquadrão de Cavalaria e
do Corpo de Bombeiros, festa desportiva no Parque Arruda Câmara, onde foram
distribuídos bombons entre as crianças e retreta com as bandas de música dos
municípios de Santa Rita e Alagoa Grande.
O sistema de iluminação pública da Praça João Pessoa foi reforçado
e foi também inaugurada nova iluminação na rua Duque de Caxias.
Homenageando os dois anos da administração Argemiro de Figueiredo, a empresa R. Wanderley anunciou a realização de sessões de cinema, contínuas e gratuitas, no Teatro Santa
Rosa, a partir das 18 horas. No mesmo dia chegou a João
Pessoa, procedente de Recife, uma embaixada
artística, liderada pelo maestro Nelson Ferreira. Teve início, aí, um
intercâmbio cultural entre os dois Estados.
No dia 25 de janeiro de 1937 A União
circulou com 11 “secções”, ou cadernos, com 8 páginas, cada.
Na solenidade de inauguração da emissora, o Governador esteve acompanhado de
todo seu secretariado. Foi recebido na entrada da Fazenda São Rafael pelos técnicos
da firma Byington & Cia., que montaram um “potente transmissor WA-10”[1]
e, depois de percorrer as instalações,
declarou-se satisfeito com os trabalhos executados. Em seguida o
engenheiro Jeronymo Duarte Rodrigues, da Byington & Cia., entregou
oficialmente a Rádio ao Chefe do Governo.
Discursaram o Dr. João Milanez, diretor do Departamento Oficial de
Propaganda e Publicidade do Estado e o Governador Argemiro de Figueiredo. À
noite, direto do estúdio localizado num dos salões da Imprensa Oficial, o
governador prestou contas de sua administração e às 20h 30min foi irradiada
audição da orquestra de estúdio da emissora, regida pelo maestro Olegário de
Luna Freire. Ao lado de Oliver von Shosten, Luna Freire encontrava-se também à
frente da recém-criada Jazz Tabajara,
orquestra que realizou seu primeiro ensaio no dia 23 de janeiro de 1937, nos salões
do Clube Astréia, e visava ao carnaval daquele ano.
Uma nota publicada no Correio de Minas, em Juiz de Fora, no dia da inauguração da Rádio
Difusora, sugere o papel político-ideológico que exercerá o Rádio na
sociedade brasileira a partir do instante em que o Estado tomar posse das ondas
hertzianas:
A publicidade é um dos imperativos cathegoricos da vida
contemporânea. Não há, no momento, actividade que possa dispensal-a
[...] Seguindo esses rumos, acaba o governo da Parahyba de iniciar a sua
publicidade official. Começou pelo radio, installando possante estação cujos
programas são elaborados por uma pleiade de intelectuaes. Secunda o radio a
publicidade educativa pelos supplementos da A União, folha official do Estado. [...]
Fixemos mais este exemplo que nos chega da Parahyba.
A nova emissora aproveitava a experiência
da extinta Rádio Clube, no entanto, procurava aprimorar o seu quadro de
pessoal. Depois de anunciado e
adiado por várias vezes, realizou-se um concurso para a escolha de locutores
que iriam trabalhar na Radio Diffusora.
O primeiro anúncio (A União, 10 jan.
1937, p.3):
|
PRC-6 Estação
Radio-Diffusôra da Parahyba A
partir de hoje até o próximo dia 18, estão abertas as
matrículas para os candidatos ao concurso de ‘speaker’
da PRC-6 (Estação Radio-Diffusôra da Parahyba) que
deverá se realizar no dia 19 do corrente. Os
interessados deverão se dirigir ao Sr. Francisco Salles,
na redacção d’ “A União”, que está encarregado
de fazer as referidas inscripções |
No dia 23 de janeiro o resultado foi divulgado (1ª
p.) :
Realizou-se, hontem, o concurso de ‘speakers’ da Radio
Diffusora da Parahyba. Dos 39 concorrentes foram classificados quatro.
[1] O
transmissor tinha potência de 10 quilowatts e se encontrava montado em
quatro cabines de aço com portas que, ao serem abertas, desligavam a alta
tensão do sistema. Tinha seis estágios de Radiofreqüência e empregava 27
válvulas, das quais as duas últimas eram refrigeradas a água. Um cabo
telefônico fazia o enlace estúdio-transmissor.
Para fazer funcionar o transmissor, foi preciso instalar uma rede
especial de energia do centro da capital até Buraquinho, onde se encontrava
a Fazenda São Rafael.
Silvio Barros de Vasconcelos e José de Sousa Nogueira. A
commissão resolveu, para maior ordem dos trabalhos, submeter os candidatos a
duas provas. A primeira foi eliminatória e a segunda serviu para a selecção
definitiva entre os melhores escalados, ficando classificados os Srs. Waldemar
da Costa Gonçalves, em 1º lugar; Kenard de Freitas Galvão, em 2º; Hermany
Soares, em 3º e Rossini Lyra Albuquerque, em 4º, que estão, desde hontem, á
disposição do Sr. Francisco Salles, a fim de serem submetidos a diversas
experiências no microfone da nossa PRI-4, em suas proximas irradiações.
Depois, então, com a prática do serviço, serão escolhidos os dois 'speakers'
oficiais da Radio Diffusora.
Após sua inauguração, a Rádio Difusora da Paraíba
manteve no ar uma programação experimental, funcionando das 18 às 22h 30min,
de segunda a sábado; aos domingos ia ao ar apenas das 11 às 13 horas.
Nesta fase inicial, havia poucos aparelhos receptores na cidade, apenas
10, quase todos de marca holandesa. Como se aproximava o Carnaval, a emissora
dedicou horário a músicas da época, como se pode verificar na programação
do dia 30 de janeiro (A União, p.3).
Convém lembrar que a coluna Vida
Radiophonica, do jornal oficial, divulgava diariamente a programação da Rádio
Difusora.
|
18,00
ás 18,45 – Gravações sellecionadas 19,30
ás 20,00 – Programa carnavalesco com a Jazz da PRI-4 20,00
ás 20,15 – Jornal Official 20,15
ás 20,30 – Quarto de hora com Maruim e Regional da PRI-4 20,30
ás 20,45 – Quarto de hora dos estudantes 20,45
ás 21,00 – Quarto de hora com a Orchestra de sallão 21,00
ás 21,15 – Serviço de Informações 21,15
ás 21,30 – Quarto de hora com Lucy Campos e Arnaldo Tavares 21,30
ás 21,45 – Quarto de hora com Aderson, Joel e Seunat 21,45
ás 22,00 – Quarto de hora com Nelie e Seunat 22,00
ás 22,15 – Quarto de hora com Esmeralda e Orlando Vasconcelos 22,15
ás 22,30 – Quarto de hora com Jaime Bezerra e Annita Tavares 22,30
– Bôa Noite |
Francisco Vergara, representante da firma Byington &
Cia., promoveu na sede do Sindicato dos Comerciários, na rua Duque de Caixas,
às 20 horas do dia 30 de janeiro de 1937, a retransmissão do jogo entre Brasil
e Alemanha, realizado no Rio de Janeiro. A recepção só foi possível com a
instalação de um possante aparelho marca Cruzeiro,
fabricado pela firma Byington.
Apesar do aparato publicitário oficial no dia da inauguração,
a estação ainda não se encontrava totalmente pronta para funcionar.
A pressa em colocar a Rádio no ar por parte do governo deveu-se à
proximidade do aniversário da gestão Argemiro de Figueiredo, e por isso as
instalações da Difusora não preenchiam, ainda, os requisitos técnicos que
permitissem aos ouvintes uma boa recepção. A
União (4 fev. 1937, p.8) noticiou:
Aviso aos radio-ouvintes – O Departamento Official de
Propaganda e Estatística comunica que a PRI-4 (Radio Diffusôra da Parahyba)
está irradiando em experiência, em virtude de ser necessário um período de
20 a 30 dias, para que a nova emissora esteja com as suas installações
totalmente concluidas e com a sua alta potência attingida, uma vez que a nossa
Estação de Radio está funcionando actualmente, somente com um quinto da força
que deverá ter. O ‘studio’ da PRI-4
[...] ainda não está, também, com as suas installações ultimadas, o que
se realizará em breves dias além de ser necessário, para sua maior efficiência,
de um cabo de ligação para a Estação de Radio, localizada na Fazenda
S.Rafael, já rencommendado no sul do país, sendo utilizado fio de ligação
provisório, sem a eficiência que deveria ter. Assim, diante das razões de
ordem technica o Departamento Official de Propaganda e Publicidade do Estado,
faz ver aos radio-ouvintes, que os defeitos naturalmente observados na captação
das nossas irradiações, serão corrigidas com a continuidade das experiências
e conclusão da apparelhagem necessaria ao pleno funcionamento e inauguração
official da emissora do Estado
Dentro de pouco tempo já começavam a sair do anonimato os
artistas que iriam se destacar no cenário Radiofônico nacional.
Um deles, Severino Araújo, mereceu o seguinte destaque na Vida
Radiophonica (A União, 20 mar.
1937, p.3):
Vamos iniciar esta secção destacando a atuação eficiente
de Severino Araújo, no ‘studio’ da PRI-4. É um cabôclo bom no clarinêto.
Possue uns dêdos inquietos e agilíssimos. Parecem vibrar impulsionados por
alguma corrente eletrica. Se, pelo receptor, notamos essa excelente agilidade,
dentro do ‘studio’, observando-o de perto, nós ficamos surpreendidos com os
seus movimentos. Os dedos de Severino Araújo, no clarinêto, descrevem
verdadeiras expirais que divertem e entusiasmam.[...]
Mas, não é somente no clarinêto que ele faz prodígios. No saxofone, também
é bamba. Hontem, ele pôs em funcionamento os dois, em quartos de hora
distintos. Chôro, frevo, o diabo, mesmo.
Em 15 de abril de 1937, foi autorizada a mudança de nome da
emissora que, em homenagem aos primitivos habitantes da Paraíba, os índios
Tabajaras, passou a chamar-se Radio Tabajáras
da Parahyba; por questões de publicidade, o nome seria alterado depois para
Tabajara. A União (16 abr. 1937, p.
2) comentaria que “É uma justa
homenagem que se presta à grande tribo Tabajara, que comandada pelo valente
cacique Pyragibe, nos primórdios da civilização brasileira, teve uma influência
notável e digna de homenagens do espírito moderno que orienta a formação
intelectual do Brasil”.
O Interventor paraibano devotava grande afabilidade pela
emissora, demonstrada nos 287:685$947 gastos com a instalação da Rádio
Difusora (MELLO, 1987, p.8), compreendendo
a construção dos edifícios, primeira parcela contratual de despesas com
equipamentos técnicos em nome da Casa Byington, despesas com fiscalização e
serviços gerais. Ao prestar contas das suas realizações no ano de 1937,
Argemiro informou que mais de onze mil contos de réis foram gastos com “empreendimentos
de utilidade pública” entre os quais a construção dos dois edifícios
para a emissora. O interesse demonstrado por Argemiro de Figueiredo pela nova
emissora foi comentado por Orlando Vasconcelos, cantor e locutor-chefe da Rádio
Tabajara (SANTOS H., 1960, p. 15):
Ele
se incluía entre os mais atentos ouvintes da rádio, e, muitas e muitas vezes,
ia, pessoalmente, assistir no auditório a programação do dia. Quando ouvia os
programas em sua residência, também manifestava a sua opinião sobre os seus níveis.
Sentia-se nas suas expressões que, não obstante ser o nosso Governador, era
ele, além do mais, um homem que gostava do rádio e o aplaudia e prestigiava.
Em dezembro de 1937, Argemiro de Figueiredo assinou ato
transformando o Departamento Oficial de Propaganda e Publicidade em Departamento
de Estatística e Publicidade e vinculando a Rádio Tabajara ao Departamento o
qual passou a contar com três setores: estatística, propaganda e Radiodifusão.
O diretor do Departamento durante muito tempo foi o educador José Baptista de
Mello. Argemiro anunciou que as mudanças iriam beneficiar o setor de Rádio,
principalmente a sua parte técnico-artística, que passaria por grandes
reformas. A promessa materializou-se na construção de dois prédios que
abrigavam os estúdios, na Avenida Rodrigues de Aquino, antiga Rua da Palmeira e
os transmissores, no final da avenida Pedro II, na Mata de Buraquinho.
A emissora continuou instalada no prédio da Imprensa Oficial, na Praça
João Pessoa, até a conclusão das obras dos edifícios. O edifício central
concebido para abrigar a Rádio Tabajara foi obra do engenheiro-arquiteto
Clodoaldo Gouveia e encontrava-se entre os cinco primeiros projetos a serem
executados no país destinado exclusivamente para emissoras de Rádio (Rádio
Nacional do Rio de Janeiro, Cultura de São Paulo, Farroupilha de Porto Alegre,
Clube de Pernambuco e Tabajara). Para a elaboração do projeto foram convidados
pelo governo do Estado engenheiros alemães que prestaram assessoria aos técnicos
brasileiros na construção do edifício. No final da década de 70, a Rádio
Tabajara mudou-se para instalações provisórias na Avenida João Machado. Na
mudança, uma parte do acervo de milhares de discos em 78 rotações quebrou-se
ou perdeu-se e ninguém dá conta do restante dos discos. O antigo edifício da
Rua Rodrigues de Aquino, conhecido como Palácio
do Rádio, apesar de tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
do Estado, foi demolido para dar lugar ao Fórum da Capital.
Em 1985 a emissora oficial passou a ocupar as novas instalações construídas
em ampla área na Mata de Buraquinho, antiga sede dos transmissores onde ficava
a Fazenda São Rafael.
Poucas vozes se levantaram contra a demolição do antigo prédio
da rua Rodrigues de Aquino. O professor e cineasta Linduarte Noronha, que já
foi diretor do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da
Paraíba – IPHAEP e diretor da Rádio Tabajara entre 1971 e 1974 foi uma
dessas vozes (NORONHA, 1987, p. 29):
A
história da Rádio Tabajara é muito parecida com a de A União: foram ambas destruídas espiritualmente. Arrancadas suas
raízes num Estado que aprendeu a não respeitar suas origens, seus bens
culturais. Uma chamada “elite” que entende ser preciso destruir para
progredir, parece ser dona desta filosofia de final de século. Os alicerces
profundos da Tabajara implantados por Argemiro de Figueiredo, em 1937, não mais
existem. As duas unidades [estúdios e transmissores], símbolos de uma época do surgimento da informação eletrônica, de
inestimáveis valores arquitetônicos [...] foram decapitados com extrema violência [...] A História da Rádio Tabajara tem um dia de ser escrita. As pesquisas
ainda não foram feitas. Seus fundadores estão esquecidos. Sua memória
ignorada pelas gerações de hoje. Não acuso os fazedores do rádio de hoje,
porque o próprio rádio sofreu transformações profundas nas últimas décadas.
O que está em pauta é o método de destruição desta cidade, deste Estado,
nas suas raízes, o seu status
desaparecido e de difícil reparo. [...]
em tudo isso a Tabajara foi pioneira e nada disso existe mais para sua comprovação,
hoje.
Continuando a reproduzir o modelo do Estado Novo o Governador
paraibano cuidou de fortalecer-se junto aos políticos do interior utilizando,
para isso, o novo veículo de informação que ele havia ajudado a implantar.
Em quase todas as cidades do interior, os prefeitos montavam sistemas de
alto-falantes nas praças principais com a finalidade de retransmitir a música
irradiada pela Rádio Tabajara e também o noticiário do governo, levado ao ar
quinze minutos antes de A Hora
do Brasil. Na maior parte dos
programas, o próprio Argemiro ocupava o microfone para prestar contas de sua
administração. Ao completar cinco anos de governo, em 1940, o Interventor
falou pelo microfone da Rádio Tabajara instalado no Salão de Honra do Palácio,
em solenidade que teve início às 19h 20min. Foram inauguradas 65 obras no
Estado, incluindo, na capital, melhoramentos no Parque Solon de Lucena que teve
calçamento novo e fonte luminosa. A Praça, inaugurada às pressas para as
comemorações do Centenário da Independência, também sofreu reformas.
Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial após o
torpedeamento de navios brasileiros em que pereceram alguns paraibanos, os
simpatizantes do nazismo na Paraíba deixaram de se manifestar.
Anunciava-se reviravolta na Europa com a ofensiva russa de inverno e a
retomada da iniciativa americana no Pacífico. Cada vez mais se ouvia o Repórter
Esso nos aparelhos receptores sintonizados nas Ondas Curtas da Rádio Nacional.
A Rádio Tabajara programou a transmissão dos boletins noticiosos da BBC de
Londres informando o andamento do conflito na Europa.
Nas mesas dos
bares do Ponto de Cem Réis as pessoas acompanhavam a BBC com ares de quem conspira, escutando as transmissões que a
emissora fazia para o Brasil pela Rádio Tabajara. Segundo EGYPTO (1987, p. 23)
A dificuldade inicial do ouvinte era motivada pelo fato de
haver poucos aparelhos receptores na cidade. Em Cruz das Armas, por exemplo, três
ou quatro comerciantes possuíam seus Philips (holandês ou matador)[denominações
populares que eram dadas aos receptores] e Pilot. A massa se comprimia nas
calçadas dos ricos para ouvir, por obséquio, as transmissões de jogos ou
noticiários da II Guerra Mundial, através da Rádio Nacional do Rio de
Janeiro, da Rádio Clube de Pernambuco e da Rádio Tabajara da Paraíba. Nas
recepções externas, os rádios davam tantas descargas que os poucos e vaidosos
donos faziam média junto aos ouvintes: ‘essa zoada é o som das
metralhadoras, em campo de guerra, diretamente da Alemanha’. E alguns incautos
engoliam a fanfarronice.
Telegrama da United Press International – UPI - enviado às
emissoras da Paraíba comunicava (WANDERLEY, op. cit.):
Bayeux tinha mais de 6.000 habitantes, sendo famosa pelas
suas tapeçarias [em quadrinhos] que
mostravam cenas da conquista da Inglaterra por Guilherme, o Conquistador.
Os Diários Associados promoveram campanha para dar o nome de
Bayeux a uma cidade brasileira. A
escolha caiu na cidade paraibana de Barreira que, situada entre a capital e a
cidade de Santa Rita, faz parte, atualmente, da Região Metropolitana de João
Pessoa. A capital mudou durante a guerra. Soldados do Corpo de Bombeiros
empenhavam-se em entregar nas residências as cartas de convocação para o
serviço militar. Às vezes, durante a noite, eram realizados exercícios de
blecaute: as sirenes tocavam alto marcando o início e o fim do exercício de
defesa antiaérea. O 22º Batalhão transformou-se no 15º Regimento de
Infantaria e o Serviço Geográfico do Exército instalou-se em João Pessoa
construindo um quartel na avenida Epitácio Pessoa que se transformaria no 1º
Grupamento de Engenharia e Construção. Houve falta de leite em pó e manteiga
e instituiu-se um rígido racionamento de gasolina. Circularam boatos segundo os
quais os alemães desembarcariam no litoral paraibano penetrando nas matas de
Rio Tinto, onde haveria um castelo à espera de Adolf Hitler.
Havia no Ponto de Cem Réis um serviço de alto-falantes
instalado no sótão de um antigo prédio onde funcionava o Café Santa Rosa,
pertencente a Genival Macedo, que denominou o empreendimento de Serviço
de Alto-Falantes Arapuan. Tocando o negócio, ia conseguindo sobreviver à
custa do comércio, porém depois de certo tempo colocou-o a venda. Orlando de
Vasconcelos, locutor e cantor, que foi um dos diretores da Rádio Tabajara,
adquiriu o serviço de alto-falantes e reorganizou-o à sua maneira, promovendo
alterações técnicas que proporcionaram melhor qualidade de som.
Como era bem relacionado no comércio, não teve dificuldade
em fazer prosperar o serviço, que chegou a possuir uma boa discoteca e muitos
anunciantes. Ambicionando
horizontes maiores para o seu empreendimento Radiofônico e contando com a ajuda
do Radiotécnico José de Oliveira nas horas vagas depois do seu expediente na Rádio
Tabajara, Orlando de Vasconcelos construiu um pequeno transmissor com a
finalidade de irradiar programas artísticos e comícios políticos programados
para o Ponto de Cem Réis.
O primeiro desses comícios realizou-se no lançamento da
candidatura a Senador do Ministro Pereira Lyra, Chefe da Casa Civil da Presidência
da República. Para isso, foi armado um palanque em frente ao cine Plaza, no
Ponto de Cem Réis. Mesmo receoso de uma punição porque não tinha licença do
governo para utilizar freqüência do espectro eletromagnético, Orlando
instalou uma linha telefônica entre o serviço de alto-falantes e o cine Plaza
e transmitiu o comício. Em depoimento a SANTOS H. (1977, p. 56) ele conta que,
no dia seguinte à transmissão foi procurado por um senhor chamado Teófilo de
Vasconcelos: “Quando o homem chegou e me
disse que vinha em nome do Ministro Pereira Lyra, eu disse comigo mesmo: estou
frito. Então foi quando ele me perguntou se eu não queria transformar o meu
Serviço de Alto-Falantes em uma Rádio-Difusora. Cai das nuvens”.
Bibliografia
ALBUQUERQUE, Umbelino Peregrino de. O velho prédio da Rádio
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