Cátedra Unesco de Comunicação para o Desenvolvimento Regional

A R T I G O S

P E R F I S

E N T R E V I S T A S

P R O J E T O S

R E S E N H A S

C A L E N D Á R I O

Carta à redação

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PCLA - Volume 1 - número 1: outubro / novembro / dezembro 1999

A trajetória de um pioneiro

Nicolau José Carvalho Maranini
(Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro / Brasil)

 

Principais Links

Introdução

Os Primeiros Estudos

A Entrada para o Jornalismo

Participação Sindical

O desafio de montar um curso Universitário

A Estrutura do pensamento Teórico da Comunicação

Teresa Halliday aponta como aspectos relevantes do trabalho de Beltrão

O reconhecimento Internacional: Atuação no Ciespal

A criação do ICINFORM

Revista Comunicações e Problemas

A Viagem para Brasília

O Primeiro Doutor em Comunicação no Brasil

Bibliografia comentada

 


Introdução

Este trabalho foi desenvolvido para o cumprimento de créditos para a disciplina Pensamento Comunicacional Latino Americano e tem como objetivo demostrar a importância de Luiz Beltrão para a produção de conhecimento no campo de Teoria da Comunicação no Brasil .

Luiz Beltrão é considerado um dos pioneiros da Escola Latino Americana de Comunicação - ELACOM - pelas suas características , "elaborações científicas e o hibridismo teórico e a superposição metodológica" conforme revela José Marques de Melo. Beltrão é multidisciplinar: jornalista, sindicalista, professor, pesquisador, diretor de curso universitários, autor de várias publicações , relações públicas.

A análise procurou dividir sua atuação em diversas fases de vida: estudantil , profissional ,acadêmica e sindical , sabendo que para cada época existiram variáveis dentro de um contexto, que em muitas das vezes não conseguiremos reproduzir.

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Os Primeiros Estudos

A vida estudantil de Luis Beltrão iniciou-se no Seminário de Olinda, em consequência da forte influência da religião católica em sua família. Foi no seminário que começou a estudar e a escrever: "Lembro-me, ainda, do seminarista tímido que eu fui aos doze anos, metido na minha batina negra com a faixa azul à cintura, visitando quem me parecia o temido prelado no seu palácio arquiepiscopal de Olinda. E verificando que, diante daqueles dos quais ele esperava serem seus pescadores de almas, toda aquela austeridade, todo aquele ar de grão senhor, toda aquela ironia, todos os traços fisionômicos que marcavam a sua diferença e a posição superior que desfrutava pelo oposto ocupado na hierarquia eclesial, desapareciam, quando, feita a genuflexão protocolar e osculado o seu anel, ele punha a mão no ombro do jovem e começava, como um parente mais idoso que vivesse distante dos seus, a indagar-lhe sobre os pais, a família, preferências, estudos, fatos da história, noções de geografia, se conhecíamos a sua Bahia, o São Francisco, o Sertão...(Benjamin, 1998,p.41)

Saindo do Seminário, seguiu para o Colégio Estadual de Pernambuco e durante a frequência do ginásio começou a participar ativamente dos Grêmios Literários que teve uma grande influência em sua vida literária:

O Centro funcionava no amplo salão do 1º andar, com suas cinco varandas, no mesmo aposento em que, ainda antes dos Nunes da Silva, o maestro Euclides da Fonseca recebia os amigos e proporcionava-lhes momentos de encantamento em concertos de piano, realizava suas sessões nos domingos e feriados. Durante a semana, o salão era utilizado pelos seus locatários, estudantes e improvisados professores: Francisco Julião Arruda de Paula, que depois se tornaria nome nacional pela sua liderança das Ligas Camponesas, e seus primos Sindulfo e José Hugo. Proferiram conferências e palestras no Humberto de Campos nomes do relevo de Mário Sette, Geraldo de Andrade e Gilberto Freyre; ali, tive como companheiros de aventuras intelectuais, entre muitos outros, Lêdo Ivo e seu irmão Floriano, Lauro Gusmão, Vanildo Bezerra Cavalcanti, Lauriston e Dustan Monteiro, Luiz Guedes da Luz, Adeth Leite, Eurico Costa, Jorge de Medeiros de Sousa, que teriam atuação destacada em diferentes setores da vida cultural de Pernambuco e do País; ali, também, repercutiam e faziam prosélitos as idéias políticas e filosóficas, alimentavam-se as aspirações por um Brasil maior, acompanhavam-se campanhas cívicas e movimentos de ação social como a cruzada nacional de educação, a criação de universidades populares."(Op. Cit. p 39)

Depois do ginásio, Luiz Beltrão seguiu para a Faculdade de Direito de Pernambuco.

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A Entrada para o Jornalismo

A vida profissional como jornalista começa em 15 de dezembro de 1936, no Diário de Pernambuco, onde começou a trabalhar como um "gancho" - como nós o chamavámos. A pessoa tinha um emprego e trabalhava no jornal. Muitas vezes trabalhava no jornal para melhorar o nome no emprego. No meu caso, por exemplo, eu tinha entrado no Instituto de Previdência dos Serviços do Estado de Pernambuco - (Op.Cit.p 60)

Entrou como revisor e em dois dias foi promovido para a arquivista de clichê. Algum tempo depois passou a tradutor de telegrama e depois para repórter. Durante 25 anos atuou no jornalismo de Pernambuco e passou pelo Diário da Manhã, onde chegou a redator-chefe com passagens pelas agências noticiosas France Press e Asa Press. , além de ser correspondente de agências jornalísticas nacionais e internacionais em Recife.Foi dentro de uma redação de jornal que surge o interesse pelo estudo e ensino do jornalismo:Um belo dia, o Aníbal Fernandes, diretor do jornal, apareceu na redação com um livro de cor cinza, francês, que se chamava Como fazer um jornal. Eu nunca tinha imaginado na minha vida que se pudesse aprender fazer Jornalismo de outro modo senão fazendo o próprio jornal. Este momento marcou demais a minha porque daí em diante eu passei a querer organizar uma biblioteca também. Eu comecei a perceber que era preciso estudar Jornalismo para poder fazer Jornalismo. Esse foi o princípio do meu interesse pelo ensino do Jornalismo.(Intercom n 57)

Beltrão verifica na prática as dificuldades encontradas pelos veículos com pessoas não qualificadas para o exercício do jornalismo começa a defender a "necessidade de formação específica de um indivíduo numa profissão de comunicação. Eu acho que o indivíduo deve ter curso superior, porque na universidade é onde se pesquisa, é onde se faz experiência.".(Benjamin, 1998, p.65)

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Participação Sindical

Três anos após ter começado sua carreira profissional , filiou-se à Associação de Imprensa de Pernambuco e onze anos depois é eleito presidente em três mandatos consecutivos, nos anos de 1951, 1953 e 1955. Ajudou na época a criar o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco.

 

O desafio de montar um curso Universitário

A campanha para a criação do curso superior de jornalismo da realização de cursos livres que defendia trouxe para Luiz beltrão um importante aliado : O Padre Aloysio Mosca de Carvalho, reitor da Universidade Católica, que era um poeta e colaborador assíduo dos jornais locais. No final do ano de 1960 a Universidade obteve autorização para o funcionamento do Curso de Jornalismo, como curso autônomo e realização de vestibular para início de funcionamento em 1961.Uma das principais barreiras contra a implantação do curso foi atitude corporativista da grande imprensa que se posicionou contra a sua criação e nomes importantes do jornalismo local, tanto cronistas profissionais, como articulistas colaboradores se pronunciavam, considerando que o "jornalismo era vocação" e que "jornalista se forjava no batente".

Além das batalhas externas, existiam as lutas internas para a implantação do curso que teve que superar falta de recursos ,"vaidades" e posicionamentos contrários de diversas autoridades universitárias. O novo coordenador, Luiz Beltrão, do Curso de Jornalismo teve pouca autonomia acadêmica e limitações administrativas e enfrentou falta recursos disponíveis . "A vivência de administração acadêmica, em uma universidade particular em implantação, mostrou a necessidade de construir canais próprios que permitissem a concretização de sonhos de vida universitária semelhante à que se praticava nos Estados Unidos e na Europa, a que Beltrão havia conhecido em suas viagens ". Beltrão trouxe para o ensino de comunicação no Brasil a experiência norte-americana da Escola de Missouri , da produção de um jornal experimental diário junto com os seus alunos, aliando a prática a teoria. É o experimentalismo dentro de sala.

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A Estrutura do pensamento Teórico da Comunicação

Beltrão começou a estruturar a teoria e de orientação de ensino ao Jornalismo, com o primeiro livro Iniciação do Jornalismo, surgido em 1959,, expressa o conhecimento do Jornalismo em profundidade e recebeu o Prêmio Orlando Dantas. O segundo, A Imprensa Informativa, publicado em 1964, e depois O Jornalismo Interpretativo e o Jornalismo Opinativo.Em O jornalismo Interpretativo retoma a prática de associar o ensino à pesquisa, voltando às técnicas de jornalismo comparado (análise morfológica e de conteúdo), para revelar os aspectos do jornalismo interpretativo que estava sendo praticado na ocasião. José Marques de Melo destaca : "Na atividade pioneira de Luiz Beltrão, talvez tenha tido tanat importância a sua preocupação de formar equipes de pesquisadores, quanto as pesquisadores, quanto as pesquisas realizadas sob a sua orientação. Ele compreendia, já naquela ocasião, que as tarefas de investigação científica não poderiam ser levadas a termo, sem contar com a participação de vários especialistas. Era uma visão em certo sentido avançada, considerando a tradição brasileira de pesquisadores isolados realizando sozinhos trabalhamos muitas vezes descomunais".

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Teresa Halliday aponta como aspectos relevantes do trabalho de Beltrão:

"1. A postura científica, ao escrever Iniciação à Filosofia Do Jornalismo, elaborando um estudo pioneiro da comunicação jornalística, ao definir conceitos e descrever varáveis.
2. A indução à prática da investigação científica, ao formar uma mentalidade voltada para a pesquisa da comunicação, através do treinamento de seus alunos e colabodores.
3. O uso da pesquisa para um melhor desempenho das profissões de Relações Públicas e de Jornalista.
4. A pesquisa dos meios informais de comunicação popular como base para uma teoria da Folkcomunicação".( Op. Cit.p 102)

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O reconhecimento Internacional: Atuação no Ciespal

Fundado em Quito, Equador, em 1959, mediante convênio assinado entre a UNESCO e o Governo do Equador, o CIESPAL (Centro Internacional de Estudiosos Superiores de Periodismo para a América Latina), dirigido por Jorge Fernandez, teve suas atividades iniciadas em 1960, com a realização do I Curso Internacional de Aperfeiçoamento em Ciências na Informação Coletiva.

Tinha por objetivo formar pessoal docente, organizar estágios de aperfeiçoamento para os professores de jornalismo e para os jornalista profissionais, bem como realizar estudo sobe os métodos de ensino e as técnicas de comunicação.

Em 1962 o Professor Gonzalo Córdoba realizou uma série de visitas aos cursos de jornalismo, em diferentes cidades da América Latina, para conhecer de perto a realidade e as propostas de funcionamento das instituições.

O trabalho desenvolvido por Luiz Beltrão empolgou o Prof. Córdoba, e da visita à Universidade Católica de Pernambuco resultou o convite para que ele ministrasse um dos módulos do 4º Curso Internacional de Aperfeiçoamento em Ciências da Informação.

Em 1963, antes de concluir a implantação da sua proposta no Recife, Luiz Beltrão ministrou a disciplina Metodos de la enseñanza de la tecnica del periodismo, tendo a direção do CIESPAL providenciando e imediata edição em livro, das aulas proferidas.

Além de projeção internacional, na área do ensino do jornalismo, o contato com o contacto com o CIESPAL viabilizou a indicação de aluno bolsistas para os cursos seguintes, abrindo a perspectiva para a formação de pesquisadores. Luiz Beltrão indicou não apenas professores do curso da Universidade Católica, como também de outros estados, de cujos projetos acadêmicos ele havia participado.

Dessa forma contribuiu para que a proposta do CIESPAL fosse mais rapidamente absorvida pelos cursos de jornalismo, especialmente os do Nordeste.

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A criação do ICINFORM

O Instituto de Ciências da Informação (ICINFORM) foi instalado em 13 de dezembro de 1963, na Universidade Católica de Pernambuco com a finalidade de oferecer um suporte ao Curso de Jornalismo de Pernambuco e também estabelecer uma estratégia de aproximação com os órgãos da grande impresa local que continuavam a resistir à formação universitária de jornalista. Criado por iniciativa do Professor Luiz Beltrão, depois do seu trabalho no CIESPAL , onde conheceu novas tendências dos estudos de jornalismo, em nível internacional, que se ampliavam para a análise do fenômeno mais abrangente da comunicação de massa. O Instituto reunia estudiosos e interessados na área, proporcionando a oportunidade de discutir o fenômeno da comunicação a partir de perspectivas interdisciplinares e participar de atividades de pesquisa e extensão.

Além do pioneirismo, o ICINFORM representava uma proposta ousada e inovadora para a época. O INCIFORM oferecia bolsas-prêmio para os alunos de melhor desempenho acadêmico e prêmios para reportagens, conseguidas por causa do prestígio de Luiz Beltrão junto a grandes empresas, entre elas o Moinho Recife e a SANBRA.

Nos moldes do Curso de Aperfeiçoamento do CIESPAL e dos cursos de verão das universidades americanas e européias, foi promovido pelo ICINFORM entre 16 de janeiro e 4 de março, no Recife, o I Curso de Ciências da Informação, tendo por finalidade: proporcionar a jornalistas, bacharéis e estudantes de jornalismo, ciências sociais, políticas e economia, publicitários, especialistas em Relações Públicas, em audio-visuais e outros interessados, com nível de educação média ou superior, melhores conhecimentos sobre:
a) - teoria e prática de pesquisa social e comunicação coletiva;
b) - atualidade e importância dos veículos jornalísticos no Brasil;
c) - desenvolvimento sócio-econômico do Nordeste brasileiro e
d) - problemas internacionais da atualidade relacionados com a região e o país.

O curso se desenvolveu através de três tipos de atividades:
a) série de conferências, a cargo de professores especialmente convidados de diversos centros universitários do país;
b) - seminários;
c) - trabalhos de campo, com excursões e visitas de observações e estudo a serviços governamentais, instituições culturais e assistenciais, entidades de economia mista, parque industrial e pontos históricos e pitorescos do Recife e do Estado, além de participação e assistência a espetáculos artísticos, festas folclóricas e carnavalesca ocorridas no período de duração do Curso.

Enquanto amplia suas bases locais, o INCIFORM mantém contatos com universidades e centros de estudos estrangeiros, tais como: Universidade de Concepción (Chile), Católica do Peru (Lima), Vera Cruz (México) e Guayaquil (Equador). Estabelece um intercâmbio com instituições de ensino do país: Escola de Jornalismo Cásper Libero, Fundação José Augusto (Natal - RN), Universidade de Jiuz de Fora (MG), Curso de Jornalismo da PUC do Rio de Janeiro, Universidade de Minas Gerais, Curso de Jornalismo do Instituto Nossa Senhora de Lourdes (João Pessoa - PB). Desse contatos permanentes, surgem articulações acadêmicas que repercutem no curso de Jornalismo e fortalecem politicamente o INCIFORM. (Comunicações & Problemas, v. 1, n 1, p. 8 ).

Na sua estratégia de ampliação e reconhecimento, estabelece laços de cooperação com a CIESPAL, na época um recomendado centro de estudos em comunicação por onde circulavam catedráticos de renome dos principais centros de investigação da Europa, Estados Unidos e América Latina. Vários docentes vinculados ao INCIFORM foram enviados aos cursos de aperfeiçoamento ministrados no CIESPAL. Nestes cursos discutiam-se estratégias de desenvolvimento econômico, ética, pedagogia do ensino, função social do jornalismo, sociologia da informação, metodologias de investigação mas sobretudo tratava-se a comunicação como ferramenta importante para a promoção do desenvolvimento e se aprofundava a discussão sobre a participação popular nesse processo. As modernas técnicas de comunicação coletiva seriam instrumentos a serviço desse projeto participativo.

Segundo Marques de Melo, o INCINFORM constituiu a primeira entidade, dentro da estrutura universitária brasileira, a se dedicar aos problemas de comunicação em termos mais amplos, não limitados ao Jornalismo. Seu papel renovador se fez sentir não apenas no Nordeste (onde passou a orientar novas iniciativas de ensino Jornalismo surgidas na Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará), mas em todo o país, realizando pesquisas, dinamizando a metodologia de ensino das disciplinas. Surge como veículo para sua divulgação a revista Comunicações & Problemas, considerada a primeira revista acadêmica de comunicação editada no Brasil. O primeiro número é publicado em março de 1965. A revista teve 12 edições e saiu de circulação em 1969.

A transferência do Prof. Marques de Melo para São Paulo e ainda os problemas internos do Curso de Jornalismo favorecem o enfraquecimento do ICINFORM, apesar da criação do ICINFORM - seção Brasília. Centrado no prestígio e no trabalho das pessoas que o levavam adiante, o ICINFORM não conseguiu sobreviver às ausências.

O mais importante legado do INCIFORM na área de pesquisa está no efeito multiplicador do seu investimento. Sua atuação fundamental para formar uma geração de pesquisadores. Investigando diferentes aspectos da comunicação e distribuídos por várias Instituições de Ensino Superior, os discípulos de Beltrão ampliaram os propósitos do mestre e influenciaram diretamente a formação de novas gerações de pesquisadores.

Entre outros, José Marques de Melo, Roberto Benjamin, Tereza Lúcia Halliday, Torquato Gaudêncio e Zita Andrade Lima foram fundamentais para a implantação do espírito investigativo e para a consolidação da pesquisa em comunicação no Brasil.

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Revista Comunicações e Problemas

A revista Comunicações & Problemas é considerada a primeira revista acadêmica de comunicação editada no Brasil e representa uma estratégia de divulgação do Instituto entre o meio acadêmico e uma via de integração com a comunidade local, um espaço de intercâmbio e registro de produções acadêmicas e jornalísticas. A sua estrutura e o seu projeto gráfico foram inspirados na revista norte-americana Journalismo Quarterly. Trazia uma breve indicação sobre o autor do artigo e um resumo em inglês, preparados pela editoria. Entre os artigos eram veiculadas pequenas notícias sobre inovações tecnológicas, ou sobre estudos realizados no Exterior. Mantinha uma seção para o registro das ocorrências principais verificadas nas pequenas empresas pernambucanas de comunicação, tais como substituição de articulistas, artigos e reportagens sobre temas relevantes da comunicação ou de problemas da região, falecimentos de jornalistas e outros.Nomes importantes na área do ensino e jornalistas de renome participaram desse empreendimento.

O primeiro número publicado em março de 1965 traz uma ampla cobertura do Curso de Jornalismo da Universidade Católica de Pernambuco, registro de pesquisas realizadas pelo INCIFORM, depoimentos, eventos jornalísticos e alguns artigos sobre comunicação. A revista tem uma excelente receptividade e o editorial do segundo número expressa sua euforia: "A receptividade aludida não está, apenas, nas cartas recebidas, nas contribuições aos debates dos temas focalizados na primeira edição, na publicação de artigos na imprensa local e nacional; está igualmente na elevação surpreendente do número de assinantes, que já à casa dos 300, e na espontânea cooperação de firmas comerciais e industriais que trazem a sua propaganda a veículo especializado, com o campo limitado para temas publicitários". (Comunicações & Problemas, 1965, v.1, n.2, p. 73).

No número dois além das secções permanentes _ Depoimentos, Eventos jornalístico, Histórias e Conceitos, Problemas Regionais _ são acrescentadas: Atividades do INCIFORM, Temas de Comunicação Coletiva na Imprensa Pernambucana e Resenhas Bibliográficas. Além do pioneirismo, a revista uma importante fonte histórica onde encontram-se registradas as discussões da época, informações que podem subsidiar pesquisas em áreas específicas e um conjunto de informações valiosas condensadas pelo Departamento de Documentação e Pesquisa do INCIFORM.

Ao se transferir para Brasília, Luiz Beltrão optou pela Continuação da edição da revista, ao invés de editar outra. Com sua ausência, sabia ele das dificuldades que o vice-presidente do ICINFORM enfrentaria para levar adiante a revista. Assim, engendrou um convênio entre o ICINFORM e a Universidade de Brasília, para continuidade do periódico, que teve 12 edições, deixando de circular em 1969.

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A Viagem para Brasília

A sua transferência para a Universidade de Brasília( UnB) foi em 1965, depois que 265 professores foram demitidos por razões políticas. Beltrão conta que o secretário de Imprensa do governo Castelo Branco, José Vamberto Assunção, seu amigo, o convidou para reorganizar a Faculdade de Comunicação de Massa da Universidade de Brasília, mas estipulou uma condição " não se falar em comunicação de massa porque era subversivo". O convite foi uma oportunidade, na visão de Beltrão, para ampliar as bases de seu trabalho. "Lá eu verifiquei que o plano da Faculdade de Comunicação de Massa feito por Pompeu de Souza era realmente muito bom." Beltrão apresentou ao Reitor Laerte Ramos de Carvalho uma exposição de motivos propondo a reorganização da Faculdade de Comunicação e a proposta enfrentou grandes dificuldades por parte dos docentes, que não aceitavam a indicação de um coordenador imposto pela Reitoria. Além disso era difícil encontrar professores com titulação disponível em Brasília e a distância ainda era um fator negativo para transferência de profissionais.Luiz Beltrão permaneceu como diretor da Faculdade de Comunicação da UnB por três períodos letivos, cerca de 18 meses.

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O Primeiro Doutor em Comunicação no Brasil

Luis Beltrão tornou-se em 26 de Junho de 1967 o primeiro Doutor em Comunicação Social no Brasil ao defender na Universidade de Brasília a tese sobre Flokcomunicação.

Seu interesse pelo tema já tinha sido percebido há muitos anos: Durante esse tempo eu militei muito em congresso jornalísticos e congresso promovidos pela União Brasileira de Escritores. Em 1950 eu tinha estreado nas estrelas com a publicação do meu romance chamado Os Senhores do Mundo. Nesta época eu era repórter, não policial, mas de informações gerais. Eu convivia muito com o povo das chamadas classes subalternas e Os Senhores do Mundo eram aquelas pessoas que viviam marginalizadas da sociedade e que eram de fato marginais. O livro se ocupa dessas pessoas. O romance regional era o estilo da época. Mais do que regional, local. Foi editado pelo meu jornal em 1950.(Intercom n 57)

A folkcomunicação é, por natureza e estrutura, um processo artesanal e horizontal, semelhante em essência aos tipos de comunicação interpessoal já que suas mensagens são elaboradas, codificadas e transmitidas em linguagens e canais familiares à audiência, por sua vez conhecida psicológicamente e vivencialmente pelo comunicador, ainda que dispersa.

Exemplo desse processo pode ser detectado com facilidade na produção de mensagens através de literatura de cordel. O comunicador de folk é um dos incontáveis assistentes da película cinematográfica Farrapo Humano, produzido em Hollywood, que focalizou alcoolismo. Como sua audiência não frequenta cinema, cuja linguagem pelo menos não lhe é familiar, ele _ poeta do povo _ transforma a história na trama de um folheto em verso, travestindo os personagens em gentes do seu mundo e às vezes editando-os em tipografias e prelos manuais e, não raro, com colaboração de xilogravadores populares ainda existente no mundo do cordel brasileiro.

O comunicador de folk tem a personalidade características dos líderes de opinião identificada (e nele, talvez, ainda mais aguçada) nos seus colegas do sistema de comunicação social: 1) prestígio na comunidade, independentemente da posição social ou da situação econômica, graças ao nível de conhecimentos que possui sobre de terminado(s) temas(s) e à aguda percepção de seus reflexos na vida e costumes de sua gente; 2) exposição às mensagens do sistema de comunicação social, participando da audiência dos meios de massa, mas submetendo os conteúdos ao crivo de idéias, princípios e normas do seu grupo: 3) frequentemente contato com fontes externas autorizadas de informação, com as quais discute ou complementa as informações recolhidas; 4) mobilidade, pondo-se em contato com diferentes grupos, com os quais intercambia conhecimentos e recolhe preciosos subsídios; e, finalmente, 5) arraigadas da convicção filosóficas, à base de suas crenças e costumes tradicionais, da cultura do grupo a que pertence, às quais submete idéias e inovações antes de acatá-las e difundi-las, com vistas a alterações que considere benéficas ao procedimento existencial de sua comunidade.

Enquanto no sistema de comunicação social é muito frequente a coincidência entre os líderes e as autoridades políticas, científicas, artísticas ou econômicas, na folkcomnunicação há maior elasticidade em sua identificação: os líderes agentes-comunicadores de folk, aparentemente, nem sempre são "autoridades" reconhecidas, mas possuem uma espécie de carisma, atraindo ouvintes, leitores, admiradores e seguidores, e, em geral, alcançando a posição de conselheiros ou orientadores da audiência sem uma consciência integral do papel que desempenham.(Revista comunicação & Sociedade,tarsitano,p.167- 176)

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BIBLIOGRAFIA COMENTADA

Os senhores do mundo - romance. Recife: Folha da manhã.1950. 175 p. Como afirma o próprio autor, é "o romance dos que nada possuem mas sempre tem para dar"; da gente pobre do Recife, ambientado entre a Praça do Mercado de São José e os mocambos então existentes na área de mangue do Cabanga.

Anais de jornalismo (ensaio). Recife, 1951.

Itinerário da China [ um repórter visita o milenar e novo país do Extremo Oriente. Recife. 1959. 127 p. il. O livro reúne reportagens e comentários publicados no Diário da Noite, Folha do Povo, Jornal do Comércio e Revista do Nordeste, do Recife, no período set-dez de 19588, relativos à viagem do autor à China, incluindo notas sobre sua permanência em Bucareste, Praga e Moscou. As ilustrações são reproduções das découpures de papier, composições de arte popular em recorte de papel , típicas da China. O autor manifesta o seu entusiasmo pelas medidas adotadas nas reformas econômicas e sociais implantadas na China em decorrência do Regime comunista, que ele pôde observar como repórter na sua visita de quase um mês. Trata-se da única coletânia em livro da produção jornalística de Luiz Beltrão.

Iniciação à filosofia do jornalismo. 1a. ed. Prefácio de Waldemar Lopes. Rio de Janeiro: Agir, 1960.229 p. A primeira parte apresenta as manifestações do jornalismo a partir de uma abordagem histórica. Jornalismo escrito, rádio e jornalismo oral, o desenho e o jornalismo por imagem. A segunda parte é dedicada aos caracteres do jornalismo (público, editor, técnico, jornalista). A quarta parte aborda os problemas da liberdade e da responsabilidade. A obra é resultado de observações em viagens ao exterior como líder de classe, aproveitamento e ampliação das teses de congresso que vinha desenvolvendo a nível nacional e internacional e na rica bibliografia levantada (então, praticamente desconhecida no Brasil). Mereceu o Prêmio Orlando Dantas - 1959 e a 2a. edição é o resultado do seu conhecimento como uma das obras consideradas "clássico do jornalismo".

Reestruturação de emergência para os cursos de Jornalismo. Indicador dos profissionais de imprensa. a. V. n. 9. Rio de Janeiro:1960. p. 15-51. Comunicação apresentada à IX Conferência Nacional de Jornalismo, realizada em Manaus, em jul./1960. Faz crítica ao currículo e à estrutura vigente nos cursos de jornalismo.

Quilômetro zero - contos. Recife: Imprensa Oficial, 1961. Narrativas ficcionais enfocando a vida da população pobre que habitava a praia do Chupa (hoje, proximidades do Cabanga Iate clube) e circulava nas cercanias do mercado de São José. Recebeu o prêmio da Secretaria de Educação e Cultura, de 1958.

Métodos de ensenanza de la tecnica del periodismo. Quito (Ecuador): CIESPAL. 1963 169 p. Reúne as conferências preferidas pelo autor no IV Curso Internacional do CIESPAL, 1963. Apresenta e busca teorizar a sua experiência como professor de Técnica de Jornal, na Universidade Católica de Pernambuco. A obra não tem edição brasileira.

Técnica de jornal - I parte - Teoria do Jornalismo. O jornal e sua indústria. Recife: ICINFORM, 1964.30 p. Apostila destinada aos alunos do curso de Jornalismo, da Universidade Católica de Pernambuco.

Discurso de abertura do I Curso Nacional de Ciências da Informação. Recife: ICINFORM//UCP. 1965 .17 p.

Aspectos básicosda problemática do jornal interioriano no Nordeste. Revista Comunicações & problemas. v.II, n. 1, mar. 1966, p. 5-22. Texto de conferência proferida em Caruaru-PE, em 1962, durante o I seminário de Jornalistas do interior.

Periodismo en el Paraguay. Revista Comunicações & problemas. v. II, n.3, nov.1966,p. 192-201 [ organizador ]. O artigo reúne contribuições de alunos paraguaios do curso ministrado por Luiz Beltrão, na Universidade de Assunción, sobre a origem e desenvolvimento da comunicação social naquele país.

Folkcomunicação - um estudo dos agentes e dos meios populares de informação de fatos e expressão de idéias. Tese de doutoramento. Brasília: Universidade de Brasília. 1967.184 p. Tese apresentada em concurso ao doutoramento.

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