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PCLA - Volume 1 - número 2: janeiro / fevereiro / março 2000
AS IDÉIAS DE ANTONIO PASQUALI
NAS DÉCADAS DE 80 E 90.
Alessandra Carvalho
(Faculdades Associadas do
Espírito Santo / Brasil))
Paper apresentado como trabalho
parcial para avaliação da disciplina
"Pensamento Comunicacional Latino-americano",
coordenada pelo Prof. Dr. José Marques de Melo
do programa de Doutorado em Comunicação.
Principais
Links
Introdução
O Marco Contextual
Latino-americano nos anos 80 e 90
A Problemática da comunicação de massa
Pensamento de Pasquali na última década
Limitações e Perspectivas
Referências Bibliográficas
Outras fontes bibliográficas
Notas
POR UMA MORAL DA COMUNICAÇÃO NA
AMÉRICA LATINA
O PENSAMENTO E A PRÁTICA
COMUNICACIONAL DE
ANTONIO PASQUALI (1980-1990)
1.
Introdução
Antonio Pasquali graduou-se em
Filosofia na Venezuela, país onde nasceu e desenvolve suas pesquisas, e obteve o título
de doutor em Filosofia pela Universidade de Paris. Foi professor de Ética e Filosofia na
Universidade Central da Venezuela, mas seu trabalho mais conhecido está no campo da
crítica à comunicação de massa.
Poderia ser mais um filósofo a
estudar a comunicação, mas suas idéias pioneiras na década de 60 na América Latina
fizeram com que o pesquisador se tornasse um expoente neste campo. Foi neste período que
ocorreu a publicação considerada mais importante pelos estudiosos de comunicação
latino-americana. O livro "Comunicación y Cultura de Masas"(1963) instaurou uma
nova época na pesquisa em comunicação, trazendo uma crítica à pesquisa funcionalista
e conformista praticada nas escolas de comunicação do sub-continente.
Considerando a importância do
estudo do pensamento deste pesquisador e da sua contribuição à formação de um
Pensamento Latino-Americano de Comunicação, é que objetivamos fazer uma análise da
evolução da sua obra nas décadas de 80 e 90.
Neste trabalho de resgate da obra
de Pasquali, procura-se contribuir para a formação de um banco de dados sobre a
importância deste pesquisador para o pensamento comunicacional latino-americano.
Destacam-se os marcos contextuais nos campos acadêmico, sócio-econômico e político; as
abordagens teórico-metodológicas da produção; além de uma observação das
perspectivas e limitações do pensamento do autor venezuelano.
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2. O Marco Contextual Latino-americano nos anos 80 e 90:
2.1. Acadêmico:
Foi na década de 60 que Antonio
Pasquali marcou sua contribuição na gênese de um pensamento comunicacional da América
Latina, quando publica o livro Comunicación y Cultura de Masas. Tanto que ele é visto
como o pai da pesquisa crítica na região por Thomas Tufte (1), quando diz que Pasquali
foi "o primeiro a levantar questões quanto ao uso e atitudes acríticas em relação
à comunicação de massas". Também Rafael Roncagliolo considera Antonio Pasquali
como pioneiro fundador do estudo latino americano de comunicação (2). A posição de do
autor venezuelano se opõe aos estudos funcionalistas predominantes no sub-continente.
Pasquali diferencia comunicação de informação: a comunicação é baseada no diálogo;
enquanto a informação é unilateral, a partir de um transmissor institucionalizado para
um receptor. E essa relação sem equilíbrio é típica de uma sociedade de massas, onde
o transmissor é uma espécie de "um-para-todos" (3) por isso aliena e massifica
e o receptor é "um-de-tantos", cujo valor não se avalia por critérios
qualitativos, mas sim estatísticos.
Nestes estudos percebe-se a franca
influência das idéias dos autores da Escola de Frankfurt, principalmente na questão dos
conceitos de massas e do subdesenvolvimento cultural provocado pelos meios de
comunicação.
Destacando suas reflexões
críticas explícitas e a tentativa de formular uma nova teoria da Comunicação, o
pesquisador venezuelano influencia muitos outros pesquisadores na América Latina, além
de repercutir também na formação de grupos de estudos de política nacionais de
comunicação. (4)
Pasquali não só discutia como
tinha uma prática voltada para a política comunicacional. De 1978 a 1989 ocupou
diferentes cargos na Unesco, incluindo o de Subdiretor Geral Responsável do Setor de
Comunicações e em 1992 fundou o Comitê por uma Radiodifusão de Serviço Público na
Venezuela.
Nas décadas que pretendemos
discutir a obra do autor, não houve um outro grande marco na sua produção científica.
Mas a continuação de seus estudos sobre os problemas comunicacionais da América Latina
e principalmente da Venezuela, consolidaram sua opção teórica com base na Teoria
Crítica da Escola de Frankfurt. Essa confirmação fica patente nos livros "La
comunicación cercenada. El caso Vezenuela", publicado em 1990 ; "El orden
reina. Escritos sobre comunicaciones", coletânea de artigos, publicada em 1991; e
"Bienvenido Global Village", publicado em 1998, principais publicações deste
autor nas duas últimas décadas. Neste último, Pasquali faz uma exaltação à Escola de
Frankfurt, quando diz que "as obras desta Escola estão à espera de uma releitura;
nossa frágil e debilitada época necessita respirar novamente nelas o poderoso alento da
última grande filosofia marcada pela obsessão moral". (5)
2.2. Sócio-econômico e político
A conjuntura mundial reflete no nosso
sub-continente no que diz respeito a todos os setores atingidos pelo que chamamos de
globalização, e estamos neste contexto, na posição muito mais de receptores de que de
transmissores.
O contexto
social, econômico e político da América Latina, assim como da Venezuela nas últimas
décadas foi caracterizado pela expansão das comunicações de massa, com ampliação de
novas tecnologias neste setor. E é neste ponto que Pasquali concentra suas atenções. O
eixo principal dos seus estudos mais recentes é a falta de equilíbrio entre a ética e o
uso dos meios de comunicação, ou seja, a dimensão atingida pelas comunicação de massa
não é acompanhada por um dimensionamento equivalente da moral desse uso.
Sua crítica atinge o caráter
comercial adotado pelos meios, valendo-se da referência aos monopólios dos meios em
alguns países como Brasil , o uso para obter o poder político, e a ascensão sem
precedentes da publicidade determinando a sobrevivência das empresas de comunicação. A
Internet recebe atenção especial no capítulo final do "Bienvenido...", onde o
autor declara que a rede mundial de computadores é "o reduto de todas as
liberdades".
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3. A Problemática da comunicação de massa
Pesquisas sobre os Meios de comunicação nas
décadas de 80 e 90:
No prefácio de Comunicación
Cercenada (1990), Pasquali oferece o livro aos "Usuários (6) de todos os meios
de comunicação, com o propósito de apetrechá-los em suas aspirações de melhorar
certas desoladoras realidades nacionais." E continua fazendo seu protesto aos
dirigentes dos meios de comunicação venezuelanos. "Este livro nasce de uma
evidência, de que somos um dos países mais desinformados da terra em matéria de
comunicações em geral, onde os mais interessados entre nós devemos rastrear na seção communication
dos grandes jornais e revistas de fora toda a informação que nos negam os meios
locais; meios que evitam falar de si mesmos como a peste e que assinaram uma espécie de
pacto de não agressão entre si, institucionalizando dessa forma o silêncio
e a desinformação geral."
O livro traz uma série de
informações políticas, dados numéricos e comparativos dos jornais, da televisão, do
rádio, das telecomunicações e do correio venezuelano, funcionando como um indicador da
situação da comunicação no país, além de compará-los a exemplos de países
europeus. É um claro convite para que o próprio consumidor reclame pelos seus direitos,
uma vez que tenha conhecido o outro lado do mundo da comunicação de massa. Antonio
Pasquali se diz cansado de fazer este papel. Ainda no prefácio do livro, ele alerta o
leitor de que não faz análises críticas, característica primordial de seu trabalho,
embora não deixe de mostra-se indignado com a impotência de seus estudos em relação à
mudança da prática dos meios: "quero prevenir o Leitor que não encontrará aqui
discursos predominantemente culturalistas ou ideológicos. Foram privilegiados durante os
últimos trinta anos e não serviram para quase nada. Era como lutar com arco e flechas
contra os canhões de tiro rápido." (7)
Ele afirma não pretender que esse
livro seja uma espécie de manifesto como "Usuários da Venezuela, uni-vos!",
mas que desejaria convencer o leitor "que devemos aprender a pensar simultaneamente
em todos os canais e formas de comunicação, pessoais e sociais, pela elementar razão de
que eles constituem um sistema indissolúvel e porque nada - nem a esfera das decisões
nem da reflexão crítica - o está fazendo assim." (8)
No último parágrafo, ele faz uma
referência à publicação da primeira edição de Comunicación y Cultura de Masas e
lamenta que nos vinte e oito anos que separam as duas publicações não tenha acontecido
mais que indecisões e degradação. Mas, é otimista ao dizer que devemos ser
persistentes e trabalhar para o seguro advento de um amanhecer.
"El Orden reina. Escritos
sobre comunicaciones" (1991)
É uma coletânea de artigos
publicados em periódicos venezuelanos, intervenções e participações em conferências
e palestras, congressos e simpósios de 1963 a 1991. Os trabalhos da coletânea são uma
visão dos meios de comunicação de massa e indústria cultural, das questões da ética
e da liberdade da comunicação e da relação comunicação e cultural e suas
perspectivas venezuelanas e latino-americanas. O título do livro é uma referência a
Nova Ordem econômica surgida após a guerra do Golfo Pérsico. Segundo Pasquali, "a
nova ordem internacional perdeu todos os adjetivos limitantes, não é econômico nem da
comunicação: é global" (9). No prefácio, o autor indica que entre o apocalipse e
o intreguismo fica o caminho difícil da transparência democrática, onde seria apenas
necessário recorrer ao sentido original de comunicação para recordar que comunicação
é democracia.
Critica a classe de marketing
social mestiça que coloca na mesma vitrine papel higiênico, obra de arte, salsichas e
guerras. Essa vitrine é a televisão latino-americana, onde tais produtos são divulgados
segundo as mesmas estratégias de mercado, colocando o publicitário como o melhor e mais
eficaz comunicador.
Defende uma tática de ecologia
cultural para o mundo. Ou seja, a cultura deveria aprender a mesma lição da
biogenética, que conserva as espécies ainda recuperáveis em bancos de genes. Ao
contrário, as grandes indústrias culturais são como grandes liqüidificadores,
produzindo um "tutti-futti" universal e desprezando os valores locais e
não-liqüidificáveis. Aqui faz uma alusão ao fenômeno da globalização e a
homogeneização cultural provocada por esse movimento multidimensional.
Pasquali se posiciona usando um
inflamado discurso frankfurtiano ou apocalíptico, como diria Umberto Eco, quando fala dos
produtos globalizados da indústria cultural: "Veiculados por tecnologias e canais de
alto controle, seus rutilantes produtos serão onipresentes e oniacessíveis; seus
refinados know-how e redes de mercado, irreproduzíveis e imbatíveis; o nível de
satisfação do condicionado usuário mundial tão elevado, que serão os próprios
consumidores - competindo com o platônico escravo da caverna súcubo dos simulacros - que
intentarão linchar quem pretenda regressá-los a uma cultura doméstica, a qual lhe
parecerá sempre mais arcaica e ridícula".(10)
Sobre o comentário acerca do
posicionamento de Pasquali, o próprio diz no prefácio do livro que "se uma visão
realista que resulte pouco alentadora pode ser chamada de catastrófica, o leitor fica
livre para me colocar no campo dos apocalípticos, sem temer
ofender-me"(11). E termina concluindo que as etiquetas manuseáveis segundo o humor e
a circunstância, têm efeito, mas no final são irrelevantes, pois existem critérios
sócio-culturais e históricos suficientemente sólidos para fundamentar as análises
expostas no livro.
"Bienvenido Global
Village" (1998)
Foi o último livro publicado por
Pasquali, também reúne alguns artigos publicados em revistas de comunicação na década
de noventa(12). O livro é dividido em duas partes, sendo a primeira constituída de uma
tentativa de sintetizar as idéias lançadas nos artigos, como a busca de uma dimensão
moral (ele prefere falar de moral que de ética) da comunicação, já que defende que a
necessidade maior da nossa época é criar uma nova moral, um espírito "tribal"
de solidariedade, de uma comunicação aberta com o outro; e uma tentativa de fazer uma
"leitura moral" da Venezuela; um outro texto sobre a cidade (o urbano) como um
instrumento de comunicação; o último texto da primeira parte é uma discussão acerca
de uma possível paz entre o logos e o ícone, onde o pesquisador venezuelano apresenta
algumas informações sobre a preponderância da imagem sobre a palavra nos dias atuais
nos meios de comunicação. Ele questiona se haveria a possibilidade de uma convivência
tranqüila e perpétua entre o audiovisual e o impresso. Ele assinala sempre que a
América Latina é a região mais atípica do globo, por ser extremamente comercial, e sem
ter experiências válidas de serviço público.
Na segunda parte de
"Bienvenido.." ele reúne dados atuais sobre o desenvolvimento das
comunicações no mundo e as brechas que aumentam entre os países ricos e os pobres.
Propõe uma discussão sobre a criação de uma radiotelevisão pública, dando
diagnósticos regionais e um projeto de lei orgânica da radiotelevisão, que o Comitê
fundado por Pasquali publicou na imprensa de Caracas em março de 1985. O último texto do
livro é "Um breve introito a Internet", onde o autor dispões suas idéias
sobre este mais novo meio de comunicação mundial.
A Internet para Pasquali é um
fenômeno carregado de contradições devido ao seu uso. O primeiro parágrafo do texto
sintetiza a visão do autor sobre a rede de computadores:
"Internet? Uma feliz
dissolução em interatividade da velhas ditaduras unidimensionais, políticas e de
mercado, no campo das comunicações. O último tranquilizante universal, com desvio
automático de contestadores exibicionistas ao arquivo morto do anonimato. Um avanço
tecnológico com hormônios, sobrecarregado de ciberexplicações de efeito. A
arma final da mercantilização globalizada. O instrumento realmente definitivo para a
democratização do saber.(...)A fronteira final da liberdade de empresa e de comércio. O
último ato de decadência do Ocidente, em uma incontrolável orgia de obscenidades,
ilegalidades e violências. O reduto de todas as liberdades..." (13)
Nesta última obra de Pasquali, seu
referencial teórico é proclamado no capítulo primeiro, quando considera a necessidade
de uma nova moral antropocêntrica baseada na ação recíproca entre agente e paciente,
que foi formulada em dois grandes momentos: a Filosofia Crítica da Sociedade, que segundo
o autor tem sido esquecida em detrimento de novas modas, antes mesmo de muito do seu
complexo discurso tenha sido aproveitado; e o outro é a Filosofia da Linguagem. Destaca
dois autores com obras fundamentais nestas duas áreas. Habermas e sua "Teoria da
Ação Comunicativa" (1981) e "Moral e Comunicação" (1983); e Ch. Morris
com seus estudos de semiologia. Ele retoma o conceito de diálogo em Habermas, um tomar
de decisões conjuntamente; e o conceito de pragmática de Ch. Morris, a ciência
das relações dos signos com seus intérpretes. Pasquali considera que se
reuníssemos os pontos conceituais e empíricos da filosofia moral e da linguagem,
conseguiríamos viabilizar o projeto de elaborar uma Moral da Comunicação.
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4. O Pensamento de Pasquali na última década:
4.1. A análise sobre a Aldeia
Global:
No capítulo 5 do livro
"Sociologia e Comunicação" (1973), Pasquali fulmina Marshall McLuhan por seu
"Understanding Media". O venezuelano critica ferrenhamente, dizendo que "o
tanque ideológico de McLuhan não respeita tradições: trinta anos de Sociologia das
Comunicações são tornados vãos e ridicularizados pela investida de sua argumentação;
os mesmos argumentos que utilizam os gerentes da indústria cultural, mas colocados em
bela forma por seu culto exegeta."(14)
No livro "Bienvenido ao Global
Village" (1998), ele passa a defender McLuhan, dizendo que o pai do conceito de
aldeia global "nunca chegaria a suspeitar, podemos estar certos, que sua fé
católica em uma tecnologia liberadora e democratizadora (...) seria objeto
com o tempo de uma inquietante metamorfose de sentido, nem que de sua aldeia global
sairiam poderosos e arrogantes caciques".(15)
Nos parece muito contraditório
esse discurso de Pasquali? Mas referindo-se à Galáxia de Gutenberg (1962), do autor
canadense, o latino-americano reconhece em "Bienvenido..." que McLuhan é
"um dos autores mais mal citados pelo estamento gerencial até os anos 80. A parte
medular e realmente reveladora de sua concepção da aldeia global cabe em duas
sentenças: os descobrimentos eletromagnéticos tem possibilitado uma simultaneidade
de todas as questões humanas, ao ponto que a família humana vive agora em condições de
aldeia global", e "... nós podemos agora não mais viver como anfíbios,
primeiro em um mundo depois em outro separado e diferente do anterior, se não plural e
simultaneamente em muitos mundos por vez. A interdependência eletrônica tem
recriado o mundo à imagem e semelhança de uma aldeia global." (16)
Pasquali reconsidera seu pensamento
sobre McLuhan, admitindo que este polêmico autor empregou a dita expressão sem a menor
conotação economicista, pois estava imerso em uma camada intelectual e sócio-política,
que fez com que as noções de mundo e de família humana conservassem o valor dentro de
seu coração e mente.
É a partir dessa retomada do
conceito de aldeia global, globalização e mundialização, que Pasquali discute a nova
ordem mundial na sua recente obra. A globalização nada mais é de que um intento de
cosmocracia, aparentemente sem centros nem periferias e de face imperialista e ortodoxa,
que coloca em jogo a democracia, o pluralismo e a diversidade. O mundo parece ser um só,
pois a estratégia da globalização e sua visão economicista é adaptação de acordo
com estratégias que são "coca-cola", onde se dá um rpoduto para a humanidade
inteira e "nescafé", com diversas versões do mesmo produto, um para cada
mercado.
Longe do conceito moralista e
católico de Aldeia Global, a interatividade vislumbrada por McLuhan hoje é apenas uma
farsa, uma caricatura, sem verdadeira interdependência nem reciprocidade total. A aldeia
de hoje só garante um pleno acesso dos aldeãos, mas não pressupõe a troca de
informações em igual fluxo. A Internet é o instrumento que permite hoje de certa
maneira compreender muito mais facilmente que na década de 60 essa noção da
interdependência eletrônica.
O ponto de debate de Pasquali recai
não na realidade da proliferação das tecnologias e o avanço na comunicação mundial,
mas sim no uso destes instrumentos para o controle mundial pelos grandes mercados, e na
falta da moral na comunicação atual, onde não se privilegia a troca de informações,
como seria em uma aldeia, mas se busca cada vez mais os monopólios e a centralização do
poder.
A Internet é considerada pelo
venezuelano o terreno onde tudo pode se dar, e fica num impasse se ela é uma selva ou um
jardim, tão grandes são as possibilidades de se encontrar faces boas e ruins na rede.
Destaca dois fatos como certos: a Internet veio par impor as regras da multimídia e
envelhecer a TV tradicional, e radicalizar ainda mis a brecha entre ricos e pobres; e,
também, um grande ponto convergente de discussões, pela sua contradição, uma vez que
ao mesmo tempo em que oferece serviços, também permite navegar no mundo da pornografia e
da falsificação de documentos.
Recorre a Enzensberger (1970) para
dizer que o que era uma utopia em sua época, era também uma "diáfana e solitária
anunciação da Internet". Enzensberger acreditava que em uma nova sociedade, cada
aparelho receptor se converteria em transmissor de mensagens. Esse é o lado bom da
Internet. O lado obscuro se dá pelo controle silencioso do acesso e da navegação na
busca de informações. Pasquali retoma mais uma vez o pensamento enzensbergiano par falar
dessa contradição: "Enzensberger escreveu em 1970 que um controle absoluto das
comunicações era impossível: com a Internet, isso já é possível. A Internet é uma
mescla de liberdade e controle absolutos"(17). Pasquali refere-se às espionagens dos
Estados Unidos sobre telefones, dados, e-mail e todo serviço de telecomunicações
europeus.
O venezuelano não encobre a
contradição de seus pensamentos sobre a rede mundial de computadores quando diz que ela
é tão revolucionária, mas também tão alienante.
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5. Limitações e Perspectivas
Não pretendo elaborar uma crítica
acirrada ao trabalho de Antonio Pasquali, reconhecido pioneiro e estimulante de um
pensamento comunicacional latino-americano, mas antes de tudo fazer meus protestos pela
falta de reconhecimento num trabalho mais aprofundado sobre este autor, propriamente um
filósofo da comunicação na América Latina.
O que ficou de Antonio Pasquali
pioneiro da década de 60 nos dias atuais? Felizmente, podemos dizer, o pesquisador
venezuelano não só se preocupou em estudar os fenômenos comunicacionais de seu tempo,
como também engajar-se nos movimentos políticos ligados à comunicação e seu país em
organizações mundiais, como a Unesco.
Nas décadas de 80 e 90, Antonio
Pasquali confirma suas bases teórico-metodológicas frankfurtianas, para quem tinha
dúvidas sobre um possível caráter funcionalista, na sua metodologia de averiguação de
dados. Mas como poderemos clasificar um pensador da emergente Escola Latino-americana de
Comunicação, fundada ela mesma, no hibridismo e mestiçagem de teoria e metodologias?
Neste ponto, Pasquali não esconde sua localização e reserva ao leitor o direito de
chamá-lo de apocalíptico, se isto for o ideal para um discurso realista, diz ele.
Partindo destas afirmações e
confirmações pasqualinas, podemos entender que os limites do autor são os mesmos das
molduras com que trabalham a escola de Frankfurt. Ou seja, a visão crítica negativa da
sociedade de massas, onde os Meios de Comunicação são os flagelos da cultura e da
humanidade.
Mas, apesar da opção
metodológica parecer uma camisa-de-força, Pasquali, mostra seu diferencial, numa
espécie de inspiração desse hibridismo recorrente da Escola Latino-americana de
Comunicação. Ele é um crítico mordaz, mas ao mesmo tempo tem a esperança de que a
situação mude para a melhor, numa utopia convergente não só nos capítulos e
parágrafos finais de seus textos, como na sua prática política, formando, por exemplo,
associações não-governamentais em defesa de um sistema de radio e televisão públicos,
e escrevendo livro para o usuário dos meios, uma espécie de guia do consumidor em alto
estilo. No seu último livro, ele diz que o conhecimento precisa sair da Academia e ir
para as ruas. Ou seja, apesar de seu fundamento doutrinário ser visto como um pensamento
catastrófico, sem perspectivas, Pasquali se opõe e consegue ver um fim utópico. Um
exemplo patente deste seu misto de visão de mundo é a acolhida que dá a Internet na sua
análise, considerando-a uma grande avanço tecnológico e comunicacional, permitindo a
ampliação de fronteiras; ao mesmo em que observa o quanto ela é prejudicial à
identidade das culturas.
Então não podemos concluir acerca
das perspectivas do trabalho de Pasquali, nada além do que ele mesmo não tenha
vislumbrado. Em mais de 35 anos de pesquisa, o filósofo venezuelano vem mantendo sua
fidelidade teórico-metodológico nas análises da comunicação na América Latina.
Seu otimismo em relação ao futuro
da comunicação neste sub-continente, como diz ele, mesmo trabalhando com números e
dados concretos é que nos parece muito evasivo, para não dizer vazio de uma perspectiva
científica. Numa visão utópica cheia de uma esperança quase católica para a
transformação da participação da comunidade nos meios de comunicação para uma
sociedade mais democrática. Soa como um disparate. Mas como já se ressaltou antes, é
essa fé quase cristã à espera de um milagre que move o trabalho de denúncia do autor e
sua luta por reformas de leis.
Antonio Pasquali não tem
desenvolvido nestas duas últimas décadas um pensamento que seja expoente ou marcante
diante dos demais. Sua participação especial ficou marcada quando da emergência da sua
reação crítica à tradição funcionalista, quando não simplória das pesquisas na
América Latina. Mesmo assim, seus estudos e pesquisas continuam voltados para a análise
da sociedade de massas e seus meios, numa busca interminável de poder dizer a todos que o
mundo é ruim, mas a esperança não deve ser perdida.
Para finalizar, transcrevemos os
dois últimos parágrafos do capítulo cinco do "Bienvenido.." de Pasquali para
dar o tom de sua filosofia centrada na realidade, semelhante ao negativismo dos
apocalípticos, mas ao mesmo tempo usando um pouco do discurso dos integrados. Como em
comunicação não há meio termos, diria Pasquali, preferimos dizer que é semelhante ao
discurso de Marshall McLuhan defendido pelo pioneiro da Escola Latino-americana na sua
última obra:
"Que podemos esperar?,
perguntava Kant; e logo depois nos recordava que, ex profundis, ficam ao homem dois
valores que não podem ser suprimidos, e que nos seguiram procurando maravilhas por
séculos e séculos: um deles, a Lei Moral que está em nós.
"Esperemos com fundamento e
ativamente que nossos filhos - resgatando interpretações não adulteradas dessa lei - o
façam melhor que nós e que (..) reinventem a família humana , e a assentem em
aldeias dignas para morar." (18)
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REFERÊNCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
Obras de Antonio Pasquali usadas neste trabalho
PASQUALI, Antonio. Comunicación y cultura
de masas. Caracas, Universidade Central de Venezuela, 1963.
________ El orden reina. Escritos sobre
comuniciones. Caracas, Monte Avila, 1991.
________ La comunicación cercenada. El caso
Venezuela. Caracas, Monte Avila, 1990.
________ Bienvenido Global Village. Caracas,
Monte Avila, 1998.
________ Sociologia e Comunicação.
Petrópolis, Vozes, 1973.
________ La dimension moral del comunicar, in: Anuario
Ininco.
Investigaciones de la comunicacion. Caracas, Universidade Central de Venezuela, 1996-97.
________Esbozo de un subcontinente
incomunicado. in: Perfiles de América Latina. Caracas, Monte Avila, 1992.
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Outras
fontes bibliográficas
CAVALLI, Silvia. O pensamento de Antonio
Pasquali. São Bernardo do Campo, Universidade Metodista de São Paulo, Programa de
doutorado em comunicação, 1998. (mimeo)
CHAFEE, S. , ROGERS, E. e GOMEZ- PALACIO, C.
Mass Comunication
Research in Latin America: View from here and
there. Journalism Quarterly, vol 67, 1990.
MARQUES DE MELO, J. Teorias da
Comunicação. Paradigmas Latino-americanos. Petrópolis, Vozes, 1998.
FUENTES NAVARRO, R. El estudio de la
comunicación desde una perspectiva sociocultural en America Latina. Dia-Logos de la
comunicación 32, 1992.
RONCAGLIOLO, Rafael. Investigación y
Politicas sobre Nuevas Tecnologias de Comunicación en America Latina: una reflexión
personal: in Nuevas Tecnologias y comunicación, Felafacs/Facom/Bogotá, 1986.
TUFTE, Thomas. Estudos de Mídia na América
Latina. Comunicação e Sociedade nº 25, São Bernardo do Campo, Universidade Metodista
de São Paulo, 1996.
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Notas
(1) TUFTE, Thomas. Estudos de
Mídia na América Latina. Comunicação e Sociedade nº 25, 1996. p. 31
(2) RONCAGLIOLO, Rafael.
Investigación y Politicas sobre Nuevas Tecnologias de Comunicación en America Latina:
una reflexión personal: in Nuevas Tecnologias y comunicación, Felafacs/Facom/Bogotá,
1986
(3) Expressão usada por Antonio
Pasquali.
(4) Para maiores informações
sobre os trabalhos deste autor nas décadas de 60 e 70, verificar os papers de Loayza,
Juana Bertha, "Pensamento Comunicacional Latino-americano. O Pensamento e a Prática
Comunicacional de Antonio Pasquali nas décadas de 60 e 70", primeiro semestre de
1999. Umesp.
(5) Pasquali, Antonio.
"Bienvenido Global Village", p. 41. tradução livre
(6) O autor assinala a palavra com
a letra inicial maiúscula. p. 7
(7) p. 9
(8) p. 9
(9) p. 27
(10) p. 17
(11) p. 18
(12) O capítulo primeiro "La
dimensión moral del comunicar" já havia sido publicado no Anuário Ininco,
1996-1997; e o capítulo seis "Semblante de un subcontinente incomunicado" foi
publicado em Perfiles de América Latina, em 1992, com o título "Esbozo de un
subcontinente incomunicado", no livro mais recente ele atualiza alguns dados, como
"há sete anos para o mitificado ano 2000" para "há apenas um punhado de
dias para o mitificado..."
(13) p. 285
(14) p. 149
(15) p. 169
(16) p. 174
(17) p. 295
(18) p. 206
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