
PCLA - Volume 4 - número
2: janeiro / fevereiro/ março 2003
Walter Sampaio o pioneiro na sistematização do
telejornalismo brasileiro
Rúbia
de Oliveira VasqueS
(doutoranda
em Comunicação
Social e
professora da Faculdade de Jornalismo da UMESP, Brasil)
Falar na teoria para quem já sabe na prática
Em
fevereiro de 2000 defendi minha dissertação de mestrado. O Tema: Um estudo
comparativo dos manuais de telejornalismo utilizados nas disciplinas de
Telejornalismo. Minha pesquisa tinha como objetivo mapear as obras didáticas
existentes nesta área, entrevistar seus autores e compara-las. Como a amostra
utilizada foi uma obra publicada por década, tive a grata oportunidade de
entrevistar três autores, entre eles, o precursor da sistematização do
telejornalismo brasileiro.
Minha
entrevista com o jornalista Walter Sampaio foi rica de emoções.
Parecia que eu estava falando com a história viva da televisão.
Tive como ambiente de conversa a sala de reunião do Colégio Carmo, onde
Walter Sampaio era diretor. A referida sala ficava ao lado do pátio, onde a
garotada brincava na hora do recreio. O ambiente me foi favorável porque fiquei
muito a vontade.
“As
fichas que preparava para dar aula e as dúvidas dos colegas, foram a base do
Manual.”
(Walter
Sampaio fala sobre a produção de sua obra).
Walter Sampaio nascido em 21 de julho de 1931, faleceu em 4 de maio de 2002.. O enterro foi realizado às 20h de Domingo no cemitério Memorial na cidade de Santos, litoral do estado de São Paulo.
O
primeiro manual didático de telejornalismo editado no Brasil Jornalismo
Audiovisual foi de autoria do jornalista João Walter Sampaio Smolka, em
1971, pela editora Vozes de Petrópolis em co-edição com a Editora da USP. Sua
carreira profissional se inicia primeiramente no rádio e depois na televisão
para finalmente entrar em uma sala de aula.
Em
1953 começa a trabalhar na Rádio Bandeirantes de São Paulo como redator. Dois
anos mais tarde assume a função de coordenador do jornalismo da emissora, até
1960. Walter participou do Projeto RB 55, ocasião em que a emissora implanta a
reformulação do radiojornalismo, que acaba se tornando modelo no país. A
partir desta data todos os cargos assumidos pelo jornalista foram cargos de direção.
Em
1961 vai para a Rádio Excelsior e Rádio Nacional para dirigir um programa de rádio
que ia ao ar em duas edições (manhã e fim de tarde) cujo público era o homem
do campo. "Era uma sociedade civil – Sociedade Amigos do Interior[1]-
em parceria com as emissoras, que levava ao ar em ondas curtas este programa.
Com 6 meses de atividade o programa recebia cerca de 40 consultas por dia e
contava com uma assessoria da Revista Chácaras e Quintais e da
Secretaria de Agricultura. Os ouvintes faziam consultas e pediam receitas. As
respostas eram lidas no ar e enviadas através de cartas para os ouvintes[2].
O programa fez muito sucesso e teve muita repercussão em todo o país. O Ponto
4 americano[3]
considerou um modelo de comunicação rural na época".
Do
rádio, Walter Sampaio vai para o jornalismo impresso - o Jornal Shopping
News[4],
em São Paulo como Secretário Geral e Secretário Gráfico. Trabalhou cerca de
3 anos e tinha como responsabilidade, além de copidescar as matérias dos
colaboradores, escrever a primeira página do jornal e redigir matérias. "
Eu tinha como função copidescar os textos do jornalista e escritor Emílio Aurélio
que escrevia sobre temas sertanejos. Mas como o redator era italiano de origem
misturava as palavras em português e italiano. Isso, quando não inventava
palavras devido à sua rapidez de raciocínio". Este fato obrigava que
Walter pedisse socorro ao dicionário. Na ocasião, segundo ele, teve também o
prazer de trabalhar com outro jornalista: Emílio Saqueta, redator- chefe do Shopping
News[5].
Walter Sampaio trabalhou também durante dois anos na APRA – agência de publicidade, fazendo pesquisa de opinião pública e mercado. Um dos trabalhos realizados foi a eleição para prefeitura de São Paulo em que competiram Prestes Maia e Emílio Carlos.
Anos mais tarde, foi convidado pelo Henrique Lobo para montar a estrutura jornalística da Rádio Excelsior, e pode escolher e treinar os jornalistas (jovens entre 18 e 20 anos) que trabalhariam na emissora. Para este treinamento, organizou um curso de radiojornalismo, onde eram simulados radiojornais até entrar no ar. Com uma excelente memória Walter relembra alguns nomes famosos que passaram pelo curso: "José Carlos Bittencourt, Roberto Mata, Edson Fernandes, Dalísio".
Foram
6 meses na direção do jornalismo da Rádio Excelsior, até que se afastou,
quando houve uma composição com a Rádio Nacional e a Organização
Vítor Costa, passando a ser assistente da direção artística juntamente
com Henrique Lobo.
Foi
em 1964 que Walter Sampaio começou a escrever crônicas para rádio e televisão.
"As crônicas iam ao ar no horário nobre do rádio, na hora do almoço e
chamava-se “E a vida continua”[6]".
No
ano seguinte foi para a TV Excelsior a convite de Edson Leite e Alberto
Saad, que tinham arrendado a TV. Conta Walter: "A emissora espalhou
outdoors pela cidade com os dizeres: eu também estou na Excelsior".
Walter Sampaio foi convidado para dirigir o telejornalismo da emissora. Esta foi
a sua primeira experiência em televisão, que durou quase três anos, em plena
fase áurea da TV Excelsior.
“Há quem diga que a TV
Excelsior, era a Globo da época. A emissora foi campeã de audiência, campeã
de faturamento, mas mal administrada acabou falindo”.
Em
1966 deixa a Excelsior e vai para o Canal 2 trabalhar com a produção de
programas educativos, com tele-aulas, além do programa de telejornalismo Por
incrível que pareça[7],
que ficou um ano no ar. Depois afastou-se da TV Cultura, indo trabalhar no INPE
– Instituto de Pesquisas Espaciais, como consultor técnico, do Projeto SACI
– Satélites Avançados de Comunicações Interdisciplinares. A intenção do
projeto era criar satélites para geração de aulas de curso primário para
atender regiões carentes do Brasil, além da formação do professores leigos.
Sua permanência neste projeto foi de um ano[8].
Walter Sampaio foi o responsável pela formação das primeiras turmas de produção.
No ano de 1967 Walter Sampaio assume a direção das Emissoras Associadas Rádio e TV, Rádio Tupi, Rádio Difusora e Tv Tupi- canal 4, durante exatos dois anos.
Foi
em 1966 concomitantemente depois de 15 anos de experiência na área de Rádio
e Televisão, como autodidata em jornalismo, é que surge a ECA em sua vida.
"Foi nesta ocasião, que a USP decidiu criar a Escola de Comunicações
Culturais e criou uma comissão chefiada pelo professor Júlio Garcia Morejón,
catedrático em Língua e Literatura Espanhola. Morejón procurou o sindicato
dos jornalistas e dos radialistas para indicar pessoas para compor esta comissão
e estruturação da escola".
Segundo Walter, o sindicato dos jornalistas não se manifestou, mas o sindicato dos radialistas era presidido na época pelo ator Carlos Zara, que trabalhava com o Walter Sampaio, no canal 9. "Zara me procurou informando que a USP estava montando um curso de comunicações, jornalismo, publicidade e propaganda, cinema e documentação. Alegando não ter tempo sugeriu que o Walter participasse dessa comissão representando o Sindicato dos Radialistas".
Foi assim que Walter se aproximou da Universidade participando das reuniões, até que foi criado o projeto final daquela comissão. "Ao final desse trabalho, o professor Morejón acabou me convidando para ser professor da ECA. Eu agradeci, mas decidi recusado o convite alegando “nunca ter dado aula na vida”. Depois de muito refletir decidi participar como aluno".
Após 14 anos na carreira de jornalismo audiovisual (trabalhando em emissoras de Rádio e Televisão) Walter Sampaio prestou vestibular em 1967, na Escola de Comunicações Culturais (atual ECA/USP). Walter foi aprovado em terceiro lugar. E declarou com orgulho: ”fui fundador da ECA, não como professor, mas como aluno”.
Falar
na teoria para quem já sabe na prática
Quando Walter chegou no terceiro ano do curso de jornalismo, surgiram as disciplinas radiojornalismo e telejornalismo, mas a ECA não possuía professor capacitado. As pessoas que se inscreveram não tinham titulação necessária para ministrar aulas. "O professor José Marques de Melo, que na época era chefe de departamento, da graduação da ECA, convidou-me para ser monitor, e dar aula para os próprios colegas".
E devido a essa necessidade, é que surge a história do Manual, que foi elaborado através de fichas, que eram as aulas que seriam ministradas nas disciplinas de radiojornalismo e telejornalismo.
Segundo
Sampaio, seus colegas de turma deram uma grande colaboração na elaboração do
que se tornaria o primeiro manual de telejornalismo brasileiro, pois tinham dúvidas
que ele nem sequer imaginava. Assim, ia anotando as dificuldades e preparando as
próximas aulas em formato de fichas, ainda mais enriquecidas de informações a
partir dos questionamentos dos alunos.
Ao
final do ano, Sampaio dava as notas a seus colegas baseado em exercícios
realizados em sala de aula. Mas a sua nota (do próprio Walter) era definida
através de reunião do departamento e ele acabava tirando nota 10. No semestre
seguinte a nota se repetiu, afirma com orgulho. Enquanto cursava o quarto ano da
faculdade, Walter Sampaio foi professor também do terceiro ano da disciplina de
rádio e telejornalismo.
Quando
terminou o curso de jornalismo, o professor José Marques de Melo, “grande
responsável por seu manual”, sugere que ele publique um livro fruto dessa
experiência acadêmica. "Graças ao incentivo do professor Marques, a
publicação foi possível através de um convênio entre a Editora da USP e a
Editora Vozes".
O
livro surge no início dos anos 70, ano de sua formatura, fruto de
uma vivência acadêmica e da experiência de 15 anos como jornalista. E em 71,
depois de ministrar aulas como monitor voluntário por dois anos, foi convidado
para ser professor, e contratado pelo Departamento de Jornalismo e Editoração
da Escola de Comunicações e Artes da USP.
Jornalismo
Audiovisual teve apenas duas edições, sendo que, em cada uma delas foram
publicados três mil exemplares. Nesta mesma época surgiram as faculdades de
comunicação no país dentro da expansão do ensino superior com o livro
difundido no país inteiro[9].
Em
1974, já bacharel em jornalismo Walter Sampaio foi convidado para dirigir o
departamento de telejornalismo do Canal 2, onde ficou até 1975. Um de seus
principais trabalhos nesta função foi a cobertura das eleições em que
Orestes Quércia venceu para Senador contra seu adversário Carvalho Pinto.
"Esta cobertura foi um marco na época, pois o jornal O Estado de São
Paulo suspendeu seu próprio serviço de apuração e começou a citar o serviço
de apuração do Canal 2, através da Central de Apuração montada na TV
Cultura. Foi a primeira vez que o Canal 2 foi líder de audiência em São
Paulo".
Até
1975 Walter Sampaio continuou trabalhando em televisão. Mas, a esta altura, já
era professor da FACOS – Faculdade de Comunicação Social[10]
de Santos, do Mackenzie, na área de televisão e da ECA. Quanto à sua não
titulação, além do excesso de trabalho, o jornalista alega que "não
possuía tempo para esta dedicação". Segundo Sampaio, há um artigo no
Regimento Interno da USP, que permite que pessoas com alta qualificação
intelectual, cultural e profissional, pleiteiem a defesa de tese de doutorado,
sem fazer o curso. Assim, ele decidiu entrar com pedido na Instituição, que
foi aprovado pelo departamento de jornalismo, CTA da ECA, mas foi
reprovado no CEPE – Conselho de Ensino e Pesquisa e Extensão.
Nessa ocasião, ele se
desligou da ECA, numa época de crise na Universidade de São Paulo. Walter
Sampaio se aposentou em 1987.
Walter
Sampaio nos últimos anos de vida, ou seja, até 2002 realizava palestras em
Escolas, participava de bancas de mestrado e doutorado na ECA, e prefaciou
recentemente o livro O Rádio no país das Amazonas, que faz um
levantamento da radiodifusão na região do Amazonas. Era sempre convidado a
participar de programas de debates em rádio[11]
e em televisão, na cidade de Santos, litoral do Estado de São Paulo. Ministrou
a aula inaugural no curso de pós graduação Latu sensu, em 1995 anos na
Unisantos. Foi diretor do Colégio do Carmo[12].
Quanto
à sua obra, Walter Sampaio diz não saber “se seu livro é o livro ideal”.
Acreditava que precisaria ser atualizado por ter sido escrito na década de 70,
fruto da experiência profissional e pessoal do autor, somada à experiência
acadêmica. Cita como exemplo, "ainda tratava em sua obra sobre a televisão
em preto e branco[13]".
Walter Sampaio explicou que trabalhou pouco tempo com TV colorida. Embora
considere que seu livro necessita ser revisto, diz que não dispõe de tempo
para este trabalho. E chegou até a fazer um convite: “Este trabalho está
aberto. Quem quiser fazer ...”[14].
Esta
obra se autodenomina como:
“
estruturalmente um manual de trabalho. Simples, sem pretensão de ser completo e
definitivo, mas prático, útil, objetivo. Ademais, escrito por um profissional
com mais de 15 anos de experiência no setor, que buscou padrões universitários
para sistematizar os conhecimentos reunidos em sua faina noticiosa. Tratando das
teorias, técnicas, normas modelos e história do jornalismo no rádio, na
televisão e no cinema, o autor traz a primeira contribuição brasileira a essa
área da comunicação social. Jornalismo audiovisual é o primeiro livro
nacional que enfoca de modo globalizante a comunicação de atualidades não-
impressa. Daí sua significação e utilidade não apenas para estudantes e
professores de jornalismo, mas para os profissionais que fazem quotidianamente
notícias, reportagens, documentários, anúncios, etc., para os veículos
audiovisuais de comunicação coletiva”[15].
O
próprio autor citou o avanço tecnológico ocorrido nos últimos 30 anos. Sua
obra oferece ao leitor, um “ B-A-BA profissional”.
Mas tem uma certeza que "quem seguir aquelas “regrinhas” estará bem
na vida profissional". Para Walter o mais importante de sua obra foi
a coragem do lançamento, porque até então não existia nenhuma publicação
nesta área, foi de certa forma pioneiro na área do ensino de rádio e
telejornalismo.
Walter
Sampaio chega a dizer que "se não fosse o professor José Marques de Melo,
esta obra não existiria, isto porque nunca teve a intenção de produzir alguma
coisa para a perenidade. Este livro foi um trabalho baseado na experiência acadêmica
na USP, onde o jornalista pôde sistematizar seus conhecimentos práticos na área
do jornalismo audiovisual".
[1] Esta sociedade foi constituída por uma agência de propaganda a APRA, que hoje se chama ABRAPE.
[2] Os produtores decidiram responder as cartas pelo correio, devido ao grande número de participações.
[3] O Ponto 4 era um grupo de apoio à extensão rural.
[4] Shopping News foi o primeiro jornal semanal e gratuito de São Paulo.
[5] Para Walter Sampaio esta foi uma de suas maiores experiências no jornalismo impresso, pois acompanhada toda a feitura do jornal, até o seu fechamento na gráfica.
[6] Hoje existe até um interesse da ECA, através da professora Gisela Ortriwano, (discípula de Walter Sampaio) de publicação destas crônicas.
[7] Este programa levava ao ar entrevistas com pessoas que tinha atividades diferentes, consideradas inusitadas naquela época.
[8] Devido a falta de investimento por parte do governo , este projeto acabou ficando reduzido em apenas algumas aulas em Natal, no Rio Grande do Norte.
[9] Jornalismo Audiovisual está com sua Segunda edição também esgotada. E por este motivo, com a devida autorização do autor, o livro consta em anexo em nossa pesquisa, anexo 4.
[10] Walter Sampaio era professor titular das disciplinas de radiojornalismo, telejornalismo e tele-radiodifusão.
[11] As participações acontecem em programas de debates das Rádios Cultura/AM e Atlântica.
[12] Escola que oferece cursos fundamental e médio, em Santos.
[13] Em 1971, quando Walter Sampaio publicou seu livro, a tv colorida ainda não tinha sido implantada no Brasil.
[14] Há uma proposta da professora, da USP, Gisela Ortriwano que pretende reeditar esta obra, já que ela continua na vida acadêmica.
[15] Contracapa da obra.